Tempo da Maria I-V Remate de Males · Capítulo 3 de 8
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Tempo da Maria I-V

TEMPO DA MARIA (1926) A Dona Eugenia Álvaro Moreyra I MODA DO CORAJOSO Maria dos meus pecados, Maria, viola de amor... Já sei que não tem propósito Gostar de donas casadas, Mas quem que pode com o peito! Amar não é desrespeito, Meu amor terá seu fim. Maria há-de ter um fim. Quem sofre sou eu, que importa Pros outros meu sofrimento? Já estou curando a ferida. Se dando tempo pro tempo Toda paixão é esquecida. Maria será esquecida. Que bonita que ela é!... Não Me esqueço dela um momento! Porém não dou cinco meses, Acabarão as fraquezas E a paixão será arquivada. Maria será arquivada. Por enquanto isso é impossível. O meu corpo encasquetou De não gostar sinão duma... Pois, pra não fazer feiura, Meu espirito sublima O fogo devorador. Faz da paixão uma prima, Faz do desejo um bordão, E encabulado ponteia A malvadeza do amor. Maria, viola de amor!... II AMAR SEM SER AMADO, ORA PINHÕES! Esperemos neste lugar. Não sou nenhum conde do papa, Só mesmo de Anto serei conde... Sou poeta da viação barata, Mario, pague os duzentos réis... Siga, chofer. Espero o bonde. Cachorro. Trilhos nobres. Moças. Moças, não. Mulheres perdidas No oiro, distinga-se, sinão Perde o sal a comparação Com que saudei essas amigas: — Grandes auroras promissoras! Tenho jeito pra gigolô... E, por falar de aurora, enfim Me dá São Paulo uma tardinha De que o poeta Gonçalves Dias Si tivesse alguma saudade, Tinha razão. Que nem rubi De puro oriente, no ocidente O Solão despenca do mármore Dum céu elegante, na estica. Esta folha no meu chapéu... Em mim, talqual num tronco de árvore, Trepa um ventinho piricica. Me perdi pelas sensações. Não sou eu, sou eus em farrancho, E vem lavar minha retina, Em maretas de poeira fina Todas as coisas tamisando, O Tamisa das ilusões. Me dissolvo por essas aguas! E na vista submarina, Renovo o milagre cristão Com a minha multiplicação: Sou a festança desta vida! Peixes! Torpedos... bondes... casas... Cavam a terra no jardim. É no meu peito. Como um ólio, Me esparramo pela cidade, E as coisas, nessa intimidade, São um dilúvio de olhos, olhos Meus, assuntados sobre mim. Tudo se funde em minha vista. Estou alegre. Coisa estranha, Não sinto o bem, sorrio ao mal... Será a inconsciência transcendental Que enche a boca de Graça Aranha? Todo Infinito! ôh farra! ôh Lapa! Não sei não. Porém, ver um Zeus, Conhecem? Zeus de casimira, Meio suado, vou no universo Buscando o meu fogo disperso Que pelas coisas girogira, Roubado pelos Prometeus. As sacudidelas do bonde, Na minha frente rósea chama Crepita, ôh pescoço! Um ardor Principiante, consolador, Zeus (Zeus sou eu) gemendo chama: — Fogo, onde estás, aonde? aonde? É isso! Rapazes, encontrei O fogaréu maravilhoso Que foi, que é meu, que será sempre Meu! Relumeia à minha frente, E devora num instantinho As minhas paus Táboas da Lei. Moralidade, lei seca, vá-se Embora! Vá por Seca e Meca! Darei Seca, Meca e Baía Por mais este amor, sim, mais um, Porque enfim é amante de poeta Toda e qualquer mulher que passe! Êxtase! Desejo! Loucura! Quasi dolorosa surpresa! Espanto de não ser mais só! E a gente imagina que é o pó Que sufoca e, vai, com aspereza Bota a culpa na Prefeitura. Minha paixão de sopetão! Já nem posso mais respirar! Que pescoço! que braços! quê!... Bom... olhemos a natureza. O céu se encurva sobre o chão Num gesto forte de abraçar. Te amo!... Que bonita que ela é!... Trago comigo o cheiro dela, Só penso nela!... Infelizmente O meu caso não tem futuro, Ai, Maria do perfil duro, Ai, Maria sempre presente!... Que friúme em minha tristeza... Rapazes! a minha alegria, A minha alegria está presa Num perfil duro de mulher! Ela me olha tão fria, fria... Ora! verifiquemos como Rictus: “Merde! voilà l’hiver.” Poeta, sossegue, ela é casada... Pois sim. Pensemos noutra coisa. No que será?... Negro de suéter, Que engraçado!... mas... que tristeza! Esta vida não vale nada!... Vou cantar a Louvação do Éter! Vaga hipótese sem perigo! Hangar da nossa segurança! Luz de Einstein et caterva! Prova Dos nove da sabença humana! Deus, que a cosmogonia nova Nunca viu, mas conta contigo! Obra-prima do nosso Amigo! De alguma entocaiada parte Aonde a ciência não entrou, Me dás a honra de ser, e eu sou, Por tuas artes, Malazarte, Vaga hipótese sem perigo... Tudo isto há-de passar, Maria, Durma em sossego. O meu respeito Sempre há-de respeitar você. Eu não aguento mais meu peito! Mas jamais não aceitaria Arranjos como o de Musset! Durma sem