Universo da obra
Universo da obra
Fausto deitado sobre a relva florida, exausto, inquieto, buscando o sono.
Crepúsculo.
Um círculo de espíritos flutua em movimento, pequenas figuras graciosas.
ARIEL
Canto acompanhado por harpas eólias.
Quando a chuva primaveril das flores
Sobre todos paira e desce,
Quando a bênção verde dos campos
Para os filhos da terra resplandece,
A grandeza espiritual dos pequenos elfos
Corre até onde pode ajudar;
Seja santo, seja perverso,
Compadecem-se do desventurado.
Vós que envolveis esta cabeça em círculo aéreo,
Mostrai-vos aqui segundo o nobre costume dos elfos:
Abrandai a luta feroz do coração,
Afastai as setas ardentes e amargas do remorso,
Purificai-lhe o íntimo do horror vivido!
Quatro são as pausas do curso noturno;
Agora, sem demora, preenchei-as com bondade!
Primeiro, baixai-lhe a cabeça sobre a almofada fresca,
Depois banhai-o no orvalho das águas do Letes!
Logo estarão flexíveis os membros enrijecidos pelo espasmo,
Quando, fortalecido, repousar à espera do dia.
Cumpri o mais belo dever dos elfos:
Devolvei-o à luz sagrada!
CORO
Individualmente, aos pares e em grande número, alternando-se e reunindo-se.
Quando os ares tépidos se espalham
Em torno da planície cercada de verde,
Doces aromas, véus de névoa,
O crepúsculo faz descer,
Sussurra baixinho uma doce paz,
Embala o coração no repouso infantil
E aos olhos deste fatigado
Fecha as portas do dia.
A noite já desceu,
Sagrado, astro a astro se reúne;
Grandes luzes, pequenas centelhas
Cintilam perto e brilham longe;
Cintilam aqui, refletidas no lago,
Brilham no alto da noite clara;
Selando a felicidade do mais profundo repouso,
Reina o pleno esplendor da lua.
As horas já se extinguiram,
Dor e felicidade desapareceram;
Pressente-o! Tu te restabelecerás;
Confia na visão do novo dia!
Os vales verdejam, as colinas se alteiam,
Arbustos se adensam para o repouso na sombra;
E em vacilantes ondas de prata
A seara ondula rumo à colheita.
Para alcançar desejo após desejo,
Olha para aquele fulgor!
Apenas levemente estás envolvido;
O sono é casca: lança-a fora!
Não hesites em ousar,
Quando a multidão vagueia indecisa;
Tudo pode realizar o homem nobre
Que compreende e age depressa.
Um estrondo imenso anuncia a aproximação do sol.
ARIEL
Escutai! Escutai a tempestade das Horas!
Ressoando para ouvidos espirituais,
Já nasce o novo dia.
Portões de rocha rangem e estalam,
As rodas de Febo rolam crepitando,
Que estrondo traz a luz!
Trombetas soam, clarins retumbam,
O olho pisca e o ouvido se espanta,
O inaudito não pode ser ouvido.
Escondei-vos nas corolas das flores,
Mais fundo, mais fundo, para habitardes em silêncio,
Nas rochas, sob a folhagem!
Se vos atingir, ficareis surdos.
FAUSTO
Os pulsos da vida batem frescos, vivos,
Para saudar com brandura o crepúsculo etéreo.
Tu, Terra, também nesta noite foste constante
E respiras de novo, revigorada, aos meus pés,
Já começas a envolver-me com prazer.
Despertas e incitas uma decisão vigorosa:
Prosseguir sempre rumo à existência suprema. --
No lusco-fusco, o mundo já se abre,
A floresta ressoa com vida de mil vozes,
De vale em vale estende-se uma faixa de névoa;
Mas a claridade celeste desce às profundezas,
E galhos e ramos, frescos, revigorados, emergem
Do abismo perfumado onde dormiam submersos.
Também cor após cor se desprende nítida do fundo,
Onde flor e folha gotejam pérolas trêmulas --
Ao redor de mim, tudo se torna um paraíso.
Olhar para o alto! -- Os cumes gigantes das montanhas
Já anunciam a hora mais solene;
Podem desde cedo desfrutar da luz eterna
Que mais tarde se inclina até nós.
Agora aos prados verdes que descem da montanha
Concedem-se novo brilho e nitidez,
E, degrau por degrau, ela conseguiu descer --
Surge enfim! -- e eu, infelizmente já ofuscado,
Desvio-me, atravessado pela dor dos olhos.
Assim acontece quando uma esperança ardente,
Lutando intimamente pelo desejo mais elevado,
Encontra de asas abertas as portas da realização;
Mas então, daqueles fundamentos eternos, irrompe
Um excesso de chamas -- e ficamos atônitos.
Queríamos acender a tocha da vida,
E um mar de fogo nos envolve, que fogo!
É amor, é ódio, que ardentes nos enlaçam,
Alternando de modo imenso dor e alegria,
De tal maneira que voltamos os olhos para a terra,
Buscando abrigo sob o véu mais juvenil?
Que o sol, portanto, permaneça às minhas costas!
A queda-d’água, rugindo sobre o recife de rocha,
Contemplo-a com encanto crescente.
De queda em queda ela se precipita, derramando-se
Em mil, depois em milhares de correntes,
Lançando ao alto espuma sobre espuma, sibilante.
Mas como é magnífico, nascendo dessa tormenta,
O arco colorido que se curva em duração mutável,
Ora nitidamente traçado, ora dissolvido no ar,
Espalhando ao redor um fresco arrepio de névoa.
Ele reflete a aspiração humana.
Medita sobre ele e compreenderás com maior precisão:
É no reflexo colorido que temos a vida.
O Conselho de Estado aguarda o Imperador. Trombetas.
Servidores da corte de toda espécie, ricamente vestidos, entram. O Imperador sobe ao trono; à sua direita, o Astrólogo.
IMPERADOR
Saúdo os fiéis, os estimados,
Reunidos de perto e de longe. --
Vejo o sábio ao meu lado,
Mas onde foi parar o Bobo?
JOVEM FIDALGO
Logo atrás da cauda de vosso manto,
Ele desabou na escadaria;
Levaram embora aquele fardo de gordura:
Se morto ou bêbado, ninguém sabe.
SEGUNDO JOVEM FIDALGO
Logo, com maravilhosa rapidez,
Outro se apertou para ocupar-lhe o lugar.
Está trajado de maneira magnífica,
Mas tão grotesca que todos se espantam.
À entrada, a guarda lhe cruza diante do peito
As alabardas, impedindo a passagem --
Mas ei-lo aqui, o atrevido louco!
MEFISTÓFELES
De joelhos diante do trono.
O que é amaldiçoado e sempre bem-vindo?
O que é desejado e sempre expulso?
O que sempre se toma sob proteção?
O que é duramente censurado e acusado?
Quem não podes mandar chamar?
Quem todos gostam de ouvir nomeado?
O que se aproxima dos degraus de teu trono?
O que a si mesmo se condenou ao exílio?
IMPERADOR
Poupa-me desta vez tuas palavras!
Aqui não é lugar para enigmas,
Isso é assunto para estes senhores. --
Resolve-os tu! Gostaria de ouvir.
Meu velho Bobo foi, receio, longe demais;
Toma-lhe o lugar e vem para o meu lado.
MURMÚRIO DA MULTIDÃO
Um novo Bobo -- Para nova aflição --
De onde veio? -- Como entrou? --
O velho caiu -- Este está acabado --
Era um tonel -- Agora é uma lasca --
IMPERADOR
Assim, meus fiéis, meus estimados,
Sede bem-vindos, de perto e de longe!
Reunis-vos sob uma estrela favorável,
Lá no alto estão escritos para nós a felicidade e o bem.
Mas dizei: por que nestes dias,
Em que queríamos livrar-nos das preocupações,
Usar belas barbas e trajes de mascarada
E desfrutar apenas do que é alegre,
Por que haveríamos de atormentar-nos em conselho?
Mas, já que julgais não haver outro meio,
Eis-nos aqui; que seja feito.
CHANCELER
A virtude suprema, como uma auréola,
Circunda a cabeça do Imperador; só ele
É capaz de exercê-la com plena autoridade:
A justiça! -- Aquilo que todos os homens amam,
Que todos exigem, desejam e suportam mal não possuir,
Cabe a ele conceder ao povo.
Mas, ah! De que servem ao espírito humano a razão,
Ao coração a bondade, à mão a prontidão,
Quando por todo o Estado a febre se alastra
E um mal incuba dentro de outro mal?
Quem olha deste recinto elevado
Para o vasto império julga contemplar um sonho terrível,
Em que uma deformidade governa sobre outras deformidades,
A ilegalidade, legalizada, prevalece,
E se desdobra um mundo inteiro de erros.
Um rouba rebanhos, outro, uma mulher;
Outro leva cálice, cruz e candelabro do altar,
E durante muitos anos se vangloria disso,
Com a pele intacta e o corpo ileso.
Agora os acusadores se comprimem no salão,
O juiz ostenta-se em elevada almofada,
Enquanto, numa torrente furiosa, cresce e se agita
O tumulto da rebelião.
Pode gabar-se da infâmia e do crime
Aquele que se apoia nos mais culpados;
E ouves pronunciar: “Culpado!”,
Quando a inocência conta apenas consigo mesma.
Assim, todo o mundo deseja despedaçar-se
E destruir aquilo que lhe é devido;
Como poderá então desenvolver-se o discernimento
Que, sozinho, nos conduz ao que é justo?
Por fim, até um homem bem-intencionado
Inclina-se diante do adulador e do corruptor;
Um juiz incapaz de punir
Acaba associando-se ao criminoso.
Pintei o quadro de negro, mas preferiria
Estender sobre ele um véu ainda mais espesso.
Não se podem evitar decisões:
Quando todos causam dano e todos sofrem,
Até a própria Majestade acaba saqueada.
COMANDANTE DO EXÉRCITO
Como tudo se enfurece nestes dias selvagens!
Cada qual golpeia e é golpeado até a morte,
E ninguém dá ouvidos ao comando.
O cidadão, atrás de suas muralhas,
O cavaleiro, em seu ninho de rocha,
Conjuraram resistir-nos
E mantêm intactas as próprias forças.
O mercenário torna-se impaciente,
Exige com violência o seu soldo,
E, se nada mais lhe devêssemos,
Fugiria de uma vez por todas.
Quem proíbe aquilo que todos desejam
É como quem revolve um vespeiro;
O império que eles deveriam proteger
Jaz saqueado e devastado.
Deixa-se que sua fúria campeie,
Metade do mundo já está perdida;
Ainda há reis lá fora,
Mas nenhum deles pensa que isso lhe diga respeito.
TESOUREIRO
Quem ainda confiará em aliados!
Os subsídios que nos prometeram
Deixam de vir como água em canos secos.
Também, Senhor, em teus vastos Estados,
A quem foi parar a propriedade?
Aonde se chega, um novo senhor se instalou
E quer viver independente;
Somos obrigados a assistir ao que ele faz.
Cedemos tantos direitos
Que já não nos resta direito algum.
Também nos partidos, como são chamados,
Hoje não se pode confiar;
Podem censurar ou louvar,
Amor e ódio tornaram-se indiferentes.
Gibelinos e guelfos
Escondem-se para descansar;
Quem deseja agora ajudar o vizinho?
Cada qual já tem o bastante para cuidar de si.
As portas do ouro estão trancadas,
Cada um raspa, escava e acumula,
E nossos cofres permanecem vazios.
MORDOMO-MOR
Que desgraças também preciso suportar!
Todos os dias queremos economizar
E todos os dias precisamos de mais;
A cada dia cresce meu novo tormento.
Aos cozinheiros não aflige escassez alguma:
Javalis, cervos, lebres, corças,
Perus, galinhas, gansos e patos,
As provisões devidas, rendas garantidas,
Ainda chegam de maneira razoável.
