Tempo da Maria VI-VII Remate de Males · Capítulo 4 de 8
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Tempo da Maria VI-VII

VI LOUVAÇÃO DA TARDE Tarde incomensurável, tarde vasta, Filha de Sol já velho, filha doente De quem despreza as normas da Eugenia, Tarde vazia, dum rosado pálido, Tarde tardonha e sobretudo tarde Imóvel... quasi imóvel: é gostoso Com o papagaio louro do ventinho Poisado em minha mão, pelas ilhotas Dos teus prefumes me perder, rolando Sobre a desabitada rodovia. Só tu me desagregas, tarde vasta, Da minha trabalheira. Sigo livre, Deslembrado da vida, lentamente, Com o pé esquecido do acelerador. E a maquininha me conduz, perdido De mim, por entre cafezais coroados, Enquanto meu olhar maquinalmente Traduz a língua norteamericana Dos rastos dos pneumáticos na poeira. O doce respirar do forde se une Aos gritos ponteagudos das graúnas, Aplacando meu sangue e meu ofego. São murmúrios severos, repetidos, Que me organizam todo o ser vibrante Num método sadio. Só no exilio De teu silêncio, os ritmos maquinares Sinto, metodizando, regulando O meu corpo. E talvez meu pensamento... Tarde, recreio de meu dia, é certo Que só no teu parar se normaliza A onda de todos os transbordamentos Da minha vida inquieta e desregrada. Só mesmo distanciado em ti, eu posso Notar que tem razão-de-ser plausível Nos trabalhos de ideal que vou semeando Atabalhoadamente sobre a Terra. Só nessa vastidão dos teus espaços, Tudo o que gero e mando, e que parece Tão sem destino e sem razão, se ajunta Numa ordem verdadeira... Que nem gado, Pelo estendal do jaraguá disperso, Ressurge de tardinha e, enriquecido Ao aboio sonoro dos campeiros, Enriquece o criador com mil cabeças No circo da mangueira rescendente... Tarde macia, pra falar verdade: Não te amo mais do que a manhã, mas amo Tuas formas incertas e estas cores Que te maquilham o carão sereno. Não te prefiro ao dia em que me agito, Porém contigo é que imagino e escrevo O rodapé do meu sonhar, romance Em que o Joaquim Bentinho dos desejos Mente, mente, remente impávido essa Mentirada gentil do que me falta. Um desproposito de perfeições Me cerca e, em grata sucessão de casos, Vou com elas vivendo uma outra vida: ...Toda dor física azulou... Meu corpo, Sem artritismos, faringites e outras Específicas doenças paulistanas, Tem saúde de ferro. Ás intempéries Exponho as ondas rijas dos meus músculos, Sem medo. Praquê medo!... Regulares, Mais regulares do que os meus, os traços Do meu rosto me fazem desejado Mais facilmente que na realidade... Já não falo por ela não, por essa Em cujo perfil duro jaz perdida A independência do meu reino de homem... Que bonita que ela é!... Qual!... Nem por isso. Não sonho sonhos vãos. A realidade, Mais esportiva de vencer, me ensina Esse jeito viril de ir afastando Dos sonhos vesperais os impossíveis Que fazem a quimera, e de que a vida É nua, friorentamente nua. Não a desejo não... Viva em sossego Essa que sendo minha, nos traria Uma vida de blefe, arrebatada Por mais estragos que deslumbramentos. Isto, em bom português, é amor platônico... Quá! quá! Qual... Desejemos só conquistas! Um poder de mulheres diferentes, Meninas-de-pensão, costureirinhas, Manicuras, artistas, datilógrafas, Brancaranas e loiras sem escândalo, Desperigadas... livro de aventuras Dentro do qual secasse a imagem da outra, Que nem folha de malva, que nem folha De malva... da mais pura malva perfumada!... Livre dos piuns das doenças amolantes, Com dinheiro sobrando, organizava As poucas viagens que desejo... Iria Viajar todo esse Mato Grosso grosso, Danado guardador da indiada feia, E o Paraná verdinho... Ara, si acaso Tivesse imaginado no que dava A Isidora, não vê que ficaria Na expectativa pança em que fiquei! Revoltoso banzando em viagens tontas, Ao menos o meu sul conheceria, Pampas forraginosos do Rio Grande E praias ondejantes do Iguaçu... Tarde, com os cobres feitos com teu ouro, Paguei subir pelo Amazonas... Mundos Desbarrancando, chãos desbarrancados, Aonde no quiriri do mato brabo A terra em formação devora os homens... Este refrão dos meus sentidos... Nada Matutarei mais sem medida, ôh tarde, Do que essa pátria tão despatriada! Vibro! Vibro. Mas constatar sossega A gente. Pronto, sosseguei. O forde Recomeça tosando a rodovia. “Nosso ranchinho