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Fausto

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Fausto

Capítulo 32 · Fausto

PARTE II · Ato IV — Alta Montanha

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PARTE II · Ato IV — Alta Montanha

FAUSTO:

Fitando sob meus pés o mais profundo das solidões,
Piso, bem ponderado, a orla deste cume,
E libero a nuvem que me sustentou, levando-me
Suavemente, em dias claros, sobre terras e mares.
Devagar ela se desprende de mim, sem se dispersar.
Para o Oriente avança a massa em curso condensado;
O olhar, atônito e admirado, segue atrás dela.
Divide-se, mutável, semelhante às ondas, sempre vária.
Mas quer ganhar uma figura. Sim! Meus olhos não me enganam!
Sobre almofadas fulgurantes de sol, soberbamente estendida,
Embora gigantesca, uma forma feminina igual às deusas,
Eu a vejo! Semelhante a Juno, a Leda, a Helena,
Como oscila diante dos meus olhos, majestosa e amável!
Ah! Já se desloca! Informe, larga e acumulada,
Repousa a Oriente, como longínquas montanhas de gelo,
E espelha, deslumbrante, o alto sentido dos dias fugazes.
Mas uma faixa tênue de névoa luminosa ainda me envolve
O peito e a fronte, refrescante, clara e lisonjeira.
Agora sobe leve, hesitante, cada vez mais alto,
E se reúne. Engana-me uma imagem arrebatadora,
Como o mais juvenil, há muito perdido, supremo bem?
Os primeiros tesouros do coração profundo vêm à tona:
O amor de Aurora, seu impulso leve, ela me assinala,
Aquele primeiro olhar, sentido num relâmpago, mal compreendido,
Que, conservado, resplandeceu acima de todo tesouro.
Como beleza da alma, eleva-se a forma encantadora,
Não se desfaz, ascende ao éter
E leva consigo o que há de melhor em meu íntimo.

MEFISTÓFELES:

A isto, enfim, chamo avançar!
Agora, porém, diz-me: que te ocorreu?
Desces ao meio de tamanho horror,
Nesta rocha medonha, aberta em abismos?
Conheço-a bem, embora não neste lugar,
Pois isto era, propriamente, o fundo do inferno.

FAUSTO:

Nunca te faltam lendas insensatas;
Já começas outra vez a distribuí-las.

MEFISTÓFELES:

Quando Deus, o Senhor, e sei muito bem por quê,
Das alturas nos baniu às profundezas mais remotas,
Onde, ardendo no centro, por toda parte,
Um fogo eterno se abrasava em chamas,
Nós nos vimos, sob claridade excessiva,
Em posição apertadíssima e incômoda.
Todos os diabos começaram a tossir,
A soprar por cima e por baixo;
O inferno inchou de fedor de enxofre e ácido,
E que gás aquilo produziu! Cresceu desmesurado,
Até que logo a crosta plana dos países,
Por mais espessa, teve de estalar e romper-se.
Agora temos a coisa pela outra ponta:
O que antes era fundo hoje é cume.
Também daí se fundamentam as doutrinas corretas
De virar o que está embaixo para cima.
Pois escapamos da cova servil e abrasadora
Para o excesso de domínio do ar livre.
Um segredo manifesto, muito bem guardado,
Que somente tarde será revelado aos povos.

FAUSTO:

A massa das montanhas permanece, para mim, nobre e muda;
Não pergunto de onde veio nem por quê.
Quando a natureza se fundou em si mesma,
Arredondou com pureza o globo terrestre,
Alegrou-se com os cumes e com os desfiladeiros,
Alinhou rocha após rocha, monte após monte;
Depois modelou os outeiros descendo comodamente,
E com traço suave os abrandou até o vale.
Ali tudo verdeja e cresce; e, para deleitar-se,
Ela não necessita dessas loucas convulsões.

MEFISTÓFELES:

Assim falais! Para vós parece claro como o sol;
Mas sabe outra coisa quem esteve presente.
Eu estava lá, quando, embaixo, ainda fervente,
O abismo inchava e carregava rios de chamas;
Quando o martelo de Moloch, forjando rocha contra rocha,
Arremessava destroços de montanhas para longe.
A terra ainda se eriçava com massas estrangeiras de quintais;
Quem explica a força de tamanho arremesso?
O filósofo não sabe compreendê-la:
A rocha está ali, é preciso deixá-la onde está;
Já nos cobrimos de vergonha tentando explicá-la.
Somente o povo fiel e simples compreende
E não permite que lhe perturbem o conceito;
Há muito a sabedoria amadureceu para ele:
Foi um milagre, e Satanás recebe a honra.
Meu viajante manca, apoiado na muleta da fé,
Até a Pedra do Diabo e a Ponte do Diabo.

FAUSTO:

É realmente digno de nota observar
Como os diabos contemplam a natureza.

MEFISTÓFELES:

Que me importa! Seja a natureza como for!
É questão de honra: o diabo estava lá!
Nós somos os sujeitos capazes de realizar grandezas:
Tumulto, violência e absurdo! Eis a prova!
Mas, para enfim falar de modo inteiramente claro,
Nada te agradou na superfície que percorremos?
Contemplaste, em extensões sem medida,
Os reinos do mundo e suas magnificências.
Mas, insaciável como és,
Não sentiste desejo de coisa alguma?

FAUSTO:

E, no entanto, algo grandioso me atraiu.
Adivinha!

MEFISTÓFELES:

Isso se faz depressa.
Eu escolheria para mim uma capital,
No coração, o horror alimentar dos burgueses:
Ruelas tortas, frontões pontiagudos,
Mercado apertado, couves, nabos, cebolas;
Bancas de carne onde enxames de moscas se alojam
Para regalar-se com os assados gordurosos;
Ali encontrarás, a qualquer momento,
Sem falta, fedor e atividade.
Depois, vastas praças, ruas largas,
Para ostentar aparência aristocrática;
E, por fim, onde portão algum as restringisse,
Subúrbios prolongados sem limites.
Ali eu me divertiria com carruagens velozes,
Com o rumoroso deslizar de um lado a outro,
Com o eterno correr para lá e para cá
De dispersos formigueiros fervilhantes.
E, quer eu viajasse de coche, quer cavalgasse,
Sempre pareceria estar no centro deles,
Venerado por centenas de milhares.

FAUSTO:

Isso não poderia satisfazer-me.
Alegramo-nos ao ver o povo multiplicar-se,
Alimentar-se comodamente, a seu modo,
Até mesmo formar-se e instruir-se;
Mas assim criamos apenas rebeldes.