Mas, no fim, é o vinho que falta.
Se antes no porão tonel se amontoava sobre tonel,
Das melhores encostas e das melhores safras,
A bebedeira interminável
Dos nobres senhores sorve até a última gota.
O conselho da cidade também precisa abrir suas reservas;
Recorre-se a canecas, recorre-se a tigelas,
E o banquete acaba debaixo da mesa.
Agora devo pagar e remunerar a todos;
O judeu não terá piedade de mim,
Concede-me antecipações
Que devoram de antemão as rendas dos anos futuros.
Os porcos já não chegam a engordar,
A almofada da cama está empenhada,
E à mesa serve-se pão já consumido.
IMPERADOR
Dize, Bobo, não conheces ainda outra desgraça?
MEFISTÓFELES
Eu? De maneira alguma. Contemplar todo este esplendor,
A ti e aos teus! Como poderia faltar confiança
Onde a Majestade ordena sem admitir recusa
E o poder já preparado dispersa toda hostilidade?
Onde há boa vontade, fortalecida pela razão,
E atividade múltipla pronta para agir?
O que poderia reunir-se ali para trazer desgraça,
Ou trevas, onde brilham estrelas assim?
MURMÚRIO
É um patife -- Sabe muito bem o que faz --
Vai mentindo até se instalar -- Enquanto puder --
Já sei -- O que se esconde por trás --
E depois? -- Um projeto --
MEFISTÓFELES
Em que lugar deste mundo não falta alguma coisa?
A este falta isto, àquele, aquilo; aqui, porém, falta dinheiro.
É certo que não se pode recolhê-lo do assoalho;
Mas a sabedoria sabe trazer à tona o que há de mais profundo.
Nos veios das montanhas, nos alicerces das muralhas,
Encontra-se ouro cunhado e ainda por cunhar;
E, se me perguntais quem o traz à luz:
A natureza do homem dotado e a força do espírito.
CHANCELER
Natureza e espírito: assim não falam os cristãos.
Por isso queimamos os ateus,
Pois semelhantes discursos são extremamente perigosos.
A natureza é pecado, o espírito é o diabo;
Entre ambos geram a dúvida,
Seu disforme filho mestiço.
Conosco, não! Nos antigos domínios do Imperador
Surgiram apenas duas estirpes
Que sustentam dignamente o seu trono:
Os santos e os cavaleiros.
Eles resistem a toda tempestade
E recebem como recompensa a Igreja e o Estado.
Do pensamento vulgar de espíritos confusos
Ergue-se uma resistência:
São os hereges! Os feiticeiros!
E eles arruínam cidade e campo.
Agora, com gracejos insolentes,
Queres introduzi-los nestes círculos elevados;
Vós vos alimentais de um coração corrompido,
E todos eles são parentes próximos do Bobo.
MEFISTÓFELES
Por aí reconheço o douto senhor!
Aquilo que não apalpais fica a milhas de distância,
Aquilo que não compreendeis simplesmente não existe,
Aquilo que não calculais julgais não ser verdadeiro,
Aquilo que não pesais não tem para vós valor algum,
Aquilo que não cunhais, pensais que nada vale.
IMPERADOR
Com isso, nossas carências não ficam resolvidas.
Que pretendes agora com esse sermão de jejum?
Estou farto do eterno “como” e “se”.
Falta dinheiro; muito bem, trata de consegui-lo.
MEFISTÓFELES
Conseguirei o que desejais, e ainda mais;
É fácil, sem dúvida, mas o fácil é difícil.
Já se encontra ali; porém, para alcançá-lo,
Essa é a arte: quem sabe como começar?
Considerai apenas: naqueles tempos de terror,
Quando torrentes humanas inundavam terras e povos,
Como este e aquele, por mais apavorado que estivesse,
Escondeu o que tinha de mais querido aqui ou acolá.
Assim foi desde os dias do poderoso domínio romano
E assim continuou até ontem, sim, até hoje.
Tudo isso permanece enterrado em silêncio no solo;
O solo pertence ao Imperador, e ele deve possuí-lo.
TESOUREIRO
Para um Bobo, ele não fala nada mal;
Esse é, na verdade, o direito do antigo Imperador.
CHANCELER
Satanás vos arma laços tecidos de ouro:
Isso não se faz de maneira piedosa nem legítima.
MORDOMO-MOR
Se ele apenas nos trouxesse presentes bem-vindos à corte,
Eu aceitaria de bom grado um pouco de injustiça.
COMANDANTE DO EXÉRCITO
O Bobo é esperto, promete o que convém a todos;
O soldado não pergunta de onde vem.
MEFISTÓFELES
E, se acaso pensais que vos engano,
Aqui está um homem! Pois bem, interrogai o Astrólogo!
Em círculos sobre círculos conhece hora e casa;
Dize-nos então: como se apresenta o céu?
MURMÚRIO
São dois patifes -- Já se entendem --
Bobo e visionário -- Tão perto do trono --
Um entoa, desanimado -- Velha cantiga --
O louco sopra -- O sábio fala --
ASTRÓLOGO
O próprio Sol é ouro puro;
Mercúrio, o mensageiro, serve por favor e soldo;
A Senhora Vênus enfeitiçou a todos vós,
Cedo ou tarde, lança-vos olhares amorosos;
A casta Lua muda de humor caprichosamente;
Marte, quando não golpeia, ameaça-vos com sua força.
E Júpiter continua a ser o mais belo astro;
Saturno é grande, mas aos olhos, distante e pequeno.
Como metal, não o estimamos muito,
De pouco valor, embora pesado.
Sim! Quando a Lua se une delicadamente ao Sol,
A prata ao ouro, então o mundo é alegre;
Tudo o mais se pode alcançar:
Palácios, jardins, seios, faces coradas,
Tudo isso proporciona o homem de elevada ciência,
Capaz do que nenhum de nós consegue fazer.
IMPERADOR
Ouço em dobro aquilo que ele diz,
E, ainda assim, não me convence.
MURMÚRIO
Para que serve isso? -- Pilhéria requentada --
Astrologia de calendário -- Alquimia --
Já ouvi isso muitas vezes -- E esperei em vão --
Mesmo que ele venha -- Não passa de um charlatão --
MEFISTÓFELES
Ali estão, ao redor, pasmos,
Sem confiar na elevada descoberta;
Um balbucia sobre mandrágoras,
Outro, sobre o cão negro.
De que adianta um deles fazer gracejos,
Outro acusar-nos de feitiçaria,
Se até sua sola às vezes formiga,
Se seu passo seguro vacila?
Todos vós sentis a ação secreta
Da natureza que eternamente governa,
E, das regiões mais profundas,
Um vestígio vivo se insinua para cima.
Quando fisgar em todos os membros,
Quando o lugar se tornar inquietante,
Cavai e golpeai imediatamente, decididos:
Ali jaz o músico, ali jaz o tesouro!
MURMÚRIO
Sinto no pé como um bloco de chumbo --
Meu braço se contrai -- Isso é gota --
Algo me rasteja pelo dedão --
Todas as costas me doem --
Por semelhantes sinais, este seria
O mais rico território de tesouros.
IMPERADOR
Depressa! Não tornarás a escapar;
Põe à prova tua espuma de mentiras
E mostra-nos agora mesmo os nobres recintos.
Deporei espada e cetro
E, com minhas próprias mãos soberanas,
Se não mentires, concluirei a obra;
Se mentires, eu te enviarei ao inferno!
MEFISTÓFELES
O caminho até lá eu certamente saberia encontrar.
Mas nunca poderei anunciar o bastante
Quanto permanece por toda parte, sem dono, à espera.
O camponês, ao lavrar o sulco,
Ergue com o torrão um pote de ouro;
Espera obter salitre da parede de barro
E encontra rolos de ouro, ouro puro,
Assustado e jubiloso, em sua mão miserável.
Quantas abóbadas precisam ser arrombadas,
Em quantas fendas, em quantas galerias
O conhecedor de tesouros precisa apertar-se,
Até chegar à vizinhança do mundo subterrâneo!
Em amplas adegas, guardadas desde tempos remotos,
Vê enfileiradas diante de si
Canecas, travessas e pratos de ouro;
Taças de rubi estão ali,
E, se quiser servir-se delas,
Ao lado repousa um líquido antiquíssimo.
Mas, acreditai em quem conhece:
A madeira das aduelas apodreceu há muito;
O tártaro formou para o vinho um novo tonel.
Essências de tão nobres vinhos,
Não apenas ouro e joias,
Envolvem-se em noite e horror.
O sábio investiga aqui sem desânimo;
Reconhecer à luz do dia é brincadeira,
Nas trevas habitam os mistérios.
IMPERADOR
Esses deixo para ti! Para que serve a escuridão?
Se algo possui valor, deve vir à luz do dia.
Quem reconhece exatamente o patife na noite profunda?
Negras são as vacas, e todos os gatos, pardos.
Os potes lá embaixo, carregados de ouro,
Passa-lhes o arado e lavra-os para a luz.
MEFISTÓFELES
Toma enxada e pá, cava tu mesmo;
O trabalho camponês te engrandecerá,
E uma manada de bezerros de ouro
Se desprenderá do solo.
Então, sem hesitar, encantado,
Poderás adornar a ti mesmo e à tua amada;
Pedras luminosas, de cor e brilho,
Realçam a beleza tanto quanto a majestade.
IMPERADOR
Agora mesmo, agora mesmo! Quanto tempo deve demorar?
ASTRÓLOGO
Senhor, moderai tamanho desejo impaciente;
Deixai primeiro passar o colorido divertimento festivo;
Uma disposição dispersa não nos leva ao objetivo.
Primeiro precisamos reconciliar-nos na compostura,
Merecer o inferior por meio do superior.
Quem deseja o bem deve primeiro ser bom;
Quem deseja alegria deve acalmar o próprio sangue;
Quem exige vinho deve prensar uvas maduras;
Quem espera milagres deve fortalecer a própria fé.
IMPERADOR
Que o tempo, então, seja gasto em alegria!
E muito oportunamente chegará a Quarta-Feira de Cinzas.
Enquanto isso, celebraremos, de qualquer maneira,
Com alegria ainda maior o carnaval desenfreado.
MEFISTÓFELES
Como mérito e fortuna se encadeiam,
Jamais ocorre aos loucos perceber;
Ainda que tivessem a pedra filosofal,
À pedra faltaria o filósofo.
SALÃO ESPAÇOSO COM APOSENTOS LATERAIS
ARAUTO
Não penseis estar em terras alemãs,
Entre danças de diabos, bobos e mortos;
Uma festa alegre vos espera.
O senhor, em suas campanhas romanas,
Para proveito próprio e vosso prazer,
Transpôs os altos Alpes
E conquistou um reino de alegria.
O Imperador, aos pés do Santo Padre,
Primeiro rogou o direito ao poder;
E, quando foi buscar a coroa,
Trouxe-nos também o barrete.
Agora todos renascemos;
Cada homem versado no mundo
Puxa-o comodamente sobre a cabeça e as orelhas;
Ele o faz parecer um louco extravagante,
Mas, por baixo, cada qual é sábio como pode.
Já os vejo reunirem-se,
Separarem-se cambaleantes, formarem pares íntimos;
Coro após coro fecha-se, importuno.
Entrai, saí, sempre incansáveis;
No fim, como sempre foi,
Com suas cem mil palhaçadas,
O mundo continua sendo um único grande louco.
JARDINEIRAS
Para conquistar vosso aplauso,
Adornamo-nos nesta noite;
Jovens florentinas
Seguiram o esplendor da corte alemã.
Trazemos nos cachos castanhos
O encanto de muitas flores alegres;
Fios de seda, flocos de seda
Desempenham aqui seu papel.
Pois consideramos meritório,
Inteiramente digno de louvor,
Que nossas flores, brilhantes e artificiais,
Continuem florindo durante o ano inteiro.
