Arte brasileira: periodo nacional e seculo XX Estudos brasileiros: 1a. série · Capítulo 6 de 8
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Arte brasileira: periodo nacional e seculo XX

PERÍODO NACIONAL

A PINTURA NO SÉCULO XIX

Assignala este ultimo período da nossa evolução esthetica um phenomeno de summa importância: a secularização das artes plásticas no Brasil. Ficáramos, até então, na estreita dependência do canon religioso, imposto pelos jesuítas que, por vários modos, fizeram sentir aqui a sua poderosa influencia. Sob a disciplina dos mestres franceses, educados na escola do século XVIII e da Revolução, alargaram-se os horizontes da nossa pintura, renovaram-se os themas, abriram-se outros mananciaes ã inspiração1. Aquillo que, por via de regra, foramos pedir sempre ao estrangeiro, passávamos a ter no Brasil, isto é, bons professores e boa doutrina.

(*) Sobre a missão Lebreton convém consultar a excellente monographia do sr. Affonso d'Escragnolle Taunay, A Missão Artística de 18tô, publicada na Revista do Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, tomo LXXIV, p. 1.", 1911.

Com Jean Baptiste Debret, aprenderam os nossos artistas a technica do desenho minucioso, o cuidado da perspectiva, a noção dos valores, o movimento das figuras e a distribuição das massas. Illustrador, destituído de finura ou subtileza, mas hábil e ccnsciencioso, deixou Debret, nos três volumes da obra Voyage Pitloresque ei Hisíorique au Brésil, uma riquíssima série de documentos relativos á vida e aos costumes da 'nossa gente, que provam exuberantemente a curiosidade da sua intelligencia e a multiplicidade dós &eus dotes de analysta fora do commum. Constituem seus desenhos a verdadeira chronica política, social e mundana do primeiro Império. Além de fixarem os actos mais notáveis decorridos no dealbar da nossa independência, como a «Acclamação do Imperador D. Pedro I, em1 1 de dezembro de 1822» ou o «"Desembarque no Rio da Princeza Leopoldina», mostram as paradas militares, os festejos públicos, as procissões, as cavalhadas rumorosas, as recepções elegantes e toda a casta de prazeres e diversões a que se entregava o nosso povo. Pintou Debret, com mestria, os fardamentos dos nossos officiaes e soldados, apanhou, num relance, as características dos typos vulgares, debuxou, admiravelmente, as figurinhas das damas do paço, con os diademas de plumas brancas tremulando sobre turbantes de seda verde e amarella, os grossos brincos pendentes das orelhas, os collares de pesados diamantes orlando os collos nus, as luvas inteiras cobrindo os braços, os leques de gaze e tartaruga balançando-se nas mãos preguiçosas. A versatilidade do seu engenho o levou, igualmente, á paisagem e á decoração, gêneros em que se revelou com vantagem. Pode affirmar-se o mesmo de Nicolau Antônio e de Emilio Taunay, ambos retratistas excellentes, desenhadores correctos e bons pintores de quadros históricos e painéis naturaes.

OS PRECURSORES

Pertenciam á missão Lebreton, com Debret e os Taunay, outros artistas, a exemplo do architeeto Grandjean de Montigny, do esculptor Augusto Taunay, dos gravadores e eseulptores Carlos Simão Pradier, Francisco Bonrepos e irmãos Ferrez. O êxito dessa embaixada, compromettido no inicio» pela importuna intervenção do> medíocre pihtor português Henrique da Silva, foi seguro e duradouro. Já em* 1826» realizavam os discípulos de Debret a primeira mostra, de telas entre nós. A semente assim lançada veio produzir frutos promissores. Começa o publico a interessar-se por essas exposições parciaes. estimulando os artistas, comprando-lhes quadros, discutindo?* lfoes a& cuaíidades e os defeitos. Formaramse; dessarte, alguns núcleos de pintores» dos quaes merecem lembrados, até o apparecimento de Victor Meirelles e Pedro Américo, ós nomes de Francisco Moreau, colorista delicado; Augusto Muller, apreciável pelos seus retratos, muitos delles notáveis como o de Grandjean de Montigny; ora na pinacotheca da Escola de Bellas Artes; Luiz Augusto Moreau, retratista e pintor histórico; Manoel de Araújo Porto-Alegre, decorador distincto do zimborio da Misericórdia, no Rio de Janeiro, retratista recommendavel *, homem de larga ima-

