Arte brasileira: periodos indigena e colonial
ARTE BRASILEIRA
Dos povos que contribuiram para formar a nacionalidade brasileira, só um, o lusitano, demonstrou qualidades superiores no cultivo das artes plásticas. O indio e o africano, este, principalmente, não deram provas de excellencia neste particular. Para apreciar o desenvolvimento da arte nacional, no curso da nossa historia, faz-se mister dividil-a em três períodos distinctos, a saber: a) — o da arte indígena; b) — o da arte colonial; c) — o da arte nacional.
*Comprehende o primeiro todas as manifestações estheticas da civilização rudimentar que os descobridores encontraram no Brasil; abrange o segundo, que se estende do século XVI ao dealbar do século XIX, as tentativas feitas pelos colonizadores para adaptarem ao nosso meio a longa disciplina da cultura européa; mostra-nos o terceiro, finalmente, como, sob o influxo dessa mesma disciplina, e depois de ajustados e fundidos os valores moraes e intellectuaes das varias raças que vieram povoar o solo pátrio, ganhou a arte brasileira physionomia accentuada.
PERÍODO INDÍGENA
O caracter do nosso indio, como o da família tupi-guarani, de quem descende, é a instabilidade. Sua vida, seja na humida espessura das florestas ou nas praias luminosas do litoral, é a dos acampamentos, a dos pousos provisórios, num1 dia escolhidos e noutro desfeitos, ao sabor das necessidades immediatas. Habitando regiões uberrimas, criou-se e educou-se na fartura, colhendo o fruto que lhe descia sobre a rede balouçante, escavando a raiz succulenta que, humilde, lhe brotava aos pésj fléchando o pássaro ligeiro nos ares límpidos, ou apanhando na água desnevada o peixe de escamas fulgidas. Estava-lhe tudo ao alcance da mão. Ao revés do inca ou do aztéca, lutando nos planaltos ásperos contra as intempéries e a hostilidade ambiente, o timbira ou o tamoio eram absorvidos por uma natureza insidiosa, que dominava completamente o homem na sua demasiada exuberância. O que aquélles gravaram na rocha bruta e nos metaes, esculpiram estes no osso, no barro molle ou na madeira macia. Os peruanos e mexicanos eram activos. organizados, tenazes nos emprehendimentos, respeitadores da lei e da autoridade. Sabendo que, se não vencessem os rigores do meio, sairiam' aniquilados da peleja, reuniram e dispuzeram todos os elementos necessários á realização dos seus propósitos.
Começaram por se estabelecer em cidades de aspecto magnífico, observando os preceitos de uma existência patriarcal, semelhante á dos grandes povos do universo. Fixar-se num logar, era-lhes a preoccupação fundamental. Por issb, ao invés de construir, ccmo o nosso tupi, cabildas de pau entrançado com cipó, e revestidas de sapé, talharam o granito das montanhas, elevando muralhas cyclopicas, eguaes ás da Grécia pré-hellenica, e foram peritos nas industrias metalúrgicas. Emquanto procuramos os vestígios da civilização ante-cabralia nos modestos satnbaquís da nossa faixa litorânea, ou nos detrictos dos mounds e dos kjokkenneoddings, deixaram os incas e os aztécas, em palácios e templos sutnptuosos, os mais admiráveis testemunhos da sua cultura social e esthetica.
Onde apontar, entre nós, engenheiros como os das piscinas de Copacabana, architectos como os de Huiracochapampa ou de Mitla, artistas como os dos monumentos de Huantar, Marca-Huamachu o, Tepozotlan e Xochicalco, ceramistas como os dos vasos de Chimbote ou de Tonalá, ourives como os de Pachacamac? Religião, costumes, leis, tudo obedecia, nesses grandes Impérios Americanos, a um principio fundamental: a disciplina.
O homem dos Andes e dos planaltos mexicanos era, portanto, a acdão e a ordem1: o das florestas brasileiras o sonho e a improvisação. A indolência desenvolveu a imaginação do nosso índio, apurou-lhe a sensualidade, favorecida pela influencia do habitat tropical. Não possuindo nem uma noção de architectura, nunca chegou a planear os contornos de uma verdadeira eidade. Nos seus rudes aldeiamentos, feitos de «choupanas cobertas de palha ou palma, como aquéllas que hoje servem e amanhã se queimam», na pitoresca expressão do nosso velho chronista Simão de Vasconcellos, não havia margem para altas concepções de qualquer ordem1. Com1 a fibra do curaná para as redes, a argila do curí para os toscos irús e arupís, as uibás para as settas, as tinturas do genipapo e do urucú para as tatuagens e as plumas para as tangas e o s canitáres, contentava-se'elle.
