rosana858
@rosana858Encontro em Londres
Nos últimos dois anos, ela se entregara ao mundo virtual. As conversas com o brasileiro, regadas a traduções automáticas e confissões noturnas, tornaram-se sua rotina. Ele mexia com seus sentidos e a fazia acreditar em um amor capaz de atravessar oceanos. Gastou economias, tempo e energia para levá-lo a Londres, planejando uma semana de paixão. Mas, às vésperas do encontro, o medo lhe corroía o estômago: e se tudo não passasse de um golpe?
Ele também desconfiava. No táxi, a caminho do ponto de encontro, refletia: “E se for um fake? E se for um macho barbado?” Mas a ansiedade não o abatia. Estava na Europa, passagem paga, hospedagem garantida. Sorte de malandro não falha.
No Hyde Park, o local combinado, ele tentou localizar sua musa entre as pessoas que passeavam pelo imenso jardim. Uma mulher se aproximou e chamou seu nome. Ele olhou para trás, incrédulo, e pensou: “Será um pesadelo? Cadê a louraça show de bola da net?” Hesitou — mas cedeu ao beijo. Apesar da decepção, não desperdiçaria a viagem. Ela, encantada com o físico dele, já sonhava com alianças e lua de mel.
Passearam pela cidade. A caminhada realçava o cheiro da pele dele, e ela não resistiu: convidou-o para o flat. Para retardar o encontro, ele lançou os olhos sobre a imponente London Eye e se disse encantado. Então fitou os dela e sugeriu o passeio.
Ela ficou apavorada com o inesperado convite: tinha claustrofobia. Temia desapontá-lo e decidiu prorrogar o voo. Na tentativa de fazê-lo desistir, apontou para a fila interminável de pessoas que aguardavam para apreciar um dos mais famosos pontos turísticos da Terra da Rainha. Mas ele insistiu. Queria a visão de 360 graus de Londres.
A roda-gigante deslizou suavemente. Para ignorar o confinamento, ela rapidamente colocou os óculos escuros. Mas não adiantou. Apavorada, sentiu pernas e mãos tremerem, o suor escorrer e o coração explodir em batidas descompassadas. A boca seca denunciava o pânico: um medo irracional e uma ansiedade exacerbada a dominavam por completo.
A cápsula atingiu a posição máxima de altura. Lá embaixo, o Tâmisa serpenteava entre castelos, catedrais imponentes e monumentos que imortalizavam cenas perdidas no tempo.
O brasileiro caminhou até o centro da gaiola de vidro e se acomodou no banco estofado, próximo à companheira. Ela ainda tentou disfarçar o distúrbio, mas o estômago enjoado lhe provocou náusea. Tentou se levantar, perdeu o equilíbrio e caiu. Ele, sem entender, olhou assustado.
Não compreendia nada. O pânico começava a dominá-lo. Precisava encontrar uma forma de sair rápido daquela situação. Aproveitou que todos estavam focados nela e, sorrateiro, pegou a bolsa, guardando-a em sua mochila.
Por questões de segurança, o operador interrompeu a rotação da roda-gigante. A cápsula se abriu. Envergonhada, ela desembarcou e foi barrada pela polícia. Procurou pela bolsa, mas não a encontrou. Aliviada ao sair do confinamento, olhou ao redor, tentando localizar seu companheiro. Não o viu. Caiu em si e começou a gritar novamente — agora com raiva — ao perceber que ele já não estava mais ali. Xingou e tentou correr na esperança de alcançá-lo. Policiais a seguraram pelo braço, tentando impedir a fuga. Ela gritava, alegando ter sido enganada e roubada. Mas os guardas ignoraram seu pedido e seguiram escoltando a maluca.
Algumas quadras dali, o brasileiro seguia tranquilamente. Levava na mochila libras suficientes para aproveitar mais alguns dias daquela primavera. Entrou em um pub. Diante de uma caneca de cerveja, o malandro segurou a medalha de metal barato que trazia no pescoço e, seguro de si, agradeceu a Zé Pelintra pela sorte que nunca o abandonava.
