A psyche brasileira: energia portuguesa e imaginacao selvagem Estudos brasileiros: 1a. série · Capítulo 7 de 8
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A psyche brasileira: energia portuguesa e imaginacao selvagem

A PSYCHE BRASILEIRA

A alma brasileira nasceu de três grandes melancolias. Deu-lhe a saudade' portuguesa a doçura da sensibilidade ibérica e o fatalismo voluptuoso da imaginação oriental; accrescentou-lhe o indio a inquietação do terror cósmico; ajuntou-lhe o africano a queixa immensa da sua humilhação, o travo do seu soffrimento resignado.

A ENERGIA PORTUGUESA

A saudade é filha do mar desconhecido e das batalhas tumultuosas. Quando o português se fazia ao largo, no lenho frágil das caravelas, ou em mesnadas bulhentas, investia com os ligeiros ginetes árabes, ora nas planícies da península, ora nos ardentes areiaes da costa d'África, sentia-se naturalmente impellido por um destino irremediável, o mesmo destino que lhe conferiu um berço angustioso, incapaz de conter os impulsos de uma raça rude e voluntariosa. Dominou-lhe a imaginação, desde logo, essa fatalidade inevitável de ter nascido, emprehendedor e audaz, em uma pátria de apertados limites, onde não poderiam expandir-se os seus desejos e as suas ambições insopitaveis.

Emquanto os outros povos se entretinham no aranhol de intrigas amáveis ou sanguinosas, polindo as maneiras e requintando os hábitos naquellas guerras de galanteria do Renascimento; emquanto franceses e italianos se divertiam na festa dos loucos, nas ruidosas sotties, nas mascaradas elegantes ou na delicia dos pomares decameronicos, entre epigrammas de sabor clássico e madrigaes de fina lascívia, os lusos, nas suas vastas e silenciosas casas solarengas, brunidos pelos ares oceânicos ou pelos trabalhos ruraes, pesados e bárbaros, continuavam a mesma existência dos seus ascendentes, pastoreando rebanhos, pescando em faluas e agricultando os campos.

Ao revés dos príncipes e senhores florentinos, venezianos, genoveses, napolitanos, provençaes e parisienses, vestidos de velludo e recamados de jóias, bebendo por taças de ouro os vinhos guardados em jarros de caprichosos lavores, ou banhando as mãos na água perfumosa dos gomis lavrados, os príncipes e senhores de Portugal trajavam pannos grosseiros, tecidos para resistirem ás injurias do tempo, e, á mesa delles, serviam-se as iguarias em recipientes sem arte e os licores em copas de barro ou vidro espesso. Não conheciam elles os prazeres delicados, os repastos prolongados pela conversa gentil, os amorosos enredos de subtil platonismo, ,a ironia, que é a flor das sociedades apuradas, o encanto das bellas cousas, que é o fruto do conforto e da abastança. Austeros e pontilhosos no cumprimento dos deveres, eralhes a vida uma dura lição de honra e cavalheirismo. Vigiando, do alto dos castelos roqueiros, ao tremulo clarão das almenaras, o sarraceno impiedoso, ou arroteando os seus vergeis floridos, estavam sempre de olho vivo, á espera do assalto inopinado ou dos aguaceiros e estiagens prejudiciaes. Cada um desses homens nobres ou filhos de algo, repetia, assim, no bucolismo da paisagem natal, a existência dos varões de Hesiodo, fieis aos deuses e ao labor fecundo.

Pesava-lhes sobre a cabeça altaneira o terrível Fado, aquelle faium, ,que o aventuroso legionario dos Césares levara, com as águias romanas, através de todo o mundo antigo. Esse mysterioso fado é o principal factor da saudade portuguesa. Era elle que acordava na voz dos marinheiros, quando, apinhados á proa das naus, cantavam, ao som das violas e das guitarras, a nostalgia das suas paixões. O que os marujos exprimiam, não era somente a lembrança do torrão paterno, mas, por egual, a esperança de vencer o desconhecido, de subjugal-o, de conquistal-o arrojadamente. Era, também, o sentimento confuso do impenetrável destino, que lhes irrompia do coração ferido:

Um impossível me mata

Por um impossível choro;

É impossível que vença

Um impossível que adoro.

