Universo da obra
Universo da obra
O sr. Alexandre Herculano acaba de publicar sob o titulo de Opusculos um livro em que, além de uma refutação erudictamente argumentada e inedita da portaria que suspendeu as conferencias democráticas do Casino Lisbonense, se encontram apenas reedições de algumas antigas obras do ilustre escritor.
Reapparecendo assim na publicidade, reentrando na lucta das idéas novas com os velhos engenhos de guerra despendurados dos arsenais de 1836 ou 1843, sua excelência lembra-nos demasiadamente o antiquário que sáe a combater forças vivas á frente das naturezas mortas do seu museu, formando em batalha contra os entes animados da creação os jacarés empalhados e os monstros em espirito de vinho da sua galeria curiosa.
Os discursos de estas paginas antigas, a que sobejam por um lado os acessórios artificiais da retórica e a que faltam por outro lado, com as oportunidades do momento em que foram concebidas, as condições de uma existência necessária e real, fazem-nos o efeito de armaduras primorosamente cinzeladas, mas suspensas em ripes de pinho, finos capacetes de viseiras caladas sobre caraças de papelão com verniz de cera cor de rosa e olhos de vidro.
E causa-nos pena isto: que tantos aparatos de força e tão sólidos instrumentos de guerra se prestem a desabar, com o estampido ridículo dos louceiros que se quebram nas velhas farças, aos golpes de stick do primeiro irreverente que passe trazendo na cabeça as exaltações de dois dedos de Proudhon e de um copo de Champagne!
Serão injustos depois os que bradarem contra a decadência, contra a corrupção, contra a irreligiosidade do século com o fundamento de que, em estes contactos das antigas armas consistentes e das novas modas futeis, é o espesso arnês de Carlos Magno o que rende e a fina veste Bênoiton a que triunfa.
Ai! perdoae-nos... Nós preferimos ás impenetraveis armaduras dos vossos gigantes, que não servem hoje a ninguém e que não trazem ninguém dentro, a simples flanela vulgar, talhada por Pool para as formas exíguas dos macacos sábios da geração nova, dentro da qual flanela todavia se abotoam homens, pequenos e frageis, mas emfim mais ou menos vivos, graças ás capsulas ferruginosas e ao Rob Lafecteur, podendo impunemente, perante os minotauros de cartão, em um rasgo de cancan, chegar-lhes com o bico do pé á ponta do nariz.
Ao passo que, sobre estes fracos mortais, que ainda não estoiraram de todo nos galopes da vida, as efigies dos antigos semi-deuses, inofensivos e inúteis como estatuas de louça branca--na atitude clássica dos Abrahões de jardim--suspendem os seus alfanges, como poleiros aéreos, cuja imobilidade tem convidado ao sono quarenta gerações de pardais!
Aqui temos nós, por exemplo, A voz do profeta, cem paginas sibilinas, em estilo enfático, alegórico, confuso, tremendo.
É uma especie de Dies iraê--de salão.
Cada período ronca lugubremente como um estertor de moribundo, imitado em um figle.
Em cada frase ha um vácuo premeditado que lembra a orbita sem olho da caveira de um ciclope.
A locução, pintada como uma actriz vestida do branco, com os cabelos desgrenhados, que se predispoz ao espelho para uma scena de delírio, tem tons cadavéricos, produzidos por grossos riscos pretos sobre gesso esverdinhado e branco: ela passa misteriosa e terrível; não se sabe do onde vem nem para onde vai, nem quem busca, nem o que pretende--ela, desvairada, também o não sabe!--mas pisa o tablado a largos compassos tectricos, brandindo um punhal, olhos fixos e dedo descarnado e livido apontando o espaço. A orchestra, a golpes taciturnos e tremidos de rebecão, imita os rumores das tempestades. E os espectadores angustiados, presentindo que alguma coisa pavorosamente trágica vai ocorrer, desdobram os seus lenços nas mãos abertas, aprontando-se para acolher aquela porção de sensibilidade opressa de que a imperfeita natureza humana se desencarrega--ai de nós!--pelo nariz....
O monologo porém termina; está volvida a última pagina da prosa melodramática do sr. Herculano; ele, o profeta, principiou estas palavras:
«O espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vai, e faze resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade. E eu obedecerei ao meu Deus no meio dos punhais de assassinos...»
E conclue assim:
«em este momento a visão desapareceu, e achei-me banhado em suor frio e repassado de amargura. E por impossível tinha que tão negro futuro houvesse nunca de verificar-se: mas súbito ouvi muitas vozes que diziam:--Guerra á religião do Cristo! Então cri na visão que o Senhor me enviava, e apagou-se-me na alma o último clarão de esperança.»
Ao terminarem a leitura, as turbas obscuras e humildes a quem o auctor se dirigira, e das quais nós temos a honra de fazer parte, perguntam contristadas e atônitas:
Mas, bom Deus, poder-se-ha saber por que altos motivos está s.ex.ª o profeta banhado em suor frio e repassado de amargura?!
Ser-nos-ha dado apreciar quais as razões por que o digno socio de mérito de Jeremias e da Academia Real das Ciências, apagou dentro da sua alma o último clarão de esperança?
Sim! em esta recente edição do seu opusculo, s.ex.ª o anjo, incumbido diretamente por Deus de fazer resoar palavras de terror, explica satisfatoriamente o fenômeno patológico da desesperança em sua alma e dos suores frios em seu corpo, por via de algumas laudas de introducção, destinadas a prehencher cabalmente os votos de aqueles que tinham prometido aos deuses um profeta de cêra, se os deuses lhes consentissem penetrar o sentido da Voz do profeta.
A explicação de essa voz que diz ao povo «que a sua hora extrema vai soar, que ele é maldito, que ele é empestado, que é pustulento e pôdre, vil e malvado, escoria, imundice e relé»,--a explicação da voz que diz e rediz isto em 118 paginas de uma profecia de extermínio e de morte para o povo e para o paiz, é que:
A revolução de setembro triunfava com a democracia, o sr. Alexandre Herculano não acreditava na democracia, tinha-a pela «declamação interessada de engenhos superficiais que pretendem jungir ao carro das próprias ambições as turbas más, porque ignorantes, odientas, porque invejosas, espoliadoras, porque miseráveis;» e Ele, o profeta, Ele, o anjo exterminador, Ele, o enviado de Deus ás gerações... Ele era--cartista!
Se o sr. Herculano escreveu isto, que parece uma blasfêmia pavorosa «O espirito de Deus passou pelo meu espirito e disse-me: vai, e faze, resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror...»--é que naturalmente Deus era também--cartista.
E assim rompe um livro, tendo por base a mancomunação de um Deus e de um profeta, conchavados para espancarem patuleas a cacetadas de bíblia e de retórica!
Permita-se-nos dirigir uma pequena pergunta humilde ao grande historiador:
Se s.ex.ª nos afirma que o espirito de Deus o tocou e lhe disse: Vai, o que acreditamos sob a palavra de s.ex.ª, como ousa s.ex.ª negar que o mesmo Deus tivesse egualmente aparecido a Affonso Henriques e lhe tivesse dito--Vence? Porque, em fim, a verdade é que o milagre que precedeu a Vitória de Ourique é exactamente o mesmo que inspirou a Voz do profeta. Ao grande escritor assim como ao grande rei Deus apareceu e falou. Se um de estes cavalheiros nega a visão de outro, não poderá a critica julgal-os suspeitos como oficiais do mesmo oficio? Não será plausível que cada um de estes Joões Marias Farinas dos divinos cheiros queira para si o privilegio de ser o único João Maria Farina, autentico e legitimo?
Mais encerra o sobredito livro dos Opusculos:
Primeiro--Uma «consulta apresentada á Academia Real das Ciências acerca do estado dos archivos eclesiásticos do reino e do direito do governo em relação aos documentos ainda em eles existentes»--questão que se acha resolvida desde 1857. Tem essa actualidade.
Segundo--«Os egressos, petição humilíssima a favor de uma classe desgraçada.» Mais: «As freiras de Lorvão», especie de petição em favor da parte feminina da sobredita classe, ato filantrópico que declarado hoje, quarenta anos depois da extincção das ordens religiosas, nos obriga a meditar nas razões por que o auctor não aproveitaria este ensejo para peticionar egualmente em favor das famílias dos companheiros de Faraó, victimas da terrível catástrofe da passagem do Mar Vermelho.
Terceiro--«Teatro, moral, censura», discurso em que o auctor propõe que a censura dramática não seja eliminada mas sim substituida por «uma lei para o teatro em harmonia com a lei politica da nação»--especie de carta constitucional da monarchia da rua dos Condes e do Salitre. O sr. Herculano quer um jurado especial encarregado de defender a moralidade, punindo com multas pecuniárias e com cadeia todo o delicto dramático em ofensa da moral,--o que nos parece ser, sem a miníma dúvida, o restabelecimento puro da santissima inquisição, ou a renovação dos jogos da eloquência, de Caligula, em que o vencido era lançado no Ródano, sempre que não preferia apagar o seu discurso com a língua.
Quarto e último--Uma advertência preliminar, na qual o autor explica que compoz a sua obra com o fim de--matar o tédio das longas noites de inverno na solidão da sua granja. de onde somos levados a deduzir que os fins da arte para o ilustre solitário de Vale de Lobos--no inverno pelo menos--são simples parceiros de jogo, questão de passar tempo: para s.ex.ª a antiga coisa sagrada de Platão substitue--a bisca sueca. O fim moral retira-se, havendo uma perna para o voltarete.
E nada mais se contém no último livro recentemente publicado por aquele que justamente se considera o primeiro dos escritores portuguezes!
Esse livro que se não baseia em nenhuma das necessidades da sciencia, da razão ou do sentimento do mundo moderno, caminhando no ar como as pinturas chinezas em que não ha solo, é uma péssima obra. Vem de alto, firma-a um nome prestigioso, está escripta no estilo relimado a que Michelet chama a indigente correcção de Malherbe: tem portanto as condições da voga; é um exemplo funesto. Porque esse livro não instrue, nem ensina, nem esclarece, nem consola ninguém.
Referindo-se ás conferencias do Casino repisa a velha questão católica e esquiva-se á apreciação da teoria artística, econômica e scientifica da revolução, que essas conferencias propagavam.
Na politica é auctoritario, conservador intransigente. Impõe-nos a carta, como Carlos IX impunha a missa a Henrique de Navarra e ao jovem Condé, depois da Saint-Barthelemy. Nega a revolução democrática com um desdem banal, como quem ignora ou finge ignorar que toda a revolução que se opõe á corrupção e á miséria, filhas das instituições, não é uma teoria contingente mas sim uma lei fatal. Estava em este ponto bem mais adiantado, do que s.exª nos quer mostrar que se acha, aquele velho ministro francês que ha mais de cem anos exclamava: «La légalité nous tue».
Na economia social, sem uma palavra para algum dos princípios que constituem o sistema de credito e a organisação industrial, preconisa as caixas econômicas, escondendo que a questão de coarctar a miséria não é de estabelecer o mealheiro mas sim de criar o trabalho.
Na arte quer a manifestação do pensamento adstricta ás sentenças de um juri tirado da academia das ciências, da escola polytechnica e de não sei que outros tribunais regularisadores do direito da palavra, justificando assim aquela definição do sublime dada por Galiani: «a arte de dizer as coisas sem ir para a cadeia»; quando a verdade em este ponto é que nada ha que mais avilte a inteligência e o caráter do que o exercício hipócrita, imposto pela legislação repressiva, de encobrir o pensamento ou de disfarçar a verdade.