(i) Vide Gonzaga Duque. Arte Brasileira, pg. 82. ginação, precursor dos nossos críticos de arte, emulo do Visconde de Araguaya, no romantismo; Grandjean Ferreira, autor devários painéis religiosos e de alguns quadros de assumpto mythologico, a exemplo do Fauno e Bacchante; Agostinho da Motta, admirado pelos seus largos scenarios, como a Vista- de Roma, e por suas naturezasmortas, gênero em que sobremodo se illustrou; Facchinetti, miniaturista gentil, de quem se conhecem alguns panoramas interessantes, não só pela segurança do desenho mas ,pèlo sentimento dá luz e da perspectiva aérea; Arsenio Silva, também miniaturista apreciável, e De Martino, marinhista de relevo, que, se entre nós pouco produzio digno de maior nota, muito se distinguiu, depois, durante os últimos annos da sua vida, em Londres.

A PINTURA HISTÓRICA

De 1826, anno da nossa primeira exposição de pintura, até 1872, quando se exhibiu a famosa tela do Combate de Campo Grande, não apresentamos um só pintor verdadeiramente brasileiro. Se a lição dos franceses muito nos aproveitara, subjugaranos, porém, a naturaes preconceitos inevitáveis. O academicismo dos Debret e dos Taunay refreou, de certo modo, a fantasia e os impulsos instinctivos do nosso geriio creàdor. Trilhávamos, pois, a vereda exigua dos postulados e das regras imperiosas, pintando e repintando, oom mais ou menos liberdade, os velhos motivos caroaveis aos nossos antigos mestres.

Já não era o mesmo, todavia, aquelle paiz que, em 1816, acolhera os artistas contratados pelo Conde da Barca. A independência, o primeiro império, a Regência, em rápida successão, haviam transcorrido, ao meio dos tumultos, de lutas exteriores e intestinas, e acabara de soffrer o segundo Império o golpe súbito da guerra do Paraguay. Estava formada a consciência nacional, ao cabo de tantas vicissitudes econômicas e políticas, vicissitudes que, por muitas maneiras, ameaçaram a nossa pátria dos peiores desmandos. Começávamos, pois, a olhar para trás, a observar mais detidamente o espectaculo do nosso passado. Empolgou-nos, então, esse orgulhoso sentimento das glorias nacionaes, peculiar aos povos que saem triumphantes de longas e temerosas refregas. Accresce que, além disso, precisava o throno do concurso das «cem bocas da fama» para firmar solemnemente o prestigio da realeza no coração dos brasileiros. E que obreiro melhor que o artista seria capaz de pôr mãos á obra de tamanha envergadura? Dos que vieram a postos, nesse instante, dois avultaram entre os mais. Victor Meirelles e Pedro Américo surgiram desse movimento de glorificação aos feitos e aos heroes da nacionalidade.

Victor Meirelles de Lima, inferior como engenho e imaginação ao seu notável companheiro, sobrepuja-o talvez na qualidade do desenho e na correcção e apuro da feitura. l Na Primeira Missa no Brasü, na Batalha dos Guararapes e na Passagem d-e Humaytâ, estão em relevo as excellencias e os defeitos de Meirelles. Consistiam estes na frieza dos tons, na falta de vibração das figuras, na monotonia das linhas

