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Capítulo 11 · As Farpas

1883 — Junho

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LISBOA, 25 DE MAIO DE 1883

SENHOR!

E' de interesse particular mas importantíssimo o assumpto que ora nos traz por meio de carta aos pés interinamente reais de vossa alteza.

O § 28 do artigo 145 do titulo VIII da Carta Constitucional da monarchia garante a todo o cidadão o direito de comunicar por escrito com o Poder Executivo, e é de esse direito que hoje tomamos a libertade de usar, ao abrigo da lei, aproveitando para tal fim o momento presente, em que vossa alteza é o chefe temporareo do sobredito Poder, como regente do reino na ausência em partes de Castela de seu augusto pai, El-Rey nosso senhor, que Deus guarde por longos e dilatados anos.

Senhor, ha obra de três para quatro meses que os papeis públicos nos deram a boa nova de que vossa alteza iria em breve completar o tirocínio da sua educação como príncipe, como cidadão e como ser vertebrado, correndo algumas terras e partidas do mundo, como o finado infante Sr.. D. Pedro, que Deus em sua santa gloria haja.

Por essa dacta, puzeram as folhas o dedo sobre os nomes de algumas pessoas, que vagamente se supunha virem a ser chamadas para acompanhar vossa alteza em sua peregrinação de estudo pratico através dos homens e das coisas da civilisação entre gentes extranhas.

Seguimos as indigitações da imprensa acerca do pessoal de essa embaixada pedagogica, e sorrimo-nos entre desdenhosos e galhofeiros, pois abrigavamos a convicção indestructível de que os redactores d'As Farpas eram os cavalheiros naturalmente indicados pela opinião publica e pelo consenso geral da côrte para a honrosa e árdua missão de que se tratava.

Efetivamente, Senhor, relanceando os olhos ao passado, e investigando, através do movimento politico e do movimento intelectual do século, quais as instituições nacionais a cuja campainha tenhamos de tanger para encontrar os varões comprovadamente aptos para se incumbirem no momento presente do honroso encargo de preceptores de vossa alteza, o que é que vemos?... Ou antes: O que é que vossa alteza vê? Porque, em nossa acrisolada modéstia, nós preferimos perante essa interrogação remeter-nos a um silencio discreto, ponere custodiam ori nostro, dar dois passos atraz, curvos e submissos, com os olhos no chão e os claques debaixo do braço, aguardando tranquilos o real veredictum de vossa alteza.

Vossa alteza, havendo por bem baixar sua serenissima vista sobre as instituições pátrias, vê para um lado as duas câmaras, a Sociedade Geographica, a Universidade de Coimbra e o salão da senhora D. Maria Kruz; e para o lado oposto, á outra banda, vê vossa alteza As Farpas, quarenta a cincoenta volumes de uma prosa divina, a 200 réis o volume, que será a mais bela, a mais pura e a mais duradoura gloria literária do século do felicissimo príncipe, augusto pai de vossa alteza.

Os literatos vindouros, chamados a ilustrar pelo lavor de suas penas o reinado de vossa alteza, procurarão á porfia imitar esta obra sublime. Porém de balde. Porque nada ha mais inimitável, pela afabilidade do trato sobretudo, do que o critico no estado benigno de morto. Seremos pois os clássicos da língua, nós outros, para esse tempo. Seremos os Vieiras e os Bernardes do ciclo do rei Luiz, o venturosissimo. As academias archivarão, como preciosas relíquias, a lanterna e o bordão nodoso com que atravessamos a vida espargindo sobre a terra a luz e as pisaduras. Vossa alteza, octogenário, coroado de cãs, porá os seus reais óculos para nos ler aos seus netos, aos quais vossa alteza dirá, batendo com os nós dos dedos sobre a nossa obra amarelecida e veneranda:

--O velho rei Carlos foi tão bom e tão prasenteiro rei como o príncipe seu progenitor, mas faltaram-lhe Curcios e Livios de esta laia para o immortalisarem no eterno jubilo das gentes!

E vossa alteza soluçará de saudosa magoa sobre as cabeças infantis da sua prole, considerando-se um monarcha desditoso por que na vasta perspectiva do seu reinado lhe faltou a projecção grandeosa de esta obra catedralesca.

Queira vossa alteza ir sempre seguindo, por partes.

Que é que as duas câmaras do parlamento têm botado durante o decurso dos últimos quinze anos em beneficio da educação de vossa alteza ou da educação de alguém que seja em este mundo?

Nada, serenissimo senhor! pela palavra nada!

Hade ter constado por certo a vossa alteza o que eles ainda ultimamente fizeram com um projecto de lei sobre a instrução secundaria, o qual Tomás Ribeiro, esse bem-quisto vate, ministro de vossa alteza e porta-alaúde da sua côrte, arrancou a ferros das entranhas da musa para o mandar para a mesa como uma especie de gêmea administrativa da Delfina do mal.

Como vossa alteza não era a esse tempo regente soberano do reino, e se achava ainda então sob o domínio da autoridade paterna, não sabemos se lhe teriam permitido a leitura de esse debate...

Foi uma coisa enorme, respeitável senhor!

Um queria que lhe abolissem o latim, lingoa morta e má lingoa, sevandijada de verbos exquisitos, como sum-es-fui e outros que tais; e em substituição pedia disciplina psychologica, que era para os rapazes ficarem bem ao facto da alma humana. E voltando-se para a meza, o orador berrava:

--Eu cá, Sr. presidente, não me importa com Tito Livio, nem me importa com ninguém em este mundo. Alma e mais alma para cima do alumno, que é do que os rapazes precisam para ir para leis!

Outro queria religião, porque sem religião o que é o homem? O homem sem religião é, com licença, um bruto. E citava Renan que fora visinho de ele em Paris e que não era bruto. Porquê? Porque tinha temor de Deus,--de noite, ás escondidas, em casa. O orador soube-o pela porteira do prédio.

Houve um deputado que insistiu em que se afastasse o publico dos liceus, porque muita canalha junta não aprende nada. Um menino até dois é o dado para os mestres todos se concentrarem e fazerem uma educação capaz.

Houve mais um que pediu institutos de instrução secundaria para a mulher, pela rasão de quê, segundo ele, se tornava mister que a mulher, que é já a rosa, fosse também o perfume. Textual!

E houve ainda um outro que, abundando nas ideias do precedente, exclamou enternecido, com os olhos em alvo: É indispensável, Sr.. presidente, que os dois sexos, o masculino e o feminino, caminhem na senda do futuro ao lado um do outro, de mãos dadas. Egualmente textual!

Emfim, ao cabo de vinte dias de discussão, a decência obrigou a agarrar no projecto pelas orelhas e a leval-o de rastos para a camara dos pares; mas como esta camara o não quis por coisa nenhuma do mundo, o ministro das Flores de alma, e do Reino, levou-o para casa no louvável intuito de o pôr em verso. E consta agora que o vão aproveitar sob a forma de magica no teatro de D. Maria.

Logo depois da instrução publica não viu vossa alteza como eles pegaram em uma questão de arte?!...

Lembra-se um de falar no leilão do diplomata Zéa Bermudez, o qual reunia ás qualidades do mais excelente homem uma pequena coleção de arte com quatro potes etruscos.

Ao ouvir falar pela primeira vez durante toda a sua longa carreira parlamentar em quatro potes etruscos, a camara e o governo embasbacaram por um momento, mas recahindo imediatamente em si com maravilhosa presença de espirito, camara e governo menearam as cabeças familiarmente, como se cada um dos legisladores não tivesse feito desde muito pequeno outra coisa senão jogar a púcara com potes de esses.

Houve um assentimento geral na assembleia, e os gestos e as vozes exprimiram com unanimidade:

--Oh! sim!... os potes etruscos... conhecemos perfeitissimamente!

--O paiz, Sr. presidente, não pode consentir que preciosidades de tão inestimável valor artístico saiam do reino para ir enriquecer os museus extrangeiros!...

--Appoiado! apoiado!--opinou o Sr. presidente do conselho, convicto e subitamente iluminado pela providência como um vidente da Etruria em potes.

E a camara em peso, por todos os votos menos um, votou um credito suplementar de 5 contos de réis. Para quê, senhor? Para proteger a arte nacional, que nem tem escolas, nem mestres, nem discípulos, nem modelos, nem livros, nem coisa nenhuma, além do Sr.. conde de Almedina, e a qual a camara, ao cabo de vinte anos de esquecimento ou de desdem, se lembra de patrocinar afinal com 5 contos extraordinarios! Cinco contos por quatro cacos feiissimos, meu rico senhor!... por quatro potes, que uns dizem que foram feitos em Pompeia, e outros que foram feitos nas Caldas antes da vinda de Cristo, e que, em todo o caso, admitindo-se mesmo que houvessem sido feitos ha muito mais tempo e muitissimo mais longe, só seriam de alguma utilidade aos artistas se lhos dessem cheios de compota de marmelo ou de conserva de pimentos com cenouras!

Tal é a camara, ó serenissimo príncipe!

E a Geographica pode vossa alteza crer que é outra que tal. A sabia corporação da rua do Alecrim não passa de um parlamento como o de S. Bento, com a diferença de que, em vez de ser electivo, é de assinatura, a cinco tostões por mez, e em ele a retórica é consultiva em vez de ser deliberante. É a camara ou a ante-camara dos aprendizes a deputados e a ministros; é o vitelo mamão de que a representação nacional é o boi gordo.

Na primeira quinta feira de despacho digne-se vossa alteza ordenar que o trinchante mór da real casa lhe raspe bem raspado um dos seus ministros e lho sirva sem casca: aí está o geografo.

Encasque-se o geografo: eis aí o ministro.

Sobre a Universidade corramos o véu da pudicícia. O mesmo governo, considerando recentemente a influencia deslumbrante que esse luminoso foco do saber exercia sobre a imaginação da mocidade, deliberou com prudencia aplicar-lhe um apagador. A respeito de ensino--disse em portaria o Sr. ministro do reino ao reitor de aquele instituto de instrução--o melhor é pôr-lhe ponto. E assim se fez, com regosijo e aplauso geral dos doutos.

Resta-nos o drawing-room da senhora D. Maria Kruz.

Este centro intelectual está indubitavelmente acima de todos os outros e exerceu na educação nacional uma influencia doce e benéfica. É certo que durante muitos anos foi pela escada tapetada da Abbaie aux Bois presidida por essa dama, e não pelos degraus sórdidos da sociedade geográfica, que os literatos, com algum stylo e pera, iam a deputados e iam a ministros.

A esta intervenção senhoril, que por algum tempo deu á politica portuguesa uma leve atmosfera de delicadeza e de graça, um fugitivo odore di femmina, se deve o acordo que se fez em alguns caracteres entre a avidez das ambições e o respeito pelas escovas de unhas.

De resto ha para todos os efeitos uma diferença considerável entre o entrar na vida dando o braço a uma senhora, e o entrar levado em charola pelo Sr. Pequito e pelo Sr. Luciano Cordeiro.

A senhora D. Maria Kruz abdicou porem ha muito tempo da influencia da sua amabilidade perante o prestigio politico de esses dois geógrafos fura-vidas, e contenta-se hoje em oferecer á sua antiga côrte a amisade, a conversação e o chá das suas quintas-feiras.

