Universo da obra
Universo da obra
VIAJANTE:
Sim! São elas, as tílias sombrias,
Ali, no vigor da velhice.
E devo encontrá-las ainda,
Depois de tão longa jornada!
É mesmo o antigo lugar,
Aquela cabana que me abrigou,
Quando a onda, revolta pela tormenta,
Me lançou sobre aquelas dunas!
Quisera abençoar meus anfitriões,
Prestativos, um bravo casal,
Que, para hoje me receber,
Já era velho naqueles dias.
Ah! Eram pessoas piedosas!
Bato? Chamo? Sede saudados,
Se, hospitaleiros, ainda hoje
Desfrutais a ventura de fazer o bem!
BAUCIS:
Caro recém-chegado! Baixo! Baixo!
Silêncio! Deixa o marido repousar!
O sono longo concede ao velho
Ágil ação no breve despertar.
VIAJANTE:
Dize, mãe: és tu mesma,
Ainda aqui para receber meu agradecimento
Pelo que, com teu marido, fizeste
Outrora pela vida daquele jovem?
És tu Baucis, que, diligente,
Reanimaste a boca quase morta?
Tu, Filemon, que tão vigorosamente
Arrancaste meu tesouro à inundação?
As chamas de vosso fogo ligeiro,
O som de prata de vosso sininho,
A solução daquela aventura terrível
Foram confiados a vós.
E agora deixai-me sair à frente,
Contemplar o mar sem limites;
Deixai-me ajoelhar, deixai-me rezar,
Tão oprimido sinto o peito.
FILEMON:
Apressa-te apenas em pôr a mesa
Onde o jardim floresce alegremente.
Deixa-o correr, deixa-o espantar-se,
Pois não acredita no que vê.
Aquilo que vos maltratou ferozmente,
Onda sobre onda, em espuma selvagem,
Vede-o tratado como jardim,
Vede uma imagem paradisíaca.
Mais velho, já não estava disponível,
Nem pronto a ajudar como outrora;
E, enquanto minhas forças declinavam,
A onda já se achava distante.
Servos ousados de senhores engenhosos
Cavaram valas, ergueram diques,
Restringiram os direitos do mar,
Para que o senhor reinasse em seu lugar.
Contempla, verdejante, prado após prado,
Campina, jardim, aldeia e floresta.
Vem agora, porém, e desfruta,
Pois o sol em breve se retira.
Lá, ao longe, passam velas,
Buscando à noite um porto seguro.
As aves bem conhecem seu ninho,
Pois agora o porto fica ali.
Assim, na vastidão, só avistas
A orla azul do mar,
E, à direita e à esquerda, em toda a largura,
Terras densamente povoadas.
BAUCIS:
Continuas calado? E nenhum bocado
Levas à boca ressequida?
FILEMON:
Ele decerto deseja saber do prodígio;
Como tanto gostas de falar, conta-lhe.
BAUCIS:
Pois bem! Foi mesmo um prodígio!
Até hoje não me deixa em paz;
Pois todo o acontecimento
Não se deu por meios legítimos.
FILEMON:
Pode pecar o Imperador
Que lhe concedeu esta costa?
Não o anunciou um arauto,
Ao passar, retumbando a trombeta?
Não longe de nossas dunas
Firmou-se o primeiro pé,
Tendas, cabanas! Mas, entre o verde,
Logo se ergueu um palácio.
BAUCIS:
De dia, os servos em vão faziam estrondo,
Picareta e pá, golpe após golpe;
Onde as chaminhas fervilhavam à noite,
No dia seguinte havia um dique.
Sacrifícios humanos tiveram de sangrar,
À noite ecoava o tormento dos lamentos;
Rumo ao mar corriam rios de fogo,
De manhã havia ali um canal.
Ele é ímpio; cobiça
Nossa cabana, nosso bosque;
E, por alardear-se nosso vizinho,
Quer que lhe sejamos submissos.
FILEMON:
Mas ele nos ofereceu
Uma bela propriedade nas novas terras!
BAUCIS:
Não confies nesse solo tirado às águas;
Mantém-te firme em tua altura!
FILEMON:
Vamos até a capela,
Contemplar o último olhar do sol!
Vamos tocar o sino, ajoelhar, rezar
E confiar no antigo Deus!
LINCEU, O VIGIA DA TORRE:
O sol declina, os últimos navios
Entram alegremente no porto.
Uma grande barca está prestes
A chegar aqui pelo canal.
Os estandartes coloridos ondulam jubilosos,
Os mastros rígidos mantêm-se prontos;
Em ti o barqueiro se proclama feliz,
A boa fortuna te saúda no apogeu.
FAUSTO:
Maldito badalar! Infamemente
Fere, como um tiro traiçoeiro;
Diante dos olhos, meu reino é infinito,
Às costas, o desgosto me atormenta,
E, com sons invejosos, recorda-me:
Minha vasta propriedade não é pura;
O espaço das tílias, a construção escura,
A capela apodrecida não são meus.
E, caso eu desejasse repousar ali,
Estremeço sob uma sombra alheia;
É espinho nos olhos, espinho nas solas.
Ah! Quem me dera estar longe daqui!
VIGIA DA TORRE:
Como navega alegre a barca colorida,
Trazida pelo fresco vento da tarde!
Como seu curso ágil se alteia
Em caixas, arcas e sacos empilhados!
CORO:
Aqui desembarcamos,
Aqui já estamos.
Boa fortuna ao senhor,
Ao nosso patrono!
MEFISTÓFELES:
Assim provamos bem nosso valor,
Contentes, caso o patrono o louve.
Partimos somente com dois navios,
Com vinte estamos agora no porto.
As grandes façanhas que realizamos
Podem ser vistas por nossa carga.
O mar livre liberta o espírito;
Quem sabe ali o que é refletir?