medo, sossegada. Você não vai prá sala grande, Tem sala à parte em meu harém. Vista o pijama dos meus olhos, E descanse sobre o meu sonho Que nunca fez pra ninguém! Eu velarei a corajosa Dormindo sobre a dinamite... Fumos... Assombrações... Não te Largo mais, Iara do Tietê!... Ao menos até que fareje Alguma paixonite nova... É o fim. Lá fora dormirá Pauliceia. Paz. Quasi informe, Ela dorme, dorme sorrindo, Enquanto gemo o verso lindo Com que as índias parecis dormem... Uirô mococê cê-macá... III CANTIGA DO AI Ai, eu padeço de penas de amor, Meu peito está cheio de luz e de dor! Ai, uma ingrata tão fria me olhou, Que vou-me daqui sem saber pra onde vou! Eu cheirei um dia um aroma de flor E vai, fiquei doendo de penas de amor! Foi minha ingrata que por mim passou! Ai, gentes! eu parto! não sei pra onde vou! Ai, malvada ingrata que escolhi bem! Eu sofro e não posso queixar de ninguém! Sofro mas me orgulho de meu sofrer, É linda a malvada que fui escolher! Tem a mansidão dos portos de mar Mas porém é arisca que nem pomba-do-ar! Ela é quieta e clara, ela é rosicler, É a boca-da-noite virada mulher! Ai, unhas de vidro para me encantar! Ai, olhos riscados pra não me enxergar! Ai, peito liso, boca de carmim! Ingrata malvada que não pensa em mim! Ai, pena tamanha que me quebrou! Adeus! vou-me embora! não sei pra onde vou! Lastimem o poeta que vai partir, Moçada se amando no imenso Brasil!... IV LENDA DAS MULHERES DE PEITO CHATO Macunaíma, Maria, Viajando por essas terras Com os dois manos, encontrou Uma cunhã tão formosa Que era um pedaço de dia Na noite do mato virgem. Macunaíma, Maria, Gostou da moça bonita. Porém ela era casada, E jamais não procedia Que nem as donas de agora, Que vivem mais pelas ruas Do que na casa em que moram; Vivia só pro marido E os filhos do seu amor, Fiava, tecia o fio, Pescava, e março chegado, Mexendo o corpo gostoso, Ela fazia a colheita Do milho de beira-rio. Que bonita que ela é!... Bom. Macunaíma, Maria, Não poude seguir, ficou. Quê que havia de fazer! Amar não é desrespeito, Falou pra ela e ela se riu. Então lhe subiu do peito A escureza da paixão, E o apaixonado cegou. Pegou nela mas a moça Possuía essa grande força Que é a força de querer bem: Forceja que mais forceja, Até deu nele! Não doeu. Macunaíma, Maria, Largou da moça. Ôh, meu Deus! Como estava contrariado! Pois um moço que ama então Não tem direito de amar! Tem, Maria, tem direito! Te juro que tem direito! Macunaíma fez bem! O amor dele era tão nobre Ver o do outro que casou. Casar é uma circunstância Que se dá, que não se dá, Porém amar é a constância, Porta num, se abanca, e o pobre Tem que lhe matar a fome, Dar cama pra ele dormir. Macunaíma, Maria, Era como eu brasileiro, E em todas as moradias Que se erguem no chão quentinho Do nosso imenso Brasil, Não tem uma que não tenha Um quarto-de-hóspedes pronto! Pobre do Macunaíma, Não tem culpa de penar! Foi brasileiro, amor veio, Ele teve que hospedar! — Eu te amo, (que ele falava) Moça linda! Você tem Esse risco de urucum Na beira do olhar somente Pra não ver quem te quer bem! Olhos de jabuticaba! Colinho de cujubim!... Te adoro como se adora Com doçura e com paixão! Maria... Vamos embora! (Que ele falava prá moça) Eu quero você pra mim! Bom. O coitado, Maria, De tanta contrariedade, Pôs reparo que é impossível Se ser feliz neste mundo, Em plena infelicidade... Se vingou... Tinha ali perto Dois cachos de bananeira. Cortou deles...você sabe, Os mangarás pendurados, Que de tão arroxeados Têm mesmo a cor da paixão. Lá no Norte chamam isso De “filhotes da banana”, E a bananeira dá fruta Uma vez, não dá mais não... Macunaíma, Maria, Pegou na moça, arrancou Os peitinhos emproados Do colo de cujubim, Pendurou no lugar deles Os filhotes da paixão. Por isso essa moça dura, De quem nós todos nascemos, Tem o colo que nem de homem, De achatado que ficou. E hoje as donas são assim... Adianta a lenda que a moça Ficou feia... Não sei não... V ECO E O DESCORAJADO Neste lugar solitário Onde nem canta o sem-fim, Choro. E um eco me responde Ao choro que choro em vão. Eco, responda bem certo, Meus amigos me amarão?... E o eco me responde: — Sim. Pois então, eco bondoso, Você que sabe a razão Porque deixando o tumulto De Pauliceia, aqui vim: Eco, responda bem certo, Maria gosta de mim?... E o eco me responde: — Não! Antes morrer!... Eu me sinto Tão vazio com este amor... Não aguento mais meu peito! Morrer! seja como for! Eco, responda bem certo, Morrerei hoje, amanhã?... E o eco me responde: — Nhãam...

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