Toda essa gente, no fim de contas, se tem importado tanto com vossa alteza como com minha avó torta. Ao passo que As Farpas desde o primeiro dia da sua existência até hoje jamais desfilaram os olhos desvelados e respeitosos dos interesses da real família, em geral, e muito em especial dos de vossa alteza serenissima.

Era vossa alteza um babi, da altura de uma bengala, quando seus ilustres pais, vilmente iludidos por indignos conselheiros, apareciam com vossa alteza nos sítios públicos apresentando-o aos povos em traje de mascara, já de coronel de comedia, já de tabelião de entremez.

De uma vez levaram-o ás corridas de cavalos vestido de funcionário publico: calça até abaixo, apolainada em cima dos botins apiorrados, jaquetão, colarinho alto, chapéu redondo, grilhão de ouro no relógio e luva branca. Vossa alteza poderá fazer uma ideia da figura que estava dignando-se de olhar por um binoculo ás avessas para o prior da Lapa. Era aquilo em louro, sem a corôa e sem o anel litúrgico.

As Farpas protestaram com energia, clamando em stylo veemente que vossa alteza tinha direitos inilludiveis a não ser confundido por meio dos nefandos artifícios do algibebe da côrte com um padre pequeno. Que vossa alteza era o herdeiro presumptivo de um sceptro; nunca o de um cachucho de pregador! Que mais nobre do que essa vestimenta seria a pura nudez com a decência apenas garantida pela antiga folha de vinha ou por um simples filoxera.

As Farpas aconselharam que vestissem vossa alteza sensatamente, de flanela, meias de lã, knickerbokar, blusa, colarinho chato, e sem luvas.

Hoje, que vossa alteza é um homem, deixamos ao seu juízo emancipado o decidir quem tinha razão: se os áulicos conselheiros da guarda-roupa de vossa alteza, se nós, seus criticos.

Mais tarde quando vossa alteza penetrou nos domínios da instrução secundaria, e que de Coimbra foi chamado por cartas regias o mestre de hebraico Joaquim Alves Sousa para o fim de vir ler a vossa alteza Logica e Retórica, As Farpas apoderaram-se solicitas e velozes de esse sapiente caturra, e provaram por meio de argumentos irrespondiveis que era abusar da submissão de um jovem príncipe, inocente e ingenuo, o pôr defronte de ele, sob o pretexto de o instruir, esse agoirento mocho, pilhado na lobrega escuridão da metafísica universitária, e posto na Ajuda, com a borla doutoral a um lado e o comedouro do rapé ao outro, a explicar as regras do entimema, do epicherema e do sorites, e bem assim o emprego da synedoche, da antonomásia e da catachrese.

Apesar de todas as nossas objecções, esse nefasto humanista amargurou os dias preciosos de vossa alteza, procurando cavilosamente fazer-lhe acreditar que o epicherema era tão indispensável ao homem como o próprio pão.

Se tinhamos rasão ou não sabe-o hoje muito bem vossa alteza, que é homem ha uns poucos de anos sem ter precisado nunca até hoje nem do epicherema nem do sorites nem de coisa alguma de aquelas com que por tanto tempo o estopou, sem proveito para ninguém, esse semsaborão tremebundo, seu mestre.

Quando foi da nomeação do Sr. conselheiro Viale, do Sr. Martens Ferrão, do Sr. Santa-Monica, As Farpas intervieram de novo, constatando que a educação de vossa alteza não era precisamente a piscina da pudica Susana, para assim a rodearem em grupo mythologico de todos os velhos bar-baças aposentados da magistratura e da academia.

Os resultados confirmaram quanto por essa ocasião predissemos. Os pedagogos de vossa alteza educaram-o dentro da virtude mas fora da natureza, fazendo de vossa alteza uma especie de rosière de Nanterre, cuja vida tivesse por fim servir de assumpto a um romance coroado pelas sociedades sabias e destinado a conferir-se em premio de animação ás engomadeiras virtuosas.

Conhece vossa alteza a Educação de um príncipe, de Edmond About? Recomendamos-lhe com empenho a leitura de essa obra tão importante aos príncipes como o próprio livro de Machiavel.

Em lição digna das nossas mais graves meditações, About mostra-nos a trágica situação do príncipe Paulo no primeiro dia do seu noivado.

É alta noite. Findaram as festas do himeneu em palácio. O monarcha agradeceu em um bem elaborado speech as manifestações gerais do regosijo da côrte por ocasião do feliz consorcio do príncipe herdeiro, aplaudindo incondicionalmente as danças e as cantatas, e queixando-se apenas de pouca pimenta nos molhos mediocremente incendiários do real banquete. Os músicos, desencanudadas as flautas, metido o rabecão na caixa, e confiados os timbales ao moço da real capela, haviam-se retirado a seus tugúrios. Os áulicos resonavam enconchados nos catres da regia mansão. E o comandante da companhia dos vivas, incumbido, mediante a esportula de 3:200 e jantar, de fazer de Povo nos dias de gala, havia terminado os seus trabalhos; o rei, com sua natural afabilidade, havia-lhe dito comovido, batendo-lhe no hombro e metendo-lhe na mão os 3:200: Obrigado, meu povo! e ele, com o vozeirão restaurado por duas gemadas, partira á pressa para ir levantar os vivas á República em uma manifestação de província para que estava escripturado.

Tudo pois era silencio e trevas no régio alcáçar, quando o monarcha se ergueu, de chambre e chinelas, no louvável intuito de espairecer dos duros encargos da publica governação espreitando um momento pela fechadura da porta da camara nupcial do príncipe Paulo e da princeza Margarida. em isto, ao atravessar na escuridão o salão de baile, mudo, apagado e deserto, catrapuz! Era o rei que ia de corôa para baixo e de chichelos ao ar por cima de um fauteil, encambulhado em um homem que dormia sentado ali assim. Gritos de pavão do monarcha aterrado, e cortezãos em ceroulas que chegam com luzes. Descobre-se que o rei cahira por cima do príncipe real, que estava noivando sosinho em uma cadeira com o chapéu de bicos na cabeça, abraçado á espada dos reis seus avós.

--Que faz você aqui, seu estupido?--lhe perguntou o monarcha com voz acre.

--Eu nano--respondeu o príncipe sorridente e doce.--Como a princeza Margarida me disse que ia nanar para a sua camara e como eu agora não tenho camara para nanar, vim nanar para esta cadeira.

--Chamem os mestres de sua alteza!--bradou o rei iracundo, com um galo na testa e com os braços cruzados no peito.

Um momento depois, como os três pedagogos comparecessem á real presença, enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com as competentes penas de pato aparadas da véspera e metidas atraz das orelhas, o rei disse-lhes:

--Esse jumento que aí está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um largo gesto antigo indicava o príncipe, vestido de general, de esporas e chapéu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados) esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de um príncipe para com a sua princeza. E é para isto que eu tenho tido aqui á engorda durante quinze anos três burros de três mestres!... Ora muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relógio, ele não estiver ao facto de aquilo que todo o homem de barbas na cara deve saber para não vir para aqui a estas horas nanar em uma cadeira, decapito-vos a todos três esta noite como quem decapita pelo entrudo três perus gordos e emborrachados!

Uma vez a sós com o real alumno, os três pedagogos cahiram em desfeito pranto nos braços uns dos outros, porque nenhum de eles sabia nem se lembrava de haver jamais lido nos auctores coisa alguma relativa aos deveres mais rudimentares dos príncipes para com suas princezas.

Quando vossa alteza se dignar de passar um exame sobre esta matéria aos seus pedagogos, pedimos, senhor, e ousamos esperar da vossa clemencia, que a pena última lhes seja comutada.

Piedade, príncipe, piedade!

Quer vossa alteza mais provas da desinteressada solicitude com que As Farpas têm sempre velado com diurno e nocturno olho sobre o prestigio de tudo quanto mais diretamente se relaciona com a sua pessoa, com a sua família, com a sua côrte?...

Compulse vossa alteza essa coleção immarcescivel e a cada momento encontrará em ela os conselhos mais amigaveis e mais justos, sobre as maneiras, sobre a toilette, sobre a linguagem, sobre a etiqueta do palácio; acerca dos discursos da corôa, dos uniformes, das librés, dos cavalos, das carruagens, dos bailes, dos jantares, das viagens, das caçadas, das recitas de gala, das revistas militares, etc.

Quem foi que mais ardentemente pugnou para que não pegasse a vossa alteza e a seu augusto irmão a alcunha piegas dos cabeças louras e dos louras creanças, que lhes puzeram os noticíaristas?

Quem mais do que nós se esforçou em obstar que sua majestade a rainha cahisse, sob a antonomásia de anjo da caridade, nos logares comuns da retórica sórdida de procissão e do fogo preso, de bambolim de murta e de peixe frito?...

Não faremos a vossa alteza a injúria de o supôr assaz destituido de bom gosto para não comprehender quanto a notoriedade, levada até esse ponto de incontinencia, melindra e emurchece aquela delicada e fina flor do recato, que é a mais bela joia das princezas que bebem silenciosamente e heroicamente a vida na obscuridade inviolável, como a imperatriz da Alemanha, por exemplo, ou a imperatriz do Brasil.

Por todos estes títulos julgavamos nós ter a certeza de ser os individuos chamados a acompanhar vossa alteza na sua viagem de instrução.

Quando ultimamente lemos nas gazetas os nomes dos snrs Antônio Augusto de Aguiar e Martens Ferrão, em vez dos nossos, aquele que escreve estas linhas telegrafou a Eça de Queiroz nos seguintes termos:

Eça de Queiroz--Lawrence's Hotel--Cintra. Diga se recebeu rei convite ir extrangeiro príncipes, e se vai.

E recebemos a seguinte resposta:

Ramalho Ortigão--Caetanos--Lisboa. So recebi Alberto Braga convite ir Colares burros, e não vou.

Havieis-nos pois lançado a ambos ao ostracismo... Maldição e prudencia!

O preclaro major Quillinan, que tão galhardamente defendeu ha pouco a honra nacional publicando no Morning-Post uma bisca contra o detestável Brigth, anuncia agora e faz publico que, visto o governo de sua majestade fidelíssima não haver prestado a consideração devida ao feito aludido, ele, major Quillinan, não mais volverá a socorrer-nos nas moléstias de Brigth. Brigth tem de ora avante o rim da gente ás ordens. Tripudie sobre ele a capricho, que o major Quillinan dá licença! A camara dos commus pode desde hoje beber-nos o sangue á vontade, que o bebe por conta do lavrador.

Regala-te para aí, ó víbora sedenta!

Nós porém, senhor,--como se diz na «Vie Parisienne»--não somos esse major.

Vamos pois dar a vossa alteza em este momento decisivo e solene os derradeiros conselhos que a nossa dedicação a vossa alteza nos inspira, para que a todo o tempo se não diga que um mesquinho despeito nos reduziu em esta suprema contingencia a um silencio criminoso, sarocoteando-nos cinicamente no vil mutismo, como dois peixes vermelhos dentro de uma redoma cheia de água, enquanto vossa alteza caminha para o abismo, levado ao extrangeiro, como quem leva uma retorta, pelo nefando chimico Sr. Antônio Augusto de Aguiar.