Só um golpe rápido faz prosperar:
Captura-se o peixe, captura-se o navio;
E, quando se é senhor de três,
Engancha-se logo o quarto;
Então o quinto se dá mal.
Quem tem a força tem o direito.
Pergunta-se pelo quê, não pelo como.
Eu nada entenderia de navegação
Se não soubesse que guerra, comércio e pirataria
São uma trindade inseparável.
OS TRÊS PODEROSOS COMPANHEIROS:
Nem agradecimento nem saudação!
Nem saudação nem agradecimento!
Como se trouxéssemos
Fedor ao senhor.
Ele faz
Uma cara repugnante;
Os bens reais
Não lhe agradam.
MEFISTÓFELES:
Não espereis agora
Recompensa alguma!
Já tomastes
Vossa parte.
OS COMPANHEIROS:
Isso é apenas para
Passar o tempo;
Todos exigimos
Partes iguais.
MEFISTÓFELES:
Primeiro disponde lá no alto,
Salão após salão,
Todas as preciosidades,
Sem deixar nenhuma!
E, quando ele se apresentar
À rica exposição,
Calculará tudo
Com maior exatidão;
Por certo não se mostrará
Mesquinho
E dará à frota
Festa após festa.
As aves coloridas chegam amanhã;
Delas cuidarei da melhor maneira.
MEFISTÓFELES:
Com a fronte grave, o olhar sombrio,
Recebes notícia de tua sublime fortuna.
A elevada sabedoria é coroada,
A costa reconciliou-se com o mar;
Partindo da costa, em rápida jornada,
O mar recebe de bom grado os navios.
Declara, portanto, que aqui, deste palácio,
Teu braço abarca o mundo inteiro.
Deste lugar tudo começou;
Aqui se erguia a primeira casa de tábuas.
Um pequeno sulco foi riscado para baixo
Onde agora o remo espadana diligente.
Teu elevado propósito e o labor dos teus
Conquistaram a glória do mar e da terra.
Partindo daqui...
FAUSTO:
Esse maldito aqui!
É precisamente isso que, detestável, me atormenta.
A ti, tão versátil, devo confessá-lo:
Causa-me no coração golpe após golpe;
É-me impossível suportá-lo!
E, ao dizê-lo, sinto vergonha.
Os velhos lá no alto deveriam ceder;
Quero as tílias para meu assento.
Aquelas poucas árvores, que não são minhas,
Arruínam para mim a posse do mundo.
Ali eu desejava, para contemplar ao longe,
Erguer andaimes de ramo em ramo,
Abrir ao olhar uma ampla passagem
Para ver tudo o que realizei,
E abarcar num só relance
A obra-prima do espírito humano:
Como, agindo com prudente entendimento,
Conquistou para os povos vasta morada.
Assim somos mais duramente atormentados:
Na riqueza, sentimos aquilo que nos falta.
O som do sininho, o aroma das tílias,
Cercam-me como igreja e sepultura.
A escolha da vontade onipotente
Quebra-se contra esta areia aqui.
Como expulsarei isto da mente?
O sininho toca, e eu me enfureço.
MEFISTÓFELES:
Naturalmente! Um desgosto capital
Há de amargurar-te a vida.
Quem o negaria? A todo ouvido nobre
Esse tinido soa detestável.
E o maldito bim-bom-bimbalhar,
Nublando o límpido céu da tarde,
Imiscui-se em todo acontecimento,
Do primeiro banho ao funeral,
Como se, entre o bim e o bom,
A vida fosse um sonho desaparecido.
FAUSTO:
A resistência, a obstinação
Fazem definhar a mais esplêndida conquista,
Até que, em profundo e feroz tormento,
Tenhamos de cansar-nos de ser justos.
MEFISTÓFELES:
Por que ainda te constranges com isso?
Não deverias há muito colonizar?
FAUSTO:
Ide, portanto, e tirai-os de meu caminho!
Bem conheces a bela propriedade
Que escolhi para aqueles velhos.
MEFISTÓFELES:
Nós os carregamos e os depositamos ali;
Antes que se deem conta, estarão de pé outra vez.
Depois da violência suportada,
Uma bela morada trará reconciliação.
MEFISTÓFELES:
Vinde, como ordena o senhor!
E amanhã haverá uma festa para a frota.
OS TRÊS:
O velho senhor nos recebeu mal;
Uma bela festa é nosso direito.
MEFISTÓFELES:
Também aqui sucede o que há muito sucedeu,
Pois a vinha de Nabote já existia.
LINCEU, O VIGIA DA TORRE:
Nascido para ver,
Designado a contemplar,
Consagrado à torre,
O mundo me agrada.
Contemplo a distância,
Vejo o que está perto,
A lua e as estrelas,
A floresta e o cervo.
Assim vejo em tudo
O eterno ornamento,
E, como tudo me agrada,
Também agrado a mim mesmo.
Ó olhos felizes,
Tudo o que contemplastes,
Fosse como fosse,
Ainda assim era tão belo!
Não somente para meu deleite
Fui colocado tão alto aqui;
Que horror medonho
Me ameaça desde o mundo sombrio!
Vejo olhares de centelhas lampejarem
Através da dupla noite das tílias;
Um ardor revolve-se, cada vez mais forte,
Avivado pela corrente de ar.
Ah! A cabana por dentro arde,
Ela, que se erguia úmida e coberta de musgo;
Pede-se socorro imediato,
Mas salvação alguma está disponível.
Ah! As boas pessoas idosas,
Sempre tão cuidadosas com o fogo,
Serão elas entregues à fumaça!
Que terrível aventura!
A chama flameja; rubro em brasas
Está o negro madeiramento musgoso.
Quem dera os bons tivessem escapado
Do inferno desencadeado em fúria!
