rosana858
@rosana858O Sentido de Existir
Ela dormia serena entre baldes, vassouras e rastelos.
O ar cheirava a fertilizantes, pesticidas e substrato.
Ninguém sabia desde que época estava ali — talvez anos, talvez décadas — à espera de uma oportunidade que a fizesse despertar.
O espaço era abafado, escuro, e o ar pesado, mas nada disso a incomodava.
Não sentia desconforto — desconhecia que podia existir vida fora do frasco que a aprisionava.
Diariamente, pessoas entravam e saíam, e vozes de diferentes timbres ecoavam pelo pequeno depósito.
Até que, num dia qualquer, uma menina curiosa resolveu abrir a porta emperrada.
O armário revelou infinitos potes de vidro cobertos de poeira.
Em um deles, uma etiqueta amarelada trazia a palavra quase apagada: “Baobá.”
A garota passou a mãozinha sobre o recipiente e descobriu que, dentro dele, repousavam pequenas sementes.
Com esforço, abriu a tampa corroída pela ferrugem.
O pote, escorregadio, caiu de suas mãos — e o cristal se partiu.
Assustada, temendo a bronca dos adultos, recolheu os grãos e os guardou em outro recipiente, devolvendo-o à prateleira.
Fechou novamente a porta da estante, deixando os gérmens outra vez, encarcerados no tempo.
Mas, no instante em que o vidro se quebrou, uma bolinha branca aproveitou o breve sopro de liberdade e saltou.
Ela se lançou ao desconhecido e buscou refúgio entre as fibras do velho capacho.
Ali ficou — esquecida.
Até que, um dia, sentiu frio.
Sua casca gelou.
Agora estava exposta, fora do abrigo transparente.
Uma bota suja de lama pisou sobre ela, que aproveitou para grudar-se à sola, encontrando morada temporária.
Cada passo era um atrito, um chamado.
Então, escondida nas ranhuras, começou a mover-se.
A princípio, ficou assustada.
Não conhecia o mundo.
O passo apressado do seu hospedeiro pisou numa poça d’água.
Ela se soltou do couro e mergulhou.
Sentiu-se mole, desamparada, com saudade da antiga morada entre as amigas adormecidas.
A chuva veio forte e a levou para longe.
Agora, em um sulco profundo, ela começou a vibrar.
Havia algo acontecendo dentro dela — algo que não conseguia mais conter.
O calor do sol a envolvia.
Os pássaros cantavam.
A brisa trazia perfumes adocicados e lhe afagava.
Então, seu invólucro começou a rachar.
Ela ouviu uma voz que vinha do seu interior.
Era o chamado da vida — que exige evolução.
Desesperada, agarrou-se à terra — e, desse esforço, nasceram raízes frágeis que, aos poucos, se firmaram.
Sua base aprofundou, fortaleceu.
Quando olhou para si, percebeu que seu topo também havia se rompido — e dali brotavam folhas verdes.
Cresceu.
Atingiu altura considerável.
Saiu do buraco.
Deu abrigo aos animais.
Mas ainda sentia que seu desígnio não estava completo.
Absorveu a luz.
Respirou o ar.
Fez fotossíntese.
Floresceu.
Encantou.
Coloriu o mundo.
Atraiu abelhas e insetos que dançaram em torno dela.
Ofereceu seu pólen, que se transformou em mel.
Na estação seguinte, viu suas flores perderem as pétalas.
Mas agora sabia: não é preciso temer a transformação.
Gestou com plenitude seus frutos — e, ao vê-los amadurecer, servindo de alimento, sorriu satisfeita.
Seu destino estava quase cumprido.
Aproveitou o vento, espalhou sua memória genética, permitindo que seu legado viajasse para além do tempo — onde cada semente renasceria, não por acaso, mas por coragem — cumprindo o propósito de existir em plenitude.
Ela, árvore.
@rschumaher
Ela dormia serena entre baldes, vassouras e rastelos.
O ar cheirava a fertilizantes, pesticidas e substrato.
Ninguém sabia desde que época estava ali — talvez anos, talvez décadas — à espera de uma oportunidade que a fizesse despertar.
O espaço era abafado, escuro, e o ar pesado, mas nada disso a incomodava.
Não sentia desconforto — desconhecia que podia existir vida fora do frasco que a aprisionava.
Diariamente, pessoas entravam e saíam, e vozes de diferentes timbres ecoavam pelo pequeno depósito.
Até que, num dia qualquer, uma menina curiosa resolveu abrir a porta emperrada.
O armário revelou infinitos potes de vidro cobertos de poeira.
Em um deles, uma etiqueta amarelada trazia a palavra quase apagada: “Baobá.”
A garota passou a mãozinha sobre o recipiente e descobriu que, dentro dele, repousavam pequenas sementes.
Com esforço, abriu a tampa corroída pela ferrugem.
O pote, escorregadio, caiu de suas mãos — e o cristal se partiu.
Assustada, temendo a bronca dos adultos, recolheu os grãos e os guardou em outro recipiente, devolvendo-o à prateleira.
Fechou novamente a porta da estante, deixando os gérmens outra vez, encarcerados no tempo.
Mas, no instante em que o vidro se quebrou, uma bolinha branca aproveitou o breve sopro de liberdade e saltou.
Ela se lançou ao desconhecido e buscou refúgio entre as fibras do velho capacho.
Ali ficou — esquecida.
Até que, um dia, sentiu frio.
Sua casca gelou.
Agora estava exposta, fora do abrigo transparente.
Uma bota suja de lama pisou sobre ela, que aproveitou para grudar-se à sola, encontrando morada temporária.
Cada passo era um atrito, um chamado.
Então, escondida nas ranhuras, começou a mover-se.
A princípio, ficou assustada.
Não conhecia o mundo.
O passo apressado do seu hospedeiro pisou numa poça d’água.
Ela se soltou do couro e mergulhou.
Sentiu-se mole, desamparada, com saudade da antiga morada entre as amigas adormecidas.
A chuva veio forte e a levou para longe.
Agora, em um sulco profundo, ela começou a vibrar.
Havia algo acontecendo dentro dela — algo que não conseguia mais conter.
O calor do sol a envolvia.
Os pássaros cantavam.
A brisa trazia perfumes adocicados e lhe afagava.
Então, seu invólucro começou a rachar.
Ela ouviu uma voz que vinha do seu interior.
Era o chamado da vida — que exige evolução.
Desesperada, agarrou-se à terra — e, desse esforço, nasceram raízes frágeis que, aos poucos, se firmaram.
Sua base aprofundou, fortaleceu.
Quando olhou para si, percebeu que seu topo também havia se rompido — e dali brotavam folhas verdes.
Cresceu.
Atingiu altura considerável.
Saiu do buraco.
Deu abrigo aos animais.
Mas ainda sentia que seu desígnio não estava completo.
Absorveu a luz.
Respirou o ar.
Fez fotossíntese.
Floresceu.
Encantou.
Coloriu o mundo.
Atraiu abelhas e insetos que dançaram em torno dela.
Ofereceu seu pólen, que se transformou em mel.
Na estação seguinte, viu suas flores perderem as pétalas.
Mas agora sabia: não é preciso temer a transformação.
Gestou com plenitude seus frutos — e, ao vê-los amadurecer, servindo de alimento, sorriu satisfeita.
Seu destino estava quase cumprido.
Aproveitou o vento, espalhou sua memória genética, permitindo que seu legado viajasse para além do tempo — onde cada semente renasceria, não por acaso, mas por coragem — cumprindo o propósito de existir em plenitude.
Ela, árvore.
@rschumaher
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