Marco da Viração II Remate de Males · Capítulo 7 de 8
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Marco da Viração II

A ADIVINHA (Janeiro de 1928) Que é que é? Ele possui uma alma e um corpo feito o nosso E vai percorrendo o caminho de todos. Foi piá, quis bem a mãi, quis bem a casa dele, E afinal uma feita quis bem a cidade e foi homem. Então gostou da intrepidez das ruas normativas E cantou o orgulho do homem no indivíduo. Pôs a boca no mundo, imaginou que era um, E era apenas mais um o cantor gastador. Pôs a boca no mundo e cantou todo o dia, Porém a voz se fatigou talqualmente os vulcões E não ficou mais que o instrumento. Ser o bojo vazio do violão... A noite igualada separa a vida do universo, É o momento em que as coisas todas são resumos E pelas esquinas dos bairros se engrandecem os violões. Que é que é?... É um instrumento de música oscilando num soco de pedra. De pedra sangrenta do Itacolumi. Careceu que pela entrada da cidade lerdamente, Ao aboio alto dos homens e dos animais, Viessem os séculos montando bois castrados, Pra que o violão fosse afinal violão. O vento afina e desafina as cordas, A chuva tantana na táboa do pinho, Remexe a dança com lambança, Cada sujeito que passa tira um ponteio só dele... Tudo ponteios, tudo sons sem resultado, Reboam ressoam na caixa de todos, Sem cantos, sem palavras... A voz do homem se acabou. Sobre o mar cinzento relumeia céu de estrela, Sobre a Terra girada ao impulso dos passos populares, Que nem chagas as cidades, que nem chagas... São berevas. Não! são pensamentos! maravilhas orgulhosas! São berevas... Taperas e palácios... E a febre... As águas mornas do Paraíba... As águas novas do Missuri-Mississipi... O Reno com vilegiaturas e castelos medievais... Vamos pra Caxambu! pra Karlsbad! Vamos ver Mussolini! Vamos ver os escravos! Vamos ver si Leningrado não mudou de nome, gente! Que é que é! É o violão. Um ponteio sem voz Trepadeirando até agarrar lá em riba Nos espeques firmes das estreias do céu. Nos ares as luzes torcendo cruzando, Sempre dança, tudo maxixe impossível, As luzes fazem traçados em emboladas de luz. São anúncios. Todas as luzes são anúncios. Todas as ideias e paixões é tudo anúncio! Tudo só anúncio, só anúncio no mundo! E o pinho reboa ressoa se estrala em só anúncio! Uma bruta duma dança rag remexe a Terra? Um pensamento fundo rasga um lapo na caixa do pinho? Porém que é que é! Será choro? Será seresta de festa? Será que é pensamento mesmo? será piá? Serapião? Será violão! Que é que é balanceado no soco de pedra O instrumento saracoteando anúncios de harmonias?... Os críticos analisarão todas as harmonias, Os pensamentos conceberão sistemas e tonalidades, Será possível tirar uma regra e a regra viverá setenta-e-um anos... Mas que é que é o violão que existe e existirá Além da regra e a regra não diz nada e o violão vê na regra só anúncio!... Eh, cordas, cordas, cordas metálicas feitas de século, Se quebrem logo! Cordas, o violão não pode mais saber o que são cordas, Não sabe porque soa tanto e a caixa de ressonância Vibra com tudo, mesmo com o frescor sentimental da Luna sertaneja... Eh, cordas do violão, porque não viram homem outra vez? Deixem que ele cante a geometria praceana, E o Carnaval, e a Flor de Amor, e Mamãi com Papai! Deixem que ele possa achar de novo as palavras arcaicas! Mas o violão é mais imenso que as palavras E não as compreende mais. Que significa até a palavra “Deus”? ...alguma coisa mais desejada... Mais bem puxada, mais bem dançada, Além do mundo e do pensamento... Catira leve e jongo lento, Pra que não basta noite de dança... Êxtase de interminável festança, Que a insuficiência do amor não abre Na flor humana duma palavra... Ele ressoa no bojo do violão! no bordão! gentes, bem no bordão! Mas o violão não sabe não! ninguém não sabe! E tudo um sem sins!... Platariviux! gentes, platariviux!... Que é que é! Que é que é!... E a tristeza iluminada, vasta, instrumental, Acida inquietação, maravilhando, turtuveando, Recai sobre a adivinha. IMPROVISO DO MAL DA AMÉRICA (Fevereiro de 1928) Grito imperioso de brancura em mim... Eh coisas de minha terra, passados e formas de agora, Eh ritmos de sincopa e cheiros lentos de sertão, Varando contracorrente o mato impenetrável do meu ser... Não me completam mais que um balango de tango, Que uma reza de indiano no templo de pedra, Que a façanha do chim comunista guerreando, Que prantina de piá, encastoado de neve, filho de lapão. São ecos. Mesmos ecos com a mesma insistência filtrada Que ritmos de sincopa e cheiro do mato meu. Me sinto branco, fatalizadamente um ser de mundos que nunca vi. Campeio na vida a jacumã que mude a direção destas igaras fatigadas E faça tudo ir indo de rodada mansamente Ao mesmo rolar de rio das aspirações e das pesquisas... Não acho nada, quasi nada, e meus ouvidos vão escutar amorosos Outras vozes de outras falas de outras raças, mais formação, mais forçura. Me sinto branco na curiosidade imperiosa de ser. Lá fora o corpo de São Paulo escorre vida ao guampaço dos arranhacéus, E dança na ambição compacta de dilúvios de penetras. Vão chegando italianos didáticos e nobres; Vai chegando a