O Grupo e a Expansão Modernista O Movimento Modernista · Capítulo 2 de 7
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O Grupo e a Expansão Modernista

Quem teve a idéia da Semana de Arte Moderna ? Por mim não sei quem foi, nunca sube, só posso garantir que não fui eu. 0 movimento, se alastrando aos poucos, já se tornara uma espécie de escândalo público permanente. Já tínha mos lido nossos versos no Rio de Janeiro; e numa leitura principal, em casa de Ronald de Carvalho, onde também esta(1) Depois eu sistematizaria êste processo de separação nítida entre o estado de poesia e o es tado de arte, mesmo na composição dos meus poemas mais “ dirigidos” . As lendas nacionais, por exemplo, o abrasileiramento linguístico de com bate. Escolhido um tema, por meio das excitações psíquicas e fisiológicas sabidas, preparar e espe rar a chegada do estado de poesia. Si êste chega (quantas vezes nunca ch eg ou ...), escrever sem coação de espécie alguma tudo o que me chega até a mão — a “ sinceridade” do indivíduo. E só em seguida, na calma, o trabalho penoso e lento da arte — a “ sinceridade” da obra-de-arte, coletiva e funcional, mil vezes mais importante que o in divíduo.

vam Ribeiro Couto e Renato Almeida, numa atmosfera de simpatia, ‘ ‘ Paulicéia Desvairada” obtinha o consentimento de Manuel Bandeira, que em 1919 ensaiara os seus primeiros versos-livres, no ‘ ‘ Car naval” . E eis que Graça Aranha, célebre, trazendo da Europa a sua “ Estética da Vida” , vai a São Paulo, e procura nos conhecer e agrupar em torno da sua filo sofia. Nós nos ríamos um bocado da “ Estética da Vida” que ainda atacava certos modernos europeus da nossa ad miração, mas aderimos francamente ao mestre. E alguém lançou a idéia de se fazer uma semana de arte moderna, com exposição de artes plásticas, concertos, leituras de livros e conferências explica tivas. Foi o próprio Graça Aranha ? foi Di Cavalcanti ? . . . Porem o que importa era poder realizar essa idéia, alem de au daciosa, dispendiosíssima. E o fator verdadeiro da Semana de Arte Moderna foi Paulo Prado. E só mesmo uma figura

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como ele e uma cidade grande mas pro vinciana como São Paulo, poderiam fazer o movimento modernista e objetivá-lo na Semana. Houve tempo em que se cuidou de transplantar para o Rio as raizes do mo vimento, devido às manifestações impres sionistas e principalmente post-simbolistas que existiam então na capital da República. Existiam, é inegável, princi palmente nos que mais tarde, sempre mais cuidadosos de equilíbrio e espírito construtivo, formaram o grupo da re vista ‘ *^Festa” . Em São Paulo, esse am biente estético só fermentava em Gui lherme de Almeida e num Di Cavalcanti pastelista, ‘ ‘menestrel dos tons velados” como o apelidei numa dedicatória esdrú xula. Mas eu creio ser um engano esse evolucionismo a todo transe, que lembra nomes de um Nestor Vitor ou Adelino Magalhães, como elos precursores. En tão seria mais lógico evocar Manuel Ban-

deira, com o seu “ Carnaval” . Mas si a soubéramos deste por um acaso de livraT ria e o admirávamos, dos outros, nós, na I província, ignorávamos até os nomes, porque os interesses imperialistas da ): Corte não eram nos mandar “ humilha% dos ou luminosos” , mas a grande camefl lote acadêmica, sorriso da sociedade, util )i de provinciano gostar. Não. O modernismo, no Brasil, foi í uma ruptura, foi um abandono de prin) cípios e de técnicas consequentes, foi I uma revolta contra o que era a Inteligência nacional. E’ muito mais exato ima ginar que o estado de guerra da Europa tivesse preparado em nós um espírito de guerra, eminentemente destruidor. E as modas que revestiram este espírito fo ram, de início, diretamente importadas da Europa. Quanto a dizer que éramos, os de São Paulo, uns antinacionalistas, uns antitradicionalistas europeizados, creio ser falta de subtileza crítica. E’ es-