No momento actual, quando a Europa inteira, grande mártir, se agita na polemica e no sangue, procurando nobremente e santamente resolver para a justiça o problema do destino dos povos, reconhecendo com Proudhon que a negação da sociedade feita em 93 implíca uma afirmação subsequente que ainda não está feita, e que, depois de desorganisados os privilégios, nos é hoje preciso organisar sólidamente e firmemente o trabalho na paz, no bem estar e na virtude,--em este momento supremo, um dos mais graves em que se tem achado a humanidade, quando mais do que nunca se precisa para a verdade do concurso de todos os espíritos elevados e rectos--, um filósofo, um pensador educado nos severos estudos históricos, o mais auctorisado dos nossos escritores, entretendo-se no seu gabinete a reconstituir antigos opúsculos banais e extinctos para passar o inverno, lembra um pouco o imperador Teodósio entregue ás especulações teológicas, e compondo símbolos no gineceu, quando Genserico estava em Cartago e Átila nas margens do Danubio.
Diz-nos o sr. Alexandre Herculano que está velho, desiludido, desalentado...
de onde lhe veio tanta amargura e tão singular abatimento, que nem os anos nem os desgostos justificam?
Comprehende-se a tristeza de aqueles que, consagrando a sua vida a uma grande obra, absorvendo-se em ela, pertencendo-lhe integralmente, se acham repentinamente desacompanhados e sós ao verem a obra terminada. Michelet consumiu quarenta anos a escrever a historia da sua pátria. «Pois bem, minha grande França, exclama ele, se foi preciso para achar a tua vida que um homem se tivesse entregado e passasse e repassasse tantas vezes o rio dos mortos, esse homem consola-se, agradece-te ainda, e o seu maior pesar é ter emfim do deixar-te.» Gibbon, tão frio e tão seco, não larga o seu livro sem uma comoção profundamente melancólica: «Pensei que acabava de despedirme do antigo e agradável companheiro da minha vida.» Oh! sim, comprehende-se bem essa magoa profunda que absorve o homem ao cabo da missão a que ele se dera no mundo! Comprehende-se Alexandre morrendo de tristeza depois de conquistar a Asia, e Alarico depois de tomar Roma; comprehende-se Godofredo de Bulhões, com a sua hercúlea natureza que resistiu inalterável ás fomes, ás sedes, ás pestes, ás guerras, a todas as tragedias da cruzada, sossobrando finalmente ao ter de embainhar a espada, e morrendo--por ter chegado!
Mas não se comprehende definhando de tristeza em Vale de Lobos o sr. Herculano, porque ele não venceu, não conquistou, não concluiu a sua obra: abandonou-a apenas, retirou-se, foi-se embora.
Como antigo literato, historiador, romancista e poeta, s.ex.ª não se póde contristar. Deve consolal-o a vida rural, que elegeu em substituição da vida artística.
Se o não satisfaz a solução que deu ao seu destino, se no remanso da sua granja, na abundancia, no saudável exercício da lavoura, na família, na saúde, na paz, na consideração e no respeito publico, s.ex.ª se sente efetivamente velho, desalentado e triste, creia s.ex.ª então que não é o literato que ainda sofre, é o agricultor que já começa a padecer. A padecer o que? Esta moléstia:--a nostalgia da arte.
A tristeza não é nunca um estado de espirito normal no organismo de um homem são. A tristeza é um symptoma de enfermidade física ou moral. A tristeza habitual quando se não cura com as pílulas de Radway e com as águas minerais, cura-se com uma acção boa. Se com isso não passa, é então uma lesão profunda e mortal.
O homem que durante vinte anos viveu no trabalho intelectual, na aplicação, no estudo, na poderosa contensão da arte, escrevendo, publicando, dilatando-se, repartindo-se pelos seus semelhantes, amassando e forneando para eles o divino pão da verdade, nunca mais póde sem perigo retirar-se de esse meio.
Nos sérios trabalhos do espirito consagrados a uma idéa elevada ha uma luz vivificante e serena que não somente alumia o operário, penetra-o também, alimenta-o, conforta-o. A sua obra não é inteiramente de ele, ele pertence também á sua obra. Ele cria-a, torna-a viva, poderosa, imortal á força de amor, de verdade e de justiça; ela, generosa e grata, educa-o, aconselha-o, consola-o, fortifica-o. Os dias passam, tenebrosos ou límpidos, serenos ou revoltos no mundo externo; na imutável região da arte ha a pacificação permanente. Embebido na doce mocidade eterna da sua obra, o verdadeiro artista, perfeitamente fiel ao trabalho, não sabe nunca se envelhece ou não.
Veja o sr. Herculano aqueles que deixou nas letras, ha alguns anos, muito mais edosos que ele! Como ainda hoje são novos!
Quem guia, quem governa, quem encaminha hoje no mundo a grande marcha das idéas modernas a que o ilustre agricultor de Santarém se opõe, no seu recente livro de torna-viagem, com epigramas cacheticos e vetustos? Veja-os s.ex.ª, escute-os, atenda-os: como têm os lábios vermelhos, a voz clara e metálica, os cabelos loiros, os músculos fortes, o sangue vermelho, salgado e alegre! Reconhece-os?...
São Victor Hugo, Michelet, Quinet, Thiers, Raspail e Karl Marx.
Companheiros de infância de s.ex.ª eil-os aí ainda, na mais perfumada e viçosa flor da edade, entre os setenta e os noventa anos!
Quando uma vez se habitou o paiz luminoso da sciencia e da arte é impossível o expatriamento para os frigidos climas sombrios dos interesses práticos e positivos. A mão que por vinte anos manejou uma pena, não poderá jamais ageitar-se á rabiça de um arado. Sequestrar-se á sciencia é roubar a sociedade. Para onde quer que te recolhas com a porção de luz e de verdade que tinhas no teu cérebro e que subtrahiste do tesouro comum da humanidade, para onde quer que te escondas, ó triste foragido, irá sempre contigo, pungindo-te na parte mais nobre do teu ser não contaminada pelo egoismo, o remorso de uma acção má. Debalde procurarás justificar o plano da tua deserção com os desgostos que atravessaram a tua carreira. Desgostos, tu! o filho mimoso da tua pátria! a única gloria oficial da literatura do teu paiz! tu sempre lido, sempre gloriado, sempre retribuido! Oh! como se rirão dos teus pretendidos desgostos todos aqueles que tiveram no mundo uma idéa, que se lhe consagraram, que viveram e que morreram por ela!
Pobre homem sem fé! que pensarão do teu martyriosinho de álbum, da tua pequenina cruz de berloque, aqueles que realmente tiveram um martírio e uma cruz, onde padeceram e morreram, resignados e austeros?!... Spinoza, que muitas vezes comeu hervas por não ter pão; Campanella preso vinte e sete anos, sendo cinco vezes julgado e sofrendo sete vezes a tortura; João Jacques dormindo em um fosso por não ter outro asilo; Diderot desmaiando de fome; Proudhon, vivendo com um tostão por dia, caminhando oitenta léguas a pé para ir ver o seu amigo, só, odeado, perseguido, caminhando sem meias, com os pés nús embrulhados em palha dentro dos tamancos das suas montanhas do Jura!
Se o sr. Herculano, agricultor, está triste, volte a ser literato, restitua-se á sua pátria, á sua geração e ao seu tempo.
Se definitivamente não quer ser mais um escritor, poupe então a nossa sensibilidade ás repetições da historia dos seus desgostos. Como simples proprietário rural os júbilos ou as melancolias do sr. Herculano são absolutamente indiferentes á humanidade.
Quando Quinet publicou a «Historia» das suas idéas, procurando dar sob uma fórma individual a historia moral da geração de que fez parte, á similhança do que parece ser intentado agora pelo sr. Herculano com a publicação dos seus opúsculos, Quinet não obedecia ao desejo de servir um editor ou de entreter um inverno; Quinet, coligindo as suas idéas e recompondo o seu passado, arrancava da sua obra uma grande idéa, bela, radiante e fecunda: a coherencia, iluminando um caráter, e fazendo de ele uma força moral.
Quinet não vinha entristecer-nos com a sua melancolia nem contaminar-nos com o seu desalento.
Se ele reconstituia e publicava os dispersos fragmentos obscuros de antigos trabalhos era exactamente porque de esse agrupamento e de essa reunião de idéas espalhadas pelas diferentes edades e pelas diversas fases da sua vida sobresahia como um nobre exemplo o luminoso contentamento de uma alma perseverante e forte.
Decepções, chimeras, enganos, o que vem a ser essas coisas? ignoro-o; aí está a minha vida, dizia celé. O que uma vez amei, em cada dia me pareceu mais digno do amor; de dia para dia adiei a justiça mais santa, a liberdade mais bela, a palavra mais sagrada, a arte mais real, a realidade mais artista, a poesia mais verdadeira, a verdade mais poética, a natureza mais divina, o divino mais natural. E se me sobrasse tempo para ir mais ao fundo de aquilo que ignoro, sinto que as coisas que ainda me espantam acabariam por desaparecer. Onde a inquietação se apoderara de mim, o enigma se decifraria por si mesmo. Eu repousaria na luz.
São os homens que podem extrahir do seu passado a lição que encerram essas formosas palavras os que têm direito de vir falar-nos do seu passado. Os que não têm como lembrança dos seus dias decorridos senão o cansaço, o desalento, a indiferença o o desdem, podem fazer um serviço maior do que escrevel-o; é calal-o.
Concluindo não pediremos ao sr. Herculano que nos perdoe a ousada franqueza com que lhe falamos. S.ex.ª sabe que a única irreverencia criminosa diante de urna verdade que se possui consiste unicamente em esconder essa verdade. Que ela provenha do mais obscuro dos miseráveis ou da mais alta e mais competente das actividades, que importa? É preciso abate-a ou deixá-la passar. S.ex.ª conhece o dialogo asiático de Salomão e de Marculf. Salomão é o grande rei, dotado de todos os dons, belo, omnipotente e sábio; Marculf é um vilão-ruim, um rustico insolente e bestial. No emtanto as subtilezas populares do bobo esfarrapado embaraçam e humilham no seu trono o poderoso e sábio rei. Isto prova que a magnânima autoridade e a sacrosanta lei escripta podem não perder tudo em escutar um simples, roto e despresivel raciocínio plebeu.
Bem sabemos que não somos nós que temos as finas subtilezas irônicas do bobo Marculf. Mas egualmente é certo que por outro lado o sr. Herculano também não é inteiramente o filho de David, rei de Israel, o que escreveu o Cantico dos cânticos e edificou o templo.
Ao passo que o sr. Alexandre Herculano, historiador, publica opúsculos, o sr. João Felix Pereira, opusculista, publica historia.--É a logica do absurdo.
A recente obra de Felix é um resumo de historia romana traduzido do latim. As primeiras linhas de esta versão bastam para dar aos leitores uma, idéa da obra.
O império romano, menor do que o qual em seo principio, ou maior por seo augmento em todo o mundo, de quase nenhum a memoria humana pode recordar-se, tem principio de Romulo; o qual filho de Rhea Silvia, virgem vestal, e, quanto se julgou, de Marte, foi dado á luz com seo ermão Remo, de um só parto. Ele como andasse roubando entre pastores, chegando á edade de dezoito anos, fundou uma pequena cidade no monte Palatino...
Tal é Eutropio--traduzido para Felix. Não faltaria agora senão uma coisa: traduzil-o de Felix para Portuguez--se por ventura houvesse alguém no mundo que fosse capaz de advinhar perante a língua de Felix, qual a gramatica com que se rege Felix, medico, engenheiro civil, agrônomo, e auctor de opúsculos para instrução da mocidade!