Não sei que quer a desgraça

Que atraz de mim corre tanto?

Heide' parar e mostrar-lhe

Que de vêl-a não me espanto.

O fatal ismo com que os lusos recebiam esse quinhão doloroso, apparece, aqui e ali, na maioria dos seus .cantares. Vale mencionar, entre outras, as seguintes canções, em que palpita a chamma dos seus tormentos interiores:

Eu quero bem á desgraça, Que sempre me acompanhou; Tenho ódio á ventura, Que bem cedo me deixou.

Resume esta quadra o orgulho despeitoso, elemento primacial nas raças viandantes, e muito de assignalar, por exemplo, nas imprecações simultaneamente resignadas e atrevidas, da gente israelita. Noutras, exclama o guitarrista, como para traduzir a gênese do seu trovar:

Quem canta seu mal espanta, Quem chora seu mal augmenta; Eu "cante para espalhar Uma dor que me atormenta.

Eu heide morrer cantando, Já que chorando nasci; Já que os gostos desta vida Se acabaram para mim.

Quem1 me ouvir a (mim cantar

Cuidará, e tem razão,

Cuidará, que estou alegre,

Sabe Deus meu coração.

Não canto por bem cantar,

Nem por bem cantar o digo;

Canto para aliviar

Penas que trago commigo.

A saudade é, pois, um mixto de amor deoenganado, de recordação pungente, de esperança mallograda, de tristeza sem causa definida, de ansiedade e abatimento, de pena e satisfação. Quem está saudoso, está feliz e infeliz, do mesno passo, feliz porque revive pelo pensamento a doçura que se foi, infeliz porque a relembra sem poder renoval-a. Foi talvez inspirado por esse agudo sentimento, que o Dante pôz nos lábios da Francesca os versos famosos, onde se encontra porventura uma genial interpretação da saudade portuguesa:

....Nessun ,mas;y;ior dolore

Che ricordarsi dei tempo felice

Mella miséria...

A IMAGINAÇÃO SELVAGEM

Misturada com o terror cósmico do gentio, com o animismo inconsciente do nosso selvagem, perde a saudade um pouco da sua pura melancolia humana, transformando-se em um tormento vago e indefinido, nesse tormento proveniente da natureza desmedida e inexplicável, que nos rodeia. A superstição do português, como a dos povos aryanos, é produzida pela observação dos phenomenos naturaes, e serve-lhes até de ponto de referencia e norma de proceder na vida. O feitiço do indio é gerado pelo intraduzivel espanto que elle experimenta em face da realidade.

Não tivera ainda tempo o nosso indígena para fixar e estabelecer referencias exactas entre o que via e o que suppunha ver. Confundia, no mesmo pavor, as causas e as apparencias das cousas. Povoava as solidões de seres mysteriosos, cada qual armado de poder es sobrenaturaes e prompto para vencer o homem mais afouto. A theogonia das raças brasilicas, se assim podemos denominar as creações instinctivas do terror cósmico, basea-se na idéa do castigo. A família tupi-guarani, ramo degradado dos povos superiores da America, e ainda na idade da pedra polida, não poderia patentear altas concepções theogonicas.

Adorava o índio três entidades soberanas: Guaracy — o sol — mãe do reino animal; Jacy — a lua — mãe do reino vegetal, e Rudá ou Perudá, divindade protectora do amor e da procreação. Ao redor de Guaracy, e submettidos á sua influencia, aggrupavam-se outros espíritos menores, como sejam: Anhangá, espécie de veado branco, de olhos flamivomos, a quem competia a defesa dos animaes, no seio das florestas; Guirapurú, que, sob a forma de uma ave, protegia os pássaros; Uauyára, o boto fluvial, a quem se confiava a custodia dos peixes nos rios e nas lagoas; e o Cahapora ou Caipora, gigante peitudo e escuro, que, montado em um desconforme caetetú, ou porco do mato, guardava a caça meuda, as cotias, as pacaa e os macacos ardilosos.