(!) Vide sobre V. Meirelles: Rangel de S. Paio, O Quadro da Batalha dos Guararapes, seu autor e seus críticos. Rio, 1880. de composição, na seccura do modelado. Eram' de 'muito louvar, comtudb, a sua comprehensão da luz e da atmosphera, a pureza e a minuciosidade do seu toque, a macieza dos seus ambientes. Devemos-lhe ainda, como paisagista e panoramista, producções consideráveis. Pedro Américo de Figueiredo e Mdilo í o primeiro pintor que reflecte soberanamente a nossa alma. O impeto, a eloqüência, a lascívia, a inquietação, a volubilidade do seu temperamento e:pelham as características da nossa raça. Quem lhe examina os quadros, não acredita facilmente que tenha °lle cursado as aulas de Cogniet, de par com J. Paul Laurens, Bonnat e Lefebvre. Nada lhe ficou do convívio com o mestre, nem do feitio dos condiscipulos, do geométrico Laurens, do commedido Bonnat ou do sereno Lefebvre. E o colorido o seu forte, um colorido quente, vivo, esfusiante. Ha no Combate do Campo Grande ou na Batalha d* Avahy problemas de cor e de ar valentemente resolvidos, onde até os tons neutros de que se utilizava transmittem uma impressão de energia e calor. Ninguém mostrou ainda, na historia da nossa pintura, mais completa sciencia do movimento, da distribuição das massas, da escala dos matizes, na carnação e nas roupagens das figuras. O Grito de Ypiranga, Pa?, e Concórdia, e outros quadros de largas proporções, concebidos á maneira romântica, evidenciam as sólidas aptidões de Pedro Américo para os assumptos históricos, de composição opulenta e allegorica. Não pouparam, entretanto, a esse nobre artista, sobre ferinos remoques accusações gratuitas até de plagiario, quando expoz, em 1884, o paineil A Noite1

Depois de Meirelles e Pedro Américo, os pintores de figura, de gênero ou de composição que mais se notabilizaram, no correr do século XIX, foram: José Flemming de Almeida Júnior, o mais celebre discípulo de Victor Meirelles, que, na officina de Cabanel, em Paris, polindo as riquezas de um temperamento rude e original, preparou obras de indisputável mérito, como a Fuga para o Egypto, Remorso de lulas e Repouso do Modelo; Rodolfo Amoedo, de quem possue a nossa pinacotheca, entre outras telas, A Partida de

í1) Vide: Felix Ferreira, Bellas Artes (Estudos e Apreciações). Rio, 1885. Jacob, A Narração de Phitetas e o esplendido Estudo de Mulher, cuja luminosa carnação é'de uma pureza digna de Cabanel; Decio Villares, autor'de sanguinas e pasteis agradáveis; Aurélio de Figueiredo panoramista e retratista; Henrique Bernadelli, artista imaginoso, cujo pincel finíssimo é dos que mais têm honrado a nossa pintura, e a cuja paleta devemos a sensual Tarantela e os Bandeirantes de tão delicada poesia; Rosalvo Ribeiro, pintor de batalhas e de gênero; Belmiro de Almeida, desenhista discreto, observador penetrante da vida quotidiana, que sabe traduzir com realismo feliz; Firmino Couto, Zeferino da Costa, decorador distincto; Lopes Rodrigues, Weingartner, pintor da vida campesina do Rio Grande do Sul; Elyseu d'Ângelo Visconti, a mais complexa personalidade artística da sua geração, decorador, figurista, retratista e pintor de gênero de subido valor. Para o recommendar á nossa admiração, basta mencionar, entre muitas e differentes obras suas, a decoração do Theatro Municipal doRio de Janeiro, especialmente a do formoso salão, cuja fantasia de luz e colorido recorda as bellas creações de Besnard, assim como o impressivo retrato de Gonzaga Duque, e a maioria das suas telas de ar livre, em que é mestre sem par no Brasil.

A PAISAGEM

Prestou a «Sociedade Propagadora das Bellas-Artes», na sua exposição inaugural, em 1882, um real serviço ao páiz, apresentando cento e cinco trabalhos do paisagista allemão Jorge Grimm. Foi tão considerável a impressão produzida por esses quadros, que, dentro em pouco, estava empossado o autor delles na cadeira de paisagem da Escola de Bellas-Artes. Merecera esse gênero, por via de regra, se não o despreso, ao menos a indifferença de professores e alumnos. Reservavam-no para as moiçolas prendadas, que faziam flores de panno e copiavam gravuras francesas e britannicas. Apesar da já remota escola de Barbison e do movimento impressionista, então em franco sttccesso, na Europa, era a paisagem considerada cousa de somenos aqui. Servia, quando muito, para realçar um recorte mesquinho de painel histórico ou de alguma scèha allegorica. Pintava-se a natureza com certas receitas despiciendas, sem entrar em contacto com ella, sem lhe dar a honra de um simples relance dtolhos. Dispunham-se as cores na paleta, e, conforme aos assumptos, lá ia o pincel manchando a taboa ou a tela, dentro das paredes do atelier.

