A Arte e Sua Função Humana O Movimento Modernista · Capítulo 5 de 7
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A Arte e Sua Função Humana

Quanto à conquista do direito per manente de pesquisa estética, creio não ser possivel qualquer contradição: é a vitória grande do movimento no campo da arte. E o mais característico é que o antiacademismo das gerações posteriores à da Semana de Arte Moderna, se fixou exatamente naquela lei estético-técnica do “ fazer milhor” , a que aludi, e não como um abusivo instinto de revolta, destruidor em princípio, como foi o do movimento modernista. Talvez seja o atual, realmente, o primeiro movimento de independência da Inteligência brasi leira, que a gente possa ter como legíti mo e indiscutivel. Já agora com todas as probabilidades de permanência. Até o Parnasianismo, até o Simbolismo, até o Impressionismo inicial de um Vila Lobos, o Brasil jamais pesquisou (como conciência coletiva, entenda-se), nos campos da criação estética. Não só im portávamos técnicas e estéticas, como só

as importávamos depois de certa estabi lização na Europa, e a maioria das vezes já academizadas. Era ainda um com pleto fenómeno de colónia, imposto pela nossa escravização econômico-social. Pior que isso: esse espírito acadêmico não tendia para nenhuma libertação e para uma expressão própria. E si um Bilac da “ Via Lactea” é maior que todo o Lecomte, a. . . culpa não é de Bilac. Pois o que êle almejava era mesmo ser parnasiano, senhora Serena Forma. Essa normalização do espírito de pesquisa estética, antiacadêmica, porem não mais revoltada e destruidora, a meu ver, é a maior manifestação de inde pendência e de estabilidade nacional que já conquistou a Inteligência brasileira. E como os movimentos do espírito pre cedem as manifestações das outras for mas da sociedade, é facil de perceber a mesma tendência de liberdade e con quista de expressão própria, tanto na

imposição do verso-livre antes de 30, como na ‘ ‘marcha para o Oeste” poste rior a 30; tanto na “ Bagaceira” , no “ Es trangeiro” , na “ Negra Fulô” anteriores a 30, como no caso da Itabira e a na cionalização das indústrias pesadas, pos teriores a 30. Eu sei que ainda existem espíritos coloniais (é tão facil a erudição!) só preocupados em demonstrar que sabem mundo a fundo, que nas paredes de Portinari só enxergam os murais de Rivera, no atonalismo de Francisco Mignone só percebem Schoemberg, ou no “ Ciclo da Cana de Açúcar” , o roman-fleuve dos franceses. . . O problema não é complexo mas seria longo discuti-lo aqui. Me limitarei a propor o dado principal. Nós tivemos no Brasil um movimento espiritual (não falo apenas escola de arte) que foi abso lutamente “ necessário” , o Romantismo.

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Insisto: não me refiro apenas ao roman tismo literário, tão acadêmico como a importação inicial do modernismo artís tico, e que se poderá comodamente datar de Domingos José Gonçalves de Maga lhães, como o nosso do expressionismo de Anita Malfatti. Me refiro ao “ espí rito” romântico, ao espírito revolucio nário romântico, que está na Inconfi dência, no Basilio da Gama do “ Uraguai” nas liras de Gonzaga como nas “ Cartas Chilenas” de quem os senhores quiserem. Este espírito preparou o es tado revolucionário de que resultou a independência política, e teve como pa drão hem briguento a primeira tentativa de lingua brasileira. O espírito revolu cionário modernista, tão necessário como o romântico, preparou o estado revolu cionário de 30 em diante, e tamhem teve como padrão barulhento a segunda ten tativa de nacionalização da linguagem. A similaridade é muito forte.

Esta necessidade espiritual, que ul trapassa a literatura estética, é que di ferença fundamentalmente Romantismo e Modernismo, das outras escolas de arte brasileiras. Estas foram todas essencial mente acadêmicas, obediências culturalistas que denunciavam muito bem o co lonialismo da Inteligência nacional. Nada mais absurdamente imitativo (pois si nem era imitação, era escravidão!) que a cópia, no Brasil, de movimentos estéticos particulares, que de forma al guma eram universais, como o cultera nismo ítalo-ibérico setecentista, como o Parnasianismo, como o Simbolismo, como o Impressionismo, ou como o Wagnerismo de um Leopoldo Miguez. São superfectaçóes culturalistas, impos tas de cima pra baixo, de proprietário a propriedade, sem o menor fundamento nas forças populares. D’aí uma base deshumana, prepotente e, meu Deus! arianizante que, si prova o imperialismo dos

