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Capítulo 8 · As Farpas

1878 — Fevereiro a Maio

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Tôdos os crimes, quaisquer que eles sejam, podem ser considerados como pertencendo a duas classes distinctas:

1.º Crimes resultantes da infracção das leis orgânicas da sociedade;

2.º Crimes resultantes da infracção das disposições regulamentares dos Estados.

Enquanto as sociedades se não acham constituidas segundo o direito absoluto fundado em princípios claramente definidos de moral positiva, isto é, enquanto as sociedades não atingem um desenvolvimento intelectual que lhes permita conhecer todas as leis da sua organisação, distinguindo o que em elas é difinitivo e orgânico do que é convencional e contingente,--em essas sociedades não podem dar-se senão os crimes da segunda de aquelas classes. É assim que vemos nas civilisações antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiais das comunidades, o roubo, a poligamia, o incesto, o homicídio, etc.

Nas sociedades que atingiram a edade consciente, que entráram no período scientifico da sua evolução moral, como presentemente sucede em toda a Europa, o incesto, a poligamia, o homicídio, o roubo, etc., tomáram o caráter dos crimes incluidos na primeira das classes a que nos referimos, porque se compreendeu que eles não violam unicamente um regulamento local e arbitrário, mas que ferem a sociedade nos centros da vida, dissolvendo no seu núcleo a aggregação que constitue o grande ser colectivo.


A sabedoria da legislação penal manifesta-se na mais justa e perfeita demarcação dos limites que separam essas duas ordens de crimes.

Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ela estreita os meios repressivos da infracção das suas leis orgânicas, e tanto mais afrouxa a punição imposta á contravenção dos seus estatutos regulamentares, distinguindo graduações na culpa segundo a importância dos interesses feridos pela perpetração do delicto.

É em virtude de este critério que são punidos com severidade, unanimemente exigida pela opinião, os atentados contra o interesse do comércio e contra o interesse da industria, porque estes dois interesses são considerados os mais importantes das sociedades modernas; ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes políticos, pela razão de que os governos se julgam impotentes para vibrarem arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por conseguinte a civilisação rejeita como um ato de prepotencia e de vingança.

Os antigos atentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a forma do governo, chamados temerosamente de lesa-majestade, deixaram ha muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os políticos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: «São mais do que crimes, são verdadeiros erros!»

Posto isto, vejamos qual é o estado da mentalidade portuguesa aferido pelo critério que ela aplica ao julgamento dos crimes e ás respectivas sancções penais.


Deram-se ultimamente dois casos profundamente característicos: o caso de Joana Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.

No caso de Joana Pereira vemos três réos confessos e convictos de três crimes: Joana, de adultério; Carlos, de tentativa contra o pudor por meio da chlorophormisação; o carroceiro, da remoção de um cadáver; todos três cúmplices e coniventes no crime de cada um.

Como procede a sociedade? Não tomando conhecimento de nenhum de estes atentados e despedindo os reos em paz!

No caso do parocho de Travanca de Lagos, o réu é acusado de ter falsificado uma certidão de edade para o fim de salvar um mancebo do recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a oito anos de degredo para a costa ds Africa!

O primeiro caso é um tríplice atentado contra a ordem social. A sociedade não só o não pune mas nem sequer o julga.

O segundo é uma contravenção de um regulamento administrativo. A sociedade não só o julga mas pune-o com uma das máximas penas do código.


Não analisamos o procedimento havido com Joana Pereira e os seus co-reos. Pomol-o simplesmente em paralelo com o procedimento havido com o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnação de este é uma iniquiedade monstruosa.

O crime do que é acusado o padre, condemnado por havel-o cometido a oito anos de degredo, é crime unicamente perante a letra de um regulamento de caráter não só transitório mas arbitrário--o regulamento do serviço militar.

O parocho foi condemnado por tentar salvar do serviço um recruta. Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, só póde involver intenção criminosa quando de esse ato proceda uma ofensa de interesses. Viciar a data de uma letra ou de um contrato é indubitavelmente um grave crime, porque ofende o interesse do comércio, ou o da industria, ou o da propriedade. Mas alterar a data de uma certidão de baptismo, para o facto de isemptar do serviço militar um cidadão, não é ofender um interesse social; é o contrario de isso: é servir o interesse que todas as sociedades têm em que deixe de haver militares.


O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o punido com degredo de oito anos, se se chegasse a realizar e se estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos análogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos benefícios á civilisação e á humanidade. Daria em resultado a eliminação do militarismo e da guerra.

Os crimes pelos quais Joana Pereira e os seus colaboradores não foram punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira ao resto da sociedade, dariam os seguintes efeitos:

Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma vez para sempre, com o uso dos cemitérios e com a pratica de enterrar os mortos.

Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inofensivo para todos os seus dramas: Resistia-me, chlorophormisei-a!

Finalmente, para o facto da selecção da especie, os maridos seriam substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas alcoólicas--o que tornaria o casamento inutil e a família impossível, convertendo aos pianos, reforçados pela aguardente, nos únicos instrumentos da perpetuidade da raça.


Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade os resolveu, achamos inutil acrescentar comentários, e fazemos unicamente á sociedade os nossos cumprimentos.


Por ocasião de se discutir no parlamento a reforma da instrução primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopção da gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinião de que a gymnastica tinha um caráter imoral.

S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com pesos suspensos da boca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mãos e de pernas para o ar. Isto efetivamente não seria bem visto. E comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porção de rubor pensando que ao dirigir em um salão as suas homenagens a uma dama esta poderá vir um dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeça no espaço que medeia entre o tapete e o lustre.

Cremos porém que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais diretamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s. ex.ª tenha da coisa que fora das feiras se não chama a sorte de forças mas sim mais modestamente--a higiene do movimento no corpo humano.


Um ilustre medico alemão, o doutor Schreber, diretor do instituto ortopédico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformações do nosso esqueleto, afirma que grande parte das viciações na configuração dos ossos da bacia, viciações que inhabilitam muitas mulheres de serem mães, proveem dos hábitos sedentários que as raparigas contraem na escola e que só podem ser corrigidos na infância pelos exercícios racionais da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poderá chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto correr um risco eminente de que essa mulher tome a boca do estomago de s. ex.ª para alvo das suas predilecções pelo pugilato atlético.


O mesmo doutor Schreber assevera que é indispensável introduzir o uso da gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quiser evitar que muitas mulheres padeçam um desvio patológico da coluna vertebral extremamente frequente e resultante da posição forçada em que as raparigas se conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja à espera de que lhe endireitem a espinha para passar imediatamente depois a operar sobre a região abdominal de s. ex.ª as experiencias dinamométricas, cuja perspectiva lança no animo pudibundo do digno procere um tão ligitimo horror.


A fisiologia moderna tem mostrado que a saúde não é mais que o justo e perfeito equilíbrio das diferentes forças inherentes ao nosso organismo. A higiene tem provado com muitas observações e fundada nas mais repetidas experiencias que o excercicio regular e metódico de todos os nossos membros e de todos os nossos órgãos é o único meio de manter o equilíbrio a que acima nos referimos. A systematisação de esse exercício regular e metódico chama-se gymnastica.

Da saúde do corpo precede solidariamente a saúde do espirito. Sabe-se hoje que todo o ato intelectual depende de uma dada circulação do sangue através da rede dos nervos encefálicos.

Os médicos alienistas e todos os que têm estudado atentamente os fenômenos mentais atestam que a estupidez, o talento, o gênio, a loucura são outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cérebro. Um aparelho do doutor Mosso, intitulado o pletismógrafo, aparelho de que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes revelações, demonstra que existem estreitas e precisas relações de causa para efeito entre as variações da circulação e os diferentes graus de atividade cerebral. A abolição da memoria, a perversão das sensações, todos os casos de nevropatia cerebral são resultantes de uma falta de cadencia na vibração dos centros sensitivos causada por um embaraço da circulação sanguínea no encéfalo. Na Itália estão-se curando as alienações mentais pela transfusão do sangue. O medico Ponza, do Grande Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos de cura de alienados pela transfusão hypodermica.

Pois bem: o meio eficaz de que a higiene dispõe para activar e regularisar a circulação, de tanta importância para a atividade central, é a gymnastica.

O celebre higienista Lacassagne diz: «Um exercício muscular geral, feito em boas condições, produz os efeitos de uma transfusão de sangue.»