A primeira lição de.Grimm foi apontar aos alumnos o caminho da floresta, dos morros e das práia-â. Ahi, e não nos cartões e gravuras acadêmicas, estava o segredo da natureza. Tendo feito o paisagista germânico toda a carreira por valles e montes, a caixa de tintas e o cavallete ás costas, não poderia comprehender como, deante do nosso meio 'tropical, de tão tuggestivos scenarios, fossem os discípulos aprender a pintar arvores, selvas e águas, sem a luz atmospherica. Embora não se distinguissem as suas aulas pela concorrência, foram freqüentadas com assiduidade e proveito por vários moços, dos quaes um ao menos, Antônio Parreiras, ficaria celebre, e outro, Castagineto, chegaria á rlotoriedade.

Guardou Antonio Parreiras do mestre o,culto da natureza selvagem, a sciencia dos verdes sombrios dos bosques, dos entretons de musgo das pedras, das hervas rasteiras e das folhagens. Sua technica, porém, é mais livre, mais impetuosa e larga. Ninguém mostrou, até hoje, comprehensão maior da nossa paisagem, das nossas matarias carrancudas, dos nossos rios espumosos. Mau grado não ser Parreiras desenhista de alto quilate, o que The tem valido a critica maliciosa de quantos lhe apoucam os painéis históricos e as academias, é, sem duvida, um colorista admirável, de rara plasticidade. Castagneto, ao revés, era monótono. Confinou-se na marinha, que foi a s>u,a principal paixão. Observador agudo, conseguiu, por meio de manchas rápidas, empastadas com atrevimento, transmittir impressões agradáveis e justas do nosso litoral, e da bahia de Guanabara, que pintou em todas as horas, na doçura das manhãs de névoa ou no esplçndcr dos crepúsculos de verão.

Depois de Parreiras, o mais famoso paisagista da geração que lhe succedeu é Baptista da Costa. Sem os arroubos daquelle, sem as suas audacias de colorido, revelou-se, todavia, pela sensibilidade e le-

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veza do toque, excellente cultor dó gênero. Ê o pintor delicadíssimo dos arrabaldes cariocas e dos jardins de Petropolis. Baptista da Costa é sempre feliz nos éffeitos e nas combinações de luz e sombra. Servindo-se de uma pincelada breve, calma, segura de si mesma, consegue transmittir com doçura e poesia as suavídades da penumbra debaixo do arvoredo copado, a frescura dos verdes da relva macia, que se estende á margem dos regatos e veste os nossos parques tropicaes. Quando emprega, porém, tonalidades cruas e valores altos, quando quer traduzir os contrastes ásperos, não encontra a sua paleta os elementos necessários. Foi e tem sido considerável, todavia, nos contemporâneos, a influencia de Parreiras e Baptista da Costa. Gruparam-se ao redor delles muitos imitadores, attrahidos pelo fulgor que ambos souberam dar a um gênero antes maltratado e esquecido.

A ARCHITECTURA

Se, ainda hoje, é desagradável o feitio das nossas'cidades, podemos imaginar qual

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seria elle no século findo. Conta-se que, em 1860, ao desembarcar no Rio de Janeiro, Maximiliano, o Archiduque d'Áustria, «levou o lenço ao nariz» t. Accrescente-se agora, cue era esse o mais polido centro da nossa cultura,'» sede da corte, foco de onde irradiava a civilização para o resto do paiz, e teremos, em summa, a imagem perfeita, do nosso adeantamento architectonico curante o XIX° século. Constituíam as ruas da nossa Capital, por esse tempo, um dédalo de sinuosas* vias, cobertas de barro esíurricado, nos dias de sol, e estrelladas de lamacentas poças, nas quadras invernosas. Nos-sítios de maior transito, como a antiga rua Direita, cobriam o solo pedrouços irregulares, e, próximo ás calçadas, cresciam a tiririca e outras plantas rasteiras. Era tudo estreito, comprimido, mesquinho. Formava a planta topographica do Rio um systema de corredores, beccos e viellas apertadas. Os arroios e ribeiros que cortavam o bairro de S. Christovam, o mais elegante da época, onde residia o Imperador e morava a melhor fidalguia, levavam na

