Universo da obra
Universo da obra
Leitor querido--Depois de uma longa abstenção de três meses--os meses do verão--As Farpas voltam a aparecer no teu banquete ao mesmo tempo a que recomeçam a servir-se também as ostras.
Á similhança dos mariscos, qu não é bom comerem-se nos meses que não têm r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses de elas no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furúnculos.
Além de que, o verão tem influencias de expansibilidade que desconcentram a vida da esfera das suas condições normais. É a época das viagens, dos banhos, das estações do campo. Abandona cada um o interior da sua casa, os seus hábitos, as suas ocupações, a sua higiene, o seu trabalho. Fórma-se uma existência interina, transitória, suplementar. Está-se em uma casa alugada por dois meses como hospede de uma noite em uma estalagem. Não se reside; pernoita-se apenas, e passam-se os dias. Com a supensão do trabalho esterilisam-se também as idéas, porque todo o trabalho é uma fecundação da inteligência. Assim todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de atmosfera moral, em que ordinariamente exerce a sua atividade, emurchece. O portuguez, que sempre lê pouco, no verão então não lê nada. Achei-me por muitas vezes durante a estação finda a bordo dos pequenos vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias. Os setenta minutos de estas breves viagens eram o tempo consagrado por cada um para, por meio da leitura, pôr as suas idéas em relação com os interesses intelectuais e Morais do resto do mundo. Fora do convez dos vapores de Belém ninguém nas praias lê, ninguém tem consigo um livro. Isto não é uma simples hipótese, é uma observação positiva. Em Pedroiços, por exemplo, a vida--toda de porta da rua--é transparente: vê-se o que cada um faz, quase que também se vê todo quanto cada um sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de Belém, único lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo, observámos durante o período de três meses consecutivos que ninguém lia senão almanachs, coleções de cantigas ou de charadas, e os periódicos de noticias. Que elementos para, a educação intelectual de alguns milhares de cabeças: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos jornais que o sr. comendador Santos foi á Outra Banda em partida da recreio, com os seus amigos, comer um safio!
Não foram essas porém as rasões porque As Farpas se calaram durante a estação calmosa. Os nossos motivos são inteiramente pessoais. Nós adoecemos... Perdoa, leitor benévolo, estas perigosas tendencias de um convalescente para a autobiografia. Não, não foi um dente novo que nos esteve crescendo. Nós não temos, como o imortal historiador a que acima nos referimos, a honra de abrir estas linhas oferecendo á pátria e á sr.ª D. Guiomar Torrezão mais um novo instrumento gloriosamente recemnascido para a trincadeira nacional.
O nosso mal, foi simplesmente uma afecção na laringe. Apanhámos isto no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulações que padecem os beduínos na mucose das pálpebras por efeito do pó nas peregrinações do deserto. O Chiado pagou-nos o péssimo gosto burguez, especieiro, indigno, abominável, de o frequentar, dando-nos esta doença climatérica e local. Os hospitais de S. José e do Desterro dão as desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio dão as febres paludosas e intermitentes; o Limoeiro e a Casa de detenção das Monicas dão as viciações do sangue e as escrófulas; o Chiado e o deserto da Arabia dão as afecções granulosas da laringe e dos olhos. Cada um dá o que tem.
A poeira do Chiado é uma especialidade curiosa, interessante, tão romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira é fina, miúda, subtil como a veloutine de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente, profundamente--como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as oftalmias e as esquinências--as duas maiores enfermidades de Lisboa. Não é simplesmente formada pelas triturações da terra esta poeira. Não, porque o solo em Lisboa não é de terra. Aqui a terra tem sido de tal maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquilo que primitivamente era a terra já não tem terra nenhuma. O solo de Lisboa é formado de sobreposições de estercos, de amalgamas de lixo, de restos pulverisados de fructas podres, de cães mortos e de papeis sujos.
De todas estas misturas requeimadas pelo verão, carbonisadas pelo sol canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os pés pressurosos do sr. conselheiro Arrobas, resulta o pó envenenado da capital. Os papeis velhos de Lisboa, dejecções burocráticas ou literárias dos bancos, dos cartórios, dos tribunais, dos escriptorios dos negociantes, dos jornalistas, dos advogados, dos tabeliães e do sr. Melicio, são de tal maneira abundantes que todos os esgotos da cidade não bastam para os engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoações suburbanas. A praia de Belém é ubérrima de papeis sujos, e Pedrouços, a mansão burgueza das vilegiaturas oficiais, parece-se no aspecto especial das suas imundícies com um corredor da secretaria das Obras Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos desvelos agronômicos do sr. Rodrigo de Morais Soares.
De modo que a antiga expressão «terra da pátria», com referencia a Lisboa e seus subúrbios, é figura de retórica em demasia arrojada. A pátria do lisboeta não tem terra, tem os agglomerados resíduos das podridões e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar descobre no azul o ponto escuro e indeciso de estas praias, procederá com louvável exactidão e amor da verdade se em vez do grito poético de «terra! terra!» começar a exclamar á vista de Lisboa: «Supedaneo de Melicio!»--ou--«Nitreira de Soares!»
Victima nós mesmo em todo o nosso aparelho respiratorio de essas influencias deletérias da geologia e da civilisação lisbonense, achamos prudente substituir--como fizemos--a convivência do publico pela do gargarejo.
No teatro de D. Maria, o drama--Idiota.
Suppoz-se pelos anúncios que Idiota seria uma peça sem nome do auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem peça.
No teatro de S. Carlos exhibição extraordinária dos pés do sr. Barberat. A primeira vez que este cantor apareceu em scena os violinistas da orchestra suppozeram que ele se lhes tinha calçado--nas caixas das rebecas.
Quando no dia da chegada ele pôs á porta as suas botinas para engraxar, os creados do hotel cuidaram que ele rescindira a escritura e se retirava, por se lhes figurar que o sr. Barberat tinha já no corredor as malas.
Em algumas alfandegas os guardas do fisco, desconfiados de ele, têm-lhe pedido as chaves dos pés!
Nunca até hoje puderam dormir juntos os pés e ele. Enquanto ele está deitado de costas, os seus pés estão erguidos, ao fundo do leito, embuçados em capas, contemplando-o, firmes e silenciosos. Pela manhã os pés estão mortos de sono e de fadiga, e para que eles se deitem um momento, ele então, compadecido--levanta-se.
Ou por que ele os não queira desasocegar de dia, lembrando-se de que têm de estar a pé de noite, ou porque eles mesmos se recusem obstinadamente a uma evolução a que debalde os têm querido algumas vezes violentar, o artista desistiu absolutamente de vestir as calças pelos pés e começou a vestil-as, como a camisa,--pela cabeça. Antes de chegar a esta prudente solução, o cantor, para conseguir vestir-se, era obrigado todas as manhãs ou a descoser as calças, ou a desmanchar os pés.
