IV. O teatro de sombras e o destino
XLVI
Pois por dentro e por fora, acima, ao redor, abaixo, tudo é apenas um mágico teatro de sombras, representado numa caixa cuja vela é o Sol, em torno da qual nós, fantasmas, vamos e viemos.
XLVII
E se o vinho que bebes, o lábio que apertas, terminam no Nada onde tudo termina, sim, então imagina, enquanto és, que és apenas o que serás: Nada. E não serás menos.
XLVIII
Enquanto a rosa floresce junto à margem do rio, bebe com o velho Khayyam a safra rubi; e, quando o Anjo com sua bebida mais escura se aproximar de ti, toma a taça e não recues.
XLIX
Tudo é tabuleiro de noites e dias, onde o Destino joga com homens como peças; move para cá e para lá, dá xeque, mata, e um por um recolhe ao armário.
L
A bola não pergunta sim nem não; vai para a direita ou para a esquerda conforme o golpe. E aquele que te lançou ao campo, ele sabe tudo: ele sabe, ele sabe.
LI
O Dedo que se move escreve; e, tendo escrito, segue adiante. Nem toda a tua piedade ou inteligência o atrairá de volta para apagar meia linha, nem todas as tuas lágrimas lavarão uma palavra.
LII
E aquela tigela invertida que chamamos Céu, sob a qual rastejamos encerrados, vivos e mortos, não ergas a ela as mãos pedindo ajuda: ela rola impotente como tu e eu.
LIII
Com o primeiro barro da Terra moldaram o último homem, e então lançaram a semente da última colheita; e a primeira manhã da Criação escreveu o que lerá a última aurora do Juízo.
LIV
Digo-te isto: quando, partindo do Marco, sobre os ombros flamejantes do potro do Céu, lançaram Parwin e Mushtari, em meu lote predestinado de pó e alma...
LV
A vinha já fincara uma fibra, que se enrosca em meu ser. Que o sufi zombe. Do meu metal vil talvez se lime uma chave para abrir a porta diante da qual ele uiva.
LVI
E isto sei: quer a única Luz verdadeira se acenda em amor, quer me consuma em ira, um lampejo dela captado na taverna vale mais do que perdê-la inteira no templo.
LVII
Oh Tu, que puseste cilada e laço na estrada por onde eu devia caminhar, não me envolverás com predestinação para depois imputares minha queda ao pecado?
LVIII
Oh Tu, que fizeste o homem de terra inferior, e que no Éden inventaste a Serpente, por todo pecado que escurece a face humana, dá o perdão do homem, e toma-o também.