(l) Gonzaga Duque. Ob. cit., pg. 24, capitulo IV. correnteza todos os detrictos e despejos domésticos. Eram as raras praças e jardins públicos, homizio de cabranazes, logsadouro de negros, couto de maltrapilhos desoccupados e de vendedores ambulantes. Guardava o casario a mesma feição com que o viu e descreveu Debret, no correr do primeiro Império. J Orlavam as ruas edifícios baixos, de fachada ridícula, pintados de colorações vivas, de amarellos, azues e vermelhos estonteantes. Não deparavam elles o mais tênue signal de gosto ou cuidado decorativo. Geralmente acaçapados e exíguos, arrimavam-se uns aos outros, unindo as frontarias até certa altura, e, apartandose, depois, numa "theoria de telhados pyramidaes.

Exceptuando-se as igrejas, só uma ou outra constucção, a exemplo do palácio da Marqueza de Santos, da Academia de Bellas-Artes ou d>o casarão da esquina da rua das Marrecas, mereciam particular arten^ ção. Perdera-se, infelizmente, o esforço de Grandjean de Montigny e dos seus discípulos, ás mãos grosseiras do mestre dtobras

(!) J. V>. Debret. Voyage Pittoresque et Historique au Brésll, 3.o vol., pg. 214. lusitano, que, por mal dos fados, aqui predominou sempre. Ficamos, dessarte, com uma vasta metrópole de insipidos caixões, copiados uns dos outros com uma persistência incrível. Junte-se a isso o relaxamento da indumentária na população, a ausência quasi absoluta de monumentos públicos, o descaso dos nossos dirigentes no tocante á esthetica urbana, a indifferença dos homens de pecunia a tudo quanto ultrapassasse os limites de um honesto bem estar, entre a boa vianda e a bisca dominical, e teremos o espelho fiel do Rio de Janeiro no segundo Império. Basta considerar a linha dos prédios officiaes, dos palácios aristocráticos, das repartições do governo, dos Ministérios de Estado, para concluirmos pela pobreza da nossa architectura no século XIX. Foram o pedreiro, o carpinteiro, o serralheiro, de parceria com o solerte empreiteiro das dúzias, os architectos da capital do Brasil. Levantaram elles, a seu bel-prazer, ao longo das praias mais formosas do mundo, no seio de valles e em abas de morros vestidos de vegetação opulenta, um amontoado de monstruosos paredões, sem ar nem luz, semelhantes na fealdade, repugnantes no feitio, indignos de um povo realmente culto. Mostram ainda agora, á saciedade, os bairros velhos do Rio de Janeiro, a insulsa e injuriosa architectura que nos herdaram os nossos antepassados.

A ESCULPTURA

Faz-se mister, para que haja uma grande escola de esculptura, além de uma raça possuidora de mecanismo mental claro e ágil, capaz de analyses demoradas, uma civilização definida, onde essa mesma raça tenha apurado a somma das suas qualidades intrínsecas, e desenvolvido, pelo rolar das idades, as virtudes naturaes com que foi dotada. De um povo joven, qual o nosso, e o que mais é, directamente oriundo de utu grupo ethnico inferior, sob o aspecto artístico, seria descabido esperar, desde já, uma pujante floração de esculptores. Precisamos ainda de largo espaço de tempo e de muitas experiências, para chegar ao inteiro domínio das nossas capacidades piasticas. Tudo conspira, aliás, em favor de liícnjeiro futuro. Offerece a nossa fauna, principalmente, copiosa matéria de motivos ornamentaes, onde os vindouros irão buscar mananciaes inesgotáveis á inspiração. A luz dos nossos ambiantes favorece, por outro lado, as excellencias da visão. Repontam as cousas, aqui, tal de um dourado jardim das Mil e ama noites. Mergulhadas numa atrnosphera quente e límpida, sob a macia curva de um céo tranquillo, vibram ao contado do sol que as modela e as enfeitiça de vario modo, vêm ao encontro do olhar distraindo, prendemno, enleiam-no, subjugam-no na sua trama seductGra, e, ao sabor da fascinação que operam, sente palpitar dentro de si, a alma do mais alongado nas próprias scismas. um vago encanto sobrenatural. São, entre nós, de tal riqueza as condições mesologicas, que, ao mais inexperto, logo acudirá a idéa do futuro esplendor da nossa arte.

