Separados pela Ilusão
Estava atrasada. O táxi cortava as ruas como se fugisse de algo — talvez de mim. Eu queria partir. Outro país, outro idioma, outro fuso. Qualquer coisa que me desse a ilusão de começar de novo. Na bagagem, além das roupas e dos documentos, levava uma dor que ainda latejava fundo: um romance que não deu certo.
Quando o avião decolou, senti um aperto estranho. Não era medo de altura, mas de não conseguir ir embora. A cidade encolhia sob as nuvens e, por um instante, senti alívio. Achava que estava escapando. Mas bastou olhar pela janela: tudo diminuía — casas, ruas, memórias — exceto o amor.
Esse crescia, como se a longitude aumentasse aquilo que eu queria enterrar.
Lá embaixo, a paisagem se desenrolava como um mapa vivo. Rios e lagos uniam lugares, campos, florestas. E pensei: talvez até o sofrimento seja uma forma de ligação. Dentro da aeronave, línguas diferentes se misturavam — português, inglês, espanhol. Pessoas distintas, destinos variados, cruzando as mesmas nuvens, respirando o mesmo ar pressurizado. A diferença era só a linguagem porque, no silêncio, no gesto, no olhar, éramos iguais.
Pedi um espumante. Brindei sozinha.
À tentativa de ignorar o sentimento.
À fantasia da distância como cura.
O jantar veio e, com ele, pensamentos:
Quem plantou esse trigo?
Quem embalou esse molho?
Tudo conectado — do campo ao prato, da terra ao céu.
Anoiteceu. O horizonte ficou escuro e salpicado de estrelas. Tecido cósmico. Tapeçaria divina. Onde estaria a aeronave agora? Em que país e em que tempo? E, mais do que isso, quem foi que decidiu dividir o globo em pedaços, como se fosse um quebra-cabeça, quando, na verdade, tudo sempre foi uma coisa só?
Olhei para a tela que mostrava o avião cingindo o espaço — uma animação boba, um ícone flutuando sobre tons de azul profundo. E foi ali, naquela representação simplificada do planeta, que algo dentro de mim se expandiu: o universo não tem demarcação. A vida inteira estamos tentando construir muros, quando, na verdade, o mundo é feito de pontes.
Por mais que o ser humano se esforce para separar, rotular, disputar e guerrear — por solo, poder, religião, ideias ou por amor — no fim das contas, nada disso importa. Estamos todos ligados. Por memória, por afeto, por ausência.
O mesmo mar que banha um país atravessa também outro. É a mesma água, em movimento, que abraça territórios que se dizem inimigos. As fronteiras são invenções humanas, linhas imaginárias traçadas por medo. Não há separação, apenas continuidade. Somos, talvez, peças do Todo, espalhadas por um cosmo imenso, misterioso e em evolução.
Talvez seja isso que chamam de vida: um eterno ir e vir, tentando costurar pedaços nossos espalhados pelo mundo. Talvez amar seja justamente reconhecer que nada está realmente distante. Que aquilo que dói, permanece. Que aquilo que é verdadeiro, encontra caminho.
Respirei fundo e fechei os olhos. Lá fora, o oceano continuava a se mover, indiferente às divisas. Aqui dentro, meu coração também — insistindo em se lembrar do que importa.
Porque, no fim, percebi que eu não estava fugindo de uma paixão.
Eu estava voltando para mim.
E quando estamos bem conosco… nunca estamos sozinhos.
@rschumaher