Nos seus machados de pedra, nas suas armas, nos seus instrumentos de musica e nas suas ornamentações caprichosas denuncia-se, porém, um claro e feliz pendor para as artes menores. Não lhe interessava o estilo monumental. Era-lhe a arte producto do nomadismo. Por isso, só se encontrava nas suas tabas aquillo que pudesse, em poucas horas e sem esforço considerável, ser transportado ás costas nos compridos iamachís, durante léguas e léguas, depois *de um1 combate mallogrado ou de uma peste enviada por Tupan.
Nos dias festivos, nos jogos, e nas ceremonias fúnebres ou bellicosas, é que o nosso indio mostrava as suas qualidades artísticas. Untadoi com suecos e resinas silvestres, ornamentados com plumagens de araras, tucanos e papagaios, emquanto brincavam as crianças nos aéreos macurús, e as mulheres preparavam a papa do tacacá, o tarubá de cheiro activo, o doce vinho do çaburá, pondo nas yaçauas a água fresca, dansavam os homens, gravemente, ao som estridente das mimbís e dos torés, ao pesado bater dos torocanás e ao rythmo chocalhante dos maracás, brandindo as curabís enfeitadas e a maça rija! dos cuidarús.
Brilhava, então, naquélla indumentária opulenta, o que havia de mais fino e luxuoso na tribu. Ostentavam-se as armas gueneiras, as lanças de tacuara, as çarabatanas ingenuamente lavradas, as uybmbés ponte agudas, cruzando-se em1 todos os sen-1 tidos, no movimento cadenciado da choréa, que fazia estremecer, á cabeça dos bailarinos, o pennacho fulgurante das acangatáras. A musica dissonante e aguda se casava com o violento colorido das pennas tremulantes. Subia dos potes, das cuias, de tudo o vasilhame o perfume dós vinhos de mucajá, de assay, de bacaba e de outras bebidas fermentadas.
Toda a arte do indio estava ali, nos enduapes verdes, azues, amarelos e vermelhos, nos desenhos lineares da cerâmica, nas singelas incisões dos instrumentos sonoros, no apuro dos petrechos bellicos, na fantasia das ornamentações que realçavam as bronzeadas epidertnes, nas jóias e pedrarias barbaras que pendiam dos artelhos, dos pulsos, dos beiços, das faces, das narinas e das orelhas de mulheres e homens ebrifestivos.
Não trabalhando os indios nemí um metal, provinham todos os seus artefactos da madeira, da pedra, do osso e do barro. As chapas douradas que, por vezes, traziam ao pescoço, nada mais eram, segundo apurou um dos nossos mais avisados anthropologos, que simples folhetas de ouro, «taes quaes se encontram ellas na natureza». (*) Sua imaginação parece estar concentrada nas lendas 'com1 que procuravam explicar a formação do mundo, a gênese das cousas e dos deuses. Pouco fizeram, pois, nas artes plásticas, a não ser algumas obras despiciendas. Couto de Magalhães não esconde o seu espanto, quando narra que o
(*) Couto de Magalhães: O Selvagem. único monumento deixado pela civilização ante-cabralia é «uma espécie de forte circular de terra, existente na ilha de Marojó»i.
A gente que a nossa pátria deparou aos portugueses estava, portanto, no período da pedra polida. É curioso assignalar, aqui, o facto de não existirem restos de pedra lascada em nosso paiz, o que vem provar claramente que as florestas brasileiras foram povoadas por immigração de raças estranhas e adventicias. Agricultores, caçadores e pescadores rústicos, sem outros idéaes além dos inspirados por uma vida viandante, no seio de natureza desmedida e pródiga, os povos do Brasil não puderam erguer-se a um nivel superior de cultura. Faltava-lhes, para tanto, não só um meio cósmico mais favorável aos trabalhos de uma civilização superior, mas, por egual, um caracter de maior firmeza. A inconstância e a indolência geram a improvisação. A existência do nosso indio é uma continua improvisação, uma desordem perenne, uma agitação sem termo. Seu espirito in-
(1) Couto de Magalhães. Ob. cit. quieto reflectia exactamente a mobil physionomia do torrão natal.
