rosana858
@rosana858
Nesta crônica, o cotidiano se transforma em viagem sensorial. Entre palavras, sabores e silêncios, a narrativa percorre caminhos íntimos, revelando que a verdadeira comunicação vai além do que se diz — ela pulsa no corpo, no desejo e na memória.

Crônica - Odisseia da Língua

A manhã fria de junho anunciava que o dia seria agitado. O calor do líquido quente me trouxe aconchego. Senti prazer ao perceber o sabor do café encorpado invadir minhas papilas gustativas. O pão com manteiga tinha uma textura aveludada! Ainda bem que Márcia decidiu quebrar a dieta, pois aquele pão áspero, com gosto de isopor, era horrível!

Meia hora depois, saí para trabalhar dentro do meu refúgio refrescante, mergulhada na fragrância do antisséptico bucal.

Durante o expediente, falo vários idiomas e causo inveja nas vozes robóticas que ecoam pela sala. Sou única: consigo moldar o volume, o timbre e a frequência para tocar a alma daqueles que estão distantes. Arranco suspiros, lágrimas e sorrisos, dependendo do que o momento exige.

Agora, por exemplo, na reunião com o diretor da empresa, sou responsável pela conquista de Márcia. Ela irá receber o prêmio de melhor vendedora. A formação dos fonemas permitiu que os clientes “caíssem na lábia” da corretora, que conseguiu bater a meta de vendas do ano em apenas seis meses.

Logo mais, é hora do almoço! A refeição colorida e saborosa me deixa feliz! Pena que Márcia não lambeu o prato desta vez! O garçom surge com a sobremesa. O umami ativa minha salivação quando a taça de mousse de maracujá é colocada sobre a mesa. Sem resistir à tentação, deslizo sobre o creme açucarado, e meus receptores provocam uma deliciosa sensação de prazer.

Mas no final da tarde, a Márcia vai à dentista. Ainda meio adormecida, descanso após o trabalho árduo de falar o dia todo. A doutora Margarete havia exagerado. A dose cavalar de anestesia, os empurrões para cima, para baixo, para os lados e aquele ácido fosfórico com gosto amargo de veneno me deixaram estressada.

Vou para a universidade. Durante a aula de física, fico passeando pelo céu da boca, chupando balas, imitando lápis quando contorno os lábios sem me expor demais, para não parecer maluca e ser confundida com a língua de Albert Einstein, que, depois de anos, ainda permanece estampada na mídia.

A sirene anuncia que é hora de recolher os livros. À noite sigo pelas ruas da cidade. Márcia vai encontrar suas amigas no bar badalado da esquina. O som anima o ambiente e eu aprecio vários sabores: o salgado da batata frita, o amargo da cerveja, o azedo do limão e o doce do ketchup.

A mesa ao lado revela muitos sorrisos jovens, e um deles chama a atenção de Márcia, que tenta provocar um moreno de óculos fundo de garrafa e cara de intelectual. Entre lábios vermelhos e carnudos, vou me preparando. Aproveito as risadinhas para surgir devagarinho, fazendo cenas pelo canto da boca de Márcia. Às vezes, permaneço no centro, me revelando por inteiro, em outras, escorrego pelo sorvete de forma sensual.

Márcia está realizada. Conseguiu conquistar Leonardo, o maior “nerd” da Unicamp. Está feliz pelo empenho na conquista. É óbvio que fui eu quem verbalizou e trouxe à tona sentimentos que nem a própria Márcia sabia que existiam dentro dela.

O romance entre Márcia e Léo me trouxe novas experiências. Descobri sensações inéditas e atingi o clímax ao encontrar, dentro da boca do estudante, um órgão igual a mim: macio, carinhoso, mutável e com sabor de hortelã. A semelhança nos uniu e, entrelaçadas, vivemos uma sensação inexplicável. Então fascinada percebi que não é apenas a boca que fala, mas todo o corpo, todo o ser. Nossa dança sensual e delicada, transmite o que palavras jamais conseguirão. E, na união de dois seres, encontro o verdadeiro poder da comunicação, aquele que vem do coração e se traduz em um beijo.

Depois de momentos únicos, Márcia caminha pela noite, enquanto eu, revestida de mucosa, me abrigo em minha morada. Me calo diante das lembranças que não podem ser expressadas em frases. Márcia oculta o sorriso apaixonado.

E assim, eu, a língua de Márcia, sigo minha jornada de palavras não ditas, de carícias e segredos revelados. Entre o silêncio e o som, entre os beijos e as risadas, continuo a contar a história que não se escreve, mas se sente. Sou o elo invisível entre os corações, moldando desejos e revelando os mais profundos anseios.

E, enquanto a noite se estende e Márcia adormece, eu, a língua, permaneço em meu refúgio, entre os dentes que guardam meus segredos e os lábios que os revelam. O amor está presente, acolhido entre os tecidos macios das gengivas, enquanto eu repouso diante das muralhas de porcelana. Somos ciclos que se repetem, momentos que se completam, como um beijo que começa e acaba, mas deixa uma marca eterna na memória. Aqui, dentro desta boca, sou o que não se diz, o que se sente.
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