Ha estados mórbidos cuja localisação no organismo escapa muitas vezes á indagação e á sagacidade dos clínicos. Está-se doente sem haver aparentemente perturbação alguma nas funções physiologcas. O symptoma, frequentemente despercebido, de esse deperecimento vital consiste na diminuição do noso peso com relação á unidade do nosso volume. A mais segura medida da saúde é a densidade do corpo. Ha algum regímen próprio para tornar mais denso o corpo humano? Ha. É o regímen da gymnastica. O doutor Burq, seguindo durante seis meses os exercícios da escola de gymnastica militar da Faisanderie, em França, constatou, pelas observações feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por efeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto é acrescentar a densidade de 6 até 15% dentro dos primeiros três ou quatro meses de exercício.


Em um paiz onde a tisica faz tão grande numero de victimas como em Portugal, é útil acrescentar ainda que uma das propriedades da gymnastica é desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media a capacidade pulmonar, como foi verificado no dinamômetro pelo mesmo doutor Burq.


A força muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a densidade, em uma proporção de 15% nos quatro primeiros meses dos exercícios gymnasticos.


A higiene de musculatura é um facto de primeira importância para a saúde desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos tecidos vivos se reconheccu que a séde principal da combustão respiratoria é o músculo. Os diferentes estados do músculo influem diretamente na composição do sangue. O exercício é portanto um poderoso modificador do sangue e como tal actúa em todas as forças do nosso organismo. Mas não ha senão uma especie de exercício com propriedades higiênicas e terapêuticas: esse exercício é a gymnastica.


Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faça o obsequio de considerar que só é um agente da saúde o exercício geral, regular e metódico, que constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica alemã. O doutor Sebreber demonstra que a única ocupação que sujeita quem a exerce a um exercício inteiramente harmônico, é a ocupação da jardinagem. Todo aquele que não for jardineiro tem de apelar para um método especial de movimentos artificiais que ponham no devido equilíbrio as acquisições e os dispêndios de cada um dos seus órgãos.


Tais são, resumidamente expostas, algumas das razões que militam em favor da gymnastica. Em contraposição a estes argumentos não sabemos senão de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos mais fervorosos para que s.ex.ª não core diante da gymnastica, impedindo assim o paiz de pôr em pratica o melhor meio de regenerar a sua constituição atrofiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os ossos, de activar as faculdades intelectuais, de enriquecer o sangue, de reagir contra a hipocondria e contra a preguiça, contra a atonia dos nervos e dos músculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a gota, contra as afecções pulmonares, contra as escrófulas, contra a obesidade e contra a idiotismo.


Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licença para incluir o mesmo sr. Vaz Preto, estão contaminados por enfermidades que a gynmastica previne e corrige. De modo que uma boa administração pedia que gymnastica não só fosse decretada para as escolas mas também para as duas casas do parlamento.

Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, alemãs, suecas, os exercícios intelectuais interrompem-se umas poucas de vezes por dia para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em comum por todos os alumnos. Uma recente estatística, feita na Inglaterra, prova quanto estes exercícios são uteis não só ao desenvolvimento físico mas ao desenvolvimento intelectual, mostrando-nos que nas escolas em que se introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que em aquelas em que a gymnastica não existe.

Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei, esqueceu uma disposição--precisamente a única que teria alcance--um artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou três vezes em cada sessão, as suas locubrações legislativas, para fazerem gymnastica ao som de um órgão, como nas escolas americanas.

O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser obrigado sob penas tremendas, a tomar parte em estes exercícios. Por que--digamo-lo francamente--o que é o cachenez do nobre duque presidente senão o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma mais característico de que s.ex.ª não tem gymnastica nos músculos do pescoço e nos que revestem o seu aparelho respiratorio? Em mome da felicidade do paiz, que tão estreitamente depende da preciosa saúde do nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome de el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a desabotoar o seu coleirinho e os seus suspensórios, e a proceder aos seguintes movimentos:

Voltar vigorosamente a cabeça para a direita e para a esquerda (100 vezes); fazer girar o pescoço, na sua máxima flexão, sobre o peito e sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros (100 vezes); fazer o movimento de quem mede braças (100 vezes); tomar fortes e profundas aspirações de ar (25 vezes). Depois do quê, s.ex.ª reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensórios e recomeçaria a meditar sobre a felicidade da pátria.

No mesmo sr. Vaz Preto o que é verdadeiramente a revolta do seu pudor perante a adopção da gymnastica nas escolas senão o indicio de uma lesão mental concomitante e até certo ponto compensadora da obesidade? Pois não é sabido que jamais a excessiva nutrição deixa de ser acompanhada reflexamente pela excessiva pudicícia? Conviria portanto que, enquanto o sr. duque de Avila curasse o seu cache-nez por meio dos excercicios indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercícios seguintes:

Massagens no abdômen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim (50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz até o limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento análogo ao de quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos). Depois do quê, s. ex.ª revestiria ameaçadoramente as suas calças e continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.


Se porém a todas estas considerações for insensível o sr. Vaz Preto, em esse caso a sciencia, continuando a afirmar a importância social da gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo: Velar-lhe a face!


A Nação publicou um telegrama de Lourdes, em que se lhe diz: O padre cego já vê, a paralitica já anda.


Parece impossível que uma folha religiosa como a Nação desse cabimento nas suas columnas um milagre tão miserável, tão safado, tão reles como esse! Com efeito! foi então para isso, para esse milagrotesito de cacaracá, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralíticos, foi para essa insignificancia, para essa miséria, para essa sovinice, que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a reunir os padres cegos e as sujeitas paraliticas, e que unicamente para os fazer ver e para os fazer andar os levou tão longe?!... Ora muito obrigado! muito obrigado pelo seu favor!

A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que collaboráram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinação têm obrigação restricta de abrirem imediatamente uma subscripção para o fim de indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralitica do incomodo que lhes deram. Porque nós--e a Nação bem o sabe!--nós temos devoções locais, temos devoções aí da Baixa, que nos afirmam e afiançam, sob a autoridade dos padres e dos pontífices, exactamente os mesmos resultados obtidos pela romagem.

Pois quê! A água de Lourdes ao pé da bica, na própria gruta, por conta e na presença da santa, não ha de dar mais efeitos no consumidor do que a água de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas vezes impuras, quantas vezes com más rolhas?!

Não vimos nós aí, ha dois anos, na Santa Casa da Misericórdia, uma enferma paralitica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa locomotores com água das latas?!

E a pobrezinha de Cristo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento para se meter ás estradas e para ir por aí fora em braços até Lourdes, chega lá e não obtem mais nada senão o que obteve a outra sem sair do largo de S. Roque?

E ainda ousam dizer-nos--o que não póde ser senão por escárnio--que ela andou!? Olha a grande façanha--andar! Mas, senhores, tendo tido trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era correr, correr a sete pés, e trazer de lá para esse fim cinco pernas a maior do que as que levou!

Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos lesos, sem ir mais longe, tinha aí o sr. Mascaró que lhe fazia o milagre no olho de cada lado em um abrir e fechar do olho do lado oposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os créditos da água na sua devida altura, que o homem não só principiasse a ver pelos olhos mas que visse também por outros membros.

Isso então já valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que a Nação o publicasse em telegrama: «O padre cego apareceu-lhe um olho em cada buraco do nariz e está-lhe a vir outro na cova do ladrão, pelo qual já lê as suas rezas de costas na cama com o breviário por baixo do travesseiro. A paralitica já deitou seis pernas novas e está com dois grandes furúnculos nos hombros: supõe-se que sejam as azas a romper. Quando se lhe espremem os carnições bota penas. Infinitos louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela cor dos voadouros vemos que a paralitica nos sae pedrez!»

Isso, sim senhor, isso seria um sofrível milagre, ainda que de segunda ordem, porque os ha muitos maiores.


Da virtude dos escapulários, por exemplo, contam-se e autenticam-se coisas ao pé das quais tudo quanto a água de Lourdes tem feito é zero.

O escapulário preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenças, das pestes, dos perigos da água, dos incêndios, do raio, das quedas, das balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que não podemos pôr em dúvida. No livro intitulado Virtude miraculosa do Escapulario demonstrada por casos de proteção, de conversão e de curas miraculosas, pelo revd.º padre Hugnet--Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelas et Anvers, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos exemplos.

Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botão dos suspensórios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto das torres, como algumas vezes sucede, veem lendo em ele pelo ar enquanto caem e continúam a leitura em baixo, traçando a perna em um estado do satisfação inefável.

O sr. A. de L..., tendo entrado na insurreição do Var, com um escapulário ao pescoço, recebe vinte e nove tiros, aparecem-lhe no fato os vinte e nove furos das vinte e nove balas: ele no entanto fica ileso. «Não nos foi possível matá-lo: tivemos de desistir!» disse por essa ocasião um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)

No auge de um pavoroso incêndio um devoto lembra-se de lançar ao meio das chamas o seu escapulário; o incêndio imediatamente se extinguiu e o escapulário encontrou-se intacto. «Apenas, diz o padre Huguet na obra citada, se observou que ele cheirava um pouco a chamusco.» (Pag. 17.)

Um soldado na batalha de Novara vê cair em torno de ele todo o regimento, ele é o único ser que sobrevive: examina-se o soldado e acha-se-lhe um escapulário metido na boca e um em cada braço. (Pag. 20.)

Um desgraçado, querendo suicidar-se, lança-se ao mar quatro vezes consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o á praia, recusando-se obstinadamente a submergil-o. O desgraçado recorda-se então que traz ao pescoço um escapulário, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado o escapulário em terra. Foi somente com esta condição que o mar se resolveu a dar cabo de ele. (Pag. 15.)

Além de livrar de todos os perigos, sem excepção, durante a vida, o escapulário livra completamente das penas eternas depois da morte.

O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado Coleção dos escapulários da Immaculada Conceição, do Rosario, do Carmelo, etc., diz terminantemente, a pag. 231, que os demônios se queixam no inferno, pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes são arrebatadas pelos escapulários. Parece que não ha dia em que um milhão de diabos não roguem esta praga medonha:--Que nós levemos os escapulários!

As aprovações pontificais de todos os papas, desde João XXII até Pio IX, confirmam cabalmente os poderes atribuídos ao uso dos escapulários.

O escapulário do Monte Carmelo tem a propriedade especial de expedir para o ceo o penitente, quaisquer que tenham sido os pecados por ele perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que arranje a morrer com o escapulário na sexta feira á meia noite, podem os facínoras seus companheiros esperal-o no purgatório, que o hão de ver por um óculo!

O uso do escapulário é extremamente comodo: não obriga a encargos de nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia, da confissão e da comunhão. Também não priva o penitente de qualquer prazer a que ele se queira dar em este mundo. Assim o afirma o revd.º Guglielmi. O essencial é não o tirar nunca, nem mesmo quando voluntariamente se vai pecar: é o que mais particularmente prescreve o dito padre Guglielmi.

De todos os escapulários o que mais se recomenda á eleição dos devotos é o do Sagrado Coração de Jesus, porque este escapulário nem sequer precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que ele seja feito pelo modelo aprovado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo seguinte: Sobre um pequeno retalho de lã branca--retalho quadrado ou oblongo, porque sendo redondo, oval ou polígono perde a virtude--aplica-se um coração de flanela encarnada, bem talhado e cosido a pesponto, de modo que imite a corôa de espinhos acompanhada de algumas gotas de sangue bordadas a seda. Áparte, em uma tirinha de pano patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripção sacramental: Suspende! Está comigo o coração de Jesus!

Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua família, fazer um de estes escapulários, deital-o ao pescoço e ficar livre, para a vida e para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do alto das torres, atirar-se ás voragens do fogo e do mar, e meter-se debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, não fará a Nação o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos de rolha beber uma água, que, segundo a mesma Nação, o mais que faz é unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralíticos?

Ha umas tantas coisas que a Nação até devia ter vergonha de as dizer... O que a Nação precisava era que lhe deitassem um bom escapulário a esse pescoço, para a Nação ficar então sabendo o que são milagres! Porque a Nação não sabe o que são milagres!

Pôr o padre cego a ver e pôr a paralitica a andar não passa de uma habilidadesita medíocre, um bocadito de geito!

Vir á feira unicamente com uma porcaria de essas parece mesmo de propósito para fazer perder á gente o gosto pelas devoções...

Enquanto a nós o que a Nação tem é o espirito maligno no corpo do jornal! Cruzes, demônio!


Ha dois meses que os periódicos anunciam quase quotidianamente os casos de espancamento, de ferimentos e de roubos cometidos em Lisboa e seu termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de satisfação á sociedade pela frequência de tantos crimes, prende um fadista. O que temos que perguntar é: Porque se não prendem os fadistas todos?


Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significação análoga a esta--o fadista.

Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente, constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No século passado existia ainda em toda a sua pureza esta raça de bravos de viela, sem oficio nem beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ela, frecheiros com as mulheres, soberbões e insolentes com os mesteirais e com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursões nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando os muros dos quintais e dos conventos, desarmando as rondas e açoitando os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e adormecidos.

Entre os aludidos fidalgos figurava como grão-mestre da ordem, como capitão da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmão do senhor rei D. João V, que Deus tenha em sua santa guarda. de esse interessantíssimo príncipe, cujas tropelias creáram, durante um século, em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror, conta-se este belo feito histórico, que basta para mostrar o gênero dos divertimentos da sua roda: Vendo o augusto príncipe nas vergas de um navio um marinheiro que o saudava, quis o infante experimentar, por ser mui curioso de balística, se do logar onde estava poderia alcançar com um tiro aquele homem que lhe fazia continência meneando alegremente o seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando sobre o alvo, teve sua alteza o sumo gosto de ver que o marinheiro se despegara da verga, que dobara no ar por entre as enxarceas e caíra por fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o que o sr. infante houve um acesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos uivos e pinchos, inequívocos sinais de uma ilimitada alegria. Mais tarde, com a iluminação de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e com a creação da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaças, os combates nocturnos da fidalguia com a vilanagem lisboeta. Pela razão biologica de que toda a força orgânica que se não exerce se elimina, o antigo valentão plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o espirito da façanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da vadiice, e tomou então o nome de--fadista.

O fadista não trabalha nem possui capitais que representem uma acumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do seu próximo. Faz-se sustentar de ordinário por uma mulher publica, que ele espanca sistematicamente. Não tem domicilio certo. Habita sucessivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na esquadra da policia. Está inteiramente atrofiado pela ociosidade, pelas noitadas, pelo abuso do tabaco e do álcool. É um anêmico, um covarde e um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são frageis, as pernas cambadas, as mãos finas e pálidas como as das mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e enegrecidos pelo cigarro; a cabeleira fétida, enfarinhada de poeira e de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu oficio consta de uma guitarra e de um santo Cristo, que assim chamam technicamente a grande navalha de ponta e tríplice calço na mola. É habitado por uma moléstia secreta e por vários parasitas da epiderme. Um homem de constituição normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com um soco. Ele sente isso e é traiçoeiro pelo instincto do inferioridade. Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma agilidade proveniente do seu único exercício muscular--as escovinhas. Não ha senão uma defesa para o modo como ele aggride: o tiro ou a bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A guitarra debaixo do braço substitue em ele a espada á cinta, por meio da qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do século XVI. É pela prenda de guitarrista que ele entra de gôrra com os fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da Alhandra e da Aldeia Galega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria, onde depois da meia noite se vai comer o prado de desfeita, acepipe composto de bacalhau e grãos de bico polvilhados de vermelho por uma camada de colorau picante. Por efeito da tradição na orientação mental da sua classe ele procura ainda hoje como ha duzentas anos parecer-se e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga tais. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos alcouces de Alfama, que são levantados bêbedos dos becos mal afamados, que falam em calão e que fazem troças no Colete Encarnado e na Perna de Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compõe-se hoje principalmente de jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educação do liceu e do colégio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O fadista imita esses senhores na escolha que eles fazem dos seus trajes de pandega. Usa como eles a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do pé, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapéo arremessado para a nuca pelo dedo polegar, com o gesto clássico do grande stylo canalha. A guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a ele com um desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beiço pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação imbecil; o tronco do corpo caído molemente para cima do quadril; a perna encurvada com o bico do pé para fora; o cachucho da amante reluzindo na mão pálida e suja. Também canta, algumas vezes, apoiando a mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta, esticando as cordoveias do pescoço e entoando as melopeias do fado, em que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na laringe, acompanhada da expressão fisionômica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e miserável.

