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Fausto

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Fausto

Capítulo 19 · Fausto

PARTE I · Jardim de Marthe

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PARTE I · Jardim de Marthe

Margarida e Fausto.

MARGARIDA
Promete-me, Heinrich!

FAUSTO
Tudo o que eu puder!

MARGARIDA
Então me diz: como te entendes com a religião?
És um homem muito bom de coração,
Mas acho que não dás grande valor a ela.

FAUSTO
Deixa isso, minha criança! Sentes que te quero bem;
Por aqueles que amo, daria corpo e sangue,
E não quero roubar de ninguém seu sentimento nem sua Igreja.

MARGARIDA
Isso não está certo, é preciso crer.

FAUSTO
É preciso?

MARGARIDA
Ah, se eu ao menos pudesse influenciar-te!
Também não veneras os santos sacramentos.

FAUSTO
Eu os venero.

MARGARIDA
Mas sem desejo verdadeiro.
Há muito não vais à missa nem te confessas.
Crês em Deus?

FAUSTO
Minha querida, quem pode dizer:
“Eu creio em Deus”?
Podes perguntar ao padre ou ao sábio,
E a resposta deles parecerá apenas zombaria
Daquele que perguntou.

MARGARIDA
Então não crês?

FAUSTO
Não me compreendas mal, rosto encantador!
Quem ousa nomeá-lo?
E quem se atreve
A confessar: “Eu creio nele”?
Quem pode senti-lo
E ainda assim ter coragem
De dizer: “Não creio nele”?
Aquele que tudo envolve,
Que tudo sustenta,
Não envolve e sustenta
A ti, a mim e a si mesmo?
O céu não se arqueia lá no alto?
A terra não repousa firme aqui embaixo?
E não se erguem, com olhar amistoso,
As estrelas eternas?
Não olho eu teus olhos face a face?
E tudo não se lança
Para tua mente e teu coração,
Tecendo em mistério eterno,
Invisível e visível, ao teu redor?
Enche disso teu coração, por maior que ele seja,
E, quando fores inteiramente feliz nesse sentimento,
Chama-o então como quiseres,
Chama-o felicidade, coração, amor ou Deus!
Não tenho nome
Para isso! O sentimento é tudo;
O nome é som e fumaça
Que encobre o fulgor do céu.

MARGARIDA
Tudo isso é muito bonito e bom;
Mais ou menos o pastor também diz assim,
Só que com palavras um pouco diferentes.

FAUSTO
Por toda parte dizem o mesmo
Todos os corações sob a luz do céu,
Cada um em sua língua;
Por que não eu na minha?

MARGARIDA
Quando se ouve assim, até parece aceitável,
Mas alguma coisa continua torta nisso;
Pois tu não tens cristianismo.

FAUSTO
Minha querida criança!

MARGARIDA
Há muito me dói
Ver-te na companhia daquele homem.

FAUSTO
Por quê?

MARGARIDA
O homem que trazes contigo
É odiado no fundo da minha alma;
Em toda a minha vida, nada
Me feriu tanto o coração
Quanto o rosto repulsivo daquele homem.

FAUSTO
Minha querida bonequinha, não o temas!

MARGARIDA
Sua presença me agita o sangue.
Normalmente gosto de todas as pessoas;
Mas, por mais que eu anseie por ver-te,
Sinto por aquele homem um horror secreto
E ainda o considero um patife!
Que Deus me perdoe, caso eu lhe faça injustiça!

FAUSTO
Também precisa haver sujeitos assim.

MARGARIDA
Eu não gostaria de viver entre os seus iguais!
Quando ele entra pela porta,
Olha sempre com um ar de escárnio
E meio enfurecido;
Vê-se que nada lhe desperta interesse;
Está escrito em sua testa
Que ele não é capaz de amar alma alguma.
Sinto-me tão bem em teus braços,
Tão livre, tão entregue, tão aquecida,
E a presença dele aperta tudo dentro de mim.

FAUSTO
Tu, anjo cheio de pressentimentos!

MARGARIDA
Isso me domina de tal maneira
Que, sempre que ele se aproxima de nós,
Penso até que já não te amo.
E, quando ele está presente, jamais consigo rezar,
E isso me corrói o coração;
Contigo, Heinrich, deve acontecer o mesmo.

FAUSTO
É apenas antipatia!

MARGARIDA
Preciso ir agora.

FAUSTO
Ah, nunca poderei
Ficar uma horinha em paz junto ao teu peito,
Peito contra peito, alma comprimida contra alma?

MARGARIDA
Ah, se eu dormisse sozinha!
Com prazer deixaria hoje à noite o ferrolho aberto;
Mas minha mãe tem sono leve,
E, se ela nos surpreendesse,
Eu morreria ali mesmo!

FAUSTO
Meu anjo, isso não é problema.
Aqui está um frasquinho. Apenas três gotas
Em sua bebida envolverão
A natureza num sono profundo e benévolo.

MARGARIDA
O que não faço por tua causa?
Espero que não lhe faça mal!

FAUSTO
Eu te aconselharia isso, minha querida, se fizesse?

MARGARIDA
Basta olhar para ti, meu amado,
E não sei o que me arrasta a cumprir tua vontade.
Já fiz tanto por ti
Que quase nada me resta ainda para fazer.

Sai.

Mefistófeles entra.

MEFISTÓFELES
O macaco de capim foi embora?

FAUSTO
Espionaste outra vez?

MEFISTÓFELES
Ouvi tudo com bastante detalhe;
O senhor doutor passou por um catecismo.
Espero que lhe faça muito bem.
As moças se interessam bastante
Em saber se alguém é piedoso e simples, à moda antiga.
Pensam: se ele cede nisso, também nos obedecerá.

FAUSTO
Tu, monstro, não compreendes
Como aquela alma fiel e amorosa,
Cheia de sua fé,
A única que lhe traz salvação,
Se atormenta santamente
Ao pensar que perdeu o homem que mais ama.

MEFISTÓFELES
Tu, pretendente sensual e suprassensível,
Uma mocinha te leva pelo nariz.

FAUSTO
Tu, aborto de lama e fogo!

MEFISTÓFELES
E ela entende de fisionomia como uma mestra.
Em minha presença, não sabe por quê, sente-se estranha;
Minha máscara lhe anuncia um sentido oculto.
Ela sente que sou, com toda certeza, um gênio,
Ou talvez até o próprio diabo.
Então, esta noite...?

FAUSTO
Que te importa?

MEFISTÓFELES
Ora, também tiro meu prazer disso!

Fausto

Sinopse

Edição integral de Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe, reunindo a Primeira e a Segunda Parte em tradução brasileira Literunico feita diretamente dos textos alemães de domínio público do Project Gutenberg (eBooks 2229 e 2230).

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