Marco da Viração I
MARCO DA VIRAÇÃO a José Bento Faria Ferras ASPIRAÇÃO (9-IX-1924) Doçura da pobreza assim... Perder tudo o que é seu, até o egoísmo de ser seu, Tão pobre que possa apenas concorrer prá multidão... Dei tudo o que era meu, me gastei no meu ser, Fiquei apenas com o que tem de toda a gente em mim... Doçura da pobreza assim... Nem me sinto mais só, dissolvido nos homens iguais! Eu caminhei. Ao longo do caminho, Ficava no chão orvalhado da aurora, A marca emproada dos meus passos. Depois o Sol subiu, o calor vibrou no ar Em partículas de luz doirando e sopro quente. O chão queimou-se e endureceu. O sinal dos meus pés é invisível agora... Mas sobra a Terra, a Terra carinhosamente muda, E crescendo, penando, finando na Terra, Os homens sempre iguais... E me sinto maior, igualando-me aos homens iguais!... LOUVAÇÃO MATINAL (Dezembro de 1925) É de-manhã. Se sente a fadiga boa do sono. Porém o corpo estica, chupando com os poros abertos, Toda a luz, todo o frescor, todo o ímpeto da manhã. Eu fiz da minha vida sempre um rasgo matinal... Enquanto a água rija do banho me bate no corpo Sinto a manhã se levantando viva no país... Sinto movendo as coxas das coxilhas lá no sul; Adiante os colonos monótonos erguem o mate, E na sombra fraca do carijó a brisa trabalha, Deitando sobre a congonha o bafo sedento dela; Nos sítios de serra-acima o Solzão dependurado, Polido e carnudo que nem fruta de jerimum, Despenca dos itaquás sangrentos e se esbandalha Nas roças de milho, nas roças de arroz e nos corgos, Afugentando a sombra funda das canhadas; Nas terras de milagre as águas prenhes dos garimpos Choram em cada bateia a lagrima dum diamante; Mais pra arriba o grito pontudo do Cabugi Achata o murmurejo religioso das juremas; E quando lá no Amazonas as águas vadias se listram Com os círculos dos jacarés que afundam pra descansar, Vida de trabalho brabo, vida de todo dia. Os gaiolas sobem lentamente o rio, E os passarões, de pernas esticadas, Mergulham em reta nas nuvens morenas do céu... Tudo o que acorda na manhã do dia natural Segue uma linha bem traçada, linha já sabida, Aonde assusta de sopetão o prisco do imprevisto, Ver codorna que sem querer o camarada levantou. Possuir consciência de si mesmo isso é a felicidade, Isso é a glória de ser, fazendo o que será. Que a vida de cada qual seja um projeto de casa! Seco, o projeto agride o olho da gente no papel, Porém quando a casa se agarra no lombo da terra, Ela se amiga num átimo com tudo o que enxerga em volta, Se adoça, perde a solidão que tinha no projeto, Se relaciona com a existência, um homem vive nela, E ela brilha da força do indivíduo e o glorifica. Deflorar a virgindade boba do que tem de vir!.... Eu nunca andei metido em sortes nem feitiçarias, Não posso contar como é a sala das cartomantes, E minhas mãos só foram lidas pelos beijos das amadas, Porém sou daqueles que sabem o próprio futuro, E quando a arraiada começa, não solto a rédea do dia, Não deixo que siga pro acaso, livre das minhas vontades. O meu passado... Não sei. Nem nunca matuto nele. Quem vê na noite? o que enxerga na escureza assombrada? O que passou, passou; nossa vaidade é tão constante, Os preconceitos e as condescendências são tão fáceis Que o passado da gente não é mais Que um sono bem comprido aonde um poder de sombras lentas Mostram que a gente sonhou. Porém não sabe o que sonhou. Não recapitular! Nunca rememorar! Porém num rasgo matinal, em coragem perpétua Ir continuando o que um dia a gente determinou! Eu trago na vontade todo o futuro traçado! Não turtuveio mais nem gesto meu para indeciso! Passam por mim pampeiros de ambições e de conquistas, Chove tortura, estrala o mal, serenateia