MEFISTÓFELES:

Então eu construiria, grandioso e consciente de mim mesmo,
Num lugar aprazível, um palácio para o prazer.
Bosques, colinas, planícies, prados e campos
Seriam esplendidamente convertidos em jardim.
Diante de paredes verdes, tapetes de veludo,
Caminhos em linhas, sombras compostas com arte,
Cascatas que caem, ligando rocha a rocha,
E repuxos de toda espécie;
Ali a água se eleva com dignidade, mas pelos lados
Sibila e mija em mil pequenezas.
Depois mandaria construir, para as mais belas mulheres,
Casas íntimas e confortáveis;
Ali passaria um tempo sem limites,
Numa solidão deliciosamente sociável.
Digo mulheres; pois, de uma vez por todas,
Penso as belas sempre no plural.

FAUSTO:

Vulgar e moderno! Sardanápalo!

MEFISTÓFELES:

Será possível adivinhar aquilo a que aspiravas?
Com certeza era algo elevado e audacioso.
Tu, que pairavas muito mais perto da Lua,
Terias sido atraído para lá por tua ambição?

FAUSTO:

De modo algum! Este círculo terrestre
Ainda oferece espaço para grandes feitos.
Algo digno de assombro há de realizar-se;
Sinto em mim forças para um labor audacioso.

MEFISTÓFELES:

Queres, portanto, conquistar a glória?
Nota-se que vens de uma convivência com heroínas.

FAUSTO:

Conquistarei domínio e propriedade!
A ação é tudo; a glória, nada.

MEFISTÓFELES:

Ainda assim, aparecerão poetas
Para anunciar teu esplendor à posteridade,
Incendiando a insensatez com insensatez.

FAUSTO:

Nada de tudo isso te foi concedido.
Que sabes tu do que o homem deseja?
Tua natureza repulsiva, amarga e cortante,
Que sabe ela daquilo de que o homem necessita?

MEFISTÓFELES:

Pois que se faça segundo a tua vontade!
Confia-me a extensão de tuas fantasias.

FAUSTO:

Meus olhos se voltaram para o alto-mar;
Ele se avolumava, erguendo-se sobre si mesmo,
Depois baixava e derramava as ondas
Para assaltar a ampla extensão da costa plana.
E isso me irritou; como a arrogância,
Pelo sangue agitado violentamente,
Lança o espírito livre, que preza todos os direitos,
No mal-estar da indignação.
Julguei que fosse acaso e aguçei o olhar:
A onda deteve-se e depois tornou a recuar,
Afastou-se do alvo orgulhosamente alcançado;
Chega a hora, e ela repete o jogo.

MEFISTÓFELES:

Não há nisso novidade alguma para mim;
Conheço-o há centenas de milhares de anos.

FAUSTO:

Ela se insinua por milhares e milhares de extremidades,
Estéril em si mesma, para espalhar esterilidade;
Depois incha, cresce, avança e recobre
Com região repugnante a extensão deserta.
Ali, onda sobre onda, governa cheia de forças,
Recua, e nada foi realizado,
Algo capaz de me angustiar até o desespero:
Força sem finalidade de elementos indomáveis!
Então meu espírito ousa elevar-se acima de si mesmo:
Aqui eu gostaria de lutar, isto eu gostaria de vencer.
E é possível! Por mais que se derrame,
Ela contorna, ajustada, cada elevação;
Por mais insolente que venha a agitar-se,
Uma pequena altura ergue-se orgulhosa contra ela,
Uma pequena depressão a atrai poderosamente.
Logo concebi, em meu espírito, plano após plano:
Alcança para ti o mais precioso prazer,
Exclui da costa o mar dominador,
Estreita os limites de sua extensão úmida
E, avançando para longe, força-o a recuar sobre si mesmo.
Passo a passo, soube esclarecer tudo para mim;
Este é o meu desejo: ousa tu favorecê-lo!

MEFISTÓFELES:

Como é fácil! Ouves ao longe os tambores?

FAUSTO:

Outra vez guerra! O sábio não gosta de ouvi-la.

MEFISTÓFELES:

Guerra ou paz. Sábio é o empenho
De extrair de ambas alguma vantagem.
Espia-se, fica-se atento a todo instante favorável.
A ocasião chegou; agora, Fausto, agarra-a!

FAUSTO:

Poupa-me dessas charadas!
Diz, sem rodeios: do que se trata? Explica-te.

MEFISTÓFELES:

Em meu percurso, não me passou despercebido:
O bom Imperador está em grandes apuros.
Tu o conheces. Quando o divertimos
E lhe pusemos nas mãos uma riqueza falsa,
Todo o mundo lhe pareceu estar à venda.
Pois ainda jovem recebeu o trono,
E agradou-lhe concluir, equivocadamente,
Que seria possível conciliar as duas coisas
E que seria muito desejável e belo:
Governar e, ao mesmo tempo, desfrutar.

FAUSTO:

Um grande erro. Quem deve comandar
Precisa encontrar felicidade no comando.
Seu peito deve estar pleno de uma vontade elevada,
Mas nenhum homem pode sondar aquilo que ele quer.
O que murmura ao ouvido dos mais fiéis
É executado, e o mundo inteiro se admira.
Assim será sempre o mais elevado de todos,
O mais digno; o prazer vulgariza.

MEFISTÓFELES:

Ele não é assim. Desfrutou, e de que maneira!
Enquanto isso, o Império desfez-se em anarquia,
Onde grandes e pequenos se combatiam em todas as direções,
E irmãos expulsavam e matavam irmãos,
Castelo contra castelo, cidade contra cidade,
Corporação contra nobreza em contenda,
O bispo contra o cabido e a comunidade;
Bastava que dois se olhassem para serem inimigos.
Nas igrejas, assassinatos e mortes; diante das portas,
Todo mercador e viajante estava perdido.
E a ousadia de todos cresceu bastante,
Pois viver significava defender-se. E assim foi indo.

FAUSTO:

Foi indo, sim: manquejou, caiu, tornou a levantar-se,
Depois capotou e rolou pesadamente, amontoando-se.

MEFISTÓFELES:

E ninguém podia censurar tal estado;
Cada qual podia e queria ter importância.
Até o menor se julgava completo.
Mas, por fim, tudo ficou excessivo até para os melhores.
Os homens capazes ergueram-se com energia
E disseram: senhor é aquele que nos traz tranquilidade.
O Imperador não pode, não quer; elejamos
Um novo imperador que insufle nova vida ao Império,
Que ofereça segurança a cada um
Num mundo recém-criado
E una paz e justiça.

FAUSTO:

Isso soa bastante clerical.

MEFISTÓFELES:

E eram clérigos, de fato;
Tratavam de proteger o próprio ventre bem alimentado.
Estavam envolvidos mais que todos os outros.
A revolta cresceu, a revolta foi santificada;
E nosso Imperador, a quem tornamos feliz,
Retira-se para cá, talvez para a última batalha.