Fomos vilmente preteridos--é certo--por esse cavalheiro... Um chimico, senhor! um perfumista desaproveitado! um baldroqueiro de drogas! um troquilha de líquidos de laboratório, nojosos e peçonhentos! Além de isso, um gordo descomunal, um gordo inverosimil! um de estes gordos que não passam ás alfandegas sem que as apalpadeiras venham e lhe ponham o visto! um gordo que vai alarmar a Europa, e que vossa alteza, em justa satisfação da curiosidade dos povos, se ha de ver forçado a exhibir á avidez do publico na feira de Saint-Cloud ou na feira au pain de epices, a dois sous por cabeça. Ele, do alto de um estrado, dirá á França:--Messieurs! je suis jeune fille, je suis née à Marseille, j'ai seise ans, je pèse 150 kilos, tatez mon mollet, S.V.P!

E vossa alteza, de casaca e gravata branca, piscando o olho ao povo, com malicia, terá de acrescentar:

--Il em y a pas de coton là dedans, messieurs!

Ele demais a mais usa uma luneta forrada de cautchu...

E é este homem que vai ser o real olheiro de vossa alteza através do que ha que ver por esse mundo!

Um olheiro, de galochas de borracha na vista!

Um olheiro que vai para ver tudo e que a si mesmo se não viu nunca senão até metade do ventre, porque da outra metade até os pés principia para o seu raio visual o hemisfério do grande indecifrável, do eterno incognoscivel!

Que, pela nossa parte, tome vossa alteza nota que não pretendemos sensurar ninguém! Uma vez que os pais de vossa alteza decidiram que esse cavalheiro nos devia substituir para o acompanhar, nós não temos que dizer senão que vai muito bem acompanhado. Vai lindo! Não haja dúvida nenhuma que vai perfeito!

E todavia é possível que o venerável sábio venha a abusar um pouco do algebrismo technico da sciencia que tão gloriosamente professa e que, quando vossa alteza o consulte sobre o menu da sua ceia no café Anglais ou sobre o governo do seu cob na Avenue des Potins, ele lhe responda pela fórmula KO+2S0³, ou KO,2S0³, a qual fórmula não é precisamente a da elegância mais garantida, posto que seja, sem questão alguma, a do bissulfato de potassa.

Antes de entrarmos agora na ordem dos conselhos que o nosso mister de criticos nos impõe o dever sagrado de ministrar a vossa alteza, consideremos por um momento o estado presente da educação que vossa alteza vai concluir na sua próxima viagem.

Um jornal insuspeito, o Comércio de Portugal, resume o programa de essa educação no seguinte quadro:

«Conhece o príncipe o latim, francês, inglez, italiano, alemão, espanhol, e estuda o grego. Faz com muito aproveitamento o curso de humanidades; tendo aí principalmente alargado os estudos sobre a historia universal e pátria. Estuda um curso regular de ciências naturais e matemáticas. Nas ciências sociais, que pode-se dizer constituem a SCIENCIA DO GOVERNO para um príncipe, o curso de disciplinas seguido por sua alteza tem sido o seguinte, que indicamos mais desenvolvidamente por entendermos que muito interessa saber-se.

Começou pelo estudo aprofundado da filosofia, especialmente dirigido para o estudo superior da filosofia do direito.

Em 1878 começou os estudos de filosofia racional e moral, e historia sistemática da filosofia.

Preparado assim, começou em seguida o estudo de direito natural ou da filosofia do direito. Passou depois a estudar o direito publico interno e politico;--direito constitucional portuguez; e historia tanto antiga como moderna das instituições politicas da nação; organisação da administração publica em Portugal nos seus diferentes ramos; leitura e explicação do código administrativo e das leis eleitorais.

Estudo comparado das instituições politicas das principais nações cultas e analise de seu sistema eleitoral.

Parallelamente e em lições alternadas, sua alteza seguiu o estudo sistemático da historia do direito publico da Europa, seguindo como base a notável obra «Le droit public et l'Europe moderne,» do Vicomte Lagueronière.

Estudos dos principais tratados porque foi alterada a carta e a organisação politica da Europa desde os tratados de paz de Vestfália até a actualidade.

Estudo dos trabalhos do conde de Cacour sobre a organisação do reino de Itália, e da correspondência diplomática mais importante sobre os grandes acontecimentos políticos contemporâneos, seguindo esse estudo pela excelente coleção dos ARCHIVES DIPLOMATIQUES .

Estudo dos principais tratados diplomáticos de Portugal com a Inglaterra; tratado de Bombaim 1661; tratado de Metwen 1703; tratados de aliança e de comércio de 1810; tratados da quadrupla aliança 1834; tratados para a repressão do trafico de 1817 e 1822, e tratado de comércio de este mesmo ano.

Terminado o estudo especial do direito publico interno, e paralelamente ainda com o estudo das disciplinas, que ficam indicadas, começou sua alteza a estudar o curso de Direito Publico Internacional, segundo uma introducção dos princípios, que dominam este ramo importante da sciencia do direito, e da teoria das nacionalidades, seguindo depois o estudo especial sobre o DROIT INTERNACIONAL CODIFIÉ, de Bluntschli, 1880.

Sua alteza está ainda cursando estas disciplinas.

Em maio de 1872, começou sua alteza conjuntamente com o estudo do direito publico internacional o curso de economia politica, seguindo especialmente o TRAITÉ de ECONOMIE POLITIQUE SOCIAL, de Joseph Garnier (1880), comprehendendo muito especialmente o estudo do sistema fiduciário nas diferentes nações, e dos caminhos de ferro e canais, como meios econômicos.

Actualmente em seguimento á economia politica, estuda a sciencia de fazenda segundo o TRAITÉ DES FINANCES, de Joseph Garnier (1883) com aplicação á organisação de Portugal.

Para complemento do plano de estudo de ciências sociais, que foi adoptado ainda faltam outras disciplinas. em esse estudo, e nos outros, continuará sua alteza finda que seja a sua viagem.

Com lições de duas horas, e com uma exacta aplicação, o príncipe tem podido vencer os estudos difficeis e variados, que ficam indicados.

Assim educam os reis de Portugal os seus filhos.»

É claro que estas informações procedem diretamente do paço. Tudo o comprova: as datas, os títulos dos compêndios e as suas edições, a ordem detalhada dos estudos, as horas de lição, etc. Estamos por tanto em frente de um testemunho autentico, de um documento histórico.

Analysemol-o.

Vossa alteza é bastante moço ainda e bastante robusto para que o seu cérebro haja resistido ás influencias de esse regímen aniquiladôr de toda a inteligência.

Note pois vossa alteza, em primeiro logar, a lingoa de preto em que está redigida esta exposição.

Para dizer uma coisa tão simples, o stylo do mestre de vossa alteza rabeia na confusão mais contorcida e mais comichosa, em lucta com a pobresa de um vocabulário estreitissimo, de creada de servir. Começou pelo estudo aprofundado... Depois começou os estudos de filosofia... Começou em seguida o estudo do direito... Parallelamente seguiu o estudo sistemático... seguindo como base, etc. Mas, Deus piedoso! isto não é escrever, isto é coçar-se. Quem não pode exprimir-se melhor é que vai ter furúnculos, e não deve escrever, deve tomar salsa parrilha.

Para julgar um tal plano de estudos, basta que vossa alteza um dia, ás escondidas de esses senhores, abra um livro de um pedagogista, seja qual for. Em qualquer artigo de enciclopédia vossa alteza lerá, de resto, que o fim da educação é preparar o homem para a mais perfeita felicidade de ele mesmo e para a felicidade dos seus semelhantes em virtude da sua adaptação mais fecunda ao meio físico, ao meio econômico, ao meio politico, ao meio estético, ao meio moral. Na parte relativa aos conhecimentos, ou á instrução propriamente dita, a educação tem por objecto fazer-nos conhecer as manifestações ou os fenômenos do universo, principiando naturalmente por estabelecer as diversas categorias em que esses fenômenos se dividem. O catecismo da doutrina do real, (citamos o que ha de mais elementar), reduz sucintamente todos os fenômenos que a educação tem por fim submeter á nossa investigação ás seis ordens seguintes:

1.--Os fenômenos da quantidade, da fórma, da extensão e do movimento, ou fenômenos matemáticos.

2.--Os fenômenos do movimento dos astros, da sua dimensão, das suas distancias respectivas etc., ou fenômenos astronômicos.

3.--Os fenômenos do calor, da luz, da eletricidade, do magnetismo, da acústica, ou fenômenos físicos.

4.--Os fenômenos de combinação e de decomposição, ou fenômenos chimicos.

5.--Os fenômenos próprios aos seres vivos, ou fenômenos biologicos.

6.--Os fenômenos do desenvolvimento das sociedades, ou fenômenos sociais.

Entre estas diversas ordens de fenômenos ha uma correlação de dependência sucessiva. De sorte que se não podem conhecer os fenômenos da 6.ª categoria sem conhecer as da 5.ª; não se podem conhecer as da 5.ª sem conhecer as da 4.ª; e assim por diante.

Não se aprende a astronomia e a física terrestre sem noções matemáticas. Não ha chimica sem uma constituição anterior da física. Não ha fenômeno vital que se comprehenda sem o conhecimento prévio da síntese chimica. Não ha finalmente facto social que se defina scientificamente sem o conhecimento da síntese biologica.

As ciências cujas leis regem os fenômenos dos diferentes grupos a que nos referimos acham-se hoje constituidas e chamam-se as ciências fundamentais.

Cada uma de estas ciências se estuda por um método que lhe é privativo e a que corresponde o desenvolvimento progressivo das nossas faculdades. Assim o método das matemáticas é o do raciocínio por deducção; o da astronomia é a observação; o da física é a experiencia; o da chimica é a analise; o da biologia, assim como o da antropologia, ou biologia aplicada ao homem, é a comparação; o da sociologia é a observação critica e a filiação histórica.

A enunciação de esta ordem hierárquica dos conhecimentos deve-se a Augusto Comte; e esta é a parte da doutrina de esse poderoso renovador da mentalidade humana que ninguém até hoje discutiu nem contestou nas grandes linhas gerais. Esta methodisação é tão clara, tão consistente e tão fecunda, que não ha hoje systematisador que a não adopte como a mais segura das chaves para a coordenação das ideias.

Enquanto á aplicação de este principio á educação diz Spencer:

«Que na educação se deve proceder do simples para o composto é uma verdade sobre a qual em certa medida todos se fundam. O espirito desenvolve-se. Como todas as coisas que se desenvolvem, ele progride do homogêneo para o heterogêneo; e como um sistema normal de educação é a contraposição objectiva de essa marcha subjetiva, deve conter a mesma progressão. Esta formula assim interpretada tem um alcance muito maior do que á primeira vista parece; porque o seu principio implica não somente que temos de proceder do simples para o composto no ensino de cada um dos ramos da sciencia, mas que outro tanto devemos fazer com relação ao conhecimento total. Como o espirito não começa por dispôr senão de um pequeno numero de faculdades activas, e que as faculdades desenvolvidas mais tarde entram sucessivamente em acção até chegarem a funcionar todas simultaneamente, segue-se que o ensino não deve abraçar primeiro senão um pequeno numero de objectos, sucessivamente acrescentados até que se comprehendam todos. Não é somente na especialidade que a educação deve proceder do simples para o composto, é também no conjuncto.»