assim tava bom”... Sonho... Já sabe: desejando sempre... Um sítio, Colonizado, sem necessidade De japoneses nem de estefanóderis... Que desse umas quatorze mil arrobas... Já me bastava. Gordas invernadas Pra novecentos caracus bem... Tarde, Careço de ir voltando, estou com fome. Ir pra um quarto-de-banho hidroterápico Que fosse a peça de honra deste rancho, Aonde também, faço questão, tivesse Dois ou três quarto-de-hospedes... Isto é, De hóspedes não, de amigos... Esta casa É sua... Entre... Se abanque... Mande tudo... Não faça cerimonia... Olha, de-noite Teremos Hindemith e Vila Lobos! Que bom! possuir um aparelho de Rádio-telefonia tão perfeito Que pegasse New York e Buenos Aires!... Tarde de meu sonhar, te quero bem! Deixa que nesta louvação, se lembre Essa condescendência puxapuxa De teu sossego, essa condescendência Tão afeiçoável ao desejo humano. De-dia eu faço, mas de-tarde eu sonho. Não és tu que me dás felicidade, Que esta eu crio por mim, por mim somente, Dirigindo sarado a concordância Da vida que me dou com o meu destino. Não marco passo não! Mas si não é Com desejos sonhados que me faço Feliz, o excesso de vitalidade Do espirito é com eles que abre a válvula Por onde escoa o inútil excessivo; Pois afastando o céu de junto à Terra, Tarde incomensurável, me permites, Qual jaburus-moleques de passagem, Lançar bem alto nos espaços essa Mentirada gentil do que me falta. Ciao, tarde. Estou chegando. É quasi noite. Todo o céu já cinzou. Dependurada Na rampa do terreiro a gaiolinha Branca da máquina “São Paulo” inda arfa, As tulhas de café desentulhando. Pelo ar um lusco-fusco brusco trila, Serelepeando na baixada fria. Bem no alto do espigão, sobre o pau seco, Ver um carancho, se empoleira a Lua, — Condescendente amiga das metáforas... VII MARIA Passa pura neste mundo, Sendo chique e sendo rica, Tem marido, quatro filhos, Sabe rir, sabe gostar, O nome dela é Maria. Faz pouco telefonou Falando que não iria No chá da casa da amiga. De vez em quando ela falta As festas de sociedade, Arranja dor-de-cabeça E outras desculpas assim. Agora está no jardim Toda de branco vestida. O Sol é um pintor das dúzias! Diz-que pretende doirar Aqueles cabelos curtos... Não vê! só faz relumear O preto daquele preto, Que não tem nada mais preto Que os cabelos de Maria! Como é bonita! Seus olhos São que nem jabuticabas, E mesmo que o perfil dela Seja um pouco duro, a gente Assuntando aquele rosto Que o rouge aviva mansinho, A gente sente um sossego De peito de passarinho. A gente sente...meu Deus! De deveras, um amor... Que não é amor, é amorzinho Feito de admiração. Encanto de dia-santo! Gosto que não dá desgosto! Amor não! Veneração! Si eu falasse que Maria Traz um halo na cabeça, Halo de santa moderna Que maxixa e fala o inglês, Muita gente se riria... Pois se riam à vontade! Maria traz na cabeça O halo de Santa Maria! É Shelley que está na moda, E as mãos dela sobre a capa Da edição de Oxford, orvalham O couro negro macio Com as gotas secas do brilho Das unhas manicuradas. Não quis mais ler porque livro Não lhe dá a gostosura Que tem vendo as travessuras Dos filhinhos em redor. Um fala que tem de ser Chofer duma lincoln verde; O outro inda não sabe, hesita Entre médico e aviador; O caçula... lá se amola Em saber o que será! É pecurrucho, não pensa. Tem a instintiva sabença De andorinha taperá: Aonde faz quente, ele vai. Gatinhando emigra bambo Do colo da mãi pro pai, Do colo do pai prá cama. Agora dorme na grama Sobre o pleide branco e preto. Troca a noite pelo dia... Junto dele a ama cochila, No branco e preto de estilo. ...Que a champanha dos jantares, Tal-e-qual a cobra preta, Vem de-noite e chupa o leite Da sem seios da Maria... E Maria, a outra filhinha, Maria filha de Maria, Parecida com Maria, Essa emburrou porque o mano Mais velho diz que não quer Que ela beije a cara dele. Há-de ser chofer da lincoln E há-de viver toda a vida Sem boquinha de mulher! Maria se ri tranquila. São anjos, não são? São anjos Que não têm asas por baixo Dos suéteres de listrão. Já falam seu alemão Com a governanta comprida, Mas que são anjos? são anjos Da boniteza da vida! ... Que anjos são estes Que estão me arrodeando, De-noite e de-dia... Padre Nosso... Ave, Maria!

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