rosana858
@rosana858
A Memória da Casa Perdida

Você já sentiu saudade de um lugar que não sabe dizer onde fica?
Eu sinto desde sempre.
Quando criança, eu fugia de casa como quem obedece a um chamado antigo. Pegava qualquer rua, guiada por uma força silenciosa que não cabia no corpo miúdo. Caminhava seguindo rastros apagados, até que algum adulto me encontrava e me conduzia de volta ao que chamavam de lar.
Lar…
Uma palavra bonita, mas que nunca me abrigou inteira.
Minha família sempre foi afetuosa, mas havia em mim um horizonte que não cabia dentro de paredes. Eu me percebia deslocada neste tempo — como se viesse de uma era em que a alma caminhava descalça e reconhecia cada elemento da natureza como parte de si.
Nunca me encaixei nos moldes deste século.
Quanto mais exigiam que eu me adaptasse, mais meu âmago se erguia em rebeldia — como um pássaro que recorda o vento antes mesmo de abrir as asas. Regras me pareciam máscaras, e eu jamais quis ser figurante numa peça que não escrevi. Sempre preferi vivenciar as cenas que a vida projetou para o meu crescimento.
Tornei-me adulta desafiando limites e expectativas.
Nunca vivi para agradar ninguém.
E, às vezes, ultrapassei fronteiras apenas para provar a mim mesma que elas não eram reais.
Há dias em que me sinto dentro de uma redoma transparente:
o mundo gira lá fora, pessoas se movem em ritmos que desconheço...
e eu, do lado de dentro, encosto as mãos no vidro, incapaz de atravessar.
O que mais machuca não é a distância —
é a falta de sentimento, tão rara, tão esquecida.
E, ainda assim, existe dentro de mim uma força que chama para longe.
Quero ir — para onde, não sei.
Talvez para um local onde a magia ainda colore o universo em tons que não existem aqui. Onde o ar é puro, o silêncio tem melodia, e viver é sagrado — muito mais do que cumprir tarefas e colecionar objetos.
Sinto uma nostalgia funda de algo que minha essência já viveu,
uma memória que meu coração protege como um relicário.
Meu inconsciente se recusa a apagar aquilo que não deveria ter sido esquecido.
Às vezes levanto o rosto para o céu e troco olhares com as estrelas.
Elas me reconhecem.
E, no brilho que devolvem, há um aconchego antigo,
como se, por um segundo, eu regressasse à minha verdadeira morada.
Não sou contra o avanço das máquinas.
Mas sei, no íntimo, que já fomos muito mais do que elas jamais serão.
Carregávamos dons, forças, sensibilidades que hoje dormem nos cantos mais silenciosos do espírito.
Desaprendemos a usar o que sempre foi nosso.
Sinto a ausência de coisas que não sei nomear.
Saudade de pessoas que talvez nunca tenham caminhado neste plano.
E quando o déjà-vu me toca —
num filme de época, numa ruína que respira histórias,
numa trilha onde a natureza fala —
eu reconheço esse toque como quem reencontra uma parte perdida de si mesma.
Sigo procurando meu território —
um lugar que parece viver entre o passado e o indizível,
talvez numa dobra do tempo,
onde ainda sou inteira.
Escrevo este texto como quem lança uma garrafa ao mar.
Talvez existam outros viajantes desse mesmo mundo invisível.
Talvez você, que lê, também carregue essa memória de casa —
uma casa que não aparece em mapas,
mas que o sentir reconhece e insiste em reencontrar.

@rschumaher
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