A toda espécie de retalhos coloridos
Fez-se justiça simétrica;
Podeis zombar de cada peça isoladamente,
Mas o conjunto vos atrairá.
Somos graciosas de contemplar,
Jardineiras elegantes;
Pois a natureza das mulheres
É muito próxima da arte.
ARAUTO
Mostrai os ricos cestos
Que trazeis sobre a cabeça,
E os que, coloridos, se avolumam em vossos braços;
Que cada qual escolha aquilo que lhe agrade.
Depressa, para que entre folhagens e passagens
Se revele um jardim!
São dignas de ser cercadas,
Tanto as vendedoras quanto a mercadoria.
JARDINEIRAS
Regateai agora neste lugar alegre,
Mas não haja propriamente mercado!
E, com breves palavras bem pensadas,
Que cada qual saiba o que possui.
RAMO DE OLIVEIRA COM FRUTOS
Não invejo nenhum esplendor de flores,
Evito toda rivalidade;
Ela seria contrária à minha natureza:
Sou a essência das terras
E, como penhor seguro,
O sinal de paz de cada campo.
Hoje, espero, terei a ventura
De adornar dignamente uma bela cabeça.
COROA DE ESPIGAS
Os dons de Ceres, para vos enfeitar,
Ficarão graciosos e encantadores:
Que aquilo que mais se deseja pela utilidade
Seja belo também como adorno.
COROA FANTÁSTICA
Flores coloridas, semelhantes a malvas,
Do musgo nasce um esplendor milagroso!
Isso não é comum à natureza,
Mas a moda o produz.
BUQUÊ FANTÁSTICO
Dizer-vos o meu nome
Nem Teofrasto ousaria;
E, contudo, espero agradar,
Se não a todas, ao menos a alguma,
Àquela a quem talvez eu convenha,
Caso me entrelace nos cabelos,
Caso consiga decidir-se
A conceder-me lugar junto ao coração.
BOTÕES DE ROSA
Que fantasias coloridas
Floresçam para a moda do dia,
Modeladas de modo prodigioso,
Como a natureza jamais se abre;
Hastes verdes, sinos dourados,
Espiem por entre cachos abundantes!
Nós, porém, permanecemos escondidos:
Feliz de quem nos descobre viçosos.
Quando o verão se anuncia,
O botão de rosa se inflama;
Quem poderia prescindir de tal felicidade?
A promessa e a concessão
Governam, no reino de Flora,
O olhar, os sentidos e o coração.
JARDINEIROS
Vede tranquilamente as flores brotarem,
Encantadoras, para adornar vossas cabeças;
Os frutos não desejam seduzir,
Podem ser saboreados e desfrutados.
Rostos morenos oferecem
Cerejas, pêssegos, ameixas-reais;
Comprai! Pois, diante da língua e do paladar,
Os olhos são maus juízes.
Vinde alimentar-vos, com gosto e prazer,
Dos frutos mais maduros!
Sobre rosas é possível fazer poesia,
Mas as maçãs é preciso morder.
Que nos seja permitido formar pares
Com vosso rico florescer juvenil,
E elevaremos ao lado dele
A abundância de mercadorias maduras.
Sob alegres grinaldas,
No recanto de caramanchões adornados,
Tudo se encontra ao mesmo tempo:
Botão, folha, flor e fruto.
MÃE
Menina, quando vieste ao mundo,
Enfeitei-te com uma touquinha;
Eras tão graciosa de rosto
E tão delicada de corpo.
Logo te imaginei como noiva,
Desposada pelo mais rico,
Logo te imaginei como mulher.
Ah! Já tantos anos
Passaram inutilmente,
E a colorida multidão de pretendentes
Passou depressa diante de ti.
Dançaste ligeira com um,
Ao outro deste um discreto sinal
Com o cotovelo.
Toda festa que se inventou
Foi celebrada em vão;
Nem o jogo de prendas nem o terceiro homem
Conseguiram dar resultado.
Hoje os loucos estão soltos;
Queridinha, abre o teu regaço,
Talvez algum deles fique preso.
LENHADORES
Abram espaço! Deixem livre!
Precisamos de terreno,
Derrubamos árvores,
Que racham e golpeiam;
E, quando as carregamos,
Há encontrões.
Para nosso louvor,
Reconhecei isto com clareza:
Pois, se os rudes
Não trabalhassem também no país,
Como poderiam os refinados
Manter-se por conta própria,
Por mais espirituosos que fossem?
Aprendei esta lição!
Pois morreríeis de frio
Se nós não suássemos.
PULCINELAS
Vós sois os loucos,
Nascidos encurvados.
Nós somos os sábios
Que nunca carregaram coisa alguma;
Pois nossos barretes,
Casacos e farrapos
São leves de levar.
E, com satisfação,
Sempre ociosos,
De pés metidos em chinelos,
Caminhamos por mercados
E entre multidões,
Paramos boquiabertos,
Gritamos uns para os outros;
E, ao som de tais vozes,
Por entre aperto e turba,
Escorregamos como enguias,
Saltamos todos juntos,
Fazemos algazarra em união.
Podeis louvar-nos,
Podeis censurar-nos,
Aceitamos tudo.
PARASITAS
Vós, valentes carregadores,
E vossos cunhados,
Os carvoeiros,
Sois os homens de que precisamos.
Pois todo curvar-se,
Todo aceno afirmativo,
As frases sinuosas,
O sopro de duas faces,
Que aquece e esfria
Conforme cada qual o sente,
De que adiantariam?
Ainda que um fogo imenso
Descesse do céu,
Nada faria sem lenha
E cargas de carvão
Que, pela largura da lareira,
Atiçassem as brasas.
Ali se assa e borbulha,
Ali se cozinha e fervilha.
O verdadeiro degustador,
O lambedor de pratos,
Sente o cheiro do assado,
Pressente os peixes;
Isso o incita à ação
À mesa de seu protetor.
BÊBADO
Hoje nada me contrarie!
Sinto-me tão livre e à vontade;
Alegria fresca e canções joviais,
Eu mesmo as trouxe até aqui.
E por isso bebo! Bebe, bebe!
Brindai, vós todos! Tlim, tlim!
Tu aí atrás, aproxima-te!
Brindai, e está feito.
Minha mulher gritou indignada,
Torceu o nariz para este traje colorido
E, por mais que eu me pavoneasse,
Chamou-me de espantalho mascarado.
Mas eu bebo! Bebe, bebe!
Soem as taças! Tlim, tlim!
Espantalhos mascarados, brindai!
Quando ressoa, está feito.
Não digais que estou perdido;
Estou justamente onde me agrada.
Se o estalajadeiro não dá crédito, dá a mulher dele,
E, no fim, a criada também dá.
Sempre bebo! Bebe, bebe!
Vamos, vós outros! Tlim, tlim!
Cada um com cada um! Sempre assim!
Parece-me que está feito.
Como e onde eu me divirta,
Que aconteça como tiver de acontecer;
Deixai-me deitado onde estou,
Pois já não quero ficar de pé.
CORO
Cada irmão beba, beba!
Brindai com vigor: tlim, tlim!
Ficai firmes no banco e na tábua!
Debaixo da mesa, para ele está feito.
SATÍRICO
Sabeis o que a mim, poeta,
Deveria alegrar de verdade?
Poder cantar e dizer
Aquilo que ninguém desejasse ouvir.
AGLAIA
Trazemos graça à vida;
Ponde graça também no dar.
HEGÊMONE
Ponde graça no receber;
É encantador alcançar o desejo.
EUFRÓSINE
E, nos limites dos dias tranquilos,
Seja o agradecimento cheio de graça.
ÁTROPOS
A mim, a mais velha, convidaram
Desta vez para fiar;
Muito há que pensar e ponderar
Junto ao delicado fio da vida.
Para que vos seja flexível e macio,
Soube escolher o linho mais fino;
Para que fique liso, esbelto e uniforme,
O dedo hábil cuidará de alisá-lo.
Caso, em meio aos prazeres e às danças,
Vos entregueis a excessos demais,
Lembrai-vos dos limites deste fio;
Cuidado! Ele pode romper-se.
CLOTO
Sabei que, nestes últimos dias,
A tesoura me foi confiada;
Pois ninguém estava satisfeito
Com o procedimento de nossa anciã.
Inúteis meadas, por muito tempo,
Ela arrastava à luz e ao ar;
A esperança dos mais magníficos ganhos
Ela cortava e conduzia ao túmulo.
Mas também eu, no ímpeto da juventude,
Já me enganei uma centena de vezes;
Hoje, para manter-me sob controle,
A tesoura permanece no estojo.
Assim, aceito de bom grado essa restrição
E observo este lugar com semblante amistoso;
Vós, nestas horas de liberdade,
Continuai a vaguear sem cessar.
LÁQUESIS
A mim, a única sensata,
Coube a tarefa de ordenar;
Minha dobadeira, sempre em movimento,
Jamais se precipitou.
Os fios chegam, os fios se enrolam,
A cada um conduzo por seu caminho;
Não deixo nenhum desviar-se demais,
Que se ajuste e entre no círculo.
Se por um instante eu me esquecesse,
Temeria pelo destino do mundo;
Conto as horas, meço os anos,
E o tecelão recebe o fio.
ARAUTO
As que chegam agora não reconhecereis,
Ainda que sejais muito versados nos escritos antigos;
Ao contemplá-las, embora causem tantos males,
Vós as chamaríeis de hóspedes bem-vindas.
São as Fúrias, ninguém acreditará em nós:
Bonitas, bem-formadas, amáveis, jovens.
Envolvei-vos com elas e descobrireis
Como tais pombas ferem à maneira de serpentes.
É verdade que são traiçoeiras, mas, no dia de hoje,
Em que cada louco se vangloria dos próprios defeitos,
Também elas não reivindicam fama de anjos;
Confessam-se flagelo da cidade e do país.
ALECTO
De que vos adianta? Acabareis confiando em nós,
Pois somos belas, jovens e gatinhas aduladoras.
Se algum de vós possui uma querida,
Ficaremos tanto tempo acariciando-lhe os ouvidos
Até podermos dizer-lhe, frente a frente,
Que ela também faz sinais a este e àquele,
Que é tola da cabeça, torta das costas, manca
E, caso seja sua noiva, não serve para nada.
Sabemos também como atormentar a noiva:
Seu próprio amado, há poucas semanas,
Disse coisas desprezíveis a respeito dela para aquela outra!
Ainda que se reconciliem, alguma coisa sempre permanece.
MEGERA
Isso não passa de brincadeira! Pois, quando já estão unidos,
Eu assumo o encargo e sei, em qualquer situação,
Como azedar com um capricho a mais bela felicidade;
O homem é desigual, desiguais são as horas.
E ninguém conserva nos braços aquilo que desejou
Sem ansiar tolamente por algo ainda mais desejável;
Afasta-se da felicidade suprema a que se habituou,
Foge do sol e deseja aquecer o frio.
Sei lidar perfeitamente com tudo isso
E trago Asmodeu, meu fiel companheiro,
Para espalhar a desgraça no momento oportuno;
Assim arruíno o gênero humano aos pares.
TISÍFONE
Veneno e punhal, em lugar de línguas perversas,
Misturo e afio para o traidor.
Se amas outra, cedo ou tarde
A perdição já te penetrou.
O mais doce dos instantes
Há de transformar-se em espuma e fel!
Aqui não há regateio nem negociação:
Como cometeu o ato, assim o expiará.
Que ninguém cante o perdão!
Às rochas apresento minha causa;
Eco, escuta! Responde: vingança!
E quem muda de amor não deve viver.
ARAUTO
Que vos digneis a recuar para os lados,
Pois o que agora chega não é de vossa espécie.
Vede como uma montanha avança comprimida,
Com os flancos soberbamente cobertos de tapeçarias coloridas,
Uma cabeça de longos dentes e tromba serpentina;
Misteriosa, mas eu vos mostrarei a chave.