Dos e?culptores que se distinguiram antes deste século, no Brasil, merecem referencias os que vieram na missão Lebreton, Augusto Taunay e Marco Ferrez, autor da estatua eqüestre de D. Pedro I, no Rio de Janeiro, assim como outros, igualmente estrangeiros, a exemplo de Luis Giudice e Patrich, que aqui deixaram alguns trabalhos meçitorios.'Alèm desses, devem citar-se os nacionaes: Francisco Manoel Chaves Pinheiro, operoso discípulo de Ferrez, que produzio muitas obras, entre as quaes os doze apóstolos de madeira da igreja de S. Francisco de Paula, a estatua de João Caetano dos Santos e o baixo-relevo da A ssum PÇão da Virgem, da igreja da Gloria; Caetano,de Almeida Reis, Rodolfo Bernadelli e Hortencio de Cordoville, todos aprendizes de Chaves Pinheiro. Almeida Reis e Bernadelli sobrelevam ao mestre, sendo que ao ultimo cabem as honras do mais .significativo esculptor do seu tempo.

Almeida Reis era um temperamento complexo. Culto, letrado, viajado, imprimiu ás suas creações o cunho de um espirito positivo, determinista, para quem a realidade era toda a matéria da arte. Dentre,, as sUas produções mais accentuadas cumpre destacar Parahyba, pertencente á Escola de Bellas-Artes, Antônio José, o buAo de Danton, e a allegoria ao Progresso, que se acha collocada sobre o relógio da Estação da Estrada de Ferro Centrál do Brasil, no Rio de Janeiro. Suas figuras são modeladas com vigor e desembaraço, é, embora lhes falte finura, ganham em força de expressão o qüe perdem em delicadeza.

Possue a nossa Escola de BellasArtes, de Rodolfo Bernadelli, uma obra prima, Christo e a mulher adultera. Este mármore fez, com a lubrica Faceira, o renome do esculptor. Em verdade, nem um dos nossos artistas apresentara um grupo esculptorico de tal quilate. O estudo physionomico, a sciencia do gesto, a technica das roupagens, a intenção psychologica e moral das personagens emprestam a essa obra um caracter fundamente impressivo. Embora não seja novo nern pessoal o estilo de Bernadelli, inculcam-no por um verdadeiro mestre a precisão do modelado, a graça e a frescura das suas carnações, a simplicidade dos seus processos. Se a imaginação lhe fosse mais fecunda e poderosa, teria sido elle o fundador de uma escola de esculptura, que, mercê de varias causas, ainda está por vir.

A ARTE NO SÉCULO XX.

CONCLUSÃO

Não apresenta ainda a arte nacional, neste quartel de século, características bastante accentuadas, capazes de lhe darem feição original e physionomia própria. Dia por dia, comtudo, vai augtneritando a relação dos nossos artistas. Dão relevo á pintura Lucilio dê Albuquerque, Helios Seelinger, os irmãos Arthur e João Thimoteo, Navarro da Costa, Carlos Oswald, Leopoldo Gottuzzo, Georgina de Albuquerque, "Modesto Brocos, Levino Fanzeres, Marques Júnior', E. iatour, Roberto Mendes, H. Cavalleiro, Pedro Bruno, Presciliano Silva, J. M. Rodrigues, os irmãos Chambelland, Edgar Parreiras e outros muitos paisagistas e figuristas de merecimento. Conta a esculptura nomes de valor, como Correia Lima, Armando Magalhães Correia, Bibiano* Silva, Leopoldo Silva, Nicolina Vaz, A. Pitanga, Modestino Canto, Antonino Mattos e poucos mais. São dignos de nota, na gravura, Girardet e Adalberto Mattos, na água forte, Carlos Oswald. A architectura, apesar de não ter chegado ao nivel que era de esperar, apresenta individualidades como as de Heitor de Mello, Morales de los Rios, A. Memória e N. Figueiredo.