De resto o fadista não tem vislumbres de senso moral. Explica os seus meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista na algibeira cebosa do colete. Na batota concilia-se com o furto e com o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas convivências do bordel concilia-se com a infâmia; e as condições especiais em que ama e é amado acabam por dissolver em ele os últimos restos de essa dignidade animal, para assim dizer anatômica, comum a todos os machos.


É da classe dos fadistas que saem para os tribunais e para as cadeias os incorrigiveis da criminalidade.

A propósito do direito de punir e do modo de aplicar a pena dizia recentemente ainda um escritor inglez, fundado nas informações de um inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir em três categorias. A primeira categoria é composta de individuos que verdadeiramente não deveriam ter entrado nunca na prisão. São lançados nas garras da lei por um acidente exterior ou por uma fraqueza de juízo ou de caráter, a qual não obsta a que eles tenham uma moralidade tão sã como a de qualquer de nós. Á segunda categoria pertencem individuos, mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias Morais ou imorais, susceptiveis de serem dirigidos pelas circunstâncias e de se tornarem bons ou maus segundo a direcção que recebam. A terceira categoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, é rebelde a toda a disciplina, insensível a toda a bondade, surda a todos os conselhos. Para estes a cadeia é um logar improrio; seria preciso confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo não fizesse novas victimas. Segundo o aludido inspector das cadeias inglezas, que tinha viajado muito e estudado atentamente todos os grandes estabelecimetos penitenciários do mundo, o Estado não teria senão proveito que tirar da maior soma de liberdade concedida aos presos da primeira de essas categorias; aos presos da segunda classe conviria principalmente dar instracção; enquanto aos terceiros o melhor expediente seria a morte.

É útil refletir em estas palavras e considerar uma coisa:

É ou não é da classe chamada fadista que procede a máxima parte dos criminosos que passam anualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja incorrigibilidade é em muitos de eles atestada por vários julgamentos repetidos?

A historia do foro lisbonense nos últimos tempos responde:

É.

em este caso pergunta-se:

Póde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda, continuar a manter pelo desleixo, a existência legalmente tolerada de uma categoria de individuos que ha três séculos pervertem profundamente os nossos costumes populares, e de cujo grêmio saem os criminosos que a justiça mais dificilmente corrige e mais raramente regenera?

Não. Uma semelhante tolerância representa o mais grave dos atentados de que o Estado é cúmplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade é irresponsável da perversidade individual, não sucede o mesmo, e a sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que é ela que sustenta, ao abrigo das leis, a concordância de todas as causas conhecidas e manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.

Dado o fadista, a sociedade não póde certamente evitar o criminoso. A sociedade porém póde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um inquérito rigoroso sobre a vadiagem e suprimindo, quanto antes, a instituição concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria.

Desde que um cidadão deixe de poder explicar unicamente pelos suprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistência, o Estado tem o dever de o prender, não para encarcerar mas para coagir ao trabalho, matriculando-o em qualquer das oficinas do governo: na cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.


O mais perigoso de todos os animais vadios é o homem. Comparado com ele o cão, ainda quando damnado, póde-se considerar inofensivo. E todavia a policia, que tem para o cão que ainda se não damnou as precauções da rede e da carroça, não tem para o vadio, em pleno exercício do seu contagio, senão um expediente repressivo: o de lhe archivar a fotografia no commisariado geral.

Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios de garantir a segurança publica: tire o retrato aos cães e deite a rede aos fadistas.


Repentinamente, inesperadamente, sem ninguém saber porque, no principio do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legiões contrarias, arrojáram-se encarniçadamente uns sobre os outros, esmurráram-se, esguedelháram-se, cuspiram-se na face em odes, açoitáram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regiões lombares das musas.

Mysterio sobre as causas que moveram tão cruá guerra entre duas escolas poéticas aliás tão pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que elas existissem: a escola da Idéa Velha e a escola da Idéa Nova!


Os da Idéa Velha dizem que não ha nada como a idéa de eles. E fundam-se para isto em que é uma idéa solida, experimentada, garantida.

O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta anos.

Ergueu-a do chão como morta, chuchada, espipada, moída pelas pégadas de duas gerações, espalmada como uma película pelo piso das alimarias e pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idéa Velha por uma ponta e pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, atestou-a, retesou-a de novo. Depois lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, meteu-lhe louro fresco na fronte, pôs-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot e levou-a consigo á sociedade, onde a receberam bem. Cercáram-a vários outros não menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do que aquele que a levantara do chão. Andou pelo braço de um e pelo braço de outro recebendo declarações de affecto e dadivas de amor. Mão tão dedicada quão firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em espasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, ás solemnidades publicas, ás casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; colaborou na Grinalda e no Almanach de Lembranças; dedicou versos á Lapa dos Esteios, á Stoltz e á Novello e ao funeral da senhora D. Maria II; concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e ás Graças nas notas da versão portuguesa dos Fastos. Foi da Assembléa da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do Gremio, que tomou o nome de Literário para a receber e cujos sócios affirmáram, para lhe serem agradaveis, o seu amor á letras deitando bigode e pera. Ela penetrou finalmente nas altas regiões oficiais. Foi aos paços dos nossos reis! De quando em quando observava-se que ela começava de repente a encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fora insuflada pelo gênio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e era trágico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se fecha. Mas em estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinião, e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo á Idéa Velha. O poder moderador, com a sua real corôa na cabeça e o seu real manto ás costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico. Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quais, achando-se tão chupados e tão desfalecidos como a própria idéa que eram chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa, choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos seus uniformes e lembrando-se de que elas, miseras classes medias, tinham tido a honra de bufar à mesma idéa e pelo mesmo canudo que servira á primeira fidalguia de estes reinos e ao augusto chefe do estado. O povo queria também soprar, mas os lojistas da Assembléa da Galocha e os empregados públicos do Gremio não o permitiam, e torcendo altivamente o bico das peras, diziam que a Idéa se não se podia pôr á mercê da populaça infrene e ignara. Vivendo assim á custa do sopro dos poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do Martinho e pelos filósofos da carta constitucional da monarchia, a Idéa, definitivamente consagrada pelo aplauso das grandes massas, deu entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoço a condecoração do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a teorba, ajoelhou-se-lhe aos pés e propoz-lhe levá-la ás aras de Hymenen; ela porém, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chama ardente mas exclusiva do vate. Este, de pura dor, pregou na parede um prego e suspendeu em ele, por um laço de crepe, a teorba emudecida e viúva.

Nos últimos anos a Idéa Velha desaparecera do bulício do século e da comunicação das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube. Algumas pessoas devotas tinham-lhe já resado por alma. Soube-se agora, com grande satisfação dos que a conheceram no galarim, que a Idéa Velha ainda está viva e que se ocupa em andar a dias pelas casas particulares onde não ha outra idéa de dentro para o serviço da família.


Os da Idéa Nova têm esta falha notável: supõem que a Idéa velha vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciência humana, que prepondera nos destinos do mundo, E veem-se moços honestos e engraçados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabelos aos patologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como se fosse uma força da natureza ou uma corrente da sociedade, aquilo que ha meio século não passa do um artificio convencional e de uma superfetação literária da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em nenhum dos interesses do espirito ou do coração do homem no tempo presente.


O Primo Bazilio, novo romance de Eça de Queiroz, é um fenômeno artístico revestindo um caso patológico. Para bem se comprehender esta obra é preciso discriminar o que em ela pertence á jurisdicção da arte e o que pertence aos domínios da patologia social.


Eis a doença que este livro acusa:--A dissolução dos costumes burguezes.

O mais característico symptoma de esse mal é a falsa educação. A educação burgueza tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrível, a mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte: No fundo mais intimo e mais secreto da sua existência de artificio e de aparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos ver porquê.

Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma desarmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a representação da vida exterior e o sistema da vida intima.

Basta olhar de fora para as casas, basta considerar o aspecto exterior do templo para se fazer uma idéa do que póde ser dentro o culto de essa religião--a família!

Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais ásperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda a saliência, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as graciosas construcções árabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola, com o seu claustro interior, o poço de mármore ao centro do pátio, as galerias concêntricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Alemanha, da Holanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos prédios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos prédios de esquina de rua no Hanover. As novas casas alemãs no stylo gótico francês, modificado segundo as exigências da civilisação moderna, são obras primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da higiene, da moral, da estética; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor sistema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de três cores, branca, cor de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços cercados de hera, de estufas, de logettes, de aviarios em que se cantam os pássaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre frescas, esses prédios, que têm a attractiva frescura exterior de outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais elegante, mais digno, mais acomodado aos deveres, aos respeitos, aos nobres prazeres da família. A disposição mais escrupulosamente estudada do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa luz e bom ar, permite ás mulheres o saudável prazer de girar na casa, activamente, em uma grande variedade de aspectos pitorescos e alegres.

As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade celular monótona, parada como um olhar idiota, sem pátio, sem uma árvore, sem uma folha de verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto, com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petróleo e da alfazema queimada, são os sepulchros da saúde e da alegria.

É em essa serie de prateleiras, de gavetões de famílias, que se chamam os Arruamentos da Baixa, que é educada a lisboeta.

Uma senhora francesa, tendo viajado em toda a Europa e visitando recentemente Lisboa, comunicava-nos esta profunda observação:

«Noto um facto que me enche de perturbação e de horror--em esta cidade não ha creanças.»

Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros belos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e balsâmica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas cor de palha, desabotoavam-se as rosas da Alexandria, apetecia desentorpecer os músculos na elasticidade de um bom exercício, ouvir a água, ver os musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrela, ao da Patriarcal, ao de S. Pedro de Alcântara, ao do Campo de Sant'Ana, aos squares do largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos efetivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma água, mas não encontramos uma única criança, a cuja saúde sua mãe se tivesse sacrificado por uma hora, abandonando em esse breve espaço de tempo a sua preocupação de magnificência e vindo simplesmente com o seu trabalho ou com a sua leitura, de uma de essas árvores, fazer crescer ao ar livre o seu filho, preparado para esse efeito com um bom banho e com um bibe fresco.

Nos dias de bom tempo, enquanto a maioria das senhoras de Lisboa frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As criança estão dentro das casas que acima descrevemos--a tomarem propósito. Tomar propósito é uma locução essencialmente local e intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o propósito indispensável para não tagarelar imprudentemente, para não contar que houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quase tudo quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha instructivas ocupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da infância onde os rapazes formam o caráter trepando ao alto das árvores, e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as flores. Também não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo. Nenhuma aplicação intelectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas da natureza e da vida. Aos sete anos a menina vai para o colégio, onde aprende o francês e o inglez. Esta educação completa-se em casa ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são apêndices de sua toilette: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das línguas, e a fantasia, o bonito trecho de salão tocado no piano diante das visitas. Que sabe ela da arte, da sua natureza, da sua funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu próprios para lhe suggerirem um alto ideal, para lhe darem o critério artístico? Leu os jornais noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno, Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.

Não a interessa nenhum dos fenômenos da natureza, porque ignora completamente as leis que regem o universo e que determinam esses fenômenos.

Não a distraem os interessantes cuidados do ménage, porque da casa, assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ela? Sem nenhumas noções da higiene, nem da chimica alimentar, nem da historia das ciências e das industrias que fornecem os instrumentos da atividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão moralisadores e tão atrativos, têm para ela o caráter de um mister gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a essência da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem vilã, que retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da casa o que ela sabe unicamente é que ha duas ou três salas de aparato que se mostram ás pessoas de fora; um quarto mais ou menos infecto, uma possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ela dorme até ás dez ou onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias borundangas cabalísticas e secretas consta que se fabrica a sopa.

Na religião ela padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que a humilham na vida social. Devota, apetece as altas penitencias elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro de Roma; a contricção aos pés do sumo pontífice, coberta de renda preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo do incenso o perfume lascivo e penetrante do opopônax, enquanto os órgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas couraças dos belos guardas de bigodes torcidos e espadas desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha e graciosa, semelhante a uma bombonière, ou como a da Semana Santa nos Inglezinhos, a cuja petite entrée destinada aos íntimos rodam os coupés magníficos da piedade escolhida.

Mas pelo Deus da sua convivência habitual, pelo pobre Deus de gesso do seu bènitier barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da Saúde, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas, arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ela não tem senão dúvida ou desdem.

Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de princípios teóricos, que ela viu sempre ou quase sempre refutadas por uma serie contradictoria de interesses práticos, tirando esta conclusão: que o dever consiste na mais hábil combinação que se possa fazer de essas teorias e de esses interesses para o fim de chegar a este último resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das sociedades corruptas:--o socego.

Aos dezessete ou dezoito anos ela entra no mundo, isto é, principia a ir aos bailes, a frequentar o teatro, a ler romances, a conversar com os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, em outra região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso do seu pequeno mundo insipido, ordinário, estupido: que nem todas as raparigas vivem como ela, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e da toilette; com uma cabeça ocá; em um quarto que não cheira bem; tendo um pai, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cérebro, em revolta cntra o destroço dos anos e contra o preço crescente dos gêneros alimentícios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o aguadeiro, ralhando com o marido.

Principia então a causar-lhe um tédio profundo, nauseante, a sua vida domestica: a casa de aluguel de que muda de ano em ano; o seu pequeno quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esfacelamento as caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavalos árabes defronte do sofá, a litografia da mulher que sorri, o álbum dos retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no meio dos cortinados.

Ela tem um secreto ideal de grande elegância, de alta distincção decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exótico, semelhante ao que viu no teatro ou ao que leu em um romance de Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existência mais nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas mais simples, mais triviais, e é para se dar um aspecto superior, para se encobrir do que é, que ela assim mente. Mente do modo mais miserável a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vai, dos banhos que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções ou do luxo que não usa.

Casada, procura finalmente realizar os seus sonhos de leitora de romances e de frequentadora dos dramas do teatro de D. Maria. Mas não lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe tornar encantadora a família.

Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha da qual resulta o desequilibrio dos seus atos com as suas aspirações. Não se acha firme na posse da existência. Falta-lhe essa tranquila e serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da perfeita educação.

Se em esse estado de espirito um homem que ela tenha por eminentemente superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o fácil processo de revigorar uma abatida vaidade romântica, ela cairá com uma simplicidade trágica.

O homem superior, segundo o critério da mulher em tais condições, é o dândi. Porque o dandismo é a única fórma sob a qual a distincção se lhe apresenta como uma coisa perceptível. O cérebro mais provido do nobres pensamentos terá para ela menos seducções do que uma cabeça bem penteada, de cabelos espessos, anelados, separados nitidamente por uma fina risca cor de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caráter exercerá sobre a imaginaçãoo de ela a fascinação com que a subjuga a alta elegância autenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será aquele que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver jantado nos mais celebres restaurantes do boulevard, o que se vestir e se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver desgastado do músculos e do cérebro nos altos vícios, o que mais segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em foie gras, em Champagne Clicot, e em Cold-creame.

Se um tal homem, secado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos tapetes de Smyrna dos boudoirs forrados de setim, envoltos em renda de França, mobilados de sândalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes essências de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés de ela, para lhe dizer obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras, amando-a finalmente, amando-a ele, apesar do que ela considera as suas inferioridades: apesar das suas meias com uma passagem, apesar do seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito característico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apesar ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu espartilho barato, da sua toilette da Baixa, da sua pomada de botica e do seu halito de dispéptica denunciando um pouco a cebola do refogado nacional... Se, apesar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anéis ingleses, encasando no olho o seu monóculo, aproximando em uma intimidade atenciosa e benévola as cintilações do seu correcto plastron de Poole, e as exhalações frescas e aromáticas do seu bigode e do seu cabelo frisado á Capoul, ele souber pedir, ela pela sua parte não saberá negar.


Tal é o caso de patologia social, caso profundamente verdadeiro, medonho, trágico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu O Primo Bazilio, romance realista.

Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é esse o característico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha senão convicções estéticas, e satisfazia assim as necessidades de espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Império, que suportou as guerras de Bonaparte, e cujos cérebros não pediam á arte de 1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então cultivaram o idílio amoroso e fizeram poemas dos seus próprios estados de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições góticas da edade media e fizeram uma restauração literária e burgueza da cavalaria. De resto, nos artistas românticos, perfeita emancipação da forma mais profunda indiferença pela questões sociais do seu tempo. Eles foram sucessivamente ou cumulativamente católicos, panteístas, ateus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos, filantropos.