Sobre a nuca senta-se uma mulher delicada e graciosa,
Que com uma fina varinha o conduz com precisão;
A outra, erguida lá no alto, magnífica e sublime,
É envolta por um fulgor que me ofusca demais.
Pelos lados caminham nobres mulheres acorrentadas,
Uma de aspecto angustiado, a outra, jubiloso;
Uma deseja, a outra se sente livre.
Que cada qual anuncie quem é.
MEDO
Tochas fumegantes, lâmpadas, luzes
Bruxuleiam pela festa confusa;
Entre esses rostos enganadores,
Ai de mim, a corrente me mantém presa.
Fora, risadas ridículas!
Vosso sorriso desperta suspeita;
Todos os meus adversários
Aproximam-se de mim nesta noite.
Aqui! Um amigo tornou-se inimigo,
Já reconheço sua máscara;
Aquele queria assassinar-me,
Agora, descoberto, foge às escondidas.
Ah, com que gosto, em qualquer direção,
Eu escaparia para o vasto mundo;
Mas de lá ameaça a destruição,
Mantendo-me entre névoa e horror.
ESPERANÇA
Sede saudadas, queridas irmãs!
Ainda que hoje e ontem
Tenhais gostado de vos disfarçar,
Sei com toda a certeza de todas vós:
Amanhã desejareis revelar-vos.
E, se à luz das tochas
Não nos agradamos especialmente,
Em dias luminosos haveremos,
Inteiramente segundo nossa vontade,
Ora juntas, ora sozinhas,
De caminhar livres por belas campinas,
Repousar e agir como nos aprouver
E, numa vida sem preocupações,
Jamais renunciar, sempre aspirar;
Como hóspedes bem-vindas em toda parte,
Entremos confiantes:
Certamente, o melhor
Deve ser encontrado em algum lugar.
PRUDÊNCIA
Dois dos maiores inimigos dos homens,
O Medo e a Esperança, acorrentados,
Mantenho afastados da multidão;
Abri espaço! Estais salvos.
Conduzo, como vedes, o colosso vivo
Carregado de torres,
E ele caminha incansável,
Passo a passo, por caminhos íngremes.
Lá no alto, porém, sobre a ameia,
Está aquela deusa de largas asas ágeis,
Pronta a voltar-se para todos os lados
Em busca do triunfo.
Ao redor, envolvem-na esplendor e glória,
Brilhando ao longe em todas as direções;
Ela se chama Vitória,
Deusa de todas as ações.
ZOILO-TERSITES
Uh! Uh! Cheguei no momento certo,
Hei de insultar a todos sem exceção!
Mas aquela que escolhi como alvo
É a Senhora Vitória, lá no alto.
Com seu par de asas brancas,
Ela certamente imagina ser uma águia,
E, para onde quer que se volte,
Julga que todo povo e toda terra lhe pertencem.
Mas, sempre que algo digno de louvor acontece,
Imediatamente fico tomado de fúria.
Elevar o baixo, rebaixar o alto,
Endireitar o torto, entortar o reto,
Somente isso me restitui a saúde;
É assim que desejo agir por toda a terra.
ARAUTO
Que te atinja, cão miserável,
O golpe magistral desta vara consagrada!
Contorce-te e torce-te agora mesmo!
Como essa figura dupla de anão
Tão depressa se condensa num repugnante torrão!
Mas que prodígio! O torrão transforma-se em ovo,
Incha e se parte ao meio.
Dele cai agora um par de gêmeos:
A víbora e o morcego;
Uma rasteja para longe pelo pó,
O outro, negro, voa até o teto.
Correm lá para fora, buscando reunir-se;
Eu não gostaria de ser o terceiro.
MURMÚRIO
Depressa! Lá atrás já estão dançando.
Não! Quem me dera estar longe daqui.
Sentes como isso nos envolve,
Essa raça de espectros?
Algo passou assobiando sobre meus cabelos.
Eu o senti junto ao pé.
Nenhum de nós foi ferido,
Mas todos fomos tomados de medo.
A diversão está inteiramente arruinada,
E era isso que as bestas desejavam.
ARAUTO
Desde que, nos bailes de máscaras,
Foram-me confiados os deveres de arauto,
Vigio seriamente junto ao portão
Para que, neste lugar de alegria,
Nada de pernicioso se introduza,
Nem vacile, nem se desvie.
Mas receio que, pelas janelas,
Entrem espectros aéreos,
E de assombrações e feitiçarias
Eu não saberia libertar-vos.
O anão já se mostrara suspeito;
Mas agora, lá atrás, uma torrente avança com violência.
De acordo com meu ofício, gostaria
De explicar o sentido das figuras.
Porém aquilo que não se pode compreender
Eu tampouco saberia explicar.
Ajudai-me todos a aprender!
Vede como atravessa a multidão?
Uma magnífica carruagem de quatro cavalos
É conduzida por entre todos;
E, contudo, não divide a multidão,
Em parte alguma vejo aperto.
Ao longe cintila em muitas cores,
Astros coloridos brilham errantes,
Como numa lanterna mágica;
Aproxima-se resfolegando com a força da tempestade.
Abri espaço! Um calafrio me percorre!
MENINO AURIGA
Alto!
Cavalos, refreai vossas asas,
Senti as rédeas conhecidas,
Dominai-vos como eu vos domino;
Avançai rugindo quando eu vos inspirar.
Honremos estes recintos!
Olhai ao redor: como aumentam,
Círculo após círculo, os admiradores.
Arauto, vamos! À tua maneira,
Antes que escapemos de vós,
Descreve-nos e dá-nos nome;
Pois somos alegorias,
E assim deverias reconhecer-nos.
ARAUTO
Não saberia dar-te um nome;
Talvez pudesse descrever-te.
MENINO AURIGA
Então tenta!
ARAUTO
É preciso admitir:
Antes de tudo, és jovem e belo.
És um rapaz ainda a meio crescer; mas as mulheres
Gostariam de ver-te já inteiramente crescido.
Pareces-me um futuro pretendente,
Um sedutor desde o berço.
MENINO AURIGA
Isso se pode ouvir! Prossegue,
Inventa para o enigma uma solução alegre.
ARAUTO
O clarão negro dos olhos, a noite dos cabelos,
Iluminada por uma faixa de joias!
E que vestimenta delicada
Te escorre dos ombros até os pés,
Com borda púrpura e adornos cintilantes!
Poderiam censurar-te por parecer uma menina;
Mas, para o bem ou para o mal,
Já agora serias aceito entre as moças,
Que te ensinariam o bê-á-bá.
MENINO AURIGA
E este, que como imagem magnífica
Resplandece aqui no trono da carruagem?
ARAUTO
Parece um rei rico e generoso;
Feliz daquele que alcança seu favor!
Nada mais tem a desejar:
Onde quer que falte alguma coisa, seu olhar a descobre,
E seu puro prazer em oferecer
É maior que a propriedade e a felicidade.
MENINO AURIGA
Não deves parar por aí;
Precisas descrevê-lo com exatidão.
ARAUTO
O que é digno não se deixa descrever.
Mas aquele rosto lunar, saudável,
A boca cheia, as faces floridas
Que resplandecem sob os adornos do turbante;
No traje de largas pregas, uma rica satisfação!
Que posso dizer de seu porte?
Parece-me conhecido como soberano.
MENINO AURIGA
É Pluto, chamado deus da riqueza!
Ele próprio chega em todo esse esplendor,
Pois o elevado Imperador muito o deseja.
ARAUTO
Dize também algo sobre ti mesmo,
O que és e como és!
MENINO AURIGA
Sou a Prodigalidade, sou a Poesia;
Sou o poeta que se realiza por inteiro
Quando dissipa aquilo que lhe pertence mais intimamente.
Também eu sou imensamente rico
E me considero igual a Pluto;
Animo e adorno para ele danças e banquetes,
E aquilo que lhe falta, eu distribuo.
ARAUTO
A jactância fica-te muito bem,
Mas deixa-nos ver tuas artes.
MENINO AURIGA
Vede apenas: estalo os dedos,
E tudo em torno da carruagem reluz e cintila.
Ali salta um colar de pérolas!
Tomai broches de ouro para o pescoço e as orelhas;
Também pente e pequena coroa impecável,
E, em anéis, as joias mais preciosas.
De vez em quando, distribuo também pequenas chamas,
À espera de onde poderão incendiar.
ARAUTO
Como a querida multidão agarra e apanha!
Quase aperta o próprio doador.
Ele lança joias como num sonho,
E todos as perseguem pelo vasto salão.
Mas agora noto novas travessuras:
Por mais diligentemente que alguém agarre alguma coisa,
Sua recompensa é, na verdade, miserável;
O presente esvoaça para longe.
O colar de pérolas se desfaz,
E besouros rastejam em sua mão;
O pobre-diabo os atira fora,
E eles passam a zumbir em torno de sua cabeça.
Outros, em vez de objetos sólidos,
Agarram borboletas atrevidas.
Como o patife promete tanto
E concede apenas o que reluz como ouro!
MENINO AURIGA
Percebo que sabes anunciar as máscaras;
Mas penetrar a essência sob a aparência
Não pertence aos ofícios cortesãos do Arauto:
Isso exige olhar mais penetrante.
Contudo, evito toda disputa;
A ti, meu senhor, dirijo pergunta e palavra.
Não me confiaste a noiva dos ventos
Atrelada aos quatro cavalos?
Não os conduzo com felicidade, como tu me orientas?
Não estou onde quer que apontes?
E não soube, sobre asas audazes,
Conquistar para ti a palma da vitória?
Por mais vezes que tenha combatido por ti,
Sempre fui bem-sucedido:
Quando o louro adorna tua fronte,
Não fui eu que o entrelacei com engenho e mão?
PLUTO
Se é preciso que eu dê testemunho a teu favor,
Digo de bom grado: és espírito do meu espírito.
Ages sempre segundo meu pensamento,
És mais rico do que eu próprio.
Para recompensar teu serviço, estimo
O ramo verde acima de todas as minhas coroas.
Proclamo a todos uma palavra verdadeira:
Meu querido filho, em ti me comprazo.
MENINO AURIGA
Os maiores dons de minha mão,
Vede! Espalhei por toda parte.
Sobre esta e aquela cabeça arde
Uma pequena chama que fiz saltar;
De um para outro ela pula,
Neste permanece, daquele escapa;
Mas muito raramente se ergue em labareda
E logo brilha em breve florescer.
Em muitos, antes mesmo que se perceba,
Extingue-se, tristemente consumida.
TAGARELICE DAS MULHERES
Aquele lá em cima, na quadriga,
É certamente um charlatão;
E atrás dele, agachado, está João-Bobo,
Mas tão mirrado de fome e sede
Como jamais se viu outro igual;
Talvez nem sinta quando o beliscam.
O EMACIADO
Longe de mim, repugnante raça de mulheres!
Sei que jamais vos pareço adequado.
Quando a mulher ainda cuidava do lar,
Chamavam-me Avaritia;
Então nossa casa prosperava:
Muito para dentro, nada para fora!
Eu zelava pelo cofre e pelo baú;
E isso, ao que parece, deveria ser um vício.
Mas nestes anos mais recentes,
Como a mulher já não está acostumada a poupar
E, como todo mau pagador,
Tem muito mais desejos do que moedas,
Resta ao homem suportar muita coisa:
Para onde quer que olhe, há dívidas.
Tudo o que ela consegue arrancar ou fiar
Gasta consigo mesma e com seus amantes;
Também come melhor e bebe ainda mais
Com o maldito exército de pretendentes.
Isso aumenta para mim o encanto do ouro:
Sou do sexo masculino, sou a Avareza!
MULHER PRINCIPAL
Que o dragão seja avarento entre dragões;
No fim, tudo não passa de mentira e fraude!