Em seguida Spencer acrescenta, de acordo com todos os pedagogos modernos, que a educação da criança deve concordar no modo adoptado e na ordem seguida com a educação da humanidade considerada historicamente. A gênese da sciencia no individuo não póde seguir uma marcha diferente da gênese da sciencia na raça. E em este ponto Spencer invoca o nome de Comte e curva-se respeitosamente diante de ele, porque a ordem positivista dos estudos corresponde exactamente á evolução dos conhecimentos na humanidade, a qual principiou por investigar os factos cosmologicos e inorganicos mui longo tempo antes de atender ás leis biográficas e á vida histórica da especie.

Vejamos agora á luz de estes princípios como os pedagogos de vossa alteza regularam a distribuição dos conhecimentos que foram incumbidos de ministrar-lhe.

Sua alteza--diz a informação que analisamos--começou pelo estudo aprofundado da filosofia.

Esta simples proposição inicial basta pelo seu profundo alcance patológico para sobre ela se diagnosticar a inépcia verdadeiramente trágica que presidiu á educação intelectual de vossa alteza.

Principiar pela filosofia!!

Mas a filosofia é precisamente a última das coisas que se ensinaria a um homem, se a filosofia fosse coisa que se impuzesse a alguém pelo dogmatismo dos mestres.

O que é uma filosofia senão um sistema de leis, deduzidas pelo espirito de cada um da confrontação das causas e dos efeitos dos fenômenos físicos e dos fenômenos Morais, e destinadas a fazer-nos prever, á mais longa distancia da nossa comprehensão pessoal, o destino do homem no grêmio da sociedade e no seio da natureza?

Como é pois que alguém emprehende criar um filósofo de um menino de instrução primaria, fazendo-o systematisar pelas altas e subtis correlações de causa e efeito um conjuncto de fenômenos, que ele nem sequer conhece na sua funcionalidade concreta, quanto mais na abstracção psychologica de fim e de origem?

O principio fundamental de todo o sistema de educação e de ensino é--como já vimos--que, sempre e invariavelmente, se proceda dos factos particulares para as leis gerais e das leis gerais para as leis de aplicação.

Como é então que a vossa alteza ensinaram leis de aplicação sem o conhecimento prévio das leis gerais e sem o conhecimento anterior dos factos particulares?

Que especie de filosofia é esta que vossa alteza aprendeu, tão extranhamente e tão miraculosamente como poderia ter aprendido a leitura sem o conhecimento das letras ou a aritmética sem a noção dos números?...

É a instauratio magna de Bacon? É o ceticismo sistemático de Descartes? É o metafisismo de Hobbes e de Leibnitz? É o deísmo de Locke ou o de Voltaire? É o sensualismo de Spinosa ou o de Condillac? É o ceticismo de Berkeley? É o materialismo de Holbach ou de La Mettrie? É o enciclopedismo de Condorcet? É o sentimentalismo de Rousseau? É o idealismo de Kant e de Hégel? É o pessimismo de Hartmann e de Schopenhauer? É o eclectismo do Sr. Cousin? É o revolucionismo de Proudhon? É o objectivismo de Stuart Mill e de Herbert Spencer? É o evolucionismo de Darwin? É o positivismo de Comte ou de Littré?

A informação que tão oportunamente baixou da aula de vossa alteza á redacção do Diario de Portugal arranca o nosso espirito perplexo a esta cruel dúvida.

Diz-nos esse papel precioso que a filosofia que vossa alteza aprendeu é a filosofia racional e moral.

Ora, como vossa alteza talvez sabe, todo o termo afirmativo implica a negação de um termo contrario. Assim quem diz uma filosofia objectiva ou uma filosofia materialista, dá a perceber de esse modo que ha uma filosofia subjetiva e uma filosofia espiritualista, mas que não é de essas que se trata.

Os pedagogos de vossa alteza, insinuando-lhe que é racional e moral a filosofia que lhe ensinam, deixam entender que ha também uma filosofia imoral e uma filosofia irracional, oposta a essa. É triste o pensar que vossa alteza está desde de 1878 a estudar uma coisa que se converterá em um sistema de irracionalidade e em uma doutrina de desmoralisação desde que vossa alteza se dê ao ligeiro trabalho de virar pelo avesso a tal coisa que lhe ensinaram.

O programa que tem regulado a instrução de vossa alteza acrescenta que vossa alteza tem estudado essa filosofia na direcção do estudo superior da filosofia do direito, e que assim preparado começou em seguida o estudo do direito natural.

Perante uma tão espantosa afirmativa deitamos abaixo das estantes todos os livros de «direcção filosófica» desde a mais remota antiguidade até os nossos dias.

Interrogamos avidamente as tradições egípcias do tempo das dinastias pharoonicas, contemporâneas das piramides e anteriores de quatro mil anos á era de Cristo, os vestígios que restam dos papyrus do Ritual funerário e do Livro dos mortos.

Interrogamos quanto se sabe ao presente da passagem no tempo e no espaço da filosofia chineza do Y-King e do Chou-King.

Inquirimos também, posto que com mais reserva, bem entendido, quanto se deslinda para a especulação filosófica dos mitos e dos emblemas indecentes das religiões e das liturgias fálicas da Chaldea e da Syria.

Relemos com olho pressuroso, e manuseamos com mão nervosa e ligeira tudo quanto o Sr. Vasconcellos Abreu tem feito a mercê de nos comunicar a respeito dos sistemas filosóficos e mais sistemas dos Aryas.

Consultamos Tales de Mileto e Democrito, Socrates e Platão, Aristóteles, Zenon e Epicuro, Pomponacio e Averroes, todos os escholasticos, todos os platônicos, todos os peripatéticos, todos os epicuristas, todos os panteístas, todos os scepticos, todos os materialistas, e todos os ateus, sem excepção de um só, desde os Dialogos da Natureza do século XVII até o nosso moderno Trinta, comprehendendo todos os ateus verdadeiros e todos os ateus fingidos, desde Vanini, que morreu queimado como impio pelo parlamento de Tolosa, até um bom tendeiro nosso amigo que deixou de ir á missa ha mais de um ano, para não se comprometer com os sócios do club Gomes Leal.

Pois bem: ao cabo de tão laboriosas excavações eruditas e de tão vastas investigações históricas, podemos asseverar, sob nossa palavra de honra, a vossa alteza, que nada encontramos nem nas tradições, nem nos livros sábios, nem na conversação viva dos doutos, que nos possa dar, ainda que mui remotamente, ideia alguma do que venha a ser o estudo de uma filosofia especialmente dirigido para o estudo de outra filosofia, como aquela de que tão gloriosamente se trata no quadro dos conhecimentos propinados a vossa alteza pelos seus venerandos mestres.

O Direito Natural, em que se diz que vossa alteza entrou depois do preparo da filosofia especialmente dirigida para a filosofia, é a reliquia rarissima de um estado mental que desapareceu da esfera filosófica, mas cujos vestígios tivemos a fortuna de poder encontrar ainda entre os ferros-velhos da historia do pensamento.

Parece que houve com efeito, em tempos, o que quer que fosse a que se deu o nome hoje archaico de Direito Natural.

Além da gente anonima e desconhecida que com mão misteriosa taberneia em Portugal o ensino publico e o de vossa alteza, ninguém mais ignora hoje em dia que todo o Direito é um producto da civilisação, e nunca uma manifestação ou uma obra da natureza. Nas sociedades rudimentares não se conhece o Direito. Nas sociedades civilisadas o Direito varia, segundo as concepções intelectuais que dirigem o progresso em cada uma de essas sociedades. E de aí vem que o Direito é eterno. É eterno precisamente porque é progressivo, como é progressiva a moral e a arte, e não porque seja um ideal inato á natureza do homem.

O erro da velha denominação de Direito Natural procedia de que os filósofos desconheciam a natureza, e em sua boa fé a consideravam recta e justa. Mas Darwin veio. Desde então ficou demonstrado que, pelos processos porque ela opera na formação dos aggregados humanos, a natureza é imoral e é iníqua.

A lei do universo basea-se sobre o concurso de estes dois grandes agentes: a luta pela vida e a selecção natural. A luta pela vida é o estado permanente de todos os seres, para os quais a creação é uma eterna batalha. A sorte do conflito decide-a a selecção natural. Como? Fixando na especie, pela adaptação ao meio, os seres mais fortes, e expulsando os seres inferiores. Por isso o professor Haeckel afirma: «A teoria de Darwin estabelece que nas sociedades humanas, como nas sociedades animais, nem os direitos nem os deveres nem os bens nem os gosos dos membros associados podem ser eguais.»

Ora o que é que estabelece o Direito? O Direito estabelece precisamente o contrario de isso: a egualdade dos deveres recíprocos para a mais equitativa distribuição dos bens.

O Direito portanto não só não é uma emanação da lei natural, mas é uma reação contra essa lei.

A natureza é o triunfo brutal decretado ao forte. A sociedade é a proteção consciente assegurada ao fraco. A creação funda a luta pela vida. A sociedade organisa o auxilio pela existência.

Uma civilisação é tanto mais adeantada quanto mais ela submete ao seu domínio as fatalidades naturais. E é assim que o homem, de conquista em conquista, chegará um dia, como diz Büchner, ao paraíso futuro, ao paraíso terreal, de onde não veio mas para onde vai, e que não é um dom divino primitivo mas o fructo derradeiro do trabalho humano.

Todo aquele que, no meio de este esforço compacto da inteligência de cada um para o progresso geral, se detem no caminho a aprender com os seus pedagogos a coisa a que eles ainda chamam o Direito Natural, está por esse facto fora da civilisação e fora da humanidade.

Se o nosso intento fosse perturbar o doce repouso dos perceptores de vossa alteza, poderiamos perguntar como é possível ensinar todo o direito que vossa alteza aprende, sem previamente fazer conhecer os grandes fenômenos que o Direito tem por fim dirigir e que se chamam a nação, a família, a propriedade, o trabalho, etc.

Poderiamos perguntar ainda quem é que assume a responsabilidade de ensinar a vossa alteza a historia pátria e a historia universal antes de se haverem recusado a exercer essa funcção os individuos idôneos, os que pelos seus estudos especiais demonstraram na imprensa ou no professorado ser os mais conhecedores de essa matéria, como o Sr. Pinheiro Chagas, o Sr. Oliveira Martins e o Sr. Teófilo Braga.

Poderiamos perguntar mais, se a lingoa não será em uma nacionalidade um facto tão importante, pelo menos, como o direito, e se é permitido que, no quadro dos estudos de um príncipe de vinte anos, se não diga uma só palavra relativa ao conhecimento dos grandes escritores, depositários das tradições históricas e das tradições poéticas da sua pátria.