FAUSTO:

Ele me causa pena; era tão bom e franco.

MEFISTÓFELES:

Vem, vamos ver! Quem vive deve ter esperança.
Libertemo-lo deste vale estreito!
Salvo uma vez, estará salvo por mil.
Quem sabe como ainda cairão os dados?
E, se tiver sorte, terá também vassalos.

MEFISTÓFELES:

A posição, pelo que vejo, foi bem escolhida;
Se entrarmos em ação, a vitória estará completa.

FAUSTO:

O que se pode esperar disso?
Fraude! Ilusão mágica! Aparência vazia.

MEFISTÓFELES:

Estratégia de guerra, para vencer batalhas!
Firma-te em grandes propósitos,
Mantendo em mente o teu objetivo.
Se conservarmos para o Imperador o trono e as terras,
Tu te ajoelharás e receberás
Como feudo uma costa sem limites.

FAUSTO:

Já passaste por muitas aventuras;
Pois bem, vence também uma batalha!

MEFISTÓFELES:

Não, tu a vencerás! Desta vez
Serás o comandante supremo.

FAUSTO:

Seria uma bela elevação para mim:
Dar ordens naquilo que não compreendo!

MEFISTÓFELES:

Deixa que o estado-maior se ocupe disso,
E o marechal de campo estará a salvo.
Há muito farejei os resíduos da guerra
E formei antecipadamente o conselho militar
Com a força humana primordial das montanhas primitivas;
Feliz daquele que consegue reuni-la.

FAUSTO:

O que vejo ali, carregando armas?
Sublevaste o povo das montanhas?

MEFISTÓFELES:

Não! Mas, como o senhor Peter Quince,
Extraí de toda a ralé a quintessência.

MEFISTÓFELES:

Aí vêm os meus rapazes!
Como vês, chegam com idades muito diversas,
Vestidos e armados de maneiras diferentes;
Não te sairás mal com eles.
Hoje em dia, toda criança gosta
Da armadura e da gola de cavaleiro;
E, alegóricos como são esses patifes,
Serão ainda mais agradáveis.

BRIGÃO:

Se alguém me olhar nos olhos,
Logo lhe acertarei a cara com o punho;
E o covarde que fugir
Será agarrado pelos últimos fios de cabelo.

APANHA-RÁPIDO:

Contendas vazias não passam de palhaçada;
Com isso se desperdiça o dia.
Sê incansável somente em tomar;
Depois pergunta por todo o resto.

SEGURA-FIRME:

Também assim não se ganha grande coisa!
Logo uma grande fortuna se dissipa,
Descendo ruidosamente pelo rio da vida.
Tomar é muito bom, sem dúvida; mas melhor é conservar.
Deixa apenas que o velho aja,
E ninguém te tirará coisa alguma.

SOBRE O CONTRAFORTE DA MONTANHA

COMANDANTE SUPREMO:

Ainda me parece bem ponderada a decisão
De fazer recuar todo o exército
E concentrá-lo neste vale favorável;
Confio firmemente que a escolha nos será propícia.

IMPERADOR:

Como tudo há de correr, ainda se verá;
Mas desagrada-me esta meia fuga, este recuo.

COMANDANTE SUPREMO:

Olha aqui, meu Príncipe, para nosso flanco direito!
Um terreno assim é o que deseja o pensamento militar:
As colinas não são íngremes, mas tampouco muito acessíveis,
Vantajosas aos nossos, traiçoeiras para o inimigo;
Nós, meio ocultos num terreno ondulado;
A cavalaria não se atreve a aproximar-se.

IMPERADOR:

Nada me resta senão elogiar;
Aqui braço e peito podem pôr-se à prova.

COMANDANTE SUPREMO:

Aqui, no espaço plano do prado central,
Vês a falange, bem-disposta para a luta.
As lanças cintilam, faiscando no ar,
Ao brilho do sol, entre a névoa matinal.
Como ondeia escuro o poderoso quadrado!
Aos milhares, arde aqui o desejo de um grande feito.
Nele podes reconhecer a força da massa;
Confio que seja capaz de romper a força inimiga.

IMPERADOR:

É a primeira vez que contemplo visão tão bela.
Um exército assim vale por dois.

COMANDANTE SUPREMO:

De nossa esquerda, nada tenho a relatar:
Heróis valorosos ocupam a rocha inflexível,
E o penhasco, agora faiscando de armas,
Protege o passo vital da garganta estreita.
Já pressinto que aqui as forças inimigas
Fracassarão inesperadamente no sangrento embate.

IMPERADOR:

Lá avançam eles, os falsos parentes,
Que me chamavam tio, primo, irmão,
E cada vez mais se permitiam,
Roubando força ao cetro e reverência ao trono;
Depois, divididos entre si, devastaram o Império
E agora, todos juntos, rebelam-se contra mim.
A multidão oscila, de espírito indeciso,
Depois corre para onde a corrente a arrasta.

COMANDANTE SUPREMO:

Um homem leal, enviado em reconhecimento,
Desce apressado pela rocha; que tenha sido bem-sucedido!

PRIMEIRO BATEDOR:

Com êxito conseguimos
Empregar nossa arte, astuta e audaz,
Penetrando de um lado e de outro;
Mas trazemos pouco favor.
Muitos juram pura fidelidade
A ti, como tantos grupos leais;
Contudo, alegam como desculpa da inação:
Fermentação interna, perigo popular.

IMPERADOR:

Preservar a si mesmo continua sendo a doutrina do egoísmo,
Não gratidão nem afeição, dever ou honra.
Não pensais, ao concluir vossos cálculos,
Que o incêndio da casa vizinha há de consumir-vos?

COMANDANTE SUPREMO:

Chega o segundo, descendo apenas devagar;
Todos os membros tremem no homem exausto.

SEGUNDO BATEDOR:

Primeiro contemplamos, satisfeitos,
O curso errante da desordem selvagem;
Inesperado, sem demora,
Surgiu um novo imperador.
E por caminhos prescritos
A multidão atravessa a campina;
Às bandeiras da mentira, desfraldadas,
Todos seguem. Natureza de ovelhas!

IMPERADOR:

Um contraimperador vem em meu benefício:
Somente agora sinto que sou o Imperador.
Vesti a armadura apenas como soldado,
Mas agora ela serve a um propósito mais elevado.
Em cada festa, por mais esplêndida que fosse,
Nada faltava; a mim faltava o perigo.
Por mais que fôsseis contra isso, eu cavalgava nos torneios;
Meu coração pulsava, eu respirava combate.
E, se não me tivésseis desaconselhado a guerra,
Já resplandeceria em claras façanhas heroicas.
Senti meu peito selado pela independência
Quando me contemplei naquele reino de fogo;
O elemento investiu horrivelmente contra mim,
Era apenas aparência, mas a aparência era grandiosa.
Sonhei, confuso, com vitória e glória;
Agora reparo aquilo que criminosamente negligenciei.