Não, francamente, ó Felix, vós, que tendes tantos oficios--medico, engenheiro civil e agrônomo--vós, que sois na sciencia o mesmo que são na musica os homens dos sete instrumentos, que fazem uma orchestra batendo com todas as partes do corpo, vós que egualmente sois medico com a boca do estomago, engenheiro civil com os cotovelos, agrônomo com o nariz e escritor publico com os calcanhares, porque não deixais vós de ser, pelo menos, um preceptor da infância, um escritor das escolas?!...
Em primeiro logar isso descançaria um pouco o vosso corpo, ó habilidoso João, ó feliz Felix.
Em segundo logar pouparieis á infância o desgosto de desaprender a sua lingoa lendo nas aulas os vossos escritos, os quais a benemérita Junta Consultiva da Instrução Publica não deixa nunca de aprovar, servindo assim na primeira comunhão dos que estudam, em vez das sagradas partículas da sciencia, os estercos nauseabundos e venenosos das vossas equarissages literárias.
A verdade, enciclopédico Felix, é que vós escreveis muito peior do que falam os botucudos do rio Mucury e os Peles Vermelhas, no interior dos sertões.
A verdade é que ninguém vos entende.
Se nós houvessemos de ir estudar os rudimentos da historia romana prefeririamos ao trabalho de interpretar o vosso compendio ir diretamente estudar a geografia antiga, a etnologia, a geologia, a linguística, a archeologia, todas as primitivas fontes da historia; ser-nos-ia mais fácil, mais rudimentar, do que analisar e reduzir á gramatica qualquer dos vossos períodos, ir á Asia Menor estudar as epigrafes funerárias sobre as ruínas do templo de Herodes Atticus, interpretar e comparar os textos da escripta hieroglífica, hierotica e demótica, os documentos originais bysantinos e orientais, e as inscripções babilônicas e assyrias gravadas nas estatuas, nos baixo-relevos, nos cilindros e nos amuletos... Tudo isso, ó João, antes, mil vezes antes, do que procurar entender-vos!
Se porém o nosso conselho vos não apraz, se quereis absolutamente continuar a escrever compêndios, em vez de seguirdes outro oficio, não nos aflijais pelo menos, continuando a declarar-nos em cada uma de vossas obras que continuais sempre a ser medico, agrônomo e engenheiro civil! Se tudo isso vos não serve para ganhardes honradamente a vossa vida sem vergonhas da gramatica dos vossos pais e do senso comum dos vossos avós, então ponde unicamente nos vossos livros:
POR JOÃO FELIX BIMANE DA ORDEM DOS PRIMATAS SEGUNDO DARWIN E LAMARCK
O Tribuno Popular, folha democrática de Coimbra, referindo-se em um notável artigo á recente viagem àquela cidade do S.M. o sr. D. Fernando, escreve estas linhas:
«em este intervalo a sr.ª condessa de Edlla, e o sr. infante duque de Coimbra, acompanhados pelo sr. visconde do Seiçal e João José de Melo, emprehendiam um passeio notavelmente pitoresco. Dirigiram-se ao cais, entraram em um pequeno barco, e seguiram rio acima, admirando estas formosissimas margens, então realçadas pela luz do luar, e animadas pela orchestra de mil rouxinóis que de ambas as margens pareciam advinharem os espectadores nocturnos que os escutavam.»
Poderosos ceos! Que teriam feito os rouxinóis para que se entendesse que eles tinham advinhado «os espectadores nocturnos que os escutavam?!»
Cantaram o hymno da carta? Deram vivas á real família? Perguntaram por Melicio?...
Por Deus! que o Tribuno Popular nol-o diga! Queremos pedir para o peito de esses passarinhos a comenda de S. Tiago.
Enquanto aos srs. viscondes do Seiçal e João José de Melo, estamos certos de que não deixaram ficar a côrte endividada com a patriótica manifestação dos rouxinóis do Choupal. Sim, ss.ex.'as seguramente responderam aos rouxinóis, desentranhando-se por sua parte nos mais ternos pios, nos mais vigorosos gorgeios... Oh! nós conhecemos a fidalga bizarria de ss.ex.'as, Pela parte que nos toca não podemos deixar também de mandar um garganteado reconhecido ás avesinhas do Mondego. Ora pois: có, có ró, có! por Lisboa agradecida.
Sempre que em cada ano se celebra na cadeia do Limoeiro a cerimônia da comunhão aos presos, o senhor procurador régio convida a imprensa a assistir a essa solemnidade, e a imprensa publica no dia imediato que a cadeia está no maior asseio e que o senhor procurador régio é digno dos maiores elogios. Porque? Porque comungaram os presos.
Ha dias lemos que a casa de detenção da comarca de Lisboa estabelecida no antigo convento das Monicas estava no dito «maior asseio» e que o mesmo procurador régio era digno dos referidos «maiores elogios.» Razão: Tinham comungado os presos.
Ora é bom que o publico saiba de quando em quando o que são as prisões portuguezas--quando os presos não comungam.
Nós visitámos a casa de detenção--antes da oitava da Paschoa. Eis o que vimos:
Um prédio frio, humido, abafado, sem ar e sem luz, espessas paredes e pequenas janelas, a clausura mais estreita, mais escura, mais humilde. Era no inverno. As paredes rebocadas de novo tinham grandes manchas humidas, esverdeadas. O sol não penetrava em parte alguma do edifício. Uma impressão de bolor e um ar em que se sentiam, resfriadas e fixas, as exhalações peculiares da miséria, a atmosfera das enxovias desabitadas, as reminiscencias olfáticas dos cheiros emanados das vasilhas de lata em que houve caldo e dos vestidos quentes dos mendigos que apanharam chuva.
Era um domingo. Os rapazes detidos no estabelecimento, na promiscuidade de todas as edades desde os seis anos até aos dezesseis, estavam juntos em um estreito pátio interior, na sombra--porque também ali não chegava o sol--frios, com as mãos nos bolsos, encostados aos muros, sentados ou deitados no chão. Ninguém os vigiava. Eles porém estavam quietos--como um rebanho no curral. Alguns tinham escrófulas. Outros tinham os olhos doentes e os cantos da boca feridos. Eram todos magros, pálidos, anêmicos, tristes.
Perguntamos-lhes por que esperavam. Não esperavam nada. Estavam ali. Que faziam? Coisa nenhuma. Porque não cultivavam a quinta anexa ao edifício, metade da qual estava cheia de hervas inúteis? Porque os não deixavam: havia um hortelão. Porque não iam pelo menos passeiar na quinta? Porque era prohibido. Não havia uma gymnastica? Não a havia. Não havia de todos esses regimentos da guarnição de Lisboa um musico que aos domingos lhes ensinasse rudimentos de musica para que tivessem uma charanga? Não havia. Hão havia, pelo menos, um cabo de esquadra que os fizesse marchar ao som de um tambor e lhes ensinasse o exercício militar? Não havia. Não havia, emfim, terra que remover, pedra que acarretar, lenha que partir, um pau sequer espetado no chão para treparem em ele, uma escada de mão posta ali para subirem e descerem por ela, uma ocasião, um motivo, um pretexto, uma desculpa qualquer para que esses infelizes pequenos se bolissem, se movessem, tivessem alguma distracção, fizessem algum exercício? Nada, absolutamente nada. As lages do pátio interior da casa, pouco menos estreito que um saguão, coberto de sombra e de frio e sobre as lages os pequenos. Era assim que passavam os domingos.
Nos dias de semana trabalham em oficinas térreas, sem soalho, extremamente humidas, no mesmo pátio em que jazem nos domingos. Uns são alfaiates, outros sapateiros, outros esparteiros. Ha sobre isto uma escola de instrução primaria. Não aprendem mais nada. Nada mais se lhes ensina.
Este instituto tem uma missão especialmente moralisadora. Não ensina moral.
Tem por fim punir e evitar as contravenções da lei. Não ensina a lei.
Tem a obrigação restricta da catechese. Não ha na prisão um padre, um capelão, um perceptor.
Aos domingos um sacerdote diz missa e retira-se. Por essa razão entre as atribuições dos chaveiros lemos esta disposição: «Obrigará os presos a benzerem-se.»
Têm duas refeições por dia. Ao almoço arroz e feijões. Ao jantar feijões e arroz.
Carne fresca ou salgada, de boi, de carneiro ou de porco nunca comem. Nunca bebem vinho.
O rancho é fornecido pela cosinha do Limoeiro. Isto precisa de ser dito duas vezes. O rancho é fornecido pela cosinha do Limoeiro. É o menu da enxovia. Se é mau na cadeia, imagine-se o que poderá ser na casa de correcção!
Dormem, aos grupos de oito, em camaratas, onde ha, em cada uma, oito camas e uma latrina.
Na camarata não ha luz. A porta é fechada por fora á chave.
Não ha vigilância alguma durante todo o espaço de tempo que decorre dentro de aquelas podridões, desde que anoitece até que rompe o sol. Apenas, fora do corredor que dá passagem para os dormitórios, dorme um guarda no seu quarto. Este guarda teve a bondade de nos dizer que, sempre que havia desordens nas camaratas, ele intervinha com o rigor da sua autoridade por isso que, concluiu ele, quem dá o pão dá o ensino.
Cremos piamente que este guarda está convencido de que quem dá o pão em Portugal á infância criminosa é ele. O ensino pelo menos é exclusivo de sua mercê.
A direcção geral da prisão está confiada a um homem que não sabemos quem é, nem quem foi, nem quem poderá vir a ser. O que sabemos, e isso nos basta, é que esse diretor ganha--cinco tostões por dia!
Eis a fisionomia da casa de detenção da comarca de Lisboa, contornada a traços matemáticos, sem comentários, sem ênfase, sem exclamações doloridas ou sentimentais, nenhum toque artificial de luz ou de sombra que possa alterar a exacção rectilinea do quadro!
Para isto não ha pedir reorganisação ou reforma. Não se trata de uma velha instituição apodrecida pelos anos. É uma creação nova, que tem apenas alguns meses de existência. Dá a medida exacta das forças de sciencia, de civilisação e de moral que o paiz se acha oficialmente habilitado para dispender, no dia de hoje, em favor do progresso. Não se póde por em quanto pedir mais nada ao paiz! Eis a sua mais recente prova de capacidade! Eis tudo quanto ele sabe do direito criminal, da higiene física e moral das prisões, das modernas colonias penitenciarias, da educação intelectual, da educação moral, da educação religiosa, dos deveres filantrópicos do Estado, da missão paternal do poder para com os órfãos, da organisação do trabalho infantil, de todas as questões finalmente ligadas á creação de um estabelecimento penal da ordem de aquele a que nos referimos.
O povo, tranquilo e satisfeito, lê as folhas baratas cheias de elogios estólidos ás mais viciadas e perniciosas instituições do paiz, e julga-se fielmente levado para a mistica terra da promissão pelos homens que o governam e pelos homens que o instruem. De todo o tempo esteve na tendencia popular esta profunda fé na simplicidade ignorante. Os primeiros cruzados que foram á Terra Santa queriam ter por guias uma cabra e um pato; os Sabinos baixaram das suas montanhas conduzidos por um picanço; Cadmus foi á Beotia levado por uma vaca. Em Portugal João Felix, no livro; Melicio, no jornal; e o sr. procurador régio na casa das Monicas, dirigem os espíritos e guiam as consciências para o ideal. A opinião obedece-lhes.
Vemos em uma conta oficial que nas obras feitas no convento das Monicas para adaptar o edifício ao fim a que ele hoje se destina, se gastaram seis contos de réis. Junte-se esta quantia á de quinze contos, preço mínimo porque poderia ser vendido o convento e quinta anexa e ter-se-ha mais que o suficiente para fundar em qualquer baldio da Extremadura ou do Alemtejo uma exemplar colonia agrícola penitenciaria.