Tinha Jacy ás suas ordens o SacyCerêrè, ou Perêrè ou Sapêrê, representado por um selvicola de pequena estatura, com um barrete .encarnado á cabeça e, apesar de coxo, endiabrado como um trasgo do bestiario gothico. Este Sacy é, com os diabinhos do inferno medieval, o tormento das crianças brasileiras que, mercê do contacto com as amas e servos mestiços, desde cedo aprende a temel-o, com a mesma credulidade dócil do incola. Além delle, prestavam obediência á Jacy, o Compira, semelhante ao kobold da lenda germânica, figurado por um indio nanico, de pés reversos, o corpo inteiramente fechado do pescoço para baixo, e cuja missão é a de zelar pelas florestas, onde perde e desencaminha os que maltratam as arvores e as plantas; o Mboitafâ, ou cobra de fogo, que vingava com a morte o incêndio inútil dos campos, e o Uratâu, alcunhado vulgarmente Mãe da Lua, ou Whip poor Will, nas Guyanas, que é um tabu para a honra das mulheres virgens, cuias redes são forradas da sua plumagem.

Ruiâ, o deus do amor, merecia, porém, a predilecção das nossas indias. Ha, entre outras, uma oração guarani, com que as amantes ciumentas ou sem ventura, costumavam invocal-o, ao por do sol, ou quando Cairé, a lua redonda, da coroa dos morros, vertia sobre os ermos a sua luz dúbia e gelada. Vale mencionar no original essa deliciosa canção, ingênua e genial como todas as cousas prinitivas.

Figurae a joven enamorada, com a sua cabeça pequenina, o rosto ovalado, os olhos negros cortados em feitio de amêndoa, os pés e as mãos muito breves, núa como a Eva genesica. Estende-se-lhe em torno a mataria das caatingas immensas. Tudo está quieto, e o enorme, o envolvente silencio dos sertões, que o selvagem apelidou onomatopaicamente de kirirí, pesa sobre as ocas das tabas. Somente os sapos, os ratosccrós, as corujas e os morcegos quebram, a espaços, o torpor do ambiente. No aldeiamento, deserto de homens validos, as mulheres, os velhos e as crianças confundem as vozes tímidas ou alquebradas. Todos os guerreiros partiram, com as suas compridas lanças de arremesso, os seus tacapes e os seus ;ircos pesados. E. entre elles, lá se foi para o horror dos combates com1 o bárbaro tapuio, aquelle a quem a india amorosa entregou o seio perfumado pela fava do cumaru. Ah! seria crivei que nunca mais, ao balanço da rede, sob o docel das robustas cajazeiras, elles se beijassem docemente? E, consoante o ritual, o braço direito apontado para a distancia em que o amante desapparecera, a india soluça um canto prolongado, profundo, num rythmo sereno:

Rudá, rudá, Iuáka pinaié, Amana reçaiçu... Iuáka pinaié, Aiueté Cunha Puxiuéra oikó Ne mumanuára ce recé Quahá caarúca pupí.

Esta prece dos tupis, colhida pelo ethnologo Couto de Magalhães, foi pelo mesmo assim vertida:

O Rudá, Rudá, Tu que estás no céo, E que amas as chuvas, Tu que estás no céo... Faze com .que elle Por mais mulheres que tenha As ache todas feias; Faze com que elle se lembre de mim esta

tarde, quando o sol se ausentar nj

occidente (*).

(!) Couto de Magalhães. O Selvagem, pg. 159. 2.a ed. 1913.

