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Um Beijo na Eternidade

No silêncio ensurdecedor, ela dorme com Morfeu. O amanhã lhe estende os braços, mas ela resiste à realidade do dia seguinte. Apaga a meia-luz em que noite e dia se fundem e mergulha incessantemente no passado.

A campainha toca. Ela atende à porta. Os olhos sem luz do visitante vislumbram além do véu de Ísis. O mito estende a mão para ela, que se deixa levar, presa no cumprimento. Caminham alguns passos até o terraço. Ela avista Pégaso e permite que sua liberdade voe. O poeta segura firmemente a rédea de ouro enquanto Helena, com o coração ardente, protege suas costas. Juntos, circulam Gaia, que pulsa no firmamento, e presenciam do alto Poseidon abençoando os mares e oceanos.

Agora, em terra firme, o grego a abandona na porta do magnífico templo. Ela sobe os degraus, sente a rigidez da pedra sob seus pés descalços. Atravessa o pórtico e entra majestosamente. Ela desfila elegância entre as vinte e quatro colunas gigantescas que abrigam o trono de Zeus. A maravilha do mundo antigo tem o corpo esculpido em marfim e ébano. A autoridade da visitante arranca um olhar frio e semiprecioso do deus, que a convida para participar da festa que acontece no salão.

Apolo, um dos filhos do anfitrião, recita uma poesia, e ela fica fascinada com a perfeição de sua anatomia. Ela fala, e sua voz contagia os convidados, que percebem que a beleza física dele é insignificante diante da sabedoria dela. O poeta tenta cativar sua atenção e lhe oferece uma bebida. Quem serve é o irmão Dionísio, que, fascinado por ela, revela, num beijo, que sua língua possui sabor de vinho. Na intimidade, ele lhe pede para ser chamado de Baco, já que dividem a mesma taça.

Disfarçada de fragilidade, ela caminha com suavidade. Tenta ocupar sua visão em todos os espaços. Olha para cima e observa a gigantesca cúpula amarela que coroa a morada dos deuses e presenteia o edifício com movimento celeste. Ela fecha os olhos e é invadida pelo jorro de luz abundante que desce do interior da abóbada, sustentada por oito pilares, e que traz, de surpresa, Eros apoiado em um deles. Ela percebe que o cupido tenta evitar seus olhos, então se aproxima o suficiente para que ele sinta o perfume do querer que exala de sua pele. Ele não resiste à sedutora fragrância, que propositalmente foge. Ingenuamente, ele a persegue até o jardim.

Junto ao lago de nenúfares, um rapaz está parado. A água cristalina reflete sua figura. Eros possui Helena, mergulha na sua fonte de prazer, penetra as pétalas do seu desejo. Narciso não se dá conta da magia do amor entre as duas criaturas e permanece solitário, perdido de paixão pela sua imagem refletida no espelho.

Ela deixa o Panteão, abrigado pelos matizes coloridos de seus aposentos, enquanto os deuses do Olimpo desfilam seus mistérios e belezas.

Na calçada, ela avista Tânatos e, assustada com sua fisionomia metálica e seu coração de ferro, sente o cheiro de morte que paira no ar. Foge apressada, pressente que ele tenta guiar sua alma para outros mundos.

O banquete celestial se dissolve em sobras e, quando Helena se dá conta, seus passos ecoam em corredores de pedra. As galerias se curvam em círculos secretos, à espera de serem decifrados. Ela vê o rastro e teme o eco de um bramido desolado. O monstruoso ser com corpo de homem e cabeça de touro habita o labirinto de sua mente. Ela desenrola o novelo do pensamento e coloca na linha o bravo Teseu, que mata a fera que existe dentro dela.

Na rua da Era do Bronze, ela ouve tiros e se esconde atrás das muralhas. Alguém passa e a carrega num abraço. O ventre de madeira abriga soldados. O coração da espartana saltita dentro do corpo inventado. Ela vaga pelas ruas de Troia enquanto é raptada por Páris. Agora, está dividida entre os beijos do sequestrador e a saudade do bruto e doce Menelau.

O rei vem ao seu encontro e, na fantasia épica, ela tem sangue da cor do Egeu. Juntos, partem sob o calor vermelho das labaredas que envolvem a cidade e começam a aquecer seu quarto.

O espírito dela sente que a viagem mitológica está prestes a terminar, então, além do limite de sua ousadia, dribla Cronos e retorna no tempo. Entra no Coliseu dirigindo uma biga que chama a atenção do felino que está na arena. O grito dos gladiadores apavora a urbe cristã. O imperador vem até ela e dá um beijo quente em seus lábios. Ela sente o cheiro da manhã fresca e envolve Nero com os braços enquanto esboça um sorriso adormecido.

O marido olha para Helena e fecha as cortinas do dia, enquanto cuida para que o lençol lhe proteja o sono. Cuidadosamente, tira o livro das mãos da esposa e o deposita na cabeceira. Ela beija em sonho, e seus lábios tocam o papel histórico, onde dormem mitos e lendas que se equilibram entre o sagrado e o profano.

Ele sai silenciosamente, enquanto Helena vive na Ilíada e continua sua Odisseia.

@rschumaher