Danças Remate de Males · Capítulo 2 de 8
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Danças

DANÇAS a Dona Baby Guilherme de Almeida (1924) I Quem dirá que não vivo satisfeito! Eu danço! Dança a poeira no vendaval. Raios solares balançam na poeira. Calor saltita pela praça pressa apertos automóveis bamboleios Pinchos ariscos de gritos Bondes sapateando nos trilhos... A moral não é roupa diária! Sou bom só nos domingos e dias-santos! Só nas meias o dia-santo é quotidiano! Vida arame crimes quidam cama e pança! Viva a dança! Dança viva! Vivedouro de alegria! Eu danço! Mãos e pés, músculos, cérebro... Muito de indústria me fiz careca, Dei um salão aos meus pensamentos! Tudo gira, Tudo vira, Tudo salta, Samba, Valsa, Canta, Ri! Quem foi que disse que não vivo satisfeito? EU DANÇO! II Meu cigarro está aceso. O fumo esguicha, O fumo sobe, O fumo sabe ao bem e ao mal... O bem e o mal, que coisas sérias! Riqueza é bem. Tristeza é mal. Desastres sangue tiros doença Dança!... O elevador subiu aos céus, ao nono andar, O elevador desce ao subsolo, Termômetro das ambições. O açúcar sobe. O café sobe. Os fazendeiros vêm do lar. Eu danço! Tudo é subir. Tudo é descer. Tudo é dançar! O Esplanada grugrulha. Todos os homens vão no cinema. Lindas mulheres nos camarotes. Leves mulheres a passar... Não frequento cafés-concertos, Mas tenho as minhas aventuras... Desventurados os coiós! A vida é farta. O mundo é grande. Tem muito canto onde esconder! Subúrbios casas pensões táxis... Vejo sonâmbulos ao luar Beijando moças estioladas. Tolos! a poeira sobe no ar... O fumo sobe e morre no ar... Eu vivo no ar! Dançarinar!... III Filha, tu sabes... que hei-de fazer! Nós todos somos assim. Eu sou assim. Tu és assim. Dançam os pronomes pessoais. Nunca em minuetes! Nunca em furlanas! EU ELE TU NÓS ELES VÓS... Não paro. Não paras. Sucedem quadrilhas... Gatunos! Assassinos! Ciganos! Judeus! Quebras formidáveis! Riquezas fetos de cinco meses Já velhas como Matusalém. Baixistas calvos, rotundos, glabros, Trusts de cana, trusts de arroz, Açambarcadores de feijão-virado... A Bolsa revira. Reviram-se as bolsas. As letras entram. Os oiros saem... Corrida tombos vitórias delírios banquetes orquestras... Os homens dançam... Danço também. Nunca minuetes nem bacanais! Somos farândolas? Somos lanceiros? Somos quadrilhas? Que somos nós!? Pronomes pessoais. IV 14 horas. Filha, tu vai dormir. Eu te contemplo aborrecido. Que fazes estreita na cama tão larga? Por que te encolhes assim? Teus cabelos suados se esperdiçam. Tuas mãos aziagas tamborilam. Teu corpo estreito treme vibra...

— Poeta, me deixe dormir! Eu te contemplo aborrecido... Devo esconder-te o meu sorriso?... Já sei por que o sono não chega, Filha, começas a dançar... Teu corpo todo se enrodilha estremece sacode bate lata seco ... heque! heque!... quebra queima reina dança sangue gosma... Teus lábios dançam: — Por piedade! Não é domingo nem dia-santo! Filha, tu danças para dormir! Tosses até que não podes mais! Devo esconder-te o meu sorriso?... V Aquele quarto me sufoca, Prefiro ar livre, Não voltarei. Ar livre, ar leve que dança, dança! Dançam as rosas nos rosais! São flores vermelhas São botões perfeitos São rosas abertas, gritos de prazer! São Paulo é um rosal! São Paulo é um jardim! Morena, tem pena, Tem pena de mim! A rosa-riso dança nos teus lábios vermelhos mordidos... Volúpias alegres... O mundo não vê? Nós nos separamos. Nós nos ajuntamos. O bonde passou, O amigo passou... O mundo não vê! A vida é tão curta! Quem tem certeza do amanhã! Lourenço de Medicis?... Florença delira, Paris queima, Viena dança, Berlim ri... E New York abençoa o jazz universal. Negros de cartola Turcos de casaca Montecarlo e Caldas e Copacabana Tudo é um caxambu! EU DANÇO! Dança do amor sem sentimento? Dança das rosas nos rosais!... VI Parceiro, tu sabes a dança do ventre Mas eu vou te ensinar dança milhor. Olha: a Terra é uma bola. A bola gira. Gira o universo. Os homens giram também. Tudo é girar, tudo é rodar. Sofres acaso de amor sem volta? Porquê paraste no teu amor! Choras que os outros não te compreendem? Fala francês que te entenderão! Morres, duvidas, pensas?... — Parceiro, Tu só conheces a dança do ventre, A dança do ombro é muito milhor! VII “Oh, como passas!” “Bravo! enfim voltas!” São inimigos, São morfinómanos, Virgens e honestos, Crápulas vis. Saúdo a todos, Ninguém me estima, Dançam meus ombros, Eu sou feliz! Eu sou feliz porque a Terra é uma bola. A bola gira, Gira o universo, Giro também. Sou Gira. Sou Louco. Sou Oco. Sou homem!... Sou tudo o que vocês quiserem, Mas que sou eu? Meu alfaiate tem mais fregueses. Não há canalha sem virtude. Não há virtuosos sem desonra. Entro nos teatros lendo jornais. Converso pouco e escuto muito. Falo francês... Leio em vernáculo Tristram Shandy. conheço Freud e Dostoievsky. Compro as revistas do Brasil. E Principalmente Sei enramar meu ditirambo, Sei guspir um madrigal! Depois dou de ombros. Meus ombros dançam... Sou partidário da desombra universal! VIII Há terras insultas além muito longe.. Há bichos terríveis nas terras indultas. Há pássaros lindos nos jequitibás... O dia ora é claro, ora é escuro... Zumbidos de abelhas fabricando mel. Ora os bichos urram, Ora as aves cantam, Ora é a flor que abrolha, Ora a árvore cai... O céu se escurece. É a tormenta... Dançam coriscos no céu. Relâmpagos trovões um samba hediondo, um candomblé... As caiporas galopam nas ancas das antas... Aranhas formigas sacis e Jaci... O rio da Dúvida passa a dançar... A vitória-régia oscila balouçante nas aguas indecisas... Ha terras incultas além... Mas quem que as visitou? Ninguém. A confusão é enorme!... Filha, tu sabes...que rei-de fazer! Tudo é quadrilha! Me ponho a dançar! IX EU DANÇO! Eu danço manso, muito manso, Não canso e danço, Danço e venço, Manipanço... Só não penso... Quando nasci eu não pensava e era feliz... Quando nasci eu já dançava, Dançava a dança da criança, Surupango da vingança... Dança do berço: Sim e Não... Dança do berço: Não e Sim... A vida é assim... E eu sou assim. ... ela dançava porque tossia... Outros dançam de soluçar... Eu danço manso a dança do ombro... Eu danço... Não sei mais chorar!...

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