FAUSTO:

Aproximamo-nos e esperamos não ser censurados;
Mesmo sem necessidade, a prudência sempre teve valor.
Sabes que o povo das montanhas pensa e medita,
Versado na escrita da natureza e das rochas.
Os espíritos, há muito afastados das planícies,
Sentem-se mais atraídos que nunca pelas montanhas.
Atuam em silêncio por fendas labirínticas,
No nobre gás de vapores ricos em metais;
Separar, examinar e combinar sem cessar,
Seu único impulso é inventar coisas novas.
Com o dedo sutil de forças espirituais,
Constroem formas transparentes;
Então, no cristal e em seu silêncio eterno,
Contemplam os acontecimentos do mundo superior.

IMPERADOR:

Já ouvi falar disso e acredito em ti;
Mas, homem valoroso, diz-me: para que serve aqui?

FAUSTO:

O necromante de Núrsia, o sabino,
É teu servidor fiel e honrado.
Que destino terrível e monstruoso o ameaçou!
Os gravetos estalavam, o fogo já lançava suas línguas;
As achas secas, entrecruzadas ao redor,
Misturadas a piche e varetas de enxofre;
Nem homem, nem Deus, nem diabo poderia salvá-lo,
Mas a Majestade rompeu as correntes incandescentes.
Foi em Roma. Ele te permanece profundamente obrigado,
E acompanha teus passos sempre com inquietação.
Desde aquela hora, esqueceu-se por completo de si mesmo;
Consulta as estrelas e as profundezas somente por ti.
Incumbiu-nos, como tarefa mais urgente,
De permanecer ao teu lado. Grandes são as forças da montanha;
Ali a natureza atua livre, com poder excessivo,
E a estupidez dos padres chama isso de feitiçaria.

IMPERADOR:

Num dia de alegria, quando saudamos os convidados
Que chegam alegres para alegremente desfrutar,
Cada um nos agrada ao avançar e apertar-se,
E, homem após homem, reduzir o espaço dos salões.
Mas acolhido acima de todos deve ser o homem honrado
Que se apresenta como vigoroso aliado
Na hora matinal, carregada de apreensão,
Porque sobre ela paira a balança do destino.
Contudo, neste instante elevado,
Afastai a mão forte da espada voluntariosa;
Honrai o momento em que tantos milhares avançam
Para lutar a meu favor ou contra mim.
O homem deve bastar-se! Quem deseja trono e coroa
Deve mostrar-se pessoalmente digno de tais honras.
Que o espectro erguido contra nós,
Que se chama Imperador e senhor de nossas terras,
Comandante do exército e senhor feudal de nossos grandes,
Seja lançado por meu próprio punho no reino dos mortos!

FAUSTO:

Seja como for, para concluir a grande empresa,
Não fazes bem em arriscar assim tua cabeça.
O elmo não está adornado de crista e penacho?
Ele protege a cabeça que inspira nossa coragem.
Sem cabeça, que poderiam realizar os membros?
Quando ela adormece, todos tombam;
Se é ferida, todos ficam feridos,
E erguem-se renovados quando ela depressa se restabelece.
O braço sabe logo exercer seu vigoroso direito:
Ergue o escudo para proteger o crânio;
A espada imediatamente reconhece seu dever,
Desvia com força e repete o golpe;
O pé vigoroso participa de sua ventura
E pisa com energia a nuca do abatido.

IMPERADOR:

Assim é minha ira; assim eu gostaria de tratá-lo,
Transformando aquela cabeça orgulhosa em apoio para os pés!

ARAUTOS:

Pouca honra e pouca consideração
Recebemos do outro lado;
De nossa declaração forte e nobre
Riram como de uma farsa insípida:

“Vosso Imperador desapareceu,
Eco perdido no vale estreito;
Caso ainda devamos recordá-lo,
Diz a história: era uma vez.”

FAUSTO:

O desejo dos melhores foi cumprido,
Dos que permanecem firmes e leais ao teu lado.
Ali se aproxima o inimigo, e os teus esperam ardentemente;
Ordena o ataque: o momento é favorável.

IMPERADOR:

Renuncio aqui ao comando.
Em tuas mãos, Príncipe, esteja o cumprimento do dever.

COMANDANTE SUPREMO:

Que avance, pois, o flanco direito!
A esquerda inimiga, que neste instante sobe,
Antes que possa dar o último passo,
Há de ceder à força juvenil da fidelidade provada.

FAUSTO:

Permite então que este herói jovial
Se incorpore sem demora às tuas fileiras,
Una-se intimamente a elas
E, assim associado, exerça seu vigor.

BRIGÃO:

Quem me mostrar o rosto não tornará a escondê-lo
Senão com as faces de cima e de baixo quebradas;
Quem me der as costas logo terá pendentes,
Sem força, pescoço, cabeça e cabelos pela nuca.
E, se teus homens golpearem então
Com espada e clava como eu me enfureço,
O inimigo cairá, homem sobre homem,
Afogado no próprio sangue.

COMANDANTE SUPREMO:

Que a falange de nosso centro avance devagar,
E enfrente o inimigo, prudente, com toda a força;
Um pouco à direita, onde, já enfurecida,
A força combativa dos nossos rompeu seu plano.

FAUSTO:

Que este também siga, então, tua ordem!
É ágil e arrasta tudo consigo.

APANHA-RÁPIDO:

À coragem heroica das tropas imperiais
Deve unir-se a sede de pilhagem;
E a todos seja fixado o alvo:
A rica tenda do contraimperador.
Não se gabará por muito tempo em seu assento;
Eu me ponho à frente da falange.

SAQUE-RÁPIDO:

Embora eu não seja sua esposa,
Ele continua sendo meu amante predileto.
Que colheita amadureceu para nós!
A mulher é feroz quando agarra,
Não tem piedade quando saqueia;
Avante na vitória! Tudo é permitido.

COMANDANTE SUPREMO:

Sobre nossa esquerda, como era de prever,
A direita inimiga se lança com vigor. Resistirá
Homem contra homem ao ataque furioso
Que busca conquistar o passo estreito da trilha rochosa.

FAUSTO:

Peço, senhor, que também repares neste;
Não faz mal quando os fortes se fortalecem.

SEGURA-FIRME:

Nenhuma preocupação com o flanco esquerdo!
Onde estou, a posse permanece segura;
Nele o velho prova o que vale,
Relâmpago algum parte aquilo que seguro.

