A psyche brasileira: sensibilidade africana e caracter brasileiro
A SENSIBILIDADE AFRICANA
Em curtas fábulas de proveito e escarmento se resume, principalmente, o acervo dos contos de origem africana, correntes no Brasil. O talento do negro, nesse particular, corre parelhas com o do gentio. Os pretos fazem, também, a apologia da ladinice e da velhacaria. No conhecido apólogo da Onça e do Gato transparece, por exemplo, uma prudente lição de sabedoria. Na singeleza da sua lino-ua^em, contam elles assim:
«A onça pediu ao gato para lhe ensinar a pular, e o gato promptamente lhe ensinou. Depois, indo juntos á fonte, encontraram lá o calangro, e então disse a onça para o gato: — «Compadre, vamos ver quem de um só pulo pega o camarada calangro?»
— Vamos, assentiu o gato.
— Só você pulando adiante, tornou a onça.
O gato pulou em cima do calangro, a onça pulou em cima do gato. Então, o :gato pulou de banda e se escondeu. A onça ficou desapontada, e resmungou: — «Assim, compadre gato» é*que você me ensinou? Principiou e não acabou.. .»
O gato respondeu: — «Nem tudo os mestres ensinam aos seus aprendize?...»1
Nesta curta mas admirável pagina se depara uma profunda comprehensão das cousas deste .mundo, e o gato, tido por indifferente e preguiçoso,' perde aqui ás suas qualidades vulgares, para se converter em um matreiro e cavilo^o político...
Em virtude das numerosas raças negras e negroides que* se misturaram na labuta do. captiveiro, é impossível determinar entre ellas um typo geral ou médio de capacidade creadora2 Sem falar no i:eu valioso concurso econômico, Jrouxe-nos o africano a cordura, a simplicidade, a coragem resignada para affrontar as maiores «misérias, e o sensualismo capitoso, transbordante dos sentidos aguçados.- Se o por;
(!) Sylvio Romero. Contos Populares do Brasil. * ( 2 ) Vide: Antonil — Cultura e Opulencia do Brasil. Perdigão Malheiro —i A Escravidão no Brasil. Sylvio Romero H. LU. Bros. 1,° vol. tuguês nos herdou a energia e o indio a plasticidade da imaginação, influio o africano em nosso caracter pela ardente sensibilidade.
Embora, intellectualmente, se mostrasse inferior ao lusitano e ao/ indio, não possuíam estes, em compensação, a opulencia dos rythmos do seu desenho melódico e a variedade numerosa dos seus timbres coloridos. Sua musica instrumental é aperfeiçoadissima, em relação ao estado de cultura em qxie elle se encontrava. De ouvido apurado e vozes malleaveis, os negros transmittiram ao nosso mestiço, cantador por excellencia, o habito das serenatas e dos desafios, que se desenrolam horas e horas, sem que se cansem* os contendores. Narram os capitães negreiros, os exploradores africanos e os nossos antigos chronistas que o escravo se desforrava das suas penas, dansando e cantando, allucinadamente, ao som do tan-tan e das marimbas nostálgicas.
Ainda no século findo, durante os festejos de Reis ou de S. Pedro, era commum ver-se, ao fagulhar das fogueiras, nos sítios do interior, executarem os capfivos complicados giros choreographicos, sem desalento nem frouxidão. Rodavam, assim, em prolongada vigília, até se quebrarem as barras do dia, negros dq musculosos corpos, de cintura estreita e amplo thorax, e crioulas de seios rijos, quadris de fino desenho e tornozelos delgados.
A resistência physica do negro foi salutar na formação do nosso pafz. Onde qualquer outra raça forçosamente suecumbiria, os mandingas de olhar vivo, os jalofos, bons para o mar, osj" troncudos Yorubas e Bailundos, capazes de arrancarem da terra uma palmeira nova, os Cabindas, Libolos e Banhanecas, excellentes agricultores, conseguiram amanhar o solo e supportar o clima dos trópicos. Essa espantosa solidez muscular operava milagres, quando, em longas cerimonias festivas, se divertiam elles no frenesi dos lundus, batuques, jongos e caterêtês. Nada poderá evocar mais intensamente as antigas fazendas do centro e do sul do nosso paiz,1 hoje freqüentadas por automóveis e illuminadas a electricidade, que um desses bailados ruidosos.
