rosana858
@rosana858
O Abraço que Atravessou a Matéria

O relógio marca 19h45.
Eu aqui, parado, esperando o trem.
Multidão apressada, um frio intenso.
Olhares vazios.
Mais um fim de dia sem sentido.
Preso na mesma rotina:
a mesma estação, o mesmo vazio, a mesma angústia.

Uma sirene se aproxima.
O barulho me assusta.
Ouço tiros.
As pessoas correm.
O chão parece se abrir sob meus sapatos gastos.
O pavor toma conta, o ar fica pesado
e um silêncio ensurdecedor invade o nada.

Corro sem pensar.
Entro no túnel de luz.
O ar congela o peito, a cabeça lateja.
Escuridão absoluta.
Grito. Ninguém ouve.
Minha voz não ecoa.

Atravesso a ponte que ameaça desabar.
Arranha-céus se dissolvem em nuvens de miasmas.
Lamentos e pedidos de socorro vêm de todos os lados.
A visão fica turva.
Meus batimentos aceleram.

Minha mão tenta tocar o seu vestido.
A seda macia desliza entre os dedos
enquanto procuro me refugiar entre seus joelhos.
Tremendo, me agarro a você…
busco sua proteção.
Um anjo surge, e o clarão te veste de ouro.
Com o rosto banhado em lágrimas,
meu soluço rasga o desespero que antes me estrangulava.

A sirene da ambulância toca.
São 20h00.
Caído no chão, envolto em sangue, compreendo:
você veio me proteger — mesmo depois de ter partido —
para que eu não atravessasse esse momento sozinho.

Abriu uma fresta no tempo
onde o amor de mãe não encontra limite.
Já não sinto medo dos bandidos,
do tumulto, da catástrofe ao redor.
Sinto apenas o seu abraço,
o seu beijo e a sua bênção…
e o seu olhar trazendo luz
para a minha vida que antes parecia apagada.

Enquanto eu sigo para um recomeço,
sei que você ainda cuida de mim.
No ar, fica o seu perfume —
enquanto você parte na carruagem conduzida
pelos guardiões da morte…

Deixa comigo a coragem
de voltar à vida, sem medo do que ainda virá —
porque agora sei que não existe fim, apenas recomeços.

@rschumaher
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