Uma das coisas que mais vivamente picou a curiosidade do publico nas primeiras vezes em que este artista se mostrou em S. Carlos foi saber como ele poderia cantar em um teatro pequeno para que pudesse estar mais alguma coisa em scena além de ele com os pés. O empresario acaba de confiar-nos a explicação de esse segredo, que ele nos permite enviar de aqui como uma dadiva sua á justa ansiedade das platéas. Mesmo porque o empresario atribui, com bastantes probabilidades de acerto, a esta preocupação do publico perante os pés fenomenais do baixo a frieza desdenhosa com que nas primeiras noites se escutou o canto tão vivamente sentido, tão profundo e tão genial da Galetti.
Pois bem, meus senhores, não pensem mais em isso. Querem saber como ele cantava nos pequenos palcos?...
Do mesmo modo que cantam os galos--em um pé só.
Á praia da Torre em Belém foi ontem arrojado pela maré o cadáver de um homem afogado Era ainda novo, robusto e forte. Estava vestido de pano azul. A jaqueta e o colete que vestia tinham botões de metal doirado com uma ancora em relevo. Na manga estava presa uma corôa também de metal. Tinha na algibeira um relógio e algumas moedas de prata portuguezas e brazileiras. As auctoridades da policia e da saúde vieram á praia e olharam para o cadáver, como a lei manda. Depois do que, oficialmente averiguado que estava ali efetivamente o cadáver de um afogado, pegaram nele, atiraram-o ao fundo de uma cova aberta á pressa na praia, e cobriram-o com alguns metros de areia.
Bem feita coisa!
Nem toda a gente vai para a sepultura com esta simplicidade de aparatos, a que podemos chamar o enterro incivil. Mas todos os cães se enterram por este modo, e não é por isso menos repousado o seu eterno sono. Além de que, é preciso que cada um se apresente na eternidade em condições que não desdigam da gerarchia em que viveu e do conceito em que o teve a sociedade e a opinião publica. Pretender o contrario é querer lograr a divina justiça sujeitando-a a iludir-se com o aspecto exterior dos mortos e a acolher com os mesmos cumprimentos na côrte do céu o primeiro aguadeiro que chegue assim como o mais digno e respeitável ministro de estado ou general de divisão que se apresente,--o que seria certamente para Deus um desgosto profundo. Logo: que cada qual morra como o que é e vá para o outro mundo como o que foi, para não pôr em equívocos a celestial etiqueta!
É um senhor conselheiro a pessoa que morre, na sua cama, victima da sua gota? Vestem-se-lhe as suas calças de presilhas e galão de ouro, e a sua farda bordada; prega-se-lhe no peito a constelação das suas placas de diamantes, faz-se-lhe a barba, retinge-se-lhe o cabelo, põe-se-lhe ao lado o espadim e as luvas brancas, o chapéu armado sobre o ventre e um pouco de carmim nas faces. E eil-o aí está em toda a plenitude e em toda a majestade dos seus meios físicos e da sua importância social. As pálidas Julietas dos sepulchros e as imodestas Rigolboches da tábida podridão e dos gulosos vermes do chic, que se acautelem de esse maganão de bom gosto!
Ele é poderoso: deixou na terra muitos necrológios e muitas missas, e vai optimamente recomendado pelo alto clero á especial proteção do Padre Eterno.
O que morre é pelo contrario um destes ínfimos e asquerosos animais, de jaqueta de pano azul com botões de ancora, que andam a bordo dos navios sobre a água do mar? Uma onda envolve-o no tombadilho e arroja-o ao abismo inclemente? Suspende-se então por dois ou três minutos a marcha da embarcação--um sólido paquete talvez, luxuoso, comodo, de uma forte companhia, em que tudo está seguro para os riscos da navegação, tudo menos a gente,--lança-se uma boia de salvação, arreia-se uma lancha com quatro homens, e alguns gentlemen que sobem á tolda, tiram dos estojos de couro de Varsovia que trazem ao tiracolo os seus binóculos e assestam-os sobre o elemento. Apesar porém de estas delicadas atenções, o bruto desagradecido desaparece. Dois ou três dias depois, a maré, com nojo, cospe-o á praia da Torre juntamente com outras imundícies.
Que queres tu de aqui, meu estupido? Isto não é nenhuma selvagem ilha deserta e encantada, querida dos luares transcendentes de que falam á fantasia as musicas de Bethowen e os versos do Ileine, e em que se figuram, sob uma luz de esmeralda, os bailados da opera.
Aqui não ha os profundos paraizos aquáticos habitados pelas ondinas e pelas sereias de beijos deliciosos e gelados. Não ha os duendes das fantásticas florestas que te suspendam, sob o luar impregnado de cálidos aromas e de nocturnas harmonias, nos berços aéreos das magnólias e dos lilazes em flor, nem benéficas deidades transparentes que te cinjam nos seus doces braços e te levem em uma festa nupcial para os seus leitos de algas, de coral e de perolas, no fundo dos dormentes lagos, sob as folhas dos nenufares.
Não, isto aqui é uma praia decente e grave onde os senhores oficiais de secretaria o os senhores desembargadores veem durante a vilegiatura sentar-se pela fresquidão das tardes, com suas mulheres, contemplando austeros e recolhidos as babugens da vasante e o fronteiro panorama, tão majestoso e solene, da Fonte da Pipa. É de esta praia que o senhor comendador Santos e o senhor comendador Firmo e o senhor comendador Eloy têm partido em fina companhia de virtuosas damas, com honestas guitarras e casto peixe frito, a bordejar no Tejo. É aqui que a ilustre e venerável burguesia de Lisboa faz as suas estações balneatórias. É em estas águas que ela anualmente refresca e desemporcalha a sua gorda carne. É aqui que o mesmo poder moderador tem vindo, por vezes, com sua augusta e elegante consorte demolhar no argento o excelso e inviolável sistema nervoso da monarchia e da constituição.
Portanto, ó imundo, tu que morreste afogado no oceano e te deixaste rolar para a praia da Torre, impertinente como o esqueleto de um gozo morto de fome na Trafaria, tu, imbecil, se querias mais alguma consideração, mais algum respeito com os teus restos, fosses cahir a outra parte.
Trazias algum dinheiro na algibeira, o suficiente para te pagares o luxo de um padre e de uma cova, mas, realmente tu não tinhas aspecto de mereceres a pena de que alguém se ocupasse por um minuto contigo.
Animal! se querias ser enterrado com respeito e comoção, se querias ter artigos nos jornais e padres a cantarem-te o De profundis, porque foi que em vez de te afogares de jaqueta, te não afogaste com uma farda de almirante, ou de casaca preta e grã cruz dentro de um coupé da companhia?!
Deixaste por acaso na terra uma velha mãe desamparada, uma esposa lacrimosa, uma filha orphã, uma família, a que seria doce ajoelhar sobre a tua sepultara ou plantar algumas flores sobre a terra que te cobrisse? Querias permitir-lhes essa extrema consolação? Deixasses-te ficar no Chiado ou no Terreiro do Paço, tornasses-te um dos elementos constituitivos da civilisação lisbonense, fizesses-te moço de recados, agiota ou empregado publico. Vive-se assim na corrupção, na usura, na humilhação ou na miséria, mas enfim morre-se bem, barato--e muito!
