rosana858
@rosana858Um adeus ao Parque Caboclo: memórias de infância, saudade e a reflexão sobre o que chamamos de progresso.
Memórias do Caboclo
Vi hoje, por acaso, um anúncio na internet: no próximo dia 30 de setembro, o Parque Caboclo se despedirá da cidade. A manchete era incisiva — "Depois de 30 anos, nunca mais!" — e confesso que algo se apertou dentro de mim. Uma angústia fina, daquelas que misturam saudade com incredulidade.
Passei boa parte da minha infância naquele espaço. Era um refúgio de árvores frondosas, onde as aves faziam ninho e bandos de saguis atravessavam os galhos como acrobatas. Também foi casa para circos itinerantes, que se tornavam parada obrigatória nos domingos e nas férias. Lembro-me com nitidez: os palhaços exagerados, os trapezistas voando no ar, os elefantes imponentes e o globo da morte, que fazia a arquibancada vibrar. Eu dançava sobre a madeira velha, corria até o picadeiro para comprar algodão-doce, quebra-queixo e pirulitos. Voltava para casa melada, risonha, com o coração leve e os olhos cheios de encanto. Era bom. Bom demais.
Outro dia passei por ali, meio sem querer. Ainda havia crianças correndo, rindo, soprando bolhas de sabão que dançavam no ar. Mas o espaço parecia menor do que na minha lembrança. Talvez tenha sido o tempo... ou talvez tenham sido os prédios, que hoje cercam o parque, lançando sombras sobre ele. Uma placa reluzente anunciava a chegada de um novo empreendimento imobiliário, com promessa de “qualidade de vida” e um nome de cidade italiana.
Fiquei ali parada, perguntando em silêncio: qualidade de vida para quem? Para aqueles que nunca pisaram descalços na terra? Que nunca subiram em uma árvore ou provaram uma fruta colhida com as próprias mãos?
Duvido. Desconfiada, observei. Era difícil acreditar que aquele pedaço de verde, um dia declarado Área de Preservação Permanente, pudesse sucumbir à vontade de homens que moldam rios, cortam matas e desdenham da natureza. Homens que semeiam shoppings, erguem monumentos e colhem o que chamam de progresso.
O Parque Caboclo vai morrer. E isso é uma tristeza. Mas o que vivi ali permanece intocado dentro de mim. Talvez eu ainda passe por lá antes do adeus definitivo. Quero prestar minha última homenagem ao velho Caboclo, dar as boas-vindas — ainda que com o coração partido — ao futuro Firenze e oferecer meu lamento àqueles que pensam saber tudo, mas não sabem o essencial: que a vida não cabe em metros quadrados.
Estamos cada vez mais perto de viver em um planeta artificial. E nesse tempo que virá, quando já não houver árvores nativas nem pássaros nas manhãs, talvez alguém perceba — tarde demais — que uma simples sombra natural, o cheiro da terra molhada ou o canto de um sabiá eram, na verdade, os verdadeiros luxos da existência.
@rschumaher
Memórias do Caboclo
Vi hoje, por acaso, um anúncio na internet: no próximo dia 30 de setembro, o Parque Caboclo se despedirá da cidade. A manchete era incisiva — "Depois de 30 anos, nunca mais!" — e confesso que algo se apertou dentro de mim. Uma angústia fina, daquelas que misturam saudade com incredulidade.
Passei boa parte da minha infância naquele espaço. Era um refúgio de árvores frondosas, onde as aves faziam ninho e bandos de saguis atravessavam os galhos como acrobatas. Também foi casa para circos itinerantes, que se tornavam parada obrigatória nos domingos e nas férias. Lembro-me com nitidez: os palhaços exagerados, os trapezistas voando no ar, os elefantes imponentes e o globo da morte, que fazia a arquibancada vibrar. Eu dançava sobre a madeira velha, corria até o picadeiro para comprar algodão-doce, quebra-queixo e pirulitos. Voltava para casa melada, risonha, com o coração leve e os olhos cheios de encanto. Era bom. Bom demais.
Outro dia passei por ali, meio sem querer. Ainda havia crianças correndo, rindo, soprando bolhas de sabão que dançavam no ar. Mas o espaço parecia menor do que na minha lembrança. Talvez tenha sido o tempo... ou talvez tenham sido os prédios, que hoje cercam o parque, lançando sombras sobre ele. Uma placa reluzente anunciava a chegada de um novo empreendimento imobiliário, com promessa de “qualidade de vida” e um nome de cidade italiana.
Fiquei ali parada, perguntando em silêncio: qualidade de vida para quem? Para aqueles que nunca pisaram descalços na terra? Que nunca subiram em uma árvore ou provaram uma fruta colhida com as próprias mãos?
Duvido. Desconfiada, observei. Era difícil acreditar que aquele pedaço de verde, um dia declarado Área de Preservação Permanente, pudesse sucumbir à vontade de homens que moldam rios, cortam matas e desdenham da natureza. Homens que semeiam shoppings, erguem monumentos e colhem o que chamam de progresso.
O Parque Caboclo vai morrer. E isso é uma tristeza. Mas o que vivi ali permanece intocado dentro de mim. Talvez eu ainda passe por lá antes do adeus definitivo. Quero prestar minha última homenagem ao velho Caboclo, dar as boas-vindas — ainda que com o coração partido — ao futuro Firenze e oferecer meu lamento àqueles que pensam saber tudo, mas não sabem o essencial: que a vida não cabe em metros quadrados.
Estamos cada vez mais perto de viver em um planeta artificial. E nesse tempo que virá, quando já não houver árvores nativas nem pássaros nas manhãs, talvez alguém perceba — tarde demais — que uma simples sombra natural, o cheiro da terra molhada ou o canto de um sabiá eram, na verdade, os verdadeiros luxos da existência.
@rschumaher
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