Ele vem para atiçar os homens,
Que já são incômodos o bastante.
MULHERES EM MASSA
O espantalho! Dai-lhe uma bofetada!
Por que esse instrumento de suplício nos ameaça?
Devemos temer-lhe a careta?
Os dragões são feitos de madeira e papelão.
Avante, atacai-o!
ARAUTO
Pela minha vara! Conservai a calma!
Mas quase não se necessita de minha ajuda;
Vede como aquelas formas ferozes,
Movendo-se no espaço rapidamente conquistado,
Desdobram os dois pares de asas.
Enfurecidos, os dragões sacodem
As goelas escamosas, que expelem fogo;
A multidão foge, o lugar fica livre.
ARAUTO
Ele desce, com porte de rei!
Faz um sinal, e os dragões se movem.
Trouxeram da carruagem o cofre,
Com o ouro e a Avareza,
E o depositaram a seus pés:
É um prodígio como isso aconteceu.
PLUTO
Agora estás livre do fardo excessivamente incômodo,
Livre e desimpedido; parte depressa para tua esfera!
Ela não se encontra aqui. Confusa, colorida e selvagem,
Uma figuração grotesca nos comprime por todos os lados.
Somente onde contemplas com clareza o que é serenamente claro,
Onde pertences a ti e apenas em ti confias,
Para onde agradam somente o belo e o bom,
Para a solidão! Lá cria teu mundo.
MENINO AURIGA
Assim me considero um emissário digno;
Assim te amo como meu parente mais próximo.
Onde permaneces, há abundância; onde estou,
Cada qual sente que recebeu o ganho mais magnífico.
Muitas vezes, porém, na vida contraditória, ele hesita:
Deve entregar-se a ti? Deve entregar-se a mim?
Os teus, é verdade, podem repousar ociosos;
Mas quem me segue sempre tem algo a fazer.
Não realizo meus atos em segredo:
Basta que eu respire, e já me denuncio.
Adeus, portanto! Concedes-me minha ventura;
Mas apenas sussurra baixinho, e logo estarei de volta.
PLUTO
Agora é tempo de libertar os tesouros!
Com a vara do Arauto golpeio as fechaduras.
Elas se abrem! Contemplai! Em caldeirões de bronze,
Tudo se agita e ferve como sangue de ouro.
Primeiro surgem os adornos, coroas, correntes, anéis;
A massa avoluma-se e ameaça engoli-los ao derreter.
GRITOS ALTERNADOS DA MULTIDÃO
Olhai aqui! Olhai ali! Como jorra em abundância,
Enchendo o cofre até a borda!
Recipientes de ouro derretem,
Rolos de moedas precipitam-se.
Ducados saltam como se acabassem de ser cunhados.
Ah, como isso agita meu peito!
Vejo diante de mim tudo o que desejo!
Ali rolam pelo chão.
Eles vos são oferecidos, aproveitai agora mesmo;
Basta curvar-vos e ficareis ricos.
Nós outros, rápidos como o relâmpago,
Tomaremos posse do cofre.
ARAUTO
Que significa isso, seus loucos? Que pretendeis?
É apenas uma brincadeira de máscaras.
Nesta noite nada mais vos será concedido.
Pensais que vos darão ouro e bens verdadeiros?
Para vós, neste espetáculo,
Até fichas de calcular seriam demais.
Seus desajeitados! Uma bela aparência
Deve logo transformar-se em verdade grosseira?
Que vos importa a verdade? Agarrai-vos
A todas as pontas de uma ilusão obscura.
Pluto mascarado, herói desta mascarada,
Expulsa-me este povo do campo.
PLUTO
Tua vara certamente serve para isso;
Empresta-ma por pouco tempo.
Mergulho-a depressa no caldo e nas brasas.
Agora, máscaras, ficai alertas!
Como lampeja e estala, lançando faíscas!
A vara já está incandescente.
Quem se aproximou demais
Será queimado imediatamente, sem piedade.
Agora começo minha ronda.
GRITOS E TUMULTO
Ai de nós! Estamos perdidos!
Fuja quem ainda puder fugir!
Para trás, para trás, homem de trás!
Ele lança faíscas quentes no meu rosto!
O bastão em brasa me esmaga!
Estamos todos perdidos!
Para trás, para trás, enxurrada de máscaras!
Para trás, para trás, multidão insensata!
Ah, se eu tivesse asas, voaria daqui!
PLUTO
O círculo já foi empurrado para trás,
E creio que ninguém ficou queimado.
A multidão recua,
Foi afugentada.
Mas, como garantia desta ordem,
Traço uma barreira invisível.
ARAUTO
Realizaste uma obra magnífica;
Como agradecer por teu poder prudente?
PLUTO
Ainda será necessária paciência, nobre amigo:
Muitos outros tumultos nos ameaçam.
AVAREZA
Assim, quando se deseja,
Pode-se contemplar este círculo com prazer;
Pois as mulheres estão sempre nas primeiras filas
Onde há algo para olhar ou petiscar.
Ainda não estou inteiramente enferrujado!
Uma bela mulher permanece sempre bela;
E hoje, como isso nada me custa,
Podemos cortejá-las sem receio.
Mas, como neste recinto superlotado
Nem todas as palavras chegam claramente a todos os ouvidos,
Tentarei agir com esperteza e espero conseguir
Expressar-me com clareza por meio de pantomima.
Mãos, pés e gestos não me bastam;
Preciso inventar alguma travessura.
Como argila úmida, tratarei o ouro,
Pois esse metal pode transformar-se em qualquer coisa.
ARAUTO
Que pretende aquele louco esquelético?
Um esfomeado assim possui senso de humor?
Ele amassa todo o ouro como massa de pão;
Sob suas mãos, o metal amolece.
Por mais que o aperte e forme uma bola,
Permanece sempre sem forma definida.
Agora se volta para as mulheres;
Todas gritam, querem fugir,
E fazem gestos de extremo repúdio.
O patife revela-se perversamente hábil.
Receio que se divirta
Violando os bons costumes.
Não posso permanecer calado diante disso;
Dá-me a vara para que eu o expulse.
PLUTO
Ele não percebe o que nos ameaça de fora;
Deixa-o representar sua farsa de louco!
Não lhe restará espaço para as palhaçadas;
A lei é poderosa, mais poderosa ainda é a necessidade.
TUMULTO E CANTO
O exército selvagem vem em massa
Das alturas das montanhas e dos vales da floresta;
Avança de modo irresistível:
Celebram seu grande Pã.
Sabem aquilo que ninguém sabe
E comprimem-se no círculo vazio.
PLUTO
Bem vos conheço, e também vosso grande Pã!
Juntos, empreendestes uma marcha audaciosa.
Sei muito bem aquilo que nem todos sabem
E, como devo, abro este estreito círculo.
Que um destino favorável os acompanhe!
O mais prodigioso pode acontecer;
Não sabem para onde avançam,
Não tomaram nenhuma precaução.
CANTO SELVAGEM
Povo enfeitado, desfile de ouropéis!
Eles chegam rudes, chegam ásperos,
Em altos saltos, em corrida veloz,
Pisando com força e firmeza.
FAUNOS
A tropa dos faunos,
Em dança alegre,
Com coroas de carvalho
Nos cabelos revoltos;
Uma orelha fina e pontuda
Sobressai da cabeça encaracolada,
Nariz achatado, rosto largo,
Nada disso desagrada às mulheres:
Quando o fauno lhes estende a pata,
Nem a mais bela recusa facilmente a dança.
SÁTIRO
O sátiro vem saltando logo atrás,
Com pé de bode e perna descarnada;
Convém que sejam magros e musculosos.
Como um camurça, nas alturas da montanha,
Diverte-se olhando ao redor.
Revigorado pelo ar da liberdade,
Zomba da criança, da mulher e do homem
Que, nas névoas e fumaças profundas do vale,
Julgam, satisfeitos, que também vivem,
Quando somente a ele, pura e imperturbada,
Pertence lá no alto a vastidão do mundo.
GNOMOS
A pequena tropa entra a passos miúdos,
Sem gostar de permanecer aos pares;
Em trajes de musgo, com pequenas lâmpadas claras,
Movem-se depressa, misturados uns aos outros,
Cada qual trabalhando por conta própria,
Como formigas luminosas em enxame;
Agitam-se diligentes para lá e para cá,
Ocupados em todas as direções.
Próximos parentes dos bondosos anõezinhos,
Somos conhecidos como cirurgiões das rochas;
Sangramos as altas montanhas,
Extraímos de seus veios repletos;
Amontoamos os metais
E saudamos confiantes: boa sorte! Boa sorte!
Tudo isso é bem-intencionado desde a raiz:
Somos amigos das boas pessoas.
Contudo, trazemos o ouro à luz
Para que possam roubar e alcovitar,
Para que não falte ferro ao homem orgulhoso
Que inventou o assassinato universal.
E quem despreza os três mandamentos
Também não se importa com os demais.
Nada disso é culpa nossa;
Portanto, continuai pacientes como nós.
GIGANTES
Chamam-nos homens selvagens,
Bem conhecidos nas montanhas do Harz;
Naturalmente nus, com toda a força,
Chegam todos em tamanho gigantesco.
Na mão direita, um tronco de pinheiro;
Em torno do corpo, uma faixa volumosa;
O mais grosseiro avental de galhos e folhas:
Uma guarda pessoal que nem o papa possui.
NINFAS EM CORO
Ele também se aproxima!
A totalidade do mundo
É representada
No grande Pã.
Vós, as mais alegres, cercai-o,
Flutuai em torno dele numa dança de prestidigitação;
Pois, embora seja sério e bondoso,
Deseja que todos estejam contentes.
Mesmo sob a abóbada azul,
Mantém-se sempre desperto;
Mas os riachos murmuram até ele,
E brisas leves o embalam suavemente no repouso.
Quando dorme ao meio-dia,
Nem uma folha se move no galho;
O aroma balsâmico das plantas saudáveis
Preenche o ar silencioso e imóvel;
A ninfa não pode permanecer desperta
E adormece no lugar onde estava.
Mas, quando inesperadamente e com violência
Sua voz então ressoa,
Como o estrondo do raio e o rugido do mar,
Ninguém sabe para onde entrar ou sair;
Um exército valente dispersa-se pelo campo,
E, no tumulto, até o herói estremece.
Honra, portanto, a quem a honra é devida,
E salvação àquele que o trouxe até nós!
DELEGAÇÃO DOS GNOMOS
Quando o bem rico e cintilante
Atravessa as fendas como um fio,
E somente à prudente vara divinatória
Revela seus labirintos,
Nas cavernas escuras, como trogloditas,
Construímos nossa morada;
E, sob os ares puros do dia,
Tu distribuis generosamente os tesouros.
Agora descobrimos aqui ao lado
Uma fonte maravilhosa,
Que promete fornecer facilmente
Aquilo que mal se podia alcançar.
Tu podes levar isso à conclusão;
Recebe-a, Senhor, sob tua proteção:
Todo tesouro em tuas mãos
Reverte em benefício do mundo inteiro.
PLUTO
Precisamos conservar uma disposição elevada
E deixar acontecer, confiantes, aquilo que acontecer.
Tu, de resto, sempre foste cheio da maior coragem.
Agora ocorrerá algo dos mais horríveis;
O mundo e a posteridade o negarão obstinadamente:
Registra-o fielmente em teu protocolo.
ARAUTO
Os anões conduzem o grande Pã
Com cuidado até a fonte de fogo;
Ela ferve desde o abismo mais profundo,
Depois torna a descer até o fundo,
E escura permanece a boca aberta;
Volta a subir em brasas e fervura.
O grande Pã permanece de bom humor,
Alegra-se com a coisa prodigiosa,
Enquanto espuma perolada espirra à direita e à esquerda.
Como pode confiar em semelhante fenômeno?
Inclina-se profundamente para olhar dentro.
Mas agora sua barba cai lá dentro!
