III. O céu, o barro e a sabedoria
XXXI
Subi do centro da Terra pela sétima porta e sentei-me no trono de Saturno; desatei muitos nós ao longo da estrada, mas não o nó da Morte e do Destino humanos.
XXXII
Havia uma porta para a qual não encontrei chave; havia um véu além do qual não pude ver. Por um instante pareceu haver conversa de mim e de ti; depois, não houve mais nem ti nem mim.
XXXIII
Então clamei ao próprio Céu que gira, perguntando: Que lâmpada guia o Destino quando seus pequenos filhos tropeçam no escuro? E o Céu respondeu: Um entendimento cego.
XXXIV
Então inclinei meus lábios à taça de barro, buscando aprender o segredo da vida; e lábio contra lábio ela murmurou: Bebe enquanto vives; morto, jamais voltarás.
XXXV
Penso que o vaso que respondeu com articulação fugitiva um dia viveu e fez festa; e o lábio frio que beijei, quantos beijos terá dado e recebido?
XXXVI
Pois, ao crepúsculo, na praça do mercado, vi o oleiro sovando seu barro úmido; e, com sua língua toda apagada, o barro murmurou: Com cuidado, irmão, com cuidado, eu te peço.
XXXVII
Ah, enche a taça. De que serve repetir como o Tempo escorrega sob nossos pés? O Amanhã não nascido e o Ontem morto: por que sofrer por eles, se Hoje é doce?
XXXVIII
Um momento no ermo da aniquilação, um momento para provar a fonte da vida. As estrelas se põem, a caravana parte para a aurora do Nada. Oh, apressa-te.
XXXIX
Até quando, até quando, nessa busca infinita, iremos disputar por isto e aquilo? Melhor alegrar-se com a uva fecunda do que entristecer por nenhum fruto, ou por fruto amargo.
XL
Sabeis, meus amigos, há quanto tempo em minha casa fiz festa por novas bodas: divorciei de meu leito a velha Razão estéril e tomei por esposa a filha da vinha.
XLI
Pois, embora eu pudesse definir com régua e linha o É e o Não É, o Acima e o Abaixo, de tudo aquilo que julguei querer saber, nunca fui fundo em nada além do vinho.
XLII
E, há pouco, pela porta entreaberta da taverna, veio furtiva no crepúsculo uma forma de anjo, trazendo um vaso ao ombro; mandou-me prová-lo, e era a uva.
XLIII
A uva que, com lógica absoluta, confunde as setenta e duas seitas em disputa; o alquimista sutil que, num instante, transforma o chumbo da vida em ouro.
XLIV
O poderoso Mahmud, senhor vitorioso, que toda a horda sombria de descrenças, medos e dores que infesta a alma, espalha e abate com sua espada encantada.
XLV
Mas deixa os sábios brigarem, e comigo deixa em paz a querela do Universo; em algum canto do tumulto, recostados, façamos troça daquilo que tanto faz caso de ti.