Seis contos de réis, só em obras em um edifício torto, absolutamente impossível de adaptação ás necessidades do trabalho, da educação e da higiene!...
Mas é um desperdício, que revela a ignorância mais crassa em semelhantes assumptos. Na magnifica colonia agrícola de Mettray, perto de Tours, em França, as creanças presas estão divididas por edades e repartidas por casas inteiramente separadas e independentes. Cada uma de estas casas, de 12 metros sobre 6,66, consta de um pavimento térreo e de dois andares. Na sala do rez do chão está estabelecida a oficina. Em cada um dos dois andares ha uma sala, que serve sucessivamente de dormitório, de refeitório, de sala de estudo, de sala de recreação nos dias de chuva, e em caso de necessidade de escola. Dois travessões presos ao muro por uma dobradiça em uma das suas extremidades estão levantados ao longo da parede dos dois lados da porta de entrada. Quer-se preparar o refeitório, a classe, a sala de estudo? Descem-se estes dois travessões e suspendem-se no muro fronteiro, ficando assim firmes, na altura de uma mesa, aos dois lados da porta, e a todo o comprimento da sala; em seguida descem-se das paredes laterais pranchas de madeira fixadas em elas por meio de dobradiças como os travessões; estas pranchas presas ao muro por um lado prendem-se pelo lado oposto ao travessão por meio de uma cavilha; e estão promptas as mesas. Os bancos levam-se da oficina. Se se quer armar o dormitório, em vez das pranchas com que se formam as mezas, descem-se dos muros as macas em que se fazem as camas. Ao fundo de cada um de estes dormitórios ha um quarto aberto para a sala em que dorme o chefe da secção, secundado pelo contra-mestre. Os contra-mestres estão alternadamente de quarto no dormitório, de modo que durante a noite passeia constantemente um guarda no espaço que medeia entre os dois travessões de que falamos.
Cada um de estes pequenos prédios contendo quarenta e três pessoas, custou, incluida toda a mobília, um relógio, toda a roupa de camas, e toda a loiça de lavatório e limpeza, 8:300 francos, isto é: 1:494$000 réis.
Três dos prédios descriptos seriam muito mais que o suficiente para recolher todos os presos actualmente existentes na casa de detenção das Monicas.
Temos portanto que em Lisboa se gastam seis contos unicamente em reparos em um velho edifício monstruoso, quando em Tours se funda para 120 presos um estabelecimento completo, se construe um edifício modelo, provido inteiramente de louça, de roupa e de mobília, por menos de quatro contos e quinhentos mil réis!
Em quanto ao regime e á organisação interna do estabelecimento portuguez quase tudo o que existe é erro.
Os presos não cultivam a quinta. Deviam cultival-a. Formar-se-hiam assim hortelões e jardineiros.
Não cosinham, não tecem o estofo dos seus vestidos, não cozem o pão das suas rações, não fazem a mobília das suas casas. Tudo isso deveriam aprender. Era fácil, era econômico, era moralisador, dava aos presos novas aptidões, ensinando-os a padeiros, a tec-lões e a cosinheiros,--as noções mais essenciais á vida.
Não aprendem musica. Deviam aprendel-a. Uma charanga á frente de cem rapazes em marcha faz de eles cem homens.
Não têm uma bomba de incêndios. Deviam tel-a, deviam saber manobrar com ela. Devia-se conceder como um premio aos de melhor procedimento, levarem a bomba aos incêndios, permitindo-se por este modo aos condemnados a faculdade de se rehabilitarem sacrificando a sua vida pelos seus semelhantes.
Não ha uma mulher dentro da prisão. É uma enorme falta para as desgraçadas creanças de oito a doze anos. A cozinha, a lavanderia, a enfermaria, a rouparia, coisas que ali não existem senão nominalmente, deveriam organisar-se de um modo effectivo com o trabalho dos presos e sob a direcção das irmãs da caridade portuguezas, que encontrariam assim um emprego elevado e digno do seu tempo.
Só as mulheres sabem aconselhar as creanças, convencel-as da virtude; e cumprir esta missão é mais belo e é mais meritório perante a sociedade e perante Deus do que mendigar por entre velhas fidalgas devotas, embiocadas e inúteis, o pão de cada dia.
Os presos isolados no carcere celular estão na mais absoluta ociosidade fechados em um quarto escuro. Não ha nada que mais desmoralise, que mais definhe e que mais corrompa. em estes casos os rapazes deveriam ser obrigados a rachar lenha ou a britar pedra--os exercícios mais saudaveis para os músculos de quem está parado.
Finalmente a casa de detenção das Monicas não é somente a negação do que devia ser, é mais do que isso, é a afirmação contradictoria de todos os princípios opostos aos princípios verdadeiros.
Tal qual está constituido este estabelecimento, temol-o por um foco de apodrecimentos humanos, um seminário de vícios torpes e secretos, um curso acelerado de preparatórios infalíveis para o Limoeiro, para o hospital, ou para o cemitério.
Uma derradeira observação:
A maior parte dos presos detidos na prisão correcional das Monicas são cúmplices do crime de vadiagem.
Ora sendo aqueles presos todos menores, não tendo uma família, não tendo um oficio, não sabendo ler nem escrever, com que direito os pune por não trabalharem o Estado, que lhes não dá trabalho?
Que quer o estado que sejam esses pequenos para não serem vadios?
Quer que sejam médicos, tenentes coroneis, conselheiros do tribunal de contas, escritores públicos, capitalistas ou banqueiros?
Vamos! respondam-nos! Estamos interrogando sob o caráter mais digno de atenção e de respeito de que se pode alguém revestir. Somos em este momento os interpretes inviolaveis e sagrados da infância orphã, desvalida e desamparada. Fallamos em nome de um pequeno que não quer ir para a prisão das Monicas comer os feijões frios do Limoeiro, no que está inteiramente no seu direito. É um inocente.
Todavia ninguém o chama para fazer artigos nos jornais, ninguém o quer para comandar a Municipal, ninguém o incumbe de tratar uma moléstia, de defender uma causa, de montar uma fabrica ou de construir um navio. Nenhuma viúva rica lhe oferece a sua mão de esposa. Os agiotas quando ele passa levantam as bengalas e rangem os dentes. Não tem uma ponta de trabalho nem um bocado de pão. Finalmente é um vadio. Agora o que ele deseja saber é o seguinte:
O que é que o Estado lhe dá licença que seja desde o momento em que lhe prohibe ser o que é.
Espera-se resposta.
A República Portuguesa, jornal de Coimbra, exproba-nos a indiferença que temos pela questão politica e pela forma do governo em Portugal, e dirige-nos as seguintes textuais perguntas:
1.ª «A redacção das Farpas quer a resolução do problema econômico, quer que se preocupem os ânimos com a questão social; mas sempre quereriamos saber como isso se podia realizar, quando a formula politica é insuficiente para garantir o direito?»
2.ª «O problema social em sua maior amplitude é a realisação pratica da justiça, e sendo a fórma do governo o meio adquado á sua realisação em uma dada época, como poderá haver quem imagine a resolução dos princípios da justiça actual em uma fórma de governo de ha dois séculos?»
Temos a honra de responder á República Portuguesa:
1.º Aquilo que a República Portuguesa chama a formula politica não é insuficiente em Portugal para garantir o direito que cada um tem de estudar e resolver o problema social; essa questão póde-se tratar, com todas as garantias da liberdade, nos livros, nos jornais, nas câmaras, no governo; a única razão que obsta a que isto se faça é apenas a incapacidade intelectual ou moral dos que tinham obrigação de fazel-o. Depois de estabelecida e firmada a liberdade politica aproximadamente perfeita como ela existe em Portugal, a sociedade nada mais tem que pedir ao principio politico; a sua obrigação é organisar as suas forças industriais e econômicas e o seu sistema moral para conseguir, dentro da liberdade que tem, duas coisas de que carece: riqueza e virtude. Dada a liberdade, a questão politica nada mais tem que dar ao povo; se ele pede ainda á fórma de governo o remedio da sua corrupção e da sua miséria, isso não prova senão uma triste coisa: é que o povo não está na Revolução, está apenas na inépcia.
2.º A resolução dos princípios da justiça cabe em todas as formas de governo. Turgot, ministro de Luiz XVI, no tempo da monarchia feudal queria exactamente isso: a resolução dos princípios da justiça. Sabe a República Portuguesa quem foi que impediu Turgot? Foi o povo. Não somos nós que o dizemos. Proudhon, cuja autoridade supomos que a República Portuguesa não terá por suspeita, exprime-se em estes termos:
«Esse reformador rigorista, traido pelo povo, queria todavia a revolução--tomada de alto, feita sem estrepito, consumada quase sem revolucionários.»
Ora aqui tem a República Portuguesa como ha quem imagine, a solução dos atuais princípios revolucionários em uma forma de governo de ha dois séculos. Quem teve a petulância de imaginar isso, sem a previa licença da República Portuguesa, foi Proudhon.
Depois de nos fazer as suas perguntas, a República tem a bondade de nos dar os seus conselhos. As perguntas satisfizemos-lh'as. Os conselhos não lhos aceitamos. A ingenuidade pueril das interrogativas que a folha conimbricense nos dirige, anula a competência das admoestações que nos faz.
O folheto brasileiro intitulado Duas palavras aos leitores das Farpas, ultimamente publicado e distribuido em Lisboa a milhares de exemplares, tem por objecto contestar por meio dos processos aliás mais urbanos e mais comedidos, a verdade dos factos que asseverámos acerca da sociedade e da civilisação do Brasil em um artigo consagrado á emigração portuguesa para aquele império.
Se o escritor brasileiro a quem temos a honra de responder tivesse conseguido o poder aliar o alto espirito de amor patriótico, de que se diz dominado, com a prudencia de discutir simplesmente o critério das nossas conclusões e não a verdade dos factos em que elas se baseiam, nós não teriamos dúvida em estender affectuosamente o nosso silencio aos pés triunfantes de este simpático patriota.
Como, exactamente pelo contrario,
São as nossas ilações o que no dito libelo se não contesta, e é a verdade dos factos citados o que se combate, denunciando-nos como fabricadores de aleives históricos fantasiados com o fim expresso de ridicularisar o grande império,--o que se parece demasiadamente a nossos olhos com a denegação da nossa probidade e com a suspeita de que mentimos,
Soffrerá o auctor do folheto citado que nos permitamos fazer-lhe sentir, em algumas linhas rápidas, que as Farpas não são inteiramente uma creação poética e fantasista.
Não, nós não temos o distincto prazer artístico de ser As fabulas de Florian, nem tão pouco os Contos de Perrault.
Examinemos a qualidade dos argumentos com que o opusculo a que nos referimos tem a bonhomia de supôr que nos desdiz. Tomemos três dos pontos mais importantes para a civilisação do Brasil: A producção e o comércio, a instrução publica, o trabalho e a industria.
Enquanto á producção e ao comércio nega o auctor que o valor anual das substancias alimentícias importadas pelo Brasil seja, como nós afirmamos, equivalente ao da quarta parte da sua exportação. Para este fim dá-nos a estatística da importação das substancias alimentícias durante os últimos anos, atesta que ela é inferior e não equivalente á quarta parte do valor exportado; com tal fundamento acusa-nos de fabricarmos puras invenções; e depois de três paginas de recriminações acerbas, conclue assim:
«Não quererão decerto considerar como substancias alimentícias o vinho, o chá, o café, o azeite, as bebidas espirituosas e fermentadas etc., porque essas sim talvez reunidas àquelas (peixes, carnes, farinhas, manteiga e sal) dessem essa tal quarta parte da exportação.»
