Universo da obra
Universo da obra
HELENA:
Muito admirada e muito censurada, Helena,
Venho da praia onde acabamos de aportar,
Ainda ébria do incessante balançar
Das ondas, que dos campos rasos da Frígia
Sobre dorsos eriçados e altaneiros, pelo favor
De Posêidon e a força de Euro, nos trouxeram
Às enseadas da pátria.
Lá embaixo, o rei Menelau agora se alegra
Com o regresso e com seus mais valentes guerreiros.
Tu, porém, acolhe-me, casa elevada,
Que Tíndaro, meu pai, junto à encosta,
Ao voltar da colina de Palas, edificou,
E que, enquanto eu aqui crescia, irmã de Clitemnestra,
Brincando alegremente com Castor e Pólux,
Ele adornou com esplendor acima de todas as casas de Esparta.
Eu vos saúdo, folhas do portão de bronze!
Foi por vos abrirdes outrora, largas e hospitaleiras,
Que Menelau, escolhido entre tantos,
Resplandeceu diante de mim como noivo.
Abri-vos novamente, para que eu cumpra fiel
A ordem urgente do rei, como convém à esposa.
Deixai-me entrar! E fique atrás de mim
Tudo o que, fatalmente, me lançou até aqui de tormento em tormento.
Pois desde que, despreocupada, deixei este limiar
Para visitar o templo de Citereia, conforme o santo dever,
E ali me arrebatou um raptor frígio,
Muito aconteceu, coisas que os homens por toda parte
Tanto gostam de contar, mas que não gosta de ouvir
Aquela em torno de quem a narrativa, sempre crescendo,
Transformou-se em lenda.
CORO:
Não desprezes, ó mulher magnífica,
A honra de possuir o bem supremo!
Pois somente a ti foi concedida a maior ventura:
A fama da beleza, que acima de todas se eleva.
O nome do herói ressoa à sua frente,
E por isso ele avança orgulhoso;
Mas até o homem mais obstinado inclina de imediato
O espírito diante da beleza que tudo subjuga.
HELENA:
Basta! Com meu esposo atravessei o mar
E agora por ele fui enviada à frente, à sua cidade;
Mas não adivinho que intenção ele guarda.
Venho como esposa? Venho como rainha?
Venho como vítima para a amarga dor do príncipe
E para a desgraça por tanto tempo suportada pelos gregos?
Fui conquistada; se sou prisioneira, não sei!
Pois fama e destino, na verdade, os imortais
Designaram-me ambíguos companheiros,
Perigosos à bela forma, e até neste limiar
Permanecem ao meu lado com sombria e ameaçadora atualidade.
Já no bojo do navio meu esposo
Raramente me dirigia o olhar, nem dizia palavra confortadora.
Como se tramasse uma desgraça, sentava-se diante de mim.
Mas agora, quando entramos na profunda enseada do Eurotas,
Mal as proas dos primeiros navios
Saudaram a terra, ele falou, como movido por um deus:
“Aqui desembarcam meus guerreiros, segundo a ordem;
Eu os passarei em revista, alinhados à beira-mar.
Tu, porém, segue adiante, sempre adiante pela margem
Fértil do sagrado Eurotas,
Conduzindo os cavalos pelo ornamento dos prados úmidos,
Até chegares à bela planície
Onde se ergue a cultivada Lacedemônia,
Outrora vasto campo fértil,
Cercada de perto por montanhas severas.
Entra então no palácio de altas torres
E passa em revista as servas que ali deixei,
Juntamente com a velha e prudente intendente.
Que ela te mostre a rica coleção de tesouros,
Tal como teu pai a deixou e como eu mesmo,
Na guerra e na paz, sempre aumentando-a, acumulei.
Encontrarás tudo disposto em sua ordem;
Pois é privilégio do príncipe, quando retorna,
Encontrar fielmente em sua casa todas as coisas,
Cada qual ainda no lugar em que a deixou.
O servo não tem poder para mudar coisa alguma
Por vontade própria.”
CORO:
Reanima agora os olhos e o peito
Diante do magnífico tesouro, sempre aumentado!
Pois o adorno dos colares, o esplendor da coroa,
Ali repousam orgulhosos, julgando-se importantes;
Mas entra apenas e chama-os a teu serviço,
E depressa estarão preparados.
Agrada-me contemplar a beleza em combate
Contra ouro, pérolas e pedras preciosas.
HELENA:
Em seguida, o senhor prosseguiu com sua ordem soberana:
“Quando houveres examinado tudo em sua ordem,
Toma tantos trípodes quantos julgares necessários
E toda espécie de vasos que o sacrifício
Exige ao alcance da mão, ao cumprir o sagrado costume da festa.
Os caldeirões, também as taças e os pratos rasos;
Que a água mais pura da fonte sagrada
Esteja em altas jarras; e também a lenha seca,
Que prontamente recebe a chama, deixa preparada;
Por fim, não falte uma faca bem afiada;
Mas todo o restante confio aos teus cuidados.”
Assim falou, apressando minha partida; mas aquele
Que dava as ordens não indicou nenhum ser de hálito vivo
Que pretenda imolar em honra dos olímpicos.
É inquietante; contudo, não me preocuparei mais,
E tudo ficará entregue aos deuses superiores,
Que realizam aquilo que em seu pensamento lhes parece devido,
Seja considerado bom pelos homens,
Seja considerado mau; nós, mortais, suportamos.
Muitas vezes já o sacrificador ergueu o pesado machado,
Consagrando-o sobre a nuca do animal curvado para a terra,
E não pôde consumar o golpe, pois o impediu
A intervenção de um inimigo próximo ou de um deus.
CORO:
O que há de acontecer, não tentes imaginar;
Rainha, segue adiante
Com bom ânimo!
O bem e o mal chegam
Inesperadamente ao homem;
Mesmo anunciados, não acreditamos.
Troia não ardeu diante de nós?
Não vimos a morte,
A morte vergonhosa, diante dos olhos?
E não estamos aqui,
Reunidas a ti, servindo com alegria,
Contemplando o sol fulgurante do céu
E, benevolente, a mais bela
De todas as coisas da terra, tu,
Para felicidade nossa?
HELENA:
Seja como for! Diante de tudo o que possa vir,
Cumpre-me subir sem demora ao palácio real,
Que, por tanto tempo perdido, tão ansiado e quase desperdiçado,
Surge outra vez diante dos meus olhos, não sei como.
Meus pés já não me levam com tanta coragem
Pelos altos degraus que em criança eu saltava.
CORO:
Lançai para longe, ó irmãs,
Vós, tristemente aprisionadas,
Todas as dores;
Partilhai a ventura da senhora,
Partilhai a ventura de Helena,
Que do lar paterno
Se aproxima jubilosa,
Embora com passo tardio,
Agora tanto mais firme.
Louvai os deuses sagrados
Que restauram a felicidade
E conduzem de volta ao lar!
Pois aquele que foi libertado
Flutua como sobre asas
Acima das asperezas,
Enquanto em vão o prisioneiro,
Cheio de desejo,
Por sobre as ameias do cárcere
Definha, estendendo os braços.
Mas um deus a tomou,
A ela, a distante,
E dos escombros de Ílion
Trouxe-a de volta até aqui,
À antiga casa paterna,
Agora novamente adornada,
Para que, depois de indizíveis
Alegrias e tormentos,
Recorde, renovada,
Os dias da primeira juventude.
PANTHALIS:
Deixai agora a senda do canto cercada de alegria
E voltai os olhos para as folhas da porta!
Que vejo, irmãs? Não retorna a rainha
Para junto de nós com passos impetuosos?
Que houve, grande rainha? Que coisa perturbadora
Pôde encontrar-te nos salões de tua casa,
Em vez da saudação dos teus? Não o ocultas;
Pois vejo aversão em tua fronte,
Uma cólera nobre que luta contra o assombro.
HELENA:
À filha de Zeus não convém o medo vulgar,
Nem a toca a mão ligeira e fugaz do susto;
Mas o horror que, emergindo desde o princípio
Do seio da antiga Noite, ainda multiforme,
Como nuvens incandescentes da garganta ígnea de um monte,
Revolve-se para o alto, abala também o peito do herói.
De modo tão aterrador assinalaram hoje
As potências estígias minha entrada na casa
Que eu de bom grado me afastaria
Do limiar tantas vezes transposto e há tanto desejado,
Como hóspede a quem se concedeu partir.
Mas não! Recuei para a luz, e não deveis
Impelir-me mais longe, potências, quem quer que sejais.
Cuidarei de uma purificação; então, purificada,
A chama do lar poderá saudar a mulher como ao senhor.
CORIFEU:
Revela às tuas servas, nobre senhora,
Que te assistem reverentes, o que aconteceu.
HELENA:
O que vi, vós mesmas vereis com os próprios olhos,
Se a antiga Noite não houver tragado de imediato
Aquela figura de volta ao seio prodigioso de suas profundezas.
Mas, para que o saibais, vou anunciá-lo em palavras:
Quando entrei solenemente no austero interior
Do palácio real, pensando no dever imediato,
Admirei-me com o silêncio dos corredores desertos.
Nenhum ruído de passos diligentes chegou
Aos meus ouvidos, nenhuma pressa atarefada aos meus olhos;
Não apareceu serva alguma, intendente alguma,
Daquelas que outrora saudavam afavelmente todo estrangeiro.
Quando, porém, me aproximei do centro do lar,
Vi, junto ao resíduo morno das cinzas apagadas,
Sentada no chão, uma grande mulher envolta em véus,
Não semelhante a quem dorme, mas a quem medita.
Com voz de mando ordenei-lhe que trabalhasse,
Tomando-a pela intendente que talvez
A prudência de meu esposo houvesse deixado encarregada;
Mas, toda encolhida, permanece imóvel.
Somente depois, diante de minha ameaça, ergue o braço direito,
Como se quisesse afastar-me do lar e do salão.