A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os pontos da sua periferia até as mais reconditas intimidades do seu ser. Esta reconstituição não se está fazendo empiricamente pela revolução ou pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela convergência harmônica de todos os esforços intelectuais sobre o mesmo problema. Compreendeu-se que são solidários todos os estudos, os do mundo inorganico e os do mundo orgânico; que são correlativas todas as leis desde a da indestructibilidade da matéria até a da evolução social; que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum fenômeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer integralmente a serie ou a sequencia de series em que ele é o elo que prende um fenômeno anterior a um fenômeno subsequente.

em esta liga de todos os espíritos para um fim comum, liga tão estreita, que cada nova lei, cada nova teoria, cada nova hipótese em qualquer dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a teoria zoológica da adaptação ao meio um método novo na critica,--em esta liga, dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha trinta anos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse e para que tenha a importância de um agente da civilisação, em factos de caráter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: Res non verba.

Foi da palavra rês, tomada precisamente em essa acepção literal, que se tirou a designação realismo.

Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o máximo numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser simplesmente lirica.

O Primo Basilio é um romance realista porque é a representação de um facto social visto através de uma convicção scientifica. Luísa, a amante do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia mórbida de uma época. E é em isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser Luísa castigada (para nos servirmos da velha formula que via a moral dos livros no premio que em eles se concedia á virtude e no castigo com que em eles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte afflictiva é um facto acessório, que não conteria senão esta moral negativa, se de ele se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a morte por desgosto se deve atender no adultério a que se queimem as cartas.

A moral de este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da queda; está em que ela--não podia deixar de cair.

Reconhecemos que esta moral é pouco acessível á maior parte das comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande mal da literatura de que o livro faz parte. O Primo Basilio supõe um estado de civilisação artística e literária superior á que existe na sociedade portuguesa. Suppõe manifestações paralelas nas aplicações da filosofia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na higiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na critica dos costumes, na própria critica da arte.

Ora essas manifestações não existem por enquanto em um estado de vulgarisação que determine uma corrente harmônica no sentido a que se dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do Primo Basilio. A sociedade portuguesa não compreendeu ainda de um modo colectivo e solidário, que é urgentemente indispensável por todas as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação burgueza.

De sorte que o dizer-se, como em esse livro, á mulher nossa contemporânea: «Eis--aqui está o modo pavorosamente simples como tu te rendes da maneira mais ignóbil ao mais ignóbil dos homens»,--parece um insulto àquelas que são as nossas amigas, algumas de elas as nossas companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas filhas. Essa afirmação, porém, deixaria de ter um caráter aparentemente aggressivo se o artista pudesse acrescentar:

«Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou uma parte de essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente honestos, que se sentem impelidos na obscuridade do seu estudo por esta ambição heroica:--tornar o mundo mas belo e a humanidade mais digna. Na minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso fazer é comover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o problema que mais diretamente prende com o que ha em ti mais sagrado, com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte romântica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um alto vigor dramático, de um relevo fascinante, ofereço-t'o eu tal como ele hoje te ha de aparecer na vida real, na pessoa de um biltre asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio príncipe e meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito em preconceito, de erro em erro, és trazida, através de todos os elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia, um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentais harmonicamente e convergentemente estarão em este momento--no momento em que eu tenho a concepção artística do Primo Basilio--actuando sobre todas as influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do amor, da família, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento em factos verificaveis, geométrica, positiva, inabalável. Á religião compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciência ou demitir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral, fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a aplicação de essas leis aos fenômenos sociais de cada dia. Á critica, finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha tese, fazê-la viver na máxima elevação estética: porque meio? por meio da mais perfeita fórma que pode atingir a arte. Foi o que eu fiz.»

Se com a natureza essencialmente artística de Eça do Queiroz fosse compatível a humildade de uma explicação em essas bases, o seu livro teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um artista tem a obrigação de se não explicar,--o que seria invadir uma funcção alheia na justa divisão do trabalho intelectual moderno. Ha um gosto publico do qual precede uma critica oficial, assim como ha uma religião do Estado da qual procede uma hipocrisia publica. Ora assim como o filósofo deve ser indiferente á teologia, o artista deve ser indiferente á opinião. Mas esta independencia da filosofia e da arte, se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte e perante a pura filosofia, por outro lado ela é a principal causa de ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante a comprehensão dos espíritos e a satisfação das consciências.

Tais foram as razões porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do Primo Bazilio,--uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo uma de aquelas que mais honram a humanidade e de que mais se deve gloriar uma literatura--nós fizemos esta profecia: Que este livro seria como um de esses complicados instrumentos mechanicos destinados á observação dos mais delicados fenômenos da chimica, da óptica ou da biologia, instrumentos inúteis--ás vezes perigosos--para todo aquele que não tem a sciencia de os pôr em exercício e de ver por eles a divina revelação de um novo mundo.


O Diario Ilustrado, publicando o retrato e a biografia do sr. Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:

«Conta-se que estando ha dois anos em Cauterets, chegou um dia, depois de jantar, a uma janela e lembrando-se do admirável panorama que se desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas, exclamou:--Quem me dera já na minha casa do pátio do Pimenta!»


O Diario Ilustrado não ousa afirmar de um modo terminante que o sr. Sampaio tivesse efetivamente proferido aquelas memoraveis palavras; o Diario Ilustrado diz apenas: Conta-se...

Ora este caso não se póde deixar assim envolvido na dúvida. São históricas as palavras do sr. Sampaio ou são puramente uma legenda das montanhas, inventada pela imaginação supersticiosa dos pastores dos carneiros negros, ou pela tagarelice anecdótica dos mercadores da feira de Tarbes? Póde o Diario Ilustrado firmar com a sua palavra de honra a autenticidade de aquelas expressões? Foi efetivamente o sr. Sampaio que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias!... Não seria antes algum dos outros heróis já celebres na historia da cordilheira dos Pyreneus? Não seria o paladino Rolando, sobrinho de Carlos Magno, marido de Alda a Bela, o que antes de morrer quebrou a Durindana na batalha de Roncesvalles? Não seria o próprio Carlos Magno? Não seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de Champagne? Não seria Plantade, o Astronomo, que morreu em êxtase diante da beleza da paizagem, entre os vales de Baréges e de Bagnère?

Está o Diario Ilustrado no caso de sustentar, debaixo de jura, por tudo quanto ha para ele mais sagrado, com a dextra sobre a cabeça do sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio quem, depois de jantar, à janela da hospedaria, palitando talvez os dentes, na casta simplicidade dos grandes heroísmos, enunciou aqueles dizeres?

Esperamos, tranquilos mas resolutos, a resposta de Diario Ilustrado.

Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com efeito, no nosso século e em um dos nossos páteos, um homem assás convicto em suas crenças, assás profundo em suas vistas e assás firme em suas resoluções, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de jantar:--Quem me dera já na minha casa do pátio do Pimenta--; se tal frase não é uma ficção, se ela existe realmente fora do estado abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz não póde cruzar os braços, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tão lucida como a que o Ilustrado cita marcou a diferença, toda favorável á nossa pátria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!


Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra têm dado ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos seguites delictos, cada um dos quais foi objecto de um processo especial:

1.º Rir atraz da procissão dos Passos.

2.º Ser testemunha de um duelo abortado, proposto a um professor por um viajante.

3.º Não ter dado pateada a um lente.

4.º Parecer constrangido a dar lição.

5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.


Os alumos condemnados pela perpetração dos delictos 1, 2, 3 e 4 apelaram para o Poder Moderador, o qual lhes comutou a pena de expulsão temporária em alguns dias de cadeia.

Procedendo de essa forma o Poder Moderador não tomou em consideraçãoa necessidade de fazer proceder á revisão da legislação acadêmica. O Poder teve apenas em vista o desgosto infligido pela sanção dos regulamentos universitários ás famílias dos alumnos condemnados:--No que o Poder mostrou ter um coração do excelente rapaz aliado a um cérebro de legislador medíocre.


Está pendente da confirmação regia, segundo nos consta, a pena imposta aos réus do crime n.º 5, julgados já segundo o direito comum e absolvidos pelos tribunais civis.

em esta conjuntura perguntamos:

É admissível que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente de dois tribunais paralelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punições em vez de uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente tidos por inocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem contrarias?