O Jornal da Noite publica uma conta de despeza feita pelo presidente da república dos Estados Unidos, Abrahão Lincoln, em um hotel de Albany. O ilustre democrata e as pessoas do seu séquito pagaram a soma de um conto e alguns mil réis por uma hospedagem de menos de vinte e quatro horas.
Este facto argumenta vivamente contra a opinião dos que acham as republicas mais baratas para os povos do que as monarchias.
Efetivamente vemos que, ao passo que o presidente da república da America do Norte faz um conto de réis de despeza em algumas horas em Albany e paga essa despeza, sua majestade o imperador da America do Sul dispende no Porto mil libras em quatro dias, e não as paga.
É indubitavel pois que as monarchias são incomparavelmente mais baratas do que as republicas.
Deve-se porém observar que, sob este ponto de vista, o descredito das democracias prodigas procede principalmente das estalagens exigentes. Porque está provado que sempre que um republicano em viagem pretende gastar tão pouco como um rei econômico, os estalajadeiros fazem ao republicano o seguinte: sequestram-lhe a bagagem.
Parece-nos arriscado estabelecer entre os príncipes e os povos esta perigosa competência de quem ha de pagar menos em viagem. Pois que, realmente, desde que as testas coroadas chegaram ao ideal de se apoderarem das contas e não pagarem nada, os povos só poderão desbancar os reis se, não pagando egualmente nada, começarem a estabelecer este uso: depois de se apoderarem das contas, apoderarem-se egualmente--das pratas.
Primeira aos membros da Associação Catholica no Porto
Meus senhores e minhas senhoras.--Em nome da Nosso Senhor Jesus Cristo e da Santa Madre Egreja Catholica Apostolica Romana, eu vos saúdo e vos desejo a divina graça. Como tenho obrigação de vos supôr--tais como o dizeis--sinceros e dedicados servos de Deus, devotados a cumprir a sua lei e a divulgar a sua doutrina, mais vos desejo que nunca vos persigam os bens e as riquezas temporais de que certamente vos despojastes para seguir a Jesus. Eu sei que o divino mestre, antes de mandar aos apóstolos que o acompanhassem, lhes ordenou que deixassem as redes, fazendo-nos sentir por esta fórma que ninguém póde estar com Deus estando ao mesmo tempo com o mundo, e que para ter os bens do céo é a condição essencial--abandonar os da terra. Primeiro: deixae as redes; depois: vinde comigo.
Amados irmãos, presumindo-vos pobres, desvalidos, tendo previamente dado o vosso pão aos que tinham fome e os vossos vestidos aos que tinham frio, eu desejo ainda sobre a vossa nudez a mortificação da vossa carne, a santa mortificação que raspa a vaidade e o orgulho e limpa o entendimento e a alma das lepras mundanais.
Que a graça de Nosso Senhor vos assista e que nada mais do que é temporal se vos pegue, porque em este mundo tudo é esterco: Omnia ut stercora, como muito bem disse S. Paulo!
Se vos não poderdes furtar aos contactos impuros do século, permita o ceo que em todas as vossas relações com a sociedade todas as invectivas e todas as malquerenças farisaicas vos punjam e vos espicassem o coração, assim como os chacais famintos furam e rasgam no deserto as tendas dos piedosos peregrinos. Porque--bem o sabeis--só com as inimisades do mundo podereis merecer e lograr a amisade de Deus:amicitia hujus múndi inimica est Dei.
Finalmente, meus senhores e minhas senhoras, resumindo os meus votos pelo molde mais consentâneo com as vossas aspirações, que o Senhor vos veja eternamente no céu e vos aplane o caminho da promissão, tendo-vos tanto de sua mão que nunca sobre vós deixem de chover as dores e as ruínas, por isso que, como diz o psalmista, será pela soma das vossas penas contingentes, transitórias e mundanais, que serão medidas as vossas alegrías celestiais e eternas!--Secundum multitudinem dolorum meorum in corde meo, consolationes tuae laectificaverunt animam meam.
Permittí-me agora que, antes de entrar em algumas breves considerações que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento na simples contemplação do nome que lhe puzestes.
Que razões poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes católica a associação que fundastes, aí no Porto, em certa casa da rua da Picaria? Que significa uma associação chamada católica no meio de uma sociedade egualmente católica? Quem é que não é católico em Portugal? Não temos nós todos a mesma religião, que não é uma religião especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religião do paiz, a religião do estado, a religião famosa da carta? Ignorais por acaso que nenhuma associação póde ser em Portugal senão isso--católica? Ignorais que não temos a liberdade dos cultos, a divergência de religiões?...
Ora, não havendo o mosaísmo aqui no Chiado, não existindo o panteísmo no Rocio, nem o luteranismo no Terreiro do Paço, nem o fetichismo no Arco do Bandeira, o que vem a ser um catolicismo da rua da Picaria na cidade do Porto? Terá caído o Porto porventura no paganismo idolatra? Estará ele sacrificando a Jupiter a sua rica vaca cosida? Tel-o-hiam levado os seus representantes, os seus filósofos, os srs. Faria Guimarães e Pinto Bessa, ás vertiginosas regiões do livre exame, onde o espirito humano, abatido, fatigado, morde na solidão o fructo amargo da sciencia?...
Não. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei aí no dia 24 de junho. A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos triunfais nas embocaduras das ruas, palpitavam á viração matutina bandeiras desfraldadas nas janelas das casas. Na rua de S. João os habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias de lanternas para luminárias, outros espetavam no chão mastros embandeirados; iam, vinham, falavam alto, tinham gestos abundantes e felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias até á porta de fieis que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e os foguetes furavam o límpido azul da manhã.
O Porto, onde em esse dia devia celebrar-se um grande meeting liberal, começava no emtanto--por festejar o S. João!
Portanto, meus senhores, se vós vos denominais católicos, não é porque suponhais que os outros o não são; é porque vos parece que o sabeis ser melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como únicos católicos perfeitos, católicos afiançados, católicos garantidos.
Se é isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a vossa associação, e não podeis querer dizer outra coisa, então--meditae-o--achais-vos em pecado mortal de soberba, de jactância, de presumpção de merecimentos.
Localisando por esse modo a religião na rua da Picaria, vós lançais tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem.
Pois bem, que a Picaria o saiba: a viela do Ferraz também vai á missa, e Deus sabe se jejua ou não, ás sextas-feiras, a Ferraria de Cima!
Advirtamos agora como a associação católica tem correspondido pela importância dos seus atos á audaciosa escolha do seu titulo.
Até o momento em que vós vos apoderastes do catolicismo para vos fechardes com ele na rua da Picaria, cabia ao catolicismo a gloria de ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano.
