rosana858
@rosana858
O Espelho de Pandora

Não temas o que libertas — o que retorna é apenas aquilo que está pronto para ser compreendido.
Como todas as lendas, também esta tenta traduzir o que escapa à razão — aquilo que mora entre o mistério e a ignorância.
Mas e se Pandora não tivesse aberto a caixa?
Teríamos sido poupados da dor, da solidão e dos desvios do espírito?
Ou, sem os males, teríamos perdido também o impulso de nos compreender?

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O céu rugia como se antigos deuses despertassem em suas nuvens.
O vento uivava, trazendo a memória de Zeus e dos Titãs — um sopro quente que abria fendas entre galáxias.
Prometeu, porém, caminhava nas entrelinhas do ar, lembrando que todo fogo roubado é também um convite à consciência humana.
A tarde exalava o perfume de flores que jamais existiram neste século — fragrâncias vindas de um jardim desaparecido, onde as primeiras sacerdotisas dançavam com a lua.
Entre esses aromas, uma voz ergueu-se como eco de uma profecia esquecida:

— Eu não sou culpa. Sou o dom divino de ver o invisível.

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Na Grécia, uma pequena vila adormecida parecia um relicário de eras.
Uma prosaica rua escondia uma loja de antiguidades; o silêncio guardava mais que peças — sepultava pactos, segredos, invocações e presságios.
Quando a porta rangeu, a energia se adensou.
Um corvo cruzou o teto como mensageiro das antigas Moiras, anunciando que os fios do destino seriam tocados.
A moça entrou acompanhada do abutre — o guardião ancestral das passagens, incompreendido pelos séculos, mas reverenciado pelas pitonisas que sabiam ler em seu voo, o sinal do recomeço.
A forasteira viera para dizer que é impossível prender a alma da mulher, mesmo que em um vaso de ouro, envolto em papéis falsos e rótulos de mentiras.
Seus olhos buscavam o objeto que trazia seu nome — aquele que atravessara a história usando o medo como ferrolho para esconder a verdade.
Tateou prateleiras e paredes usando a psicometria.
Leu, com o terceiro olho, símbolos ocultos.
Lá fora, a tempestade batia contra as vidraças como se quisesse amedrontar quem ousa vislumbrar além da moldura.
A neve caía pesada, deixando tudo igual, branco, sem referência — apenas para testar a ousadia dos que não temem buscar pensamentos próprios.
Então o relógio badalou.
Não marcava horas, mas a passagem entre universos.
E, segura de si, ela cruzou o lusco-fusco e encontrou um velho baú.
A fechadura ruiu como se reconhecesse sua dona.
Dentro, repousava a ânfora — o coração adormecido do próprio mito.
Pandora se aproxima da caixa — aquela onde, um dia, disseram que armazenava inveja, crueldade, fome e desespero.
Passa os dedos sobre a tampa, como quem toca o sagrado.
Abre-a com delicadeza, afastando o fundo falso e o veludo vermelho.
E então vê.
Não há monstros.
Não há sombras.
Há apenas um espelho.
E, sem temor, ela se vê por inteira.
No reflexo, reconhece a si e a todas as mulheres que existiram antes e depois dela.
Revela ao mundo que o feminino nunca foi causa da discórdia,
mas o fio que tece a consciência do amor.
E, sob o cristal, como um sussurro guardado por milênios, repousa aquilo que jamais deveria ter sido aprisionado: a esperança — ainda viva, ainda pulsante.
Ela estava de volta não para apagar o passado, mas para ressignificar o que chamaram de maldição.
E maldição foi ela ter acreditado que a mulher não pode olhar além dos limites impostos a ela.
Porque, um dia, quando ela abriu aquela caixa, ela não sabia quem era. Não conhecia sua força.
Agora, porém, voltava para refazer o gesto — não por curiosidade, mas por consciência.
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