rosana858
@rosana858Ônibus não é apenas uma crônica sobre transporte público — é um retrato vivo da cidade que desperta e adormece entre buzinas, cheiros, encontros e solidões. Aqui, cada passageiro carrega uma história, cada freada revela uma cena e cada olhar perdido nos lembra de que, mesmo rodeados, podemos sentir-nos ilhas.
Uma viagem breve, mas intensa, que transforma o cotidiano em poesia e nos faz refletir sobre a vida que acontece dentro e fora das janelas de um coletivo.
Crônica – Ônibus
A cidade desperta, sigo pela rua com passos largos, já que hoje estou sem carro. Meu olfato alimenta a imaginação: pão quente e café fresco. Sinto falta de mesa, de família.
Um caminhão barulhento estaciona e garis acrobatas, com meias-três-quartos, saltam e sobem novamente entre uma coleta e outra. Um jornaleiro apressado pilota a moto e atira o jornal na varanda da casa rosa. Chego ao ponto daquele que irá me conduzir até o outro extremo da cidade. Cumprimento o grupo de pessoas e tenho dúvida se me faço visível.
Em instantes, o imponente Mercedes-Benz chega e causa alvoroço. Com sorte, embarco e, sem conseguir avançar, agarro com força o veículo voador, enquanto minha mente acaba de trazer a lembrança de alguns acontecimentos: a colega de trabalho que sofreu um acidente naquela mesma linha. O motorista irresponsável provocou uma freada brusca que luxou o joelho da coitada, deixando-a com a língua partida e o canino na mão.
Aproveito a breve parada; antes que o motorista pise novamente no acelerador, avanço pelo corredor. Seguro a mochila que leva parte da minha rotina e fico admirada com o equilíbrio da galera que consegue se acomodar ao sacolejar desenfreado do veículo, enquanto eu mal consigo atingir a roleta. Agora, sinto um hálito quente no meu rosto e ganho meu primeiro bom dia. As horas passam... Muitos falam ao celular, um homem lê um livro e uma jovem retoca a maquiagem enquanto eu me preparo para saltar em direção ao meu trabalho.
No final da tarde, após cansativa jornada, novamente cumpro meu papel de passageira. Tento me equilibrar dentro da cápsula metálica que faz o caminho inverso, e a cada parada permite que mais e mais pessoas embarquem. O veículo, prestes a explodir, também carrega cestas básicas, que ganham novos formatos a toda freada. Marmitas vazias exalam cheiro azedo, e, sem opção, eu levito. Na esperança de respirar ar puro, tento alcançar a janela e, agora, tenho certeza de que aqui não cabe a lei da física: dois corpos ocupam, sim, o mesmo lugar no espaço.
Um homem levanta o braço para dar passagem a uma velhinha, meu olfato acusa que o perfume perdeu sua validade. Observo que ali laços são estreitados e que a mocinha troca palavras melosas com o cobrador.
Uma moça com o bumbum avantajado entra. Levo uma cotovelada na costela e, antes de esboçar um gemido, meu dedinho é amassado pelo salto da altíssima Anabela. Sem cerimônia, a beldade se acomoda no mínimo espaço que resta entre o banco que eu ocupo. A moça chupa um sorvete e tem fones nos ouvidos, mas o volume da música é tão alto que não há como impedir que todos os passageiros compartilhem de sua trilha sonora. Um homem aproveita a situação para encoxar a popozuda.
A felicidade toma conta da minha alma quando avisto o anjo dourado que toca trombeta no alto da abóbada do templo santo. Meu coração sente o cheiro de verde e sei que meu lar está próximo. É estranho estar só, mesmo entre tantas pessoas, como se eu fosse uma ilha em um mar de rostos desconhecidos. A solidão, mesmo rodeada de corpos, sempre se faz presente. Despeço-me da tarde, a noite chega e traz o frio presente. Desembarco do veículo e me perco na escuridão. A lotação prossegue com meus desconhecidos colegas.
@rschumaher
Uma viagem breve, mas intensa, que transforma o cotidiano em poesia e nos faz refletir sobre a vida que acontece dentro e fora das janelas de um coletivo.
Crônica – Ônibus
A cidade desperta, sigo pela rua com passos largos, já que hoje estou sem carro. Meu olfato alimenta a imaginação: pão quente e café fresco. Sinto falta de mesa, de família.
Um caminhão barulhento estaciona e garis acrobatas, com meias-três-quartos, saltam e sobem novamente entre uma coleta e outra. Um jornaleiro apressado pilota a moto e atira o jornal na varanda da casa rosa. Chego ao ponto daquele que irá me conduzir até o outro extremo da cidade. Cumprimento o grupo de pessoas e tenho dúvida se me faço visível.
Em instantes, o imponente Mercedes-Benz chega e causa alvoroço. Com sorte, embarco e, sem conseguir avançar, agarro com força o veículo voador, enquanto minha mente acaba de trazer a lembrança de alguns acontecimentos: a colega de trabalho que sofreu um acidente naquela mesma linha. O motorista irresponsável provocou uma freada brusca que luxou o joelho da coitada, deixando-a com a língua partida e o canino na mão.
Aproveito a breve parada; antes que o motorista pise novamente no acelerador, avanço pelo corredor. Seguro a mochila que leva parte da minha rotina e fico admirada com o equilíbrio da galera que consegue se acomodar ao sacolejar desenfreado do veículo, enquanto eu mal consigo atingir a roleta. Agora, sinto um hálito quente no meu rosto e ganho meu primeiro bom dia. As horas passam... Muitos falam ao celular, um homem lê um livro e uma jovem retoca a maquiagem enquanto eu me preparo para saltar em direção ao meu trabalho.
No final da tarde, após cansativa jornada, novamente cumpro meu papel de passageira. Tento me equilibrar dentro da cápsula metálica que faz o caminho inverso, e a cada parada permite que mais e mais pessoas embarquem. O veículo, prestes a explodir, também carrega cestas básicas, que ganham novos formatos a toda freada. Marmitas vazias exalam cheiro azedo, e, sem opção, eu levito. Na esperança de respirar ar puro, tento alcançar a janela e, agora, tenho certeza de que aqui não cabe a lei da física: dois corpos ocupam, sim, o mesmo lugar no espaço.
Um homem levanta o braço para dar passagem a uma velhinha, meu olfato acusa que o perfume perdeu sua validade. Observo que ali laços são estreitados e que a mocinha troca palavras melosas com o cobrador.
Uma moça com o bumbum avantajado entra. Levo uma cotovelada na costela e, antes de esboçar um gemido, meu dedinho é amassado pelo salto da altíssima Anabela. Sem cerimônia, a beldade se acomoda no mínimo espaço que resta entre o banco que eu ocupo. A moça chupa um sorvete e tem fones nos ouvidos, mas o volume da música é tão alto que não há como impedir que todos os passageiros compartilhem de sua trilha sonora. Um homem aproveita a situação para encoxar a popozuda.
A felicidade toma conta da minha alma quando avisto o anjo dourado que toca trombeta no alto da abóbada do templo santo. Meu coração sente o cheiro de verde e sei que meu lar está próximo. É estranho estar só, mesmo entre tantas pessoas, como se eu fosse uma ilha em um mar de rostos desconhecidos. A solidão, mesmo rodeada de corpos, sempre se faz presente. Despeço-me da tarde, a noite chega e traz o frio presente. Desembarco do veículo e me perco na escuridão. A lotação prossegue com meus desconhecidos colegas.
@rschumaher
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