Quer isto dizer:
O Brasil não tem dúvida em nos convencer de tudo o que se pretenda a respeito do estado em que se acham as suas forças productivas, bem como a proporção existente entre a exportação e a importação no seu mercado--com uma simples condição--e é: que se lhe concedam alguns pontos de partido na aritmética do seu calculo. Trata-se, por exemplo, da importação de substancias alimentícias no valor de trinta mil contos anuais; deseja o Brasil, afim de nos convencer de que iludimos a verdade, que a dita importação seja apenas de dez mil contos... Nada mais simples! O Brasil vai juntando sucessivamente as suas parcelas de substancias alimentícias importadas até chegar á prefixada soma dos dez mil contos. de essa quantia para cima o Brasil começa a considerar as substancias alimentícias, como não sendo--substancias alimentícias.
Registrou a importação do sal, da manteiga, da farinha, dos peixes e das carnes, e achou dez mil contos; faltava-lhe, é verdade, registrar ainda o vinho, o chá, o azeite, as bebidas fermentadas, o vinagre, as fructas, os legumes etc; o Brasil porém espera que nós consideremos estas coisas como não sendo gêneros alimentícios. Ele pede-nos isto, espera isto de nós, e, para nos convencer de que estamos no erro mais vil e mais torpe, ele não quer outras armas! não precisa senão de isto: que se lhe admita que o vinho não é senão, por exemplo, simples producto de guta-percha! o chá, o azeite, o vinagre, a cerveja... puros tecidos de algodão! os queijos, os alhos, as cebolas, os figos, as passas... mera perfumaria!
Pelo que respeita á instrução publica, diz-nos que o numero dos que sabem ler não está, como nós dissemos, na proporção de 1 para 90 habitantes, mas sim na de 1 para 68. Somente na estatística oficial de que se extráe esse dado, o governo brasileiro não conta, como homens que habitam o Brasil, os escravos, cujo numero pode todavia ser calculado em cerca de três milhões, não diremos de habitantes, mas, emfim, de cabeças. O auctor acrescenta ainda, para nos convencer dos progressos da instrução no Brasil que as escolas de instrução primaria que ali existem são na proporção de--1 para 3:021 habitantes livres; além do que ha ainda no Rio de Janeiro varias corporações scientificas e sociedades sabias, entre as quais As duas palavras aos leitores das Farpas nos citam as seguintes: associação comercial, sociedade musical de beneficência, sociedade auxiliadora da industria, associação tipográfica, instituto farmacêutico, e finalmente a famosa associação dos guardas livros, sociedade jockey-club, tendo por fim promover o melhoramento da raça cavalar.
É realmente indigno, em vista de semelhantes factos, que alguém se tivesse lembrado, como nós, de deplorar a deficiência da ilustração no Brasil, onde ha uma escola para cada 3:021 habitantes livres, e vinte sociedades sabias!
Que nos perdoem os grandes propagadores da sciencia, que nós desconheciamos antes da publicação de este folheto! Que nos perdoem os senhores músicos, os senhores tipógrafos, os senhores farmacêuticos, e sobretudo suas senhorias os senhores guarda-livros do jockey-club, encarregados do melhoramento da raça cavalar!
No tocante á industria, aos dados da estatística oficial que nós publicamos e dos quais se deduz que tal ramo da atividade humana é quase nulo no Brasil, opõe o nosso contendor as seguintes animadoras palavras extrahidas de um Retrospecto comercial de 1872, publicado no Jornal do Comércio:
«Em quanto a emigração nos não trouxer levas sobre levas de operários e de artistas, a industria manufactureira conservar-se ha como que apertada em um circulo estreito.»
Logo: nós inventamos os factos para «achincalhar» o império. A estatística oficial da qual copiamos que em 1859 o numero dos industriais brazileiros era apenas o da quinta parte dos industriais extrangeiros residentes no Brasil, é falsa. A verdade suprema acerca da industria indígena na America brasileira é que: É enorme e poderosissima a força expansiva do seu desenvolvimento. E tanto que, segundo os seus mais entusiastas apologistas, ela vive «como que apertada em um circulo estreito.»
Do que tão clara e positivamente expuzemos acerca da organisação viciosissima das diferentes colonias agrícolas no Brasil, das atrocidades pavorosas da feitoria do Mucury, dos textos tão expressivos que sobre este ponto reproduzimos dos relatórios enviados aos governos da Suissa e da Alemanha pelos seus delegados no Brasil os srs. Tschudi e Avé-Lallemant, acha bem o auctor das Duas palavras aos leitores das Farpas não discutir nem contestar palavra nenhuma. Diz-nos apenas que pediu sobre esse assumpto, o mais importante do nosso artigo, informações oficiais, que publicará logo que lhe cheguem do Rio de Janeiro.
Se espera esclarecimentos que desmintam os factos que nós referimos, não os terá nunca. A verdade é unicamente o que dissemos. As Farpas não fizeram mais do que historiar realistamente, sem declamações e sem objurgatórias, as causas que levaram a Suissa e a Baviera a prohibirem a emigração para o Brasil, e a proclamarem oficialmente como catástrofe a colonisação agrícola do solo brasileiro por trabalhadores europeus.
Em refutação do que afirmamos sobre a frequência dos casos de alienação mental no Rio de Janeiro, diz-nos a obra que analisamos e estamos transcrevendo nas suas mais importantes partes, que apenas consta ao seu auctor um facto isolado em abono da nossa afirmativa, sendo certo por outro lado, segundo ele mesmo assevera, que no Rio de Janeiro existe um hospital de doudos sumptuosissimo e talvez no seu gênero o primeiro estabelecimento do mundo.
Ora, para aniquilar inteiramente a opinião de que é grandissimo o numero de alienados no Rio de Janeiro, não basta dizer-se-nos que um vastissimo e monumental hospício de doudos existe em aquela côrte; importaria certificar também que as pessoas que enchem esse edifício estão--em pleno uso das suas faculdades.
O que no entanto se nos não põe em dúvida é que esse hospital está muitas vezes cheio. Pois bem, em esses casos, um nosso compatriota alienado,--como a colonia portuguesa não possui estabelecimento especial para o receber--é recolhido na cadeia.
Lembra-nos que, ha cerca de um ano, lêmos em um jornal a noticia de um de estes casos; o portuguez doudo, recolhido na cadeia por falta de outro asilo estava á disposição do nosso vice-cônsul na Praia Grande. Este facto basta para nos indicar qual é a praxe seguida com os portuguezes pobres atacados de alienação mental. É natural que existam mais casos da natureza do que citamos; nós desconhecemol-os, porque nunca tivemos a vantagem de visitar o Brasil, não recebemos informações nem suggestões de ninguém que ali esteja ou tivesse estado: os nossos conhecimentos a respeito do império americano são o resultado da leitura dos poucos documentos oficiais publicados em Portugal e dos escritos de alguns viajantes suissos, alemães e franceses. Se não adoptamos, em vez do testemunho de estes viajantes o que nos pudessem ministrar escritores brazileiros, a razão é unicamente que os publicistas do Brasil, tão sonoros na poesia, são inteiramente mudos na critica que nos instrua do estado da civilisação na sua pátria.
Tocaremos também o ponto em que o auctor do opusculo brasileiro contraria a nossa opinião acerca da inanidade diplomática do sr. Matias de Carvalho, actual ministro portuguez junto de S.M. o imperador do Brasil, com o fundamento de que este funcionário tem sabido sempre no seu cargo captivar inteiramente os aplausos da nossa colonia.
Se um diplomata deve ser julgado pelos seus atos em serviço do paiz que representa e não pelos aplausos que o seu publico lhe confere, o actual ministro portuguez no Brasil é uma pessoa extremamente simpática, mas inutil. Conseguiu um tratado de extradicção, cuja historia se acha resumida nas seguintes datas que extrahimos do Livro Branco: Em 7 de junho de 1859--começa a negociação o encarregado de negócios interino no Rio de Janeiro. No fim do mesmo ano--prosegue o sr. Matias de Carvalho. Em dezembro de 1871--principia negociações para um egual tratado o encarregado de negócios do governo hispanhol. Em abril de 1872--terminam as negociações com a Espanha. Em junho de 1872--é assignado o tratado com Portugal. O diplomata hispanhol consegue em quatro meses o que o ministro de Portugal só pôde alcançar em três anos! E ainda se não fez nem o tratado de comércio nem a convenção postal, nem a convenção literária!
Se, pelo contrario, não são os atos do funcionário, mas sim os aplausos do publico que determinam os merecimentos do diplomata, em esse caso achamos preferível ao sr. Matias de Carvalho--a sr.ª Emilia Adelaide.
Por último declaramos ao auctor do folheto intitulado Duas palavras aos leitores das Farpas, aos leitores das Farpas, e ao mundo, o seguinte:
1.º Nem um só, nem um único facto asseveramos a respeito do Brasil, que antes de nós não tivesse sido clara e positivamente afirmado na imprensa da Alemanha, da Suissa e da França, por diferentes viajantes, entre os quais citamos especialmente como fonte de todas as nossas informações os srs. Adolphe Dacier, Waldemar Schultz, Elisée Reclus, Tschudi e Avé-Lallemant. Os leitores decidirão quais afirmações merecem mais fé: se as que são feitas pelos viajantes citados, em livros propriamente scientificos devidamente assignados, e em relatórios especiais apresentados pelos auctores aos governos dos seus respectivos paizes; se as que nos são propinadas no libelo intitulado Duas palavras aos leitores das Farpas, por um patriota brasileiro... e anonimo!
2.º Não estamos resolvidos a subordinar a opinião de que nos acharmos convencidos, nem á vontade, nem aos conselhos, nem ás ameaças de ninguém. Se Deus não fosse a absoluta verdade, a verdade estaria acima de Deus. Como querem então que a prostremos debaixo dos syllabus do Catete ou das bulas da rua do Ouvidor?!
Se porém, apesar de tudo isto, a joven America brasileira se parece tanto com a rainha Fulvia que lhe seja absolutamente preciso para a sua felicidade varar-nos a língua com o seu prego de ouro, como fez a Cicero a mulher de Marco Antônio, que a America se não incomode a escrever para isso mais folhetos. Venha o prego. Aqui está a língua.
As «corridas» do Campo Grande--Extraordinario sucesso de dandismo!
Não assistimos, mas lemos que esteve o high-life, o famoso high-life, com o qual temos sempre o infortúnio de nos desencontrar!
Estamos todavia de aqui a vêl-o, a imaginal-o, rico, elegante, belo, no Campo Grande, em volta do lago--o high-life...
A aristocracia nos seus landeaux, com enormes cocheiros gordos, de barrigas de pernas fenomenais e bizarras.
A alta finança em carroagens de posta com os senhores na almofada, e os creados, recamados de galões de ouro, dentro da berlinda, imóveis, empoados, descobertos, com os tricornes na mão.
Os diplomatas, nédios, sorrindo na doce bestialidade espirituosa de quem sente no paladar os sucos perfumados de uma aza de codorniz trufada, repimpados em daumonts, com uma carvajal nos beiços e uma marta zibelina debaixo dos pés.
A galanteria, com as suas representantes de cabelos cor de manteiga e a pele especial dos estranhos climas do cold-cream, da decocção indiana aromática e tônica, e da balneação mucilaginosa do leite de morangos e de éss-bouquet, dentro dos seus broughams ou em pequeninos coupés de flecha e oito molas, levando ao lado no logar devoluto da carroagem um ramalhete de cem francos ou um microscópico kings' charles, descendente, aperfeiçoado em pequenez, da cadelinha que Henrique III trazia metida na manga...