Línguas de clarões luminosos sobem
Entre folhas, entre ramos;
Galhos secos, queimando aos lampejos,
Incendeiam-se depressa e desabam.
Deveis, meus olhos, contemplar isto!
Preciso enxergar tão longe assim!
A pequena capela vem abaixo
Sob a queda e o acúmulo dos galhos.
Serpenteando, as chamas pontiagudas
Já alcançaram as copas.
Até as raízes ardem os troncos ocos,
Resplandecendo em vermelho-púrpura.
Aquilo que outrora se oferecia ao olhar
Desaparece com todos os seus séculos.
FAUSTO:
Que lamento cantado vem lá do alto?
A palavra chegou, o som chegou tarde.
Meu vigia se lamenta; no íntimo,
Desagrada-me a ação impaciente.
Mas, embora o crescimento das tílias esteja destruído,
Horror de troncos meio carbonizados,
Logo se erguerá uma torre de observação
Para contemplar o infinito.
Também verei dali a nova morada
Que acolherá aquele velho casal,
Que, sentindo minha generosa clemência,
Desfrutará feliz seus últimos dias.
MEFISTÓFELES E OS TRÊS:
Aqui chegamos em pleno galope;
Perdoai! A coisa não se resolveu amigavelmente.
Batemos à porta, golpeamos à porta,
E ela jamais se abriu;
Sacudimos, continuamos golpeando,
E então a porta podre tombou.
Gritamos alto e ameaçamos com dureza,
Mas não obtivemos resposta.
E, como sucede em casos assim,
Eles não ouviram, não quiseram ouvir;
Nós, porém, não perdemos tempo
E com presteza os removemos para ti.
O casal não sofreu por muito tempo:
De susto, ambos caíram sem vida.
Um estrangeiro, escondido ali,
Que quis lutar, foi abatido.
No breve tempo do combate selvagem,
Das brasas espalhadas ao redor
A palha se incendiou. Agora arde livremente,
Como fogueira de execução para os três.
FAUSTO:
Fostes surdos às minhas palavras?
Eu queria uma troca, não um saque.
Esse golpe irrefletido e selvagem,
Eu o amaldiçoo! Dividi a culpa entre vós!
CORO:
A antiga palavra, a palavra ressoa:
Obedece de bom grado à força!
E, se fores ousado e resistires firme,
Arrisca tua casa, teus bens e a ti mesmo.
FAUSTO:
As estrelas ocultam brilho e olhar,
O fogo diminui e arde baixo;
Uma brisa fria o abana,
Traz fumaça e vapor até mim.
Ordenado depressa, depressa demais executado!
Que vulto paira, semelhante a uma sombra?
PRIMEIRA:
Chamo-me Carência.
SEGUNDA:
Chamo-me Culpa.
TERCEIRA:
Chamo-me Preocupação.
QUARTA:
Chamo-me Necessidade.
AS TRÊS:
A porta está trancada, não podemos entrar;
Lá dentro mora um rico, não nos querem deixar passar.
CARÊNCIA:
Ali me torno sombra.
CULPA:
Ali me desfaço em nada.
NECESSIDADE:
De mim o rosto mimado se desvia.
PREOCUPAÇÃO:
Irmãs, não podeis nem vos é permitido entrar.
A Preocupação, ela se esgueira pelo buraco da fechadura.
CARÊNCIA:
Vós, irmãs cinzentas, afastai-vos daqui.
CULPA:
Bem próxima, ao teu lado, eu me uno a ti.
NECESSIDADE:
Bem próxima aos calcanhares acompanha-te a Necessidade.
AS TRÊS:
As nuvens passam, as estrelas desaparecem!
Lá atrás, lá atrás! De longe, de longe,
Ele vem, nosso irmão, ele vem, ele, a Morte.
FAUSTO:
Vi quatro chegarem, apenas três partir;
Não pude compreender o sentido da fala.
Ressoou como se uma delas se chamasse Necessidade,
E uma palavra sombria rimou com Morte.
Soou oco, fantasmagoricamente abafado.
Ainda não conquistei meu caminho até a liberdade.
Pudesse eu afastar a magia de minha estrada,
Desaprender inteiramente os encantamentos,
E diante de ti, Natureza, permanecer apenas homem,
Então valeria o esforço ser humano.
Assim fui outrora, antes de buscar nas trevas,
Antes de amaldiçoar, com palavras sacrílegas, a mim e ao mundo.
Agora o ar está tão cheio desses espectros
Que ninguém sabe como evitá-los.
Ainda que o dia nos sorria claro e sensato,
A noite nos envolve em teias de sonhos;
Voltamos alegres de um campo verdejante,
Uma ave grasna; o que grasna ela? Desgraça.
Cercados de superstição cedo e tarde:
Algo se anuncia, manifesta-se, adverte.
E assim, intimidados, permanecemos sós.
O portal range, e ninguém entra.
Há alguém aqui?
PREOCUPAÇÃO:
A pergunta exige um sim!
FAUSTO:
E tu, quem és?
PREOCUPAÇÃO:
Já estou aqui.
FAUSTO:
Afasta-te!
PREOCUPAÇÃO:
Estou no lugar certo.
FAUSTO:
Tem cuidado e não pronuncies nenhum encantamento.
PREOCUPAÇÃO:
Mesmo que nenhum ouvido me percebesse,
Ainda assim eu ressoaria no coração;
Sob formas transformadas
Exerço poder feroz.
Nos caminhos, sobre as ondas,
Eterna companheira da angústia,
Sempre encontrada, jamais procurada,
Tão adulada quanto amaldiçoada.
Nunca conheceste a Preocupação?
FAUSTO:
Apenas percorri o mundo em disparada;
Agarrei cada desejo pelos cabelos,
Abandonei aquilo que não me satisfazia,
Deixei partir o que me escapava.