Foi esse pobre catolicismo, ainda então desprotegido do valioso patrocínio que em este século lhe devia conceder a vossa associação, meus ilustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi ele, ainda desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da imaginação dos povos o que ha mais belo nas artes, os maravilhosos poemas, as ternas legendas melancólicas, as portentosas catedrais. Foi ele que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhões a descerem o Vale do Danubio e a seguirem o caminho de Átila. Foi ele que inspirou Tasso e Dante. Foi ele que produziu S. Tomás, o boi mudo de Sicilia, o Aristóteles do cristianismo--como lhe chamou Michelet--, o mais poderoso cérebro da egreja. Foi ele que criou em Hispanha desde o século XVI até o século XVII no meio da maior escravidão e do maior fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo: Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon, Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo misticismo de «Quixote» é um reflexo do poder da fé em todos esses espíritos. Calderon era oficial do santo oficio e Lope de Vega desmaiava em êxtase ao dizer missa. O catolicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular, mais acessível, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante da plebe pelos privilégios do sangue, a egreja era o pórtico de todos os grandes talentos e de todas as elevadas ambições: o papa Urbano IV, filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha em ela, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pai fazendo sapatos.
Por outro lado o catolicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a carnificina nacional dos christãos novos, a Inquisição, a guerra dos trinta anos, os monges bretões que envenenaram o cálix de Abeilard e os dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe comungar o veneno na hóstia consagrada.
Protegido por vós, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade propagandista da rua da Picaria, o catolicismo portuense tem-nos dado apenas:--como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro patriotas á porta da Sé; como arte, a Palavra, um pobre jornal piegas, lacrimoso e beato, com pouca elevação, com pouco entusiasmo, com pouca fé, e com alguns erros de gramatica.
Ora realmente, meus senhores, para resultados tão medíocres não valia a pena de vos dardes o aparato de quem funda uma agencia para a Bemaventurança e nos fecha o céu--em um armazém de comissões.
Em 1849 havia na Itália uma propaganda católica, cujos membros todavia não chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os cavalheiros e as damas da rua da Picaria.
O chefe da propaganda italiana era um dos espíritos mais rectos e mais benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente falecido.
I promessi Sposi, o celebre romance tão conhecido, foi como o Gênio do Cristianismo, de Chateaubriand e como as odes religiosas de Lamartine, inspirado por essa reação católico-literária com que os românticos de 1830 bateram as idéas filosóficas do século XVIII.
Manzoni porém, servindo a causa católica como propagandista, e abrindo um exemplo que se tornou escola de muitos escritores e poetas italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros adoraveis,--e que vós, meus queridos senhores não resolvestes ainda começar a fazer na vossa oficina religiosa da rua da Picaria. Em segundo logar Manzoni considerava a idéa religiosa como um elemento de emancipação e de regeneração para a Itália então oprimida e escravisada. Finalmente Manzoni não tinha por fim especial glorificar os padres, arregimental-os, armal-os, pôl-os em pé de guerra, como o está fazendo a associação católica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia que os padres italianos do seu tempo eram, como Cantú os descreve tomado do mais santo horror: «glutões, avaros, estúpidos e bandidos». O perfil ideal do padre Borromeu nos Promessi Sposi não tinha pois a intenção de um retrato, era o estabelecimento de um novo nível para a opinião, era um exemplo, era uma lição dada pelo modo delicado e brando com que o desgosto profundo inspirara a alma Cândida e honesta do piedoso escritor.
Feita assim, em estas circunstâncias, em estas condições, por estes meios, eu compreendo a propaganda católica, e inclino-me respeitosamente diante dos que a servirem e a promoverem. Não me parece todavia que seja esse o caso da Associação católica portuense, nem no que diz respeito aos fins que ela se propõe, nem no que toca aos meios que emprega para conseguir o seu fim.
Que pretende a associação católica?
Libertar a pátria, chamal-a á independencia, fortificando com o sentimento religioso a fé patriótica, como fizeram Manzoni, Rosmini, Gioberti, Balbo e outros na Itália invadida pela dominação? Não, porque Portugal, é por enquanto independente e livre.
Estabelecer a catequese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? Não, porque, não sendo publicas as sessões da associação e não tomando parte em elas senão os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas crenças religiosas foram de antemão afiançados, estes acham-se satisfatoriamente moralisados e instruidos.
Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais profícua nos interesses da cidade ou nos interesses do céu? Também não, pelas razões seguintes:
Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma de estas três classes:--os indiferentes, os liberais e os reaccionarios.
O padre indiferente vive obscuro e tranquilo no fundo de uma aldeia entre a sua lavoira e o seu campanário. Baptisa as creanças, confessa os adultos e absolve os que morrem. Se não forem todos para o céu, a culpa não é de ele. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os domingos depois da missa conventual; se os não tomarem para seu bem, lá se avirão com o demônio no outro mundo e cá na terra com o regedor. De resto ele cava a sua horta, é grande madrugador, deita-se com as galinhas, diz a missa ao romper de alva, caça a perdiz no inverno e pesca os barbos no verão. Além de um bocado de breviário, não lê senão um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convém alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito, sanguíneo, infatigável companheiro na caça e na mesa, se tentardes esgrimir com ele algumas idéas politicas ou religiosas, algumas subtilezas de critica, de controvérsia, terá tonturas, arregalará os olhos, ouvír-se-lhe-hão rugidos interiores e não sentirá senão um desejo: o de vos açular ás pernas os seus cães e cascar-vos pela cabeça com o seu grosso marmeleiro argolado.
O padre liberal habita as cidades, lê os periódicos, intervém em eleições, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e protesta vigorosamente contra a reação e contra o jesuitismo, trazendo os dedos amarelos e tomando medicamentos secretos.
O padre reacionário anda quase sempre de loba; tem os olhos baixos, o passo miúdo e comedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda misturada com assucar; gordura fria e pálida, um tanto sinistra; mãos brancas, suadas, viscosas; pés moles, de pato, arrastando. O confissionario é para ele uma vocação, um destino, um prazer: é a sua arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um sofá e abastece-o de viveres: uma lata de pão de ló e copos com geléa. É aí que ele escuta, de olhos meio cerrados e mãos crusadas no peito, as confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos ás mães e aos maridos, os inveterados vícios escondidos e os grandes crimes ocultos, as obras e os pensamentos, os alvoroços da carne no meio da penitencia e da oração, as tentações do inimigo, os ardentes desejos diabólicos, os pungentes escrúpulos de alcova, a grande tragedia intima dos misticos e dos solitários. Ele escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga, minucia por minucia, as circunstâncias que aggravam e as circunstâncias que atenuam; disseca o pecado, desfibra-o músculo por músculo, nervo por nervo, artéria por artéria; depois reconstitue-o, recompõe-o, inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente--para a moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos retoques finos, dialécticos, incisivos do stylo teológico e casuístico dos comentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos romancistas psychologos dos vícios torpes e vergonhosos, cinge outra vez a pecadora, cólea-se estreitamente com ela como a serpente do Eden, envolve-a nas suas espirais, penetra-a da sua essência magnética, comunica-lhe a eletricidade dos seus filtros. É então, em esse momento terrível de crise, nevrálgico, histérico, alucinado, que ele critica friamente, com uma analise perpendicular, dominadora, arbitra da comoção; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou condemna, ele, ele em nome do Creador, a frágil creatura desmaiada aos seus pés. O padre reacionário faz parte da grande centralisação católica, é uma das rodas do grande machinismo, vive no sistema de partido como na obediência e na regra de um instituto. Não pensa nem discute. O seu rumo está tomado; segue-o apesar de tudo, através de tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranças de velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de confessadas. Vende água de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette. Cobra os dinheiros de S. Pedro e remete-os para Roma, assigna a Nação, e quase sempre é rico.