que com ela dominavam, prova a sujei ção dos que com ela eram dominados. Ora aquela base humana e popular das pesquisas estéticas é facílimo encontrar no Romantismo, que chegou mesmo a retornar coletivamente às fontes do povo e, a bem dizer, criou a ciência do folc lore. E mesmo sem lembrar folclore, no verso-livre, no cubismo, no atonalismo, no predomínio do ritmo, no superrealismo mítico, no expressionismo, iremos encontrar essas mesmas bases populares e humanas. E até primitivas, como a arte negra que influiu na invenção e na temática cubista. Assim como o cultís simo roman-fleuve e os ciclos com que um Otávio de Faria processa a decrepi tude da burguesia, ainda são instintos e formas funcionalmente populares, que encontramos nas mitologias cíclicas, nas sagas e nos Kalevalas e Nibelungos de todos os povos. Já um autor escreveu, como conclusão condenatória, que ‘ ‘ a

estética do Modernismo ficou indefinivel*’ . . . Pois essa é a milhor razão-deser do Modernismo! Ele não era uma estética, nem na Europa nem aqui. Era um estado de espírito revoltado e revo lucionário que, si a nós nos atualizou, sistematizando como constância da Inte ligência nacional o direito antiacadêmico da pesquisa estética e preparou o estado revolucionário das outras manifestações sociais do país, também fez isto mesmo no resto do mundo, profetizando estas guerras de que uma civilização nova nascerá. E hoje o artista brasileiro tem diante de si uma verdade social, uma li berdade (infelizmente só estética), uma independência, um direito às suas in quietações e pesquisas que, não tendo passado pelo que passaram os modernis tas da Semana, êle nem pode imaginar que conquista enorme representa. Quem se revolta mais, quem briga mais contra

o politonalismo de um Lourenço Fer nandes, contra a arquitetura do Minis tério da Educação, contra os versos “ incompreensiveis” de um Murilo Mendes, contra o personalismo de um Guignard?. . . Tudo isto são hoje manifes tações normais, discutíveis sempre, mas que não causam o menor escândalo pú blico. Pelo contrário, são os próprios elementos governamentais que aceitam a realidade de um Lins do Rego, de um Vila Lobos, de um Almir de Andrade, pondo-os em cheque e no perigo das predestinações. Mas um Flavio de Car valho, mesmo com as suas experiências numeradas, e muito menos um Clovis Graciano, mas um Camargo Guarnieri mesmo em luta com a incompreensão que o persegue, um Otávio de Faria com a aspereza dos casos que expÕe, um Santa Rosa, jamais não poderão suspei tar o a que nos sujeitamos, pra que êles pudessem viver hoje abertamente o dra-

ma que os dignifica. A vàia acêsa, o in sulto público, a carta anônima, a perse guição financeira. . . Mas recordar é cpiase exigir simpatia e estou a mil léguas disto. E me cabe finalmente falar sobre o que chamei de ‘ ‘ atualização da inteli gência artística brasileira” . Com efeito : não se deve confundir isso com a liber dade da pesquisa estética, pois esta lida com formas, com a técnica e as repre sentações da beleza, ao passo que a arte é muito mais larga e complexa que isso, e tem uma funcionalidade imediata so cial, é uma profissão e uma força inte ressada da vida. A prova mais evidente desta distin ção é o famoso problema do assunto em arte, no qual tantos escritores e filósofos se emaranham. Ora nao ha dúvida ne nhuma que o assunto nao tem a menor importância para a inteligência estética. Chega mesmo a não existir para ela.

Mas a inteligência estética se manifesta por intermédio de uma expressão inte ressada da sociedade, que é a arte. Esta é que tem uma função humana, imediatista e maior que a criação hedonística da beleza. E dentro dessa funcionalidade humana da arte é que o assunto adquire um valor primordial e representa uma mensagem imprescindível. Ora, como atualização da inteligência artística é que o movimento modernista represen tou papel contraditório e muitas vezes gravemente precário. Atuais, atualíssimos, universais, originais mesmo por vezes em nossas pesquisas e criações, nós, os participan tes do período milhormente chamado ‘ ‘modernista” , fomos, com algumas excepções nada convincentes, vítimas do nosso prazer da vida e da festança em que nos desvirilizâmos. Si tudo mudá vamos em nós, uma coisa nos esquece mos de mudar : a atitude interessada

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