Nacionalidade e Continuidade Histórica
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Brasil” , e os vasqueiros “ anjos” do Par tido Democrático e do Integralismo. E 1930 vai ser tambem um protesto ! Mas para um número vasto de modernistas, o Brasil se tornou uma dádiva do céu. Um céu bastante governamental. . . Graça Aranha, sempre desacomodado em nosso meio que ele não podia sentir bem, tornou-se o exegeta desse nacionalismo conformista, com aquela frase detestável de não sermos “ a câmara mortuária de Portugal” . Quem pensava nisso ! Pelo contrário: o que ficou dito foi que não nos incomodava nada “ coincidir” com Portugal, pois o importante era a desis tência do confronto e das liberdades falsas. Então nos xingaram de “ primitivistas 99 O estandarte mais colorido dessa radicação à pátria foi a pesquisa da “ lingua brasileira” . Mas foi talvez boato falso. Na verdade, apesar das aparências e da bulha que fazem agora certas santi-
dades de última hora, nós estamos ainda atualmente tão escravos da gramática lusa como qualquer português. Não há dúvida nenhuma que nós hoje sentimos e pensamos o quantum satis brasileira mente. Digo isto até com certa malinconia, amigo Macunaíma, meu irm ão. Mas isso não é o bastante para identificar a nossa expressão verbal, muito embora a realidade brasileira, mesmo psicológica, seja agora mais forte e insolúvel que nos tempos de José de Alencar ou de Ma chado de Assis. E como negar que estes também pensavam brasileiramente? Co mo negar que no estilo de Machado de Assis, luso pelo ideal, intervem um quid familiar que o diferença vertical mente de um Garret e um Ortigão ? Mas si nos românticos, em Alvares de Aze vedo, Varela, Alencar, Macedo, Castro Alves, há uma identidade brasileira que nos parece bem maior que a de Brás Cubas ou Bilac, é porque nos românticos
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chegou-se a um “ esquecimento” da gra mática portuguesa, que permitiu muito maior colaboração entre o ser psicológico e sua expressão verbal. 0 espírito modernista reconheceu que si vivíamos já de nossa realidade brasileira, carecia reverificar nosso ins trumento de trabalho para que nos ex pressássemos com identidade. Inventou-se do dia prà noite a fabulosíssima “ lingua brasileira” . Mas ainda era cedo; e a força dos elementos contrários, prin cipalmente a ausência de orgãos científi cos adequados, reduziu tudo a manifes tações individuais. E hoje, como norma lidade de lingua culta e escrita, estamos em situação inferior à de cem anos atrás. A ignorância pessoal de vários fez com que se anunciassem em suas primeiras obras, como padrões excelentes de brasileirismo estilístico. Era ainda o mesmo caso dos românticos: não se tratava duma superação da lei portuga, mas
duma ignorância dela. Mas assim que alguns desses prosadores se firmaram pelo valor pessoal admiravel que pos^ suiam (me refiro à geração de 3 0 ), prin cipiaram as veleidades de escrever certinho. E é cômico observar que, hoje, em alguns dos nossos mais fortes estilis tas surgem a cada passo, dentro duma expressão já intensamente brasileira, lusitanismos sintáxicos ridículos. Tão ridí culos que se tornam verdadeiros erros de gramática ! Noutros, esse reaportuguesamento expressional ainda é mais precá rio: querem ser lidos alem-mar, e surgiu o problema econômico de serem compra dos em Portugal. Enquanto isso, a melhor intelectualidade lusa, numa liber dade esplêndida, aceitava abertamente os mais exagerados de nós, compreensiva, sadia, mão na m ão. Teve também os que, desaconselha dos pela preguiça, resolveram se despreo-
cupar do problema. . . São os que em pregam anglicismos e galicismos dos mais abusivos, mas repudiam qualquer “ me parece” por artificial ! Outros, mais cômicos ainda, dividiram o problema em dois: nos seus textos escrevem gramati calmente, mas permitem que seus perso nagens, falando, “ errem” o português. Assim, a. . . culpa não é do escritor, é dos personagens ! Ora não há solução mais incongruente em sua aparência con ciliatória . Não só póe em foco o pro blema do erro de português, como esta belece um divórcio inapelavel entre a lingua falada e a lingua escrita — boba gem bêbada pra quem souber um naco de filologia. E tem ainda as garças brancas do individualismo que, embora reconhecendo a legitimidade da lingua nacional, se recusam a colocar brasileira mente um pronome, pra não ficarem pa recendo com Fulano ! Estes ensimesma dos esquecem que o problema é coletivo
e que, si adotado por muitos, muitos fica vam se parecendo com o Brasil ! A tudo isto se ajuntava quase deci sório, o interesse econômico de revistas, jornais e editores qpie intimidados com alguma carta rara de leitor gramatiquento ameaçando não comprar, se opõem à pesquisa linguística e chegam ao desplante de corrigir artigos assina dos. Mas, morto o metropolitano Pe dro II, quem nunca respeitou a inteligên cia neste país !