Volto-lhe as costas, indignada, e corro logo
Para os degraus pelos quais se sobe ao tálamo,
Ricamente adornado, e, perto dele, à câmara do tesouro;
Mas o prodígio ergue-se depressa do chão,
Interpõe-se imperioso em meu caminho e se mostra
Em sua altura descarnada, com olhos fundos,
Turvos de sangue, de forma tão estranha
Que confunde a vista e o espírito.
Mas falo ao ar; pois a palavra se esforça
Em vão por recriar formas.
Vede-a vós mesmas! Ela ousa até vir à luz!
Aqui somos senhoras, até que chegue o senhor e rei.
Febo, amigo da beleza, repele
As horrendas criaturas da noite para as cavernas,
Ou então as subjuga.
CORO:
Muito vivi, embora os cachos
Ainda ondeiem juvenis em minhas têmporas!
Muitas coisas terríveis contemplei:
A aflição da guerra, a noite de Ílion,
Quando ela caiu.
Através do estrondo envolto em nuvens e poeira
Dos guerreiros que avançavam, ouvi os deuses
Gritarem terrivelmente; ouvi a voz
De bronze da Discórdia ressoar pelo campo,
Rumo às muralhas.
Ah! Ainda estavam de pé
As muralhas de Ílion, mas o ardor das chamas
Já passava de vizinho a vizinho,
Espalhando-se daqui e dali
Com o sopro de sua própria tempestade
Sobre a cidade noturna.
Fugindo através da fumaça e do fogo,
E do clarão das chamas que se alongavam,
Vi aproximarem-se deuses furiosamente irados,
Figuras prodigiosas avançando,
Gigantescas, através da sombria
Fumaça iluminada pelo incêndio.
Eu o vi, ou meu espírito,
Enlaçado pela angústia,
Imaginou tamanha confusão?
Jamais poderei dizê-lo;
Mas que agora vejo com os olhos
Esta criatura horrenda,
Disso tenho plena certeza.
Poderia até tocá-la com as mãos,
Se o medo não me detivesse
Diante do perigo.
Qual das filhas
De Fórcis és tu?
Pois é a essa raça
Que te comparo.
És talvez uma das Greias
Nascidas já grisalhas,
Que partilhavam alternadamente
Um único olho e um único dente?
Ousas, monstro,
Mostrar-te ao lado da beleza,
Diante do olhar conhecedor
De Febo?
Avança, porém, quanto quiseres;
Pois ele não contempla o feio,
Assim como seus olhos sagrados
Jamais viram a sombra.
Mas a nós, mortais, ai de nós,
A triste desventura obriga
A sofrer a indizível dor dos olhos
Que o repulsivo, o eternamente funesto,
Provoca naqueles que amam a beleza.
Sim, ouve agora, se ousas
Enfrentar-nos com insolência;
Ouve a maldição, ouve o estrondo
De todos os insultos
Da boca execradora das afortunadas,
Formadas pelos deuses.
FÓRCIAS:
Antiga é a sentença, mas elevado e verdadeiro permanece seu sentido:
Que o pudor e a beleza jamais, de mãos dadas,
Percorrem juntos a verde senda da terra.
Profundamente enraizado, habita em ambos um ódio ancestral,
De modo que, onde quer que no caminho se encontrem,
Cada qual volta as costas à adversária.
Depois, ambas se apressam outra vez, cada vez mais violentas e distantes:
O pudor, entristecido; a beleza, de espírito insolente,
Até que por fim a noite vazia do Orco as envolva,
Se antes disso a velhice não as houver domado.
Agora vos encontro, insolentes vindas de terras estrangeiras,
Derramadas aqui com arrogância, semelhantes à migração
De grous que, rouca e estridente,
Estende-se como longa nuvem sobre nossas cabeças,
Lançando para baixo seu grasnido,
Que induz o caminhante silencioso
A erguer os olhos; mas eles seguem o próprio rumo,
E ele, o seu. Assim também acontecerá conosco.
Quem sois vós para rodeardes o alto palácio do rei,
Selvagens como mênades, como bêbadas?
Quem sois vós para uivardes contra a intendente da casa
Como uma matilha de cães contra a lua?
Pensais que me é desconhecida a raça a que pertenceis,
Jovem ninhada gerada pela guerra e criada entre matanças?
Ávidas por homens, seduzidas e sedutoras,
Enfraquecendo a força tanto dos guerreiros como dos cidadãos!
Ao ver-vos amontoadas, parece-me que um enxame de cigarras
Despenca sobre a plantação verdejante dos campos.
Devoradoras do trabalho alheio!
Gulosas destruidoras da prosperidade recém-brotada!
Mercadoria conquistada, vendida no mercado e trocada!
HELENA:
Quem, diante da senhora, insulta suas servas
Atenta com insolência contra a autoridade da dona da casa;
Pois somente a ela cabe louvar
O que é digno de louvor e punir o que é censurável.
Também estou plenamente satisfeita com o serviço
Que elas me prestaram quando o elevado poder de Ílion
Foi cercado, caiu e permaneceu em ruínas;
E não menos quando suportamos
As dolorosas vicissitudes de nossa errância,
Em que, de costume, cada qual pensa primeiro em si.
Também aqui espero o mesmo desta animada companhia;
O senhor não pergunta o que é o servo, mas como ele serve.
Portanto, cala-te e não lhes arreganhes mais os dentes.
Se até agora guardaste bem a casa do rei
No lugar da senhora, isso te honra;
Mas agora ela própria retorna. Recua,
Para que a punição não substitua a recompensa merecida.
FÓRCIAS:
Ameaçar os membros da casa continua sendo um grande direito
Que a elevada esposa do soberano favorecido pelos deuses
Bem mereceu por sua sábia direção ao longo dos anos.
Já que tu, agora reconhecida, voltas a ocupar
O antigo lugar de rainha e senhora da casa,
Empunha as rédeas há tanto afrouxadas, governa agora,
Toma posse do tesouro e, junto com ele, de todas nós.
Mas, acima de tudo, protege a mim, a mais velha,
Desta companhia, que, ao lado do cisne de tua beleza,
Não passa de um bando de gansos mal emplumados e grasnadores.
CORIFEU:
Como é feia a feiura ao lado da beleza!
FÓRCIAS:
Como é insensata a insensatez ao lado da sabedoria!
COREUTA 1:
Fala-nos de teu pai Érebo, fala-nos de tua mãe Noite.
FÓRCIAS:
Então fala tu de Cila, tua irmã de sangue.
COREUTA 2:
Em tua árvore genealógica elevam-se muitos monstros.
FÓRCIAS:
Vai para o Orco! Procura lá tua parentela.
COREUTA 3:
Os que lá habitam são todos jovens demais para ti.
FÓRCIAS:
Vai cortejar o velho Tirésias.
COREUTA 4:
A ama de Órion foi tua trineta.
FÓRCIAS:
Creio que as harpias te criaram alimentando-te de imundície.
COREUTA 5:
Com que alimentas essa magreza tão bem cuidada?
FÓRCIAS:
Não com sangue, pelo qual és demasiadamente ávida.
COREUTA 6:
Tu, cobiçosa de cadáveres, cadáver repugnante!
FÓRCIAS:
Dentes de vampiro brilham em tua boca insolente.
CORIFEU:
Eu te taparei essa boca, se disser quem és.
FÓRCIAS:
Diz primeiro quem tu és; então o enigma se resolverá.
HELENA:
Não com cólera, mas com tristeza, coloco-me entre vós,
Proibindo a violência dessa troca de insultos!
Pois nada sucede mais nocivo ao senhor soberano
Que a discórdia secretamente jurada entre servos fiéis.
O eco de suas ordens já não lhe retorna
Harmonioso em feitos prontamente cumpridos;
Não, bramindo por vontade própria, ruge ao redor dele,
Que, perdido em si mesmo, repreende em vão.
E não apenas isso. Em vossa ira desmedida,
Evocastes figuras aterradoras de imagens funestas
Que me cercam, de modo que eu própria me sinto
Arrastada para o Orco, apesar dos campos de minha pátria.
É lembrança? Foi uma ilusão que me tomou?
Fui tudo aquilo? Sou ainda? Voltarei a ser,
No futuro, a imagem onírica e terrível
Daquela que destruiu cidades?
As jovens estremecem; mas tu, a mais velha,
Permaneces serena. Fala-me com sensatez.
FÓRCIAS:
Quem recorda a múltipla felicidade de longos anos
Acaba por julgar um sonho o mais alto favor dos deuses.
Tu, porém, favorecida para além de toda medida e limite,
Ao longo da vida viste apenas homens abrasados de amor,
Inflamados depressa para as mais audazes façanhas.
Já cedo Teseu te arrebatou, ávido e excitado,
Forte como Héracles, homem de magnífica beleza.
HELENA:
Raptou-me, esbelta corça de dez anos,
E a fortaleza de Afidna, na Ática, encerrou-me.
FÓRCIAS:
Mas, logo libertada por Castor e Pólux,
Foste cortejada por uma seleta multidão de heróis.
HELENA:
Contudo, acima de todos, como de bom grado confesso,
Pátroclo conquistou meu secreto favor,
Ele, a imagem do Pelida.
FÓRCIAS:
Mas a vontade de teu pai desposou-te com Menelau,
O audaz navegante dos mares e também guardião da casa.
HELENA:
Deu-lhe a filha e entregou-lhe o governo do reino.
Da união conjugal nasceu então Hermíone.
FÓRCIAS:
Mas, enquanto ele, longe, conquistava com audácia
A herança de Creta, apareceu diante de ti, solitária,
Um hóspede belo em excesso.
HELENA:
Por que recordas aquela meia viuvez
E a terrível desgraça que dela nasceu para mim?
FÓRCIAS:
Também aquela viagem criou para mim,
Cretense nascida livre, o cativeiro
E uma longa escravidão.