Supponde que estamos em véspera de S. João, por um anno remoto do século XIX. No casarão senhorial, caiado de branco ou amarelo claro, com as largas venezianas e as portas de bandeiras curvas, pintadas de verde ou azul, os convidados de honra do fazendeiro conversam, e n frente da larga mesa coberta de vitualhas, doces e vinhos abundantes, emquanto, no espaçoso salão de vizitas, giram rapazes e raparigas nas voltas da valsa ou dos lanceiros. Ao espoucar das ronqueiras, das bombas e dos foguetes, ri-se e folga, no pateo, a meninada irrequieta.
Só as selvas e as serranias, mergulhadas na doce paz noturna, ficam indiferentes ao tumulto circumstanffe.
Ouve-se, entretanto, apesar dos estron-* dos e da gritaria, dos pinchos bulhentos e do vozeio febril, um confuso ruido de cantilenas arrastadas, de palmas e caixas regularmente percutidas. Brilham, longe, á margem do rio, tochas de resina fumarenta, que, de vez em vez, illuminam "vultos e ?ombras movediças.
É o samba.
Num largo circulo, de cócoras; na terra fofa, batendo as mãos em compasso e cantando lascivamente, enfileira-se a escravaria de ébano. A um canto, empunhan.io pedaços de madeira, á laia de inassanetas
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de bombo, rufam os músicos, em barrilotes vastos, uma violenta pancadaria, entrecortada pelo chocalhar de guisos e ganzás e pelo som tympanico de tamborins, adufes, pandeiros e pandeiretas guarnecidas de soalhas retinintes. Ao centro do terreiro, bamboleando serenamente as ancas bem talhadas e o corpo de bronze, num ligeiro tremor dos pés, das» mãos e da cabeça, volteiam os pares, lépidos, gingando. Á medida que o rythmo se acceléra, os membros vão num requebro crescente, attingindo, por vezes, uma quantidade incrível e prodigiosa de movimentos céleres e sempre repetidos com segurança. Um delírio collectivo se apodera de espectadores e dansarinos, e um turbilhão de sonoridades opulentas, de gritos, estrondos, estrupidos, assobios, vaias e gemidos, paira como que suspenso no ar carregado de aromas excitantes.
O CARACTER BRASILEIRO
Da fusão desses três elanentos primordines, surgio o typo do brasileiro bistorico, typo de tamanha resistência, que poude supportar, sem perder as características, e até absorver, melhorando cada vez mais no aspecto e na intelligencia, os elementos estranhos provenientes da immigração de italianos, allemães, polacos, russos, syrios e árabes, que principiaram a mesclar-se com elle, do século XIX em deante. Nos centros de maior caldeamento, como no Estado de São Paulo, é fácil verificar o domínio exercido pelo na'.ural sobre o colono, cujos filhos rapidamente se adaptam ás condições do meio, entrando automaticamente para a grande communhão brasileira.
Descontadas certas variantes de menor significação, podemos distinguir nessa massa ethnica e social duas espécies definida:': a sertaneja e a praieira.
O homem do sertão é sóbrio, enxuto de carnes, desconfiado e supersticioso, raras ve/ec» aggressivo, súbito nos seus arremesses, calado como as immensas planícies em que nasceu, calmo no gesto e na fala descansada, e sobretudo, e antes de tudo, forrado de intraduzivel melancolia, que lhe flue dos olhos, da face carrancuda, do sorriso esquivo, de toda a sua expressão, de todas as curvas ríspidas do seu corpo ágil, feito de aço flexível.
«Falta-lhe a plástica impeccavel, o desempeno, a estructura correctissima das organizações athleticas, refere Euclydes da Cunha, em um dos baixo-relevos da sua epopéia famosa dos Sertões. É desgracioso, desengonçado, torto. Hercules-Quasimodo, reflette no aspecto a fealdade tímida dos fracos), O andar sem firmeza, sem aprumo, quasi gingante e sinuoso, apparenta a translação de membros desarticulados. Aggrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caracter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavallo, se soffreia o animal, para trocar duas palavras com um conhecido, cae logo sobre um dos estribos, descançando sobre a espenda da sella. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajectoria rectilinea e firme Avança celeremente, num bambolear característico, de
«É o homem permanentemente fa+igado.
«Entretanto toda esta apparencia de cansaço illude.