a alegria, Futuro está gravado em pedra e não se apaga mais! Por isso é que o imprevisto é para mim mais imprevisto Guardo na sensação o medo ágil da infância, Eu sei me rir! eu sei me lastimar com ingenuidade! Nombrada da terra em força nova na manhã! Ao pé de mim São Paulo em rosa vibra cheirando vida O Sol abrindo o paraquedas de ouro na amplidão E peneirando o polem do calor sobre esse mundo.., Rangem os caminhões. Padeiro entrega o pão. O leite Ferve no fogo. A feira grita de cor. As notícias Correm povo no galopão folgado dos jornais. Autoônibus bufando. Tudo bufando, abrindo asa... A cidade mexe de vida fresca, temporã. É a manhã! é a manhã! a glória formidável da manhã!... Eu fiz da minha vida sempre um rasgo, uma nombrada matinal... Isso é a felicidade. E a minha glória. IMPROVISO DO RAPAZ MORTO (1925) Morto, suavemente ele repousa sobre as flores do caixão. Tem momentos assim em que a gente vivendo Esta vida de interesses e de lutas tão bravas, Se cansa de colher desejos e preocupações. Então para um instante, larga o murmúrio do corpo, A cabeça perdida cessa de imaginar, E o esquecimento suavemente vem. Quem que então goze as rosas que o circundam? A vista bonita que o automóvel corta? O pensamento que o heroíza?... O corpo é que nem véu largado sobre um móvel, Um gesto que parou no meio do caminho, Gesto que a gente esqueceu. Morto, suavemente ele se esquece sobre as flores do caixão. Não parece que dorme, nem digo que sonhe feliz, está morto. Num momento da vida o espirito se esqueceu e parou. De repente ele assustou com a bulha do choro em redor, Sentiu talvez um desaponto muito grande De ter largado a vida sendo forte e sendo moço, Teve despeito e não se moveu mais. E agora ele não se moverá mais. Vai-te embora! vai-te embora, rapaz morto! Oh, vai-te embora que não te conheço mais! Não volta de-noite circular no meu destino A luz da tua presença e o teu desejo de pensar! Não volta oferecer-me a tua esperança corajosa, Nem me pedir para os teus sonhos a conformação da Terra! O universo muge de dor aos clarões dos incêndios, As inquietudes cruzam-se no ar alarmadas, E é enorme, insuportável minha paz! Minhas lagrimas caem sobre ti e és como um Sol quebrado! Que liberdade em teu esquecimento! Que independência firme na tua morte! Ôh, vai-te embora que não te conheço mais! MOMENTO (Novembro de 1925) Ninguém ignora a inquietação do clima paulistano... Pois tivemos boje uma arraiada fresca de neblina. Depois do calorão duma noite maldita, sem sono, Uma neblina leviana desprendeu das nuvens lisas E pousou um momentinho sobre o corpo da cidade. Ôh como era boa, e o carinho que teve pousando! Não espantou, não bateu asa, não fez nenhuma bulha, Veio, que nem beijo de minha mãi si estou enfezado Vem mansinho, sem medo de mim, e poisa em minha testa. Assim neblina fez, e o sopro dela acalmou as penas Desta cidade histórica, desta cidade completa, Cheia de passado e presente, berço nobre onde nasci. Os beijos de minha mãi são tal-e-qual a nebrina madruga... Meu pensamento é tal-e-qual São Paulo, é histórico e completo, É presente e passado e dele nasce meu ser verdadeiro... Vem, neblina, vem! Beija-me, sossega-me o meu pensamento! PONTEANDO SOBRE O AMIGO RUIM (Março de 1927) Enfim a gente não é mais amigo um do outro não. Você anda fácil, levianinho, No labirinto das complicações. Que subtileza! quanta graça dançarina!... É certo que fica sempre Bastante pó das asas de você Nos galhos, nos espinhos, Até nas flores desse mato... Mesmo já pus reparo várias vezes Nas asas de você estragadas pelas beiras... Porém o essencial, o importante E que apesar desse estrago inda você pode voar. Eu não sou assim