rosana858
@rosana858O Chamado da Samotrácia
Ali dormem objetos antigos, obras de arte, mitos e muita história.
Caminho entre as alas do museu como quem atravessa gerações —
cada sala é um portal, cada vitrine um eco do que já foi vida.
Na maioria delas, o ar é denso, de séculos.
Os sarcófagos, expostos como joias raras, guardam o silêncio de civilizações que insistem em não partir.
Entre os artistas mais consagrados estão:
Michelangelo, que toca o divino com as mãos;
Da Vinci, que desafia um sorriso enigmático;
e Caravaggio, que captura sentimentos dançando entre a claridade e a escuridão profunda.
Sinto um chamado estranho que não identifico.
Meu coração me conduz à escadaria Daru.
Com cautela, subo os degraus, temendo acordar os espectros que vigiam os destroços da Grécia antiga.
E ali, no topo monumental, reina uma deusa alada — imóvel e viva.
Ela atrai a multidão que caminha cega, fascinada por seu brilho.
Como quem se aproxima de um altar,
paro diante dela, e um arrepio percorre meu corpo.
O mármore de Paros respira e pulsa.
A figura imponente cativa olhares e admiração, mesmo mutilada.
As asas, abertas ao sopro invisível do mar, ainda preso em suas dobras.
Ela não foi esculpida apenas em pedra —
foi moldada em sonhos, desejos e tempos suspensos.
A imagem transcende.
Sua essência flutua entre matéria e éter.
Com um pé na terra e outro no infinito,
sua envergadura triunfal abre águas invisíveis.
O vestido branco guarda o sal do criador.
Da proa de um navio imaginário, ela me convida a atravessar as eras.
E, de repente, o murmúrio do Louvre se dissolve.
O relógio se detém.
Os passos ecoam, distantes, desaparecendo nas paredes de rocha.
Do alto do palco de calcário, ela vibra — e o portal se abre.
Totalmente inebriada por sua presença, aceito o convite.
Embarco.
A nave flutua, rasgando o vazio.
Ao longe, avisto a ilha de Samotrácia.
Aporto num século que se foi.
Lembranças despertam.
A areia quente abraça meus pés.
O instante traz um perfume —
reconheço mesmo antes de lembrar.
É o mesmo que senti quando te perdi.
Um frio percorre o estômago.
A dor despedaça minha alma, que vaga à deriva.
Corro.
Subo a colina e te procuro junto às ruínas do Santuário dos Grandes Deuses.
Clamo por você entre os vestígios da época,
mas encontro apenas a resposta do teu nome.
Sou parte daqueles que estão no Templo dos Mistérios Sagrados.
Ali, uma mulher alada reina completa.
Flutuando à frente do barco, a deusa olha para o azul do Egeu.
Sua mão saúda a vitória com leveza.
O pé roça suavemente a nau.
A roupa é presa pelo vento.
Desesperada, busco teu rosto entre os corpos caídos no chão.
Grito. Driblo a guerra. Enfrento os soldados romanos.
Por um instante, vejo teu olhar —
mas ele se apaga, como uma estrela que decide voltar ao céu.
O sangue mancha minha pele.
Registra medo e perda do amor em minha essência.
A natureza completa seus ciclos.
A tempestade soterra tudo.
Minha fé e minha paixão repousam submersas.
A morte chega — e me leva,
para que eu possa surgir novamente.
Um lampejo me traz de volta ao museu.
Agora eu vejo: Nike, sem mãos.
Alcança o presente com a mesma grandeza
com que consagrou a vitória no passado.
Sem olhos, mas capaz de iluminar — de transformar Paris em cidade-luz.
Despeço-me do Louvre
Mergulho na noite.
Ainda tento encontrar você em qualquer resquício onde possa existir história —
onde o tempo, em segredo, ainda nos recorda.
Deixo para trás o peso das salas escuras, o cheiro de funeral, o ancestral fossilizado.
Levo comigo a saudade daquele dia — teu beijo,
e o sopro invisível da Samotrácia.