Somente desejei e somente realizei,
E tornei a desejar; assim, com ímpeto,
Atravessei a vida como tempestade; primeiro grande e poderoso,
Agora, porém, avanço com sabedoria e cautela.
O círculo da Terra me é bastante conhecido;
A visão do além nos está vedada.
Tolo é aquele que dirige para lá os olhos semicerrados
E imagina seus semelhantes acima das nuvens!
Que permaneça firme e olhe ao redor neste mundo;
Para o homem capaz, esta Terra não é muda.
Por que deveria vagar pela eternidade?
Aquilo que reconhece pode ser alcançado.
Que assim percorra seus dias terrenos;
Se espíritos assombrarem, que prossiga em seu caminho,
E, avançando, encontre tormento e felicidade,
Insatisfeito a cada instante!
PREOCUPAÇÃO:
Aquele de quem me apodero
De nada aproveita o mundo inteiro;
Uma escuridão eterna desce,
O sol não nasce nem se põe.
Embora os sentidos exteriores estejam perfeitos,
Dentro dele habitam trevas,
E, de todos os tesouros,
Não sabe tomar posse.
Felicidade e infelicidade tornam-se caprichos;
Ele passa fome em meio à abundância.
Seja prazer, seja tormento,
Adia tudo para o dia seguinte;
Somente espera pelo futuro
E, assim, jamais conclui coisa alguma.
FAUSTO:
Cala-te! Assim não me alcançarás!
Não quero ouvir tamanho absurdo.
Vai-te! Essa ladainha miserável
Poderia seduzir até o homem mais sábio.
PREOCUPAÇÃO:
Deve ele partir, deve ele ficar?
A decisão lhe foi retirada;
No meio de um caminho plano,
Vacila, tateando em meios passos.
Perde-se cada vez mais fundo,
Vê todas as coisas deformadas,
Oprimindo penosamente a si e aos outros;
Respirando fundo e sufocando;
Sem sufocar e sem viver,
Sem desesperar, sem se entregar.
Esse movimento incessante,
Doloroso deixar, repugnante dever,
Ora libertando, ora esmagando,
Meio sono e repouso ruim,
Prende-o ao mesmo lugar
E prepara-o para o inferno.
FAUSTO:
Espectros desgraçados! Assim tratais
O gênero humano milhares de vezes;
Até mesmo dias indiferentes transformais
Num hediondo emaranhado de tormentos presos em redes.
Sei que dificilmente nos livramos dos demônios;
O laço espiritual e severo não se pode romper.
Mas teu poder, Preocupação, grande e traiçoeiro,
Eu não o reconhecerei.
PREOCUPAÇÃO:
Experimenta-o, enquanto rapidamente
Me afasto de ti com uma maldição!
Os homens são cegos durante toda a vida;
Agora, Fausto, torna-te cego ao final!
FAUSTO:
A noite parece penetrar cada vez mais fundo,
Mas dentro de mim brilha uma luz clara;
Aquilo que concebi, apresso-me a realizar;
Somente a palavra do senhor tem valor.
Levantai-vos dos leitos, servos! Homem por homem!
Fazei surgir feliz aquilo que ousei conceber.
Tomai as ferramentas, movei pás e enxadas!
Aquilo que foi demarcado deve ser logo executado.
Da ordem rigorosa e do trabalho veloz
Resulta a mais esplêndida recompensa;
Para que a maior obra se complete,
Basta um espírito para mil mãos.
MEFISTÓFELES:
Para cá, para cá! Entrai, entrai!
Vós, lêmures trêmulos,
De ligamentos, tendões e ossos
Remendadas meias criaturas.
LÊMURES:
Já nos pomos à tua disposição,
E, pelo que ouvimos pela metade,
Trata-se de uma terra bem extensa
Que devemos receber.
As estacas pontiagudas estão aqui,
A corrente comprida para medir;
Por que fomos chamados,
Isso já esquecemos.
MEFISTÓFELES:
Aqui não se exige esforço artístico;
Procedei apenas segundo vossas próprias medidas!
Que o mais comprido se estenda em todo o comprimento,
E vós outros levantai a relva ao redor;
Como se fazia para nossos pais,
Aprofundai um quadrado alongado!
Do palácio à casa estreita,
Assim, estupidamente, tudo termina afinal.
LÊMURES:
Quando eu era jovem, vivia e amava,
Parece-me que aquilo era doce;
Onde soava alegria e havia diversão,
Meus pés logo se moviam.
Agora a velhice traiçoeira
Atingiu-me com sua muleta;
Tropecei na porta do túmulo;
Por que estava ela justamente aberta?
FAUSTO:
Como me deleita o retinir das pás!
É a multidão que trabalha para mim,
Reconcilia a terra consigo mesma,
Impõe limites às ondas,
Cinge o mar com severa barreira.
MEFISTÓFELES:
No entanto, trabalhas apenas para nós
Com teus diques e quebra-mares;
Pois já preparas para Netuno,
O demônio das águas, um grande banquete.
De todo modo estais perdidos.
Os elementos conspiraram conosco,
E tudo caminha para a destruição.
FAUSTO:
Supervisor!
MEFISTÓFELES:
Aqui!
FAUSTO:
Seja como for possível,
Consegue trabalhadores, multidão após multidão;
Estimula-os com recompensa e rigor,
Paga, atrai, força-os a trabalhar!
Quero receber, a cada dia, notícias
De quanto se prolonga a vala iniciada.
MEFISTÓFELES:
Segundo a notícia que me deram,
Não se fala de vala alguma, mas de cova.
FAUSTO:
Um pântano estende-se ao longo da montanha,
Contaminando tudo o que já foi conquistado;
Drenar também aquela poça apodrecida
Seria a última e mais elevada conquista.
Abro espaço para muitos milhões
Morarem, não seguros, mas ativos e livres.
