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Fausto

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Fausto

Capítulo 7 · Fausto

PARTE I · Gabinete de Estudo II

7 de 33 ≈ 29 min de leitura

PARTE I · Gabinete de Estudo II

Fausto. Mefistófeles.

FAUSTO

Batem? Entre! Quem vem atormentar-me de novo?

MEFISTÓFELES

Sou eu.

FAUSTO

Entre!

MEFISTÓFELES

Tens de dizê-lo três vezes.

FAUSTO

Pois então, entre!

MEFISTÓFELES

Assim me agradas.
Espero que nos entendamos,
Pois, para expulsar tuas fantasias,
Apresento-me aqui como nobre cavalheiro,
Com traje vermelho guarnecido de ouro,
Capinha de seda rígida,
Pena de galo sobre o chapéu
E uma longa espada pontiaguda.

E aconselho-te, em poucas palavras,
A vestir-te do mesmo modo,
Para que, livre de teus grilhões,
Descubras o que é a vida.

FAUSTO

Seja qual for a roupa, sempre sentirei
A dor desta estreita vida terrena.
Sou velho demais para apenas brincar,
Jovem demais para não ter desejos.

O que pode o mundo oferecer-me?
“Renuncia! Deves renunciar!”
Esse é o canto eterno
Que soa aos ouvidos de todos,
Que, durante toda a nossa vida,
Cada hora nos entoa com voz rouca.

Só desperto pela manhã com horror;
Queria derramar lágrimas amargas
Ao ver o dia que, em seu curso,
Não realizará um desejo meu, nem sequer um;
Que, com crítica obstinada,
Diminui até o pressentimento de cada prazer
E impede as criações de meu peito ativo
Com mil deformidades da vida.

Quando a noite enfim desce,
Tenho de estender-me angustiado sobre o leito;
Nem ali me é concedido repouso,
Pois sonhos selvagens virão assustar-me.

O deus que habita em meu peito
Pode agitar meu íntimo mais profundo;
Mas aquele que reina sobre todas as minhas forças
Nada consegue mover no mundo exterior.

Assim, a existência se torna um fardo para mim;
Desejo a morte e detesto a vida.

MEFISTÓFELES

E, no entanto, a morte jamais é hóspede inteiramente bem-vindo.

FAUSTO

Oh, feliz daquele a quem ela, no fulgor da vitória,
Enlaça as têmporas com louros sangrentos;
Daquele que ela encontra, depois de uma dança impetuosa,
Nos braços de uma jovem!

Ah, se eu tivesse, diante da força do sublime Espírito,
Caído arrebatado, sem alma e sem vida!

MEFISTÓFELES

E, no entanto, naquela noite alguém
Não bebeu até o fim um suco castanho.

FAUSTO

Parece que espionar é teu prazer.

MEFISTÓFELES

Não sou onisciente, mas sei muita coisa.

FAUSTO

Se, daquele tumulto terrível,
Um som doce e conhecido me atraiu,
Se, com ecos de um tempo feliz,
Enganou o resto de sentimento infantil,
Então amaldiçoo tudo quanto envolve a alma
Em seduções e ilusões
E a aprisiona nesta caverna de tristeza
Com forças que cegam e lisonjeiam!

Maldita, antes de tudo, a alta opinião
Com que o espírito envolve a si próprio!
Maldito o brilho das aparências
Que se impõe aos nossos sentidos!

Maldito o que, em sonhos, nos simula
O engano da fama e da sobrevivência do nome!
Maldito o que nos lisonjeia como propriedade,
Como mulher e filho, criado e arado!

Maldito seja Mamon, quando, com tesouros,
Nos incita a façanhas audaciosas,
E quando, para o deleite ocioso,
Ajeita para nós as almofadas!

Maldito o bálsamo das uvas!
Maldito aquele supremo favor do amor!
Maldita a esperança! Maldita a fé!
E, acima de tudo, maldita a paciência!

CORO DE ESPÍRITOS
Invisível.

Ai! Ai!
Tu a destruíste,
A bela criação,
Com punho poderoso;
Ela desaba, desfaz-se!

Um semideus a despedaçou!
Nós levamos
Os escombros para o nada
E lamentamos
A beleza perdida.

Mais poderoso
Entre os filhos da terra,
Reconstrói-a
Com maior esplendor,
Reconstrói-a em teu peito!

