Bases da nacionalidade brasileira: conquista, consolidacao e independencia Estudos brasileiros: 1a. série · Capítulo 2 de 8
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Bases da nacionalidade brasileira: conquista, consolidacao e independencia

O CYCLO DA CONQUISTA

O Bandeirante

As guerras da libertação do território tornaram o paiz mais familiar aos seus naturaes. Mas não foi somente esse facto que contribuiu para o desvendamento do solo; foi, por egual, o desenvolvimento da industria pastoril, nas capitanias do norte e do centro. Mais que tudo isso, porém, influio na conquista da terra a epopéia sem par, o drama commovente das Bandeiras. Chamavam-se assim os bandos de aventureiros que faziam longas entradas pelos sertões, primeiro, em busca de índios para a escravidão, e, logo depois, á cata das legendárias serras de cristal e esmeraldas X1).

O bandeirante é um heroe sem compromissos. As mais das vezes, enfrenta com os próprios recursos a natureza semeada de espantos, vencendo todos os perigos e difficuldades que lhe deparam os prei cipicios e os boqueirões, as selvas povoadas de selvicolas vingativos, os lagos e os mangues cheios de miasmas e febres perniciosas. Levando, espontaneamente, os padrões reaes aos. contrafortes andinos, e,

í 1 ) Vide: Rocha Pombo. Historia do Brasil. vol. VI, A. E. Taunay. Annaes do Museu do Ipiranga vol. I. por vezes, transpondo-os em arriscadas travessias, até ás praias do Oceano Pacifico, quando não, remontando o continente até ás Antilhas, o bandeirante é o typo histórico de mais excellencia e que mais orguíhece o coração brasileiro. Formamos o nosso espirito na lenda maravilhosa e na realidade, mais incrível que a fantasia, dos seus feitos de bravura inexcedivel.

Partindo do Brasil meridional, dos planaltos paulistas,, os aventureiros, auxiliados por homens já mestiçados, os terríveis mamelucos, seguiam o curso dos enormes rios, fundando aldeiamentos que se transformariam em cidades, plantando e semeando a terra, quando escasseavam os recursos, construindo'canoas, cavadas no tronco das pesadas arvores, quando se viam na contingência de atravessar as torrentes caudalosas, defendendo-se, no concavo das cavernas e dos grotões, das tropelias do selvagem opprimido. Longe das famílias, afastados milhares de kilometros da civiliza'-* ção litorânea, os bandeirantes, sem o saberem, foram os nossos primeiros soldados, os obscuros obreiros da nossa diplomacia, dos nossos consecutivos triumphos nas questões litigiosas de fronteiras. Elles engrandeceram e dilataram o patrimônio recebido dos portugueses, repetindo, na floresta bravia, a tragédia de sangue e fogo dos lusos no mar alto.

Centenas e centenas de bandeirantes pereceram, varados de flechas, atacados de sezões, assassinados em rixas e recontros sinistros, ou com os membros despedaçados ás garras da onça e nas mandibulas do crocodilo. Nem um desanimava, comtudo. Parece até que as más noticias serviam para lhes accender o animo. Os filhos substituem os pães, os genros ficam no logar dos sogros, nessas entrepresas memoráveis. A ambição enérgica desses homens não conhece temor nem desalento. O bandeirante deseja imperiosamente, e, se não alcança o que deseja, investe com o desconhecido sem recuar um instante. ü esclarecido escriptor inglês, Southey, na sua «Historia do Brasil», assevera que «se estes aventureiros se não houvessem movido, ter-se-ia a Espanha apoderado da costa do Brasil ao sul de Paranaguá, e espanholas em vez de portuguesas teriam sido no sertão as minas de Goiaz e Cuiabá.»

Pelo mesmo diapasão afinam os demais historiadores, nomeadamente o sr. Rocha Pombo, que, deste modo, se exprime: «Sem as grandes bandeiras, em que o colono se faz forte e altivo pela consciência do seu valor, pelo sentimento das suas condições, pela ufania da sua fortuna — é claro que a nossa directriz histórica teria sido muito differente... Não só as industrias que se creavam nos núcleos do litoral não teriam sido sufficientes para prover á nossa economia própria naquelles dous últimos séculos de regime subalterno, — como é incontestável que os espanhóes, pelo sul e por loeste, teriam logo occupado a maior parte do território que a Espanha, com todo o direito, julgava de sua exclusiva júris dicção» (1).