Verdes os campos, férteis; homens e rebanhos
Logo se instalam confortavelmente na terra mais recente,
Assentados junto à força da colina
Erguida por uma população ousada e laboriosa.
Aqui dentro, uma terra paradisíaca;
Lá fora, que a inundação se enfureça até a borda,
E, quando ela tentar irromper com violência,
A comunidade acorrerá para fechar a brecha.
Sim! A este pensamento me entrego por inteiro;
Este é o resultado último da sabedoria:
Somente merece a liberdade, assim como a vida,
Quem precisa conquistá-la todos os dias.
E assim, cercados pelo perigo,
Criança, homem e velho passam aqui seus anos laboriosos.
Quisera contemplar semelhante fervilhar,
Pisar solo livre entre um povo livre.
Ao instante eu poderia dizer:
Detém-te, és tão belo!
O vestígio de meus dias sobre a Terra
Não poderá desaparecer por eras.
No pressentimento de tamanha felicidade,
Desfruto agora o instante supremo.
MEFISTÓFELES:
Prazer algum o sacia, felicidade alguma lhe basta;
Continua cortejando formas sempre mutáveis.
O último instante, miserável e vazio,
O pobre deseja retê-lo firmemente.
Aquele que me resistiu com tamanho vigor
É dominado pelo tempo; o velho jaz aqui na areia.
O relógio parou.
CORO:
Parou! Silencia como a meia-noite.
O ponteiro cai.
MEFISTÓFELES:
Caiu. Está consumado.
CORO:
Tudo passou.
MEFISTÓFELES:
Passou! Palavra estúpida.
Por que passou?
Passado e puro nada, perfeita indiferença!
Para que serve então a criação eterna,
Se o criado é arrebatado para o nada?
“Agora passou!” O que se pode ler nisso?
É como se jamais tivesse existido,
E contudo gira em círculos como se existisse.
Eu preferiria, em seu lugar, o Vazio Eterno.
LÊMURE, SOLO:
Quem construiu tão mal esta casa,
Com enxadas e com pás?
CORO DOS LÊMURES:
Para ti, hóspede obtuso em veste de cânhamo,
Ela ficou boa até demais.
LÊMURE, SOLO:
Quem mobiliou tão mal o salão?
Onde ficaram a mesa e as cadeiras?
CORO DOS LÊMURES:
Tudo foi emprestado por pouco tempo;
São muitos os credores.
MEFISTÓFELES:
O corpo jaz, e, se o espírito quiser escapar,
Logo lhe mostrarei o título escrito em sangue.
Mas, infelizmente, hoje existem tantos meios
De arrancar almas ao Diabo.
No caminho antigo encontram-se obstáculos;
No novo, não somos recomendados.
Outrora eu teria feito tudo sozinho;
Agora preciso chamar auxiliares.
Em todas as coisas vamos mal!
Costume tradicional, antigo direito,
Já não se pode confiar em nada.
Outrora, com o último suspiro, ela saía;
Eu ficava à espreita e, como o mais veloz dos ratos,
Zás! Prendia-a em garras bem cerradas.
Agora ela hesita e não quer abandonar o lugar sombrio,
A repulsiva casa do cadáver miserável;
Os elementos, que se odeiam,
Acabam por expulsá-la vergonhosamente.
E, ainda que eu me atormente por dias e horas,
Quando? Como? Onde? Essa é a pergunta detestável.
A velha Morte perdeu sua força imediata;
Até mesmo o “se” permanece há muito duvidoso.
Muitas vezes contemplei, ávido, os membros rígidos;
Era apenas aparência: aquilo se mexia, voltava a mover-se.
Depressa, aproximai-vos! Dobrai o passo,
Vós, senhores do chifre reto, senhores do chifre torto,
Da antiga linhagem e têmpera do Diabo,
E trazei convosco a goela do Inferno.
O Inferno possui muitas goelas, muitas!
Cada uma engole conforme classe e dignidade;
Mas, neste último jogo,
No futuro talvez não se tenha tamanho escrúpulo.
Os caninos se escancaram; da abóbada da garganta
Jorra em fúria a corrente de fogo,
E, no vapor fervente do fundo,
Vejo a cidade das chamas em ardor eterno.
A rebentação vermelha avança até os dentes;
Condenados nadam até ali, esperando salvação,
Mas a hiena colossal os tritura,
E eles recomeçam, angustiados, o percurso abrasador.
Ainda há muito a descobrir nos recantos,
Tantos horrores no espaço mais estreito!
Fazeis muito bem em aterrorizar os pecadores;
Eles, porém, julgam tudo mentira, fraude e sonho.
Agora, canalhas barrigudos de faces inflamadas!
Estais bem nutridos pelo enxofre do Inferno;
Pescoços curtos, grossos como toras, jamais movidos!
Ficai de tocaia aqui embaixo, caso algo brilhe como fósforo.
É a pequena alma, Psique com suas asas;
Arrancai-as, e ela será um verme repugnante.
Quero marcá-la com meu selo;
Depois, para longe com ela, no turbilhão de fogo!
Vigiai as regiões inferiores,
Ó odres, esse é vosso dever;
Se lhe agradava morar ali,
Não se sabe com toda a exatidão.
Ela gosta de habitar o umbigo.
Prestai atenção: escapará de vós por ali.
Vós, extravagantes gigantes de forma alada,
Agarrai o ar, tentai sem descanso!
Braços estendidos, garras agudas à mostra,
Para capturardes a que esvoaça, a fugitiva.
Por certo ela se sente mal na velha casa,
E o gênio quer subir imediatamente.
HOSTE CELESTE:
Segui, enviados,
Do céu aparentados,
Em voo sereno:
Perdoai pecadores,
Reanimai o pó;
Em todas as criaturas,
Vestígios benévolos
Produzi, ao pairar,
Na passagem demorada!