HELENA:
Ele te designou imediatamente intendente daqui,
Confiando-te muitas coisas, a fortaleza
E o tesouro adquirido com ousadia.
FÓRCIAS:
Tudo o que abandonaste, voltando-te
Para a cidade de Ílion cercada de torres
E para inesgotáveis delícias amorosas.
HELENA:
Não recordes as delícias! Uma infinidade
De amarguíssimos sofrimentos derramou-se
Sobre meu peito e minha cabeça.
FÓRCIAS:
No entanto, dizem que apareceste como figura duplicada,
Vista em Ílion e também no Egito.
HELENA:
Não confundas de todo o espírito já desordenado
Com tamanho delírio absurdo.
Mesmo agora, qual delas sou, eu não sei.
FÓRCIAS:
Dizem ainda que, subindo do vazio reino das sombras,
Aquiles, inflamado, uniu-se a ti!
Ele, que já te amava, contra toda decisão do destino.
HELENA:
Eu, como imagem, uni-me a ele, também imagem.
Foi um sonho, assim o dizem as próprias palavras.
Desvaneço-me e torno-me imagem para mim mesma.
CORO:
Cala-te, cala-te!
Tu, que olhas e falas para o mal!
De lábios tão horrendos,
Armados de um único dente,
Que hálito poderá sair
De tão terrível garganta de abominação?
Pois o maligno que se apresenta benévolo,
Com fúria de lobo sob lã de cordeiro,
É para mim muito mais terrível
Que as fauces do cão de três cabeças.
Permanecemos aqui, escutando angustiadas:
Quando, como e onde irromperá
O monstro de tamanha perfídia,
À espreita nas profundezas?
Agora, em vez de palavras afáveis,
Ricas em consolo, donas do dom de Lete,
Doces e terníssimas,
Despertas de todo o passado
Mais o que houve de mau que de bom
E obscureces, juntamente
Com o esplendor do presente,
Também a luz da esperança futura,
Que começava a brilhar suavemente.
Cala-te, cala-te!
Para que a alma da rainha,
Já prestes a fugir,
Ainda se conserve e retenha
A forma de todas as formas
Que o sol jamais iluminou.
FÓRCIAS:
Surge das nuvens fugazes, elevado sol deste dia,
Que já encantavas velado e agora, fulgurante, reinas em teu esplendor.
Enquanto o mundo se desdobra diante de ti, tu mesma o contemplas com olhar benigno.
Ainda que me insultem por ser feia, conheço muito bem a beleza.
HELENA:
Saio vacilante do deserto que me envolvia em vertigem.
De bom grado tornaria a repousar, pois meus membros estão exaustos;
Mas convém às rainhas, como certamente convém a todos os homens,
Recobrar o domínio de si e fortalecer-se, seja qual for a ameaça inesperada.
FÓRCIAS:
Agora que estás diante de nós em tua grandeza e beleza,
Teu olhar diz que ordenas. Que ordenas? Declara-o.
HELENA:
Preparai-vos para reparar a insolente negligência de vossa disputa;
Apressai-vos a organizar um sacrifício, como o rei me ordenou.
FÓRCIAS:
Tudo está preparado na casa: taça, trípode, machado afiado,
Para aspergir e queimar o incenso. Indica a vítima!
HELENA:
O rei não a indicou.
FÓRCIAS:
Não o declarou? Ó palavra de desgraça!
HELENA:
Que desgraça te acomete?
FÓRCIAS:
Rainha, é a ti que ele se refere!
HELENA:
A mim?
FÓRCIAS:
E também a estas.
CORO:
Ai, que dor!
FÓRCIAS:
Cairás sob o machado.
HELENA:
Que horror, embora eu o pressentisse! Pobre de mim!
FÓRCIAS:
Parece-me inevitável.
CORO:
Ai! E a nós? O que nos acontecerá?
FÓRCIAS:
Ela morrerá uma morte nobre;
Mas vós, penduradas lá dentro na alta viga
Que sustenta o frontão do teto,
Debater-vos-eis uma após outra,
Como tordos apanhados numa armadilha.
As mulheres cercam Helena, aterrorizadas.
FÓRCIAS:
Espectros! Aí estais, como imagens petrificadas,
Aterrorizadas por terdes de abandonar o dia, que não vos pertence.
Os homens, todos eles espectros como vós,
Também não renunciam de boa vontade à sublime luz do sol;
Mas ninguém lhes suplica, ninguém os salva do fim.
Todos o sabem, embora a poucos isso agrade.
Basta, estais perdidas! Portanto, mãos à obra!
Para cá, tu, monstro sombrio, redondo como uma esfera!
Rolai até aqui, pois há oportunidade de causar danos à vontade.
Abri espaço para o altar portátil, de chifres dourados;
Que o machado repouse, reluzente, sobre a borda de prata.
Enchei as jarras de água, pois será preciso lavar
A horrenda mancha do sangue negro.
Estendei aqui sobre o pó o precioso tapete,
Para que a vítima se ajoelhe como rainha
E, logo envolvida nele, embora já separada da cabeça,
Seja ao menos sepultada com decência e dignidade.
CORIFEU:
A rainha permanece ali ao lado, mergulhada em pensamentos;
As jovens murcham como a relva recém-ceifada.
Mas a mim, a mais velha, parece-me conforme ao sagrado dever
Trocar algumas palavras contigo, ó antiquíssima.
És experiente e sábia, e pareces bem-disposta para conosco,
Embora esta companhia insensata, sem compreender-te, te tenha atacado.
Dize, portanto, que possibilidade de salvação ainda conheces.
FÓRCIAS:
É fácil dizê-lo: depende unicamente da rainha
Salvar a si mesma e, como acréscimo, salvar-vos com ela.
É necessária decisão, e a mais rápida.
CORO:
Venerabilíssima entre as Parcas, ó mais sábia das sibilas,
Mantém fechada a tesoura dourada e anuncia-nos então o dia e a salvação;
Pois já sentimos, suspensos, oscilando e balançando sem prazer,
Nossos pequenos membros, que antes preferiam deleitar-se na dança
E depois repousar sobre o peito do amado.
HELENA:
Deixa que elas se angustiem! Sinto dor, não medo;
Mas, se conheces uma salvação, ela será reconhecida com gratidão.
Ao homem prudente, que contempla ao longe, muitas vezes
Até o impossível se revela ainda possível.
Fala e anuncia-a.
CORO:
Fala e dize-nos depressa: como escaparemos
Dos horrendos e repugnantes laços que, ameaçadores,
Como os mais detestáveis colares,
Apertam-se em torno de nossos pescoços?
Nós, pobres, já os pressentimos,
Tirando-nos o ar, sufocando-nos,
Se tu, Reia, elevada mãe de todos os deuses,
Não te compadeceres.
FÓRCIAS:
Tendes paciência para ouvir em silêncio
O longo curso de minha exposição?
São muitas histórias.
CORO:
Paciência temos de sobra!
Enquanto escutamos, continuamos vivas.
FÓRCIAS:
Àquele que, permanecendo em casa, guarda o nobre tesouro
E sabe vedar as paredes da elevada morada,
Assim como proteger o teto contra a violência da chuva,
Tudo correrá bem ao longo dos extensos dias da vida;
Mas quem transpõe levianamente, com pés fugitivos,
O alinhamento sagrado do próprio limiar,
Ao regressar talvez encontre o antigo lugar,
Porém tudo transformado, quando não inteiramente destruído.
HELENA:
Para que servem aqui sentenças tão conhecidas?
Queres narrar; não despertes coisas desagradáveis.
FÓRCIAS:
É história, não censura de espécie alguma.
Menelau, navegando para saquear, remou de enseada em enseada;
Atacou como inimigo praias e ilhas, todas elas,
E regressou com despojos, como os vedes amontoados lá dentro.
Diante de Ílion passou dez longos anos;
Quanto durou a viagem de volta, não sei dizer.
Mas como estão as coisas neste lugar, em torno
Da elevada casa de Tíndaro? E como está o reino ao redor?
HELENA:
A censura está tão completamente incorporada em ti
Que não podes mover os lábios sem repreender?
FÓRCIAS:
Durante tantos anos permaneceu abandonado o vale montanhoso
Que se eleva para o norte, atrás de Esparta,
Com o Taígeto ao fundo, onde, como alegre regato,
O Eurotas desce e depois, correndo largamente
Por nosso vale entre os juncos, alimenta vossos cisnes.
Lá atrás, em silêncio, no vale entre as montanhas,
Uma raça audaciosa se estabeleceu,
Avançando das trevas cimérias,
E ergueu para si uma fortaleza inexpugnável,
De onde saqueia a terra e o povo como bem entende.
HELENA:
Conseguiram realizar isso? Parece inteiramente impossível.
FÓRCIAS:
Tiveram tempo; talvez uns vinte anos.
HELENA:
Há um único senhor? Ou são muitos salteadores aliados?
FÓRCIAS:
Não são salteadores; um só é o senhor.
Não o censuro, embora já tenha vindo visitar-me.
Poderia ter tomado tudo, mas contentou-se
Com alguns presentes espontâneos, como os chamou, não tributos.
HELENA:
Que aparência tem?
FÓRCIAS:
Nada má! Ele me agrada bastante.
É um homem vivaz, ousado, bem-formado,
Sensato como poucos entre os gregos.
Chamam bárbaro a seu povo, mas não creio
Que algum deles seja tão cruel quanto, diante de Ílion,
Mais de um herói se mostrou, devorador de homens.
Estimo sua grandeza; a ele eu me confiaria.
E sua fortaleza! Deveríeis contemplá-la com os próprios olhos!
É algo muito diferente da grosseira obra de muralhas
Que vossos pais, sem mais nem menos, empilharam,
Ciclópicos como os Ciclopes, lançando logo
Pedra bruta sobre pedra bruta.