Além das riquezas que descobriam, era, também, a geographia physica do paiz que os bandeirantes fixavam nos seus roteiros e assentamentos de viagens. Curiosos ao extremo, annotavam, por vezes pitorescamente, todas as particularidades que iam incontrando no rumo das suas expedições. Ora é o aspecto de valles e montanhas, ora a configuração das matas e dos terrenos, ora uma anecdota familiar,

í1) Rocha Pombo. Ob. rit. vol. VI, a relação de uma guerrilha ou de qualquer ceremonia religiosa, o que se lê i:?s suas cadernetas de campo. Embora colhidas por processos empíricos, as suas informações são seguras e úteis.

Acontecia, comtudo, extraviarem-se nos matagaes e nas caatingas. Muitos não atinavam mais com as picadas e atalhos recentemente abertos, e logo revestidos de hervas rasteiras, brotadas como por milagre do chão dadivoso. A tortura desses infelizes, presos nas malhas dos cipoaes e na enrediça movei das lianas floridas, entre a penumbra verde e insidiosa dos jequitibás e das perobeiras, é inenarrável! Picados de insectos venenosos e carnívoros, salteados de animaes ferozes, não perdiam nunca a esperança de voltar um dia. E quantos, já esqueletos miseráveis, foram encontrados na solidão das furnas, tendo, misturadas aos ossos encardidos, aquellas pobres turmalinas, que o sonho transformava em esmeraldas sem macula.

Essa cruzada dos Bandeirantes ainda supera a da libertação do território, pois foi emprehendida contra o ignorado e não teve por si o esplendor das batalhas a luz do sol. Ao cabo de travores e provações, quando estavam todos convencidos da inutilidade das bandeiras, mau grado as lendas que corriam, respeito á abundância de metaes preciosos no Brasil, eis que fechando o Cyclo da Conquista, outro se abre, com o feliz achado das minas de ouro, que iriam assegurar, finalmente, a prosperidade da terra, transformando-a, de improviso, em um novo El-Dorado.

O CYCLO DA CONSOLIDAÇÃO

A Febre do Ouro

Confirmava-se, pois, a existência daquelles thesouros com que o aventureiro Roberio ou Belchior Dias deslumbrou a corte de Madrid, offerecendo a Felippe II «mais prata no Brasil do que Bilbau dava ferro em Biscaya.» Dentro em pouco, escreve um antigo chronista, «tornou-se o ouro o iman dos brasileiros». Áquelles veios auriferos, que, durante cento e cincoenta annos, jaziam ignorados, acorreram em massa populações inteiras. Para Sabará, para Matto-Orosso e Ooiaz, carregando as bagagens no lombo de burros ou em carros de bois, dirigiam-se famílias numerosas, com escravos e agregados. Despovoavanse o litoral, as lavouras eram abandonadas, os campos de criação ficavam desertos, da noite para o dia, Os sertões, antes entregues ao bandeirante, enchiam-se agora das vozes e da celeuma daquelles improvisados mineiros.

Não tardou,, commenta, com a emphase do tempo, um autor do século XVIII, que «esses ecos, levados nas asas da fama sobre os mares, voassem á Europa: foram ouvidos em1 Portugal com attenções de estranha novidade, e alvoroços de alegria; nos reinos de estrangeiros com esperança de utilidade e maior inveja da fortuna.. Viu-se em breve transplantado meio Portugal a este empório, já celebre por todo o mundo.» (*) Descontado o gongorismo da expressão, é certo que o honesto Simão Ferreira Machado justamente se impres»-JJ y (iif » t

(i) Simão Ferreira Machado — Triumpho Eucharistuo (in Rev. Ardi. Pub. Mineira VI. 985). sionara com o quadro que pudera presenciar. Verificou-se entre nós o mesmo phenomeno que na Califórnia, no México e no Peru. O exagero das versões e dos boatos ensandecia os aventureiros. Corriam, por exemplo, noticias dê que nas minas de Cuiabá «os granetes de ouro eram tantos que os empregavam como chumbo de espingarda; que eram de ouro as pedras que serviam de trempe ás panellas no fogo; e que para colhelo bastava arrancar as touças do capim, pois, nas raízes vinham pregadas as folhetas.» As serras de esmeralda, que fascinaram os Paes Leme e os Borba Gato, mudadas em ouro, relumbravam nas miragens que enlouqueciam os mineiros. A caça aos metaes e pedrarias determinou o nascimento de aldeias, villas e cidades, e a colonização rápida de grandes porções do interior, augmentando de importância a immigração de brancos e facilitando a travessia do paiz, pela abertura de estradas de rodagem, e construcção de obras de engenharia, necessárias ao transporte de peões e viaturas.