Começa
Um novo curso de vida
Com espírito luminoso,
E que novos cantos
Ressoem sobre ele!

MEFISTÓFELES

Estes são os pequenos
Que pertencem aos meus.

Ouve como, cheios de antiga sabedoria,
Eles te aconselham a buscar prazer e ação!
Para o vasto mundo,
Para longe da solidão
Onde pensamentos e humores estagnam,
Querem atrair-te.

Para de brincar com tua aflição,
Que, como um abutre, devora tua vida.
Até a pior companhia te fará sentir
Que és homem entre homens.

Mas não se trata
De lançar-te entre a canalha.
Não sou um dos grandes;
Contudo, se quiseres, unido a mim,
Conduzir teus passos pela vida,
Eu me adaptarei de bom grado
E serei teu imediatamente.

Sou teu companheiro;
E, se te servir bem,
Serei teu servo, serei teu criado.

FAUSTO

E o que deverei cumprir em troca?

MEFISTÓFELES

Ainda tens muito tempo para isso.

FAUSTO

Não, não! O diabo é egoísta
E não faz, por amor de Deus,
Aquilo que beneficia outra pessoa.

Declara claramente a condição.
Um servo assim traz perigo para dentro de casa.

MEFISTÓFELES

Quero ligar-me aqui a teu serviço,
Sem descansar nem repousar ao menor sinal teu;
Quando voltarmos a encontrar-nos no outro mundo,
Farás por mim o mesmo.

FAUSTO

O outro mundo pouco me preocupa.
Quando destruíres primeiro este,
Que outro surja depois dele.

É desta terra que brotam minhas alegrias,
E é este sol que ilumina minhas dores.
Quando eu puder separar-me de ambos,
Aconteça então o que quiser e puder.

Não quero ouvir mais nada a respeito
De se no futuro ainda se odeia e ama,
Nem se naquelas esferas
Há também um alto ou um baixo.

MEFISTÓFELES

Nesse espírito, podes arriscar-te.
Liga-te a mim, e nestes dias
Verás com alegria minhas artes.
Darei a ti aquilo que homem algum jamais viu.

FAUSTO

O que podes dar, pobre diabo?
Alguma vez o espírito de um homem, em seu alto esforço,
Foi compreendido por alguém de tua espécie?

Tens alimento que não sacia?
Tens ouro vermelho que, sem descanso,
Como mercúrio, escorre por entre os dedos?
Um jogo em que jamais se ganha?

Uma jovem que, junto a meu peito,
Já com olhares se entrega ao vizinho?
O divino prazer da bela honra,
Que desaparece como um meteoro?

Mostra-me o fruto que apodrece antes de ser colhido
E árvores que a cada dia tornam a reverdecer!

MEFISTÓFELES

Uma tarefa assim não me assusta;
Posso servir-te com tesouros dessa espécie.
Mas, bom amigo, também chegará o tempo
Em que poderemos saborear tranquilamente alguma coisa boa.

FAUSTO

Se algum dia eu me estender satisfeito num leito de preguiça,
Que tudo termine imediatamente para mim!
Se algum dia puderes lisonjear-me com mentiras
Até que eu me agrade a mim próprio,
Se puderes enganar-me com o prazer,
Que esse seja meu último dia!

Proponho a aposta!

MEFISTÓFELES

Fechado!

FAUSTO

E mão sobre mão!
Se eu disser ao instante:

“Permanece! És tão belo!”

Então poderás prender-me em correntes,
Então aceitarei de bom grado perecer!
Então poderá soar o sino dos mortos,
E estarás livre de teu serviço.
Poderá parar o relógio, cair o ponteiro,
E o tempo terá terminado para mim!

MEFISTÓFELES

Pensa bem; não esqueceremos isso.

FAUSTO

Tens pleno direito.
Não me entreguei a uma arrogância criminosa.
Quando eu parar, serei escravo,
Teu ou de quem quer que seja, que me importa?

MEFISTÓFELES

Ainda hoje, no banquete dos doutores,
Cumprirei meu dever como servo.
Apenas uma coisa: por causa da vida ou da morte,
Peço-te algumas linhas por escrito.

FAUSTO

Também exiges algo escrito, pedante?
Nunca conheceste um homem, nem a palavra de um homem?
Não basta que minha palavra pronunciada
Disponha para sempre de meus dias?