MEFISTÓFELES:

Vede agora como, ao fundo,
De cada garganta de rocha recortada,
Homens armados irrompem em massa
Para estreitar os caminhos estreitos;
Com elmo e armadura, espadas e escudos,
Formam em nossa retaguarda uma muralha,
Esperando o sinal para atacar.
Não deveis perguntar de onde vêm.
Naturalmente, não perdi tempo
E esvaziei os salões de armas ao redor;
Ali estavam eles, a pé e a cavalo,
Como se ainda fossem senhores da Terra;
Outrora foram cavaleiros, reis, imperadores,
Agora não passam de carapaças vazias;
Mais de um espectro vestiu-se com elas
E reanimou vivamente a Idade Média.
Seja qual for o diabrete escondido lá dentro,
Desta vez ainda produz efeito.
Ouvi como se enfurecem de antemão,
Batendo uns contra os outros com estrépito de metal!
Também esvoaçam farrapos de bandeiras junto aos estandartes,
Que há muito aguardavam, impacientes, uma brisa fresca.
Considerai: aqui está pronto um povo antigo
Que de bom grado se mistura também à luta moderna.

FAUSTO:

O horizonte escureceu,
Apenas aqui e ali cintila, significativo,
Um clarão vermelho, cheio de presságios;
As armas já brilham ensanguentadas;
A rocha, a floresta, a atmosfera,
Todo o céu toma parte.

MEFISTÓFELES:

O flanco direito se mantém vigoroso;
Mas vejo, elevando-se entre eles,
Hans Brigão, o gigante ágil,
Atarefado depressa, à sua maneira.

IMPERADOR:

Primeiro vi um braço levantado,
Agora já vejo uma dúzia agitando-se;
Isso não acontece conforme a natureza.

FAUSTO:

Nunca ouviste falar de faixas de névoa
Que vagueiam pelas costas da Sicília?
Ali, oscilando límpidas à luz do dia,
Elevadas aos ares intermediários,
Refletidas em vapores singulares,
Surge uma visão estranha:
Cidades vacilam de um lado a outro,
Jardins sobem e descem,
Enquanto imagem após imagem rompe o éter.

IMPERADOR:

Mas como é inquietante! Vejo cintilar
Todas as pontas das lanças erguidas;
Sobre as hastes polidas de nossa falange
Vejo pequenas chamas dançarem com agilidade.
Isso me parece por demais espectral.

FAUSTO:

Perdoa, senhor; são vestígios
De naturezas espirituais desaparecidas,
Um reflexo dos Dióscuros,
Por quem todos os marinheiros juravam;
Aqui reúnem sua última força.

IMPERADOR:

Mas diz: a quem somos devedores
Por a natureza, voltada para nós,
Reunir as coisas mais extraordinárias?

MEFISTÓFELES:

A quem, senão ao mestre, àquele sublime,
Que traz teu destino dentro do peito?
As ameaças poderosas de teus inimigos
Agitaram-no nas profundezas.
Sua gratidão quer ver-te salvo,
Ainda que ele próprio pereça nisso.

IMPERADOR:

Aclamaram-me, conduzindo-me com pompa;
Eu já era alguma coisa e quis experimentar isso também,
E achei oportuno, sem pensar muito,
Dar ao homem de barba branca um pouco de ar fresco.
Estraguei uma alegria do clero
E, naturalmente, não conquistei sua benevolência.
Deverei agora, depois de tantos anos,
Experimentar o efeito daquele gesto alegre?

FAUSTO:

A boa ação generosa rende frutos abundantes;
Volta teus olhos para o alto!
Parece-me que ele quer enviar um sinal;
Presta atenção, logo revelará seu sentido.

IMPERADOR:

Uma águia paira nas alturas do céu,
E um grifo a segue com ameaça selvagem.

FAUSTO:

Presta atenção: parece-me muito favorável.
O grifo é um animal fabuloso;
Como pôde esquecer-se a tal ponto
De medir forças com uma águia verdadeira?

IMPERADOR:

Agora, traçando círculos amplos,
Contornam-se mutuamente; no mesmo instante
Lançam-se um contra o outro,
Para rasgar peitos e pescoços.

FAUSTO:

Observa agora como o odioso grifo,
Dilacerado, depenado, só encontra prejuízo
E, com a cauda de leão caída,
Despenca e desaparece na floresta do cume.

IMPERADOR:

Que assim seja feito, conforme interpretado!
Recebo o sinal com assombro.

MEFISTÓFELES:

Sob golpes insistentes e repetidos,
Nossos inimigos precisam recuar,
E, combatendo sem firmeza,
Comprimem-se para a própria direita
E, assim, no embate, desorganizam
O lado esquerdo de sua força principal.
A ponta firme de nossa falange
Desloca-se para a direita e, como o relâmpago,
Investe contra o ponto fraco.
Agora, como ondas levantadas pela tempestade,
Faiscando, forças iguais se enfurecem
Selvagemente num combate duplo;
Nada mais magnífico poderia ser concebido:
Esta batalha está ganha para nós!

IMPERADOR:

Olha! Ali me parece inquietante;
Nosso posto se encontra em perigo.
Não vejo pedra alguma sendo lançada;
As rochas inferiores foram escaladas,
E as superiores já estão abandonadas.
Agora! O inimigo, em massas inteiras,
Avançando cada vez mais perto,
Talvez tenha conquistado o passo,
Êxito final de um esforço profano!
Vossas artes foram inúteis.

MEFISTÓFELES:

Aí vêm meus dois corvos;
Que notícia poderão trazer?
Temo que as coisas estejam mal para nós.

IMPERADOR:

Para que servem essas aves repugnantes?
Dirigem suas velas negras
Para cá, vindas do ardente combate nas rochas.

MEFISTÓFELES:

Pousai bem perto dos meus ouvidos.
Aquele a quem protegeis não está perdido,
Pois vosso conselho segue boa lógica.

FAUSTO:

Já ouviste falar de pombos
Que vêm das terras mais distantes
Em busca do ninho, da cria e do alimento.
Aqui há diferenças importantes:
O correio dos pombos serve à paz;
A guerra ordena o correio dos corvos.

MEFISTÓFELES:

Anuncia-se um grave infortúnio:
Olhai! Percebei o aperto
Junto à borda rochosa de nossos heróis!
As alturas mais próximas foram escaladas
E, caso conquistem o passo,
Nossa posição será difícil.

IMPERADOR:

Então afinal fui enganado!
Atraístes-me para a rede;
Horrorizo-me desde que ela me envolveu.

MEFISTÓFELES:

Coragem! Ainda não fracassamos.
Paciência e astúcia para o último nó!
Em geral, é no fim que tudo se torna agudo.
Tenho meus mensageiros seguros;
Ordenai que eu tenha permissão para ordenar!

COMANDANTE SUPREMO:

Aliaste-te a esses homens,
E isso me atormentou o tempo inteiro;
Prestidigitação não produz felicidade duradoura.
Nada sei fazer para mudar a batalha;
Eles a começaram, que eles a terminem;
Devolvo meu bastão.