Responder-nos-hão que o tribunal acadêmico julga de circunstâncias especiais que não são submetidas á apreciação dos tribunais ordinários?

Mas em esse caso o tribunal acadêmico com relação ao crime de que se trata toma o caráter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.

Como tribunal escolar á Universidade cabe apenas decidir se o facto de sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição.

Com tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que quando se trata de algumas bofetadas ou de alguns pontapés, o desonrado não é propriamente quem os dá, é por via de regra quem os recebe.

Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questões de esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade que ainda possa haver na mocidade portuguesa.

Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza física e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente, com risco da sua própria vida, a uma ofensa pessoal, é um homem corromido, sem o sentimento do respeito devido á dignidde da sua especie, atreito ás paixões mesquinhas, com manhas de reptil.


Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho sistema que tem por fim levar o estudante que queira concluir honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaças da força alheia por um de estes dois modos: fugindo ou apanhando.

Se porém a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros cidadãos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para sempre da instauração de processos ridiculamente pueris, requerendo das cortes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de atrofiar no coração da mocidade com um regímen fradesco os sentimentos naturais de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da velha troça acadêmica por meio da instituição de exercícios viris, próprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatória, a escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel cricket.


No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que Deus segundo Taine é um personagem oficial com os seus cortezãos e os seus áulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido falar da Providência em um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso para prehencher essa omissão,--na velha, na religiosa, na solene Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a alocução presidencial do Birmingham and Midland Institute, disse as palavras seguintes:

«Dir-me-hão que suponho um estado de coisas determinado pela influencia das religiões e comprehendendo os dogmas da teologia e a crença no livre arbítrio, um estado, em suma no qual uma maioria moralisada fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria imoral. Sendo perverso, e perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem abolidas as sancções teológicas a raça inteira se modelaria por alguns exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e desconheceriamos o dever.

«Tenho de responder que me recuso absolutamente a admitir semelhantes conclusões. O celerado não é em minha opinião a imagem da humanidade. Bebamos e comamos porque temos de morrer amanhã não é a consequência ética da regeição dos dogmas.

«As doutrinas Morais dos ateus nossos conhecidos são tais que nenhum christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura senão desde que conhece a origem de que elas procedem.

«Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de varias pessoas que conheço. Mas não posso também deixar de confessar que muitas vezes a religião passa por estrondosas derrotas ao procurar produzir alguma coisa bela. O apostolo e o campeão da religião é frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas diferenças procedem de distincções primordiais de caráter que a religião é insuficiente para nivelar.

«Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso grêmio homens a que os batalhadores do púlpito chamam ateus ou materialistas e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma moralidade acessível contrasta de um modo mais que favorável com a vida de aqueles que buscam aviltal-os com essa designação ofensiva.

«Quando digo ofensiva quero simplesmente aludir aos que empregam aqueles termos, não que eu pense que o ateísmo e o materialismo, comparados a muitas noções sustentadas pelos jornais religiosos, tenham em si um caráter ofensivo.

«Quando eu quiser achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando eu quiser achar um pai amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses ateus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na morte como o tinham sido na vida. Ao expirar eles não esperavam a corôa celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto emprego dos seus últimos momentos.»

Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notáveis, um dos quais é christão, o outro não.

O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé religiosa com a elevação moral. O seu caráter é o mais próximo da perfeição. A religião era-lhe necessária: era a luz, ora a consolação dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas dócil; uma cortesia peregrina distinguia o seu comércio com os homens e com as mulheres, e, comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais delicada flor da cavaleria.

O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista teológico nem a comoção religiosa que constituiam um tão poderoso agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza Cândida e simples, um caráter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade; é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão dócil ás ordens da verdade como o patriarca antigo ás ordens do seu Deus.»


Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da autoridade moral de Tyndal, têm um caráter solene, quase sacerdotal. Deffinem exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da inteligência humana e mostram experimentalmente a existência de uma moral independente de toda a especulação teológica. Que fecunda tese para ser exposta e defendida diante de um auditório feminino no estado presente dos espíritos, em que as convicções do homem estão geralmente em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão necessário se torna portanto á harmonia moral da família o principio fundamental da conciliação das consciências!


Na reunião do último congresso dos obreiros de Lyon um simples operário mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo, tornando-os mais próprios do que quaisquer outros para serem escravisados pelos poderes clericais.

Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos crescem. Crescem em virtude de que lei?

Tal é a pergunta que o lavrador faz a si próprio. Sabe-se como lhe respondem aqueles que são encarregados de o instruir e de o educar. A noção que ele recebe acerca do modo como o trigo cresce torna-o fatalista e como tal facilmente suscetível de se deixar dominar e embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é ministrar-lhe a cultura intelectual de que ele carece. E o orador operário acrescenta:

«Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia crescer em outro tempo o trigo dos antigos egípcios. Agora é o deus de Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia em outro tempo. A ruína dos sucessivos templos e das sucessivas religiões em nada tem alterado as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de coisas: O índio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim vê nos seus o grande Todo. Em outros sítios é Budha. Para os gregos e para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.

«Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de acordo uns com os outros?... Respondeis-me que é impossível. É efetivamente impossível, o que é de certo uma desgraça! Esse porém é o facto histórico, que não podemos deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque sobre as questões que ele suscita tem sido derramado o sangue de muitas gerações.

«É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a legislação humana e a moral universal.»


Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de princípios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas perigosas e banidas das discussões publicas.

Debalde a historia da civilisação inglesa em este século nos demonstra que a tolerância absoluta na manifestação do pensamento é a primeira garantia da ordem na sociedade, que a máxima latitude na controvérsia das idéas mantem sempre os problemas dentro da esfera expeculativa, evitando assim que a orbita das aplicações praticas seja invadida pelos princípios que não foram de ante mão sancionadas na opinião e pelas reformas que ela não exigiu em nome de novas necessidades provenientes de um mais alto estado do espirito ou da consciência publica. Tal é o método que tem preservado a sociedade inglesa das perturbações graves que a impaciência dos reformadores, não experimentada na pedra de toque de uma discussão libérrima, lançou na vida pratica de outras nações, como sucedeu em França depois do segundo império, que corrompia todos os debates intelectuais, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocínio.

Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente estéril.

Quando as conferencias democráticas inauguradas na sala do Casino mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem nenhuma outra forma de processo suprimiu as conferencias.

Quando depois de isso alguns individuos suspeitos de ateísmo resolveram manifestar postumamente as suas idéas solicitando para os seus cadáveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por todos os meios ao seu alcance--meios tumultuários, ilegais, vexatorios--a vontade do ateu menos perigoso que se conhece,--o ateu morto.

Se nas escolas superiores se encontram professores beneméritos que expõem impunemente nas aulas das ciências naturais e das ciências físicas algumas doutrinas positivas, experimentais, estando por esse facto em desacordo manifesto com os dogmas e com as concepções teológicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia, a impunidade de esses professores, dizemos, não se deve atribuir á tolerância filosófica do poder. Ela é simplesmente o resultado--em este caso benéfico--da indisciplina geral dos serviços públicos.

Ha professores que afirmam princípios scientificos, exactamente como ha professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programas. Ha lentes que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo de ela:--por falta de inspecção e de policia.

Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é solidário nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam não sob o favor ou sob a tolerância dos governos, mas sim apesar da intolerancia que eles assumem e dos meios correctivos de que eles se armam.

Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos dignos pares o último projecto de lei sobre a instrução primaria!

Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores mais moços e mais instruidos de aquele sábio congresso:

«O sr. conde de Rio Maior (copiamos o extracto da sessão, publicado do Jornal do Comércio), não é adversário do desenvolvimento da instrução primaria, porque não deseja que continue a subsistir o estudo de ignorância do nosso povo, onde a proporção dos que sabem ler é de 1 para 25, enquanto na Alemanha, Holanda, Belgica, etc., é de 1 para 6. Mas não deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatório. Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os pais tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais próprio. Póde haver um individuo analfabeto mas que seja homem de ordem e temente a Deus, que não queira mandar o seu filho a uma escola cujo mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas maiores glorias, embora a instrução estivesse pouco difundida, a nação portuguesa atingiu um alto grau de prosperidade; não pretende dizer com isto que deixe de se derramar a instrução, porque também é apostolo de esta idéa, mas quer que essa instrução seja ao mesmo tempo moral e religiosa.»