Ha por toda a parte um singular rejuvenescimento, mais accentuado nó grupo de artistas novos do Rio e de S. Paulo, entre os quaes sobresáem, na pintura, Zina Aita, A. Malfati, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Alberto Martins Ribeiro, Vicente do Rego Monteiro, Alberto Cavalcanti, e, na esculptura, Leão Velloso e Victor /Brecheret, o mais forte e pessoal de todos os jovens artistas deste momento.

Apesar de todos esses lisonjeiros symptomas, estamos longe de possuir uma escola de arte nacional. Continua a ser a educação dos nossos artistas estreita e mofina, baseada em processos obsoletos e imprestáveis. O meio não favorece nem recompensa, modestamente embora, o esforço delles, e o governo reflecte o desinteresse geral. Não possuímos um só museu digno desse nome, nem no Rio de Janeiro nem em qualquer centro adeantado do pai* Limitamo-nos a "distribuir annualmente prêmios de viagem, que nem sempre são justamente dados, e a dispensar medalhas e menções honrosas, consoante aos caprichos de um jury por vezes mal orientado. Ainda é muito duvidoso o gosto da população Preferimos, por via de regra, os accesso rios inúteis e pesados, a traça campanuda, confusa e mixordial. Mettemos casas de campo no centro da cidade e construcções massiças nos arrabaldes e nas praias. O Rio de Janeiro, que já offerece monumentos interessantes, embora imitados do clássico e do renascimento icotno a Escola de BellasAites, não se caracteriza por qualquer linha architectonica. Ergue-se de todos os lados uma salgalhada de estylos mais ou menos puros, desde o severo barroco até o pretensioso rococó, do sóbrio Henrique IV á ingênua imitação do mourisco de fancaria, coroado de cupolas douradas e pintalgado de mosaicos rebrühantes. Convizinham com edifícios aceitáveis casinholas de .dous metros de frente por sete de altura. Abre as portas a poucos passos do Palácio do Governo a venda mal cheirosa, onde se suspendem mantas de carne-secca e resteas de cebolas; em face de sumptuosas residências particulares exhibe o açougue primitivo cabeças de porco e focinhos de carneiro. Estão á mercê da petulância de qualquer* constructor intrujão os bairros mais elegantes, as ruas e avenidas principaes da cidade. Desde que sejam respeitadas as condições de segurança e hygiene, aprova a Prefeitura da capital do Brasil todas as condições de segurança e hygiene. pois, a cubagem das salas merece maioi desvelo que a esthetica das frontarias.

Quem quizer estudar as tradições, os costumes, a vida, em summa, da velha sociedade brasileira, não encontrará facilmente os elementos necessários a taes pesquizas. Anda tudo disperso pelos balcões dos commerciantes de antigüidade. Vão desapparecendo, pouco a pouco, do paiz, vendidas a vil preço aos collecionadores americanos e europeus, as mobílias, as jóias, as alfaias, as baixelas, todas as peças da indumentária dos nossos maiores. Vamos destruindo, assim, a physionomia do nosso passado, o espolio, pequenino mas valioso, que nos foi transmittido pelos antecedentes. Temos o culto da indolência e da improvisação. Falta-nos, de certo modo, aquelle sentimento das cousas objectivas», de que nos fala o sr. Graça Aranha, » numa pagina arimi-

í1) Esthetica da Vida. ravel. Pagamos o tributo do sangue indígena, que ainda circula em nossas veias, e soffremos por de mais o influxo terrível do ambiente cósmico. No rumo em que vamos, porém, difficilmente criaremos uma arte própria, nascida da nossa carne e do nosso espirito, vinda das profundezas do nosso ser. Emquanto taes causas persistirem, iremos produzindo excellentes pintores, esculptores e architectos, mas continuaremos a ser um povo sem pintura sem esculptura e sem architectura.

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