quecer todo o movimento regionalista aberto justamente em São Paulo e imediatamente antes, pela “ Revista do Brasil” ; é esquecer todo o movimento editorial de Monteiro Lobato; é esquecer a arquitetura e até o urbanismo (Dubugras) neo-colonial, nascidos em São Paulo. Desta ética estávamos impreg nados. Menotti dei Picchia nos dera o “ Juca Mulato” , estudavamos a arte tra dicional brasileira e sobre ela escrevía mos; e canta regionalmente a cidade ma terna o primeiro livro do movimento. Mas o espírito modernista e as suas modas foram diretamente importados da Europa. Ora São Paulo estava muito mais “ ao par” que o Rio de Janeiro. E, social mente falando, o modernismo só podia mesmo ser importado por São Paulo e arrebentar na província. Havia uma di ferença grande, já agora menos sensivel, entre Rio e São Paulo. O Rio era muito

mais internacional, como norma de vida exterior. Está claro: porto de mar e ca pital do país, o Rio possue um internacionalismo ingênito. São Paulo era espiritualmente muito mais moderna porem, fruto necessário da economia do café e do industrialismo consequente. Caipira de serra-acima, conservando até agora um espírito provinciano servil, bem denun ciado pela sua política, São Paulo estava ao mesmo tempo, pela sua atualidade co mercial e sua industrialização, em con tato mais espiritual e mais técnico com a atualidade do m undo. E’ mesmo de assombrar como o Rio mantem, dentro da sua malícia vibratil de cidade internacional, uma espécie de ruralismo, um caracter parado tradicional muito maiores que São Paulo. O Rio é dessas cidades em que não só permanece indissolúvel o “ exotismo” nacional (o que aliás é prova de vitalidade do seu ca racter), mas a interpenetração do rural

com o urbano. Coisa já impossível de se perceber em São Paulo. Como Belem, o Recife, a Cidade do Salvador: o Rio ainda é uma cidade folclórica. Em São Paulo o exotismo folclórico não fre quenta a rua Quinze, que nem os sambas que nascem nas caixas de fósforo do Bar Nacional. Ora no Rio malicioso, uma exposi ção como a de Anita Malfatti podia dar reações publicitárias, mas ninguém se deixava levar. Na São Paulo sem malí cia, criou uma religião. Com seus Neros também. . . O artigo “ contra” do pintor Monteiro Lobato, embora fosse um chor rilho de tolices, sacudiu uma população, modificou uma vida. Junto disso, o movimento moder nista era nitidamente aristocrático. Pelo seu caracter de jogo arriscado, pelo seu espírito aventureiro ao extremo, pelo seu internacionalismo modernista, pelo seu nacionalismo embrabecido, pela sua gra-

tuidade antipopular, pelo seu dogmatis CI mo prepotente, era uma aristocracia do >V( espírito. Bem natural, pois, que a alta e >/ a pequena burguesia o temessem. Paulo tf Prado, ao mesmo tempo que um dos ex poentes da aristocracia intelectual pau lista, era uma das figuras principais da nossa aristocracia tradicional. Não da aristocracia improvisada do Império, mas da outra mais antiga, justificada no trabalho secular da terra e oriunda de qualquer salteador europeu, que o crité rio monárquico do Deus-Rei já amance bara com a genealogia. E foi por tudo isto que Paulo Prado poude medir bem o que havia de aventureiro e de exercício do perigo, no movimento, e arriscar a sua responsabilidade intelectual e tradi cional na aventura. Uma coisa dessas seria impossivel no Rio, onde não existe aristocracia tra dicional, mas apenas alta burguesia ri quíssima. E esta não podia encampar

um movimento que lhe destruía o espí rito conservador e conformista. A bur- ■ guesia nunca soube perder, e isso é que 1 1 a perde. Si Paulo Prado, com a sua au toridade intelectual e tradicional, tomou i a peito a realização da Semana, abriu a f lista das contribuições e arrastou atrás de ^ si os seus pares aristocratas e mais alguns que a sua figura dominava, a burguesia i protestou e vaiou. Tanto a burguesia de ei classe como a do espírito. E foi no meio ( da mais tremenda assuada, dos maiores h insultos, que a Semana de Arte Moderna í abriu a segunda fase do movimento mo- -l dernista, o período realmente destruidor, j Porque na verdade, o período. . . ! heroico, fôra esse anterior, iniciado com í a exposição de pintura de Anita Malfatti t e terminado na ‘ ‘festa” da Semana de $ Arte Moderna. Durante essa meia-dúzia i de anos fomos realmente puros e livres, | desinteressados, vivendo numa união ilu- nj minada e sentimental das mais sublimes.