O mundo não se precipita em todas as correntes,
E uma promessa deveria deter justamente a mim?
Contudo, essa ilusão está entranhada em nosso coração;
Quem se libertaria dela de bom grado?

Feliz aquele que guarda pura fidelidade no peito;
Sacrifício algum jamais lhe causará arrependimento.
Mas um pergaminho escrito e selado
É um fantasma diante do qual todos se apavoram.

A palavra já morre sob a pena;
Cera e couro assumem o domínio.
O que desejas de mim, espírito maligno?
Bronze, mármore, pergaminho, papel?
Devo escrever com estilete, cinzel ou pena?
Deixo-te escolher livremente.

MEFISTÓFELES

Como podes exagerar tua eloquência
Com tamanho ardor e tanta veemência?
Qualquer folhinha será suficiente.
Assinarás com uma gota de sangue.

FAUSTO

Se isso te satisfaz por completo,
Que permaneça essa farsa.

MEFISTÓFELES

O sangue é um fluido muito especial.

FAUSTO

Não temas que eu rompa esta aliança!
O esforço de todas as minhas forças
É precisamente aquilo que prometo.

Elevei-me alto demais;
Agora pertenço apenas à tua esfera.
O grande Espírito me desprezou,
E a natureza se fecha diante de mim.

Rompeu-se o fio do pensamento;
Há muito todo conhecimento me causa repugnância.
Deixa-nos, nas profundezas da sensualidade,
Saciar paixões ardentes!

Que, sob véus mágicos impenetráveis,
Todo prodígio esteja imediatamente pronto!
Lancemo-nos ao estrondo do tempo,
Ao turbilhão dos acontecimentos!

Que dor e prazer,
Êxito e frustração
Alternem-se como puderem.
Só na atividade incessante se revela o homem.

MEFISTÓFELES

Não vos foi estabelecida medida nem limite.
Se vos agrada provar um pouco de tudo
E apanhar em fuga alguma coisa,
Que vos faça bem aquilo que vos deleita.

Apenas tomai o que vos ofereço
E não sejais acanhado!

FAUSTO

Já ouviste: não se trata de alegria.
Consagro-me ao delírio, ao mais doloroso prazer,
Ao ódio enamorado, à repugnância que revigora.

Meu peito, curado da ânsia de saber,
Não se fechará de agora em diante a dor alguma.
Tudo quanto foi destinado à humanidade
Quero experimentar em meu próprio íntimo.

Com meu espírito, desejo alcançar o mais alto e o mais baixo,
Acumular em meu peito seu bem e seu sofrimento,
Expandir meu próprio ser até abranger o ser de todos
E, como a humanidade, também eu naufragar no fim.

MEFISTÓFELES

Oh, acredita em mim, que há tantos milhares de anos
Mastigo esse alimento tão duro:
Do berço até o esquife,
Homem algum digere o velho fermento!

Acredita em alguém como eu: esta totalidade
Foi feita apenas para um deus.
Ele vive em esplendor eterno;
A nós lançou nas trevas,
E para vós servem somente dia e noite.

FAUSTO

Mas eu quero!

MEFISTÓFELES

Isso se pode ouvir!
Só uma coisa me causa receio:
O tempo é breve, a arte é longa.

Eu pensaria que deveríeis aceitar instrução.
Associai-vos a um poeta;
Deixai que o senhor vagueie em pensamento
E acumule sobre vossa honrada cabeça
Todas as qualidades nobres:

A coragem do leão,
A rapidez do cervo,
O sangue ardente do italiano,
A perseverança do norte.

Que ele descubra para vós o segredo
De unir magnanimidade e astúcia
E, com impulsos cálidos da juventude,
Apaixonar-vos segundo um plano.

Eu próprio gostaria de conhecer semelhante senhor;
Chamaria a ele senhor Microcosmo.

FAUSTO

O que sou, então, se não me é possível
Conquistar a coroa da humanidade,
Para a qual todos os meus sentidos se lançam?

MEFISTÓFELES

No fim, és aquilo que és.
Põe perucas com milhões de cachos,
Calça sapatos de uma vara de altura:
Permanecerás sempre aquilo que és.

FAUSTO

Eu o sinto. Em vão reuni sobre mim
Todos os tesouros do espírito humano;
E, quando por fim me sento,
Nenhuma força nova jorra dentro de mim.

Não cresci sequer a largura de um fio de cabelo,
Não estou mais próximo do infinito.