O ouro e o diamante trouxeram, todavia, para os brasileiros, horas amargas.. Mais que os colonos delirou a administração da metrópole, viciada e deshonesta, incapaz e servil, já completamente entregue de mãos atadas aos banqueiros de Londres. «As importações inglesas, observa o sr. João Ribeiro, excediam as exportações de Portugal em cerca de um milhão esterlino, pago em ouro do Brasil, porque a Inglaterra não recebia productos (assucar, tabaco, etc), que tinha nas suas colônias. O cambio de Lisboa caiu a 15 o/0 com esse desequilibrio; as casas inglesas em Portugal tomaram conta do commercio interno. As frotas do Brasil, das Companhias de Commercio, são inglesas de facto, ainda que não figurem nomes senãor portugueses. Calcula-se em dous billiões e quatrocentos milhões de francos o ouro exportado do Brasil, no período de 60 annos que se seguiram á descoberta das minas, somma que passou quasi toda aos ingleses, porque em Portugal a circulação apenas era de 15 a 20 milhões e o paiz devia 72. Foram, pois, as minas de ouro do século XVIII, isto é, as minas do Brasil que, quanto podiam, collaboraram na prosperidade actual da Inglaterra.» (x).

(*) João Ribeiro. Historia do Brasil, pag. 238. 9.* ed.

O Governo de Portugal não poupou os peiores vexames aos colonos, movido pela cobiça desenfreada de D. João V, o rei perdulário e mulherengo, que distribuía, para satisfazer os caprichos das suas amantes, as pepitas e os brilhantes das Minas Geraes. O ambiente de ódio e humilhação que os decretos protecionistas do Reino iam creando, não poderia deixar de ser fatal, como finalmente o foi, á posse tranquilla do Brasil, que o velho Sebastião da Rocha Pitta considerava o mais bello florão da coroa bragantina.

Quem percorrer os annaes dos nossos districtos mineiros, no século XVIII, não recalcará facilmente o Ímpeto de horror que alguns dos seus lances provocam. Não houve crueldade ou miséria de que não viessem a sòffrer os brasileiros. O afloramento de um magro filão bastava para attrair uma nuvem de funccionarios armados de todos os poderes de um systema fiscal verdadeiramente infame. Ã mais leve suspeita de que os thesouros de Sua Majestade Fidelissima soffriam lesão, eram varejadas as casas, despidos e desnudados os seus moradores, partidos os painéis dos moveis, revolvidos os pomares e os jardins, quer o sol dardejasse no espaço ou a chuva alagasse os ares.

O triste episódio do contratador de diamantes, Felisberto Caldeira, patriarca respeitável, de sangue nobre e vastos cabedaes, que foi violentamente uemertido ás masmorras de além-mar, por inveja e ciúme de funccionarios reinóes, ficou indelével na memória de nossas gentes. Os subditos americanos de Sua Majestade eram mais cousas do erário publico do que homens livres. Nada se respeitava, então. Nem o prestigio da virtude nem a pureza do nome e da geração. O mero capricho de qualquer fidalgote, despachado ao Brasil para cumprir uma pena correccional, fazia mover os esquadrões fidelissimos e determinava ó ajuntamento de alçadas temerosas, que atiravam aos presídios de Ambaca ou Lisboa os mais illustres filhos da Colônia.

Felisberto Caldeira Brant Pontes, descendente bastardo de D. João III, Duque de Brabant, é um dos mais lídimos representantes da nossa aristocracia rural do 3.o século, caracterizada pela singeleza do trato, modéstia da palavra e desempeno de estatura. Seu coração cheio de doçura e piedade, inflamma-se, porém, ao mais leve toque em1 assumpto de honra. Foi o sentimento da prole ultrajada por um beleguim reinol, ateando-lhe o orgulho da casta, que o perdeu dignamente (x).