Poderiamos perguntar, finalmente, como é que a Economia politica, a qual Mac Culloch tão concisamente diffiniu dizendo que a sciencia econômica é a sciencia dos valores, se póde ensinar a um menino de redoma, sem noção alguma dos elementos constitutivos dos valores; sem o conhecimento das ciências que produzem a riqueza, como são a mechanica, a física e a chimica; sem a miníma ideia das matérias primas que as industrias transformam, nem dos instrumentos que effectuam essas transformações, nem dos movimentos comerciais que modificam e alteram de logar para logar o valor dos productos; um menino que o vácuo enorme do seu quadro de estudos nos mostra na ignorância absoluta do que é o milho, do que é o trigo, do que é o arroz, do que é o assucar, do que é o algodão, do que é a lã, do que é o carvão, do que é o ferro; de um menino que nunca foi a uma lavoura, nem a uma oficina, nem a uma fabrica; de um menino que nunca viu em exercício uma charrua, um torno, uma serra, uma broca, uma bomba, uma maquina de vapor ou um moinho de vento; um menino que nunca olhou de perto para esse instrumento vivo de todas as transformações industriais, que se chama o obreiro; um menino emfim que nunca saiu só, e que a sua mãe nunca levou ás compras, á tenda, ao talho ou á feira; e que, sabendo todos os direitos que ha--naturais e sobrenaturais, públicos e particulares, nacionais e internacionais,--só não sabe ainda como se faz o pão que come e o vinho que bebe, o tecido que o veste e a vela que o alumia, nem quanto custa o kilo da carne ou o litro do azeite!

Nós porém não pretendemos afligir os mestres de vossa alteza. O mestre é irresponsável, pela boa razão de que o mestre é nulo na direcção intelectual do homem.

É por esse motivo que As Farpas propuzeram sempre que a instrução de vossa alteza se fizesse, como a dos demais cidadãos, nas escolas publicas do seu paiz. Porque a forte, a fecunda, a verdadeira lição não vem da autoridade dogmática dos mestres, vem do livre impulso dado ao espirito e dado ao caráter pela convivência dos condiscípulos e dos companheiros.

É em essa intima comunhão de interesses com individuos da mesma raça, da mesma nação, da mesma idade, que o homem começa a comprehender a primeira e a mais importante noção social, a noção da solidariedade humana, o mecanismo de todo o verdadeiro progresso, tendente ao triunfo final das forças simpáticas sobre as forças egoístas, á adaptação mais perfeita do individuo á comunidade.

E não é somente o ritmo do egoismo e da simpatia que se forma e se regularisa nas relações de convivência com os nossos semelhantes. São as curiosidades intelectuais que despertam, e os conhecimentos que se transmitem no sentido dos problemas mais importantes para a geração a que pertencemos.

Metade de aquilo que valemos, moralmente e intelectualmente, devemol-o aos contactos e ás suggestões dos individuos que nos têm rodeado através da existência. É esta uma divida que poucos se lembram de pagar, reconhecendo com veneração os benefícios da amisade. Todas as mães estão prontas sempre a declinar sobre as «más companhias» dos seus filhos a responsabilidade dos seus desvarios. São rarissimas aquelas que sabem agradecer, como colaboração dos seus desvelos, a parte enorme que as «companhias boas» tiveram na formação do espirito e na formação do caráter, na inteligência, na dignidade, na honra, na gloria dos seus filhos.

O homem mais perfeitamente educado por um mestre foi Stuart Mill. Aos vinte anos de idade ele tinha aprendido com James Mill, seu pai, tudo quanto a sciencia pode ensinar a um sábio e a um filósofo. E todavia Stuart Mill conta-nos na sua autobiografia que, ao perguntar um dia a si mesmo se seria feliz, uma vez realisadas nas instituições e nas ideias todas as reformas que ele projectava criar, a sua consciência lhe respondera:--não. «Senti-me então desfalecer,--diz ele;--todas as fundações sobre que se tinha architectado a minha vida se desmoronaram de repente.» Mais tarde ele sentiu a dor, sentiu depois o amôr, o amôr apaixonado, absorvente, enorme, dominando todo o seu ser, submetendo a força dissolvente da analise; e foi só então que ele se sentiu homem, revivendo para a natureza, forte da grande força que a natureza lhe comunicava, equilibrado para sempre no seu destino, cingido ao coração palpitante de uma mulher que ele amou--ele o sábio, o filósofo, o reformador frio e implacavel--com o amor ilimitado, entusiástico, cavalheiresco, que as velhas legendas liricas atribuem aos grandes amantes celebres.

A educação ministrada a vossa alteza pelos mesmos processos por que se ministra o alimento ás galinhas nas cevadeiras mechanicas, apesar de o não ter feito um sábio como Stuart Mill, impediu-o egualmente de se fazer um homem.

Não basta, para educar um mancebo, vir o Sr. Martens Ferrão ou o Sr. Santa Monica duas ou três vezes por dia com a bomba da papa espiritual, abrir-lhe o bico, carregar em um piston, e encher-lhe o papo de doutrina haurida nos compêndios do Sr. José Garnier.

Hoje em dia, menos do que nunca, se podem incutir a um homem opiniões feitas, introduzindo-lh'as por injecção pedagogica. Já Stendhal dizia que estamos em um século em que somente será escutado o homem que tiver opiniões individuais. Só os tímidos, os preguiçosos e os tolos é que têm como suas as opiniões em giro. Ora as opiniões individuais só se adquirem pela livre critica da opinião da massa, que é indispensável conhecer e tratar.

É o que ha muito tempo comprehenderam todas as famílias reinantes acerca da educação dos seus filhos.

Os príncipes de Orleans sentaram-se nos mesmos bancos com os filhos dos burguezes do seu tempo no liceu Henri IV.

O príncipe real da Alemanha fez os seus estudos na universidade de Bonn. Seu filho o príncipe Wilhelm seguiu o seu curso na mesma universidade, tendo por condiscípulos o príncipe de Saxe-Meiningen, filho do grão-duque de Baden, e o príncipe de Oldembourg. Os que passaram em Bonn de 1878 a 1880 viram esses príncipes, envolvidos com os demais estudantes, e vestidos como eles, de chapéu mole e veston abotoado, irem a pé para a universidade com a pasta de couro debaixo do braço, beberem juntos o meiwein nos cafés, e passearem de sapatos ferrados e cachimbo nos beiços pelos subúrbios de Bonn, em Godesberg ou em Heisterbach.

O príncipe Frederico Alexandre Carlos, hoje rei regente de Wurtemberg, fez os seus estudos nas universidades de Berlim e de Tubing.

O príncipe Carlos Alexandre, grão-duque de Saxe-Weimar-Eisenach, é alumno das universidades de Iena e de Leipzig.

O príncipe Christiano Augusto Frederico, príncipe herdeiro de Slesvig-Holstein-Souderbourg, é alumno da universidade de Bonn.

O príncipe Frederico Guilherme, grão-duque de Mecklembourg-Strelitz, é egualmente formado em Bonn.

O príncipe Ernesto IV, duque reinante de Saxe-Cobourg-Gotha, auctor da conhecida Viagem do Egypto, fez em Bonn um curso de filosofia e um curso de economia politica.

O príncipe reinante da Servia, Milão Obrenovitch, fez os seus estudos em Paris, no liceu Louis-le-Grand.

Os filhos da rainha de Inglaterra foram educados nas universidades de Cambridge e de Oxford; e todos eles, assim como os filhos do príncipe imperial da Alemanha, sabem um oficio. Uns são litógrafos, outros são torneiros, outros encadernadores, outros tipógrafos. Se vossa alteza houvesse aprendido um oficio, como As Farpas propuseram em tempo oportuno, vossa alteza teria obtido então a singular aptidão cerebral que anda ligada ao mais perfeito desenvolvimento da coordenação dos movimentos nervosos e musculares, e forrar-se-hia agora, na convivência dos seus primos da Alemanha e da Inglaterra, á desconsoladôra melancolia que sempre invade os espíritos inferiores em capacidade, entre os homens eguais em condição.

Os dois filhos do príncipe de Gales estão presentemente estudando na Suissa, com a simplicidade de dois jovens cidadãos da sabia e modesta república helvética.

O rei Affonso XII de Hispanha, o príncipe da Holanda, o príncipe Eugenio Napoleão, etc, fizeram egualmente os seus cursos nas escolas publicas, conviveram em elas com homens de todas as opiniões politicas e de todas as opiniões religiosas, aprenderam a distinguil-os pelo seu valor pessoal, fizeram-lhes favores, receberam-os de eles, crearam finalmente um circulo de afeições, ligadas ás memorias da mocidade, e constituindo um dos mais dôces e dos mais nobres encantos da vida.

Vossa alteza, que até hoje não teve ainda um companheiro e um amigo, conserva em folha um dos principais instrumentos da atividade humana, o seu coração, e em ele, improdutivo e inutil, o capital precioso dos seus affectos desempregados.

Em um exordio sentimental que precede a exposição dos estudos de vossa alteza publicada no Diario de Portugal, lêem-se as seguintes linhas:

Sua majestade a rainha quis especialmente tomar a seu cuidado seguir dia a dia com grande discernimento, e extremado cuidado a educação dos seus filhos.

Deplorável, serenissimo senhor, profundamente deplorável, semelhante intervenção!

É realmente preciso que os pedagogos de vossa alteza abusem de mais do enciclopedismo da sua ignorância na matéria que professam para não terem devidamente aconselhado sua majestade em este importante assumpto.

A missão da mãe na educação do homem termina quando este chega aos quatorze anos. Charles Robin o disse. Até essa idade são os sentimentos que inspiram os atos, e é á mãe que cumpre dirigir os sentimentos. Dos quatorze anos em diante são as ideias que dirigem as acções.

As psychoses, assim como as manifestações anatômicas e as funções physiologicas, características da puberdade, encerram segredos que nenhuma mãe tem direito de devassar na educação de um rapaz, assim como nenhum pai tem direito análogo na educação de uma menina.

Toda a mãe que intervem fiscalmente nas legitimas curiosidades intelectuais de um mancebo ofende egualmente o pudor de ele e o de ela.

Não sabemos se vossa alteza adquiriu já a firme e clara comprehensão de que não veio ao mundo trazido do Norte em um cabaz ornado de topes azuis e cor de rosa, ou achado entre as violetas do jardim sob uma folha de couve. Se vossa alteza chegou já com efeito ao conhecimento da secreta verdade embriologica que destroe essa ingenua e graciosa legenda da sua meninice, vossa alteza começou desde esse dia, pela súbita renovação do amor e do respeito a sua mãe, a ser para ela o verdadeiro filho, mas cessou para todo sempre de ser o alumno de essa senhora.

Desde que um homem entra no período da virilidade a mulher em cuja convivência ele tem que educar as suas faculdades estéticas e as suas faculdades criticas é a sua noiva ou é a sua amante.

A personalidade sagrada de aquela que nos deu o ser é preciso, para a honra, para a dignidade, para o encanto carinhoso da família, que fique para sempre extranha aos processos pedagogicos com que cada um de nós arrancou da árvore da sciencia e mordeu com a voracidade dos réprobos o fructo delicioso e terrível do bem e do mal.

O amor maternal é o anjo legendário do éden, que, perante a curiosidade scientifica do homem e do gladio de sangue que o expulsa da inocência, cobre o rosto lacrimoso e se encerra eternamente na alvura imaculada das suas azas desdobradas e pendentes.

E é preciso que assim seja, para que um pouco de céu fique no fundo do coração de aquela que nos deu á luz, e junto da qual é inefavelmente doce para todo o homem ir, de longe a longe, dessedentar-se das amarguras ardentes da vida desiludida pousando os beiços com veneração no cristalino veio abençoado de cuja corrente humilde e melodiosa, escondida no mais longínquo e mais ridente Vale do passado, gotejou sobre a nossa infância a perola da candura.

