Poemas da Amiga Remate de Males · Capítulo 8 de 8
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Poemas da Amiga

POEMAS DA AMIGA a Jorge de Lima (1929-1930) I A tarde se deitava nos meus olhos E a fuga da hora me entregava abril, Um sabor familiar de até-logo criava Um ar, e, não sei porque, te percebi. Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança. Estavas longes, doce amiga; e só vi no perfil da cidade O arcanjo forte do aranhacéu cor-de-rosa Mexendo asas azuis dentro da tarde. II Si acaso a gente se beijasse uma vez só... Ontem você estava tão linda Que o meu corpo chegou. Sei que era um riacho e duas horas de sede, Me debrucei, não bebi. Mas estou até agora desse jeito, Olhando quatro ou cinco borboletas amarelas, Dessas comuns, brinca brincando no ar. Sinto um rumor... III Agora é abril, ôh minha doce amiga, Te reclinaste sobre mim, como a verdade, Fui virar, fundeei o rosto no teu corpo. Nos dominamos pondo tudo no lugar. O céu voltou a ser por sobre a terra, As laranjeiras ergueram-se todas de-pé E nelas fizemos cantar um primeiro sabiá. Mas a paisagem logo foi-se embora Batendo a porta, escandalizadíssima. IV Ôh trágico fulgor das incompatibilidades humanas! Que tara divina pesa em nosso corpo vitorioso Não permitindo que jamais a plenitude satisfeita Descanse em nosso lar como alguém que chegou!... Não tenho esperança mais nas vossas revelações! Vós me destes o amor, me destes a amizade, E na experiência de minha doce amiga me destes Mais do que imaginei... Mas a volta foi cruel. Eu sofro. Êh, liberdade, essência perigosa... Espelhos, Pireneus, caiçaras e todos os desesperos, Vinde a mim que outros agora aboiam pra eu marchar! Tudo é suavíssimo na flora dos milagres... Um pensamento se dissolve em mel e à porta Do meu coração há sempre um mendigo moço esmolando... Eu saí da aventura! Eu fugi da ventura! Nós não estamos na cidade nem no mato. Nós rolamos na ânsia dos fabulosos aeroplanos, E vos garanto que agora não acabaremos mais! V Contam que lá nos fundos do Grão-Chaco Mora o morubixaba chiriguano Caiuari, Nas terras dele nenhum branco não entrou. São planos férteis que passam a noite dormindo Na beira dum lagoão, calmo de garças. Enorme gado pasta ali, o milho plumeja nos cerros, E os homens são todos bons lá onde o branco não entrou. Nós iremos parar nesses desertos... Viajando através de fadiga e miséria, Os dias ferozes nós descansaremos abraçados, Mas pelas noites suaves nossos passos nos levarão até lá. E ao vivermos nas terras do morubixaba Caiuari, Tudo será em comum, trabucaremos como os outros e por todos, Não haverá hora marcada pra comer nem pra dormir, Passaremos as noites em dança, e na véspera das grandes bebedeiras Nos pintaremos ricamente a riscos de urucum e picumã. Pouco a pouco olvidaremos as palavras de roubo, de insulto e mentira, A terminologia das nações e da política, E dos nossos pensamentos afinal desertarão as profecias. Oh, doce amiga, é certo que seriamos felizes Na ausência deste calamitoso Brasil!... Fecho os olhos... É pra não ver os gestos contagiosos... Ando em verdades que deviam já não ser do tempo mais... A nossa gente vai muito sofrer e tenho o coração inquieto. VI Nós íamos calados pela rua E o calor dos rosais nos salientava tanto Que um desejo de exemplo me inspirava, E você me aceitou por entre os santos. Erguer do chão um toco de cigarro, Fuma-lo sem saber por que boca passou, A terra me erriçava a língua e uma saliva seca Poisando nos meus lábios molhados renasceu. Todos os boitatás queimavam minha boca Mas quando recomecei a olhar, ôh minha doce amiga, Os operários passavam-se todos para o meu lado, Todos com flores roubadas na abertura da camisa... O Sol no poente, de novo aurorai e nativo, Fazia em caminho contrário um dia novo; E as noites ficaram luminosamente