MEFISTÓFELES:
Ouço dissonâncias, um tinido repugnante,
Que vem lá do alto com o dia indesejado;
É aquele arremedo pueril e efeminado
Que o gosto beato costuma apreciar.
Sabeis como, em horas profundamente malditas,
Planejamos destruir o gênero humano;
O mais vergonhoso que inventamos
É precisamente o que convém à devoção deles.
Chegam como hipócritas, os tolos!
Já nos arrebataram tantos assim,
Combatendo-nos com nossas próprias armas;
Também são diabos, mas disfarçados.
Perder aqui seria para vós vergonha eterna;
Aproximai-vos da cova e segurai firme nas bordas!
CORO DOS ANJOS:
Rosas fulgurantes,
Bálsamo exalantes!
Esvoaçantes, flutuantes,
Secretamente vivificantes,
Raminhos alados,
Botões desatados,
Correi a florir.
Que a primavera brote,
Púrpura e verde!
Levai o Paraíso
Ao que repousa.
MEFISTÓFELES:
Por que vos curvais e vos contorceis? É costume do Inferno?
Ficai firmes e deixai que espalhem as flores.
Cada pateta em seu lugar!
Eles decerto pensam, com essas florzinhas,
Cobrir de neve os diabos ardentes;
Tudo isso se derrete e encolhe com vosso hálito.
Agora sopra, raça de sopradores! Basta, basta!
Com vosso bafo, toda a revoada empalidece.
Não com tamanha violência! Fechai boca e nariz!
Na verdade, soprastes com força demais.
Nunca sabeis guardar a medida certa!
Não apenas encolhe, mas escurece, seca, queima!
Já vem pairando, em chamas venenosamente claras;
Resisti, reuni-vos, apertai-vos uns contra os outros!
A força se extingue! Toda a coragem se foi!
Os diabos farejam um calor adulador e estranho.
CORO DOS ANJOS:
Flores bem-aventuradas,
Chamas jubilosas,
Espalham amor,
Preparam deleite,
Como queira o coração.
Palavras verdadeiras,
Éter na claridade,
Para as hostes eternas,
Dia por toda parte!
MEFISTÓFELES:
Ó maldição! Ó vergonha para tamanhos imbecis!
Os Satanases ficam de cabeça para baixo,
Os desajeitados dão cambalhota após cambalhota
E caem de traseiro no Inferno.
Abençoe-vos o banho ardente que mereceis!
Eu, porém, permaneço em meu posto.
Fogos-fátuos, para longe! Tu, por mais forte que brilhes,
Quando apanhado, não passas de repugnante massa gelatinosa.
Por que tremulas? Queres que te agarrem?
Isso se prende, como piche e enxofre, em minha nuca.
CORO DOS ANJOS:
Aquilo que não vos pertence
Deveis evitar;
Aquilo que perturba vosso íntimo
Não deveis tolerar.
Quando penetra com violência,
Devemos mostrar vigor.
Somente o amor conduz
Os amantes para dentro!
MEFISTÓFELES:
Arde-me a cabeça, ardem o coração e o fígado,
Elemento mais que diabólico!
Muito mais agudo que o fogo do Inferno!
Por isso vos lamentais de modo tão terrível,
Amantes infelizes que, desprezados,
Com o pescoço torcido espreitais a amada.
Também comigo! O que me puxa a cabeça para aquele lado?
Não estou com eles em guerra declarada?
Antes, a visão deles me era tão ferozmente hostil.
Algo estranho me penetrou por inteiro?
Gosto de olhar para esses rapazinhos adoráveis;
O que me impede de amaldiçoar?
E, se me deixo seduzir,
Quem deverá chamar-se tolo daqui em diante?
Os malditos rapazes do tempo, que odeio,
Parecem-me agora tão encantadores!
Belas crianças, deixai-me saber:
Não sois também da linhagem de Lúcifer?
Sois tão formosos que, por certo, desejaria beijar-vos;
Parece-me que chegastes no momento exato.
Sinto-me tão confortável, tão naturalmente,
Como se já vos tivesse visto mil vezes;
Tão secretamente ávido, como um gatinho;
A cada olhar, mais belos e sempre belos.
Aproximai-vos, concedei-me um olhar!
ANJOS:
Já nos aproximamos; por que recuas?
Chegamos mais perto, e, caso possas, permanece!
MEFISTÓFELES:
Vós nos chamais espíritos condenados
E sois os verdadeiros mestres de feitiçaria,
Pois seduzis homem e mulher.
Que aventura maldita!
É este o elemento do amor?
Todo o corpo está em chamas;
Mal percebo que a nuca me arde.
Balançais de um lado para outro; descei um pouco,
Movei os graciosos membros de modo mais mundano.
Na verdade, a seriedade vos cai muito bem;
Mas desejaria ver-vos sorrir ao menos uma vez!
Isso seria para mim um encanto eterno.
Quero dizer, como quando os amantes se olham:
Um pequeno movimento da boca, e está feito.
Tu, rapaz alto, és aquele de quem mais gosto;
Esse semblante de padre não te assenta,
Olha-me um pouco com desejo!
Poderíeis também andar decentemente mais despidos;
A longa túnica de pregas é pudica demais.
Eles se voltam. Vistos por trás!
Os patifes são mesmo muito apetitosos!
CORO DOS ANJOS:
Voltai-vos para a claridade,
Chamas amantes!
Aos que se condenam,
Cure a verdade;
Para que, do mal,
Alegres se libertem
E, na união do Todo,
Sejam bem-aventurados.
MEFISTÓFELES:
Que me sucede? Como Jó, bolha após bolha,
O sujeito inteiro se horroriza consigo mesmo
E ao mesmo tempo triunfa, quando se examina por completo,
Quando confia em si e em sua linhagem.