PERÍODO COLONIAL
A indole do português, na éra das grandes navegações, formava perfeito contraste com a do selvagem. Ã imaginação desregrada e exuberante deste oppunha aquelle um senso pratico das cousas, realmente extraordinário. Povo sóbrio, de pastores, agricultores, navegadores e guerreiros, sentindo-se comprimido num trato de terra exíguo, procurou o lusitano os caminhos marítimos, afim de expandir-se livremente. O cyclo dos descobrimentos foi, antes do mais, .obra de política administrativa e econômica, ajudada pela fé christã. O interesse da mercancia, como sagazmente ponderou Fernão Mendes Pinto, «na verdade era o que mais se pretendia que tudo» *. Atravessando os oceanos, combali) Peregrinação. Em busca do Corsário, cap. 1. tendo a ferro e fogo o gentio da Ásia, da África e da America, a maruja portuguesa dilatava, apenas, as zonas da sua influencia commercial, criando novos mercados, de onde levava á Europa o ouro, a prata, os mstaes, as jóias de preço, as especiarias, e toda sorte de productos nativos e manufacturados.
Dizer que as naus e as galeras dos Gama e dos Cabral se faziam ao largo por um simples impulso de aventura e por obedecerem aos caprichos do sub-consciente da raça, é puro jogo de palavras, sem nexo e sem propósito. Apesar do lyrismo peculiar ao caracter luso, nem um povo néolatino herdou, como o de Portugal, as qualidades do romano. A disciplina, a intransigência no cumprimento da lei, a resistência e a coragem, o espirito de sacrifício, a ambição da fortuna, a solercia para attrahir os vencidos e dominal-os, são virtudes communs aos lusitanos daquelle tempo. Participavam, por outro lado, dos defeitos romanos. Eram brutaes, desmedidos, de imaginação pouco desenvolvida, embora corrigissem a seccura do temperamento com um pico de sentimentalismo lascivo, oriundo do contacto secular com os árabes da peninsula ibérica. Pouco atreitos a gentilezas e galanterias palacianas, pois se compunha a sua Corte, principalmente, de cavalleiros e soldados, não puzeram no cultivo das artes aquelle esmero dos italianos e franceses. Suas casas de moradia não eram, como as de Florença ou Veneza, museus custosos, não mostravam nas fachadas o rendado gracioso das residências nobres do Arno ou do Adriático. O mármore e o bronze não revestiam o desvão dos pórticos e o peitoril das janelas, as tapeçarias de traça finíssima não pendiam das paredes e não se abria nos pisos o desenho alegre dos mosaicos. Tudo que ultrapassasse o bem estar e a commodidade era supérfluo. Bastavam-lhe as muralhas despidas, com dois metros ás vezes de espessura, as portas rasgadas, os torreões massiços, as pontes amplas, por onde pudessem correr as mésnadas barulhentas. Pautava-se por igual austeridade o mobiliário. Mesas e cadeiras de carvalho talhado rudemente, altas e profundas commodas, leitos immensos erguidos sobre estrados, envoltos nos velarios pendentes dos baldaquinos. A decoração interior não destoava do resto., Somente, nos solares ricos, alguma pelle de lobo ou raposa cobria o chão de lageas ou o poial de pedra das janellas. Eis todo o luxo dos portugueses, nas alturas de 1500.
A arte estava nas igrejas, na architectura dos templos e nos engenhosos arabescos da toreutica e do azulejo. Ã guisa do que se observa na Europa medieval, é ella, em Portugal, filha dos Evangelhos, uma filha modesta e piedosa, menos scintillante que as suas irmãs da Ilha-de-França ou da Toscana. O obreiro luso nada criou em architectura. mas do seu gênio de adaptação, da sua capacidade assimiladora estão ainda de pé monumentos admiráveis, quer os pertencentes ao período romanico ou ao gothico.
Do estilo romanico, de breve duração no Reino, é sufficiente apontar a Sé de Coimbra, construída em fins do XII° século, a igreja conventual de Travanca, assim como poucos outros edifícios menores, esparsos nas vizinhanças da Sé de Braga, sem esquecer o velho mosteiro de Alcobaça, cuja pureza de linhas tem sido prejudicada por uma série de restauros desastrados. Começa o gothico a surgir na Sé de Lisboa e em S. Pedro de Rates, brilha em todo o seu esplendor no mosteiro da Batalha, e vai transformar-se no manuelino, mais tarde, na igreja dos Jeronymos de Belém. Nesta decomposição do gothico se acha o verdadeiro gênio plástico da raça: a ornamentação. Toda a graça do manuelino está, justamente, na fantasia decorativa, na supeflabundancia dos motivos accessorios, na riqueza varia e subtil das incisões e dos relevos.