Ninguém reflecte melhor o brasileiro, no curso das nossas lides coloniaes, que esse intemerato gentilhomem campesino, activo, de espirito pratico, sem vicios, devotado á família e intolerante nas questões de pundonor, capaz de matar o melhor amigo por qualquer desfeita ao recato do lar. O mesmo Governo que ordenava o seqüestro dos bens de Caldeira, prohibia a imprensa, para evitar a corrupção de França, e o uso do cinzel, em que eram peritos os brasileiros, para que «não se delapidassem os quintos de sua majestade». A desmedida ambição da Metrópole, cerceando progressivamente todos os direitos aos brasileiros, diminuindo-lhes as garantias, sujeitando-os ás contingências de um funccionalismo atrevido e parvo, fez crescer na alma daquelles varões o sentimento de que a terra lhes pertencia e não aos usurpadores, pois, sem o esforço continuo dos

(x) Vide: J. Felicio dos Santos — Memórias do Districto Dianwntino. Caps. IX e X. seus avós as arcas ultramarinas não estariam atestadas das barras de ouro e prata do sertão.

O descobrimento das minas, portanto, além de firmar definitivamente a situação econômica do Vice-Reinado brasileiro, consolidou, também, a situação política e social da nacionalidade, era vias de surgir armada, face a face, ante os mandatários da Coroa de Bragança. Explicase, desta arte, a conspiração que, em fins do século XVIII, no anno em que irrompeu a Revolução Francesa, foi descoberta em Minas Geraes. Os conjurados, encarnando os soffrimentos do povo, pertenciam á nata da sociedade brasileira. Eram poetas e magistrados, fazendeiros e militares, que planejavam sacudir o jugo da tirania lusa. Embora mallograda, por incofidencia de trahidores, de origem portuguesa, essa conjuração, com o bárbaro enforcamento de um de seus mais exaltados chefes, o alferes Tiradentes, deixou profundas raízes na alma nacional, e o sangue do martyr não escorreria em vão pelas escadas do patibulo.

O CYCLO DA INDEPENDÊNCIA

Reino. 1.° Intperip. Regência. 2p Império.

Republica

Quando, nos primordios do século findo, a corte portuguesa se refugiou no Rio de Janeiro, resguardando-se das patas da cavallaria de Junot, pode-se dizer que já estava latente na generalidade da nação a idéa da independência. Varias vezes, no correr dos tempos, naturaes e reinóes se haviam defrontado, e uma guerra continua de chufas e remoques lavrava por todo o território da colônia. Principalmente os pernambucanos, ao norte, e os paulistas, ao sul, viviam em constantes escaramuças com os lusos. Estes haviam chegado até, quando se restaurou a cõrôa portuguesa, em 1640, a aclamar um rei na pessoa de Amador Bueno, figura proeminente da nobreza da terra. Outros levantes nativistas consignava, por egual, a nossa historia, taes o dos mascates, no Recife, e o dos erriboflhas, em Minas.

Com a installação da corte no Rio, foi o Brasil elevado a Reino, e nelle se estabeleceu a sede da velha dynastia bragantina. Passávamos, assim, de colônia a metrópole. O príncipe regente, mais tarde, D. João VI, logo se afeiçoou á região do exilio, mau grado das impertinencias da sua consorte, tão inimiga nossa que, segundo resam as tradições, mal entrou de volta no Tejo, atirou ás águas os sapatos, por trazerem á sola terra do Brasil.

Dotado de caracter bonacheirão, sem cultura, porque não fora educado pira reinar, amigo da boa mesa, com que despendia annualmente milhares de contos, esse príncipe affectuoso e simples foi providencial á nossa pátria. Se era incapaz, por si mesmo, de grandes actos, sabia aceitar as suggestões felizes e conseguiu cercar-se de ministérios intelligentes e prestimosos. Por insinuação de um dos nossos mais insignes sociólogos e juristas do século XIX, o Visconde de Cayrú, abriu os portos do Brasil, antes fechados por monopólios estreitos, ao commercio universal. Inaugurou os primeiros cursos de medicina e cirurgia da America do Sul; contratou em Paris, uma excellente missão de artistas, chefiada por um secretario do Instituto de França, fundando a nossa Escola de Bellas Artes, a mais antiga do continente; instituiu a Imprensa Nacional e a Bibliotheca do Rio de Janeiro; creou o Banco do Brasil, favorecendo, assim, o desenvolvimento da fortuna particular; rasgou estradas de rodagem em varias províncias; regulou a navegação entre os nossos portos e os principaes da Europa; incentivou a immigração de elementos estrangeiros e beneficiou a nossa capital, mandando levantar edifícios dignos de uma cidade moderna.