não. Sou pesado, bastante estabanado, Não tenho asa nem muita educação. Careço de caminho largo, bem direito. Si falta espaço, quebro tudo, Me firo, me fatigo... Afinal caio. No meio do mato eu paro, não posso mais caminhar. Não posso mais. Você... É possível que ainda me chame de amigo... Mesmo perdendo um bocadinho de asa Pousa no meu espinheiro e inda pode voar depois. Mas eu, eu sofro é certo, Porém já não sou mais amigo de você. Você é amigo do mar, você é amigo do rio... AS BODAS MONTEVIDEANAS (15-1-1928) Todas as coisas estarão boazinhas porque são indiferentes... Vocês chegaram até o ponto da alegria... Praquê matutar mais? — “Pois que a gente se quer bem, tanto! que o corpo Consegue ficar na espera tempo longo de conversa, Não venham nos avisar que é Buenos Aires lá fora, Que é Buenos Aires com toda a magnitude firme dela! Não venham nos avisar que até o garçom olha pra nós... Não venham não! E que ninguém não venha mais! Diz, pássaro, diz outra vez como foi que você veio parar aqui! Diz tudo, e diz principalmente outra vez, pássaro! Repete, não faz mal, repete o caso, colhereira chiquita do Brasil!... Será mesmo que a gente se escuta falando? Diz, pássaro! Que a voz de você ameigue as coisas que muito já sei, Enquanto os nossos olhos entram fundo no invisível de nós dois, Praquê matutar mais!...” — “Ah, flores duma outra idade e marchas nupciais, véus de noiva... Amanhã cedo iremos a Montevidéu casar... Tem mais comodidade lá na Lei, até divórcio nos reserva, E nós iremos a Montevidéu só pra casar... Praquê matutar mais, viva o Uruguai! Nem bem chegando lá vou no cabeleireiro concertar as sobrancelhas, stou medonha, E você bota a gravata listrada que dei pra você. Nos casaremos alinhados. Flores de laranjeira não, bobagem! mas... que tal umas laranjas? Umas laranjas bem geladas, bem acidas pro jantar... Vai ser bom!” Ah, flores duma outra idade e marchas nupciais, véus de noiva, Até vocês podem cair sobre eles, os noivos aceitarão tudo! A terra enorme em todos os seus gritos que ranja na marcha nupcial! A burundanga dos ventos de poeira, pampeiros, noroestes, sulões, Cheirosos, se tecendo em véu de noiva sobre o pássaro, E a florada meridional das estrelas despencando em flor sobre eles!... Aceitam tudo porque já não é mais hora de enxergar. E que o quarto de hotel, Montevidéu, a Terra, o mundo, Sejam pequenos ou grandes, qual! de nada saberão mais! Canta, som complacente de minha voz, a louvação nupcial com entusiasmo! Canta por ti, canta apostando! Canta, que o canto nupcial é torcida também, torce pra eles! A equipe nova seguiu andarilha, Torce pra que eles cheguem juntos no destino! Torce, ri contente, grita que embora não ouçam-te o grito, O som irá dinamizar o ardor dos jogadores! Dinamiza! Dá força, dá ritmo, porque o jogo bem torcido É comovente, mais movimentado e bem de esporte leal! Abaixo os profissionais! Canta num som mui alto, casta e desnecessária! Desabaladamente, feito boba, canta e recanta muito, Eles estão no jogo e já não podem cantar mais! Torce, torce e grita boba-alegre comovida sem sentido! Para eles vai ser a vitória ou a derrota no jogo, despeito ou completamento, Porém pra ti, voz minha, resta o canto de esporte vital, acima dos resultados! Canta alegre na torcida, voz de poeta! Canta sem ter razão pra estar alegre! Dois seres sem temor, sem matutar se uniram, dois a mais! Não tens razão especial não pra estar alegre, voz de poeta? Pois canta assim mesmo ignorando a razão que te leva, Mas canta sempre! Canta empolgada à violência da Terra, A violência dos seres que através das civilizações aflitivas, Inda enxergam o Sol na abertura dos dias E bailam sobre os vulcões!