@rschumaher
Ali dormem objetos antigos, obras de arte, mitos e muita história.
Caminho entre as alas do museu como quem atravessa gerações —
cada sala é um portal, cada vitrine um eco do que já foi vida.
Na maioria delas, o ar é denso, de séculos.
Os sarcófagos, expostos como joias raras, guardam o silêncio de civilizações que insistem em não partir.
Entre os artistas mais consagrados estão:
Michelangelo, que toca o divino com as mãos;
Da Vinci, que desafia um sorriso enigmático;
e Caravaggio, que captura sentimentos dançando entre a claridade e a escuridão profunda.
Sinto um chamado estranho que não identifico.
Meu coração me conduz à escadaria Daru.
Com cautela, subo os degraus, temendo acordar os espectros que vigiam os destroços da Grécia antiga.
E ali, no topo monumental, reina uma deusa alada — imóvel e viva.
Ela atrai a multidão que caminha cega, fascinada por seu brilho.
Como quem se aproxima de um altar,
paro diante dela, e um arrepio percorre meu corpo.
O mármore de Paros respira e pulsa.
A figura imponente cativa olhares e admiração, mesmo mutilada.
As asas, abertas ao sopro invisível do mar, ainda preso em suas dobras.
Ela não foi esculpida apenas em pedra —
foi moldada em sonhos, desejos e tempos suspensos.
A imagem transcende.
Sua essência flutua entre matéria e éter.
Com um pé na terra e outro no infinito,
sua envergadura triunfal abre águas invisíveis.
O vestido branco guarda o sal do criador.
Da proa de um navio imaginário, ela me convida a atravessar as eras.
E, de repente, o murmúrio do Louvre se dissolve.
O relógio se detém.
Os passos ecoam, distantes, desaparecendo nas paredes de rocha.
Do alto do palco de calcário, ela vibra — e o portal se abre.
Totalmente inebriada por sua presença, aceito o convite.
Embarco.
A nave flutua, rasgando o vazio.
Ao longe, avisto a ilha de Samotrácia.
Aporto num século que se foi.
Lembranças despertam.
A areia quente abraça meus pés.
O instante traz um perfume —
reconheço mesmo antes de lembrar.
É o mesmo que senti quando te perdi.
Um frio percorre o estômago.
A dor despedaça minha alma, que vaga à deriva.
Corro.
Subo a colina e te procuro junto às ruínas do Santuário dos Grandes Deuses.
Clamo por você entre os vestígios da época,
mas encontro apenas a resposta do teu nome.
Sou parte daqueles que estão no Templo dos Mistérios Sagrados.
Ali, uma mulher alada reina completa.
Flutuando à frente do barco, a deusa olha para o azul do Egeu.
Sua mão saúda a vitória com leveza.
O pé roça suavemente a nau.
A roupa é presa pelo vento.
Desesperada, busco teu rosto entre os corpos caídos no chão.
Grito. Driblo a guerra. Enfrento os soldados romanos.
Por um instante, vejo teu olhar —
mas ele se apaga, como uma estrela que decide voltar ao céu.
O sangue mancha minha pele.
Registra medo e perda do amor em minha essência.
A natureza completa seus ciclos.
A tempestade soterra tudo.
Minha fé e minha paixão repousam submersas.
A morte chega — e me leva,
para que eu possa surgir novamente.
Um lampejo me traz de volta ao museu.
Agora eu vejo: Nike, sem mãos.
Alcança o presente com a mesma grandeza
com que consagrou a vitória no passado.
Sem olhos, mas capaz de iluminar — de transformar Paris em cidade-luz.
Despeço-me do Louvre
Mergulho na noite.
Ainda tento encontrar você em qualquer resquício onde possa existir história —
onde o tempo, em segredo, ainda nos recorda.
Deixo para trás o peso das salas escuras, o cheiro de funeral, o ancestral fossilizado.
Levo comigo a saudade daquele dia — teu beijo,
e o sopro invisível da Samotrácia.
@rschumaher
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