Hábeis artífices, observadores argutos das cousas, gravaram os lusos na majestade do gothico flammejante, em ornatos delicados e profusos, a historia daquillo que apreciaram ou sentiram através das ondas que foram os primeiros a sulcar e das paragens distantes a que aprôaram nas suas esquadras numerosas. A flora e a fauna dos novos mundos .emprestaram o ineditisrno dos contornos exóticos e fabulosos á requintada curiosidade do artezão caprichoso. Quem não vê, por exemplo, naquelle grupo de crianças e deuses entrelaçados, da piscina da sala dos Árabes, em Cintra, uma recordação dos monumentos religiosos da índia? É que, por toda a parte onde chegavam as armas da Coroa, iam também os seus artistas e operários. Assim, foram ei les buscar filões preciosos á architectura castelhana, refulgente das pompas mouriscas, aos pagodes chineses, aos templos hindus e á indumentária africana. Nos minaretes, nos telhões recurvos dos beiraes, nas cupolas macias das suas construcções reflectem-se as fôrmas graciosas da arte oriental.
Na pintura, sem haverem attingido um nivel tão elevado, conseguiram, entretanto, produzir obras de intenso caracter, a exemplo dos painéis de Vasco Fernandes, na cathedral de Vizeu, ou de Nuno Gonçalves, no Palácio do Patriarca de Lisboa. Sob o influxo dos flamengos, os pintores portugueses compuzeram trabalhos excellentes. O aspecto grave das figuras do Tripiyco dos Príncipes, a justeza com que são desenhadas, a frescura da sua expressão, recordam a maneira poderosa dos Van Eyck Nuno Gonçalves, que Francisco de Hollanda no celebre «Quadro dos Pintores modernos» collocou entre as «Águias da Pintura», honraria qualquer escola italiana, espanhola ou flamenga. Seus retratos têm uma vida profunda, exprimem admiravelménte as paixões concentradas e violentas do tempo. A mascara do infante D. Henrique, sob o chapeirão de velludo negro, é o testemunho eloqüente do caracter dos homens do seu momento em Portugal. A face dura, affeita ao commando, a fronte larga, habituada ás meditações e ás scismas, o olhar transbotdante de sonho e energia, mostram as qualidades máximas da sua raça. Embora nos não deparem tantas virtudes, são de considerar os quadros e retábulos de Thomar, de Vizçu e de Évora, ao Palácio das Necessidades, do museu de Lisboa e da igreja de Santa Cruz, em Coimbra. Simão Português, Alonso de Castro; Eduardo Português, Frey Carlos, Jorge Affonso, e muitos mais, alguns formados na.escola de Antuérpia, outros educados na própria península, imprimiram1 á pintura portuguesa feição distincta.
Entrando em contacto com a terra brasilica, o primeiro cuidado dos colonizadores foi estabelecer no litoral pequenas feitorias, onde lhes fosse possível abrigarem-se das tempestades, sem correr o risco de inopinadas aggressões dos incolas. Os edifícios que, de começo, construíram, aqui, se revestiram de ura caracter puramente militar. O pouso era, ao mesmo tempo, um fortim, protegido por estacas de pau a pique, disposto nalgum acclive de terreno, e rodeado de largos fossos. Quando, por effeito do concurso de suxessivas levas de immigrantes, principiou o paiz a ser devassado, um elemento novo fez sentir, desde logo, a sua presença, entre (os capitães e os colonos despachados para o Brasil. Esse factor, de incalculável influencia, foi o que nos trouxeram as missões religiosas. Para que uma povoação tivesse todos os attributos de segurança e estabilidade, tornava-se mister que a mão do jesuíta erguesse, na coroa de um oiteiro, o campanário da ermida singela. Sem igreja, pode affirmar-se, não ha villa nem aldeia. A casa de Deus representa, pois, o mais vetusto signal do gosto architectonico entre nós.
A traça do edifício era a mais primitiva. Compunha-se de quatro paredes lisas, com algumas janelas dos lados, uma porta de boa largura na frente, e outra, menor, na sachristia, aos fundos. Dentro e fora, a brancura da cal, como um véo de incenso, cobria a nudez geométrica dos muros.