Estão salvas as nobres partes diabólicas;
O espectro do amor lança-se sobre a pele.
Já se apagaram as chamas malditas,
E, como convém, amaldiçoo-vos a todos juntos!
CORO DOS ANJOS:
Brasas sagradas!
Aquele que elas envolvem
Sente-se, em vida,
Bem-aventurado entre os bons.
Todos reunidos,
Elevai-vos e louvai!
O ar está purificado;
Que o espírito respire!
MEFISTÓFELES:
Mas como? Para onde foram?
Povo imberbe, apanhastes-me de surpresa.
Fugiram com a presa em direção ao céu;
Por isso roçaram tão perto desta cripta!
Um tesouro grande e único me foi roubado:
A sublime alma que se empenhara a mim,
Eles ma surrupiaram com astúcia.
A quem devo agora apresentar queixa?
Quem me restitui o direito adquirido?
Foste enganado em tua velhice,
Tu o mereceste; a coisa te vai terrivelmente mal.
Fui tratado de modo infame;
Tamanho esforço, vergonhosamente, foi desperdiçado.
Um desejo vulgar, uma paixão absurda
Acometem o Diabo mais curtido.
E, se o experiente e astuto se ocupou
Com semelhante disparate infantil e insano,
Então não é pequena, em verdade, a loucura
Que dele se apodera no fim.
CORO E ECO:
A floresta avança, oscilante,
Rochas pesam sobre ela,
Raízes se agarram,
Tronco a tronco se eleva,
Onda após onda espadana,
A gruta mais profunda protege.
Leões rondam em silêncio,
Amigáveis, ao nosso redor,
Honrando o lugar consagrado,
Sagrado refúgio do amor.
PATER ECSTATICUS:
Incêndio de eterna bem-aventurança,
Laço ardente de amor,
Dor fervente do peito,
Espumante êxtase divino.
Flechas, atravessai-me,
Lanças, dominai-me,
Clavas, despedaçai-me,
Raios, percorrei-me como tempestade!
Para que todo o que é vão
Inteiramente se dissipe
E brilhe a estrela duradoura,
Núcleo do amor eterno.
PATER PROFUNDUS:
Como o abismo rochoso a meus pés
Repousa, pesando sobre abismo profundo,
Como mil riachos correm luminosos
Para a queda terrível da espuma da torrente,
Como, ereto, por impulso próprio e vigoroso,
O tronco se eleva aos ares,
Assim é o amor onipotente
Que tudo forma, tudo ampara.
Ao meu redor há um bramido selvagem,
Como se floresta e rochedo ondulassem,
E, contudo, em rumor cheio de amor,
A massa das águas se precipita no abismo,
Destinada logo a irrigar o vale.
O raio que caiu em chamas
Para purificar a atmosfera,
Que trazia veneno e vapor em seu seio,
São mensageiros do amor, anunciam
Aquilo que, eternamente criador, nos envolve.
Que isso também inflame meu íntimo,
Onde o espírito, confuso e frio,
Atormenta-se nos limites dos sentidos embotados,
Em sofrimento de correntes apertadas.
Ó Deus! Aquieta os pensamentos,
Ilumina meu coração necessitado!
PATER SERAPHICUS:
Que pequena nuvem matinal paira
Entre os cabelos oscilantes dos pinheiros?
Pressinto o que vive em seu interior?
É uma jovem hoste de espíritos.
CORO DOS MENINOS BEM-AVENTURADOS:
Dize-nos, pai, por onde peregrinamos,
Dize-nos, bondoso, quem somos!
Somos felizes: para todos, para todos,
A existência é tão suave.
PATER SERAPHICUS:
Meninos, nascidos à meia-noite,
Com espírito e sentidos apenas entreabertos,
Desde logo perdidos para os pais,
Para os anjos, porém, um ganho.
Sentis bem que um ser amante está presente;
Aproximai-vos, portanto.
Mas dos caminhos ásperos da Terra,
Ó felizes, não tendes vestígio algum.
Descei a meus olhos,
Órgãos adaptados ao mundo e à Terra;
Podeis usá-los como se fossem os vossos,
Contemplai esta região!
Aquilo são árvores, aquilo são rochas,
Um curso de água que se precipita
E, com enorme revolver,
Encurta seu caminho íngreme.
MENINOS BEM-AVENTURADOS:
É poderoso de contemplar,
Mas o lugar é sombrio demais;
Faz-nos estremecer de medo e horror.
Nobre, bondoso, deixa-nos partir!
PATER SERAPHICUS:
Subi a um círculo mais elevado,
Crescei sempre sem perceber,
Conforme, em pureza eterna,
A proximidade de Deus vos fortalece.
Pois este é o alimento dos espíritos,
Que atua no éter mais livre:
A revelação do amor eterno,
Que se abre para a bem-aventurança.
CORO DOS MENINOS BEM-AVENTURADOS:
Entrelaçai as mãos
Alegres em círculo,
Movei-vos e cantai,
Entoando sentimentos sagrados!
Divinamente instruídos,
Podeis confiar;
Aquele que venerais,
Vós o vereis.
ANJOS:
Salva está do mal a nobre parte
Do mundo dos espíritos;
Aquele que sempre se esforça e aspira,
Nós podemos redimi-lo.
E, se o amor do alto
Tomou parte em seu destino,
A hoste bem-aventurada o recebe
Com acolhida afetuosa.
OS ANJOS MAIS JOVENS:
Aquelas rosas das mãos
De penitentes santas e amantes
Ajudaram-nos a conquistar a vitória,
A concluir a sublime obra,
A arrebatar este tesouro de alma.
Os maus recuaram quando espalhamos,
Os diabos fugiram quando os atingimos.