Dos padres de estas três categorias quais são aqueles que a associação Catholica influe, aconselha ou dirige?
O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associação existe. O padre liberal é seu inimigo e adversário intransigente. Resta-lhe o padre ultramontano.
Ora este último padre é o ôvo de que a associação Catholica é a ave. Ela não o modifica, não o educa, não o adverte, não o ilustra. Faz-lhe simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto, o sr. conde de Samodães aparece.
A associação Catholica celebra periodicamente reuniões, a que chama academias. Que se faz em estas reuniões frequentadas por muitas senhoras da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais inviolável e de mais sagrado?
Relevem-nos este ponto de interrogação, que não tem de nenhum modo a impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa parte como um simples ponto de perturbação e de pasmo.
Se os homens estivessem sós comprehendemos que as reuniões da associação Catholica fossem para eles um meio do repousarem suavemente das fadigas temporais, dos enganos do mundo, das ilusões e das vaidades do século. Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negócios, assignada a sua correspondência, pagas as suas letras, despachadas as suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar, saboreado o seu café e o seu kumel, eles encerrassem o seu dia juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de elegância nem de toilette, e que, em seguida, descalçassem as botas e dissessem: «Ora dissertemos lá um bocado sobre a imortalidade da alma!»
Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e belas, que hão de apear-se das suas carruagens, depôr os seus burnous no vestiaire e penetrar no salão, sob o gaz, em uma onda cintilante de setim e de renda, que farão os homens?
Hão de se ter espalhado na atmosfera os perfumes da toilette, os murmúrios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras finas, magnéticas, que susurram sob a palpitação dos leques. Suppomos que não ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas não poderão dirigir-se imediatamente ao sr. padre Couto para que as faça valsar; não estarão patentes os últimos telegramas dos sucessos de Hispanha; não haverá um serviço de gelados trazido em bandejas de prata por criados de calção curto: não se terá á mão um numero da Ilustração nem um álbum que se folheie...
Estranha perplexidade!
Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um fauteuil, de se aproximar de um grupo e de lançar um assumpto pela seguinte fórmula: «Minha senhora, será vossência assaz boa para querer fazer-me a honra de me dizer se já tem interlocutor para uma breve dissertação sobre os novissimos do homem?»
Ou talvez que haja uma organisação parlamentar para a distribuição dos assumptos e para a ordem das discussões. E em esse caso, reunido o claustro pleno, será o sr. conde de Samodães quem abrirá as sessões, persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo:
--«Dou a palavra ao relator da comissão encarregada de dar o seu parecer acerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores e minhas senhoras, está em discussão o Espirito Santo.»
Porque emfim, meus senhores, celebrando como católicos as vossas academias religiosas, das duas coisas uma: ou vós estabeleceis a controvérsia e discutis os cânones e os dogmas, ou não a estabeleceis e não os discutis.
No primeiro caso usurpais os poderes que só competem aos concílios, entregais aos debates da razão as matérias de obediência e de fé e cahis no racionalismo herético.
No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vós não tendes o direito de fazer senão uma coisa: elevar humildemente ao céu os vossos espíritos e prostrar-vos na penitencia e na oração.
Mas para os exercícios da oração e da penitencia vós tendes a egreja para rezar e a solidão no interior das vossas casas para meditar o arrependimento. Para semelhantes efeitos congregar os fieis nos salões da rua da Picaria é desviar dos templos a corrente natural da devoção e arrancar do interior da família o saudável recolhimento dos propósitos bons.
Eu creio profundamente que entre vós existem homens dignos, honrados, de uma piedade límpida, com as mais rectas intenções de espirito e de consciência. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas, constituem a grossa maioria dos vossos consócios. Por isso vos consagro, passando, esta palavra séria:
Nada mais funesto para os costumes do que ensinar ás mulheres que ha instituições especiais para o serviço de Deus, para a conquista do céu, para a remissão da culpa. O posto digno da mulher christã é em sua casa ao pé dos seus filhos. Os exercícios espirituais e as contemplações misticas escurecem a alegria domestica, alvoroçam a virtude, perturbam a consciência. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com toda a responsabilidade do seu destino, á missão sublime da regeneração do homem pela atração do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja a atenção da mulher dos interesses da família é cometer para com a moral um sacrilégio. A casa conjugal também é um templo, e a maternidade é uma religião.
Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possível ser amável comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista. Olho-vos como christão, olho-vos como católico romano, olho-vos como cidadão, olho-vos como simples espectador, como diletante. De todos os modos vós me pareceis ou incongruentes, ou ridículos, ou absurdos.
Todavia, meus senhores, depois de tão exactas observações, eu não concluo que dissolvais o vosso sínodo e que vos retireis para vossas casas. Os senhores liberais, que vos combatem, são egualmente incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais cômicos do que vós, e os senhores liberais também se não retiram.
Eles dão morras ao papa, chefe supremo da religião católica e todavia continuam a dizer-se católicos. Odeiam e guerreiam os padres e no emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as suas filhas á catequese. Insultam a teologia do vosso jornal a Palavra mas não aceitam com ele a controvérsia porque não sabem teologia. Não lhes importa o irem para o inferno, mas não querem ir para o Carmo. O seu ateísmo leva-os a quererem «esmagar o infame» como eles mesmos dizem, mas com a clausula de não molestarem com essa operação os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr. Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vós festejaveis com um Te Deum na egreja da Sé o aniversario de Pio IX: estaveis inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos princípios. Eles, em vez de combaterem com uma afirmação de sciencia a vossa protestação de fé, esperaram-vos á porta da egreja, deram vivas á liberdade, a Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infalível. Foi com esta elevação de critica que analisaram o Concilio do Vaticano, consti. 4.ª cap. IV De infallibilitate romani pontificis magni, a qual constituição nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas, prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periódicos liberais chamam os conflictos da liberdade e da reação religiosa na cidade do Porto!
Profundas graças ao Altissimo, que não são inteiramente estas as circunstâncias que determinaram as antigas crises do poder entre os burguezes do senado do Porto e os poderosos barões feudais da Sé portuense ou do balio de Leça! Os srs. padre Rademaker e padre Couto não afivelaram os arnezes de aço dos antigos bispos e dos freires hospitalários, não reuniram os seus sergentes e homens de armas, não mandaram erguer as levadiças dos seus paços acastelados nem desembainharam as suas espadas famosas... Não, eles apenas entoaram a ladainha de todos os santos, e prometeram, não excursões armadas sobre os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e bençãos telegráficas aos seus adeptos.