Ao findar do XVI» Século, desenvolve-se o luxo. Já não se satisfazem mais os colonos com a rusticidade antiga. Coube, então, á capitania de Pernambuco, dirigida por Jorge d'Albüquerque Coelho, descendente dos Albuquerques, Coelhos, Pereiras e Bulhões, fidalgo da melhor prosapia e de fartos haveres. a missão de governar os destinos econômicos e intellectuaes da America lusitana. Segundo os mais autorizados documentos, oo no os que nos legou Fernão Cardim, na sua Narrativa Epistolar, havia por essa época, em Olinda, uma sociedade florescente, ávida de diversões, de bailaricos e jfunçanatas, de brodios ruidosos e espectaculos de toda a casta. «Trajavam os homens velludo, damascos e sedas, e despendiam briosamente com cavalios de preço, com sellas e guiões, das mesmas sedas da roupa. As senhoras também ostentavam luxo e (gostavam mais de festas que de devoções» x. Prosperavam as fioríunas vertiginosamente; a exportação, do pau-brasil e do assucar, dia por dia avultava, rendendo lucros immensos; levas crescentes de escravos de Guiné concorriam para o desenvolvimento das fazendas e engenhos, proporcionando aos proprieaios una existência forra de labores e cuidados.
(*) E. Cardim. Narrativa Epistolar.
Cada qual, pois, se extremava em parecer mais opulento, gastando o que podia, e, ás vezes, o que não podia, accumulando dividas mas augmentando o credito pelo apparato das installações e das vestimentas luzidas. Olinda era uma réplica, posto em ponto menor, da longiqua e fascinante Corte. Ahi, como na capital do Reino, predominavam as mesmas paixões, jogavam-se os mesmos jogos, armavam-se os mesmos folguedos. «Em Pernambuco, refere Cardim, entre queixoso e deslumbrado, encontra-se mais vaidade que em Lisboa.» Só faltariam carruagens faustosas, diz Varnhagen, para que em tudo a colônia andasse ao par da metrópole. Organizavam-se justas, a que concorriam cavalleiros adestrados, vestidos de chamalotes e gorgorões, com armaduras lameladas de prata. O interior de certas habitações mostrava requintes desusados. Narra o padre visitador Christovam de Gouvêa, que os leitos eram de damasco carmezim, franjados de ouro, e as camas dos hospedes se cobriam com riquíssimas colchas da índia. Nas mesas sempre postas se estendiam toalhas partidas de rendas e labirinthos, e os vinhos, os licores e os cordeaes, com os quaes se gastavam milhares de cruzados por anno, serviam-se em jarros e taças de cristal lavrado. *
Não tardou que a Bahia, como sede do governo geral, e, mais tarde MinasGeraes, acompanhassem a capitania pernambucana, rivalizando com ella na febre das vaidades e das louçanias. No século XVII começam a surgir as igrejas espaçosas, as matrizes amplas, os immensos conventos. Transformam-se os arraiaes em cidadesinhas. Cresce o numero de casas, agora construídas com mais solidez e melhor acabamento. A vida inquieta da população, cercada de tribus hostis, vai, pouco e pouco, cedendo logar ás doçuras de um convívio tranquillo. Os indivíduos não se aproximam, agora, apenas pela necessidade imperiosa de se garantirem contra as investidas do selvicola. Procuram-se por prazer, para trocarem idéas, para commentarem os dramas e as intrigas corriqueiras da existência quotidiana. A imitação dos usos da metrópole vai ganhando cada vez mais no-
(v) Apud Varnhagen. Historia Geral, 1.» vol. vos adeptos. A abastança desenvolveu o gosto das cousas voluptuarias. Ninguém, por sua vontade, toleraria mais os casebres de terra batida ou o mobiliário dos alongados tempos do século XVI. Os artistas vindos, provavelmente, na comitiva dos fidalgos, para lhes aformosearem as moradas, assim como os ingênuos operários da Companhia de Jesus, espalham o amor das bellas cousas.
Os documentos referentes ao século XVII não nos fornecem, infelizmente, considerável copia de noticias. Sabemos que o príncipe de Nassau trouxe cornsigo da Hollanda pintores de valor, a exemplo de Franz Post, paisagista de recursos, cujo nome occupa logar distincto na historia da arte, Zacharias, Wagner, os irmãos Ekhout \ e architectos de merecimento, como Pedro Post e Pieter, autor da planta do palácio de Friburgo. Se esse pugillo de esthelas não deixou discípulos directos, en-
(a) O sr. Argeu Guimarães, na sua Historia das Artes Plásticas no Brasil, pg. 77, in nota, affirma ser problemática a vinda dos Ekhout ao Brasil. tre nós, contributo necessariamente para despertar o gosto do nosso povo, dando-lhe a conhecer e estimar producções e monumentos muito superiores ao que estava elle acostumado a apreciar. Sobre tudo isso, o contraste das duas civilizações, — a portuguesa e a flamenga — que se thocavain em Pernambuco, deveria ter impressionado fundamente os natur&es do paiz.