Tudo isto, no entanto, era sempre estar com o problema na mesa. A desis tência grande foi criarem o mito do “ es crever naturalmente” , não tem dúvida, o mais feiticeiro dos mitos. No fundo, em bora não conciente e deshonrosa, era uma deshonestidade como qualquer ou tra . E a maioria, sob o pretexto de escre ver naturalmente (incongruência, pois a lingua escrita, embora lógica e derivada, é sempre artificial) se chafurdou na mais
antilógica e antinatural das escritas. São uma lástima. Nenhum deles deixará de falar “ naturalmente” um “ Está se ven do” ou “ Me deixe” . Mas pra escrever. . . com naturalidade, até inventam os socor-' ros angustiados das conjunções, pra se sairem com um “ E se está vendo” que salva a pátria da retoriquice. E é uma delícia constatar que si afirmam escrever brasileiro, não tem uma só frase deles que qualquer luso não assinasse com in tegridade nacional. . . lusa. Se identifi cam àquele deputado mandando fazer uma lei que chamava de “ lingua brasi leira” à lingua nacional. Pronto: estava resolvido o problema ! Mas como incon testavelmente sentem e pensam com na cionalidade, isto é, numa entidade ameríndio-afro-luso-latino-americano - anglofranco-etc., o resultado é essa linguagem ersatz em que se desamparam — triste moxinifada moluscoide sem vigor nem caracter,
Não me refiro a ninguém não, me refiro a centenas. Me refiro justamente aos honestos, aos que sabem escrever e possuem técnica. São eles que provam a inexistência duma “ lingua brasileira” , e que a colocação do mito no campo das pesquisas modernistas foi quase tão pre matura como no tempo de José de Alen car. E si os chamei de inconcientemente deshonestos é porque a arte, como a ciência, como o proletariado não trata apenas de adquirir o bom instrumento de trabalho, mas impÔe a sua constante reverificação. O operário não compra a foice apenas, tem de afia-la dia por dia. O médico não fica no diploma, o renova dia por dia no estudo. Será que a arte nos exime dêste diarismo profissional ? Não basta criar o despudor da “ naturali dade” , da “ sinceridade” e ressonar à sombra do deus n o v o . Saber escrever está muito bem; não é mérito, é dever
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prim ário. Mas o problema verdadeiro do artista não é esse: é escrever milbor. Toda a história do profissionalismo hu mano o prova. Ficar no aprendido não é ser natural: é ser acadêmico; não é des preocupação: é passadismo. A pesquisa era ingente por demais. Cabia aos filólogos brasileiros, já crimi nosos de tão vexatórias reformas orto gráficas patrioteiras, o trabalho honesto de fornecer aos artistas uma codificação das tendências e constâncias da expres são linguística nacional. Mas êles re cuam diante do trabalho util, é tão mais facil ler os clássicos! Preferem a ciencinha de explicar um êrro de copista, ima ginando uma palavra ^inexistente no latim vulgar. Os mais avançados vão até aceitar timidamente que iniciar a frase com pronome obliquo nao e “ mais” êrro no Brasil. Mas confessam não escrever. . . isso, pois não seriam ^^sinceros” com o que beberam no leite
materno. Beberam des-hormônios! Bolas para os filólogos! Caberia aqui também o repúdio dos que pesquisaram sobre a lingua es crita nacional. . . Preocupados pragma ticamente em ostentar o problema, pra ticaram tais exageros de tornar pra sempre odiosa a lingua brasileira. Eu sei: talvez neste caso ninguém vença o escritor destas linhas. Em primeiro lu gar, o escritor destas linhas, com alguma faringite, vai passando bem, muito obri gado. Mas é certo que jamais exigiu lhe seguissem os brasileirismos violentos. Si os praticou (um tempo) foi na inten ção de por em angústia aguda uma pes quisa que julgava fundamental. Mas o problema primeiro não é acintosamente vocabular, é sintáxico. E afirmo que o Brasil boje possue, não apenas regionais, mas generalizadas no país, numerosas tendências e constâncias sintáxicas que lhe dão natureza característica à lingua-