Em lugar das penas habituais do Inferno,
Os espíritos sentiram o tormento do amor;
Até o velho mestre de Satanás
Foi atravessado por dor aguda.
Exultai! Conseguimos.
OS ANJOS MAIS PERFEITOS:
Resta-nos carregar, penosamente,
Um resíduo terreno;
Ainda que fosse de amianto,
Não seria puro.
Quando uma poderosa força espiritual
Atrai para si
Os elementos,
Anjo algum poderia separar
A dupla natureza unificada
Dos dois intimamente unidos;
Somente o amor eterno
É capaz de distingui-los.
OS ANJOS MAIS JOVENS:
Entre névoas, ao redor das alturas rochosas,
Percebo agora mesmo,
Movendo-se nas proximidades,
Uma vida de espíritos.
As pequenas nuvens se tornam claras;
Vejo uma hoste em movimento
De meninos bem-aventurados,
Libertos da opressão da Terra,
Reunidos em círculo,
Que se deleitam
Com a nova primavera e o novo adorno
Do mundo superior.
Que ele, para o início
De sua crescente plenitude,
Seja unido a estes!
OS MENINOS BEM-AVENTURADOS:
Com alegria recebemos
Este em estado de crisálida;
Assim alcançamos
Uma garantia angélica.
Soltai os flocos
Que o envolvem!
Já está belo e grande
De vida sagrada.
DOCTOR MARIANUS:
Aqui a vista está livre,
O espírito, elevado.
Ali passam mulheres,
Pairando para o alto.
A magnífica, no centro,
Em uma coroa de estrelas,
A Rainha do Céu,
Reconheço-a pelo fulgor.
Soberana suprema do mundo!
Permite-me, no azul
E vasto firmamento,
Contemplar teu mistério.
Aceita aquilo que, no peito do homem,
Se move com seriedade e ternura
E, com sagrado prazer amoroso,
A ti se oferece.
Invencível é nossa coragem
Quando, sublime, ordenas;
De súbito abranda-se o ardor
Quando nos pacificas.
Virgem, pura no mais belo sentido,
Mãe, digna de honra,
Rainha eleita por nós,
À altura dos deuses.
Ao redor dela entrelaçam-se
Nuvens leves;
São penitentes,
Um povo delicado,
Ao redor de seus joelhos,
Sorvendo o éter,
Necessitadas de graça.
A ti, a Intocada,
Não é vedado
Que aquelas facilmente seduzidas
Se aproximem com confiança.
Arrastadas para a fraqueza,
São difíceis de salvar;
Quem rompe por força própria
As correntes dos desejos?
Como depressa o pé escorrega
Em terreno inclinado e liso!
A quem não seduzem olhar e saudação,
Hálito adulador?
CORO DAS PENITENTES:
Tu pairas para as alturas
Dos reinos eternos;
Escuta a súplica,
Ó incomparável,
Ó rica em graça!
MAGNA PECCATRIX:
Pelo amor que, aos pés
De teu Filho transfigurado por Deus,
Fez lágrimas correrem como bálsamo,
Apesar do escárnio do fariseu;
Pelo vaso que tão abundantemente
Derramou fragrância,
Pelos cabelos que, tão macios,
Secaram os membros sagrados,
MULIER SAMARITANA:
Pelo poço ao qual, outrora,
Abraão conduziu o rebanho,
Pelo balde que pôde tocar,
Com frescor, os lábios do Salvador;
Pela fonte pura e abundante
Que agora dali se derrama,
Transbordante, eternamente clara,
Correndo através de todos os mundos,
MARIA AEGYPTIACA:
Pelo lugar altamente consagrado
Onde depositaram o Senhor,
Pelo braço que, desde a porta,
Me repeliu com advertência;
Pelos quarenta anos de penitência
Que fielmente cumpri no deserto,
Pela bem-aventurada saudação de despedida
Que escrevi na areia,
AS TRÊS:
Tu, que às grandes pecadoras
Não negas tua proximidade
E elevas uma conquista penitente
Até as eternidades,
Concede também a esta boa alma,
Que apenas uma vez se esqueceu,
Que não suspeitava estar errando,
O perdão que lhe convém!
UMA DAS PENITENTES, ANTES CHAMADA GRETCHEN:
Inclina, inclina,
Ó incomparável,
Ó rica em fulgor,
Teu semblante benigno para minha felicidade!
Aquele que cedo amei,
Já não obscurecido,
Retorna.
MENINOS BEM-AVENTURADOS:
Ele já nos supera
Em membros vigorosos;
A recompensa do cuidado fiel
Será abundantemente retribuída.
Fomos cedo afastados
Dos coros dos vivos;
Este, porém, aprendeu,
Ele nos ensinará.
A PENITENTE, ANTES CHAMADA GRETCHEN:
Rodeado pelo nobre coro dos espíritos,
O recém-chegado mal toma consciência de si;
Mal pressente a vida renovada
E já se assemelha à hoste sagrada.
Vê como se liberta de cada vínculo terreno
Da antiga envoltura
E, de uma veste etérea,
Surge a primeira força da juventude.
Permite-me instruí-lo;
O novo dia ainda o ofusca.
MATER GLORIOSA:
Vem! Eleva-te às esferas superiores!
Quando te pressentir, seguirá atrás.
DOCTOR MARIANUS:
Erguei os olhos para o olhar salvador,
Todas vós, delicadas penitentes,
Para vos transformardes, agradecidas,
Em direção ao destino bem-aventurado.
Que todo sentimento mais elevado
Se ofereça a teu serviço;
Virgem, Mãe, Rainha,
Deusa, permanece clemente!
CHORUS MYSTICUS:
Tudo o que é transitório
É apenas uma imagem;
O que não se alcança,
Aqui se realiza;
O que não se descreve,
Aqui está cumprido;
O Eterno Feminino
Nos conduz para o alto.
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