falação barbuda de Unamuno Emigrada pro quarto-de-hóspedes acolhedor da Sulamérica; Bateladas de húngaros, búlgaros, russos se despejam na cidade... Trazem vodka no sapiquá de veludo, Detestam caninha, detestam mandioca e pimenta, Não dançam maxixe, nem dançam catira, nem sabem amar suspirado. E de-noite monótonos reunidos na mansarda, bancando conspiração, As mulheres fumam feito chaminés sozinhas, Os homens destilam vícios aldeões na catinga; E como sempre entre eles tem sempre um que manda sempre em todos, Tudo calou de sopetão, e no ar amulegado da noite que sua... — Coro? Onde se viu agora coro a quatro vozes, minha gente! — São coros, coros ucranianos batidos ou místicos, Sehnsucht d’além-mar! Home... Sweet home... Que sejam felizes aqui! Mas eu não posso não me sentir negro nem vermelho! De certo que essas cores também tecem minha roupa arlequinal, Mas eu não me sinto negro, mas eu não me sinto vermelho, Me sinto só branco, relumeando caridade e acolhimento, Purificado na revolta contra os brancos, as pátrias, as guerras, as posses, as preguiças e ignorâncias! Me sinto só branco agora, sem ar neste ar-livre da América! Me sinto só branco, só branco em minha alma crivada de raças! MANHÃ (18-111-1928) O jardim estava em rosa ao pé do Sol E o ventinho de mato que viera do Jaraguá, Deixando por tudo uma presença de água, Banzava gozado na manhã praceana. Tudo limpo que nem toada de flauta. A gente si quisesse beijava o chão sem formiga, A boca roçava mesmo na paisagem de cristal. Um silêncio nortista, muito claro! As sombras se agarravam no folhedo das árvores Talqualmente preguiças pesadas. O Sol sentava nos bancos tomando banho-de-luz. Tinha um sossego tão antigo no jardim, Uma fresca tão de mão lavada com limão, Era tão marupiara e descansante Que desejei... Mulher não desejei não, desejei... Si eu tivesse a meu lado ali passeando Suponhamos Lenine, Carlos Prestes, Gandhi, um desses!... Na doçura da manhã quasi acabada Eu lhes falava cordealmente: — Se abanquem um bocadinho. E havia de contar pra eles os nomes dos nossos peixes. Ou descrevia Ouro Preto, a entrada de Vitoria, Marajó, Coisa assim, que pusesse um disfarce de festa No pensamento dessas tempestades de homens. MOMENTO (16-IX-1928) Deve haver aqui perto uma roseira florindo, Não sei... sinto por mim uma harmonia, Um pouco da imparcialidade que a fadiga traz consigo. Olho pra minhas mãos. E uma ternura perigosa Me faz passar a boca sobre elas, roçando, (De certo é alguma rosa...) Numa ternura que não é mais perigosa não, é piedade paciente. As rosas... Os milhões de rosas paulistanas... Já tanto que enxerguei minhas mãos trabalhando, E tapearem por brinquedo umas costas de amigo, Se entregarem pra inimigo, erguerem dinheiro do chão... Uma feita meus dedos poisaram nuns lábios, Nesse momento eu quis ser cego! Ela não quis beijar a ponta dos meus dedos, Beijou as mãos apaixonadamente, em submissão... Ela beijou o pó das minhas mãos... O mesmo pó que já desce na rosa nem bem ela se abre. Deve haver aqui perto uma roseira florindo... Que harmonia por mim... Que parecença com jardim... O meu corpo está são... Minha alma foi-se embora... E me deixou. PELA NOITE DE BABULHOS ESPAÇADOS... (Junho de 1929) Pela noite de barulhos espaçados, Neste silêncio que me livra do momento E acentua a fraqueza do meu ser fatigadíssimo, Eu me aproximo de mim mesmo No espanto ignaro com que a gente se chega prá morte. Meu espirito ringe cruzado por dores sem nexo, Numa dor unida, tão violentamente física, Que me sinto feito um joelho que dobrasse. A luz excessiva do estúdio desmancha a carícia do objeto, Um frio de vento vem que me pisa talqual um contacto, Tudo me choca, me fere, uma angustia me leva, Estou vivendo ideias que por si já são destinos E não escolho mais minhas visões. A aparência é de calma, eu sei. Dir-se-ia que as nações vivem em paz... Ha um sono exausto de repouso em tudo, E uma cega esperança, cantando benditos, esmola Em favor dos homens algum bem que não virá... Me sinto joelho. Ha um arrependimento vasto em mim. Eu digo que os séculos todos Se atrasaram propositalmente no caminho, Me esperaram, e puxo-os agora como boi fatal. Me sinto culpado de milhões de séculos desumanos... Milhões de séculos desumanos me fizeram, fizeram-te, irmão; E pela noite de barulhos espaçados Não quero escutar o conselho que desce dos arranhacéus do norte! Eu sei que teremos um tempo de horror mais fecundo Que as rapsódias da força e do dinheiro! Será que nem uma arrebentação... Os postos isolados das cidades Se responderão em alarmas raivacentos, Saídos das casas iguais e da incúria dos donos da vida. Havemos de ver muitos manos passando a fronteira, Haverá pão grátis muito duvidoso, As salas de improviso se encherão de discussões apaixonadas, Mortas no dia seguinte em desastres que não sei quais. Será tempo de esforço caudaloso, Será humano e será também terribilíssimo... Só há-de haver mulheres que não serão mais nossas mulheres. Os piás hão-de estar sem confiança catalogados na fila, E os homens morrerão violentamente Antes que chegue o tempo da velhice.

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