Quem será aquele queixo liso?
A mão o esconde de nossos olhos.
Agora sucede uma grande desgraça:
A barba se inflama e recua voando,
Incendeia a coroa, a cabeça e o peito;
O prazer transforma-se em sofrimento.
A tropa corre para apagar as chamas,
Mas ninguém permanece livre do fogo;
E, quanto mais batem e golpeiam,
Mais atiçam novas labaredas.
Entrelaçado no elemento,
Todo um amontoado de máscaras se incendeia.
Mas o que ouço chegar ao nosso conhecimento,
De ouvido em ouvido, de boca em boca?
Ó noite eternamente desventurada,
Que sofrimento nos trouxeste!
O próximo dia anunciará
Aquilo que ninguém deseja ouvir;
Mas ouço gritarem por toda parte:
“O Imperador sofre semelhante tormento.”
Ah, se outra notícia fosse verdadeira!
O Imperador arde, e também seu séquito.
Maldita seja aquela que o seduziu
A envolver-se em galhos resinosos,
A vir enfurecido, com cantos bramidos,
Para a ruína de todos os lados.
Ó juventude, juventude, nunca saberás
Circunscrever a medida pura da alegria?
Ó majestade, majestade, nunca saberás
Agir com sensatez tão bem quanto com poder absoluto?
A floresta já começa a arder,
As chamas, com línguas afiadas, sobem lambendo
Até a armação de madeira do teto;
Um incêndio geral nos ameaça.
A medida da aflição está transbordando,
Não sei quem poderá salvar-nos.
Amanhã, num monte de cinzas de uma única noite,
Jazerá o rico esplendor imperial.
PLUTO
Já se espalhou terror bastante;
Que agora se dê início ao socorro!
Golpeia, força da vara sagrada,
Para que o chão estremeça e ressoe!
Tu, ar vasto e espaçoso,
Enche-te de hálito fresco!
Aproximai-vos, para flutuar ao redor,
Vapores de névoa, faixas carregadas,
Cobri o tumulto de chamas!
Gotejai, sussurrai, pequenas nuvens, ondulai,
Deslizai em vagas, abrandai em silêncio,
Combatei, apagando por toda parte,
Vós, aliviadoras e úmidas;
Transformai em relâmpago de tempestade
O jogo de tais chamas vãs!
Quando espíritos ameaçam prejudicar-nos,
É preciso que a magia entre em ação.
JARDIM DE RECREIO
FAUSTO
Perdoas, Senhor, o espetáculo ilusório das chamas?
IMPERADOR
Desejo para mim muitas brincadeiras como essa.
De repente, vi-me numa esfera incandescente;
Quase me pareceu que eu próprio era Plutão.
De noite e carvão formava-se um chão rochoso,
Ardendo em pequenas chamas. De uma e outra garganta
Turbilhonaram muitos milhares de labaredas selvagens,
Que se juntaram, tremulantes, numa única abóbada.
Até a cúpula mais elevada subiam suas línguas,
Que sem cessar se formava e tornava a desaparecer.
Através do espaço distante, entre colunas curvas de fogo,
Vi moverem-se longas fileiras de povos;
Aproximavam-se, comprimidos num vasto círculo,
E prestavam homenagem, como sempre fizeram.
Reconheci este e aquele de minha corte;
Parecia-me um príncipe de mil salamandras.
MEFISTÓFELES
E o és, Senhor! Pois cada elemento
Reconhece como absoluto o poder da Majestade.
Já puseste à prova a obediência do fogo;
Lança-te ao mar, onde ele se enfurece com mais violência,
E, mal pises o fundo rico em pérolas,
Logo se formará, ondulando, um círculo magnífico.
Verás acima e abaixo ondas vacilantes, verde-claras,
Com bordas púrpuras, erguerem-se na mais bela morada
Ao redor de ti, seu centro. A cada passo,
Aonde quer que vás, os palácios te acompanharão.
As próprias paredes se alegrarão com a vida,
Com o fervilhar veloz, o ir e vir, a resistência.
Prodígios marinhos afluirão ao novo e suave fulgor;
Investirão contra ele, mas nenhum poderá entrar.
Ali brincarão dragões coloridos, de escamas douradas;
O tubarão abrirá a goela, e tu rirás dentro dela.
Por mais que agora a corte se alegre ao teu redor,
Nunca contemplaste semelhante multidão.
Mas não permanecerás afastado do que há de mais encantador:
Curiosas Nereidas se aproximarão
Da esplêndida morada, no eterno frescor;
As mais jovens, tímidas e lascivas como peixes,
As mais velhas, prudentes. Logo Tétis saberá,
E ao segundo Peleu estenderá mão e boca.
Depois, um assento nas regiões do Olimpo...
IMPERADOR
Os espaços aéreos, esses deixo para ti;
Ainda cedo demais se sobe àquele trono.
MEFISTÓFELES
E a terra, supremo Senhor, já a possuis.
IMPERADOR
Que boa fortuna te trouxe até aqui,
Diretamente das Mil e Uma Noites?
Se igualas Scheherazade em fertilidade,
Asseguro-te a mais elevada de todas as graças.
Estejas sempre pronto quando o mundo de cada dia,
Como tantas vezes acontece, me desagradar profundamente.
MORDOMO-MOR
Sereníssimo, jamais pensei em minha vida
Que anunciaria felicidade mais bela
Do que esta, que me eleva e me encanta
Diante de tua própria face:
Conta após conta foi liquidada,
As garras da usura foram apaziguadas,
Estou livre de semelhante tormento infernal;
Nem no céu poderia haver maior alegria.
COMANDANTE DO EXÉRCITO
O soldo foi pago por adiantamento,
Todo o exército está novamente comprometido;
O lansquenete sente sangue novo,
E o estalajadeiro e as prostitutas prosperam.
IMPERADOR
Como vosso peito respira aliviado!
Como o rosto enrugado se ilumina!
Com que pressa vos aproximais!
TESOUREIRO
Interroga estes, que realizaram a obra.
FAUSTO
Ao Chanceler compete expor o assunto.
CHANCELER
Feliz o bastante em meus dias de velhice.
Ouvi e contemplai a folha carregada de destino,
Que transformou todo mal em bem:
“Saiba-o todo aquele que o desejar:
Este papel vale mil coroas.
Serve-lhe como garantia e penhor seguro
A incontável riqueza enterrada nas terras do Imperador.
Já se providenciou para que o rico tesouro,
Tão logo seja extraído, sirva ao reembolso.”
IMPERADOR
Pressinto um crime, uma fraude monstruosa!
Quem falsificou aqui a assinatura do Imperador?
Semelhante delito ficou impune?
TESOUREIRO
Recorda-te! Tu próprio o assinaste,
Ainda esta noite. Estavas como o grande Pã,
E o Chanceler aproximou-se de ti conosco:
“Concede a ti mesmo o sublime prazer da festa
E ao povo a salvação, com poucos traços de pena.”
Tu os traçaste com nitidez; depois, durante a noite,
Mil artistas o multiplicaram rapidamente aos milhares.
Para que o benefício alcançasse a todos por igual,
Logo estampamos toda a série:
Dez, trinta, cinquenta, cem estão prontos.
Não imaginais quanto bem isso fez ao povo.
Vede a cidade, antes apodrecendo, meio morta,
Como tudo vive e fervilha, entregue ao prazer!
Embora teu nome há muito faça a felicidade do mundo,
Nunca foi contemplado com tamanha simpatia.
Somente agora o alfabeto se tornou supérfluo;
Sob este signo, todos alcançam a bem-aventurança.
IMPERADOR
E meu povo o aceita como ouro legítimo?
Ao exército e à corte basta como soldo integral?
Por mais que isso me espante, preciso aceitá-lo.
MORDOMO-MOR
Seria impossível alcançar os papéis fugitivos;
Com a rapidez de um relâmpago, dispersaram-se em circulação.
As bancas dos cambistas estão escancaradas:
Ali cada folha é honrada
Com ouro e prata, naturalmente com desconto.
Dali segue ao açougueiro, ao padeiro e à taberna;
Metade do mundo parece pensar apenas em banquetes,
Enquanto a outra metade incha dentro de roupas novas.
O comerciante corta o tecido, o alfaiate costura.
Ao grito de “Viva o Imperador!”, borbulham as adegas;
Ali se cozinha, se assa e os pratos entrechocam.
MEFISTÓFELES
Quem passeia solitário pelos terraços
Avista a mais bela, magnificamente adornada,
Com um dos olhos oculto pelo soberbo leque de pavão;
Ela nos sorri e lança olhares para semelhante cédula.
Mais depressa do que por engenho ou eloquência
Conquista-se assim o mais generoso favor amoroso.
Já não será preciso atormentar-se com bolsa ou sacola;
Uma pequena folha é fácil de trazer junto ao seio,
E ali se acomoda bem ao lado de uma carta de amor.
O sacerdote a leva piedosamente no breviário,
E o soldado, para mover-se com maior rapidez,
Logo alivia o cinturão de seus quadris.
Que a Majestade me perdoe se pareço
Rebaixar às pequenas coisas esta obra sublime.
FAUSTO
A abundância dos tesouros que, petrificada,
Espera nas profundezas do solo de teus domínios
Permanece sem proveito. O pensamento mais vasto
É limite mesquinho para semelhante riqueza;
A fantasia, em seu voo mais elevado,
Esforça-se, mas nunca consegue fazer o bastante.
Espíritos dignos de contemplar em profundidade, porém,
Depositam no ilimitado uma confiança sem limites.
MEFISTÓFELES
Semelhante papel, no lugar de ouro e pérolas,
É muito cômodo; sabe-se exatamente o que se possui.
Não é preciso regatear nem fazer trocas,
E cada qual pode, à vontade, embriagar-se de amor e vinho.
Caso se deseje metal, o cambista está preparado;
E, se ali faltar, cava-se durante algum tempo.
Taça e corrente serão vendidas em leilão,
E o papel, imediatamente amortizado,
Envergonha o cético que nos insultou com insolência.
Ninguém quer outra coisa; já se acostumaram.
Assim, de agora em diante, em todas as terras imperiais
Haverá joias, ouro e papel em quantidade suficiente.
IMPERADOR
Nosso império vos deve tão elevado benefício;
Que, se possível, a recompensa iguale o serviço.
Confio-vos o interior do solo imperial;
Sois os mais dignos guardiões dos tesouros.
Conheceis o vasto depósito, bem protegido,
E, quando se cavar, será segundo vossa palavra.
Uni-vos agora, mestres de nosso tesouro,
Cumpri com alegria as dignidades de vosso posto,
Onde o mundo superior e o subterrâneo,
Felizmente unidos, se harmonizam.
TESOUREIRO
Que entre nós não surja nem a mais remota discórdia;
Agrada-me ter o mago como colega.
IMPERADOR
Agora presentearei na corte homem por homem;
Que cada qual me confesse para que deseja usar o prêmio.
PAJEM
Viverei alegre, jovial e despreocupado.
OUTRO
Mandarei fazer agora mesmo correntes e anéis para minha querida.
CAMAREIRO
De agora em diante beberei vinho duas vezes melhor.
OUTRO
Os dados já me dão comichão dentro do bolso.
PORTA-ESTANDARTE
Libertarei de dívidas meu castelo e minhas terras.
OUTRO
É um tesouro; vou juntá-lo aos meus tesouros.
IMPERADOR
Eu esperava alegria e coragem para novos feitos;
Mas quem vos conhece adivinha facilmente vossas intenções.
Percebo muito bem: em meio ao florescer de todos os tesouros,
Como sempre fostes, assim permaneceis.
BOBO
Distribuis graças; concede-me também uma parte!
IMPERADOR
E, se voltaste à vida, logo a beberás toda.
BOBO
Estas folhas mágicas! Não as compreendo bem.
IMPERADOR
Acredito; pois fazes mau uso delas.