IMPERADOR:

Conserva-o para tempos melhores,
Que talvez a fortuna ainda nos conceda.
Estremeço diante desse sujeito repulsivo
E de sua intimidade com os corvos.
Não posso entregar-te o bastão;
Não pareces ser o homem adequado.
Ordena e procura libertar-nos!
Aconteça o que puder acontecer.

MEFISTÓFELES:

Que o bastão rombudo o proteja!
Para nós outros teria pouca utilidade;
Havia nele algo semelhante a uma cruz.

FAUSTO:

O que há a fazer?

MEFISTÓFELES:

Já está feito!
Agora, primos negros, rápidos no serviço,
Ao grande lago da montanha! Saudai por mim as ondinas
E pedi-lhes a aparência de suas águas.
Por artes femininas, difíceis de compreender,
Elas sabem separar do ser a aparência,
E cada um jura que a aparência é o ser.

FAUSTO:

Nossos corvos devem ter lisonjeado
As donzelas das águas desde o fundo;
Ali já começa a gotejar.
Em mais de um trecho seco e nu da rocha
Irrompe uma fonte cheia e veloz;
A vitória deles está perdida.

MEFISTÓFELES:

É uma saudação maravilhosa;
Os escaladores mais audazes ficam confusos.

FAUSTO:

Já um regato desce, ruidoso, engrossando em outros regatos;
Dos desfiladeiros eles retornam duplicados,
E agora uma torrente lança seu arco de água;
De súbito se estende pela larga superfície plana da rocha,
Ruge e espuma para um lado e para o outro
E, em degraus, precipita-se para o vale.
De que serve resistir com valentia heroica?
A onda poderosa avança para arrastá-los.
Eu mesmo estremeço diante de tamanho ímpeto selvagem.

MEFISTÓFELES:

Nada vejo dessas mentiras aquáticas;
Somente os olhos humanos se deixam enganar,
E o caso extraordinário me diverte.
Eles se precipitam em bandos inteiros;
Os tolos imaginam que estão se afogando,
Enquanto respiram livremente sobre terra firme
E correm, ridículos, fazendo gestos de nadadores.
Agora a confusão está por toda parte.
Hei de elogiá-los diante do grande mestre;
E, se agora quiserdes provar-vos como mestres,
Correi para a forja incandescente,
Onde o povo dos anões, nunca fatigado,
Arranca faíscas do metal e da pedra.
Pedi, envolvendo-os numa longa conversa,
Um fogo que brilhe, cintile e estoure,
Como se concebe em sentido elevado.
É verdade que relâmpagos de calor na distância imensa
E a queda, rápida aos olhos, das estrelas mais altas
Podem ocorrer em qualquer noite de verão;
Mas relâmpagos entre arbustos emaranhados
E estrelas que chiam sobre o solo úmido
Não se veem com tanta facilidade.
Assim deveis, sem vos atormentar muito,
Primeiro pedir e depois ordenar.

MEFISTÓFELES:

Densas trevas sobre os inimigos!
Passos e marchas rumo ao incerto!
Fagulhas errantes por todos os lados,
Um clarão súbito para cegar!
Tudo isso seria magnífico;
Agora, porém, ainda precisamos de sons de terror.

FAUSTO:

As armaduras ocas, retiradas das criptas dos salões,
Sentem-se fortalecidas no ar livre;
Lá no alto, há muito já batem e rangem,
Produzindo um som estranho e falso.

MEFISTÓFELES:

Perfeitamente! Já não se deixam refrear;
O estrépito de pancadas cavaleirescas já ressoa,
Como nos bons e velhos tempos.
Braçadeiras e grevas,
Como guelfos e gibelinos,
Renovam depressa o eterno conflito.
Firmes, habituados ao espírito herdado,
Mostram-se irreconciliáveis;
O tumulto já ressoa por toda parte.
Por fim, em todas as festas diabólicas,
O ódio partidário produz o melhor efeito,
Até o horror derradeiro;
Ecoa, repulsivamente repetido, em pânico,
Por vezes estridente e agudo, satânico,
Espalhando terror pelo vale.

TENDA DO CONTRAIMPERADOR

SAQUE-RÁPIDO:

Então fomos mesmo os primeiros a chegar!

APANHA-RÁPIDO:

Corvo algum voa tão depressa quanto nós.

SAQUE-RÁPIDO:

Oh! Que tesouro está aqui amontoado!
Por onde começo? Onde termino?

APANHA-RÁPIDO:

Todo o espaço está tão cheio!
Não sei em que devo pôr as mãos.

SAQUE-RÁPIDO:

Esse tapete me serviria muito bem;
Meu leito costuma ser péssimo.

APANHA-RÁPIDO:

Aqui está pendurada uma maça-estrela de aço;
Há muito eu desejava uma assim.

SAQUE-RÁPIDO:

O manto vermelho, debruado de ouro,
Era exatamente o que eu sonhava.

APANHA-RÁPIDO:

Isso se resolve depressa:
Mata-se o dono e segue-se adiante.
Já empacotaste tanta coisa
E ainda não guardaste nada que preste.
Deixa essa tralha onde está;
Leva uma destas caixinhas!
Este é o soldo reservado ao exército,
E em seu ventre há somente ouro.

SAQUE-RÁPIDO:

Isso tem um peso assassino!
Não consigo levantá-la nem carregá-la.

APANHA-RÁPIDO:

Abaixa-te depressa! Tens de te curvar!
Eu a ponho sobre tuas costas fortes.

SAQUE-RÁPIDO:

Ai! Ai! Agora estou perdida!
A carga parte minha espinha ao meio.

APANHA-RÁPIDO:

Ali está o ouro vermelho, todo amontoado;
Depressa, aproxima-te e recolhe-o!

SAQUE-RÁPIDO:

Depressa, tudo para dentro do avental!
Ainda assim teremos mais que o bastante.

APANHA-RÁPIDO:

Já chega! Agora anda depressa!
Ai, o avental tem um buraco!
Por onde passas e onde paras,
Espalhas os tesouros como uma esbanjadora.

GUARDAS DO IMPERADOR RIVAL:

O que fazeis aqui neste lugar sagrado?
Por que remexeis o tesouro imperial?

APANHA-RÁPIDO:

Pusemos nossos membros em risco
E viemos buscar nossa parte do saque.
É costume nas tendas inimigas,
E nós também somos soldados.

GUARDAS:

Isso não combina com nossas fileiras:
Ser ao mesmo tempo soldado e ralé de ladrões.
Quem se aproxima de nosso Imperador
Deve ser um soldado honrado.