Lá, ao contrário, tudo é vertical, horizontal e regular.
Vede-a por fora! Ela se eleva rumo ao céu,
Tão firme, tão bem ajustada nas juntas,
Lisa como um espelho de aço.
Tentar escalá-la? Até o pensamento escorrega.
E por dentro há vastos espaços de pátios,
Cercados por construções de toda espécie e finalidade.
Ali vereis colunas, colunetas, arcos, pequenos arcos,
Balcões, galerias, para olhar para fora e para dentro,
E brasões.
CORO:
Que são brasões?
FÓRCIAS:
Ájax levava
No escudo uma serpente enrolada, como vós mesmas vistes.
Os Sete diante de Tebas traziam figuras,
Cada qual no próprio escudo, ricas em significado.
Via-se ali a lua e estrelas no céu noturno,
Também deusa, herói e escada, espadas e tochas,
E tudo quanto, ameaçador, ferozmente assalta boas cidades.
Uma imagem semelhante também leva nossa hoste de heróis,
Herdada de seus remotíssimos antepassados, em esplendor de cores.
Ali vereis leões, águias, garras e bicos,
Depois chifres de búfalo, asas, rosas, caudas de pavão,
E ainda faixas douradas e negras, prateadas, azuis e vermelhas.
Tudo isso pende nos salões, fileira após fileira.
Em salões sem limites, tão vastos como o mundo;
Ali podereis dançar!
CORO:
Dize, também há dançarinos lá?
FÓRCIAS:
Os melhores! Um grupo de jovens frescos, de cachos dourados.
Exalam juventude! Somente Páris exalava assim,
Quando se aproximou demais da rainha.
HELENA:
Escapas
Inteiramente de teu papel; dize-me a última palavra!
FÓRCIAS:
Tu pronuncias a última, dizendo com firmeza e clareza: sim!
Imediatamente te envolvo com aquela fortaleza.
CORO:
Oh, pronuncia
A breve palavra e salva-te, e salva-nos contigo!
HELENA:
Como? Deveria eu temer que o rei Menelau
Se entregasse a tamanha crueldade a ponto de me ferir?
FÓRCIAS:
Esqueceste como mutilou de maneira inaudita
Teu Deífobo, irmão do Páris morto em combate,
Que, obstinado, te conquistou, viúva,
E feliz te tomou por concubina?
Cortou-lhe o nariz e as orelhas
E mutilou-lhe ainda outras partes.
Era horrendo de contemplar.
HELENA:
Fez isso com ele; por minha causa o fez.
FÓRCIAS:
Por causa dele fará o mesmo contigo.
A beleza é indivisível; quem a possuiu inteira
Prefere destruí-la, amaldiçoando qualquer posse parcial.
Assim como o estrondo agudo da trombeta
Dilacera ouvidos e entranhas,
O ciúme finca suas garras
No peito do homem que jamais esquece
Aquilo que outrora possuiu e depois perdeu,
Aquilo que já não possui.
CORO:
Não ouves os cornos ressoarem?
Não vês o brilho das armas?
FÓRCIAS:
Sê bem-vindo, senhor e rei!
De bom grado prestarei contas.
CORO:
Mas nós?
FÓRCIAS:
Vós o sabeis claramente,
Vedes diante dos olhos a morte dela;
Percebei a vossa lá dentro.
Não, não há salvação para vós.
HELENA:
Pensei no que devo fazer agora, no que posso ousar.
És um demônio contrário, isso percebo bem,
E receio que convertas o bem em mal.
Mas, antes de tudo, quero seguir-te até a fortaleza.
O restante eu sei; porém, o que a rainha
Talvez guarde misteriosamente oculto
No fundo do peito, permaneça inacessível a todos.
Velha, segue à frente!
CORO:
Oh, com que prazer seguimos,
A passos apressados!
Atrás de nós, a morte;
Diante de nós, novamente,
Os muros inacessíveis
De uma fortaleza altaneira.
Que eles a protejam tão bem
Quanto a cidadela de Ílion,
Que, por fim, somente
Sucumbiu a um ardil infame.
Como? Mas como?
Irmãs, olhai ao redor!
Não era um dia luminoso?
Faixas de névoa se erguem oscilantes
Da corrente sagrada do Eurotas;
Já desapareceu de nossa vista
A margem encantadora, coroada de juncos.
Também os cisnes, livres,
Graciosos e orgulhosos,
Deslizando suavemente
Em sociável prazer de nadar,
Ai, já não os vejo!
Contudo, contudo,
Ainda os ouço soar,
Emitindo ao longe uma voz rouca!
Dizem que ela anuncia a morte.
Ah, que não venha também
Anunciar por fim nossa ruína,
Em vez da prometida salvação;
Nossa, semelhantes aos cisnes,
De longos e belos pescoços brancos,
E, ai, também daquela
Que nasceu de um cisne!
Ai de nós, ai, ai!
Tudo já está coberto
De névoa ao nosso redor.
Nem sequer nos vemos umas às outras!
Que acontece? Caminhamos?
Ou apenas flutuamos,
Com passos miúdos rente ao chão?
Nada vês? Não flutua talvez
Hermes à nossa frente? Não reluz o bastão dourado,
Exigindo e ordenando que voltemos
Ao desagradável Hades,
De alvorada cinzenta,
Cheio de formas intangíveis,
Superlotado e eternamente vazio?
Sim, de repente tudo escurece;
A névoa, sem brilho, afasta-se flutuando,
Cinzenta e sombria, castanha como muralhas.
Muros se erguem diante dos olhos,
Opondo-se rígidos ao olhar livre.
É um pátio? É um fosso profundo?
Em qualquer caso, é aterrador!
Irmãs, ai! Estamos aprisionadas,
Tão aprisionadas como jamais estivemos.
CORIFEU:
Precipitadas e tolas, verdadeiro retrato de mulheres!
Dependentes do instante, joguetes do tempo,
Da felicidade e da desgraça! Jamais sabeis
Suportar nenhuma das duas com serenidade.
Uma sempre contradiz violentamente a outra,
E as demais se opõem, cruzando-se entre si;
Somente na alegria e na dor gritais e rides
Todas no mesmo tom.
Agora, silêncio! E esperai, escutando,
O que a senhora, em sua nobreza,
Decidirá aqui para si e para nós.
HELENA:
Onde estás, pitonisa? Chama-te como quiseres;
Sai destas abóbadas da sombria fortaleza.
Se acaso foste anunciar minha chegada
Ao prodigioso senhor e herói,
Preparando-me acolhida favorável,
Agradeço-te; conduz-me depressa à presença dele.
Desejo o fim de minha errância.
Desejo apenas repouso.
CORIFEU:
Em vão, rainha, lanças os olhos por toda parte;
Desapareceu a odiosa figura, permanecendo talvez
Na névoa de cujo seio viemos até aqui,
Não sei como, tão depressa e sem dar um passo.
Talvez ainda vague, indecisa, pelo labirinto
Desta fortaleza prodigiosa, formada de muitas numa só,
Procurando o senhor para anunciar
Uma principesca e solene recepção.
Mas olha! Lá em cima já se agita
Uma numerosa criadagem;
Nas galerias, nas janelas, nos portais,
Muitos se movem depressa de um lado para outro.
Isso anuncia uma recepção nobre e acolhedora.
CORO:
O coração se me abre! Oh, vede lá,
Como desce, com passo demorado e comedido,
Uma juventude encantadora,
Movendo com decoro o cortejo ordenado.
Como! Por ordem de quem
Surge tão cedo, alinhado e disciplinado,
Esse magnífico povo de jovens rapazes?
Que devo admirar mais?
O andar elegante?
Os cachos em torno da fronte resplandecente?
Ou o par de faces, vermelhas como pêssegos
E, como eles, cobertas de suave penugem?
De bom grado eu as morderia, mas estremeço;
Pois em caso semelhante, certa vez,
A boca se encheu, horrível dizê-lo,
De cinzas.
Mas os mais belos
Agora se aproximam.
Que trazem consigo?
Degraus para o trono,
Tapete e assento,
Manto e ornamento
Semelhante a uma tenda.
Ele transborda
E forma coroas de nuvens
Sobre a cabeça de nossa rainha;
Pois ela já subiu,
Convidada, ao magnífico divã.
Aproximai-vos,
Degrau por degrau,
E colocai-vos solenemente em fileiras.
Digna, oh, digna, três vezes digna
E abençoada seja tamanha recepção!
CORIFEU:
Se os deuses, como tantas vezes fazem,
Não lhe emprestaram apenas por breve tempo
Forma admirável, porte elevado
E aspecto digno de amor,
Tudo o que ele começar lhe será bem-sucedido,
Seja na batalha entre homens,
Seja na pequena guerra com as mais belas mulheres.
Na verdade, ele é preferível a muitos outros
Que também vi com os próprios olhos
E que eram tidos em alta estima.
Com passo lento e grave,
Contido por respeitosa reverência,
Vejo aproximar-se o príncipe.
Volta-te, ó rainha!
FAUSTO:
Em vez da saudação mais solene, como conviria,
Em vez de respeitosa acolhida, trago-te
Este servo duramente preso em correntes,
Que, faltando ao dever, roubou-me o cumprimento do meu.
Ajoelha-te aqui, para confessares tua culpa
Diante desta excelsa senhora.
Este é, sublime soberana, o homem
Encarregado de contemplar ao redor,
Com singular agudeza de vista, do alto da torre,
De perscrutar atentamente o espaço celeste
E a vastidão da terra,
Para observar o que possa anunciar-se
Aqui ou ali, o que possa mover-se
Do círculo das colinas rumo ao vale
E à fortaleza segura,
Seja a onda dos rebanhos,
Seja talvez a marcha de um exército.
Aqueles protegemos; a este enfrentamos.
Hoje, porém, que negligência!