diurnas, E os dias massacrados se esconderam no covão duma noite sem fim. VII Ê hora. Mas é tal em mim o vértice do dia Nesta sombra... Porque serás mais que os rapazes, E bem mais, muito mais do que as amantes?... Sombra!... Sombra de cajazeira perfumada, Saudando a minha inquietação com a tua delícia! Eu poderia dormir no teu regaço, ôh mana... Abri-vos, rincões do sossego, Não cuideis que é minha amante, é minha irmã! Porém é muito cedo ainda, e no portão do Paraiso O anjo das cidades vigia com a espada de fogo na mão. VII (bis) É uma pena, doce amiga, Tudo o que pensas em mim. Eu sei, porque acho uma pena Também o que penso em ti. Mesmo quando conversamos, E uma pena, outras conversas De olhos e de pensamentos. Andam na sala, dispersas. VIII Gosto de estar a teu lado, Sem brilho. Tua presença é uma carne de peixe, De resistência mansa e um branco Ecoando azuis profundos. Eu tenho liberdade em ti. Anoiteço feito um bairro, Sem brilho algum Estamos no interior duma asa Que fechou. IX Vossos olhos são um mate costumeiro. Vossas mãos são conselhos que é indiferente seguir. Gosto da vossa boca donde saem as palavras isoladas Que jamais não ouvi. Porém o que eu adoro sobretudo é vosso corpo Que desnorteia a vida e poupa as restrições. Oh, doce amiga! vossos castos espelhos de aurora Despejam sobre mim paisagens e paisagens Em que passeio feito um rei sem povo, Cortejado por noruegas, caponetes e caminhos, — Os caminhos incompetentes que jamais não me conduzirão a alguém!... X Os rios, ôh doce amiga, estes rios Cheios de vistas, povoados de ingazeiras e morretes, Pelo Capibaribe irás ter ao Recife, Pelo Tietê a São Paulo, no Potengi a Natal. Pelo Tejo a Lisboa e pelo Sena a Paris... Os rios, ôh minha doce amiga, na beira dos rios E a terra de povoação em que as cidades se agacham E de-noite, que nem feras de pelo brilhante, vão beber... Pensa um bocado comigo na vasta briga da Terra, E nas cidades que nem feras bebendo na praia dos rios! Insiste ao pé de mim neste meu pensamento! E os nossos corações, livres do orgulho, Mais humilhados em cidadania, Irão beber também junto das feras. XI A febre tem um vigor suave de tristeza, E os símbolos da tarde comparecem entre nós; Não é preciso nem perdoar nem esquecer os crimes Pra que venha este bem de sossegar na pouca luz. É a nossa intimidade. Um fogo arte, esquentando Um rumor de exterior bem brando, muito brando, E dá clarões duma consciência intermitente. A poesia nasce. Tu sentes que o meu fluido se aninha em teu colo e te beija na face, E, por camaradagem, me olhas ironicamente. Mas estamos sem mesmo a insistência dos nossos brinquedos. E o vigor suave da febre Não intimida os nossos corações tranquilos. XII Minha cabeça poisa nos seus joelhos, Vem o entre-sono, e é milagroso! A vida se conserva em mim doada pelos seus joelhos, E sou duma inimaginável liberdade! Ôh espíritos do ar que os homens adivinham, Dizei-me o que se evola do meu corpo! Essa outra coisa vaporosa e brancacenta Que não é fumo, nem echarpe, Não tem forma porém não se desmancha E baila no ar... Todos os adeuses, todos os espelhos e girandolas Voltijam no espaço que se enche e esvazia Num tremor avido a esfolhar-se em pregas sem dureza... Abre a rosa oculta em sinais, Manhãs em vésperas de ser, Pireneus sem desejo, enquanto à espreita, Os objetos em torno me invejam Buscando me prender na miséria da imagem... Oh espíritos do ar, dizei-me a rosa incomparável Que se evola reagindo em baile no ar! Baile! Baile de mim no entre-sono! Não é uma alma, não é um espirito do ar, não é nada! E a outra coisa que baila, que baila, que baila, Livre de mim! gratuita enfim! fútil de eternidade! Ôh, brinca, brinca, minha melodia! Sabiá da mata que canta a mei-dia! Olha o coco, Sinhá!

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