Ora não vemos realmente em que estas coisas possam aterrar a liberdade e sobresaltar o paiz.
É singular esta coincidência:
O clero católico tem hoje em toda a Europa o papel simpático. Os únicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa são os paizes católicos. Na Russia, na Alemanha, temos o despotismo e a perseguição protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra os sacerdotes católicos. No novo império do rei Guilherme, o patriotismo reforça-se na religião do estado; a recente legislação alemã submete todos os casos de disciplina eclesiástica e todas as deliberações episcopais ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer autoridade eclesiástica estranha á nacionalidade alemã.
Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela força, a egreja católica--quem o diria!--apela para as garantias espirituais e quer a distincção dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Alemanha os ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus últimos entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!... Ele já não quer exercer a sua velha tirania, contenta-se em não suportar a perseguição; e, como todos os martyres, pede a liberdade como o extremo refugio das consciências apavoradas.
Violentamente ferida no coração, perseguida pela força, a egreja apresenta esse symptoma infalível da sua suprema dor--o grito das garantias espirituais, o apelo em última instancia para a distincção dos poderes.
Pio IX, fortificado no Vaticano, como em uma cidadela gloriosa, desmoronada e vencida, posto que respeitada, sofre as últimas consequências fatais da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e corajoso, esse velho batalhador venerável, despojado da sua corôa temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu desprezo, arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excomunhões a opinião liberal em último sacrifício a uma causa perdida.
É curioso até o ponto de se tornar ligeiramente cômico que seja este o momento escolhido pela burguezia portuense para começar a apontar-nos a egreja católica como um perigo para a liberdade!
No Porto os livres pensadores da calçada dos Clerigos principiam agora a receiar que os católicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a desmaiada e quase esvahida legenda pontifícia o poderoso mundo scientifico moderno.
Pela sua parte vós, católicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e as vossas filhas, entoais ladainhas e procurais com preces e com penitencias desaggravar a divindade ofendida com as invectivas dos periódicos liberais--no que nos parece que confundis também um pouco a religião com a sacristia, e tomais frequentemente o sr. padre Couto pelo Padre Eterno. É o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A civilisação precisa de vós, não como elemento reconstituinte, mas como producto lachante. A sciencia estima-vos... como droga. O velho mundo invoca a vossa assistência para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio burguez em que existis, vós sois certamente um absurdo. Perante a filosofia vós sois porém uma necessidade histórica. Nos anais do progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como o curioso epitáfio de uma geração que se extinguiu ha tresentos anos. Porque a verdade é que vós representais as idéas do século XVI.
A associação católica do Porto instituiu-se para quê? Vós mesmos o estais dizendo todos os dias: Para salvaguardar a fé religiosa da corrente invasora do ceticismo moderno.
Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo ceticismo, cuja corrente vós pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revolução scientifica do século XVII e toda a civilisação subsequente até os nossos dias.
O ceticismo é o estado de espirito que medeia entre a superstição e a tolerância. Ha mais de um século que nenhum pensador grave se intromete na vossa controvérsia teológica. Ninguém vos combate, ninguém mesmo vos discute. O mundo novo está já na tolerância, quando vós combateis ainda o ceticismo de que a tolerância é o fructo!
Duvidar, meus bons amigos, é exercer uma das mais poderosas e mais fecundas faculdades da razão humana. Para chegar á verdade não ha senão esse caminho: a dúvida. Para chegar a Deus, que não é outra coisa senão a expressão teológica da verdade, o único meio é também esse: a dúvida. Primeiro que tudo dúvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal é a marcha invariável dos espíritos na sua grande ascensão do imperfeito para o absoluto.
O mesmo cristianismo não poderia nunca ter principiado a existir se não o tivesse precedido a dúvida nas consciências da antiguidade pagã. Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter Capitolino. A tradicção christã é uma conquista do ceticismo antigo. A dúvida foi a primeira e a mais augusta expressão da revelação divina.
A dúvida tem sido em todos os tempos a luz imortal e a guia suprema do entendimento humano. Foi a dúvida quem levou Colombo ao novo mundo, Copernico e Newton á astronomia, Boyle e Pascal á hidrostática, Galyleu á mecânica e Lavoisier á chimica.
Se nas profundidades da nossa alma o ceticismo não tivesse existido sempre como uma indomável força inextinguivel de perfectibilidade indefinida, a sciencia astronômica não viria ocupar o logar da astrologia, a física e a chimica não substituiriam a alchimia, e a imagem de Cristo crucificado não sucederia nos altares do Vaticano ás estatuas dos dois mil deuses da Roma antiga.
Quereis a definição precisamente scientifica do ceticismo? Ouvi Buckle, o historiador da civilisação: ceticismo é a dificuldade de crer; de sorte que o ceticismo que se augmenta é a percepção augmentada da dificuldade de provar asserções, ou, em outros termos, é a aplicação augmentada e a difusão augmentada das regras do raciocínio e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitação é em todo o campo do pensamento o preliminar invariável de todas as revoluções intelectuais por que tem passado o espirito humano; sem o ceticismo, progresso, mudança, civilisação, tudo seria impossível. Na física é ele o precursor necessário da sciencia; na politica o precursor da liberdade; na religião o precursor da tolerância.
Ora defendendo a integridade da fé, vós fazeis á filosofia este serviço relevante: suggeris a dúvida, procurais acordar a razão individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu tão larga e tão arrojadamente, como no seio da egreja christã, a qual apesar de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais forte núcleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes desenvolvimentos da inteligência e da vontade.
De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve ser especialmente grato e reconhecido, porque vós o dotastes com um estabelecimento que Lisboa ainda não possui--A associação católica da rua da Picaria,--a qual, á similhança dos antigos moinhos do Tibet e das cabaças rotatórias dos Kalmuks, assegura á comodidade dos habitantes um sistema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo, de adorações e de preces.
Algumas das famílias que durante a estação finda se achavam a banhos de mar em Pedrouços, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna, misteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belém, iluminaram-o com balões de papel como as gondolas do canal da Zueca que deslisam em frente dos terrassos do palácio Barbarigo no primeiro ato da Lucrecia. Para que a comoção de todas as pessoas que tomaram parte em esta scena fosse profunda e ilimitada, os homens tinham-se apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de barcarola. O jubilo era indescriptível.
Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direcção de Caparica.
O Tejo porém estava grosso e picado, de modo que começou a dar ao vapor uns balanços intermitentes para um lado e para o outro como de quem escabacea com sono. Com isto principiaram a manifestar-se com uma insistência progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da assembléa. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados á morte, procurando sorrir á catástrofe com sorrisos dilacerados como os que apresentam os cotovelos rotos, enrolavam-se nas suas capas e prostravam-se como trôchos inúteis nos bancos da tolda. As senhoras punham os seus lenços na boca, corriam a mão pela testa, cuspiam desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extáticos e doloridos como de quem está escutando no ar o rumor de uma angustia que chega.