«Nada é mais surprehendedor do que vel-a desapparecer de improviso. Naquella organisação combalida, operam-se, em .egundos, transmutações completas. Basta o apparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadeiar das energias adormecidas. O homem transfigura-se. Impertiga-se, estadeando novos relevos, novas linhas na estatura e no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os hombros possantes, aclarada pelo olhar de-assombrado e forte; e corrigem-se-lhe, prestes, numa de;carga nervosa instantânea, todos os effeitos *do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura do vulgar tabaréo canhestro, reponta, inesperadamente, o aspecto domina*dor de um titan acobreado e potente, num desdobramento surprehendente de força e agilidade extraordinárias.»
O homem do litoral, ao revés, é nervoso, de sensibilidade aguda, sabe sorrir e sabe rir, tem a imaginação brilhante e o pensamento travesso, é artista, prefere as imagens coloridas ás idéas absrractas, é esbelto, bem proporcionado de linhas, fala melhor quando improvisa, volteia sobre os assumptos com desembaraço, ás vezes com atrevimento, não respeita, em geral, senão as suas opiniões, e é quasi sempre orgulhoso, e audaz1
Ha, todavia, no caracter de sertanejos e praieiros, um fundo commum de melancólico e voluptuoso fatalismo, que estes conseguem di?simular melhor. O sentimento das nossas „creações populares, da nossa musica e da nossa poesia, é essencialmente elegíaco. A saudade, o terror e a resignação misturam as vozes lastimosas na toada plangente dos nossos cantares.
(») Ct. R. de Carvalho. Pe.? ed. 1922.
A sorte nós bem sabemos,
E tal qual uma mulher.
Que quer, quando não queremos,
Quando queremos, não quer.
Alma no corpo não tenho,
Minha existência é (fingida,
Sou como o tronco quebrado
Que dá sombra sem ter vida.
Parece troça, parece,
Mas é verdade patente,
Que a gente nunca se esquece
De quem se esquece da gente.
Ha, entre muitas outras, uma quadrinha que os nossos trovadores cantam, ao repinicar das violas e ao lamentoso choro das flautas, que traduz perfeitamente a magua do brasileiro em face do mundo:
Mente quem diz nesta vida
Muitos males ter soffrido.
Só de um mal a gente soffre,
E do mal de ter nascido.
Sem duvida, todos os povos se queixam, porque, nem somente o riso é próprio do homem. O lirismo nostálgico do brasileiro é, porém, de notável singularidade. Porque somos tristes? Porque, nos jogos e nos folguedos, é artificial e provocada a nossa alegria? Na sua polidez cordeal e hospitaleira, na sinceridade, por vezes indiscreta, das suas opiniões, na colorida eloqüência da sua palavra improvisada, o brasileiro se conserva leal mas reservado.
Somos dominados, atraídos, fascinados pela immensidão da terra que, através de uma batalha extenuante, conquistamos, porém, não podemos sobrepujar inteiramente. A natureza no Brasil não esperava pelo) homem, pois estava no espanto primitivo dos caatclismos e das transformações geológicas. Ha ainda hoje, no Amazonas, um phenomeno que illustra sobremodo este juizo. £ o que os sertanejos chamam) terra canina, Não ha episódio mais commovente. não ha drama que caracterize melhor a tragédia fundamental da nossa adaptação ao solo penosamente desbravado, que essa temerosa calamidade telúrica.
Calculae, se é possível, as proporções deste sombrio painel. Depois de vencer ós óbices mais perigosos, depois de varar cachoeiras e percorrer alagadiços e mangues, onde os jacarés passeiam oi dorso ponleagudo e as enormes sucuris desenrolam os anneis formidáveis, o homem brasileiro planta, á beira do maior rio do mundo, as estacas de uma povoação.
Dias a fio, luta, com o machado na mão, contra a floresta barbara. Investe com o tronco dos castanheiros possantes, põe ao chão as perobeiras majestosas, e, no espaço ganho pela sua energia, faz a selva recuar. Ajuda-o a mulher, auxiliam-no os filhos varões nessa empreza, em que o heroísmo perde a sua condição de virtude sobrehumana, para se mudar em arma im prescindivel a um combate sem brilho. Todos, ali, são heroes, por dever, por fatalidade, por força das circumstancias.