Tu te aproximas, e ele não o anuncia.
Assim falhou a recepção honrosa,
Obrigatória, de tão elevada hóspede.
Com seu delito, perdeu a vida;
Já deveria jazer no próprio sangue,
Morto por justo castigo.
Mas somente tu
O punirás ou agraciarás,
Conforme te aprouver.
HELENA:
Tão elevada dignidade quanto me concedes,
Como juíza e soberana,
Ainda que seja apenas para me pôr à prova,
Como posso supor,
Exercerei agora conforme o primeiro dever do juiz:
Ouvir o acusado.
Fala, portanto.
LINCEU, VIGIA DA TORRE:
Deixa-me ajoelhar, deixa-me olhar,
Deixa-me morrer, deixa-me viver,
Pois já estou inteiramente entregue
A esta mulher concedida pelos deuses.
Esperando a alegria da manhã,
Perscrutando a leste seu curso,
De súbito o sol surgiu para mim
Prodigiosamente ao sul.
Voltei os olhos para aquele lado;
Em vez dos desfiladeiros, em vez das alturas,
Em vez da vastidão da terra e do céu,
Busquei contemplar somente ela, a única.
Foi-me concedido um olhar
Como o do lince na árvore mais alta;
Mas então precisei esforçar-me
Como quem desperta de um sonho profundo e sombrio.
Como poderia reconhecer onde estava?
Ameia? Torre? Portão fechado?
As névoas oscilam, as névoas se dissipam,
E surge semelhante deusa!
Olhos e peito voltados para ela,
Absorvi o suave esplendor;
A beleza, como me cegava,
Cegou-me por completo, pobre de mim.
Esqueci os deveres do vigia,
Esqueci inteiramente o corno jurado.
Ameaça agora destruir-me;
A beleza doma toda cólera.
HELENA:
Não posso punir o mal que eu mesma causei.
Ai de mim! Que destino severo
Me persegue, levando por toda parte
O peito dos homens a tal desvario
Que eles não poupam nem a si mesmos
Nem qualquer coisa digna de respeito.
Ora raptando, ora seduzindo,
Combatendo e arrastando-me de um lado para outro,
Semideuses, heróis, deuses e até demônios
Conduziram-me errante para cá e para lá.
Una, confundi o mundo;
Duplicada, confundi-o ainda mais.
Agora, tripla e quádrupla,
Lanço desgraça sobre desgraça.
Afasta este homem de bem e liberta-o;
Nenhuma desonra recaia
Sobre aquele a quem um deus enlouqueceu.
FAUSTO:
Assombrado, ó rainha, vejo ao mesmo tempo
Aquela que acerta com segurança
E aqui aquele que foi atingido.
Vejo o arco que lançou a flecha
E o ferido diante dele.
Flechas seguem flechas
E atingem também a mim.
Por toda parte pressinto-as,
Cruzando-se, emplumadas e sibilantes,
Pela fortaleza e seus recintos.
Que sou agora?
De súbito tornas rebeldes
Os mais fiéis servidores
E inseguras as minhas muralhas.
Já receio que meu exército
Obedeça à mulher vitoriosa e invencível.
Que me resta, senão entregar-te
A mim mesmo e tudo,
Na ilusão de que ainda me pertencem?
Permite-me, livre e fiel,
Aos teus pés reconhecer-te como senhora,
Tu que, apenas surgindo,
Conquistaste posse e trono.
LINCEU:
Vês-me de volta, rainha!
O rico mendiga um olhar;
Contempla-te e no mesmo instante
Sente-se pobre como um mendigo e rico como um príncipe.
Que fui antes? Que sou agora?
Que desejar? Que fazer?
De que serve o raio mais agudo dos olhos?
Ele ricocheteia diante de teu trono.
Do Oriente nos aproximamos,
E o Ocidente estava perdido;
Uma longa e vasta massa de povos,
O primeiro nada sabia do último.
O primeiro caía, o segundo permanecia,
A lança do terceiro já estava pronta;
Cada qual se sentia cem vezes fortalecido,
Mil mortos passavam despercebidos.
Avançávamos, irrompíamos,
Éramos senhores de lugar em lugar;
E onde hoje eu imperiosamente mandava,
Amanhã outro roubava e saqueava.
Olhávamos, e agradável era a visão:
Um agarrava a mais bela mulher,
Outro tomava o touro de passo firme,
E todos os cavalos tinham de segui-lo.
Eu, porém, gostava de descobrir
O que de mais raro se pudesse ver;
E aquilo que outro possuía,
Para mim era capim ressequido.
Eu seguia a pista dos tesouros,
Obedecia somente ao olhar penetrante;
Espreitava dentro de todos os bolsos,
Todo cofre era transparente para mim.
Montes de ouro se tornaram meus,
E, mais magníficas ainda, as pedras preciosas.
Agora somente a esmeralda merece
Verdejar sobre teu coração.
Que entre tua orelha e tua boca
Oscile a pérola em forma de gota, nascida no fundo do mar;
Os rubis são expulsos para longe,
Pois o rubor de tuas faces os empalidece.
E assim deposito aqui, em teu lugar,
O maior de todos os tesouros;
A teus pés seja trazida
A colheita de muitas batalhas sangrentas.
Tantas arcas arrasto para cá,
E ainda possuo mais arcas de ferro;
Permite-me seguir teu caminho,
E encherei as abóbadas do tesouro.
Pois mal subiste ao trono,
Já se inclinam e se curvam
Entendimento, riqueza e poder
Diante da forma única.
Tudo isso eu mantinha firme e meu;
Agora, solto de minhas mãos, torna-se teu.
Eu o julgava digno, elevado e valioso;
Agora vejo que nada valia.
Aquilo que possuí desapareceu,
Como erva ceifada e murcha.
Oh, devolve-lhe, com um olhar sereno,
Todo o seu valor!
FAUSTO:
Afasta depressa a carga audaciosamente conquistada,
Não censurada, é verdade, mas também não recompensada.
Já lhe pertence tudo quanto a fortaleza
Oculta em seu seio; oferecer-lhe algo particular
É inútil.
Vai e amontoa tesouro sobre tesouro,
Tudo em ordem. Da magnificência invisível
Ergue uma imagem sublime!
Faze as abóbadas cintilarem
Como céus recém-criados;
Prepara paraísos
De vida sem vida.
À frente de seus passos,
Que tapetes floridos se desenrolem
Sobre outros tapetes;
Que um solo macio encontre seus pés
E o mais alto esplendor encontre seu olhar,
Que somente o divino não ofusca.
LINCEU:
Frágil é aquilo que o senhor ordena;
O servo o cumpre, e tudo está feito.
Pois sobre bens e sangue
Reina a soberania desta beleza.
Já todo o exército se tornou dócil,
Todas as espadas, rombas e frouxas;
Diante da forma magnífica,
Até o sol parece pálido e frio.
Diante da riqueza desse rosto,
Tudo está vazio, tudo é nada.
HELENA:
Desejo falar contigo; sobe, porém,
E vem para o meu lado!
O lugar vazio chama o senhor
E garante o meu próprio lugar.
FAUSTO:
Permite primeiro que, ajoelhado,
Eu te consagre minha fidelidade, elevada senhora;
Deixa-me beijar a mão
Que me ergue para junto de ti.
Confirma-me como corregente
De teu reino sem fronteiras;
Conquista para ti, reunidos em um só,
Um adorador, um servo e um guardião!
HELENA:
Muitos prodígios vejo e ouço;
O assombro me atinge, e muito desejaria perguntar.
Mas quero aprender por que a fala
Deste homem me soou estranha,
Estranha e, contudo, afável.
Um som parece acomodar-se ao outro;
Quando uma palavra se uniu aos ouvidos,
Logo vem outra
Para acariciar a primeira.
FAUSTO:
Se já te agrada a maneira de falar de nossos povos,
Certamente também o canto te encantará,
Satisfazendo profundamente o ouvido e o espírito.
Mas o mais seguro é praticá-la agora mesmo;
O diálogo alternado a atrai e a faz surgir.
HELENA:
Dize, então: como posso também falar tão belamente?
FAUSTO:
É muito fácil; deve vir do coração.
E quando o peito transborda de anseio,
Olha-se em torno e pergunta-se...
HELENA:
Quem há de partilhá-lo?
FAUSTO:
Então o espírito não olha adiante nem para trás;
Somente o presente...
HELENA:
É nossa felicidade.
FAUSTO:
Ele é tesouro, elevado ganho, posse e penhor;
Mas quem o confirma?
HELENA:
Minha mão.
CORO:
Quem censuraria nossa princesa
Por conceder ao senhor da fortaleza
Uma demonstração amistosa?
Pois confessai: todas nós
Também somos prisioneiras,
Como tantas vezes já fomos
Desde a vergonhosa queda
De Ílion e a angustiosa
E labiríntica viagem de aflições.
Mulheres acostumadas ao amor dos homens
Não são exigentes na escolha,
Mas sabem reconhecê-los.
Tanto ao pastor de cachos dourados
Como talvez ao fauno de cerdas negras,
Conforme a ocasião os apresente,
Elas concedem direitos iguais
Sobre os membros viçosos.
Já se sentam cada vez mais perto,
Inclinados um para o outro,
Ombro contra ombro, joelho contra joelho,
Mão na mão, embalando-se
Sobre a magnificência acolchoada
Do trono.
A majestade não recusa
Revelar com ousadia,
Diante dos olhos do povo,
As alegrias secretas.
HELENA:
Sinto-me tão distante e, contudo, tão perto,
E digo com prazer: aqui estou! Aqui!
FAUSTO:
Mal respiro; minha voz estremece e se detém.
É um sonho; desapareceram o dia e o lugar.
HELENA:
Pareço ter vivido demais e, contudo, ser tão nova,
Entretecida em ti, fiel ao desconhecido.
FAUSTO:
Não perscrutes demais este destino singular!
