#desafio 365 dias

Dia 13 - Jukebox

Agora me dou conta de que acordei. Sem álcool. Eu peço, e o garçom me olha com desgosto. Sem álcool, eu repito, e espero você entender.

Agora me dou conta de que, quanto mais falo, mais me visto de não-ditos. Ergo-me, arrastando a cadeira solenemente, como se o bar fosse um grande palco – eu toda cênica –, e você me olha, todo blasé, como se tudo não passasse de um poema marginal.

Caminho ambígua, como se tanto pudesse me meter para fora do bar, quanto se fosse à jukebox, que agora canta algo alegre, como se houvesse palavras confortáveis nas quais me amparar. Tanto faz, os olhos que você debruça sobre mim não se importam com o caminho tomado. Eles se encravam em minhas costas, mas meus passos firmes maquiam todo esse sentimento de areia movediça em que piso.

Minhas músicas preferidas sempre foram as do lado B. Grito, sem me virar. E meu tom de voz é meio de ódio, meio de incredulidade. Talvez eu diga isso por capricho e o bêbado, da mesa mais próxima, aplaude. Ponho uma moeda e o salão se enche do que eu queria ter dito. Porque a letra da canção, sim, essa fala de como o vinho que você me trouxe se tornou meu sangue…

E agora me dou conta de que estou recitando isso e me voltando à direção da mesa onde você estava sentado e agora me dou conta de que você não está mais lá e agora me dou conta de que você na verdade nunca esteve.

Sylvvia Rubraurora
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