Então o sr. Matias Ferrari, segundo lemos no Diario de Noticias, «fez correr um abundante serviço de neve». Todos se serviram.
Os efeitos foram tais que quando os criados repassaram com a segunda roda de sorvetes, todos os convivas, com as bocas ainda abertas, estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram outra vez--os primeiros.
Então um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violão, tentando arrancar a companhia a uma consternação abatida e geral, começou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chácara. Mas, de repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabelos, encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violão desfalecido nos braços das senhoras, e o resto da chácara destinada aos ecos nocturnos do oceano e recolhida pelos circunstantes em uma bacia.
Era imenso a bordo o desalento.
Matias Ferrari, descorçoado, abatido, já «não fazia correr os serviços.» Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situação com a profundidade da sua critica, comprehendera--e muito bem!--que a questão ali já não era de fazer correr, mas de fazer parar.
Era alta noite quando o vapor abicou outra vez á praia de Belém, recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se passara tão belo tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude dos reiterados exforços que tinham feito no mar para puxar para fora o interior, sucedera-lhes terem-o efetivamente conseguido, e haverem chegado todos a terra--pelo avesso.
Com a mais extranha comoção lemos ultimamente que fora nomeado aio de sua alteza o príncipe real sua ex.ª o sr. Martens Ferrão, abalisado jurisconsulto e procurador geral da corôa.
É talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros burgueses como nós somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que possam ser perante a educação e perante a sciencia as atribuições especiais de um aio junto de um príncipe. Todavia--debalde procurariamos escondel-o--em presença de semelhante assumpto, profunda e ilimitada é a confusão do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se nos representem as diferenças que devem distinguir o alto e poderoso filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo, nunca, por maiores que sejam na direcção do infinito os arrojos da nossa fantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcançar, nem pelas presumpções mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais afastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar um príncipe aos préstimos de um aio. Para satisfação de que necessidades, de que conveniências ou de que simples formalidades, em que condições, em que circunstâncias, em que especial momento da preciosa e augusta vida do real infante vai sua excelência o aio á presença de sua alteza o príncipe?!... Nós o ignoramos.
Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu espirito, das curiosidades da sua inteligência, dos interesses da sua instrução, sua alteza pedirá naturalmente algum dos seus mestres ou algum dos seus livros, e a sua alteza será então aplicado um professor de línguas, um compendio do sr. João Felix ou um numero do Diario de Noticias. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das urgências físicas da sua naturesa, das fatalidades animais do seu organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedirá o seu banho, o seu jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e então os camaristas de sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumprirão os desejos de sua alteza.
E não vemos, nem na ordem física, nem na ordem moral, nem na ordem inlellectual das relações de sua alteza com o mundo externo, a necessidade, a conveniência ou a plausibilidade da intervenção do aio.
A não ser que a concorrência de esta legendaria entidade metafisica se deva considerar nos reais paços como um acepipe hors de oeuvre ou como um objecto suplementar de recreio, porque então comprehendemos de certo modo que ao serviço particular de sua alteza um camareiro exclame:
«Está o lunch na mesa: ha galantine, rabanetes e o sr. Martens Ferrão com salsa picada e manteiga fresca.» ou então: «Eis os brinquedos de sua alteza: aqui está a bola de guttapercha e a caixa com o sr. Martens Ferrão de engonsos.»
Se porém--e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica palavra «aio», devemos entender a idéa perfeitamente logica, sensata, popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um amigo, de um companheiro, em esse caso notaremos com o mais profundo respeito a Sua Majestade a Rainha, dedicada mãe e primeira educadora do joven príncipe, que foi singularmente iludida a sua perspicácia elegendo o sr. Martens Ferrão como conselheiro oficial e privado de seu filho, como guia experimentado da Cândida existência inexperiente do inocente alumno. E isto por uma razão que de nenhuma maneira desabona os altos merecimentos de sua excelência o actual senhor procurador geral da corôa, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razão é que: o sr. Martens Ferrão, pela sua natureza, pela sua organisação, pelo seu temperamento, pelo seu caráter, pela sua biologia, é tão inexperiente, tão cândido, tão ingenuo, tão inocente e tão puro como o próprio alumno que ele é chamado a aconselhar e a dirigir na difícil e complicada navegação da vida.
Passando em tenros anos do regaço de aquela que lhe deu o ser para os braços da austera jurisprudência, que tinha de amamental-o para a sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferrão tem até hoje passado a sua vida en nourrice em casa do Direito Publico.
Os seus dias têm decorrido transcendentemente fora das condições históricas do tempo e do espaço. A sua existência tem sido exclusivamente mistica e simbólica. Quando tem os seus ímpetos mais ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, ele sae a passear pelas viçosas campinas da filosofia do direito e faz patuscadas orgíacas e escandalosas com as origens célticas do direito e com as liberdades municipais do império romano. Depois o remorso apodera-se de ele. No dia seguinte acorda pálido, abatido, com a língua grossa: o espectro pavoroso e formidável do sr. Batbie apareceu-lhe em sonhos, e ele ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite e do arrependimento: «João Batista, para onde deixaste o direito de punir? que fizeste do direito administrativo, João? que é do direito internacional, Batista?!» Tais são os seus dias de mais desdem, de mais anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal é o seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisação districtal e para as reformas de administração! Tal, resumidamente, é ele! E quando dizemos ele, cometemos uma incerteza de concordância, porque tão pura, tão transcendental, tão scientifica é a personalidade do sr. Martens Ferrão, que nada obsta a que a historia referindo-se a sua excelência, em vez de dizer ele, diga--ela. Pela nossa parte, aguardando acerca da resolução de esse ponto as ulteriores disposições definitivas da posteridade, diremos por enquanto simplesmente el, sem a desinência de gênero, sob a respeitosa formula neutra.
Como diziamos, pois, tal é--el.
Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeação do sr. Martens Ferrão para aio do príncipe real--note-se bem isto--não é a sorte de sua alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia... Ah! não! É pelo contrario o destino de sua excelência o que nos inquieta sob a influencia de um tal companheiro. Por ele podemos estar perfeitamente socegados. Mas el? o que será d'el, el tão puro ou pura, tão cândido ou Cândida, sob os impulsos da nova existência que repentinamente vai no seu temeroso vértice arrebatal-o ou arrebatal-a?!
Na vida da côrte, fina, cintilante, irritável, cheia de factos, de comoções, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de surpresas, de malicias, de tentações, quantos perigos, quantos laços, quantas ratoeiras para a inocência virginal, para a Cândida pureza inexperiente e inerme d'el!...
