rosana858
@rosana858A Alma de Carrara
Ele exala perfume; e sua pele revela um deus moldado em carne e osso. Onde deveriam estar os olhos, brilham duas gemas — capazes de cegar quem ousa encará-las por muito tempo.
Os lábios fartos e úmidos ocultam um sorriso antigo, talvez perigoso. Sua alma habita o passado, seus desejos vagam pelo futuro. A mulher teme a magia e os encantos do presente — o único momento real.
Na escuridão da madrugada, ele envolve o quarto em mistério e sedução. Luísa busca o sono que escapa, inquieta sob os lençóis e entre os travesseiros. Ele está ali — ou talvez apenas a ideia dele. Ainda assim, ela se rende à presença invisível. Teme que o sonho desperte junto com as imperfeições da realidade. Teme que a imagem ideal ganhe corpo. Mas, entregue ao êxtase do delírio, deixa que sua alma o alcance no abismo da imaginação.
A manhã nasce como um presságio. O sol atravessa a janela e toca o jardim — um convite sutil para dar forma ao que já vive em seu peito. Luísa pega o conjunto de maceta e cinzel e caminha até o quintal. Diante da pedra, ela silencia. Por horas, apenas observa. Depois, começa a preparar o ambiente com a solenidade de um ritual.
Dar vida ao pensamento — ela reflete — é como invocar um espírito antigo. É preciso coragem para libertar o que dorme dentro da rocha. Algo que pode coroá-la com glória… ou arrastá-la às chamas. Mas o fogo interno, alimentado pela dopamina, exige mais. Com mãos trêmulas e olhos febris, Luísa ergue a ferramenta e inicia o ato da criação.
Toca a pedra com reverência. Sente os veios e as fendas como quem decifra sinais de outra era. Em seus dedos, a firmeza delicada de quem carrega o segredo do mito. A paixão a embriaga, ativando seus instintos. Martela. Esculpe. Invoca. Seu chamado ecoa — e se perde na mata. Os suspiros dissolvem-se no ar, e o suor escorre como oferenda. Diante da obra, o coração dispara — ele parece sorrir, mesmo imóvel, como se lutasse para sair da prisão de mármore.
Luísa acaricia a superfície fria da rocha. Concentrada, vai libertando o pensamento. Rasga o mármore com precisão, revelando o bigode que oculta os lábios, que se misturam à barba e aos cabelos, domados por uma coroa de louros. Dá vida aos olhos — até então mergulhados nas trevas — como quem rompe o véu entre mundos.
Por fim, ela permite que o amor a invada por completo. Já não há limites entre o que pensa, sente e esculpe — tudo pulsa no mármore, tudo vibra sob sua pele.
A imagem, perfeita e ancestral, sempre estivera ali — adormecida em sua alma.
Agora, libertada da pedra, ela vive.
Ele exala perfume; e sua pele revela um deus moldado em carne e osso. Onde deveriam estar os olhos, brilham duas gemas — capazes de cegar quem ousa encará-las por muito tempo.
Os lábios fartos e úmidos ocultam um sorriso antigo, talvez perigoso. Sua alma habita o passado, seus desejos vagam pelo futuro. A mulher teme a magia e os encantos do presente — o único momento real.
Na escuridão da madrugada, ele envolve o quarto em mistério e sedução. Luísa busca o sono que escapa, inquieta sob os lençóis e entre os travesseiros. Ele está ali — ou talvez apenas a ideia dele. Ainda assim, ela se rende à presença invisível. Teme que o sonho desperte junto com as imperfeições da realidade. Teme que a imagem ideal ganhe corpo. Mas, entregue ao êxtase do delírio, deixa que sua alma o alcance no abismo da imaginação.
A manhã nasce como um presságio. O sol atravessa a janela e toca o jardim — um convite sutil para dar forma ao que já vive em seu peito. Luísa pega o conjunto de maceta e cinzel e caminha até o quintal. Diante da pedra, ela silencia. Por horas, apenas observa. Depois, começa a preparar o ambiente com a solenidade de um ritual.
Dar vida ao pensamento — ela reflete — é como invocar um espírito antigo. É preciso coragem para libertar o que dorme dentro da rocha. Algo que pode coroá-la com glória… ou arrastá-la às chamas. Mas o fogo interno, alimentado pela dopamina, exige mais. Com mãos trêmulas e olhos febris, Luísa ergue a ferramenta e inicia o ato da criação.
Toca a pedra com reverência. Sente os veios e as fendas como quem decifra sinais de outra era. Em seus dedos, a firmeza delicada de quem carrega o segredo do mito. A paixão a embriaga, ativando seus instintos. Martela. Esculpe. Invoca. Seu chamado ecoa — e se perde na mata. Os suspiros dissolvem-se no ar, e o suor escorre como oferenda. Diante da obra, o coração dispara — ele parece sorrir, mesmo imóvel, como se lutasse para sair da prisão de mármore.
Luísa acaricia a superfície fria da rocha. Concentrada, vai libertando o pensamento. Rasga o mármore com precisão, revelando o bigode que oculta os lábios, que se misturam à barba e aos cabelos, domados por uma coroa de louros. Dá vida aos olhos — até então mergulhados nas trevas — como quem rompe o véu entre mundos.
Por fim, ela permite que o amor a invada por completo. Já não há limites entre o que pensa, sente e esculpe — tudo pulsa no mármore, tudo vibra sob sua pele.
A imagem, perfeita e ancestral, sempre estivera ali — adormecida em sua alma.
Agora, libertada da pedra, ela vive.
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