A afirmativa de que a nação portuguesa atingiu um alto grau de prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, embora a instrução estivesse pouco difundida, é um erro de historia que o nobre conde quis cometer de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que não é pelo excesso de instrução em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior não podia realmente ignorar que o período mais prospero e mais glorioso da nacionalidade portuguesa, o período das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos, foi também o período da nossa maior cultura intelectual.

Esse período principia com o advento da dinastia de Aviz. Se o sr. conde quer achar a diferença que distingue esse tempo do tempo actual, compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragança.

D. João I era ao mesmo tempo um cavaleiro, um filosofo e um literato. Teve a honra de hospedar na sua côrte o grande pintor Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais eficaz ele só para formar a educação estética de um povo do que dez universidades e vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o último dos artistas celebres que recentemente veio a Portugal, o ilustre pintor Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da côrte portuguesa um dos seus fidalgos, que o chamou da janela do seu palácio, em Cascais, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter suposto, ao vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.

Dos filhos de D. João I um é o infante D. Duarte, o creador da primeira biblioteca que existiu em Portugal, o exímio literato auctor do Leal Conselheiro. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou as sete partidas do mundo, auctor da Vertuosa Bemfeitoria e um dos homens mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D. Fernando, o cativo de Fez, o que teve por secretario Fernão Lopes. O último finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas navegações, o fundador da chamada Escola de Sagres, o mais poderoso, o mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal é o senhor D. Augusto, conhecido de todos nós por o termos visto passar no Chiado e conhecido também em um hotel de Loudres, onde o príncipe se hospedou juntamente com dois dos mais notáveis productos da arte nacional, que o acompanháram e que fizeram grande impressão na City, onde os tomáram por duas vacas sem pernas. Eram os baús de sua alteza, feitos na rua dos Correeiros.

Da escola de Sagres saíram Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Fernando de Magalhães, Diogo Cão, Pedro da Covilhã, Gaspar Côrte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos exploradores. Foi da influenzia de eles e dos sábios que o infante D. Henrique e seus irmãos souberam atrair a Portugal, que procederam escritores como Fernão Lopes, Gomes Annes de Azurára, Gil Vicente, João de Barros, Damião de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camões, talvez o mais instruido e o mais sábio de todos os grandes poetas. Das escolas de hoje, a não ser por influencia de alguns professores precitos e apostatas que cometeram o sacrilégio de se libertarem do jugo oficial, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e que vão para administradores de concelho ou para amanuenses de secretaria.

No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente instruido. É certo que não sabia ler. Mas saber ler não constitue propriamente instrução, mas sim um dos meios de instrução. Ora o povo dispunha então de outros meios superiores á leitura. O marinheiro e o soldado educavam-se nas grandes viagens, os operários educavam-se na confecção das mais belas obras de arte, como o convento de Tomar, os Jeronymos, as capelas imperfeitas da Batalha, a torre de Belém. O povo de então não sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da Historia trágico marítima, o mais admirável, o mais belo, o mais dramático, o mais comovedor, o mais eloquente livro de que se póde gloriar a literatura de uma nação.

A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco difundida a instrução! E conclue de esse absurdo que um povo póde atingir a prosperidade sem sair da estupidez! Apesar de esta singular teoria e das acumuladas contradições do seu texto, em que s. ex.ª ora é apostolo da instrução, ora é apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior seria apenas inofensivo. S. ex.ª, porém, conclue a sua notável fala mandando para a mesa o seguinte additamento á lei que se estava discutindo:

O professor ou professora que no exercício do magistério primário ensinar ou inculcar doutrinas contrarias á religião católica, á moral, á liberdade e á independencia pátria será demitido nos termos de este artigo, independente da acção criminal que deva ser intentada. Os pais, tutores ou pessoas encarregadas da sustentação e educação das creanças podem requerer colectivamente ou individualmante contra o professor ou professora que tiver cometido as faltas indicadas em este artigo.

Eis aí o que se não admite, porque esta disposição legislativa proposta por s. ex.ª produz a fixação legal dos seus princípios a respeito da instrução, isto é: que deve haver instrução e ao mesmo tempo que a não deve haver. Não é outra coisa senão eliminar a instrução, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena de processo e demissão imediata do professor, aos princípios da religião católica. A Igreja abriu, em este século principalmente, um tão profundo abismo entre a concepção teológica e a explicação scientifica dos fenômenos do universo, que toda a conciliação é hoje impossível entre o mestre e o padre. Não duvidamos que o cristianismo possa ainda reassumir o seu antigo papel de sancionador supremo de todas as grandes e definitivas conquistas do entendimento humano. O que é certo porém é que a direcção reacionaria que ele tem recebido do pontificado romano desde a Reforma até hoje o inhabilita presentemente para realizar essa aspiração de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultâneo de esses dois interesses opostos é impossível. Pedimos licença ao sr. conde do Rio Maior para lho provar.

Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que é o diluvio universal, que lhe pergunta qual é a idade da terra, que lhe pergunta o que é o homem pre-histórico, o que são as florestas carboníferas, o que é o arco-iris, o que é o para-raios, o que é transformação das especies, o que é a Torre de Babel, o que é o Eden; suponhamos que o alumno faz ao mestre qualquer das centenares perguntas de este gênero faceis de formular acerca das afirmações da Biblia ou dos conhecimentos do homem. A essas perguntas o mestre não póde responder senão com o erro ou com a heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptáram a sua emenda á lei da reforma da instrução portuguesa desejam que o mestre responda pelo erro.

Mas isto é peior do que pôr de parte a sciencia; isto é, recebel-a para a contradizer e para a destruir; isto é converter a ignorância publica em uma instituição do Estado.

Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, á luz de uma lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguém disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu to ensino... E apagou-lhe a lanterna.

Quem foi que deixou no mundo esta lição?

Foi o teólogo.

Um povo ignorante é um povo em trevas, cuja lanterna é a instrução. O legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz é o sr. conde de Rio Maior.


Notemos porém um facto consolador:

O sr. conde de Rio Maior atesta sobre os teólogos que o precederam uma sensível diminuição de força. Ele mostra o ardor arrefecido e impotente de um velho sangue que se decompõe e se dessora. A idéa que ele tem no cérebro é uma idéa que se extingue.

Ha cem anos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira, para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissão do professor e o processo pelos tribunais civis.

Inclinemo-nos diante de tão manifesta mansidão!

Nos fins do século XVI o pendão da santa doutrina, um lúgubre pendão negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era então o professor idealisado pelo sr. conde de Rio Maior:era o homem de ordem, temente a Deus, argumentando a doutrina christã a este povo. Todas as mulheres e todas as creanças saiam ás portas a ajoelhar, sobre as imundícies, aos pés do tenebroso frade, que levava consigo a sciencia eclesiástica, amortalhada de negro, de cruz alçada, tangendo uma campainha, como quem leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os páteos da comedia, expulsava os comediantes, e subia ele mesmo ao tablado a explicar os diferentes modos porque se peca e os diversos métodos porque se mortificam os ímpetos da carne.

Ainda no século passado Pina Manique obrigava os professores a levarem os estudantes á missa, do que colhiam nas sacristias uma certidão sobre a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.

Hoje a parte disciplinar da nossa educação religiosa caiu com o pendão negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinária, resta apenas a cartilha de Padre Mestre Ignacio.

E é sobre essa cartilha solitária, em torno da qual caíram dissolvidas a uma por uma todas as energias sociais que a mantinham na altura de uma instituição civil, é sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um sábio legislador portuguez acompanhado de vários outros legisladores portuguezes egualmente sábios, procura reconstituir no ano de 1878 o ensino publico de uma nação!


Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as Farpas não cessam de elevar aos céus em todas as manhãs e em todas as tardes:

Meu Deus, tornae ridículos os nossos inimigos!

O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da instrução indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa oração. Aproveitamos a pausa para ir a Paris acender, em nome das Farpas, um círio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!

As Farpas

Sinopse

As Farpas, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, reúne em um único registro canônico onze fascículos integrais do Project Gutenberg, de 1873 a 1883, conservadoramente normalizados para PT-BR moderno.

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