«Et ce pays, diz o historiador que melhor o conhece, o sr. Oliveira Lima, qu'il trouva paralysé par une législation trop souvent surannée, entrave dans sa libre évolution, rendu fataliste par le manque dmorizon et assombri par une tragédie recente, il le laissa arme des principaux instruments de progrès, ouvert à toutes les conquêtes de 1'intelligence, plein d'espérances, déjà mêlées à quelques regrets, et doué d'un enthousiasme que les premières déceptions avaient déjà commencé à mürir.

«Si jamais un roi mérita Ia branche de cerisier à Ia frondaison éternelle que, dans le Nô japonais, le messager celeste apporte de Ia part de Ia divinité au roi sage et juste, comme emblème et recompense de ses vertus, c*est sans doute à Jean VI qu'elle devrait échoir,» (*).

Ao tornar á pátria D. João VI, os fermentos separatistas abrasavam as províncias mais prosperas do Brasil. Em Pernambuco, ainda quando a Corte estava no Rio, estala em 1817 uma revolução de caracter republicano, dirigida por militares e doutrinários do Recife. Jugülada a sedição, e castigados com deshumana imprudência os seus promotores e sequazes, o paiz permanece inquieto. Cresce de ponto essa inquietação deante dos manejos das cortes de Lisboa, onde a voz dos nossos deputados é sempre abafada com motejos e escarneo. Temendo o próximo movimento libertador, os dirigentes do Reino approvam leis ainda mais restrictivas dos nossos direitos, tão duramente conquistados. Viam os patriotas da America em taes attitudes, o propósito de recolo-

0) Oliveira Lima. Forniation Historique de Ia Nationalité Brésilienne. nizar o Brasil, retirando todas as garantias que lhe concedera D. João VI, assim como outras de que já gozava, desde o século XVIII.

O Governo da America Portuguesa, entregue á regência do príncipe D. Pedro, filho de D. João, sente, dia por dia, diminuída a sua esfera de acção. Afim de afrouxar os laços que prendiam as províncias ao poder central, as cortes declaram a independência dellas, ao mesmo tempo que tornam sem effeito a instituição dos tribunaes de justiça do Rio. E, afinal, para reduzir de vez os brios nacionaes, chamam a Portugal o príncipe regente.

Levanta-se contra semelhantes medidas o escol da nação, e, em representação memorável, oito mil cidadãos se dirigem a D. Pedro, pedindo-lhe que não embarque. E o príncipe, impetuoso e de resoluções subitaneas, responde ao povo, por intermédio de José Clemente Pereira, com as celebres palavras: «Como é para bem de todos e felicidade geral da Nação, diga ao Povo que fico».

Moralmente, pois, a 9 de Janeiro de 1822, forçando o regente a um acto de clara desobediência ao governo da metropole, tínhamos feito a nossa independência. D'ahi por deante, até ao grito de «Independência ou Morte», ás ribas do Ypiranga, em São Paulo, rapidamente fomos conquistando as nossas liberdades políticas. Derrotados em terra e no mar, depois de encontros memoráveis, os portugueses, por mediação da Grã-Bretanha, reconheceram o novo Estado soberano do Brasil, não sem receberam, comtudo, algumas saccas daquelle ouro das Minas Geraes, de que tão zelosos sempre se mostraram.

O compromisso de que nasceu o primeiro Império era, entretanto, precário. D. Pedro teria que optar entre ser Io no Brasil ou IV° em Portugal. Certo, se lhe fosse possível cingir as duas coroas, não hesitaria em reunil-as sob o seu sceptro. Para conseguir isso, porém, seria mister, sobre vencer as nossas poderosas resistências, que o Príncipe tivesse outro temperamento. Com as suas decisões repentinas, as vacillações do seu caracter, a incultura do seu espirito, formado em ambiente artificial e incerto, o dilettantismo da sua política e a falta de austeridade dos seus costumes privados, D. Pedro estava fadado a uma irremediável abdicação. Corajoso mas indisciplinado, intelligente mas ignorante, astuto mas de boa fé, o nosso primeiro Imperador não guardaria nuitos annos a coroa do Brasil.