BOBO
Outras caem aqui; não sei o que fazer.
IMPERADOR
Toma-as, já que caíram para ti.
BOBO
Cinco mil coroas estariam em minhas mãos!
MEFISTÓFELES
Odre de duas pernas, ressuscitaste outra vez?
BOBO
Isso me acontece muitas vezes, mas nunca tão bem como agora.
MEFISTÓFELES
Estás tão contente que começas a suar.
BOBO
Vede só: isto realmente vale dinheiro?
MEFISTÓFELES
Com isso tens tudo quanto garganta e barriga desejam.
BOBO
E posso comprar campo, casa e gado?
MEFISTÓFELES
Naturalmente! Basta oferecer; nunca te faltarão.
BOBO
E um castelo, com floresta, caça e riacho de peixes?
MEFISTÓFELES
Sem dúvida!
Gostaria muito de ver-te como severo senhor de terras!
BOBO
Esta noite já me embalarei como proprietário!
MEFISTÓFELES
Quem ainda duvida da sabedoria de nosso Bobo?
MEFISTÓFELES
Por que me arrastas por estes corredores escuros?
Não há lá dentro alegria suficiente,
No denso e colorido tumulto da corte,
Ocasião bastante para gracejos e embustes?
FAUSTO
Não me digas isso; já gastaste tais palavras
Há muito tempo, até nas solas dos sapatos.
Mas agora esse teu ir e vir
Serve apenas para não cumprires o que prometeste.
Eu, porém, sou atormentado a agir:
O Mordomo-Mor e o Camareiro me pressionam.
O Imperador quer, e deve acontecer imediatamente,
Ver Helena e Páris diante de si;
Deseja contemplar, em formas nítidas,
O modelo ideal dos homens e das mulheres.
Depressa à obra! Não posso quebrar minha palavra.
MEFISTÓFELES
Foi absurdo e leviano fazer semelhante promessa.
FAUSTO
Tu, companheiro, não consideraste
Aonde tuas artes nos conduziriam.
Primeiro o fizemos rico,
Agora devemos diverti-lo.
MEFISTÓFELES
Imaginas que tudo se ajuste de imediato;
Estamos diante de degraus ainda mais íngremes.
Invades o mais estranho dos domínios,
E, sacrilegamente, acabas contraindo novas dívidas.
Pensas ser tão fácil evocar Helena
Quanto o espectro de papel dos florins.
Com bruxas extravagantes, tramas de fantasmas
E anões de pescoço inchado, logo estou a teu serviço;
Mas as queridas do diabo, embora não sejam desprezíveis,
Não podem passar por heroínas.
FAUSTO
Eis novamente a velha cantilena!
Contigo sempre se cai na incerteza.
És o pai de todos os obstáculos
E, para cada recurso, queres nova recompensa.
Sei que bastam alguns murmúrios;
Num piscar de olhos, tu as colocarás diante de nós.
MEFISTÓFELES
O povo pagão nada tem a ver comigo;
Habita seu próprio inferno.
Mas existe um meio.
FAUSTO
Fala, e sem demora!
MEFISTÓFELES
É a contragosto que revelo um segredo mais elevado.
Deusas reinam, sublimes, na solidão;
Ao redor delas não existe lugar, muito menos tempo.
Falar a respeito delas já é embaraçoso.
São as Mães!
FAUSTO
As Mães!
MEFISTÓFELES
Isso te faz estremecer?
FAUSTO
As Mães! As Mães! Soa tão prodigiosamente estranho!
MEFISTÓFELES
E assim é. Deusas desconhecidas
Por vós, mortais, e que nós não gostamos de nomear.
Para chegar à morada delas, podes escavar até o mais profundo;
Tu mesmo tens culpa de precisarmos delas.
FAUSTO
Para onde conduz o caminho?
MEFISTÓFELES
Não há caminho! Rumo ao jamais pisado,
Ao que não pode ser pisado; um caminho ao jamais suplicado,
Ao que não pode ser obtido por súplica. Estás preparado?
Não há fechaduras nem ferrolhos a afastar;
Serás impelido por solidões sem fim.
Tens alguma noção do ermo e da solidão?
FAUSTO
Poderias, penso eu, poupar-me semelhantes máximas;
Isto cheira à Cozinha da Bruxa
E a uma época há muito passada.
Não fui obrigado a lidar com o mundo?
A aprender o vazio, a ensinar coisas vazias?
Quando falava sensatamente, segundo aquilo que via,
A contradição ressoava duas vezes mais alta.
Até mesmo, diante de golpes repugnantes,
Tive de fugir para a solidão e para o deserto
E, para não viver inteiramente abandonado e só,
Acabei por entregar-me ao diabo.
MEFISTÓFELES
Ainda que tivesses atravessado o oceano a nado
E contemplado ali o ilimitado,
Verias, contudo, onda após onda aproximar-se,
Mesmo que estremecesses diante do naufrágio.
Ainda verias alguma coisa. Talvez avistasses, no verde
Dos mares tranquilos, golfinhos deslizando;
Verias nuvens passarem, o Sol, a Lua e as estrelas.
Nada verás na distância eternamente vazia;
Não ouvirás o passo que deres,
Nem encontrarás coisa firme onde repousar.
FAUSTO
Falas como o primeiro de todos os mistagogos
Que já enganaram neófitos confiantes;
Apenas às avessas. Envias-me ao vazio
Para que ali eu aumente arte e força.
Tratas-me como aquela gata
Que devia tirar para ti as castanhas das brasas.
Adiante, pois! Vamos sondar isso;
Em teu nada espero encontrar o Todo.
MEFISTÓFELES
Louvo-te antes que te apartes de mim
E vejo muito bem que conheces o diabo.
Toma esta chave.
FAUSTO
Uma coisa tão pequena!
MEFISTÓFELES
Primeiro segura-a e não a julgues insignificante.
FAUSTO
Ela cresce em minha mão! Resplandece, lança raios!
MEFISTÓFELES
Percebes agora o que nela possuis?
A chave farejará o lugar correto;
Segue-a para baixo, ela te conduzirá às Mães.
FAUSTO
Às Mães! Isso sempre me atinge como um golpe!
Que palavra é essa que não suporto ouvir?
MEFISTÓFELES
És tão limitado que uma palavra nova te perturba?
Desejas ouvir apenas aquilo que já ouviste?
Nada deve inquietar-te, por mais estranho que soe,
Tu que há tanto te acostumaste às coisas mais prodigiosas.
FAUSTO
Mas não procuro minha salvação no enrijecimento;
O estremecimento é a melhor parte da humanidade.
Por mais caro que o mundo lhe faça pagar esse sentimento,
Tomado por ele, o homem sente profundamente o monstruoso.
MEFISTÓFELES
Afunda, então! Eu também poderia dizer: sobe!
É inteiramente a mesma coisa. Foge do que foi criado
Para os reinos das formas libertadas!
Deleita-te com aquilo que há muito deixou de existir;
Como fileiras de nuvens, as figuras se enredam.
Brandindo a chave, mantém-nas longe de teu corpo!
FAUSTO
Muito bem! Segurando-a com firmeza, sinto força renovada;
Meu peito se expande, rumo à grande obra.
MEFISTÓFELES
Por fim, um trípode incandescente te anunciará
Que chegaste ao fundo mais profundo de todos.
À sua luz verás as Mães:
Umas sentadas, outras em pé e caminhando,
Conforme acontece. Formação, transformação,
Eterno passatempo do sentido eterno.
Cercadas pelas imagens de todas as criaturas;
Elas não te veem, pois veem apenas espectros.
Então reúne coragem, pois o perigo é grande,
E avança diretamente até aquele trípode.
Toca-o com a chave!
MEFISTÓFELES
Isso mesmo!
Ela se unirá a ele e o seguirá como servo fiel.
Então, sereno, subirás; a fortuna te elevará,
E, antes que percebam, estarás de volta com ele.
Quando o tiveres trazido uma vez até aqui,
Poderás chamar da noite o herói e a heroína.
Serás o primeiro a ousar semelhante feito;
A obra estará realizada, e tu a terás cumprido.
Depois disso, por meio do tratamento mágico,
A névoa do incenso deverá transformar-se em deuses.
FAUSTO
E agora, o que faço?
MEFISTÓFELES
Que teu ser se incline para baixo;
Afunda batendo o pé, e batendo o pé tornarás a subir.
MEFISTÓFELES
Que ao menos a chave lhe seja proveitosa!
Estou curioso para saber se voltará.
CAMAREIRO
Ainda nos deveis a cena dos espíritos;
Tratai disso! O Senhor está impaciente.
MORDOMO-MOR
Neste instante o Sereníssimo perguntou por ela;
Não demoreis, para não afrontardes a Majestade.
MEFISTÓFELES
Meu companheiro partiu justamente para isso;
Ele já sabe como proceder
E trabalha em silêncio, a portas fechadas,
Precisando empenhar-se de maneira muito especial;
Pois quem deseja extrair o tesouro, a beleza,
Necessita da arte suprema, da magia dos sábios.
MORDOMO-MOR
Pouco importa quais artes empregais:
O Imperador quer que tudo esteja pronto.
LOIRA
Uma palavra, meu senhor! Vedes um rosto límpido,
Mas no detestável verão ele não permanece assim!
Brotam cem manchas castanho-avermelhadas
Que, para meu desgosto, cobrem a pele branca.
Um remédio!
MEFISTÓFELES
Que pena! Um tesourinho tão luminoso,
Salpicado em maio como vossa pequena pantera.
Tomai ovas de rã e línguas de sapo, fazei-as coobar,
Destilai-as cuidadosamente sob a lua cheia
E, quando ela minguar, aplicai-as com asseio;
Chegará a primavera, e as manchas terão desaparecido.
MORENA
A multidão se comprime para cercar-vos.
Peço um remédio! Um pé enregelado
Impede-me de caminhar e de dançar;
Até para saudar, movimento-me sem jeito.
MEFISTÓFELES
Permiti que meu pé vos dê um pisão.
MORENA
Ora, isso costuma acontecer entre amantes.
MEFISTÓFELES
Meu pisão, criança, tem sentido mais elevado.
O semelhante cura o semelhante, seja qual for o mal;
Pé cura pé, e assim acontece com todos os membros.
Aproximai-vos! Atenção! Não deveis retribuí-lo.
MORENA
Ai! Ai! Isso queima! Foi um golpe violento,
Como o casco de um cavalo.
MEFISTÓFELES
Levai convosco a cura.
Agora podes dançar quanto quiseres
E, banqueteando-te à mesa, brincar com os pés do amado.
DAMA
Deixai-me passar! Minhas dores são excessivas,
Fervem e revolvem-se no mais profundo do coração.
Até ontem ele procurava salvação em meus olhos;
Agora conversa com ela e me volta as costas.
MEFISTÓFELES
É um caso preocupante, mas escuta-me.
Deves aproximar-te dele devagar, bem junto;
Toma este carvão e traça-lhe uma linha
Na manga, no manto, no ombro, como for possível;
Ele sentirá no coração uma doce pontada de remorso.
Mas deves engolir imediatamente o carvão,
Sem levar vinho nem água aos lábios;
Ainda esta noite ele suspirará diante de tua porta.
DAMA
Isso não é veneno?
MEFISTÓFELES
Respeito ao que merece respeito!
Teríeis de percorrer grande distância por semelhante carvão;
Ele vem de uma fogueira
Que antigamente atiçávamos com maior diligência.
PAJEM
Estou apaixonado, mas não me consideram homem feito.
MEFISTÓFELES
Já não sei a quem devo dar ouvidos.
Não deveis apostar vossa felicidade na mais jovem;
As mulheres maduras sabem dar-vos valor.
Mais gente chegando! Que árdua batalha!
Por fim terei de recorrer à verdade;
O pior de todos os expedientes! A necessidade é grande.
Ó Mães, Mães! Libertai Fausto de uma vez!