Depois os picadores, de librés verdes, os batedores de encarnado, os postilhões, as victórias, as americanas, os pônei-chaises... os grooms em finos cavalos ingleses, nervosos, descarnados, de olhos cintilantes e ventas altas, abertas, redondas, frementes. Os sportmen em breaks ou em dog-cart....
Sente-se o fluxo e o refluxo do grande luxo, a maresia da elegância. Respira-se entre as árvores um ar empregnado de fina perfumaria, como em um salão. Vai-se a passo por causa da agglomeração das carroagens e dos cavalos. De quando em quando sucede mesmo que os cocheiros se empinam de repente para traz, e que se é obrigado a parar.
Ouve-se então o respirar dos cavalos, o ranger dos arreios e os finos ditos que partem do fundo dos coupés.
De carroagem para carroagem trocam-se as palavras que fazem estremecer, e encontram-se os olhares que fazem scismar.
Por baixo dos guardas-sóis de seda branca mostram-se as cabeças loiras das mulheres, que estão de costas para nós, deixando vêr a nascença dos seus cabelos penteados para a nuca, tocados de sol, luminosos como fios de âmbar. Cada mulher que passa traz consigo a excitação particular do seu gênero de beleza. Umas reveem as finuras do amor moderno, calculado, scientifico. Outras inclinadas para traz, dormentes, languidas, obrigam a fantasiar as caricias orientais.
As sedas, cingindo a curva do peito e caindo em pregas quebradas de reflexos, as sedas da moda, de tons verdes aquáticos, dão ás mulheres esveltas a cor das visões dos lagos, das heroínas das legendas druídicas e dos cantos de Ossian.
Sob a palpitação dos leques sentem-se estremecer no espaço correntes aerias de volupluosidade indefinida.
Pela estreitesa das testas, pela espessura dos beiços, pela carne polpuda das pequenas orelhas, pelas frias expressões do olhar indagador e critico, percebe-se porém que essas delicadas creaturas que passam, ondulantes e harmoniosas como sereias, têm o bom gosto pratico de preferirem aos suspiros de Fingal e de outros bardos os camarotes na opera, os fofos coupés, os quentes cachemires, e os finos jantares.
Pela qual razão vai cada um pensando vagamente em se lançar nas finanças, no jogo doa fundos, nas grandes companhias, nos empréstimos ao governo, nos bancos, no dinheiro em fim, no vasto dinheiro, no profundo dinheiro ilimitado...
E em quanto as carroagens esperam ou rodam em volta de nós, os cavaleiros passam, e as toilettes scintillam, a pobre natureza ao longe, nas colinas, parece envergonhada na sombra das suas árvores, na humildade dos seus limos e dos seus musgos, porque ela é verdade que tem os altos montes e os fundos mares, tem o Niagara e o Etna, mas não tem os braceletes de Sampere, as luvas de oito botões, e as rendas de Malines!
Tal é o perfil das «corridas»; tal é o high-life.
Dizem as folhas que ele esteve no Campo Grande, e nós piamente o crêmos.--Pelo que, de aqui enviamos os nossos parabéns ao Collete Encarnado.
Não se inscreveram no Derby lisbonense os Hamilton, nem os Lagrange, nem os Rothschild, nem os Mouchy, nem os Dudley Stuart. Inscreveram-se apenas, com os seus trens, o João Russo e o Chico Perfeito, cocheiros da praça.... Alea jacta est!
Eles partem nos seus fiacres, ao trote.--Montjoie et Saint-Denis!
O Russo venceu o Chico com a distancia do comprimento de uma pileca. Hurrah!
Muito devemos esperar, para a civilisação e para o dandismo, da boa estreia de estes hípicos torneios especialmente destinados a apurarem em Portugal a famosa, a incomparável, a única raça... das tipoias!
Parabéus a todo o Sport europeu, e ao nosso defunto Lagoia!
Ontem no teatro de D. Maria--primeira representação da Magdalena, especie de Dalila, de Octave Feuillet, localisada entre o Arco do Bandeira e o da Rua Augusta, como presente malicioso de Pinheiro Chagas ás curiosidades do chic, na Baixa.
em este drama ha três tipos principais:
O amante--Um Hamlet de aldeia, um Conrado, um cavaleiro negro--de Figueiró dos Vinhos. Dandy melancholico, como um Satanás em uso de figados de bacalhau. Um Alcibiades quebrado. Um pálido cherubim portador de uma paixão e de uma tênia. Typo lamartiniano, o anjo caturra da velha ode, a personalisação do antigo amor lirico--sob os symptomas lancinantes e urgentissimos da cólica.
A noiva--Menina educada no convento. Creada com doces de freiras e com livros de versos. Organisação de ovos de fio e de romances baratos. Amor e dispepsia. Pouco cérebro e muita cuia. Não faz saborosos coscorões, não deita alvas teias de linho nem gordas ninhadas de perus como sua mãe, casta e sabia Penelope. Ela corta a serena tradicção burgueza e rural da família. Despresa com ascos as conservas do lombo de porco em vinho e alhos. Cultiva a ortografia e a arte poética com mais disvello, mas menos proveito que aquele que sua mãe tira do cultivo modesto das alfaces, das finas hervas, dos primores hortícolas. Não ama finalmente senão uma coisa--o talento!... Pobre rapariga! desditosa burgueza! que estéril e que perigosa idolatria a tua! O talento!... a divina inspiração!... o supremo encanto!.. Coitada! se acreditas em isso, estás perdida. A tua imaginação doente entregar-te-ha submissa, humilhada, ridícula, ao primeiro noticiarista de soirées que te apareça, á primeira bás-bleu que te escreva cartas, ou á primeira actriz que te beije e abrace. O talento!... Mas não ha nada verdadeiramente respeitável senão o trabalho, a abnegação, a perseverança, o sacrifício e a virtude. O talento é uma simples fanfarronada. O talento é uma invenção dos bohemios para substituirem a toilette e a roupa branca. O talento é um falso titulo clandestino de apresentação, fabricado por aqueles que não têm títulos legítimos para que a sociedade os receba. Fazer-se passar como «tendo talento» é um meio de cada um se eximir a que lhe perguntem se «tem caráter.» O talento finalmente é o seguinte tipo de esta peça:
A amante do noivo--Uma actriz que foi educada no convento com a noiva o que, passados anos, a noiva recebe em sua casa com reconhecimento, com adoração, com entusiasmo, apesar da actriz não ser senão uma lorette; uma artista aux camélias; grande gênio de petit-lieu; celebridade baptisada com Champagne, entre rapazes, depois das ceias, em gabinetes reservados. Um martírio, se quiserem, mas um martírio que exige um bracelete e uma nota do banco para se estender na sua cruz. Uma paixão, se isso lhes apraz, mas uma paixão Rigolboche, que se concilia com o cancan, que adopta a arte para canalisar o vicio, que nunca chega ao fel do seu cálix por que o tem sempre cheio de Malaga ou de pale-ale; que pede uma mortalha, mas talhada por Worth, á Rabagas, com rendas de vinte libras o metro. Uma Magdalena emfim, mas uma Magdalena penetrada do pecado moderno, barato, para todo o mundo, cheirando aos sítios públicos, ao tabaco de fumo, á cerveja azeda e ao gaz extravasado.
O drama. O noivo acha que Tant-de-charmes é mil vezes mais interessante do que La-vertu-memé. Por tanto o noivo abandona a noiva virtuosa e corre atraz da amante impudente. A burgueza abandonada vai então chorar aos pés da cômica. Esta resolve devolver-lhe o noivo com tanto mais vontade quanto é certo que o noivo é a semsaboria toda de este mundo na figura insignificante de um provinciano piegas, em primeira mão de conquista, que desmaia de puro amor ao declarar a sua chama,--de sorte que é preciso gastar tanto com ele em sal amoníaco para lhe restituir os sentidos quanto ele gasta em retórica para os fazer perder aos outros.
O noivo pois regressa para a noiva. A actriz faz uma frase. E o pano cáe.
Ha em esta peça uma personagem secundaria, sem acção nenhuma no enredo e no desenlace, para a qual nos parece um bom serviço á moral o chamarmos a atenção do publico. É uma burgueza que aparece no segundo ato em casa da noiva, onde está hospedada a actriz. Essa pessoa, de notável juízo, que diz coisas justas a respeito das creadas e dos arranjos da casa, apenas sabe que ha na reunião para que a convidaram uma mulher cujos apelidos e cujos diamantes não se sabe de onde procedem, toma sem mais cogitações o braço de seu marido, deseja á dona da casa o juízo que lhe falta, e retira-se em pleno escândalo.
O publico ri, e tanto na scena como na sala é um pouco apupada esta ménagére, que se declara abertamente incompativel, dentro do mesmo recinto e debaixo dos mesmos tectos, com uma actriz cocodette.
Pois bem: é essa mulher que se vai embora--notae-o bem, minhas queridas burguezas!--é essa mulher que se vai embora, a que aí, diante de vós, está dando o único exemplo que deveis seguir. Todas as demais pessoas de esta peça têm o lirismo, a eloquência, a convenção literária; só esta é que inteiramente possui a verdade e o juízo.
O que todas vós tendes que fazer perante a concorrência e o cotejo a que vos queiram sujeitar com as mulheres artistas, celebridades no mundo do teatro ou no demi-monde, é tomardes o braço dos vossos maridos e sairdes com eles.
Os maridos portuguezes estão pessimamente educados; foram creados com as operas de Verdi, com os romances de Chateaubriand, com as poesias de Lamartine e de Musset; têm o sistema nervoso exaltado, a imaginação pletórica, o temperamento irritado, e o juízo das coisas praticas derrancado ou extincto.
As creaturas artificiais, mórbidas, irritantes pelos poderosos contrastes do desvergonhamento da alma e das finas delicadezas da pele, serão sempre as que dominarão os homens corruptos e que os levarão consigo. Elas têm um prestigio de vícios triunfantes, de elegantes indolencias, de altos desdens, de serenas voluptuosidades perenes, com que vós, mulheres honestas, dignas, impeccaveis, não podereis nunca lutar.
Vós tendes o sentimento real que ri em grossas gargalhadas ou que incha as pálpebras e engrossa a pele com o correr das lagrimas: elas têm a sentimentalidade correcta dos pasteis de Latour ou das porcelanas de Saxe--inalterável mimo de galeria ou de étagère.
Vós tendes a forma das vossas mãos um poueo afastada do ideal de Praxiteles pelos hábitos honestos da vida activa, do trabalho; algumas vezes a ponta do vosso dedo está picada pelo bico da agulha: elas têm as mãos finas, afiladas, pálidas, transparentes, que obrigam a sonhar estranhas caricias e que são o resultado de quinze anos de ociosidade estupida de serralho, de chloroses e de massas de amêndoas.
Vós tendes uma passagem de miúdos e pacientes pontos em um dos vincos do setim dos vossos sapatos: elas têm uns sapatos por noite e umas luvas por dia.
Finalmente vós sois a probidade e o decoro. Elas são a dissipação e o vicio.
Ora os homens educados pela sociedade, por si próprios, e em grande parte por vós mesmas, minhas senhoras, nas corrupções literárias e poéticas, nos falsos ideais epidêmicos do sentimentalismo, da melancolia, da paixão, dos amores fatais, os homens assim educados, quando lhes acorda o temperamento e a imaginação, começam--por enjoar a virtude.
Não queirais reagir. Vede bem. A lucta humilha-vos e desonra-vos. Evitae-a. O espirituoso drama do nosso amigo Pinheiro Chagas é um grande aviso, maior talvez do que o auctor supunha: As Magdalenas não sobem as escadas das casas em que ha mulheres honestas.