Existir é dever, ainda que por um só instante.
FÓRCIAS:
Soletrai em cartilhas de amor,
Brincando, meditai sobre namoricos,
Ociosos, namorai enquanto meditais;
Mas para isso não há tempo.
Não sentis o trovão abafado?
Escutai a trombeta retumbar;
A perdição não está longe.
Menelau, com ondas de povo,
Avança contra vós;
Preparai-vos para a luta amarga!
Cercada pelo enxame dos vencedores,
Mutilada como Deífobo,
Pagarás pela companhia de homens.
Primeiro esta mercadoria leve
Se debaterá suspensa;
Para ti, junto ao altar,
Já está preparado o machado recém-afiado.
FAUSTO:
Interrupção insolente! Ela se intromete de modo repulsivo.
Mesmo diante do perigo, não tolero o tumulto sem sentido.
Até o mais belo mensageiro se torna feio
Ao trazer notícias de desgraça;
Tu, a mais feia, gostas de trazer somente as piores.
Mas desta vez não terás êxito:
Com teu sopro vazio,
Podes agitar o ar.
Aqui não há perigo;
E até o perigo pareceria apenas ameaça vã.
Não! Já deves contemplar reunido
O círculo indiviso dos heróis:
Somente merece o favor das mulheres
Aquele que sabe protegê-las com vigor.
Com a fúria silenciosa contida,
Que certamente vos garante a vitória,
Vós, jovens flores do Norte,
Vós, força florida do Oriente!
Envolta em aço, cercada de raios,
A hoste que destruiu reino após reino
Avança; a terra estremece,
Ela marcha, e o trovão a segue.
Em Pilos desembarcamos;
O velho Nestor já não existe,
E todos os pequenos bandos de reis
Foram dispersos pelo exército sem grilhões.
Expulsai sem demora destas muralhas
Menelau de volta para o mar;
Que ali vague, saqueie e arme emboscadas:
Essa foi sua inclinação e seu destino.
Como duques devo saudar-vos,
Ordena a rainha de Esparta;
Agora deponde montes e vales a seus pés,
E seja vosso o ganho do reino.
Tu, germano, defende as enseadas de Corinto
Com muralhas e proteção!
Depois, a Acaia das cem gargantas,
Entrego, godo, à tua defesa.
Que os exércitos francos avancem para a Élida,
Messênia seja o quinhão dos saxões;
Que o normando purifique os mares
E torne Argólida grande.
Então cada qual habitará seu domínio,
Dirigindo para fora força e fulgor;
Mas Esparta reinará acima de todos,
Antigo trono da rainha.
Ela verá cada um, separadamente,
Desfrutar a terra a que nenhum bem falta;
E vós buscareis confiantes, a seus pés,
Confirmação, direito e luz.
CORO:
Quem para si deseja a mais bela,
Antes de tudo trate, com prudência,
De prover-se de armas.
Com lisonjas talvez tenha conquistado
Aquilo que há de mais elevado sobre a terra;
Mas não o possuirá em paz.
Um dissimulado, com astúcia,
Pode arrebatá-la por lisonja;
Um salteador, com audácia,
Pode arrancá-la de suas mãos.
Que ele se acautele para impedir ambas as coisas.
Por isso louvamos nosso príncipe,
E o estimamos acima dos demais,
Pois com tanta coragem e sabedoria
Soube firmar suas alianças,
De modo que os fortes permanecem obedientes,
Atentos a cada gesto seu.
Executam fielmente suas ordens,
Cada qual em benefício próprio,
E também em agradecimento ao soberano,
Digno de recompensa;
Para ambos, o resultado
Será o mais elevado ganho de glória.
Pois quem agora a arrancará
Do possuidor poderoso?
Ela lhe pertence; seja-lhe concedida,
Duas vezes concedida por nós,
A quem ele, juntamente com ela,
Cercou por dentro com a muralha mais segura
E por fora com o exército mais poderoso.
FAUSTO:
Os dons concedidos a estes homens,
A cada qual uma terra rica,
São grandes e magníficos. Deixa-os partir!
Nós permaneceremos firmes no centro.
Que eles protejam, competindo entre si,
Cercada por ondas que lhe saltam ao redor,
Esta quase-ilha, ligada por uma leve cadeia de colinas
Ao último ramo montanhoso da Europa.
Esta terra, iluminada pelo sol
Acima de todas as terras,
Seja eternamente venturosa para cada povo,
Agora que foi conquistada por minha rainha,
Ela, para quem já erguia os olhos
Desde os primeiros dias.
Quando, entre os sussurros dos juncos do Eurotas,
Ela rompeu, fulgurante, a casca,
E ofuscou, para a excelsa mãe e para os irmãos,
A própria luz dos olhos.
Esta terra, voltada somente para ti,
Oferece-te a mais elevada de suas flores.
Ao mundo inteiro, que te pertence,
Prefere, ó rainha, tua pátria!
Embora sobre o dorso de suas montanhas
A cabeça serrilhada suporte os frios dardos do sol,
Agora a rocha começa a mostrar-se verde,
E a cabra, mordiscando, recebe sua escassa parte.
A fonte salta; unindo-se, os riachos precipitam-se,
E logo os desfiladeiros, as encostas e os prados verdejam.
Sobre a superfície interrompida por centenas de colinas,
Vês rebanhos lanosos estenderem-se em movimento.
Disperso, avançando cautelosamente,
O gado de chifres medidos sobe até a borda abrupta;
Mas abrigo foi preparado para todos:
A parede rochosa arqueia-se em centenas de cavernas.
Ali Pã os protege, e ninfas da vida habitam
O espaço úmido e refrescante das fendas cobertas de arbustos.
E, ansiando por regiões mais elevadas,
Árvore após árvore ergue-se em ramos comprimidos.
São florestas antigas!
O carvalho se enrijece poderoso,
E, obstinado, lança galho serrilhado contra galho;
O bordo, suave, carregado de seiva doce,
Sobe puro e brinca com sua carga.
E, maternalmente, no círculo silencioso das sombras,
Brota leite morno, pronto para a criança e o cordeiro.
Os frutos não estão longe, alimento maduro das planícies,
E o mel escorre do tronco escavado.
Aqui o bem-estar é hereditário;
A face se ilumina como a boca.
Cada qual, em seu lugar, é imortal:
Todos estão satisfeitos e saudáveis.
E assim, sob a luz pura do dia,
A graciosa criança desenvolve a força do pai.
Contemplamo-la maravilhados; e a pergunta permanece:
São deuses ou são homens?
Assim Apolo se apresentou entre os pastores,
Tão semelhante ao mais belo deles
Que, onde a natureza atua em seu círculo puro,
Todos os mundos se entrelaçam.
Assim aconteceu comigo; assim aconteceu contigo.
Deixemos para trás o passado!
Oh, sente-te nascida do deus supremo;
Somente à primeira idade do mundo pertences.
Nenhuma fortaleza rígida deve circunscrever-te!
Ainda nos cerca, em eterna força juvenil,
Para uma permanência repleta de delícias,
A Arcádia, vizinha de Esparta.
Atraída para viver em solo venturoso,
Refugiaste-te no mais sereno dos destinos.
Os tronos se transformam em caramanchões;
Livre como na Arcádia seja nossa felicidade!
Cena 42
FÓRCIAS:
Há quanto tempo as jovens dormem, não sei;
Também ignoro se sonharam aquilo que, claro e luminoso,
Vi diante dos olhos.
Por isso vou despertá-las. A juventude há de espantar-se;
E também vós, homens de barba, que lá embaixo permaneceis sentados,
Esperando contemplar enfim a explicação de prodígios dignos de crédito.
Para fora! Para fora! Sacudi depressa os cachos!
Tirai o sono dos olhos! Não pisqueis assim e escutai-me!
CORO:
Fala logo, conta, conta o que aconteceu de prodigioso!
O que mais gostaríamos de ouvir é aquilo em que não podemos acreditar;
Pois já estamos entediadas de contemplar estas rochas.
FÓRCIAS:
Mal esfregastes os olhos, crianças, e já vos entediais?
Então ouvi: nestas cavernas, nestas grutas, nestes caramanchões,
Foram concedidos proteção e abrigo, como a um par de amantes idílicos,
Ao nosso senhor e à nossa senhora.
CORO:
Como, ali dentro?
FÓRCIAS:
Apartados
Do mundo, chamaram somente a mim para servi-los em silêncio.
Muito honrada, permaneci ao lado deles; contudo, como convém a uma confidente,
Olhei ao redor em busca de outra ocupação. Voltei-me para cá e para lá,
Procurei raízes, musgos e cascas, conhecedora de todas as suas virtudes,
E assim os deixei a sós.
CORO:
Falas como se lá dentro houvesse mundos inteiros,
Florestas e prados, riachos e lagos. Que fábulas estás inventando?
FÓRCIAS:
Certamente, inexperientes! São profundezas ainda inexploradas:
Salão após salão, pátio após pátio, percorri-os meditando.
Mas de repente uma risada ecoa pelos espaços das cavernas;
Olho para lá, e um menino salta do colo da mulher para o homem,
Do pai para a mãe. Os carinhos, as brincadeiras,
As provocações do amor insensato, os gritos de gracejo e os brados de júbilo,
Alternando-se, quase me ensurdecem.
Nu, um gênio sem asas, semelhante a um fauno, mas sem animalidade,
Ele salta sobre o chão firme; porém, o chão, reagindo,
Lança-o para as alturas do ar, e no segundo, no terceiro salto
Ele toca a abóbada elevada.
A mãe, angustiada, exclama: “Salta quantas vezes quiseres,
Mas guarda-te de voar; o voo livre te é proibido.”
E o pai fiel o adverte: “Na terra reside a força propulsora
Que te impele para o alto. Toca apenas o chão com a ponta do pé;
Como Anteu, filho da Terra, no mesmo instante estarás fortalecido.”