MEFISTÓFELES

Meu bom senhor, vedes as coisas
Como habitualmente se costuma vê-las.
Precisamos agir com maior esperteza
Antes que a alegria da vida nos escape.

Que diabos! É verdade que mãos e pés,
Cabeça e traseiro pertencem a ti;
Mas tudo aquilo que desfruto com frescor
Seria por isso menos meu?

Se posso pagar por seis garanhões,
Não são minhas as forças deles?
Corro adiante e sou um verdadeiro homem,
Como se possuísse vinte e quatro pernas.

Portanto, coragem! Abandona todo pensamento
E lança-te diretamente ao mundo!

Digo-te: um sujeito que especula
É como um animal conduzido em círculos,
Por um espírito maligno, numa charneca ressequida,
Enquanto ao redor se estendem belos pastos verdes.

FAUSTO

Como começaremos?

MEFISTÓFELES

Partiremos imediatamente.
Que lugar de tortura é este?
Que espécie de vida é essa,
Entediar a ti mesmo e aos rapazes?

Deixa isso para o senhor vizinho Barrigudo!
Por que te atormentas debulhando palha?
Aquilo que tens de melhor para ensinar
Não podes revelar aos garotos.

Já ouço um deles no corredor!

FAUSTO

Não me é possível vê-lo.

MEFISTÓFELES

O pobre rapaz espera há muito tempo;
Não deve partir sem algum consolo.
Vem, entrega-me teu casaco e teu gorro;
O disfarce deve assentar-me admiravelmente.

Troca de roupa.

Agora deixa tudo a cargo de meu engenho!
Preciso apenas de um quarto de hora.
Enquanto isso, prepara-te para a bela viagem!

Fausto sai.

MEFISTÓFELES
Vestindo a longa roupa de Fausto.

Despreza apenas a razão e a ciência,
A mais elevada força dos homens;
Deixa que o espírito da mentira
Te fortaleça em ilusões e feitiçarias,
E já te possuo sem condição alguma.

O destino lhe concedeu um espírito
Que, indomável, avança sempre para a frente,
E cuja aspiração precipitada
Salta por cima das alegrias da terra.

Eu o arrastarei pela vida selvagem,
Por uma insignificância rasa e vazia.
Ele há de contorcer-se, estacar, agarrar-se;
E diante de sua insaciabilidade
Comida e bebida pairarão
Junto aos lábios ávidos.

Em vão suplicará por alívio;
E, mesmo que não tivesse se entregado ao diabo,
Ainda assim teria de perecer!

Entra um estudante.

ESTUDANTE

Estou aqui há pouco tempo
E venho cheio de reverência
Para falar e conhecer um homem
Cujo nome todos pronunciam com respeito.

MEFISTÓFELES

Vossa cortesia muito me alegra!
Vedes diante de vós um homem como tantos outros.
Já procurastes informar-vos por aqui?

ESTUDANTE

Peço-vos que cuideis de mim!
Venho cheio de boa vontade,
Com algum dinheiro e sangue jovem;
Minha mãe mal consentiu que eu partisse.
Gostaria de aprender aqui algo que valha a pena.

MEFISTÓFELES

Então viestes ao lugar exato.

ESTUDANTE

Para dizer a verdade, já gostaria de partir.
Estas paredes, estes salões,
De modo algum me agradam.
O espaço é estreito demais,
Não se vê nada verde, nenhuma árvore;
E, nas salas, sentado nos bancos,
Perco a audição, a visão e o pensamento.

MEFISTÓFELES

É apenas questão de hábito.
Também uma criança, no princípio,
Não toma de bom grado o seio materno;
Mas logo se alimenta dele com prazer.
Assim também os seios da sabedoria
A cada dia vos despertarão maior desejo.

ESTUDANTE

Com alegria me pendurarei em seu pescoço;
Dizei-me apenas como posso alcançá-los.

MEFISTÓFELES

Antes de prosseguirdes, explicai-vos:
Que faculdade pretendeis escolher?

ESTUDANTE

Desejaria tornar-me verdadeiramente erudito
E gostaria de compreender tudo quanto existe
Sobre a terra e no céu,
A ciência e a natureza.

MEFISTÓFELES

Estais no caminho certo;
Mas não deveis permitir que vos distraiam.

ESTUDANTE

Entrego-me a isso de corpo e alma;
Embora, é verdade, também me agradassem
Um pouco de liberdade e algum divertimento
Nos belos feriados de verão.