As luzes já ardem turvas no salão;
Toda a corte começa a mover-se ao mesmo tempo.
Vejo-os seguir em ordem e com decoro
Por longos corredores, por galerias distantes.
Agora se reúnem no amplo recinto
Do antigo salão dos cavaleiros, que mal consegue contê-los.
As largas paredes estão cobertas de tapeçarias,
Armaduras adornam os cantos e os nichos.
Aqui, penso eu, não serão necessárias palavras mágicas;
Os espíritos encontram por si mesmos o lugar.
ARAUTO
Meu antigo ofício, anunciar o espetáculo,
É prejudicado pela ação secreta dos espíritos;
Em vão se tenta, por razões compreensíveis,
Explicar seu confuso governo.
As poltronas e as cadeiras já estão preparadas;
Sentam o Imperador bem diante da parede;
Ali poderá contemplar comodamente, nas tapeçarias,
As batalhas dos grandes tempos.
Agora estão sentados, senhor e corte em círculo,
Enquanto os bancos se comprimem ao fundo;
Também a amada encontrou, nestas horas sombrias de espíritos,
Um lugar encantador ao lado de seu amado.
E assim, como todos tomaram devidamente seus lugares,
Estamos prontos; que venham os espíritos!
ASTRÓLOGO
Que o drama inicie imediatamente seu curso;
O Senhor ordena: paredes, abri-vos!
Nada mais impede, a magia está presente.
As tapeçarias desaparecem, como enroladas pelo fogo;
A muralha se fende e gira sobre si mesma,
E um teatro profundo parece erguer-se.
Um clarão misterioso vem iluminar-nos,
E eu subo ao proscênio.
MEFISTÓFELES
Daqui espero conquistar o favor geral;
Soprar sugestões é a eloquência do diabo.
Conheces o compasso em que caminham os astros
E compreenderás com maestria meus sussurros.
ASTRÓLOGO
Por força prodigiosa surge aqui, para ser contemplado,
Sólido o bastante, um antigo templo.
Como Atlas, que outrora sustentou o céu,
Erguem-se em fileiras numerosas colunas;
Devem bastar para suportar o fardo das rochas,
Pois duas delas já sustentariam um grande edifício.
ARQUITETO
Isso seria antigo! Não saberia elogiá-lo;
Deveria ser chamado grosseiro e excessivamente maciço.
Ao rude chamam nobre, ao desajeitado, grandioso.
Amo os pilares esbeltos, que aspiram sem limites;
O zênite dos arcos ogivais eleva o espírito;
É uma construção assim que mais nos edifica.
ASTRÓLOGO
Recebei com reverência as horas concedidas pelos astros;
Que a razão seja dominada pela palavra mágica;
E, em compensação, aproximando-se livremente,
Movimente-se a magnífica e audaciosa fantasia.
Contemplai agora com os olhos aquilo que desejais com ousadia:
É impossível, e justamente por isso digno de fé.
ASTRÓLOGO
Em vestes sacerdotais, coroado, surge um homem prodigioso,
Que agora conclui aquilo que iniciou confiante.
Um trípode sobe com ele da caverna profunda;
Já pressinto na taça o aroma do incenso.
Ele se prepara para consagrar a elevada obra;
De agora em diante, somente a felicidade poderá acontecer.
FAUSTO
Em vosso nome, Mães, que reinais
No ilimitado, eternamente solitárias,
E, contudo, em comunhão. Em torno de vossas cabeças pairam
As imagens da vida, móveis, embora sem vida.
Tudo o que alguma vez existiu, em todo o esplendor e aparência,
Ali se move, pois deseja existir eternamente.
E vós o distribuís, poderes onipotentes,
À tenda dos dias, à abóbada das noites.
A uns envolve o curso encantador da vida;
A outros procura o mago audacioso.
Com rica generosidade e cheio de confiança,
Ele permite que todos contemplem, como prodígio, aquilo que desejam.
ASTRÓLOGO
Mal a chave incandescente toca a taça,
Uma névoa vaporosa cobre imediatamente o recinto;
Ela se insinua, ondula como nuvem,
Alonga-se, adensa-se, entrelaça-se, divide-se e torna a unir-se.
Reconhecei agora uma obra-prima dos espíritos!
À medida que se movem, produzem música.
De sons aéreos brota um não-se-sabe-o-quê;
Enquanto passam, tudo se transforma em melodia.
O fuste das colunas e até os tríglifos ressoam;
Creio, de fato, que todo o templo canta.
A névoa desce; do leve véu
Um belo jovem avança no compasso.
Aqui meu ofício se cala, não preciso nomeá-lo:
Quem não reconheceria o encantador Páris?
DAMA
Oh! Que esplendor de força juvenil florescente!
SEGUNDA DAMA
Fresco e cheio de sumo como um pêssego!
TERCEIRA DAMA
Os lábios de contorno delicado, doces e túmidos!
QUARTA DAMA
Gostarias de beber um gole de semelhante taça?
QUINTA DAMA
É muito bonito, embora não seja propriamente refinado.
SEXTA DAMA
Poderia mostrar um pouco mais de desenvoltura.
CAVALEIRO
Parece-me perceber aqui o criado de pastores;
Nada de príncipe, nada de maneiras cortesãs.
OUTRO CAVALEIRO
Ora! Seminu, o rapaz pode ser belo,
Mas primeiro precisaríamos vê-lo em armadura!
DAMA
Ele se senta, lânguido e agradável.
CAVALEIRO
Em seu colo ficaríeis bastante confortável?
OUTRA DAMA
Como apoia graciosamente o braço sobre a cabeça!
CAMAREIRO
Que grosseria! Considero isso inadmissível!
DAMA
Vós, senhores, sabeis encontrar defeito em tudo.
O MESMO
Espreguiçar-se assim na presença do Imperador!
DAMA
Ele está apenas representando! Julga estar inteiramente só.
O MESMO
Mesmo num espetáculo, aqui deveria portar-se com cortesia.
DAMA
O sono apoderou-se suavemente do encantador jovem.
O MESMO
Logo começará a roncar; é natural, perfeitamente natural!
JOVEM DAMA
Que aroma se mistura à fumaça do incenso
E me revigora o coração até o mais íntimo?
DAMA MAIS VELHA
De fato! Um sopro penetra profundamente no espírito;
Ele vem do jovem!
A MAIS VELHA
É a flor do crescimento,
Preparada no rapaz como ambrosia
E espalhada ao redor por toda a atmosfera.
MEFISTÓFELES
Então seria ela! Diante desta eu teria sossego;
É bela, sem dúvida, mas não me agrada.
ASTRÓLOGO
Quanto a mim, desta vez nada mais há que fazer;
Como homem honrado, confesso e reconheço.
A bela se aproxima, e ainda que eu tivesse línguas de fogo!
Desde sempre muito se cantou sobre a beleza.
Quem a contempla é arrebatado para fora de si;
Aquele a quem pertenceu foi venturoso em excesso.
FAUSTO
Ainda tenho olhos? Derrama-se profundamente em meu espírito
A fonte da beleza em toda a sua abundância?
Minha jornada de horror traz o mais bem-aventurado ganho.
Como o mundo me parecia vazio e fechado!
O que é agora, desde que me tornei seu sacerdote?
Somente agora é desejável, fundamentado, duradouro!
Que desapareça de mim o sopro da vida
Se algum dia eu me desacostumar de ti!
A forma perfeita que outrora me encantou,
Que me tornou feliz no espelho mágico,
Era apenas uma imagem de espuma desta beleza!
És tu aquela a quem ofereço o movimento de todas as forças,
A essência inteira da paixão,
A ti, inclinação, amor, adoração e loucura.
MEFISTÓFELES
Contende-vos e não abandoneis vosso papel!
DAMA MAIS VELHA
Alta e bem-formada, apenas a cabeça é pequena demais.
DAMA MAIS JOVEM
Vede o pé! Como poderia ser mais grosseiro?
DIPLOMATA
Já vi princesas desta espécie;
Parece-me bela da cabeça aos pés.
CORTESÃO
Ela se aproxima do adormecido com astúcia e suavidade.
DAMA
Como é feia ao lado daquela imagem juvenil e pura!
POETA
Ele é iluminado pela beleza dela.
DAMA
Endimião e Lua! Como numa pintura!
O MESMO
Exatamente! A deusa parece descer,
Inclina-se sobre ele para beber-lhe o hálito;
Que inveja! Um beijo! A medida está completa.
DAMA DE COMPANHIA
Diante de toda essa gente! Isso é escandaloso demais!
FAUSTO
Terrível favor concedido ao rapaz!
MEFISTÓFELES
Calma! Silêncio!
Deixa o espectro fazer o que quiser.
CORTESÃO
Ela se afasta furtivamente, com passos leves; ele desperta.
DAMA
Ela olha para trás! Eu sabia.
CORTESÃO
Ele se espanta! É um prodígio o que lhe acontece.
DAMA
Para ela não há prodígio naquilo que vê diante de si.
CORTESÃO
Ela se volta para ele com dignidade.
DAMA
Já percebo: começa a instruí-lo.
Em semelhantes casos todos os homens são tolos;
Ele certamente acredita ser o primeiro.
CAVALEIRO
Para mim, ela está aprovada! Majestosa e refinada!
DAMA
A cortesã! Isso sim é vulgar!
PAJEM
Gostaria muito de estar no lugar dele!
CORTESÃO
Quem não seria apanhado em semelhante rede?
DAMA
Essa joia já passou por muitas mãos,
E seu dourado também está bastante gasto.
OUTRA
Desde os dez anos de idade ela não serve para nada.
CAVALEIRO
Quando surge ocasião, cada qual toma para si o melhor;
Eu me contentaria com esses belos restos.
ERUDITO
Vejo-a com clareza, mas confesso francamente:
É duvidoso que seja realmente a verdadeira.
O presente nos conduz ao exagero;
Eu me atenho, acima de tudo, ao que está escrito.
Ali leio que ela de fato agradou especialmente
A todos os anciãos de barba grisalha de Troia;
E, ao que me parece, isso se ajusta perfeitamente aqui:
Não sou jovem, e ainda assim ela me agrada.
ASTRÓLOGO
Já não é rapaz! Agora, ousado homem heroico,
Ele a abraça, embora ela mal consiga resistir.
Com o braço fortalecido, ergue-a bem alto.
Pretende até mesmo raptá-la?
FAUSTO
Louco atrevido!
Tu ousas! Não escutas! Para! Isso já é demais!
MEFISTÓFELES
Mas és tu mesmo quem produz este espetáculo grotesco de espíritos!
ASTRÓLOGO
Apenas mais uma palavra! Depois de tudo o que aconteceu,
Dou à peça o nome de O Rapto de Helena.
FAUSTO
Que rapto! Estou aqui por nada?
Esta chave não se encontra em minha mão?
Ela me conduziu, através do horror, das vagas e das ondas
Das solidões, até esta margem firme.
Aqui firmo os pés! Aqui estão as realidades!
A partir daqui o espírito pode lutar com espíritos
E preparar para si o grande reino duplo.
Por mais distante que estivesse, como agora pode estar tão próxima!
Eu a salvarei, e ela será duplamente minha.
Ousemos! Vós, Mães! Mães! Deveis concedê-lo!
Quem a reconheceu não pode renunciar a ela.
ASTRÓLOGO
O que fazes, Fausto! Fausto! Com violência
Ele a agarra, a figura já se torna turva.
Volta a chave contra o jovem,
Toca-o! Ai de nós! Desgraça! Num instante!
MEFISTÓFELES
Eis o resultado! Carregar-se de loucos
Acaba causando prejuízo até ao próprio diabo.
Edição integral de Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe, reunindo a Primeira e a Segunda Parte em tradução brasileira Literunico feita diretamente dos textos alemães de domínio público do Project Gutenberg (eBooks 2229 e 2230).
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