São do mesmo teor os exemplares, infelizmente escassos, da nossa poesia selvagem. Desprende-se delia um mysticismo grave, feito de terror e paixão, onde a alma do guarani deixava extravasar as maguas recônditas. É interessante referir, segundo o testemunho de F. Denis, que alguns desses cantos, apesar do seu sabor de fruta silvestre, conseguiram agradar ao paladar do subtil Montaigne, quando lhe foram communicados pelo senhor de Villegaignon, ao voltar este do Rio de Janeiro, em 1559. E adeanta o citado Denis, que os conceitos de Montaigne, no Livro Primeiro, Capitulo 54, dos «Ensaios», acerca da poesia popular, «qu'on nous rapporte des nations qui n'ónt cognoissance d\iulcune science, ny mesme d'escripture», lhe foram suggeridos pelos versos dos nossos tupis, affirmação digna de credito, porquanto, em mais de um lanço da sua obra, o'desencantado «humourista» francês do XVIo século, honra o Brasil nascente com algumas citações, i

Não possuia o tupi, á guisa do azteca

(i) Vicl. Afranio Pcixoío. Primeiras Ic ris ed. Annuano do Brasil. Rio. e dos grandes povos americanos, folklore Capaz de emparelhar :o n 03 do Mexi o ou do Peru. Falando língua menos rica e malleavel que as do México, da America Central e da cordilheira andina, vivendo em bandos irregulares, sem rei nem lei, o índio brasileiro deixou de si vestígios de significação incomparavelmente inferior aos legados por seus irmãos continentaes. Conseguiram os nossos especialistas salvar, todavia, una considerável porção de lendas e mythos, reveladores já de concepções elevadas.

A tradição oral guardou fragmentos de uma possível gênese tupi, herdada certamente de outras raças cultas, por onde se verifica a existência de uma primitiva cosmogonia, entre as nossas tribus mais adeantadas. O Carú, dos mundurucús, por exemplo, é o mesmo Carú, dos Quichuas, tanto na essência como nos attributos do seu poderio, infinito como o do Jeovah do Antigo Testamento. Couto de Magalhães, Barbosa Rodrigues, o Visconde de Araguaya e vários outros indianistas nacionaes, asseguram que o nosso selvagem acreditava na immortalidade da alma, estribandose, como prova do asserto, no facto de serem os mortos sepultados com as armas e utensílios domésticos que lhes tinham pertencido. Deparam também as suas crenças vislumbres da metempsychose, e, provavelmente, de uma idade paradisíaca, em que os homens não conheciam o soffrimento, e viviam eternamente, na abundância e na felicidade. É mister, entretanto, não aceitar sem detido exame muitas de taes conclusões, pois, a influencia das missões jesuiticas destemperou o caracter da mythologia indígena, acrescentando-lhe motivos christãos, embora ingenuamente n:ascarados x

O sábio Barbosa Rodrigues, na «Poranduba Amazonense»,'- tiie^ouro de contos, abusões e tradições selvagens, escreve que o indio via no firmamento o natural asylo da alma dos seus guerreiros mortos, cuja vida se perpetuava, ajsi n, no

(x) Cf. M. Anton. Antropologia «V los pueblos de America anteriores a' descubrimiento. Madrid. 1892. O. G. Brinton. The American Race. A. J. 1891. A. Reveille. Les Rei^ions du Mexique, de VAmerique Centra'c ei du Pcroi. Paris. 1885.

(2) J. B. Rodrigues. Poranduba Amazonense. Rio. 1890. fulgor dos astros. São particularmente 'curiosas as lendas genesicas dos grandes rios e das constellações, do nascimento da noite e da formação dos elementos primordiaes do Universo. A da origem do SoHmões — Sorimáoi u Ypirungau — nome que os tupis dão ao Amazonas, é um verdadeiro documento de empirismo scientifico, pois, se funda em um phenomeno tellurico, de onde surgiram as florestas e a immensa bacia potamographica da região amazonense.

Refere a lenda que, havia muitos annos, o sol e a lua estavam noivos, embora não podessem casar-se, porquanto, se tal acontecesse, o mundo se acabaria, co.nburido pelo abrasadio amor do sol ou inundado pelas lagrimas da lua. A lua apagaria o fogo; o sol faria evaporar-se a água. Foram* então, obrigados a separar-se, cada um para o seu lado. Separaram-se. A lua chorou todo o dia e toda a noite, rojando as suas lagrimas por cima da terra afie ao mar. O mar, entretanto, levantou-se irado em ondas bravias, e, por isso, as lagrimas da lua não poderam misturar-se ás águas do mar, correndo meio anno para cima e meio anno para baixo. Das lagrimas da lua nasceu, então, o Amazonas.