A PINTURA NOS SÉCULOS XVII e XVIII
Não .apresenta a pintura em todo o período colonial cultores invulgares. Apontam-se, no fim do XVII° e no correr "do XVII Io séculos, os nomes de Antônio, Luctnua, Verônica e Lueiana de Sepulveda, em Pernambuco; os de Eusebio de Mattos Guerra e José Joaquim da Rocha, na Bahia; os de Frei Ricardo do Pilar, José de Oliveira, Manoel da Cunha, Leandro Joaquim, Francisco Solano, e outros mais, no Rio de Janeiro, sem esquecer o de José Joaquim Viegas de Menezes, em Minas.
Dos Sepulveda, pai e filhas, pouco ha
(!) B. Machado. Bibllolheca Lusitana.
(*) Vide: Manoel Raymundo Querino. Artistas Bahianos, pg. 50. Senhora do Rosário da Baixa dos Sapateiros e na sachrístia da Ordem Terceira de S. Francisco. Foi inferior no retrato, gênero que não se coadunava com o seu temperamento grandiloquo e exuberante. Dentre os seus aprendizes, os mais illustres foram o mestiço José Theophilo de* Jesus e Antônio Joaquim Francisco Velasco, que brilharam na primeira metade do XIX» século.
Devem os fluminenses a Frei Ricardo do Pilar, nascido nas Flandres em meiados do século XVII, e fallecido no Rio de Janeiro em 1700, as primeiras manifestações da pintura na capital do Brasil. Consta o espolio ido monje benedictíno, principalmente, de painéis decorativos, inspirados em' assumptos religiosos, á maneira dos primitivos italianos. Embora tenha sido copie sa a producção de Pilar, já em fins do ultimo século, segundo o autorizado testemunho de Gonzaga Duque,' só existia um quadro seu em razoável estado de conservação: a imagem de Chrísto, do altar-mór
(1) Arte Brasileira, ed. Rio de Janeiro, 18S8, pg. 33. da capei-la do Mosteiro de S. Bento, agora, infelizmente, mais ennegrecido e desbotado. Pouco *se conhece, tanabemy .da vida de Jiosé de Oliveirai, e o que ficou da sua actividade, se não é dessaborido, soffreu, nos retoques e alterações posteriores damnobastante' considerável para que possamos ajuizar convenientemente do seu talento. Cultivou, á guisa de Pilar, os motivos sacros, sobrelevando-o porém nas aptidões variadas que revelou em outros ramos derativos. Além dos muitos quadros que executou para as nossas igrejas, pintou a sala de audiências do Palácio dos Viee-Reis, restaurada, no segundo Imperiov por Manoel de Araújo JPorto Alegre, e a praça d'armas da; fortaleza da Conceição. Formou alguns imitadjores medíocres, entre os quaes João de Sousa, cujo mérito maior foi o de ter servido- de mestre a Manoel da Cunha. Este mestiço, de espirito vivaz, é o artista mais apurado da época. Os estudos feitos em Lisboa muito contribuíram para a segurança, que mais tarde mostrou, nas galas do colorido e na fantasia das concepções. Á semelhança dos seus antecessores, inspirou-se nos passos dos Evangelhos, e firmou renome de retratista. Seu melhor discípulo,
ESTUDOS BRASILEIROS 1?$1
Leandro Joaquim, de origem humilde como a do professor, chegou, sob a protecção> de Luis de Vascomcellos,. a uma certa notoriedade, particularmente, no retrato. Francisco Solano, coévo de Leandro, considerado' o> mais fino decorador do tempo, areou fama' de habilissimo nas artes ornamentadas. Tendo entrado, desde cedo, para urna ordem» religiosa, não lhe foi' propicia aos dote» naturaes a vida mona cal. Tudo quanto produziu foi obra do esforço» propriOj do pendor com que nasceu.