E assim ele salta sobre a massa destas rochas,
De uma borda para outra e ao redor,
Como uma bola lançada que ricocheteia.
Mas de repente desaparece na fenda de uma garganta pedregosa,
E então parece perdido para nós.
A mãe lamenta, o pai consola,
E eu permaneço angustiada, encolhendo os ombros.
Mas agora, que nova aparição!
Haveria tesouros ocultos lá dentro?
Ele se vestiu dignamente
Com trajes listrados de flores.
Borlas oscilam-lhe nos braços,
Faixas esvoaçam-lhe sobre o peito;
Na mão, a lira dourada,
Inteiramente como um pequeno Febo,
Ele avança alegre até a borda do precipício.
Nós nos maravilhamos.
E os pais, arrebatados,
Lançam-se alternadamente nos braços um do outro.
Pois que coisa lhe resplandece sobre a cabeça?
É difícil dizer o que fulgura:
Será adorno de ouro, será a chama
De uma força espiritual irresistível?
E assim ele se move em gestos,
Já se anunciando, ainda menino,
Como futuro mestre de tudo o que é belo,
Aquele por cujos membros
Se movem as melodias eternas.
E assim o ouvireis;
E assim o vereis,
Para assombro sem igual.
CORO:
Chamas a isso um prodígio,
Ó filha de Creta?
Nunca ouviste talvez
A palavra que ensina por meio da poesia?
Jamais escutaste o tesouro
Divino e heroico
Das lendas patriarcais
Da Jônia e de toda a Hélade?
Tudo quanto acontece
Nos dias de hoje
É apenas triste eco
Dos gloriosos tempos ancestrais.
Tua narrativa não se compara
Ao que a encantadora mentira,
Mais digna de fé que a verdade,
Cantou a respeito do filho de Maia.
Ao recém-nascido,
Tão gracioso e já vigoroso,
A multidão das amas tagarelas,
Em sua insensata presunção,
Envolve na penugem das faixas mais puras
E aperta no esplendor dos mais preciosos cueiros.
Mas, forte e gracioso,
O travesso já retira com astúcia
Os membros flexíveis,
Embora elásticos,
Deixando tranquilamente em seu lugar
A concha púrpura
Que o oprimia com angústia.
Assim como a borboleta já formada,
Que do rígido cativeiro da crisálida
Escapa ágil, abrindo as asas,
E atravessa com ousadia e capricho
O éter inundado de sol.
Assim também ele, o mais ágil de todos,
Para tornar-se eternamente
O demônio favorável
Aos ladrões, aos velhacos
E a todos os que procuram vantagem,
Logo o comprova
Por meio das mais hábeis artes.
Depressa rouba do senhor dos mares
O tridente;
E do próprio Ares, com astúcia,
A espada da bainha.
Também toma de Febo
O arco e as flechas,
E de Hefesto, as tenazes.
Até o raio de Zeus, seu pai,
Ele levaria,
Se não o atemorizasse o fogo.
Mas vence Eros
Em luta, passando-lhe uma rasteira,
E até de Cípris, enquanto ela o acaricia,
Rouba do peito o cinturão.
FÓRCIAS:
Ouvi sons encantadores,
Libertai-vos já das fábulas!
De vossos deuses a velha mistura,
Deixai-a ir, já passou.
Ninguém mais vos quer compreender;
Agora exigimos tributo mais elevado:
Pois deve vir do coração
Aquilo que há de agir sobre os corações.
CORO:
Se tu, criatura terrível,
Te inclinas a esse tom lisonjeiro,
Sentimo-nos, como recém-curadas,
Comovidas até o prazer das lágrimas.
Que desapareça o esplendor do sol,
Se na alma nasce o dia;
Em nosso próprio coração encontramos
O que o mundo inteiro nos recusa.
EUFÓRION:
Quando ouvis cantarem canções de criança,
Logo reconheceis nelas vossa própria brincadeira;
Quando me vedes saltar no compasso,
Vosso coração salta como o de pais.
HELENA:
O amor, para dar felicidade humana,
Aproxima um nobre par;
Mas, para o encanto divino,
Forma um precioso trio.
FAUSTO:
Então tudo foi encontrado:
Eu sou teu, e tu és minha;
E assim permanecemos unidos,
Nem poderia ser de outro modo!
CORO:
O contentamento de muitos anos,
Concentrado no suave brilho do menino,
Reúne-se sobre este casal.
Oh, como esta união me comove!
EUFÓRION:
Agora deixai-me saltar,
Agora deixai-me pular!
Penetrar para o alto,
Por todos os ares,
É meu desejo;
Já se apodera de mim.
FAUSTO:
Com moderação! Com moderação!
Não te entregues à temeridade,
Para que queda e desgraça
Não te alcancem
E o filho querido
Não nos leve à ruína!
EUFÓRION:
Não quero por mais tempo
Ficar preso ao chão;
Soltai minhas mãos,
Soltai meus cachos,
Soltai minhas roupas!
Elas são minhas.
HELENA:
Oh, pensa! Oh, pensa
A quem pertences!
Como nos feres,
Como destróis
O belo resultado
Do meu, do teu e do nosso ser.
CORO:
Em breve, receio,
A união se desfará!
HELENA E FAUSTO:
Refreia, refreia,
Por amor aos pais,
Esses impulsos
Excessivamente vivos,
Violentos!
No campo tranquilo,
Adorna a planície.
EUFÓRION:
Somente para vos agradar
Vou conter-me.
Mais leve, flutuo aqui
Em torno desta alegre companhia.
Está certa a melodia?
Está certo o movimento?
HELENA:
Sim, assim está bem-feito;
Conduze as belas
Numa dança artística.
FAUSTO:
Quem dera isso já tivesse terminado!
Esse jogo de ilusões
Não pode me agradar.
CORO:
Quando moves com doçura
O par de braços,
Agitando, no esplendor,
Teus cabelos cacheados;
Quando teu pé tão leve
Desliza sobre a terra,
Vai para lá e outra vez para cá,
E membro após membro acompanha o movimento,
Então alcançaste teu objetivo,
Encantadora criança;
Todos os nossos corações,
Todos se inclinam para ti.
EUFÓRION:
Vós sois tantas
Corças de pés ligeiros!
Para uma nova brincadeira,
Aproximai-vos depressa!
Eu sou o caçador,
Vós sois a caça.
CORO:
Se pretendes apanhar-nos,
Não sejas tão veloz;
Pois o que desejamos,
Ao fim de tudo,
É apenas abraçar-te,
Ó bela imagem!
EUFÓRION:
Atravessai os bosques!
Por paus e pedras!
Aquilo que se conquista facilmente
Me causa repugnância;
Somente o que se obtém à força
Quase me deleita.
HELENA E FAUSTO:
Que travessura! Que delírio!
Nenhuma moderação se pode esperar.
Isso ressoa como toque de cornos,
Ribombando sobre vales e florestas.
Que desordem! Que gritaria!
CORO:
Ele passou correndo por nós;
Zombando com desprezo,
Arrasta agora, de todo o grupo,
A mais indomável para cá.
EUFÓRION:
Arrasto esta pequena vigorosa
Para um prazer forçado;
Para meu deleite, para meu prazer,
Aperto contra mim o peito rebelde,
Beijo a boca que resiste,
Faço conhecer minha força e minha vontade.
JOVEM:
Solta-me! Dentro deste invólucro
Também há coragem e força de espírito;
Nossa vontade, igual à tua,
Não se deixa arrebatar tão facilmente.
Pensas dominar-me na confusão?
Confias demais em teu braço!
Segura-me bem, e eu te queimarei,
Insensato, para meu divertimento.
Segue-me pelos ares ligeiros,
Segue-me às rígidas cavernas;
Tenta alcançar o alvo desaparecido!
EUFÓRION:
Rochedos amontoados aqui,
Entre os arbustos do bosque,
Para que me serve esse aperto,
Se sou jovem e vigoroso?
Os ventos assobiam,
As ondas rugem;
Ouço ambos ao longe,
Mas quero estar perto.
HELENA, FAUSTO E CORO:
Queres imitar as camurças?
Temos de estremecer diante da queda.
EUFÓRION:
Sempre mais alto preciso subir,
Sempre mais longe preciso olhar.
Agora sei onde estou:
Bem no centro da ilha,
Bem no centro da terra de Pélops,
Terra tão aparentada ao mar.
CORO:
Não queres permanecer em paz
Entre a montanha e a floresta?
Procuremos imediatamente
Fileiras de videiras,
Videiras nas encostas,
Figos e maçãs douradas.
Ah, nesta terra encantadora,
Permanece também encantador!
EUFÓRION:
Sonhais com o dia de paz?
Que sonhe quem desejar.
Guerra! Essa é a senha.
Vitória! E assim ressoa adiante.
CORO:
Quem, em tempos de paz,
Deseja de volta a guerra,
Já se apartou
Da felicidade da esperança.
EUFÓRION:
Aqueles que esta terra gerou,
De perigo em perigo,
Livres, de coragem sem limites,
Pródigos do próprio sangue,
Aquele espírito sagrado
Que ninguém consegue subjugar,
Que tudo isso traga vitória
A todos os combatentes!
CORO:
Vede lá no alto como subiu!
E, contudo, não nos parece pequeno:
Como se estivesse de armadura, pronto para vencer,
Com fulgor de bronze e aço.
EUFÓRION:
Nem baluartes nem muralhas;
Cada qual confie apenas em si.
A fortaleza segura para resistir
É o peito de bronze do homem.
Quereis permanecer inconquistados?
Ligeiramente armados, marchai depressa para o campo!
As mulheres se tornarão amazonas,
E cada criança, um herói.
CORO:
Sagrada poesia,
Que ela se eleve ao céu!
Resplandeça, a mais bela estrela,
Longe, cada vez mais longe!