MEFISTÓFELES

Aproveitai o tempo, ele passa depressa;
Mas a ordem vos ensinará a ganhá-lo.
Meu caro amigo, por isso vos aconselho
A começar pelo Collegium Logicum.

Ali vosso espírito será bem adestrado,
Enfiado em botas espanholas,
Para que, daí em diante, avance com cautela
E se arraste pela estrada do pensamento,
Sem vagar, como fogo-fátuo,
De um lado para outro, em todas as direções.

Então vos ensinarão durante muitos dias
Que, para aquilo que antes fazíeis de uma vez,
Como comer e beber livremente,
É preciso contar: um, dois, três!

É verdade que a fábrica do pensamento
Se assemelha a uma obra-prima de tecelagem:
Um só movimento põe mil fios em ação,
As lançadeiras disparam de um lado para outro,
Os fios correm sem serem vistos,
E um único golpe cria mil conexões.

Então entra o filósofo
E vos demonstra que tudo tem de ser assim:
O primeiro é deste modo, o segundo daquele,
E por isso o terceiro e o quarto também;
E, se o primeiro e o segundo não existissem,
O terceiro e o quarto jamais poderiam existir.

Os estudantes de toda parte louvam isso,
Mas nenhum deles se tornou tecelão.

Quem deseja conhecer e descrever algo vivo
Procura primeiro expulsar-lhe o espírito;
Depois tem as partes nas mãos,
Mas falta, infelizmente, o vínculo espiritual.

A química chama isso de Encheiresin naturae,
Zomba de si mesma e nem percebe como.

ESTUDANTE

Não consigo compreender-vos inteiramente.

MEFISTÓFELES

Da próxima vez tudo ficará mais claro,
Quando aprenderdes a reduzir cada coisa
E a classificá-la devidamente.

ESTUDANTE

Tudo isso me deixa tão atordoado
Como se uma roda de moinho girasse em minha cabeça.

MEFISTÓFELES

Depois, antes de qualquer outra matéria,
Tereis de dedicar-vos à metafísica!
Ali tratai de compreender com profundidade
Aquilo que não cabe no cérebro humano.

Para o que entra e o que não entra nele,
Haverá sempre uma palavra magnífica à disposição.

Mas, antes de tudo, durante este primeiro semestre,
Observai rigorosamente a melhor ordem.
Tereis cinco horas de aula todos os dias;
Entrai ao primeiro toque do sino!

Preparai-vos muito bem de antemão,
Estudai cuidadosamente cada parágrafo,
Para que depois possais perceber com maior clareza
Que o professor nada diz além do que está no livro.

Mas aplicai-vos seriamente a escrever,
Como se o próprio Espírito Santo vos ditasse!

ESTUDANTE

Não precisais dizer-me isso duas vezes!
Imagino como será proveitoso;
Pois aquilo que se possui preto no branco
Pode ser levado para casa com toda a segurança.

MEFISTÓFELES

Agora escolhei uma faculdade!

ESTUDANTE

Não consigo decidir-me pelo estudo do Direito.

MEFISTÓFELES

Não posso censurar-vos muito por isso;
Sei perfeitamente em que estado se encontra essa doutrina.

Leis e direitos transmitem-se
Como uma doença eterna;
Arrastam-se de geração em geração
E deslizam lentamente de um lugar para outro.

A razão transforma-se em absurdo,
O benefício, em tormento.
Ai de ti, porque és descendente!

Quanto ao direito que nasceu conosco,
Desse, infelizmente, nunca se fala.

ESTUDANTE

Meu horror aumenta com o que dizeis.
Feliz daquele que recebe vossos ensinamentos!
Agora quase desejaria estudar Teologia.

MEFISTÓFELES

Não gostaria de conduzir-vos ao erro.

Quanto a essa ciência,
É muito difícil evitar o caminho falso;
Há nela tanto veneno oculto
Que mal se pode distingui-lo do remédio.

Também aqui, o melhor é ouvir apenas um mestre
E jurar fidelidade às palavras dele.

Em suma, apegai-vos às palavras!
Assim atravessareis a porta segura
E entrareis no templo da certeza.

ESTUDANTE

Mas a palavra deve conter um conceito.

MEFISTÓFELES

Muito bem! Apenas não se deve atormentar-se em excesso,
Pois justamente onde faltam conceitos
Surge uma palavra no momento oportuno.