Ao longo desses dons séculos da nossa formação, ernqwanto nas letras, com Grego rio dte Mattos, Rocha Pi-tta, Mathias Aires, Antônio José, Basilio da Gama, Durão, Cláudio Manoel da Costa, Gonzaga e vários outros poetas e prosistas ganhava o nosso pensamento foros que o tornavam digno de correr parelhas com o da metrópole, não dávamos na pintura provas cabaes de .progredimento. É que, nas artes plásticas, não basta a boa vontade no aprender, mas é mister uma experiência diuturna, guiada por atilados- profissionaes. Accresce ainda que, drenando os dirigentes do Reino todas as nossas riquezas para as arcas da coroa bragantína, vivia aqui a maior parte da população com escassos recursos, e inteiramente entregue, no interior, ás minerações e á agricultura, e, no litoral, ao commercio e ás incipientes industrias. Não tínhamos, por isso, attentado na formosura do nosso meio cósmico, ou, melhor, não estávamos preparados para traduzir na pedra e na tela as maravilhas que já haviam seduzido os nossos escriptores. Se, na Europa, ainda predominava a lição do paganismo christianizado dos mestres do Renascimento, modificado pelo sopro de realismo vindo das communas e das lutas religiosas, o nosso feitio esthético permanecia puramente primitivo. Não fora vão nem inútil o influxo dos jesuítas e das missões catholicas .estabelecidas em nosso paiz.
ARCHITECTURA, ESCULPTURA E TO-
REUT1CA NOS SÉCULOS XVII e XVIII
Fomos, temos sido e ainda agora somos um povo sem architectura. Não conseguimos assentar u n estilo nosso, próprio, singular. A maioria das nossas antigas cidades tem o aspecto de aldeiamentos consstruidos ás pressas, na tumultuaria desordem das ruas mal traçadas, na disposição do casario irregular e desregrado. Durante a phase colonial foram Olinda, Recife, S. Salvador, Rio de Janeiro, Tejuco e Ouro-Preto as villas e cidades de maior relevo, como centros administrativos e commerciaes de mais alta importância no Brasil. Pondo-se de parte um que outro edifício publico, ou certas propriedades de homens influentes pela fortuna, as construcções de maior vulto eram as igrejas e os conventos. Erguiam-se de todos os lados casarões de estilo barroco, de que abusaram os jesuítas. A comtnodidade se avanlajava ao gosto. Não havía poupança nem economia na montagem dessas immensas machinas architectonicas. Queriam-se largas e profundas as salas, rasgadas as portas e janelas, altos os tectos. O convento era, ao mesmo tempo, habitação e fortaleza, tão resistentes se mostravam alicerces e paredes mestras. Do mesmo geito procediam os obreiros ao erguerem os templos, sendo nisso imitados pelos constructores particulares. Morando em cada solar dezenas de pessoas, pois, as famílias abastadas faziam acompanhar-se quasi sempre de parentes proieimos ou remotos, de amigos e simples aggregados numerosos, tornava-se necessário dar aos edifícios desmedidas proporções. Oaiados por dentro e por fora, desdebravanm-se elles em câmaras, saias e salões vastíssimos, rodeados, no geral, por espaçosas varandas, onde, nas horas calidas do bochorno tropical, se suspendiam as redes para a sésta. Cresciam, em torno dessas pesadas habitações dos nossos avós, arvores copadas, derramando na rélva do ohão a sombra dos ramos fartos e vertendo no ar o perfume das flores e dos frutos silvestres. Os pomares umbrosos, com a água fresca dos tanques para a rega, se repartiam em banquetas e canteiros, enitremeiados de talhões humidos, onde brotavam as hortaliças para os condimentados nepastos domésticos. Corriam em liberdade por elle aves e atrimaes de criação, ciscando ou revolvendo os detrictos do solo, de par ecan os pássaros da mataria próxima. Apartada do convívio dos senhores, no mais alongado recesso da chácara ou do sitio, entregava-se a escravaria aos trabalhos caseiros.
Excluídas as mantearias custosas dos iazendeiros e mineiradores opulentos, não apresentavam os óbjectos de uso realce particular. Moveis de boa madeira, alguns torneados com certo primor, á laia dos que se fabricavam no Reino, esteirinhas de palha amarella para o chão, moringas' e cuias pintadas de listas vermelhas ou azues, copos de vidro grosseiro e pratos de porcelana ou faiança ordinária, eis o que se encontrava no interior dos lares communs. Estava o maior requinte nalguma gravura colorida representando a Virgem ou o Coração de Jesus, pendente da parede dos quartos melhor aprestados ou das salas mais importantes.
Quando o povo desejava deslumbrar-se ante o fulgor de uma obra d'arte, penetrava, contricto, a nave majestosa' da igreja. Deparava-se-lhe, ali, tudo quanto o gosto mais fino da época seria capaz de exigir. Lá estavam as imagens carinhosamente esculpidas, os altares lavrados por mãos inhabeis mas piedosas, as jóias e pedrarias que recamavam os santos de maior devoção, os castiçaes de graciosas canduras, os vasos de ouro e prata, os ciborios, os hyssopes que aspergiam a água benta, por entre rolos de incenso, os candelabros, suspensos do tecto por grossas correntes de metal brunido, brilhantes do reflexo furtacor dos pingentes de cristal, as mantas de seda, as rendas, os brocados a os velludos das vestimentas clericaes. Era o templo, simultaneamente, logar de orar e admirar. Na casa do Senhor resplandecia também o museu do povo.