APANHA-RÁPIDO:

Essa honestidade já é bem conhecida:
Chama-se contribuição de guerra.
Todos vós estais no mesmo nível:
Entrega! Essa é a saudação do ofício.
Sai da frente e carrega o que tens;
Aqui não somos hóspedes bem-vindos.

PRIMEIRO GUARDA:

Diz-me por que não deste imediatamente
Um tapa na cara daquele sujeito insolente.

SEGUNDO GUARDA:

Não sei; minhas forças desapareceram,
Eles eram tão espectrais.

TERCEIRO GUARDA:

Minha vista ficou turva;
Tudo cintilava, e eu não enxergava direito.

QUARTO GUARDA:

Nem sei como explicar:
O dia inteiro esteve tão quente,
Tão angustiante, tão abafado e opressivo;
Um permanecia de pé, outro caía,
Tateávamos e atacávamos ao mesmo tempo,
E o adversário tombava a cada golpe.
Diante dos olhos pairava uma espécie de véu,
Depois zumbia, rugia e chiava nos ouvidos;
Foi assim até o fim. Agora estamos aqui
E nem nós mesmos sabemos como aconteceu.

IMPERADOR:

Seja como for! A batalha foi vencida por nós;
A fuga dispersa do inimigo dissolveu-se no campo aberto.
Aqui está o trono vazio, tesouro traiçoeiro,
Cercado de tapetes que estreitam o espaço ao redor.
Nós, protegidos com honra por nossos próprios guardas,
Esperamos, como Imperador, os enviados dos povos;
De todos os lados chegam notícias felizes:
O Império está pacificado e novamente nos é fiel.
Embora alguma ilusão tenha se misturado ao combate,
No fim fomos somente nós que lutamos.
Os acasos favorecem aquele que combate:
Do céu cai uma pedra, sobre o inimigo chove sangue,
Das cavernas das rochas ressoam poderosos sons miraculosos,
Que elevam nosso peito e oprimem o peito inimigo.
O vencido caiu, entregue a um escárnio sempre renovado;
O vencedor, em seu esplendor, louva o Deus favorável.
E todos se unem, sem que ele precise ordenar:
“Senhor Deus, nós te louvamos!”, vindo de milhões de vozes.
Contudo, para o louvor mais elevado, volto o olhar devoto,
Algo que raramente fiz, para meu próprio peito.
Um príncipe jovem e alegre pode desperdiçar seus dias;
Os anos lhe ensinam o significado do instante.
Por isso, sem demora, associo-me agora
A vós quatro, dignitários de casa, corte e Império.
Tua foi, ó Príncipe, a disposição ordenada e prudente do exército,
E depois, no momento decisivo, a direção heroica e audaz.
Agora, na paz, atua conforme a época exige;
Nomeio-te Arquimarechal e concedo-te a espada.

ARQUIMARECHAL:

Teu exército fiel, até agora ocupado no interior,
Quando fortalecer na fronteira a ti e a teu trono,
Que então nos seja permitido, entre o tumulto festivo,
Preparar-te o banquete no salão do espaçoso castelo dos antepassados.
Reluzente, eu o levarei diante de ti e o manterei ao teu lado,
Para acompanhar eternamente a suprema Majestade.

IMPERADOR:

Tu, que te mostras homem valente e também delicadamente cortês,
Sê Arquicamareiro; a incumbência não é leve.
Serás o superior de todos os servidores da casa,
Entre cujas disputas internas encontro maus criados.
Que teu exemplo seja, de agora em diante, honrosamente estabelecido,
Mostrando como se agrada ao senhor, à corte e a todos.

ARQUICAMAREIRO:

Favorecer o grande propósito do senhor conduz à graça:
Ser útil aos melhores e não causar dano nem mesmo aos maus,
Ser claro sem astúcia e sereno sem falsidade.
Se tu, senhor, me enxergas por inteiro, isso já me basta.
Pode a fantasia estender-se até aquela festa?
Quando fores à mesa, eu te oferecerei a bacia dourada
E guardarei teus anéis, para que, na hora do prazer,
Tua mão se refresque como teu olhar me alegra.

IMPERADOR:

É verdade que me sinto sério demais para pensar em festas,
Mas que seja! Um começo alegre também favorece.
Escolho-te como Arquisenescal! De agora em diante
Ficarão sob teu comando a caça, o galinheiro e as propriedades rurais;
Deixa-me sempre a escolha dos pratos prediletos,
Conforme os traz cada mês, e manda prepará-los com cuidado.

ARQUISENESCAL:

Que o jejum rigoroso seja para mim o mais agradável dever,
Até que um bom prato, colocado diante de ti, te satisfaça.
Os servidores da cozinha devem unir-se a mim
Para trazer o que está distante e antecipar as estações.
Não te seduzem o longínquo e o prematuro que ornamentam a mesa;
É o simples e vigoroso que teu espírito deseja.

IMPERADOR:

Já que aqui, inevitavelmente, só se fala de festas,
Tu, jovem herói, passa a ocupar-te das bebidas.
Arquicopero, cuida agora para que nossa adega
Fique abundantemente provida de bom vinho.
Sê tu mesmo moderado; não permitas que, acima da alegria,
A sedução da oportunidade te faça perder o controle!

ARQUICOPERO:

Meu Príncipe, a própria juventude, quando se confia nela,
Antes que se perceba, amadurece em homens.
Também eu me transporto àquela grande festa;
Ornamentarei da melhor maneira um bufê imperial
Com magníficos recipientes, todos de ouro e prata;
Mas escolherei antes para ti a taça mais agradável:
Um vidro veneziano reluzente, no qual o prazer repousa,
Que intensifica o sabor do vinho e jamais embriaga.
Muitas vezes se confia demais em tesouro tão milagroso;
Mas tua moderação, ó Supremo, protege ainda mais.

IMPERADOR:

Aquilo que vos destinei nesta hora grave
Ouvistes com confiança de boca segura.
A palavra do Imperador é grandiosa e garante toda dádiva;
Mas, para confirmá-la, é necessário o nobre documento,
É necessária a assinatura. E, para prepará-lo formalmente,
Vejo chegar, no momento exato, o homem adequado.

IMPERADOR:

Quando uma abóbada se entrega à pedra angular,
Fica construída com segurança por toda a eternidade.
Vês aqui quatro príncipes! Acabamos de discutir
O que favorece primeiro a estabilidade da casa e da corte.
Agora, porém, aquilo que sustenta o Império inteiro
Seja confiado, com autoridade e força, ao número de cinco.
Em terras, eles devem brilhar acima de todos os demais;
Por isso ampliarei imediatamente os limites de suas posses
Com a herança daqueles que se afastaram de nós.
A vós, fiéis, concedo muitas terras excelentes,
E também o elevado direito de vos expandirdes ainda mais,
Conforme as oportunidades, por sucessão, compra e troca.
Que também fique determinado e permitido exercer sem impedimento
Tudo o que pertence por direito a vós, senhores territoriais.
Como juízes, proferireis as sentenças definitivas;
De vossas instâncias supremas não haverá apelação.
Impostos, juros e contribuições, feudos, salvo-condutos e alfândegas,
Direitos de minas, sal e cunhagem vos pertencerão.
Pois, para demonstrar plenamente minha gratidão,
Elevei-vos ao lugar mais próximo da Majestade.