E, no entanto, ainda nos alcança;
Ainda se pode ouvi-la,
Ainda se escuta com prazer.
EUFÓRION:
Não apareci como criança;
O jovem chega armado.
Unido aos fortes, livres e audazes,
Já realizou tudo em espírito.
Agora, avante!
É lá
Que se abre o caminho para a glória.
HELENA E FAUSTO:
Mal chamado à vida,
Mal entregue à luz serena,
Já anseias, de alturas vertiginosas,
Pelo reino das dores.
Então nós
Nada somos para ti?
É um sonho a doce união?
EUFÓRION:
Não ouvis trovejar sobre o mar?
Lá, vale após vale devolve o trovão;
Em poeira e ondas, exército contra exército,
Choque após choque, em dor e aflição.
E a morte
É a ordem.
Isso é evidente.
HELENA, FAUSTO E CORO:
Que terror! Que horror!
A morte é então uma ordem para ti?
EUFÓRION:
Deveria contemplar de longe?
Não! Partilho a preocupação e a desgraça.
OS ANTERIORES:
Temeridade e perigo,
Destino mortal!
EUFÓRION:
Mas eis que um par de asas
Se abre e se desprende!
Para lá! Eu preciso! Eu preciso!
Concedei-me o voo!
CORO:
Ícaro! Ícaro!
Já basta de desgraça!
HELENA E FAUSTO:
À alegria segue-se de imediato
Uma dor feroz.
VOZ DE EUFÓRION:
No reino sombrio,
Mãe, não me deixes sozinho!
CORO:
Não sozinho! Onde quer que estejas,
Pois julgamos conhecer-te;
Ai! Ainda que abandones o dia,
Nenhum coração se apartará de ti.
Mal saberíamos lamentar;
Com inveja, cantamos teu destino:
Nos dias claros e nos turvos,
Belos e grandes foram teu canto e tua coragem.
Ai! Nascido para a felicidade terrena,
De ancestrais elevados, dotado de grande força,
Infelizmente cedo perdido para ti mesmo,
Flor da juventude arrebatada!
Olhar penetrante para contemplar o mundo,
Comunhão com cada impulso dos corações,
Ardor amoroso das melhores mulheres
E um canto inteiramente teu.
Mas correste, incontido,
Livre, para a rede sem vontade;
Assim te apartaste violentamente
Dos costumes e da lei.
Contudo, por fim, a aspiração suprema
Deu valor à coragem pura;
Quiseste conquistar o que é magnífico,
Mas não o alcançaste.
Quem o alcança? Sombria pergunta,
Diante da qual o destino se encobre,
Quando, no dia mais desventurado,
Todo um povo emudece, sangrando.
Mas renovai-vos em novos cantos,
Não permaneçais profundamente curvadas;
Pois o solo volta a gerá-los,
Como desde sempre os gerou.
HELENA:
Uma antiga sentença, infelizmente, também se confirma em mim:
Felicidade e beleza não permanecem unidas.
Rompeu-se o laço da vida, assim como o do amor;
Lamentando a ambos, digo dolorosamente adeus
E lanço-me uma vez mais em teus braços.
Perséfone, recebe o menino e a mim!
FÓRCIAS:
Segura o que te restou de tudo.
O vestido, não o soltes. Já puxam
Demônios por suas pontas, desejando
Arrastá-lo para o mundo subterrâneo. Segura-o!
Já não é a deusa que perdeste,
Mas ainda é divino. Serve-te desta graça
Elevada e inestimável, e ergue-te:
Ela te transportará depressa acima de tudo o que é comum,
Pelo éter, enquanto puderes perdurar.
Voltaremos a nos ver, muito, muito longe daqui.
FÓRCIAS:
Ainda assim, felizmente encontrado!
A chama, é verdade, desapareceu,
Mas pouco me importa o mundo.
Aqui resta o bastante para iniciar poetas
E fundar invejas entre guildas e ofícios;
E, se não posso conceder talentos,
Ao menos emprestarei o vestido.
PANTHALIS:
Agora, depressa, jovens! Estamos enfim libertas
Do encanto da velha tessália, da selvagem coerção de seu espírito,
E também da embriaguez daquele emaranhado tilintar de sons,
Que confunde o ouvido e, ainda mais, o sentido interior.
Desçamos ao Hades! A rainha já se apressou
Para baixo, com passo solene.
Que imediatamente às pegadas dela
Se una o passo de suas servas fiéis.
Nós a encontraremos junto ao trono
Daquela que ninguém pode sondar.
CORO:
As rainhas, na verdade, em toda parte são bem recebidas;
Também no Hades ocupam o lugar mais elevado,
Orgulhosamente reunidas a suas iguais,
Intimamente familiarizadas com Perséfone.
Mas nós, ao fundo,
Entre os profundos prados de asfódelos,
Ao lado dos choupos alongados
E dos salgueiros estéreis,
Que passatempo teremos?
Guinchar como morcegos,
Em murmúrios desagradáveis,
Espectrais.
PANTHALIS:
Quem não conquistou um nome
Nem deseja alcançar algo nobre
Pertence aos elementos. Parti, portanto!
A mim me impele um ardente desejo
De permanecer junto de minha rainha;
Não apenas o mérito,
Também a fidelidade conserva nossa pessoa.
TODAS:
Fomos devolvidas à luz do dia,
Embora já não sejamos pessoas;
Isso sentimos, isso sabemos.
Mas ao Hades jamais retornaremos.
A natureza eternamente viva
Faz valer sobre nós, espíritos,
Seu pleno direito,
E nós fazemos valer sobre ela
Direito igualmente pleno.
UMA PARTE DO CORO:
Nós, neste sussurrante tremor de mil ramos,
Neste leve flutuar de brisas,
Provocamos em brincadeira e atraímos suavemente,
Das raízes para o alto, as fontes da vida,
Rumo aos galhos; ora com folhas,
Ora com flores em abundância,
Adornamos os cabelos esvoaçantes,
Livres, para que prosperem ao ar.
Quando o fruto cai, logo se reúnem,
Ávidos de vida, povos e rebanhos,
Para apanhá-lo, para prová-lo,
Chegando depressa, comprimindo-se diligentes;
E, como diante dos primeiros deuses,
Tudo ao nosso redor se inclina.
OUTRA PARTE:
Nós nos aconchegamos
A estes espelhos lisos das paredes rochosas,
Que resplandecem ao longe,
Movendo-nos em ondas suaves e acariciantes.
Ouvimos, prestamos atenção a cada som,
Ao canto dos pássaros, às flautas de junco,
Seja até à terrível voz de Pã;
A resposta está imediatamente pronta.
Se algo murmura, murmuramos em resposta;
Se troveja, nossos trovões rolam
Em repetição estremecedora,
Duas, três, dez vezes depois.
UMA TERCEIRA PARTE:
Irmãs! Nós, de espírito mais inquieto,
Apressamo-nos adiante com os riachos;
Pois nos atraem, ao longe,
As cadeias de colinas ricamente adornadas.
Sempre descendo, sempre mais fundo,
Regamos, serpenteando como meandros,
Ora a campina, depois os prados,
Como o jardim ao redor da casa.
Ali, os esguios cumes dos ciprestes
Assinalam, elevando-se rumo ao éter,
A paisagem, a linha das margens
E o espelho das ondas.
UMA QUARTA PARTE:
Vagueai, vós outras, para onde vos agradar;
Nós cercamos, nós envolvemos em murmúrio
A colina inteiramente cultivada,
Onde a videira verdeja sustentada pela estaca.
Ali, a todas as horas do dia,
A paixão do viticultor nos deixa contemplar
O êxito incerto
De seu labor mais amoroso.
Ora com a enxada, ora com a pá,
Ora amontoando a terra, podando e atando,
Ele dirige suas preces a todos os deuses,
Com a maior insistência ao deus do sol.
Baco, o efeminado, pouco se ocupa
Do servo fiel;
Repousa em caramanchões,
Reclina-se em cavernas,
Tagarelando com o fauno mais jovem.
Tudo aquilo de que alguma vez necessitou
Para a meia embriaguez de seus devaneios
Permanece sempre guardado para ele
Em odres, jarras e vasilhas,
À direita e à esquerda das frescas grutas,
Por tempos eternos.
Mas quando todos os deuses,
E sobretudo Hélio,
Arejando, umedecendo, aquecendo, abrasando,
Amontoaram o corno da abundância das uvas,
Onde trabalhava o silencioso viticultor,
De repente tudo ganha vida.
Cada ramagem murmura,
De cepa em cepa tudo farfalha.
Cestos rangem, baldes batem,
Os grandes cestos de carga gemem,
Tudo se encaminha para a enorme tina,
Ao vigoroso bailado dos pisadores.
E assim a sagrada abundância
De uvas puras, cheias de sumo,
É insolentemente esmagada;
Espumando, esguichando,
Tudo se mistura, repulsivamente triturado.
Agora ressoa estridente aos ouvidos
O som metálico dos címbalos e pratos,
Pois Dioniso se revelou
De dentro dos mistérios.
Ele surge com homens de pés caprinos,
Que fazem rodopiar mulheres de pés caprinos;
E entre eles grita, indomável e agudo,
O animal orelhudo de Sileno.
Nada é poupado!
Cascos fendidos pisoteiam todo costume;
Todos os sentidos giram em vertigem,
O ouvido fica horrivelmente ensurdecido.
Os bêbados tateiam em busca da taça,
Cabeças e ventres estão repletos;
Um ou outro ainda se mostra cauteloso,
Mas apenas aumenta o tumulto.
Pois, para guardar o vinho novo,
Esvazia-se depressa o odre velho!
Edição integral de Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe, reunindo a Primeira e a Segunda Parte em tradução brasileira Literunico feita diretamente dos textos alemães de domínio público do Project Gutenberg (eBooks 2229 e 2230).
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
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