Está ahi a razão de serem os nossos architectos, esculptores, pintores e gravadores do período colonial artistas de inspiração religiosa. Educando-se no seio da igreja, bebendo, com o leite materno, a lição do catholicismo, seguiram elles a natural propensão que lhes viera do berço. Ã guisa dos portugueses, extremaram-se os nossos architectos nos pormenores e minúcias da ornamentação. Suas plantas não offerecem particularidades notáveis, não têm movimento as suas massas nem elegância ou delicadeza a linha geral das suas construcções. Punham elles nos acabamentos toda a sciencia que lhes era própria. As obras de talha, como na igreja do Carmo, no Rio de Janeiro, e no Convento de S. Francisco ou ainda na Cathedral dos Jesuítas, na "Bahia, são, em verdade, sumptuosas. A capella-mór do convento de S. Francisco é, no gênero, uma das mais ricas em todo o mundo. Altares, paredes, colutunas, frisos, tribunas, cobre-se tudo de um variado tapiz de florões e arabescos preciosos. As cariatides que sustentam o fulcro das columnatas são modeladas com energia, valendo observar a expressão genuinamente lusa de certas mascaras de mulheres, que lembram as camponias e varinas de Portugal.
Embora não nos tenha legado a architectura colonial um só monumento digno de maior registo, transmittiu-nos a esculptüra alguns nomes de valia. Desses, três ficaram célebres. Chagas, — o Cabra — na Bahia, Antônio Francisco Lisboa, — o aleijadinho —, em Minas, e Valentim da Fonseca e Silva, — o mestre Valentim —, no Rio, podem ser considerados os fundadores da toreutica e da esculptura em nosso paiz. Chagas, cuja biographia é obscura, conquistou por suas obras a estima e o conceito lisongeiro dos contemporâneos. Citam-se, dentre ellas, em S. Salvador, o grupo de Nossa Senhora das Dores, S. João e Magdalena, na Ordem Terceira do Carmo, e o S. Benedicto, da matriz de Sanf Anna. Antônio Francisco Lisboa, cognominado o Aleijadinho, appellido que lhe veio em conseqüência de impiedosa enfermidade que o desfigurou, foi o maior esoulptor e architccto das Minas Geraes. Ouro Preto, Sabará, Marianna, S. João d'El Rey, e outras localidades da sua província natal, attestam-lhe os méritos invulganes, especialmente se levarmos em conta que Lisboa não recebera, se não do pai, mestre dtobras português, os rudithentos do seu officio. Pertence-lhe o risco da igreja de S. Francisco, em Ouro Preto, e da do mesmo nome em S. João d'El Rey, assim como as decorações e os grupos esculptoricos de outros vários templos mineiros. Cabem a Mestre Valentim, contudo, as maiores glorias. Influiu, necessariamente, para que fosse elle mais conhecido que os seus emulos, em nosso paiz, o facto de ter vivido no Rio de Janeiro, sede do governo da colônia. Mineiro de nascimento, producto do cruzamento de um reinol com uma parda, levou-o o progenitor, «pela vivacidade da sua intelligencia», segundo affirma Porto-Alegre, para as terras de além-mar. Não tardou, porém, que de lá nos voltasse, por morte do pai, para fixar-se no Rio, onde grangeou logo celebridade. Demonstrou, aqui, em differentes passes as qualidades que possuía, modelando estatuas, gizando plantas de casas, desenhando motivos ornamentaes para jóias e objectos do culto catholico, e enriquecendo com optimos «trabalhos de toreutica diversas igrejas, a exemplo das de S. Francisco de Paula, Cruz dos , Militares e Ordem Terceira do Carmo. A madeira, o bronze, a prata e o ouro não tinham segredos para as mãos ágeis de mestre Valentim, tão perito nessas emprezas, que lhe era escasso o tempo livre para aftender aos innumeros pedidos de moldes, pTojectos e debuxos vindos de toda a parte. Dos discípulos que formou os mais interessantes foram José da Conceição e Simão da Cunha, ambos decoradores apreciáveis. Até a chegada da missão Lebreton, contratada pelo Conde da Barca, ministro de Estado de D. João, e conseqüente creação da Escola de Bellas Artes, são esses os factos e os nomes de maior relevo durante o período colonial.