Seu Governo oscillou entre a popularidade mais ruidosa e a mais desabrida impopularidade. Apoiando-se ora nos partidos jacobinos, ora deixando-se arrastar pelos chamados «caramurús», facção de tendências restauradoras, o joven imperante viu decrescer ainda mais o seu prestigio, abalado por essas encontradas manifestações, na infeliz campanha de Cisplatina. As continuas intervenções na Banda Oriental do Uruguay, e a luta pela posse das margens do Prata, eram a conseqüência da política desastrada e imprevidente dos tempos coloniaes. A consciência nacional não estava de accôrdo com essa guerra, e, dentro do próprio parlamento brasileiro, ergueram-se vozes autorizadas para tstigmatizar o que lhes parecia imperdoável erro e desatino. Firmada a paz com a Republica Argentina, reconhecemos a independência do Uruguay, satisfazendo assim os impulsos liberaes do nosso povo, sempre infenso ás expansões do imperialismo colonial, e evitando, por outro lado, que o caudilhismo platino invadisse aquelle Estado.

Junte-se ainda a essas desordens externas, a agitação que lavrava por todo o paiz, com a deportação de homens influentes, como José Bonifácio, o patriarcha da Independência, assim como pela intolerância e parcialidade de Pedro I, escolhendo áulicos e cortezãos para constituir os seus ministérios, e teremos as razões precipuas da insustentabilidade do seu Governo. Finalmente, em 7 de Abril de 1831, ao cabo de 10 annos de successos tumultuosos, dentro e fora das nossas fronteiras, sob a ameaça de sanguinosas rebeldias, Pedro I respondia ás massas apinhadas junto ao seu palácio, para reclamar um ministério parlamentar, espontânea e impetuosamente, com o acto de abdicação, «na pessoa do seu muito amado e presado filho, o senhor D. Pedro de Alcântara.»

De 1831 a 1840, quando subiu ao throno, ainda infante, o nosso grande Imperador, abre-se para o paiz um largo período de graves e demoradas turbulências. Entregue o governo central á Regência de estadistas experimentados, nem por isso, todavia, foi fácil dirigir a nação. Levantouse, desde logo, deante da Regência, um perigo imminente que ella teve de jugular com admirável energia. A abdicação, forçada por elementos militares, que haviam aderido ao povo, contribuio para ,o desencadeiamento da indisciplina armada. Do extremo norte ao extremo sul, os motins de quartéis, as sedicções, os conflictos, as revoltas se succediam. Pesavam sobre o nosso immenso e desprotegido território sérias ameaças separatistas, e a demagogia, sob o disfarce das idéas democráticas, campeava livremente, corroendo a grande obra da unidade nacional, penosamente realizada pelo esclarecido liberalismo dos nossos homens representativos. No Rio Grande do Sul, entre os desmandos da sõldadesca, o ambicioso e infame caudilhismo de alguns chefes bravíssimos arrasta a província a uma revolta indigna e repugnante, tentando scindil-a violentamente do Império. A proclamação da ephemera mas sangrenta Republica de Piratinin accordou, de súbito, o sentimento patriótico da nação inteira, e, por toda a parte, dando mão forte aos varões da Regência, o povo se levanta e se alista nas fileiras do exercito pacificador, conduzido genialmente por aquelle que, mais tarde, seria o Duque de Caxias.

O papel desempenhado pela Regência não encontra parallelo em nossa historia política. A Regência suffocou a anarchia nascente, que nos entrava como um tufão pelas fronteiras; sustentou as tradições moraes e religiosas que herdáramos dos nossos avós; garantiu a unidade nacional, enfraquecendo sabiamente a autoridade das províncias, e dando ao prestigio do poder central aquella majestade que tanto dignificou o segundo Império; augmentou o zelo da cousa publica pela honestidade dos seus processos administrativos; incentivou a creação de partidos políticos, substituindo nas facções, o amor próprio pelo interesse da collectividade; amorteceu os ódios entre brasileiros e portugueses; sustentou o escol da nacionalidade, livrando-o das investidas de irresponsáveis galopins; realçou a missão do soldado, organizando, por Decreto do Padre Feijó, a Guarda Nacional, que tantos e tão assignalados serviços prestou á causa da ordem e da disciplina; finalmente, entregou o paiz, que encontrara retaliado, dividido, abrasado de paixões irrefreáveis, já constituído, tranquillo e fiorescente, ao sereno, ao simples, ao mais liberal de todos os aristocratas do Universo, ao sábio Pedro II.