Com palavras pode-se discutir admiravelmente,
Com palavras construir um sistema,
Em palavras pode-se acreditar com excelência,
E de uma palavra não se pode retirar sequer um jota.

ESTUDANTE

Perdoai-me por deter-vos com tantas perguntas,
Mas preciso importunar-vos ainda mais.
Não poderíeis dizer-me também
Alguma palavra vigorosa sobre a Medicina?

Três anos são um tempo muito curto,
E, meu Deus, o campo é vasto demais.
Quando se recebe ao menos uma indicação,
É mais fácil encontrar o caminho adiante.

MEFISTÓFELES
À parte.

Já estou farto deste tom ressequido;
Preciso voltar a representar o diabo de verdade.

Em voz alta.

O espírito da Medicina é fácil de compreender:
Estudais por completo o grande e o pequeno mundo
Para, no fim, deixar que tudo aconteça
Conforme agrada a Deus.

Em vão percorreis cientificamente todos os lados;
Cada qual aprende apenas aquilo que pode aprender.
Mas quem sabe agarrar o instante
Esse é o homem verdadeiro.

Tendes uma constituição bastante boa,
E também não vos faltará ousadia;
Se apenas confiardes em vós mesmo,
As outras almas confiarão em vós.

Aprendei sobretudo a conduzir as mulheres.
Seu eterno ai e lamento,
Tão múltiplo em suas formas,
Deve ser curado sempre a partir de um único ponto.

E, se vos comportardes com alguma decência,
Logo as tereis todas sob controle.
Primeiro, um título deve inspirar-lhes confiança,
Mostrando que vossa arte supera muitas outras artes.

Como saudação, tocais então sem cerimônia
Tudo aquilo em torno do qual outro homem
Rondaria por muitos anos.

Sabei apertar corretamente o pequeno pulso
E, com olhar ardente e astuto,
Abraçai sem receio a cintura esbelta
Para verificar se está bem apertada pelo espartilho.

ESTUDANTE

Isso já parece muito melhor! Agora se vê onde e como.

MEFISTÓFELES

Cinzenta, meu caro amigo, é toda teoria,
E verde é a árvore dourada da vida.

ESTUDANTE

Juro-vos, tudo me parece um sonho.
Poderia importunar-vos novamente noutra ocasião
Para ouvir de modo mais profundo vossa sabedoria?

MEFISTÓFELES

Aquilo que estiver ao meu alcance
Será feito de bom grado.

ESTUDANTE

É impossível que eu vá embora agora;
Preciso ainda entregar-vos meu álbum.
Concedei-me este sinal de vossa benevolência!

MEFISTÓFELES

Com muito prazer.

Escreve e devolve o álbum.

ESTUDANTE
Lê.

Eritis sicut Deus, scientes bonum et malum.

Fecha-o com reverência e despede-se.

MEFISTÓFELES

Segue apenas o antigo ditado e minha tia, a serpente;
Um dia, tua semelhança com Deus certamente te causará pavor!

Fausto entra.

FAUSTO

Para onde iremos agora?

MEFISTÓFELES

Para onde te agradar.
Veremos primeiro o pequeno mundo, depois o grande.
Com quanta alegria e quanto proveito
Hás de devorar este curso até o fim!

FAUSTO

Mas, com minha longa barba,
Falta-me a leveza própria da vida mundana.
A experiência não será bem-sucedida;
Nunca soube comportar-me no mundo.

Diante dos outros, sinto-me tão pequeno;
Estarei sempre embaraçado.

MEFISTÓFELES

Meu bom amigo, tudo isso há de passar.
Assim que confiares em ti, saberás viver.

FAUSTO

Como sairemos da casa?
Onde tens cavalos, criado e carruagem?

MEFISTÓFELES

Basta estendermos o manto,
E ele nos levará através dos ares.
Nesta ousada jornada,
Não tragas contigo grande bagagem.

Um pouco de ar de fogo, que prepararei,
Nos erguerá rapidamente da terra.
E, sendo leves, subiremos depressa.

Felicito-te por teu novo curso de vida!

Fausto

Sinopse

Edição integral de Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe, reunindo a Primeira e a Segunda Parte em tradução brasileira Literunico feita diretamente dos textos alemães de domínio público do Project Gutenberg (eBooks 2229 e 2230).

Ver ficha da edição física
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Fausto

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