Corre entre os pamarys, moradores em cidades fluviaes e lacustres, uma versão do dilúvio, que alguns anthropologos, apoiados em informações de viajantes e jesuítas, como Herrera e Ovalle ou Si.: õe:

A Tapera da Lua, onde se procura explicar o nascimento de Jacy, é de mui delicada poesia. Resumiu-a, desta arte, no

(l) J. B. Rodrigues. Oòra cit pag. 214. seu estilo de mel e madresilva, o nosso Affcnso Arinos:

«No tempo em que as amazonas andavam ainda pelas margens do seu grande rio, havia uma tribu de Índios, cuja aldeia ficava junto de uma lagoa tranquilla, nas fraldas da serra chamada então do Taperê e hoje'do Acunan.

«Uma guerra infeliz reduziu a tribu a dois sobreviventes, irmão e irmã, dos mais bellos da sua raça, que ficaram sozinhos no alta da montanha.

«Então, disse ao irmão a irmã:

« — Õ meu querido irmão! Como és homem e forte, ficarás aqui no alto do Taperê, emquanto eu desço á nossa aldeia, ás margens da lagoa. Armei tua rede nos castanheiros e deixei ao lado as minhas lindas flechas. As flores das parasitas que crescem nos ramos suavizarão o ' teu soirino com o seu aroma. Adeus!

« — Adeus, até quando?»

« — Até quando te acordarem ps mais bellos pássaros, cantando á luz da manhã»

«E a índia desceu com o passo incerto, os olhos tristes de veada ferida, mostrando na estranha pallidez um aperto no coração.

«Ao entardecer, seu corpo leve de adolescente baloiçava na fede selvagem, ataviada de pennas multicores, que os raios do sol poente irisavam. Ennoitou-se a aldeia, e já o oitíbó tinha sahido do seu esconderijo, quando a moça, tremula, offegante, arrastada por uma força estranha, procurou o caminho da serra, em demanda da rede armada nos castanheiros.

«Ella sentiu amor!...

«Ninguém conhecerá o segredo desse meu tormento! suspirava ella. Amal-o-ei na tieva; serei de dia sua irmã!

«Três vezes a in^ ; a apaixonada subiu a montanha e três vezes voltou á desertj aldeia, escondendo na solidão e no ncgrume da no'te o segredo do seu criminoso amor

«Mas, na ultima vez, o moço gentio, quererdo desvendar o mysterio, usou de um estratagema: tingiu o rosto com as tinta^ do urucum e do genipapo, que vicejavam ali, para marcar a face da cauta vizitante, ao primeiro beijo.

«E quando, ao nascer do sol. já na sua aldeia, á margem da lagoa, a moça enamorada foi mirar-se no espelho das águas — horror 1 — viu no próprio rosto as manchas negras do seu crime.

«Então, salta sobre o arco, toma das setas de combate, e despede a primeira para o céo. Outra a seguiu e mais outra e outra e — ó milagre dos gênios que habitam as montanhas azues: — uma longa e aérea cadeia se formou como uma escada de flores, convidando-a a subir aos paramos.

«Ella subiu e transformou-se em Lua. Desde então, triste e solitária, errando pelo espaço, mira-se nas águas da lagoa, na corrente dos rios e nas vagas do mar, a ver se ainda tem as manchas do rostos1.

Para terminar o cyclo das lendas cosmogonicas, é mister citar ainda uma, em que o selvagem narra como a noite appareceu. Pondo de lado a melancólica belleza do seu conteúdo, ha que apreciar principalmente nella, o ensinamento de uma alta moralidade. Alude-se ahi claramente, como observa Couto de Magalhães, a uma éra venturosa, semelhante á que desfrutaram no Éden as duas figuras symbolicas da Bíblia. Todas as cousas eram animadas por

í1) A. Arinos. Lendas e Tradições Brasileiras, pag. 27. uma intelligencia sübtil, e o sol jorrava perennemente um chuveiro de raios dourados sobre a terra. A curiosidade, entretanto, faz o homem infeliz, mais uma vez. E o soffrimento cae sobre o mundo:

«No principio não havia noite. Era dia por todo o tempo. A noite estava adormecida no fundo das águas. Não havia animaes, e todas as cousas falavam.