gem. Mas isso decerto ficará para outro futuro movimento modernista, amigo José de Alencar, meu irmão. Mas como radicação da nossa cul tura artística à entidade brasileira, as compensações são muito numerosas pra que a atual hesitação linguística se torne falha grave. Como expressão nacional, é quase incrivel o avanço enorme dado pela música e mesmo pela pintura, bem como o processo do Homo brasileiro realizado pelos nossos romancistas e ensaistas atuais. Espiritualmente o pro gresso mais curioso e fecundo é o esque cimento do amadorismo nacionalista e do segmentarismo regional. A atitude do espírito se transformou radicalmente e talvez nem os moços de agora possam compreender essa mudança. Tomados ao acaso, romances como os de Emil Farhat, Fran Martins ou Teimo Vergara, ha vinte anos atrás seriam classificados como literatura regionalista, com todo o
exotisme e o insolúvel do ‘‘caracteris tico” . Hoje quem sente mais isso ? A atitude espiritual com que lemos esses livros não é mais a da contemplação curiosa, mas a de uma participação sem teoria nacionalista, uma participação pura e simples, não dirigida, expon tânea . É que realizámos essa conquista magnífica da descentralização intelec tual, hoje em contraste aberrante com outras manifestações sociais do país. Hoje a Côrte, o fulgor das duas cidades brasileiras de mais de um milhão, não tem nenhum sentido intelectual que não seja meramente estatístico. Pelo menos quanto à literatura, única das artes que já alcançou estabilidade normal no país. As outras são demasiado dispendiosas pra se normalizarem numa terra de tão interrogativa riqueza pública como a nossa. O movimento modernista, pondo em relevo e sistematizando uma ‘ ‘cul-
tura” nacional, exigiu da Inteligência estar ao par do que se passava nas nu merosas Cataguazes. E si as cidades de primeira grandeza fornecem facilitaçÕes publicitárias sempre especialmente esta tísticas, é impossivel ao brasileiro nácionalmente culto, ignorar um Erico Verís simo, um Ciro dos Anjos, um Camargo Guarnieri, nacionalmente gloriosos do canto das suas províncias. Basta com parar tais criadores com fenômenos já históricos mas idênticos, um Alphonsus de Guimaraens, um Amadeu Amaral e os regionalistas imediatamente anterio res a nós, para verificar a convulsão fundamental do problema. Conhecer um Alcides Maia, um Carvalho Ramos, um Teles Junior era, nos brasileiros de ha vinte anos, um fato individualista de maior ou menor “ civilização” . Conhe cer um Guilhermino Cesar, um Viana Moog ou Olívio Montenegro, hoje é uma exigência de “ cultura” . Dantes, esta
exigência estava relegada. . . aos histo riadores . A prática principal desta descen tralização da Inteligência se fixou no movimento nacional das editoras pro vincianas. E si ainda vemos o caso de uma grande editora, como a Livraria José Olímpio, obedecer à atração da mari posa pela chama, indo se apadrinhar com o prestígio da Corte, por isto mes mo êle se torna mais comprovatório. Porque o fato da Livraria José Olímpio ter cultamente publicado escritores de todo o país, não a caracteriza. Nisto ela apenas se iguala às outras editoras tam bém cultas de província, uma Globo, uma Nacional, a Martins, a Guaíra. O que exatamente caracteriza a editora da rua do Ouvidor — umbigo do Brasil, como diria Paulo Prado — é ter se tor nado, por assim dizer, o órgão oficial das oscilações ideológicas do país, publi cando tanto a dialética integralista como a política do sr. Francisco Campos.