O segundo Império, no Brasil, é a época das verdadeiras liberdades políticas. Em toda a America latina; nunca houve presidente mais democrático que o nosso Imperador. Esse homem, de gravidade sem aspereza, que provava, nos quartéis, a ração das praças, que, em suas audiências publicas, recebia a todos que o procuravam e a mão de todos apertava, erguia-se tão alto acima dos preconceitos, que, em verdade, como escreveu Ferrero, perdera na philosophia e no saber «a consciência do monarcha.» Rodeado de poetas e doutores, como um príncipe amável de Florença, a nobreza que mais distinguiu e amou foi a da intelligencia. Grande parte dos nossos barões e dos nossos condes, foi elle buscar entre os artistas, os scientistas e os letrados. Seu caracter, como o dos senhores de engenho dos nossos alongados séculos, era inflexível em pontos de honra. Um simples desuse, que perdoaria nas classes hjimil*des, castigava duramente nos representantes da aristocracia. Senadores, conselheiros de Estado, fidalgos e palacianos tinham que pautar os seus actos pela mesma honradez que dictavam os do Imperador.

Entre os partidos políticos, foi, por excellencia, o poder moderador, e sempre nelles interveio, quando se fazia necessária a contribuição da sua experiência. Durante o seu reinado, que se prolongou de 1840 a 1889, deu-nos meio século de paz interna, de segurança individual, garantida por uma constituição liberalissima e por leis justas. Abriu escolas, acolheu com prudência as correntes migratórias, desenvolveu as nossas frotas mercantes, inaugurou as nossas primeiras estradas de ferro,, preparou, sem espirito de conquista, uma esquadra de guerra, que seria o factor essencial na campanha contra Lopez, ajudando, por egual, os paizes vizinhos na pacificação dos seus territórios. Nunca lançou as armas dos seus arsenaes em expedições imperialistas, e sempre se mostrou desejos© de ver, ao longo das nossas fronteiras, a oliveira florida.

Apresentava-se, entretanto, um grande óbice ao desenvolvimento racional do paiz. Repousava, infelizmente, a nossa economia no braço do escravo africano, que a administração portuguesa fora obrigada a introduzir na America. Foi a escravidão que atirou o throno por terra. Deante do problema abolicionista, pelejavam os partidos inutilmente, sem coragem para resolverem definitivamente o gravíssimo assumpto, do qual dependia, ou parecia depender, a nossa riqueza. A guerra do Paraguay, em que os negros se comportaram admiravelmente, e a lei do ventre livre, promulgada em 1871, vieram aggravar a situação moral do Império, dividido entre brancos puros e mestiços, cruzados com indios e africanos. No parlamento, na imprensa, na administração, nas profissões liberaes brilhavam muitos repre sentantes da raça histórica, productp das* três que primitivamente formaram1 o Brasil. '

Valia a população escravizada mais oi menos quinhentos mil contos de réis. A fortuna da terra, com a suppressão dai captiveiro, ficaria, pois, muito compromet tida, e sendo ella a base da nossa econo mia geral, o choque proveniente da abo lição seria, no mínimo, fatal ao regime! monarchico. Accresce ainda que faltava ai' Pedro II, apesar das suas qualidades indis putaveis, a capacidade de resolução que o momento exigia. D. Pedro II era afouto no conceber mas lento, e por vezes caprichoso, no executar. A vontade não acompanhava a rapidez do pensamento. Emquanto moço, o vigor do seu espirito poude compensar a tibieza dos seus actos. Mas, á medida que envelhecia, o soberano admirável, ia pouco e pouco, perdendo, com a saúde combalida, a varonilidade. Partidário da abolição progressiva, feita de modo a prevenir a riqueza geral, não conseguiu, porém, deter a onda crescente dos abolicionistas extremados, entre os quaes figuravam tribunos como Joaquim Nabuco e poetas como Castro Alves.