Isolados do mundo ambiente, caçoados, evitados, achincalhados, malditos, nin Rí guém não pode imaginar o delírio ingê nuo de grandeza e convencimento pessoal com que reagimos. O estado de exalta ção em que vivíamos era incontrolavel. Qualquer página de qualquer um de nós jogava os outros a comoçóes prodigiosas, mas aquilo era genial ! E eram aquelas fugas desabaladas dentro da noite, na Cadillac verde de Os valdo de Andrade, a meu ver a figura mais característica e dinâmica do movi j" mento, para ir ler as nossas obras-primas em Santos, no Alto da Serra, na Ilha das Palmas. . . E os encontros à tardinha, em que ficávamos em exposição diante de algum raríssimo admirador, na redação de ‘ Tapei e Tinta” . . . E a falange en grossando com Sergio Milliet e Rubens Borba de Morais ,chegados sabidíssimos da Europa. . . E nós tocávamos com res peito religioso, esses peregrinos confor-

taveis que tinham visto Picasso e con versado com Romain Rolland. . . E a adesão, no Rio, de um Álvaro Moreyra, de um Ronald de Carvalho. . . E o des cobrimento assombrado de que existiam em São Paulo muitos quadros de Lasar Segall, já muito admirado através das re vistas alemãs. . . Tudo gênios, tudo obras-primas geniais. . . Apenas Sergiò Milliet punha um certo malestar no in cêndio, com a sua serenidade equilibra da. . . E o filósofo da malta. Couto de Barros, pingando ilhas de conciência em nós, quando no meio da discussão, em geral limitada a batebocas de afirmações peremptórias, perguntava mansinho : Mas qual é o critério que você tem da palavra ‘ ‘essencial” ? ou: Mas qual e o conceito que voce tem o “ belo horrivel” ? . . . Éramos uns puros. Mesmo cerca dos de repulsa quotidiana, a saude men tal de quase todos nós, nos impedia qual-

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quer cultivo da d o r. Nisso talvez as teorias futuristas tivessem uma influên cia única e benéfica sobre n ós. Ninguém pensava em sacrifício, ninguém bancava o incompreendido, nenhum se imaginava precursor nem mártir: éramos uma ar rancada de heróis convencidos. E muito saudaveis. A Semana de Arte Moderna, ao mesmo tempo que coroamento lógico dessa arrancada gloriosamente vivida (desculpem, mas, éramos gloriosos de antemão. . . ) , a Semana de Arte Moder na dava um primeiro golpe na pureza do nosso aristocracismo espiritual. Consa grado o movimento pela aristocracia paulista, si ainda sofreriamos algum tempo ataques por vezes cruéis, a no breza regional nos dava mão forte e . . . nos dissolvia nos favores da vida. Está claro que não agia de caso pensado, e si nos dissolvia era pela própria natureza e o seu estado de decadência. Numa fase

em que ela não tinha mais nenhuma rea lidade vital, como certos reis de agora, a nohreza rural paulista só podia nos trans mitir a sua gratuidade. Principiou-se o movimento dos salóes. E vivemos uns oito anos, até perto de 1930, na maior orgia intelectual que a história artística do país registra. Mas na intriga hurguesa escandali zadíssima, a nossa “ orgia” não era apenas intelectual. . . O que não disseram, o que não se contou das nossas festas. Cham panha com eter, vícios inventadíssimos, as almofadas viraram “ coxins” , criaram toda uma semântica do maldizer. . . No entanto, quando não foram hailes públi cos (que foram o que são hailes desen voltos de alta sociedade), as nossas festas dos salóes modernistas eram as mais ino centes brincadeiras de artistas que se pode imaginar. Havia a reunião das terças, à noite, na rua Lopes Chaves. Primeira em data.