ARCEBISPO:

Em nome de todos, seja-te oferecido o mais profundo agradecimento!
Tu nos tornas fortes e firmes e fortaleces teu próprio poder.

IMPERADOR:

A vós cinco desejo conceder dignidade ainda mais elevada.
Ainda vivo para meu Império e desejo continuar vivendo;
Mas a cadeia dos altos antepassados conduz o olhar prudente
Da atividade apressada para aquilo que ameaça ao fundo.
Também eu, em seu tempo, me separarei dos que me são queridos;
Será então vosso dever nomear o sucessor.
Erguei-o coroado sobre o altar sagrado,
E que termine em paz aquilo que agora foi tão tempestuoso.

ARQUICHANCELER:

Com orgulho no fundo do peito e humildade nos gestos,
Permanecem diante de ti, curvados, os primeiros príncipes da Terra.
Enquanto o sangue fiel pulsar nas veias cheias,
Somos o corpo que tua vontade facilmente movimenta.

IMPERADOR:

E assim, por fim, aquilo que até agora realizamos
Fique confirmado por escrita e assinatura para todo o futuro.
É verdade que possuís os bens com plena liberdade de senhores,
Mas sob a condição de que permaneçam indivisíveis.
E tudo quanto aumentardes daquilo que de nós recebestes
Será herdado, na mesma medida, pelo filho mais velho.

ARQUICHANCELER:

Confiarei imediatamente ao pergaminho, de bom grado,
Para a felicidade do Império e nossa, este estatuto importantíssimo;
A chancelaria cuidará da cópia definitiva e do selo,
E tu, senhor, o confirmarás com a assinatura sagrada.

IMPERADOR:

E assim vos dispenso, para que cada um, recolhido,
Possa refletir sobre este grande dia.

O ECLESIÁSTICO:

O Chanceler partiu; o Bispo permaneceu,
Impelido por um grave espírito de advertência até teu ouvido!
Seu coração paterno se angustia de preocupação por ti.

IMPERADOR:

Que inquietação tens nesta hora feliz? Fala!

ARCEBISPO:

Com que amarga dor descubro, nesta hora,
Tua cabeça altamente consagrada aliada a Satanás!
Embora, ao que parece, segura no trono,
Infelizmente, para escárnio de Deus, o Senhor, e do Santo Padre.
Quando ele souber, rapidamente pronunciará severa sentença,
E com o raio sagrado destruirá teu Império pecador.
Pois ainda não esqueceu que tu, no momento supremo,
No dia de tua coroação, libertaste o feiticeiro.
De teu diadema, para dano da cristandade,
O primeiro raio da graça atingiu a cabeça amaldiçoada.
Mas bate no peito e devolve imediatamente ao santuário,
De tua felicidade sacrílega, uma modesta parcela:
A extensa região de colinas onde esteve tua tenda,
Onde maus espíritos se uniram para proteger-te,
Onde deste ouvido obediente ao príncipe da mentira,
Consagra-a, piedosamente instruído, a uma obra sagrada;
Com a montanha e a floresta densa, até onde se estendam,
Com as alturas que se cobrem de verde para férteis pastagens,
Com lagos claros e ricos em peixes, depois riachos sem conta,
Que, serpenteando depressa, precipitam-se para o vale;
E também o próprio vale amplo, com prados, campos e baixadas.
Assim o arrependimento se expressará, e encontrarás graça.

IMPERADOR:

Meu grave erro deixou-me profundamente aterrorizado;
Define tu mesmo os limites conforme teu próprio critério.

ARCEBISPO:

Primeiro! Que o espaço profanado, onde tanto se pecou,
Seja imediatamente destinado ao serviço do Altíssimo.
Com rapidez, em meu espírito, fortes muralhas já se erguem;
O olhar do sol nascente já ilumina o coro.
O edifício crescente se amplia em forma de cruz;
A nave se alonga e se eleva para alegria dos fiéis.
Eles já afluem fervorosos pelo portal digno;
O primeiro toque dos sinos ressoou pela montanha e pelo vale.
Das torres elevadas soa o chamado, enquanto elas se erguem para o céu;
O penitente aproxima-se para uma vida recém-criada.
No grande dia da consagração, que chegue em breve,
Tua presença será o ornamento mais elevado.

IMPERADOR:

Que obra tão grandiosa anuncie a intenção devota
De louvar a Deus, o Senhor, e também de absolver-me do pecado.
Basta! Já sinto meu espírito elevar-se.

ARCEBISPO:

Como Chanceler, cuido agora da conclusão e das formalidades.

IMPERADOR:

Apresenta um documento formal para tornar isso propriedade da Igreja;
Eu o assinarei com alegria.

ARCEBISPO:

Então dedicarás também à obra, enquanto ela se ergue,
Todas as rendas das terras: dízimos, juros e contribuições,
Por toda a eternidade. Muito se exige para uma manutenção digna,
E a administração cuidadosa acarreta grandes despesas.
Para a construção rápida, neste lugar tão deserto,
Entregar-nos-ás também algum ouro de teu tesouro de guerra.
Além disso, precisamos, não posso ocultar,
De madeira distante, cal, ardósia e coisas semelhantes.
O povo fará os transportes, instruído do púlpito;
A Igreja abençoa aquele que a serve.

IMPERADOR:

Grande e grave é o pecado de que me carreguei;
Esse odioso povo de feiticeiros causa-me duro prejuízo.

ARCEBISPO:

Perdoa, senhor! Ao homem tão mal-afamado
Foi concedida a costa do Império; mas ela ficará sob interdito,
Caso, arrependido, não concedas também à elevada sede da Igreja
Os dízimos, juros, dádivas e rendas daquele lugar.

IMPERADOR:

A terra ainda não existe; repousa extensa no mar.

ARCEBISPO:

Para quem possui o direito e a paciência, também chega a hora.
Que vossa palavra permaneça válida e vigorosa para nós!

IMPERADOR:

Assim, em breve, poderei acabar entregando todo o Império.

Fausto

Sinopse

Edição integral de Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe, reunindo a Primeira e a Segunda Parte em tradução brasileira Literunico feita diretamente dos textos alemães de domínio público do Project Gutenberg (eBooks 2229 e 2230).

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978652938439913993967897
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