E então os direitos do talento? E as rehabilitações pelo amor?...
Oh! meus senhores, mas desde 1830 que os romancistas e os dramaturgos pouco mais têm feito do que procurar convencer a sociedade de esses direitos e de essas rehabilitações, ao passo que a sociedade tem constantemente e invariavelmente refutado sempre os romancistas e os dramaturgos!
Não lhes parece que vai sendo tempo de darmos a velha questão por discutida?...
Não! não é para que nos tragam o premio da austeridade e da virtude! Não somos nós os que fugimos para a Tebaida, a flagelar o nosso pobre corpo, ao aspecto das pecadoras espirituosas a cujos pés passou a sua vida, em êxtase, a geração literária que nos precedeu. Somente para que levemos a essas damas a visita da arte, achamos de bom gosto deixar arejar um pouco os tapetes em que estiveram por tanto tempo prostrados os nossos antecessores.
Chegamos do palácio das Janelas Verdes. Vimos de assistir ao leilão do espolio de sua majestade a imperatriz, ultimamente falecida.
Grandes salões enormes, altos, quadrados, angulosos,--á marquês de Pombal.
Nas salas de honra, estofos de damasco e moveis do primeiro império, no estilo chato, parvennu, pretencioso, mas rico, do século de Bonaparte, esse Luiz XIV de caserna.
Mesas, sofás, tremós, de formas rectangulares, riscados pela regoa, guarnecidos de columnas paralelas, de capiteis de bronze.--O que quer que seja de fortaleza, de baluarte, de ariete, de escudo, e de templo do gênio!
As guarnições de chaminé, as taças, os candelabros, os lustres--tudo bronze, macisso, pesado.
As pendulas doiradas são rematadas pela aguia imperial ou por assumptos de fria inspiração bucólica bebida com assucar e água de flôr de laranja na contrafeita natureza dos parques de Versailles delineados a cordel.
Uma multidão compacta, plebeia, suada, conservando os chapéus na cabeça e os cigarros nos beiços, cuspindo nas alcatifas, limpando com o dedo molhado em saliva o pó das telas e das estatuetas, ou apoiando a sola da bota nas almofadas das poltronas para tomar notas sobre o joelho, enche os salões e vai deitando os lanços.
O pregoeiro--Uma mesa oferecida pelo imperador Napoleão I, o grande!
Um adelo--Ponha lá uma libra por ter sido de esse sujeito... e, em fim, porque é de mosaico!
Os licitantes animavam-se, os preços subiam, os objectos em praça eram rapidamente adjudicados ao maior lanço, e tudo quanto enchia aquelas regias salas ia sucessivamente passando para o povo que as invadia.
Não era somente um leilão aquilo, era uma liquidação pronta e solene dos últimos restos de um império extincto, de um cesarismo arruinado e falido, de um mundo inteiramente acabado e desfeito.--Extranho espectaculo, de tal modo significativo que era quase doloroso!
Passa-se aos aposentos particulares da imperatriz.
Lá fora, nos salões, revelava-se uma época poderosa.
Aqui transparece apenas uma individualidade feminil, delicada e modesta.
em estes quartos em que a viúva de D. Pedro IV se conservou por tantos anos recolhida e oculta em uma clausura inviolável, sente-se perfeitamente a sua personalidade em todos os detalhes da existência. Nenhum aspecto de luxo, de pretenção ou de aparato. O chão é coberto com simples esteiras; todos os cortinados são de cassa branca, e todos os estofos de chita em pequenos ramos de flôres sobre fundos pálidos. Os aposentos estão cheios de étagères de todas as formas, com todas as disposições. Pequenas bibliotecas e pequenos armários, dispostos por toda a parte. Uma infinidade de mezinhas de escripta, de leitura, de costura ou de bordado. Cadeiras de todos os formatos e das mais diversas proporções, sem nenhum estilo, sem gênero artístico, sem época, sem o mínimo lavor, sem concessão alguma á elegância ou á simetria--uma visível exigência da vida sedentária e doente, a necessidade física de mudar a todo o momento de posição, para deslocar a sua dor, para motivar o seu pequeno exercício e povoar por si mesma, com as suas diversas atitudes a sua solidão. Defronte das janelas ha pequenos biombos de chita franzida para impedir as correntes de ar, formando uma especie de kiosques, subdivisões minímas de abrigo e de recolhimento. Ha muitas estantes de leitura, mezas de desenho ao crayon ou á aquarela, e uma caixa cheia de lápis aparados, de diversas cores e de diferentes números. Uma grande secretária, larga pesada, lisa, e defronte de ela uma enorme poltrona inglesa, estofada de carneira escura, usada, tendo aos pés uma almofada esfarpada e gasta. Era a cadeira em que a imperatriz se sentava ordinariamente, e que se vê em todos os seus últimos retratos. Sobre uma mesa aparece um Cristo, antigo, marchetado, trazido de Jerusalem, diante do qual, por muitas vezes, decerto, se ajoelhou a imperatriz. Ao lado de esta sagrada imagem e como diversão á gravidade do seu dolorido e pálido aspecto encontrámos dentro de uma caixa aberta um instrumento de uso demasiadamente intimo de Sua Majestade, o qual objecto supúnhamos que não era licito expôr em publico senão como acessório da scena triunfal do último ato do Malade imaginaire, ou como vinheta ilustrativa nas obras de Avicena: ao lado do aforismo, Medicamen clister nobile est.
E aqui suscita-se-nos o meditar, diante de esta caixa aberta, quais serão os princípios políticos de suas excelências os executores testamentários da falecida soberana.
Porque, realmente, não nos ocorre como os possamos classificar....
Se são republicanos, democratas, socialistas, suas excelências deveriam saber que nunca se abrem as caixas reservadas da toilette de uma senhora.
Se são monarchicos, deveriam comprehender que em estes tempos de discussão implacavel é perigoso para o prestigio das testas coroadas denunciar aos povos, por via de uma imprudencia de suas excelências, que se os soberanos que os governam estão por um lado tanto acima de eles pelo direito divino, não são por outro lado mais que seus simples eguais pelo direito terapêutico, e que finalmente pode ser um novo e terrível argumento inesperado em favor da egualdade dos homens--a constipação intestinal dos príncipes!
O pregoeiro do leilão é acompanhado pelo sr. barão de S. George, cônsul da Suecia e representante de Sua Majestade a rainha, irmã da imperatriz falecida.
O sr. cônsul faz a historia de alguns objectos postos em praça, garante a sua autenticidade histórica, e encarece com tocantes discursos o valor de cada coisa.
S.ex.ª o sr. barão, delegado de sua majestade a rainha da Suecia, em beneficio da qual se faz a venda em hasta publica do espolio de sua irmã, atesta-nos que tal cama é a mesma em que dormia na sua tão breve mocidade sua alteza serenisssima a princeza do Brasil; tal chávena aquela por que Sua Majestade bebia os seus remedios; tais bonecos os mesmos com que a infeliz infanta D. Amelia brincava em pequenina, e que sua mãe conservava como um piedoso penhor de saudade!
Graças a todos estes preciosos esclarecimentos, amavelmente dados por s.ex.ª o cônsul á multidão dos licítantes, dos adelos, dos ferro-velhos e dos cabeças de pau, Sua Majestade a rainha da Suecia terá a doce consolação--tão sensível ás almas sublimes--de receber duzentas libras a maior da soma em que haviam sido avaliados os saudosos e queridos despojos de aquela que duas vezes fora na terra sua irmã--como mulher e como rainha!
Oh! como deverá ser bom e suave, na última estação da vida, quando os reumatismos rangem nas frias articulações da nossa velha ossada, embrulharmo-nos trêmulos na purpura real, no alto do nosso trono,--tendo aos nossos pés os nossos vassalos inclinados e a nossa cova aberta,--fitar serenamente no espaço a branca aparição de aquela que amamos no mundo e que nos espera entre as estrelas nas esfumadas sombras do crepúsculo, e podermos então exclamar em nossa consciência:
«Sim, ela morreu... mas abençoado sejas tu, nas alturas infinitas, ó Deus meu e dos meus exércitos, pois quizestes permitir que aquele objecto que lhe pertenceu e que ela tinha oculto por detrás de uma cortina no seu quarto de lavatório fosse venturosamente arrematado--por três mil e seiscentos!»
SCENAS DE RELIGIÃO.--Lemos no Diario Ilustrado o seguinte:
«Em additamento á noticia que ontem dêmos da saída processional do Senhor aos entrevados da freguezia de Santa Justa e Rufina, somos hoje informados que a interessante filhinha do sr. Marcos Maria Fernandes e D. Maria Cecília da Conceição Almeida Fernandes, proprietários do acreditado estabelecimento de modista de chapéus e vestidos na travessa de Santa Justa n.º 81, vai também em essa procissão, distribuindo esmolas aos enfermos pobres, que receberem o Viatico, sendo vestida a custa e por generoso e espontâneo oferecimento de seu pai, que é irmão do Santissimo de aquela freguezia.
«Leva a gentil menina, simbolo de caridade, vestido de faille azul claro, com outro de tule branco aventalado adiante, com finas pedras, e um manto branco preso na cabeça por um diadema do pedraria e semeado de estrelas de ouro de lindo efeito.
«Esta devoção do sr. Fernandes, que ha quatro anos sucessivos tem levado a sua filhinha vestida de anjo em aquele ato religioso, oferece no presente ano uma novidade elegante, e que decerto será do mais apurado bom gosto, se atendermos ao extremo paternal do sr. Fernandes, e ao esmero e apuro de todos os trabalhos do seu estabelecimento, onde é variadissimo e primoroso o sortimento de tudo quanto respeita a enfeites de senhora.»
Ó dôce Jesus, eterna bondade simples e infinita como o Céo! aqui tendes como eles a comprehendem, na freguezia de Santa Justa e Rufina, a caridade, a pobre e modesta caridade, que vós mandastes definir por S. Paulo com aquela palavra tão inspirada e tão bela.--O amor dos corações puros e das consciências boas!
Eles entendem-a agora assim: vestida de faille azul claro, com segundo vestido de tule branco aventalado adiante, com finas pedras e um manto branco preso na cabeça por um diadema de estrelas de ouro de lindo efeito!
Comparae, ó Jesus, a descripção dos vossos antigos anjos feita por Santo Ignacio--incorporeas mentes--com esta descripção que o Diario Ilustrado nos apresenta dos vossos anjos modernos!
Que dirão os cherubins, os serafins e os archanjos, que dirão Miguel, Raphael e Gabriel, eles nus, sem mais toilette que as suas longas azas cândidas, ao verem junto de si nas chorêas sidéreas o novo anjo--Almeida Fernandes?!
Como ficarão vexados e humilhados no Céo--os outros--quando o cherubim Almeida lhes aparecer com as tranças torcidas a ferro, com vermelhão nos beiços, e o seu vestido aventalado adiante, e contar que foi o papá Fernandes quem o arranjou assim para ele representar diante dos homem a imagem da caridade!
Oh! mas realmente, é um bom quinau dado pelo sr. Fernandes no Creador! Lição terrível de elegância e de chic ministrada a todo o reino dos Céus pela Travessa de Santa Justa! Nem a Baixa calcula talvez a grande importância que isto vai dar ao estabelecimento do sr. Fernandes--no Empireo!
Pela nossa parte não nos maravilhará extraordinariamente que o sr. Fernandes, proseguindo nas suas conquistas sobre o território divino, acabe por ajuntar ao seu estabelecimento de modas uma sucursal da côrte celeste, e que depois de converter a sua família em anjos de tule, ele mesmo acabe por aparecer aos seus freguezes transfigurado em Deus... de filó!