Pouco e pouco, ao redor do modesto e provisório taperí, ou da pobre palhoça, coberta com folhagens de ubí, vão apontando outras construcções rudes e pitorescas. Parentes, amigos ou conhecidos do primeiro povoador cue ali aportou, vém chegando nas suas «moniarias», em levas crescentes, com a mesma disposição e o mesmo animo inquebrantavel. Com os seus instrumentos de incisão, os seus terçados, para .cortar o mato, c as suas etiia>, p ;ra
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recolher o leite da borracha, os caucheiros assaltam os seringaes intactos. É o núcleo de uma futura cidade que se desenha. Viçam as plantações r e e ite iente bemeada.-;. O milharal apendoado, mostra, em breve, as espigas douradas; o feijão, a mandioca, o inhaime e os bananaes lastram por toda a parte. A vida, antes precária, normalizase. Sorri nos lares hospitaleiros a abundância feliz. A caça, o peixe, a? frutas e raizes silvestres, as bebidas fermentadas enchem aquellas mesas toscas e pródigas. Mercê da fortuna e da tranquillidade de espirito, apertam-se os laços daquella sociedade embryonaria. De vez em vez, as violas e as sanfonas fazem vibrar os ecos das solidões illimitadas, e o dolente lundu leva, nos giros languorosos, o descuidado sertanejo.
E o homem confia no destino, no destino que provocou.
Mas a terra, minada subrepticiamente pelas águas amazônicas, ainda guarda o terror de uma surpresa — a ultima surpresa. Os deuses selvagens, humilhados e abatidos, vingarão o ultraje feito pelo branco. E, de repente, sem que ninguém o suspeitasse, num surdo rumor, a terra toda estremece, e rola, e se despenha,1 e se afunda no seio da caudal volumosa que se estende por mais cie fnil miihas a; raptando no desmoronamento su i aneo homens, mulheres, crianças, animaes e plan.as, numa vertigem irremediável, num redemoinho monstruoso, de envolta com as gigantescas arvores, que um século de seiva não consegue defender da voragem. E onde o heroe combateu e sonhou, alarga-se o lençol espumoso da corrente, banhando selvas que estavam, minutos antes, afastadas dezenas de kilometros das águas insidiosas.
É a terra cahida.
Diz o sr. Graça Aranha, na sua admirável Esthetica d.i Vida. que. no espirito do brasileiro, tal é a maravilha da natureza em que elle se perde, ha a angustia do exilado em um mundo paradoxal. Nada mais justo que esta reflexão do nosso eminente escriptor. Em verdade, o brasileiro encontrou uma natureza áspera e pouco generosa para as creações do homem civilizado. Faz-se mister que elle a domine continuamente, para não ser absorvido por ella, como foi o indio, pois, ao menor descuido, a terra \olta novamente a suffocal-o, na magia da sua exuberância violenta e impiedosa. Se elle não permanece vigilante e (activo, a floresta vemi ao seu encontro, e o abafa irremediavelmente, e o envolve nos seus tentáculos soberanos. «Parece, que a natureza, no Brasil, foi surprehendida pelo homem, quando ainda se achava na elaboração de uma obra sem egual», affirma um penetrante ensaísta, o sr. Matheus de Albuquerque.
Os trabalhos do homem brasileiro foram e têm sido defuma dureza sem par. Ao revés dos outros povos americanos, do platino, em suas coxilhas macias e fáceis, ou dos mexicanos e peruanos, senhores já, no momento da colonização, de cultura requintada e opulenta, producto de raças disciplinadas, tivemos que construir pelos alicerces o edifício do nosso paiz. A historia dessa pugna tenaz está intimamente ligada á tragédia do nosso espirito, que a reflecte, nas suas múltiplas trajectorias.
Está ahi, pois, a razão da nossa melancolia, mas ahi também reside o segredo precipuo do caracter firme e obstinado da nossa raça, que, em contacto freqüente com os mais encontrados elementos ethnicos, trazidos pelas correntes migratórias do Mediterrâneo, do Baltico e do Mar Negro, mantém, na sua inteireza, as qualidades que lhe são fundamentaes.
O Brasil é uma dádiva da terra, mas, como aquelle arco pecado e bello, formidável e gracioso do velho Odysseo, exige dos seus pretendentes uma disposição enérgica e uma vontade sem desfalecimento.