Além disso, o exemplo das democracias federalistas do continente americano ganhava terreno entre nós, e, se das idéas novas não participava realmente a maioria da nação que estudava e pensava, por ellas se batiam os homens nascidos do caldeamentoethnico que se operava em todo o paiz. Encontravam-se assim, frente a frente, as duas correntes que, desde a colônia, se desenvolviam parallelamente, através das nossas lides domesticas: a dos moderados, que se conservaram sempre fieis ás tradições da realeza, e que, por duas vezes, evitaram a Republica, em 1822 e em 1831; e a dos radicaes, que, desde 1817, forcejavam por implantar o systema republicano federativo no Brasil.

Feita a abolição, de uma assentada, foi profundo o descontentamento das classes conservadoras, e a nobreza da terra, o maior sustentaculo do sceptro, ou lhe voltou as costas indifferente, ou começou a lhe dar combate sem tréguas. Com a adesão do exercito, inhabilmente maltratado pelos últimos ministérios imperiaes, o partido republicano, sem derramar sangue, extinguiu em poucas horas, na surpresa de uma parada repentina, a dynastia dòs Braganças na America.

Foi-nos tão salutar, porém, a lição do Império, que, embora feita pelas armas, não ficou a Republica debaixo dellas. Dentro e fora do paiz, continuamos fieis aos princípios básicos da nacionalidade, que o positivismo e o apressado materialismo político dos primeiros annos da democracia foram incapazes de vencer. Proseguindo no caminho que nos traçaram as gerações passadas, temos mantido a dignidade do paiz, dentro da ordem e do trabalho. Resolvemos todas as questões internacionaes por aocordos e i tratados de arbitramento. ,

Encontrando a nacionalidade formada e unida por laços indissolúveis, em um território que se estende por quasi nove milhões de kilometros quadrados, a obra da Republica tem sido principalmente a de dar maior impulso ás nossas actividades econômicas e commerciaes. Anno para anno, sobem as cifras da nossa producção, e o Brasil, que ha bem pouco, era o paiz da borracha e do café, é hoje um largo centro industrial, onde já se fabrica tudo quanto importávamos, antes, do estrangeiro. A população, mercê dos nascimentos e das continuas correntes immigratorias, elevou-se de 15 a 32 milhões de almas.

A cultura intellectual acompanha de perto o evolver material do Estado; diffunde-se a instrucção publica primaria, secundaria e superior. Abrem-se por toda a parte collegios, academias, universidades, institutos de aperfeiçoamento, cursos de altos estudos, despertando, assim, esse interesse crescente que as nossas cousas provocam no exterior, e do qual, ainda agora nos offerece desvanecedor testemunho o governo francês, creando na Sorbonna uma cadeira de lingua e literatura brasileira.

Temos, entretanto, graves responsabilidades, no sentido de tornar o nosso paiz cada vez mais conhecido em nosso continente.

As novas gerações do nosso paiz devem pôr todo o seu empenho no fecundo trabalho de approximação entre os povos latino-americanos. Confinados em nossas fronteiras, só temos olhos para ver a insidiosa Europa. Soffremos de um particularismo nefasto.

Coloquemos acima do livro francês ou inglês, o conhecimento mutuo das possibilidades americanas. A nossa literatura ainda é, na 'generalidade, producto de enxertias. Ao revés de lermos, para escrever, urge vermos, analysarmos, palparmos os elementos activos do meio em que obramos.

Basta de fecundação artificial!

Não tenhamos receio de que nos taxem de bárbaros. Amemos a nossa barbaria, da qual os europeus não podem mais prescindir. Deixemos em paz os mármores da Acropole e as torres das cathedraes gothicas. Nós somos os filhos das serranias! e das florestas, e, se quizermos crear uma

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civilização, arranquemos, desde já, as mascaras postiças que encobrem as nossas verdadeiras physionomias.

O nosso dever é destruir o preconceito europeu, o peior, o mais nocivo de todos os nossos males. Dêmos á historia dos povos americanos o logar de eminência que, em nossas cogitações, occupa a das nações de outros continentes. Deixemos de pensar em europeu. Pensemos em americano. Temos o prejuízo das formulas, dos postulados e das regras que não se adaptam ao nosso temperamento.

O nosso dever é combater todos esses desvios, completando com a do pensamento, a obra da nossa independência política.

O nosso dever é erguer, dentro da nossa communhão, na generosidade e no esplendor da belleza e da força, a civilização latino-americana, gerada em nossa carne e fruto do nosso sangue.

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