essa reunião semanal continha exclusiva mente artistas e precedeu mesmo a Se mana dc Arte Moderna. Soh o ponto-devista intelectual foi o mais util dos sa lões, si é que se podia chamar salão àquilo. Às vezes doze, até quinze artis tas, se reuniam no estúdio acanhado onde se comia doces tradicionais brasileiros e se hebia um alcolzinho econômico. A arte moderna era assunto obrigatório e o intelectualismo tão intransigente e deshumano que chegou mesmo a ser proi bido falar mal da vida alheia ! As dis cussões alcançavam transes agudos, o calor era tamanho que um ou outro sen tava nas janelas (não havia assento pra todos) e assim mais elevado dominava pela altura, já que não dominava pela voz nem o argumento. E aquele raro re tardatário da alvorada parava defronte, na esperança de alguma briga por gosar. Havia o salão da avenida Higienópolis que era o mais selecionado. Tinha

por pretexto o almoço dominical, mara vilha de comida lusobrasileira. Ainda aí a conversa era estritamente intelectual, mas variava mais e se alargava. Paulo Prado com o seu pessimismo fecundo e o seu realismo, convertia sempre o as sunto das livres elocubrações artísticas aos problemas da realidade brasileira. Foi o salão que durou mais tempo e se dissolveu de maneira bem malestarenta. O seu chefe, tornando-se, por sucessão, o patriarca da família Prado, a casa foi in vadida, mesmo aos domingos, por um público da alta que não podia compar tilhar do rojão dos nossos assuntos. E a conversa se manchava de pôquer, casos de sociedade, corridas de cavalo, dinhei ro. Os intelectuais, vencidos, foram se arretirando. E houve o salão da rua Duque de Caxias, que foi o maior, o mais verdadei ramente salão. As reuniões semanais eram à tarde, também às terças-feiras. E

isso foi a causa das reuniões noturnas do mesmo dia irem esmorecendo na rua Lopes Chaves. A sociedade da rua Du que de Caxias era mais numerosa e va riegada . Só em certas festas especiais, no salão moderno, construido nos jardins do solar e decorado por Lasar Segall, o grupo se tornava mais coeso. Também aí o culto da tradição era firme, dentro do maior modernismo. A cozinha, de cunho afrobrasileiro, aparecia em almo ços e jantares perfeitíssimos de compo sição. E conto entre as minhas maiores venturas admirar essa mulher excepcio nal que foi Dona Olivia Guedes Pen teado. A sua discreção, o tato e a au toridade prodigiosos com que ela soube dirigir, manter, corrigir essa multidão heterogênea que se chegava a ela, atraída pelo seu prestígio, artistas, políticos, ri caços, cabotinos, foi incomparável. 0 seu salão, que também durou vários anos, teve como elemento principal de dissolu-

gao a efervescência que estava preparan do 1930. A fundação do Partido De mocrático, o ânimo político eruptivo que se apoderara de muitos intelectuais, sacudindo-os para os extremismos de di reita ou esquerda, baixara um malestar sobre as reuniões. Os democráticos fo ram se afastando. Por outro lado, o integralismo encontrava algumas simpatias entre as pessoas da roda: e ainda estava muito sem vício, muito desinteressado, pra aceitar acomodações. Sem nenhuma publicidade, mas com firmeza. Dona Oli via Guedes Penteado soube terminar aos poucos o seu salão modernista. O último em data desses salões pau listas foi o da alameda Barão de Piraci caba, congregado em torno da pintora Tarsila. Não tinba dia fixo, mas as festas eram quase semanais. Durou pouco. E não teve jamais o encanto das reuniões que fazíamos antes, quatro ou cinco ar tistas, no antigo ateliê da admiravel pin-

tora. Isto foi pouco depois da Semana, quando fixada na compreensão da bur guesia, a existência de uma onda revolu cionária, ela principiou nos castigando com a perda de alguns empregos. Alguns estávamos quase literalmente sem tra balho . Então iamos para o ateliê da pin tora, brincar de arte, dias inteiros. Mas dos três salões aristocráticos, Tarsila con seguiu dar ao dela uma significação de maior independência, de comodidade. Nos outros dois, por maior que fosse o liberalismo dos que os dirigiam, bavia tal imponência de riqueza e tradiçao no am biente, que não era possivel nunca evitar um tal ou qual constrangimento. No de Tarsila jamais sentimos isso. 0 mais gos toso dos nossos salões aristocráticos. E foi da proteção desses salões que se alastrou pelo Brasil o espírito destrui dor do movimento modernista. Isto é, o seu sentido verdadeiramente específico. Porque, embora lançando inúmeros pro-