Considere agora vossa alteza os resultados em que a sua educação começou já a fructificar.

Vossa alteza, na idade de vinte anos, continua a assistir todos os dias ao santo sacrifício da missa, e não fez ainda a um companheiro ou a um amigo o sacrifício pessoal de um lápis ou de uma pena de aço.

Vossa alteza frequenta ainda regularmente o tribunal da penitencia. Em períodos determinados o cardeal bispo do Porto vem ouvir de confissão a vossa alteza. Sua eminencia reverendissima recolhe no sacrário do seu peito a narrativa dos pecados que vossa alteza não perpetrou e dos benefícios que vossa alteza egualmente não distribuiu. Depois do que, feito o ato de contrição, ele o absolve em nome de Deus Padre Todo Poderoso, fazendo-lhe por ele a solene promessa de um comodo e confortável thronosinho rutilante de estrelas o espera nas alturas da Via Lactea para o dia em que vossa alteza resolver honrar a celestial mansão com a sua agradável presença, indo trocar um aperto de azas com os anjos, que o esperam saudosos no Empyreo.

Para os efeitos celestiais é evidente que não póde haver melhor vida que a que vossa alteza tem, nem melhor morte que a que lhe está destinada.

A única coisa de recear é que a historia não seja por ventura tão acomodatícia como a providência, porque, no dizer de um outro padre mestre, o patriarca Voltaire, a historia só diz bem de aqueles que praticam o bem. Ela é de um desprezo incivil com todos os que delicadamente se encerram na missão discreta de não praticar coisa alguma.

É em esse belo socego que no tempo antigo se endurecia o coração aos tiranos e que ainda hoje se engorda o figado aos patos. Não é porém com tal regímen que de ordinário se desenvolve nos homens o sentimento da responsabilidade, o espirito do sacrifício e o amor do dever.

E no emtanto as escolas de medicina, as escolas polytechnicas, a universidade, a escola naval e a escola do exercito trasbordam de uma mocidade, contemporânea de vossa alteza, a qual vai entrar agora no conflito da vida civil e reorganisar a sociedade sobre a qual vossa alteza ha de reinar um dia. Do espirito de essa mocidade, das suas tendencias, das suas aspirações, das suas vistas futuras, é vossa alteza em Portugal o único homem da sua idade que não tem conhecimento algum.

Creado no meio de cavalheiros de cincoenta a sessenta anos, conservadores e cortezãos, mais velhos ainda pelas suas ideias que pelos seus anos, vossa alteza só conhece do seu tempo os individuos que cessaram de tomar parte no movimento de ele e pertencem pela sua imobilidade mental ás gerações mortas.

Vossa alteza chegou á maioridade; as cortes da nação prestaram-lhe vênia; em torno de vossa alteza quarenta ou cincoenta servidores, antigos militares, antigos ministros, antigos magistrados, beijam-lhe a mão em cada manhã, fazendo alas, de dorso curvo e de olhos no chão, para que vossa alteza passe, intemerato c majestoso, da sala em que lhe servem o seu latim para a sala em que lhe servem a sua merenda; vossa alteza é o herdeiro presumptivo do trono, é o regente do reino em nome do rei, é o senhor de Guiné e da conquista, navegação, comércio da Etiópia, Arabia, Persia e da Índia; e todavia não é senhor de tomar simplesmente um bilhete de ré no vapor da outra banda e de ir a Cacilhas, sem licença previa de sua augusta mãe.

Todos os dias a augusta mãe de vossa alteza pede a nota das suas lições, e, sempre que vossa-alteza não decorou inteiramente o seu verbo, a excelsa soberana prohibe-o de se ir divertir, isto é, de ir á noite aos Recreios Witoyne entre dois homens de dragonas e de espada á cinta, como quem vai preso para o calabouço.

Quando porém ha graves negócios pendentes da deliberação do poder executivo, medidas excepcionais de administração, tratado importante que assignar com alguma potencia extrangeira, ajustes de paz ou declarações de guerra eminentes, então, quer vossa alteza tenha satisfeito as suas lições quer não, sua majestade a rainha não se opõe a que vossa alteza saia, porque vossa alteza é conselheiro de estado desde os desoito anos, e sempre que os grandes negócios da república se complicam, vossa alteza tem por missão deslindal-os.

Se coincidentemente com um conflito politico nas relações internacionais do paiz ocorre algum erro palmar no tema de vossa alteza, então a pena disciplinar de reclusão por negligencia no estudo é substituída pela privação de sobremeza, afim de que vossa alteza corrigido como mau estudante, vá ao mesmo tempo salvar a pátria como bom conselheiro.

Além de conselheiro de estado, vossa alteza é alferes de lanceiros e é segundo tenente da armada.

É sumamente extranhavel--não o esconderemos--que honrando a carreira das armas por meio da adopção de essas duas patentes assumidas in absêntia, vossa alteza não honre egualmente as profissões liberais, dignando-se de assumir também algum diploma nas carreiras scientificas e literárias.

Não pretenderiamos que logo aos quinze anos de idade o tivessem feito doutor de capelo e socio de mérito da Academia. Poderiam porém com vantagem, segundo nos parece, começar por nomeal-o associado provincial da Academia, por exemplo, e farmacêutico.

Mais tarde, no dia em que vossa alteza celebrou o seu 16.° aniversario natalício, teriam podido eleval-o á categoria de segundanista da faculdade de filosofia e a socio do Instituto. E assim consecutiva e progressivamente. De sorte que, hoje em dia, exactamente assim como é alferes do exercito e segundo tenente da armada, vossa alteza poderia muito hem--creia-o--ser socio effectivo da Academia e bacharel formado em direito.

Não podemos tão pouco atingir as razões misteriosas em virtude das quais vossa alteza não foi ainda nomeado capelão. Dados os hábitos de devoção de vossa alteza, nada mais comodo do que essa patente eclesiástica. A qualquer hora a que se levantasse para se entregar aos seus estudos, vossa alteza faria, a barba e diria a missa a si mesmo; e logo em seguida sem mais perda de tempo, vestido de alferes, iria tirar significados.

Vossa alteza digna-se talvez de sorrir docemente á ideia cômica de ser o seu próprio capelão... Vossa alteza é extremamente bom e amável em sorrir. Esperamos que vossa alteza terá egualmente o espírito suficiente e a malícia precisa para comprehender perfeitamente que não é, em rigor, muito menos padre do que é tenente de si mesmo.

Tal é, senhor, o absurdo grotesco da etiqueta cortezã, na qual o obrigam a vegetar trabalhosamente como uma bela e rica planta de ar livre dentro de uma estufa pôdre.

Vossa alteza tem sido submetido aos rigores tenebrosos de esse regímen no propósito de o tornar mais perfeito e mais feliz.

Está sucedendo a vossa alteza o mesmo que sucede aos povos a que os reis procuram dar a felicidade por meio da tirania. Os povos agradecem, mas preferem o infortúnio, porque o coração do homem aspira eternamente á liberdade, e vai para ela com mais ou menos lentidão mas em um esforço constante, como vai a crescença da planta para a parte de onde lhe vem a luz.

Ora como nos não parece justo que para os povos se peça uma coisa, e aos príncipes se ofereça a coisa contraria, toda a nossa opinião acerca da educação de vossa alteza se resume em isto:

Que o libertem!

Para conhecer a realidade do mundo, único fim serio da sciencia, é preciso entrar no combate da vida como entravam na liça os paladinos bastardos--sem pai e sem padrinho.

Os príncipes não constituem excepção a esta lei geral da formação dos homens. Da educação de gabinete, do bafo enervante dos mestres, dos camareiros e das aias, nunca sahiram senão doentes e pedantes.

Na sagração dos czares ha uma cerimônia de alta significação symholica: o imperador não se confirma em quanto por três vezes não haja descido do trono e penetrado só na multidão; e isto quer dizer que na convivência do povo a autoridade e o valor dos monarchas recebe uma tão sagrada uncção como a da santa chrisma.

Todos os reis fortes se fizeram e se educaram a si mesmos nos mais rudes e mais hostis contactos da natureza e da sociedade humana.

Veja vossa alteza Carlos Magno, que só aos quarenta anos é que mandou chamar um mestre para aprender a ler. Veja Pedro o Grande, do qual a educação de camara começou por fazer um poltrão. Aos quinze anos não se atrevia a atravessar um ribeiro. Reagiu emfim sobre si mesmo pela sua única força pessoal. Para perder o medo aos regatos, um dia, da borda de um navio, arrojou-se ao mar. Para se fazer marinheiro começou por aprender a manobra, servindo como grumete. Para se fazer militar começou por tambor na celebre companhia dos jovens boiardos. E para reconstituir a nacionalidade russa começou por construir navios, a machado, como oficial de carpinteiro e de calafate, nos estaleiros de Sardam. Também não teve mestres, e foi consigo mesmo que ele aprendeu a língua alemã e a língua holandesa. Veja vossa alteza, emfim, todos aqueles que no governo dos homens tiveram uma acção eficaz, e reconhecerá se é na lição dos mestres ou se é no livre exercício da força e da vontade individual que se criam os caracteres verdadeiramente dominadores, como o de Cromwell, como o de Bonaparte, como o de Santo Ignacio, como o de Lutero, como o de Calvino, como o de Guilherme o Taciturno, como o de Washington, como o de Lincoln.

Vossa alteza acha-se precisamente agora na grande crise de toda a sua vida, no momento psychologico da escolha entre a sujeição á direcção inepta dos seus pedagogos e a reação da sua vontade para uma educação nova, como a que deram a si mesmos Pedro I na Russia e Carlos XII na Suecia.

A próxima viagem é a ocasião própria, é a única, para se tomar essa resolução suprema. Vossa alteza tem até hoje vivido no carcere da obediência. Fazem-o circular agora pela Europa, de corte em corte, como um animal domesticado pelo Sr. Martens Ferrão e trabalhando á voz do Sr. Aguiar, dentro da jaula da disciplina.

E chamam-lhe a isso uma viagem! Mas não é mais do que uma nova lição isso! a lição derradeira, fatal e tremenda, exaltando, confirmando e fixando do modo mais perigoso no espirito de vossa alteza os erros de todas as outras lições funestas que lhe têm dado.

É preciso que vossa alteza se compenetre bem, em este momento e de uma vez para sempre, como príncipe, como rei, como cidadão e como homem, para regra de todo o seu procedimento presente e futuro, quer de si para cima, quer de si para baixo,--que o regímen da obediência é o sistema da negação do caráter. O homem só é um homem desde o instante em que, perante o conflito da consciência e da autoridade, ele aprende a ser um rebelde. A obediência é a forma forrada de cebo ou de manteiga em que se molda a massa saponancea dos servis, mas em que perde o feitio, porque se quebra ou porque se esborôa, a nobre personalidade humana.

Submisso á vontade dos seus preceptores, vossa alteza ficará para sempre um príncipe de fòrma, pretensioso, apelintrado e piegas, bonito para ornar uma pendula barata em um salão chinfrin, ou para se pôr em cima de um kake coberto de assucar, em pompa de sobremesa, em uma bòda labrega.

Vossa alteza preferirá de certo ser aquilo para que a simples natureza o destinou--um nobre ser vivo, um belo e forte rapaz altivo, inrelligente e honrado.