E então, para nos entendermos com s.s.ª sobre os objectos do seu comércio, teremos, ao entrar na sua loja, de nos ajoelharmos, de batermos no peito e de exclamarmos com attricção verdadeira:
Eu pecador me confesso a Fernandes todo poderoso de que preciso de um par de ceroulas de linho de Irlanda, e por tanto lhe dirijo humildemente minhas fervorosas preces para que desça das alturas e venha a nós--para nos tomar medida. Amen!
Acabamos de ver como os burguezes conservadores entendem a caridade no catolicismo. Vamos ver agora como é que os operários socialistas entendem os princípios do direito perante a revolução.
Ao passo que o Diario Ilustrado, folha monarchica e católica, nos apresenta a religião na menina Almeida Fernandes, o Pensamento Social, periódico revolucionário, expõe-nos, na menina Palmira da Conceição, os direitos do povo.
O Pensamento Social diz assim:
«Teve logar a anunciada sessão da propaganda na associação do trabalho nacional. Estiveram presentes cerca de 60 companheiras, frequentando a sala durante a sessão proximamente 700 companheiros. Presidiu uma companheira, mantendo-se uma assembléa tão numerosa na melhor ordem. Deu-se em esta sessão um facto que sensibilisou toda a assembléa; uma companheira, que tem apenas nove anos de edade, como que sensibilisada pelas aspirações da razão e da justiça, em plena assembléa pediu a palavra e pronunciou a seguinte oração, que leu:
«Companheiros e companheiras.--Declaro-lhes que cada vez que tenho de entrar em assumptos de tal natureza, arrasam-se-me os olhos de água e cobre-se-me o coração de uma nuvem negra; contudo não posso deixar de levantar a minha débil voz para dirigir duas palavras ás nossas companheiras e companheiros da fabrica de fiação e tecidos lisbonenses. Companheiros e companheiras: dirijo-vos os meus sinceros sentimentos, porque tendo sido bem conhecedora das injustiças que se estão fazendo ás nossas companheiras, e com especialidade ás menores, porque não só são castigadas com o seu diminuto salario, como também as maltratam com pancada.
«Ai companheiros e companheiras, não posso deixar de curvar o joelho e pedir ao meu Deus, se estamos em pecado mortal: perdoae-nos. Mas não, que já vou vendo raiar a aurora; continuemos sempre a empregar todos os nossos esforços para que um dia breve estejam reunidos nas nossas dignas associações todos os que vivem do trabalho. Conseguido isto, o que não é muito difícil, e empregando todos a nossa vontade, poderemos dizer que não estamos em pecado mortal, e também poderemos dizer que se acabaram os castigos embrutecedores. Peço pois a todos os companheiros e companheiras que empreguemos toda a nossa vontade, energia e dedicação para podermos alcançar o nosso triunfo, que é a emancipação de todos os trabalhadores, isto é, todos os direitos e deveres sociais. Depois os nossos vindouros nos cobrirão de bençãos por lhes termos creado tão bom dote. Não querendo entreter-vos mais termino pedindo que vos não esqueçais dos nossos companheiros grevistas.--Palmira da Conceição.»
Esta criança de nove anos de edade que nos declara que os olhos se lhe arrasam de água e o coração se lhe cobre de uma nuvem negra sempre que lhe tem sucedido ter de entrar em assumptos de tal natureza, é uma verdadeira menina benta, um fenômeno! Diremos mesmo: é um milagre, é uma pequena nossa senhora aparecida--da fabrica lisbonense de fiação e tecidos!
Ela é a destinada pelo povo a substituir, como futura deusa da razão, o actual anjo Almeida Fernandes--nas festividades populares.
Ha pequenas diferenças:
O anjo Almeida traz-nos a religião e a caridade. A deusa Palmira é a portadora da emancipação dos trabalhadores, dos direitos e deveres sociais.
O anjo adeja sobre as ruas pacatas da Baixa. A deusa surge no bairro inquieto de Alcântara.
O anjo caminha gravemente--enfunado, crespo de folhos e de rendas, como um peru armado--a passos cadenciados pelas harmonias da filarmônica Alumnos de Minerva, dando a mão a Fernandes, seu pai carinhoso,e espargindo pétalas de rosas, de dentro de um cesto de casquinha, sobre o mundo velho.
A deusa vem ao colo de um companheiro membro da Fraternidade Operaria e clarinete na mesma filarmônica que bufou, talvez, o mais convicto e consciencioso hymno da carta, atraz da angelica vergôntea de Fernandes. A deusa aliando em sua joven personalidade a inocência da edade que tem com a aspiração filosófica da classe a que pertence, mete um dedo no nariz e aponta com o outro o destino do proletariado na futura organisação social.
O anjo é a religião de barejes, de talagarças e de retalhos de bobinet.
A deusa é a justiça de figuras de retórica, de discursos de associação e de erros de prosódia.
O burguez, contente com o seu meio de reação, distribue ao anjo confeitos e rebuçados de avenca. O operário, satisfeito com o seu plano de resistência e de revolução, solicito, assôa a deusa.
Ora, francamente, não nos parece que estes sejam os métodos mais eficazes que possam escolher os srs. burguezes e os srs. operários.
Não será com o seu anjo de vestido «ventalado», com véu branco e pedrarias de lindo efeito, que a burguezia impedirá a passagem á corrente das idéas novas que a assoberbam e intimidam.
Não será também com a sua oradora de nove anos, inspirada pela razão e pela justiça, que o proletariado conseguirá convencer-nos da seriedade dos seus direitos ao predominio das sociedades futuras.
O trabalho--bem o sabemos--é uma coisa augusta e sagrada. O comércio--desculpem-nos os senhores proletários--é tão sagrado como o trabalho. O comerciante que compra a cada um dos que produzem as suas obras, levando-lhes, em troca dos objectos que fabricam os objectos que consomem, faz á sociedade, por meio do estabelecimento do mercado, um serviço tão relevante e tão legitimo como o da producção da mercadoria.
O pai da menina Palmira que faz um chale quando ninguém quer chales e o pai da menina Fernandes que lho compra logo, para o vender depois quando lho pedirem, são dois cidadãos egualmente uteis e respeitaveis. Se o pai do anjo é puramente ridículo vestindo a sua filha como uma boneca de vitrine e encarregando o Diario Ilustrado de lha apregoar como um simbolo de caridade, o pai da deusa é injusto, é ignorante, é perigoso, e é egualmente ridículo, ensinando á sua filha, para que ela as leia em publico, palavras ocás de falsa razão e de mal entendida justiça, tão entusiasticamente preconisadas pelo Pensamento Social, órgão das classes operarias.
Já que falamos no Pensamento Social notemos que nem sempre nos parece perfeitamente logico este jornal.
Succede que ele guerreia o burguez, o infame burguez, e não cessa nunca de glorificar o operário. É a sua missão. Tem o seu partido. Nada temos que objectar.
Quando se deu, porém, a grève dos surradores, sucedeu o seguinte:
Os operários tinham escolhido para apresentarem as suas propostas a fase da curtição em que os coiros não poderiam ser abandonados sem que apodrecessem nos seus tanques. Por este modo os patrões ou tinham de ceder á grève ou correr o risco eminente de um grande prejuízo. Que fizeram os patrões? Não aceitaram as propostas dos grevistas, associaram-se todos, despediram os operários, e foram em seguida, eles mesmos, acompanhados de suas mulheres e de seus filhos, de fabrica em fabrica, levantar os cortumes.
Ora é singular que fosse exactamente este momento solene da existência dos patrões curtidores o que o Pensamento Social escolheu para os flagelar com as suas ironias e os seus sarcasmos! A verdade é que exactamente em esse momento é que os burguezes curtidores deixavam de ser burguezes para serem operários. Parecia-nos que em esta conjuntura o Pensamento Social não deveria fazer senão o que nós fariamos no seu caso: tirar o chapéu e inclinar-se respeitosamente perante a coragem trabalhadora e digna dos seus altivos e honrados inimigos.
Os operários na sua inquietação de candidatos á prosperidade baseada na justiça e na virtude, vão mal encarreirados dirigindo o seu movimento de revolução contra os pequenos burguezes que nunca lhes fizeram mal nenhum e que os srs. operários injustamente odeiam ou desprezam. Os pequenos burguezes--deveriam lembrar-se de isto os srs. operários--são na actual organisação social, os aliados naturais de todos os que trabalham e padecem. Os srs. operários fariam bem se, em logar de encarregarem a menina Palmira de discretear nos seus congressos, traduzissem em eles em voz alta esta pagina do seu amigo Proudhon:
«Vós, burguezes, fostes em todo o tempo os mais intrepidos, os mais habeis dos revolucionários. Sois vós que desde o terceiro século da era christã, por meio das vossas federações municipais, estendestes a mortalha sobre o império dos romanos nas Gálias. Sem os bárbaros que vieram mudar a face das coisas, a república, constituida por vós, teria governado a edade media. Fostes vós que, mais tarde, opondo a comuna ao Castelo, o rei aos grandes vassalos, vencestes o feudalismo. Sois vós em fim que ha oitenta anos, tendes proclamado umas depois das outras todas as idéas revolucionarias, liberdade de cultos, liberdade de imprensa, liberdade de associação, liberdade de comércio e de industria; vós que pelas vossas sabias constituições fizestes justiça ao altar e ao trono; vós que estabelecestes sobre bases indestructiveis a egualdade perante a lei, a garantia legislativa, a publicidade das contas do estado, a subordinação do governo ao paiz, a soberania da opinião. Fostes vós, sós, que fundastes os princípios e lançastes os fundamentos da revolução no século XIX. Nenhuma das coisas que se tentou sem vós, viveu; nenhuma de aquelas que vós emprehendestes falhou. Diante da burguezia o despotismo tem curvado a cabeça: o soldado feliz, o ungido legitimo, o rei cidadão, desde que têm tido o infortúnio de vos desagradar, têm desfilado diante de vós como fantasmas.»
Lemos em alguns periódicos que o sr. prior da freguezia da Encarnação acaba de furar as orelhas de uma santa que tinha na sua egreja para lhe pôr brincos.
Parece-nos que este senhor eclesiástico abusa das suas relações com as santas a ponto de proceder com elas de um modo como não desejaria talvez que elas procedessem com s.ex.ª...
Como quer porém que seja, e admitindo-se mesmo que o sr. prior tenha o maior prazer de este mundo em que lhe façam furos no corpo, entendemos que sua excelência introduz no culto uma reforma arrojada, posto que extremamente simplificativa, substituindo as antigas manifestações de reverencia e de respeito devidas ás sagradas imagens--as genuflexões, o incenso, a missa cantada, a novena e o panegirico--pela verruma!
Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a lavrar entre eles o receio que o sr. prior, adoptando definitivamente o seu novo sistema litúrgico, resolva de repente, um belo dia--em vez de pregar-lhes sermões--principiar a pregar-lhes pregos!
Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a lavrar entre eles o receio de que o sr. prior, adoptando definitivamente o seu novo sistema litúrgico, resolva de repente, um belo dia--em vez de pregar-lhes sermões--principiar a pregar-lhes pregos!
Pede-se aos srs. assignantes das províncias o obsequio do mandarem satisfazer a importância das suas assignaturas em divida, por meio de estampilhas ou do vales do correio. Correspondencia á calçada doa Caetanos, 30, Lisboa.
As Farpas, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, reúne em um único registro canônico onze fascículos integrais do Project Gutenberg, de 1873 a 1883, conservadoramente normalizados para PT-BR moderno.
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