cessos e idéias novas, o movimento mo dernista foi essencialmente destruidor. Até destruidor de nós mesmos, porque o pragmatismo das pesquisas sempre en fraqueceu a liberdade da criação. Essa a verdade verdadeira. Enquanto nós, os modernistas de São Paulo, tínhamos in contestavelmente uma repercussão na cional, éramos os bodes espiatórios dos passadistas, mas ao mesmo tempo o Senhor do Bomfim dos novos do país todo, os outros modernos de então, que já pretendiam construir, formavam nú cleos respeitáveis, não tem dúvida, mas de existência limitada e sem verdadeira mente nenhum sentido temporâneo. Assim Plinio Salgado que, vivendo em São Paulo, era posto dé parte e nunca pisou os salões. Graça Aranha também, que sonhava construir, se atrapalhava muito entre nós; e nos assombrava a in compreensão ingênua com que a ‘ ‘gente séria” do grupo de “ Festa” , tomava a

sério as nossas blagues e arremetia contra nós. Não. 0 nosso sentido era especifi camente destruidor. A aristocracia tradi cional nos deu mão forte, pondo em evidência mais essa geminação de destino — também ela já então autofagicamente destruidora, por não ter mais uma signi ficação legitimavel. Quanto aos aristôs do dinheiro, esses nos odiavam no prin cípio e sempre nos olharam com des confiança . Nenhum salão de ricaço tive mos, nenhum milionário estrangeiro nos acolheu. Os italianos, alemães, os israe litas se faziam de mais guardadores do bom-senso nacional que Prados e Pentea dos e Amarais. . . Mas nós estávamos longe, arrebata dos pelos ventos da destruição. E a fa zíamos ou preparávamos especialmente pela festa, de que a Semana de Arte Mo derna fôra a primeira. Todo esse tempo destruidor do movimento modernista foi pra nós tempo de festa, de cultivo imode-

rado do prazer. E si tamanha festança diminuiu por certo nossa capacidade de produção e serenidade criadora, ninguém pode imaginar como nos divertimos. Sa lões, festivais, bailes célebres, semanas passadas em grupo nas fazendas opulen tas, semanas-santas pelas cidades velhas de Minas, viagens pelo Amazonas, pelo Nordeste, chegadas à Baía, passeios cons tantes ao passado paulista, Soracaba, Parnaíba, Itú. . . Era ainda o caso do baile sobre os vulcões. . . Doutrinários, na ebriez de mil e uma teorias, salvando o Brasil, inventando o mundo, na ver dade tudo consumiamos, e a nós mesmos, no cultivo amargo, quase delirante do prazer. O movimento de Inteligência que representamos, na sua fase verdadeira mente ‘ ‘modernista” , não foi o fator das mudanças político-sociais posteriores a ele no Brasil. Foi essencialmente um preparador; o criador de um estado-de-

espírito revolucionário e de um senti mento de arrebentação. E si numerosos dos intelectuais do movimento se dissol veram na política, si vários de nós parti cipamos das reuniões iniciais do Partido Democrático, carece não esquecer que tanto este como 1930 eram ainda destrui ção. Os movimentos espirituais precedem sempre as mudanças de ordem social. O movimento social de destruição é que principiou com o P . D . e 1930. E no en tanto, é justo por esta data de 1930, que principia para a Inteligência brasileira uma fase mais calma, mais modesta e quotidiana, mais proletária, por assim dizer, de construção. À espera que um dia as outras formas sociais a imitem. E foi a vez do salão de Tarsila se acabar. Mil novecentos e trinta. . . Tudo estourava, políticas, faitiilias, casais de artistas, estéticas, amizades profundas. O sentido destrutivo e festeiro do movi mento modernista já não tinha mais

razão-de-ser, cumprido o seu destino le gítimo. Na rua, o povo amotinado gri tava : — Getúlio ! Getúlio !. . . Na som bra, Plinio Salgado pintava de verde a sua megalomania de Esperado. No norte, atingindo de salto as nuvens mais deses peradas, outro avião abria asas do terreno incerto da bagaceira. Outros abriam mas eram as veias pra manchar de encar nado as suas quatro paredes de segredo. Mas nesse vulcão, agora ativo e de tantas esperanças, já vinham se fortificando as belas figuras mais nítidas e construidoras, os Lins do Rego, os Augusto Frede rico Schmidt, os Otávio de Faria e os Portinari e os Camargo Guarnieri. Que a vida terá que imitar qualquer dia.

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