Em presença pois da companhia obrigatória e nefasta dos semsaborões oficiais incumbidos de o guardar, vossa alteza, apenas transposta a fronteira, não tem senão um de estes dois partidos que tomar relativamente aos seus aios, pedagogos, camareiros e mestres:--subjugal-os á sua única e exclusiva vontade, corrompendo-os: ou desfazer-se de eles fugindo.

Encaremos com serenidade e firmeza cada uma de essas duas soluções.

A corrupção do mestre pelo alumno tem sido por vezes vantajosamente intentada, com resultados satisfactorios para a rasão e para a humanidade.

Cumpre-nos sobre este ponto referir a vossa alteza o que sucedeu com a educação do falecido marquês de Niza, um dos raros e derradeiros homens de espirito que produsiu a aristocracia portuguesa para encanto do mundo elegante na Europa e para horror e escândalo da corte gêba e caturra dos pais de vossa alteza. A velha e veneranda senhôra marquesa de Niza, avó do actual conde da Vidigueira fidalgo da casa de vossa alteza, tinha sobre a educação do seu filho os mesmos preconceitos lamentaveis que afligem o coração amantíssimo da mãe de vossa alteza. Para dirigir a educação do joven marquês veio expressamente de Roma para o solar dos Nizas, auctorisado por um breve pontifício, o mais sábio e o mais venerável dos monges toscanos. A presença austera do abalisado pedagogo, a sua fronte pensativa e pálida, a sua longa barba negra esparsa no escapulário do habito, a compostura das suas maneiras, o recolhimento singelo do seu porte, a alta e preciosa cultura do seu espirito enciclopédico e a sua extremada devoção, puseram em todos os velhos parentes da família um sentimento profundo de respeito, de veneração e de confiança ilimitada.

Nos intervalos dos exercícios literários e dos exercícios religiosos, quando o monge depois de haver feito a sua lição de musica, tomava ele mesmo a rebeca do seu alumno e acordava em ele os primeiros sentimentos estéticos, tocando por sua mão um nocturno ou um tremolo, era tão viva e tão pungente, sob a vibração do seu arco magistral, a voz do violino, que não só o pequeno marquês empalidecia, tocado de uma nova e extranha comoção misteriosa, mas a própria senhora marquesa chorava, docemente enternecida, subjugada pela expressão penetrante da melodia que o grande artista, humildemente oculto sob a roupeta de esse frade, espargia em torno de si em um lento soluço orvalhante de perolas.

Terminada a educação teórica, era preciso completal-a na pratica por meio de uma viagem na Europa, e o marquês de Niza, abençoado por sua mãe, purificado pela eucharistia e pela confissão geral, partiu para Paris com o seu preceptor.

Durante os primeiros meses correu tudo em uma serenidade e em uma ordem verdadeiramente claustral. O preceptor escrevia por todos os correios. O menino, cada vez mais comedido, mais respeitoso e mais temente a Deus, parecia disposto a passar, sem solução de continuidade, da inocência de um cherubim para a santidade de um doutor da igreja. Depois, a pouco e pouco, foi sucessivamente diminuindo o numero das cartas e augmentando o numero das contas. Os dois poços de santidade tinham-se convertido em dois sumidouros enormes de dinheiro. A senhora marquesa queixava-se repetidamente com severidade cada vez mais acrimoniosa. Chegou a final uma carta do padre. Explicações evasivas, e rasões debeis, com um perfume fortissimo de patchouli, que era então o cheiro da moda, o cheiro selected, o cheiro v'lan, segundo o termo com que mais tarde o galante rei da Holanda tinha de enriquecer o vocabulário precioso do cocodettismo. Depois do que, nunca mais o eclesiástico escreveu. Acabou-se, em último recurso, por suspender toda a remessa de numerário para Paris. Mas nem esta supressão violenta dos meios determinou uma mudança sensível em tão lastimoso estado de coisas. Para obter noticias positivas do marquês de Niza e do seu aio foi preciso mandar de propósito a Paris o procurador da casa, e só então se veio no conhecimento do ocorrido.

O venerável monge, depois de ter sido uma noite rebaptisado a champagne em um gabinete do café inglez, esqueceu-se do burel pendurado no CABIDE de esse gabinete, e fez cavalheirosamente presente de ele ao maître de hotel quando este lho quis restituir na noite imediata. Depois, por um louvável sentimento de respeito pela inviolabilidade sacerdotal, deitou abaixo inexoravelmente as suas barbas de asceta, profanadas á traição pelos beijos de varias bailarinas que o adoravam, e guardou unicamente, como simbolo da rigidez dos seus princupios, um severo e implacavel bigode.

Mais tarde, quando chegou a noticia terminante que de Lisboa lhes não enviariam nem mais dez réis, o marquês tremeu. O padre então ralhou, fazendo observar que seria preciso que eles fossem ambos dois pulhas indignos para precisarem para alguma coisa do dinheiro da senhora marquesa; que seria preciso ainda que essa senhora houvesse sido miseravelmente roubada durante todo o tempo que durara a educação do seu filho, para que tanto ele como o seu mestre não estivessem perfeitamente habilitados a ganhar a sua vida pelo trabalho era qualquer parte do mundo onde a senhora marquesa se dignasse de os abandonar.

E em seguida, metendo as caixas das rebecas debaixo do braço e acendendo uma cigarrette, foram ambos apresentar-se ao diretor de um teatro que os escripturou como violinos.

Depois do espectaculo, um tanto ébrios da comoção capitosa da musica que tinham feito ao lado um do outro, saiam juntos, ofereciam o seu braço com a galanteria de meridionais ás duas actrizes que por ventura se encontrassem em essa noite ainda mais pobres do que eles, e iam juntos beber a sua chope em partie carrée na calmante frescura dos boulevards.

Os pedagogos de vossa alteza não estão no caso do do marquês de Nisa. A nós, pelo menos, não nos consta que o Sr. Martens Ferrão toque algum instrumento, nem que as prendas musicais entrem no numero das que exornam o Sr. Antônio Augusto de Aguiar. Um e outro são rebeldes á arte, e foi pela fenda da arte que o humanismo do marquês de Nisa penetrou o arnês teológico do seu amável aio.

E é preciso isso, a picada, da arte no intimo do coração de um homem, para que ele, venha de onde vier, saia de onde sair, se converta depressa no digno companheiro do mais espirituoso e do mais elegante dos gentlemen.

Quando eles não têm a arte por si, ou contra si, o melhor, real senhor, é deixal-os ser o que são, e não lhes bolir. Incorruptos são insípidos. Corrompidos tornam-se porcos.

Resta pois a vossa alteza um único recurso:--a fuga.

Parece uma bicha de sete cabeças, ao primeiro aspecto. Pura ilusão! Lê-se a historia de todas as evasões celebres: é a coisa mais simples de este mundo. Basta ter calcanhares, e vossa alteza tem-os. Basta ter uma pouca de terra para dar para feijões, e vossa alteza tem diante de si o mundo inteiro que dar para esses legumes.

Tudo mais é simples detalhe.

Convirá apenas que em uma estação de bufete, em qualquer linha de caminho de ferro, vossa alteza, encontre á sua disposição, do lado oposto á linha, um cavalo pronto e ligeiro.

Uma palavra telegráfica de vossa alteza á redacção d'As Farpas, e Frontin, o próprio Frontin, o vencedor do Grand Prix de Longchamps, o esperará no ponto que vossa alteza designe, submisso e relinchante, imóvel e estacado nas suas quatro pernas de aço, de ventas altas, redondas, avidas, nervosas e palpitantes.

Enquanto os pedagogos, abancados no restaurante da gare, comem, mascando ruidosos, vorazes de azote e de carbone, vossa alteza, em bicos de pés, prega-lhes um rabo de papel em cada um, e desaparece veloz pelo fundo.

Um pulo á sela, rédea baixa, e avante!

Que importa tudo quanto possa suceder em seguida?! A pedagogia que rebente aí assim! a jurisprudência que desmaie! a chimica que caia para a banda! a etiqueta que estoire!

A humanidade triunfa, porque, desde esse momento, vossa alteza é livre.

Quem ousará constrangel-o, coagil-o, violental-o?

Vossa alteza é verdade que é um príncipe, mas é também um homem, chegou á maioridade, é o único e exclusivo senhor de si mesmo.

Todos os pavilhões dos paizes livres,--da França, da Suissa, da Holanda, da Inglaterra, dos Estados Unidos da América--subirão desfraldados ao tope dos mastros para cobrirem de toda a sua força e de toda a sua glória na pessoa de vossa alteza a sua inviolabilidade sacrosanta de touriste.

Todos os códigos e todos os tribunais do mundo estão abertos para lhe prestar defesa e homenagem.

Rei, posto na Ajuda, no alto do seu trono, com a púrpura ás costas, a coroa na testa e o sceptro em punho, vossa alteza tem apenas para o defender um exercito de cinco mil coroneis, com duzentos soldados, e o hábil Antunes. Fora da fronteira, com um passaporte no bolso, um saco de noite na mão e um chapéu de chuva debaixo do braço, vossa alteza tem á sua disposição, como qualquer outro, para salvaguardar e manter os seus inviolaveis direitas de homem próvido de uma chapeleira e de um guia Baedeker, todas as armadas e todos os exércitos do mundo.

Se a côrte portuguesa recalcitrar, se os seus pedagogos intentarem impôr-se-lhe e embargar-lhe o passo, vossa alteza, com um simples gesto, chama um gendarme, que lhe encafurna todos esses massadores na cadeia.

--Deixem circular, meus senhores! deixem circular!--tal é a palavra da força publica, de um extremo ao outro extremo em todo o mundo civilisado.

Considere vossa alteza o que em circunstâncias análogas fez o príncipe herdeiro da Holanda, o sábio, o doce, o inefável Citron. Desde que se achou em Paris, nos seus pequenos apartamentos da rua Auber, não houve mais forças humanas que o obrigassem a voltar á estopada do seu reino.

A nós outros, senhor, coube-nos ainda a gloria de conhecer no Bignon esse adorável cosmopolita, que tinha a sabedoria de preferir a comodidade de um chapéu mole de Pinaud et Amour ao peso de qualquer coroa de este mundo. Era, como vossa alteza, um louro,--um pouco mais fulvo apenas. Usava as suissas em cotelette, caminhava lentamente, como um picador fatigado ao acabar de desmontar, e apesar do seu desdém de toilette e de maneiras, havia em ele a distincção dolente de um antigo sangue nobre, a alta aristocracia cançada e fastienta da preclara família de Nassau.

Não houve cartas regias, nem negociações diplomáticas, nem enredos, nem violências, nem ameaças, nem esforços de ordem alguma que o levassem a demover jamais de Paris a sua mala grande.

Um dia o rei da Holanda, que os encantos de Madame Musard distrahiam algumas vezes dos interesses da politica neerlandeza para as convivências da Maison Dorée, encontrou-se com Citron, de passagem, no foyer de um teatro do boulevard. O soberano incognito abraçou o filho pela cintura com efusão e firmeza, e disse-lhe peremptoriamente:

--O menino vai de aqui sem mais perda de tempo lá para baixo para a Holanda reinar. Quem fica em Paris agora sou eu. Tenho aqui no bolso a minha abdicação, e vou já lá dentro ao foyer dos artistas assignar-lh'a. Aceite os meus parabéns.