Contam que a filha da Cobra Grande se casara com um moço.

Três servidores fieis lhe prestavam vassalagem. Um dia, disse-lhes o senhor: — ide passear, porque minha mulher não quer dormir commigo.

Depois que os creados partiram, elle rogou á mulher que adormecesse no seu regaço amoroso. Mas a filha da Cobra Grande assim lhe respondeu:

— Ainda não é noite.

Tornou-lhe o joven: — Não ha noite. Somente ha dia.

Retrucou-lhe a moça: — A noite está com meu pai. Se queres que eu entre no calor da tua rede, manda buscal-a, no grande rio.

Receberam então os servos a incumbencia de trazerem a noite. Logo que chegaram á casa da Cobra Grande, esta lhes entregou um caroço de tucuman muito bem fechado, prevenindo-os, porém, de que o não abrissem, sob pena de se perderem todas as cousas do Universo.

Dentro da veloz igarité, que os levava sobre o rio, onde vinha debruçar-se a ramaria cheirosa dos folhudos nambuys, e onde brincava o reflexo luminoso do firmamento, ouviram os três servos estranho rumor. O coco de tucuman estava cheio de vozes mysteriosas: era o ruido intermittente dos grilos, que trilam nas hervas do chão, e dos sapos, que, escondidos no tijuco dos igapós, coaxam á sombra das canaranas roliças.

Um delles, mais curioso, propoz que se examinasse a causa daquelle continuo murmúrio, ao que se oppuzeram, temerosos, os companheiros.

E, outra vez, mergulharam na corrente os compassados remos, num rythmo egual e monótono, por entre as veias claras da espuma.

Mas o especioso coco de tucuman não lhes sahia da imaginação. Que barulho seria aquelle?

Quando já haviam remado longamente, não se contiveram mais, e, reunindo-se no meio da canoa, accenderam fogo, derreteram o breu que o selava, e abriram o coco de tucuman.

De súbito, anoiteceu nos ares. Em casa, a moça disse ao marido: — Elles soltaram a noite. Vamos esperar a madrugada.

Então, nos matos desertos, osjagartos e as corças começaram a correr e a pular, as folhas das arvores se transformaram em pássaros, as onças urraram na esoe-sura dos bosques; e, das cousas que estavam espalhadas pelo r'o revoaram patos e marrecas, e saltaram peixes ag;eis e nervosos.

Quando despontou a estrela d'alva. disse alo marido a filha da Cobra Grande: — Vem rompendo a manhã. Vou dividil-a da noite.

Enrolando um fio, ella exclamou: — Tu serás cojubin. Assim fez ella o cojubin, pintando-lhe, com tabatinga, a cabeça de branco, e as pernas de vermelho, com urucú. «Cântaras para todo o sempre, quando a aurora vier raiando» — ordenou-lhe a india.

Trançou, depois, outro fio, sacudindolhe um punhado de cinza, e falou: «Tu serás» .inanabú, para cantar nos diversos tempos da noite, e de madrugada.

D'ahi para cá,-todos os pássaros cantaram nas suas horas, e no arrebol matinal, para alegrar o* nascer do dia.

Quando os servos tornaram', queixotf-se o moço: ,

— Não fostes fieis. Abristes o caroço de tucuman, soltastes a ..noite e as cousas todas se perderam.

E os servos, mudados em macacos, treparam pelos galhos do arvoredo».

Eram os nossos índios, também, bons fabulistas espontâneos. Nos seus apólogos a força é vencida pela; esperteza, o instincto sobrepuja a bruteza. O seu animal preferido é o jaboti. São tão notáveis as partidas deste, que nem o Caipora consegue evital-as. Os felinos temerosos são batidos por elle, e ha nas suas façanhas sempre um ensinamento e um exemplo. A raposa de Esopo encontra no jaboti um emulo brilhante, se não até um mestre ainda mais solerte na arte de viver.

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