Instagram: @rschumaher
“Incentivando a leitura com histórias que refletem a vida”
Nos últimos dois anos, ela se entregara ao mundo virtual. As conversas com o brasileiro, regadas a traduções automáticas e confissões noturnas, tornaram-se sua rotina. Ele mexia com seus sentidos e a fazia acreditar em um amor capaz de atravessar oceanos. Gastou economias, tempo e energia para levá-lo a Londres, planejando uma semana de paixão. Mas, às vésperas do encontro, o medo lhe corroía o estômago: e se tudo não passasse de um golpe?
Ele também desconfiava. No táxi, a caminho do ponto de encontro, refletia: “E se for um fake? E se for um macho barbado?” Mas a ansiedade não o abatia. Estava na Europa, passagem paga, hospedagem garantida. Sorte de malandro não falha.
No Hyde Park, o local combinado, ele tentou localizar sua musa entre as pessoas que passeavam pelo imenso jardim. Uma mulher se aproximou e chamou seu nome. Ele olhou para trás, incrédulo, e pensou: “Será um pesadelo? Cadê a louraça show de bola da net?” Hesitou — mas cedeu ao beijo. Apesar da decepção, não desperdiçaria a viagem. Ela, encantada com o físico dele, já sonhava com alianças e lua de mel.
Passearam pela cidade. A caminhada realçava o cheiro da pele dele, e ela não resistiu: convidou-o para o flat. Para retardar o encontro, ele lançou os olhos sobre a imponente London Eye e se disse encantado. Então fitou os dela e sugeriu o passeio.
Ela ficou apavorada com o inesperado convite: tinha claustrofobia. Temia desapontá-lo e decidiu prorrogar o voo. Na tentativa de fazê-lo desistir, apontou para a fila interminável de pessoas que aguardavam para apreciar um dos mais famosos pontos turísticos da Terra da Rainha. Mas ele insistiu. Queria a visão de 360 graus de Londres.
A roda-gigante deslizou suavemente. Para ignorar o confinamento, ela rapidamente colocou os óculos escuros. Mas não adiantou. Apavorada, sentiu pernas e mãos tremerem, o suor escorrer e o coração explodir em batidas descompassadas. A boca seca denunciava o pânico: um medo irracional e uma ansiedade exacerbada a dominavam por completo.
A cápsula atingiu a posição máxima de altura. Lá embaixo, o Tâmisa serpenteava entre castelos, catedrais imponentes e monumentos que imortalizavam cenas perdidas no tempo.
O brasileiro caminhou até o centro da gaiola de vidro e se acomodou no banco estofado, próximo à companheira. Ela ainda tentou disfarçar o distúrbio, mas o estômago enjoado lhe provocou náusea. Tentou se levantar, perdeu o equilíbrio e caiu. Ele, sem entender, olhou assustado.
Não compreendia nada. O pânico começava a dominá-lo. Precisava encontrar uma forma de sair rápido daquela situação. Aproveitou que todos estavam focados nela e, sorrateiro, pegou a bolsa, guardando-a em sua mochila.
Por questões de segurança, o operador interrompeu a rotação da roda-gigante. A cápsula se abriu. Envergonhada, ela desembarcou e foi barrada pela polícia. Procurou pela bolsa, mas não a encontrou. Aliviada ao sair do confinamento, olhou ao redor, tentando localizar seu companheiro. Não o viu. Caiu em si e começou a gritar novamente — agora com raiva — ao perceber que ele já não estava mais ali. Xingou e tentou correr na esperança de alcançá-lo. Policiais a seguraram pelo braço, tentando impedir a fuga. Ela gritava, alegando ter sido enganada e roubada. Mas os guardas ignoraram seu pedido e seguiram escoltando a maluca.
Algumas quadras dali, o brasileiro seguia tranquilamente. Levava na mochila libras suficientes para aproveitar mais alguns dias daquela primavera. Entrou em um pub. Diante de uma caneca de cerveja, o malandro segurou a medalha de metal barato que trazia no pescoço e, seguro de si, agradeceu a Zé Pelintra pela sorte que nunca o abandonava.
Instagram: @rschumaher
“Incentivando a leitura com histórias que refletem a vida”
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