A Autocrítica de Mário O Movimento Modernista · Capítulo 6 de 7
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A Autocrítica de Mário

diante da vida contemporânea. E isto era o principal! Mas aqui meu pensa mento se torna tão delicadamente confissional, que terminarei este discurso falando mais diretamente de mim. Que se reconheçam no que eu vou dizer os que o puderem. Não tenho a mínima reserva em afirmar que toda a minha obra repre senta uma dedicação feliz a problemas do meu tempo e minha terra. Ajudei coisas, maquinei coisas, fiz coisas, muita coisa! E no entanto me sobra agora a sentença de que fiz muito pouco, porque todos os meus feitos derivaram duma ilusão vasta. E eu que sempre me pen sei, me senti mesmo, sadiamente banha do de amor humano, chego no declínio da vida à convicção de que faltou huma nidade em m im . Meu aristocracismo me puniu. Minhas intenções me enganaram. Vítima do meu individualismo, procuro em vão nas minhas obras, e

também nas de muitos companheiros, uma paixão mais temporânea, uma dôr mais viril da vida. Não tem. Tem mas é uma antiquada ausência de realidade em muitos de nós. Estou repisando o que já disse a um m oço. . . E outra coisa sinão o respeito que tenho pelo destino dos mais novos se fazendo, não me leva ria a esta confissão bastante cruel, de perceber em quase toda a minha obra a insuficiência do abstencionismo. Fran cos, dirigidos, muitos de nós demos às nossas obras uma caducidade de comba te. Estava certo, em princípio. O enga no é que nos pusemos combatendo len çóis superficiais de fantasmas. Devería mos ter inundado a caducidade utilitária do nosso discurso, de maior angústia do tempo, de maior revolta contra a vida como está. Em vez: fomos quebrar vi dros de janelas, discutir modas de pas seio, ou cutucar os valores eternos, ou saciar nossa curiosidade na cultura. E si

agora percorro a minha obra já nume rosa e que representa uma vida trabalha da, não me vejo uma só vez pegar a más cara do tempo e esbofetea-la como ela merece. Quando muito Uie fiz de longe umas caretas. Mas isto, a mim, não me satisfaz. Não me imagino político de ação. Mas nós estamos vivendo uma idade po lítica do homem, e a isso eu tinha que servir. Mas em síntese, eu só me per cebo, feito um Amador Bueno qualquer, falando ‘ ‘não quero” e me isentando da atualidade por detrás das portas contem plativas de um convento. Também não me desejaria escrevendo páginas explo sivas, brigando a pau por ideologias e ganhando os louros fáceis de um xilindró. Tudo isso não sou eu nem é pra mim. Mas estou convencido de que de víamos ter nos transformado de espe culativos em especuladores. Ha sempre jeito de escorregar num ângulo de visão.

numa escolha de valores, no embaçado duma lágrima que avolumem ainda mais o insuportável das condições atuais do mundo. Não. Viramos abstencionistas abstêmios e transcendentes ( l ) . Mas por isso mesmo que fui sinceríssimo, que desejei ser fecundo e joguei lealmente com todas as minhas cartas à vista, al canço agora esta conciência de que fomos bastante inatuais. Vaidade, tudo vai dade. . . Tudo o que fizem os. . . Tudo o que eu fiz foi especialmente uma cilada da minha felicidade pessoal e da festa em que vivemos. E’ aliás o que, com de cepção açucarada, nos explica historica mente. Nós éramos os filhos finais de uma civilização que se acabou, e é sabi do que o cultivo delirante do prazer in dividual represa as forças dos homens (1) “ Uns verdadeiros inconcienteis” , como já falei uma v e z ...

sempre que uma idade morre. E já mos trei que o movimento modernista foi destruidor. Muitos porem ultrapassamos essa fase destruidora, não nos deixamos ficar no seu espírito e igualamos nosso passo, embora um bocado turtuveante, ao das gerações mais novas. Mas apesar das sinceras intenções boas que dirigi ram a minha obra e a deformaram mui to, na verdade, será que não terei pas seado apenas, me iludindo de existir ?. . . E’ certo que eu me sentia responsabili zado pelas fraquezas e as desgraças dos homens. E’ certo que pretendi regar mi nha obra de orvalhos mais generosos, suja-la nas impurezas da dôr, sair do lim bo '^^ne trista ne lieta’ da minha felici dade pessoal. Mas pelo próprio exercí cio da felicidade, mas pela própria alti vez sensualíssima do individualismo, não me era mais possivel renega-los como um erro, embora eu chegue um pouco tarde à convicção da sua mesquinhez.

A única observação que pode trazer alguma complacência para o que eu fui, é que eu estava enganado. Julgava sin ceramente cuidar mais da vida que de mim. Deformei, ninguém não imagina quanto, a minha obra — o que não quer dizer que si não fizesse isso, ela fosse Uiilbor. . . Abandonei, traição conciente, a ficção, em favor de um homem-deestudo que fundamentalmente não sou. Mas é que eu decidira impregnar tudo quanto fazia de um valor utilitário, um valor prático de vida, que fosse alguma coisa mais terrestre que ficção, prazer estético, a beleza divina. Mas eis que chego a este paradoxo irrespirável: Tendo deformado toda a minha obra por um anti-individualismo dirigido e voluntarioso, toda a minha obra não é mais que um hiperindividualismo implacável! E é melancólico che gar assim no crepúsculo, sem contar com a solidariedade de si mesmo. Eu não

posso estar satisfeito de mim. 0 meu passado não ê mais meu companheiro. Eu desconfio do meu passado. Mudar? Ácrescentar? Mas como es quecer que estou na rampa dos cincoenta anos e que os meus sestos agora já são todos. . . memórias musculares?. . . Ex omnibus bonis quae homini tribuit natura, nulliim melius esse tempestiva mor te. . . O terrivel é que talvez ainda nos seja mais acertada a discreção, a virar mos por aí cacoeteiros de atualidade, macaqueando as atuais aparências do mundo. Aparências que levarão o ho mem por certo a maior perfeição de sua vida. Me recuso a imaginar na inutili dade das tragédias contemporâneas. O Homo Imbecilis acabará entregando os pontos à grandeza do seu destino.

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