rosana858
@rosana858O Homem do Parque
Fui demitido depois de trinta anos trabalhando como almoxarife.
O chefe alegou que a empresa precisava “renovar o quadro” de colaboradores. Bonita forma de dizer que eu já não servia mais.
Estranho como o ser humano é, às vezes, tratado como uma peça gasta, sem conserto — um objeto que perdeu a utilidade.
Recolhi meus poucos pertences das gavetas e, enquanto caminhava até o portão, senti o peso leve de quem não carrega mais crachá, mas a estranheza de quem perdeu o chão.
Se meu corpo estava cansado, minha mente nunca estivera tão desperta.
Saí sem pressa.
Os passos, antes longos e céleres, tornaram-se lentos, como se eu redescobrisse o ritmo das horas.
Ao atravessar a rua, um som me chamou a atenção — o canto de um sabiá.
Foi então que reparei em um parque do outro lado da rua, algo que sempre estivera ali. Talvez a rotina acelerada tivesse me cegado.
Decidi adiar a volta para casa. Afinal, eu tinha o dia inteiro livre.
Entrei no bosque, curioso. O ar fresco tocou meu rosto, convidando a ficar.
As árvores altas entrelaçavam galhos sobre mim, formando uma catedral verde.
Sentei num banco. Admirei os patos. Me encantei com as flores dançando nas margens do lago.
A paisagem respirava, mas era ignorada.
Pessoas passavam correndo, com fones nos ouvidos, alheias à canção dos pássaros.
Mães empurravam carrinhos de bebê sem notar o sorriso dos filhos — presas às telas luminosas dos celulares.
Reconheci semblantes cansados, olhares apagados, corações perdidos...
Ali confirmei o que sempre soube: a idade de uma pessoa não se mede pelo tempo, mas pela luz que brilha na alma.
Dialoguei com idosos que ainda não sabiam que a existência se torna mais serena quando aceitamos e aprendemos com as diferenças.
Acredito que não estamos aqui a passeio. Precisamos dar nosso recado ao mundo, deixar marcas em gestos fraternos — e, quando fazemos isso, a trajetória ganha cor e significado.
A bagagem que levamos ao partir não é material; quanto mais leve a mala, mais suave a travessia.
A vida é didática — às vezes coloca obstáculos para que compreendamos o sentido de cada desafio.
E sorrio — porque ocasionalmente recebemos sinais cifrados, que podem vir pelo canto do sabiá.
@rschumaher
Fui demitido depois de trinta anos trabalhando como almoxarife.
O chefe alegou que a empresa precisava “renovar o quadro” de colaboradores. Bonita forma de dizer que eu já não servia mais.
Estranho como o ser humano é, às vezes, tratado como uma peça gasta, sem conserto — um objeto que perdeu a utilidade.
Recolhi meus poucos pertences das gavetas e, enquanto caminhava até o portão, senti o peso leve de quem não carrega mais crachá, mas a estranheza de quem perdeu o chão.
Se meu corpo estava cansado, minha mente nunca estivera tão desperta.
Saí sem pressa.
Os passos, antes longos e céleres, tornaram-se lentos, como se eu redescobrisse o ritmo das horas.
Ao atravessar a rua, um som me chamou a atenção — o canto de um sabiá.
Foi então que reparei em um parque do outro lado da rua, algo que sempre estivera ali. Talvez a rotina acelerada tivesse me cegado.
Decidi adiar a volta para casa. Afinal, eu tinha o dia inteiro livre.
Entrei no bosque, curioso. O ar fresco tocou meu rosto, convidando a ficar.
As árvores altas entrelaçavam galhos sobre mim, formando uma catedral verde.
Sentei num banco. Admirei os patos. Me encantei com as flores dançando nas margens do lago.
A paisagem respirava, mas era ignorada.
Pessoas passavam correndo, com fones nos ouvidos, alheias à canção dos pássaros.
Mães empurravam carrinhos de bebê sem notar o sorriso dos filhos — presas às telas luminosas dos celulares.
Reconheci semblantes cansados, olhares apagados, corações perdidos...
Ali confirmei o que sempre soube: a idade de uma pessoa não se mede pelo tempo, mas pela luz que brilha na alma.
Dialoguei com idosos que ainda não sabiam que a existência se torna mais serena quando aceitamos e aprendemos com as diferenças.
Acredito que não estamos aqui a passeio. Precisamos dar nosso recado ao mundo, deixar marcas em gestos fraternos — e, quando fazemos isso, a trajetória ganha cor e significado.
A bagagem que levamos ao partir não é material; quanto mais leve a mala, mais suave a travessia.
A vida é didática — às vezes coloca obstáculos para que compreendamos o sentido de cada desafio.
E sorrio — porque ocasionalmente recebemos sinais cifrados, que podem vir pelo canto do sabiá.
@rschumaher
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