Citron, inclinando-se, agradeceu comovido, e acrescentou:

--Espera-me então aqui um momentosinho, que eu venho já...

Foi essa a derradeira vez que o monarcha dos Paizes Baixos viu o seu herdeiro em este mundo. Pouco depois Citron morria na sua cama de rapaz na rua Auber, firme e feliz na inveterada convicção de que é melhor ser um viveur morto do que um rei vivo.

Uma vez em Paris, simplesmente mas confortavelmente instalado em um entresol sobre os Campos Elyseos, ou em um terceiro andar sobre o Luxembourg, segundo os seus gostos de clubman ou os seus gostos de literato, tem vossa alteza naturalmente indicados os indivíduos que devem constituir a sua primeira roda de companheiros.

Tem o Sr. Rodrigues, distincto alumno de medicina, para o pilotar no mundo scientifico. Tem o Sr. Mariano Pina, espirituoso folhetinista, para o guiar no mundo literário. Tem o Sr. Loureiro, o Sr. Columbano, o Sr.. Monteiro Ramalho e os demais pintores portuguezes para o introduzirem no mundo artístico. Sahindo do mundo onde a gente estuda, tem, finalmente, vossa alteza o Sr. Jeronymo Collaço de Magalhães para o levar ao mundo onde a gente se diverte.

Paris inteiro se resume em isso, e todo o mundo se acha resumido em Paris.

Qual tem de ser aí o novo quadro de estudos destinado a refazer nas suas verdadeiras bases a educação de vossa alteza? Nada mais simples! Quem sabe mais de essa matéria do que os melhores pedagogos é toda a gente. Vossa alteza fará sabiamente o que faz toda a gente que se instrue, isto é, começará a aprender tudo aquilo que o trato do mundo em que entra lhe mostrar que não sabe.

Vossa alteza levanta-se, como todos os que se presam, ás seis horas da manhã; toma a sua douche ou um banho morno, fazendo-se pistonnar com água gelada pelos seus lados fracos; monta em seguida o seu cavalo irlandez, e vai com o sr. Jeronymo Collaço galopar para o Bois de Boulogne. Confere-se depois uma hora de esgrima e do tiro ao balão, e em seguida almoça no cercle. Vai com o Sr. Mariano Pina ao Colégio de França e ouve a lição do Sr. Renan. Vai com o Sr. Rodrigues á Escola de Medicina e assiste á prelecção do Sr. Charcot. Vai com os pintores ao Louvre e olha para a Venus de Milo. Sobra-lhe ainda tempo para dar a volta da tarde em carroagem no Bois, e para comparecer em um five o'clock.

A' noite--como se não é príncipe impunemente--as conveniências exigem a toilette ceremoniosa para jantar, a casaca inglesa, a gravata branca, e a perola preta cercada de brilhantes no peito da camisa. É inutil dizer que se não põem condecorações. Só os porteiros, os dentistas e os prestidigitadòres é que usam hoje esse arrebique de mau gênero.

Á noite convém á idade e á posição de vossa alteza uma hora de conversação misteriosa ao fundo de uma baignoire grillée em um pequena teatro.

Um só dia de estes prehencherá melhor a educação de vossa alteza do que seis anos de estudo sobre o Direito Publico do visconde de Lagueronière, ou sobre o Direito internacional, de Bluntschli, com o Sr. Marlens Ferrão debruçado em cima do hombro de vossa alteza, a explicar os textos no lento rom-rom coceguento e rítmico dos sábios antigos e dos gatos velhos, tão propicio ás somnecas!

De quando em quando será útil que vossa alteza vá ao Bullier beber cerveja com os estudantes, ou que ponha o chapéu tyrolez, de feltro branco com uma papoula bordada a matiz, e consagre um domingo de sol a um croquis de impressão na floresta de Fontainebleau, indo em seguida provar as frituras de Barbizon em companhia de artistas.

Ouvirá talvez vossa alteza falar nas cocotes. Chamavam-lhes em outro tempo as cortezãs, chamaram-lhes depois as lorettes, e principiam a chamar-lhes agora as horizontais. A trajectoria do nome indica bem a decadência de um gênero, que nem desaconselhamos nem aconselhamos a ninguém.

Diremos apenas que, economicamente, a cocotte representa no equilíbrio social o mais importante beneficio. Ela é o aparelho dispersor do dinheiro, da influencia e da autoridade, que o agiota condensa. Se a cocotte não desgregasse o agiota, o agiota englobaria em si o universo.

De tempos a tempos lá surge no horizonte um filho-família, desolhado, casposo e de unhas roidas, a queixar-se aos caixeiros sentimentais e ás burguezas românticas de que uma de essas más mulheres o trahiu e o abandonou, a ele, alma entusiástica e pura de poeta pobre, á qual a pérfida preferiu os joanetes de um banqueiro rico.

Se elas não tivessem o sublime bom senso de produzir periodicamente algumas choradeiras de esta ordem, veja vossa alteza em que linda posição social que ficavam para a velhice os filhos-famílias que se apaixonam por essas damas e que em nome da poesia lirica se julgam no direito de ficar ao pé de elas para toda a vida!

Bem estamos vendo de aqui o Sr. conselheiro Viale velando as faces horripilado perante, este gênero de conversação. É certo porém que, se de este mesmo assumpto Homero não houvesse feito um poema, o mesmo Sr. pudico Viale não teria hoje a Ilada para em ela dar lições a vossa alteza.

Para os reis insalubres, productos de velhas raças nobres, aristocratisadas de mais e cahidas em languor pelo derramamento excessivo do azul no sangue, são frequentemente utilíssimas as mulheres da categoria a que nos estamos referindo...

(O Sr. Martens Ferrão contorce-se ao escutar-nos. Se s. ex.ª se acha incomodado, é talvez melhor retirar-se, porque nós temos de continuar ainda por um momento. E quando voltar que s. ex.ª traga consigo a timbale de argent. Vossa alteza reclama-a. Que lha dêem!)

A glória do reinado de Luiz XV, por exemplo, vem toda da Pompadour. Se essa elegante e espirituosa mulher não tivesse feito ao rei de França a alta honra de ser por algum tempo sua conviva, uma multidão enorme de coisas encantadoras, que enobrecem a civilisação moderna, não teriam jamais vindo ao mundo. A essa ligação, providencial para a arte, devemos hoje os deliciosos retratos de Latour, o fino gênero pastoril de Watteau, as patês tendres de Sèvres, as mimosas estatuetinhas de Saxe, os mais lindos relógios e os mais graciosos canápés do mundo.

Da gloriosa protectora e mestra de Luiz XV dizia Voltaire:--Ele est des nôtres!

Ha fortes probabilidades para crêr que de nenhum dos mestres de vossa alteza ele dissesse outro tanto.

Vossa alteza vai ponderar talvez que é bem destituída de grandeza, vulgar e corriqueira de mais, a existência a que o introduzimos...

Ai de nós! a vida é em realidade assim, magnânimo senhor!

Ninguém é grande nem pequeno em este mundo pela vida que leva, pomposa ou obscura, solta ou aperreada. A categoria em que temos de classificar a importância dos homens deduz-se do valor dos atos que eles praticam, das ideias que difundem e dos sentimentos que comunicam aos seus semelhantes.

É binaria a natureza de todo o homem superior. Metade de ele pertence ao ramerrão passageiro de cada dia; a outra metade pertence ao ideal eterno de um mundo mais perfeito, em cuja obra cada um colabora procurando tornal-o, na orbita da sua aptidão pessoal, ou mais justo, ou mais rico ou mais belo.

Assim, cada um tem em si, superior a todas as torpesas da terra, impoluta, inviolável e sagrada, a mistica torre ebúrnea em que habita a aspiração imortal do espirito do homem.

É preciso amar, meu senhor. Eis aí tudo.

É preciso amar fora da esfera de todos os interesses pessoais creados pela sociedade de que fazemos parte e estabelecidos pelo estado, pela profissão ou pela gerarchia. É preciso amar pela abnegação e pelo sacrifício de tudo para se chegar a ser alguma coisa. É preciso amar uma ideia, uma propensão da sociedade, um intuito da naturesa, uma expressão da arte, ou simplesmente e unicamente uma mulher, como as amou Musset, Lord Byron, Shakspeare ou Petrarca, afim de sair fora da massa obscura do vulgo, e ser um homem.

Ame pois vossa alteza, e deixe correr o mundo!

Não há hoje em dia educação especial para o oficio de rei nem para outro qualquer oficio. Há uma instrução geral e há uma instrução technica para cada modo de vida. A educação essa é una e indivisível.

Em todo o estado e em toda a condição social o homem bem educado é um homem superior. O homem sem educação, por mais alto que o coloquem, fica sempre um subalterno.

No regímen de liberdade e de iniciativa, em que começam agora a viver as sociedades contemporâneas, a lei da concorrência absorve tudo, e os reis mais solidamente equilibrados nos seus tronos não são senão os homens mais perfeitamente equilibrados na vida geral. Veja vossa alteza os moles príncipes dos reinos da Itália, que o avô materno de vossa alteza unificou, como em tão pouco tempo desapareceram todos, sepultados nas trevas de um silencio trágico! Compare-os com os reis, tão fortemente instruidos, das pequenas nações confederadas da Alemanha, e pondere como estes persistem na tradição e na continuidade histórica!

Portanto, e em conclusão:

Para dar ao trono portuguez um bom rei, pense vossa alteza em dar na sua pessoa á pátria um cidadão instruido; á humanidade um homem justo; á natureza um sadio e valente animal.

A seus pais, aos seus mestres e á sua corte, é doloroso mas é indispensável que vossa alteza dê egualmente aquilo que lhes deve:--desgostos!

Esquecia-nos tocar em uma questão secundaria, mas oportuna: a questão dos meios, na previsão de que, perante a fuga de vossa alteza, o, Sr. Nazaretb delibere cortar-lhe os viveres.

em este ponto, como em tudo o mais, As Farpas estão á disposição de vossa alteza. Ainda uma linha pelo telégrafo a esta redacção, e nós abriremos desde logo para o fim de ocorrer, em nome da justiça e do bom senso, ás despesas da livre viagem de vossa alteza na Europa, uma subscripção nacional.

Poderíamos consagrar aqui algumas considerações ás vantagens econômicas que em esta conjuntura teria para vossa alteza a posse de um oficio. Desde este momento porém a nossa atitude de banqueiros de vossa alteza põe em nosso lábio o selo da reserva.

Faremos fervorosos a subscripção.

O Sr. Brazza ainda ultimamente fez uma outra em favor do rei Macóco, e tirou consideraveis resultados. Ora vossa alteza não é menos do que Macóco, e nós somos mais do que Brazza. Porque esse sujeito só o outro dia é que descobriu o Congo, e veio com isso para os jornais e para as revistas, como com o mais rendoso achado de este mundo; ao passo que nós somos os descendentes de aqueles que há alguns centos de anos descobriram esse mesmo Congo, e--como vossa alteza sabe perfeitamente--nunca o mandamos botar á folha! Aos pés de vossa alteza.

Ramalho Ortigão.

As Farpas

Sinopse

As Farpas, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, reúne em um único registro canônico onze fascículos integrais do Project Gutenberg, de 1873 a 1883, conservadoramente normalizados para PT-BR moderno.

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