Os príncipes por efeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada, monótona, amam naturalmente a escapada, o mistério, a aventura, a inocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutável, a longa capa dramática e a espada ligeira e subtil dos paladinos;--o que se lhes deve relevar, porque é esse o único despique dos príncipes para a seca oficial dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos sensaborões e dos hipócritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porém não são ainda para el os únicos perigos. Não é licito esconder que ha outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias tempestuosas de esse elemento, terrível para a mocidade, que se chama--a mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicícia do sr. procurador geral da corôa, mas esta é a verdade que não devemos ocultar aos olhos de sua excelência. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em todo o tempo a mulher atraiu o homem, assim como a vinha da Itália chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Elas chamam-nos, ó srs. procuradores gerais da corôa, elas chamam-nos! Lembremo-nos da bela Helena, sr. Martens Ferrão, lembre-mo-nos de Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas!
Os príncipes não estão mais isemptos que os outros homens de esta lei geral da humanidade, e os que vivem com eles--ponderemol-o bem--ficam sujeitos ás mesmas influencias que envolvem os reis.
Guilherme VII, cuja fé religiosa era tão ardente que ele foi á Terra Santa com cem mil homens, o próprio Guilherme VII levou também na viagem do Santo Sepulchro a galante legião das suas amantes, e diz de ele uma velha crônica que, bom trovador e bom cavaleiro de armas, por muito tempo correra o mundo para enganar as damas. Tal é a raça de que eles sáem, ás vezes, quando não sáem piores que o mistico e piedoso Guilherme! Que a actual procuradoria geral da corôa enquanto é tempo o medite!
De Francisco I, um dos mais sábios e dos mais uteis reis que tem tido o mundo, diz-se que ás belas milanezas se deve a mais importante parte na perseverança com que ele combateu pela conquista da Itália.
Sem falarmos na cohorte das pecadoras, tão gentis como funestas, dos boudoirs de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e ferozes mulheres da côrte de Carlos IX, Catarina de Medicis, Maria Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a Passefilou... Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa!
Supondes que a educação, os exemplos salutares e os conselhos sábios possam preservar os príncipes dos perigos das suas ligações clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na própria convivência legal das mulheres legitimas!
Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a expressão pitoresca de um chronista das galanterias escandalosas do século passado, começava então a tomar o gosto ao champagne. O rei resolveu em esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e são sabidos os desgostos e as desgraças que o rompimento de essas relações custou á felicidade da França e á moral da Europa. Que remorso para o aio de Luiz XV! Foi de ele a culpa de esse desastre. Se o aio do joven rei, em vez de começar a tomar o gosto ao champagne juntamente com o seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e antigo soupeur, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao homem pela bebida e pelo amor, ele teria evitado o divorcio do rei.
Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a autoridade da experiencia, que a intemperança nas ceias e o abuso no champagne produzem as hepatites, as predisposições para a apoplexia e para a gota e a manifestação das areias no rim. Se o príncipe não obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, em esse caso o seu aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum homem vai conversar com senhoras sem ter concluído a sua digestão e sem haver previamente lavado a boca com um elixir dentífrico. Um pequeno passeio ao ar livre, uma gota de láudano ou uma pastilha, qualquer de estas três coisas ministrada oportunamente por um aio inteligente e dedicado, teria obstado ao rompimento das relações de Luiz XV com sua mulher e a todas as consequências que de aí se seguiram.
Algumas vezes sucede ainda que, além de todos estes desgostos, de estas decepções e de estes remorsos, os aios, os validos, os íntimos dos príncipes levam ainda por cima pancada das princezas. em este ponto as chronicas são prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha tais acessos furiosos de mau gênio que um dia vasou um olho do seu próprio confessor batendo-lhe com uma bengala que tinha no castão um bico de pássaro. Esta mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolável e sagrada da real majestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeças dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de uma vez mandou matar por ocasião de um passeio, aos próprios olhos do soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra vez impoz para o outro mundo um cortezão antipático, estafando-o com uma corrida que o obrigou a dar em uma caçada.
Ora se a corôa tem por um lado a obrigação de escudar a infância e a inocência dos príncipes, não deve por outro lado sacrificar a inexperiencia inerme das instituições pondo os srs. procuradores gerais como barreira entre as tentações e as culpas, lançando emfim a alta magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondável em que ha o espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques, os sorrisos tentadores e as bengalas de castão de bico.
Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admitidas a jantar com as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de mar, e de emigração, em Lisboa pedem-nos a nossa intervenção para dirigirem àquelas senhoras, aliás tão distinctas e tão interessantes, uma pequena observação que os seus amigos mais dedicados se não atrevem a fazer-lhes diretamente.
Suas excelências têm á mesa o terrível habito de comerem o peixe com a faca, o que os admiradores mais entusiastas do fino sal de espirito de suas excelências e do seu poderoso encanto de maneiras, não podem abster-se de considerar como uma concorrência temerária feita por suas excelências aos acrobatas dos jogos malabares, únicos entes que insistem em acumular os seus méritos pessoais com o talento suplementar de meterem as facas pela boca.
... Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto entregarem-se a este exercício, servem-se o seu rodovalho á parte, e comem as facas--sem peixe!
Submetemos estas simples reflexões a suas excelências, as quais em seu delicado critério decidirão se, atentos os graves cuidados que nos inspiram, devem ou não continuar a manter--na lista dos seus acepipes predilectos--os faqueiros.
Durante este mez, tão inquieto, tão palpitante de comoções, em toda a Europa, os príncipes com mão nervosa e febril cultivaram a epístola.
O Santo Padre escreveu ao imperador da Alemanha, o imperador da Alemanha escreveu ao Santo Padre, o conde de Chambord escreveu ao deputado Rodez-Benavent, o sr.D. Miguel de Bragança escreveu ao sr. conde da Redinha, e a historia em geral e os redactores da Nação espeialmente, escutaram com ardor o frêmito de essas penas riscando a face do universo com letras um pouco menos correctas que as de Cicero, de Plinio o moço e de madame de Sevigné.
O Santo Padre pede ao imperador Guilherme que obste a que o governo da Alemanha persista na perseguição do clero católico. O imperador Guilherme roga a Sua Santidade que impeça o clero católico de proseguir na rebelião contra o governo da Alemanha.
de este modo o Papa deseja que se retire da scena o martírio, a grande e bela apoteose da egreja triunfante, e lembra ao verdugo que sirva aos martyres o antigo fel das legendas gloriosas com o moderno assucar dos confortos policiais.
O imperador opina que amargo de mais é o próprio cálix que o obrigam a tragar, e tirando da cabeça o seu ponderoso capacete bélico de ponta de para-raios, e humilhando-se dentro das suas botas de couraceiro, ele--abatido, beato, lacrimoso--pede egualmente para as suas tribulações de christão as correspondentes e proporcionais doçuras.
E tais são os dois máximos guardas da fé, os dois sumos representantes na Europa moderna dos dois grandes ramos em que se acha dividida a christandade!
Oh! Voltaire compungir-se-hia, e, franzindo em um sorriso bom os feixes malignos das suas sarcásticas rugas, ele, o caustico filósofo, o livre espirito, tirando benévolo dos bolsos da sua houppelande de veludo e martas a caixa das suas pastilhas, ofereceria ás potestades chorosas os bombons sacrílegos dos salões de Mesdames du Deffant e de de Lambert.
A carta do conde de Chambord é o velho golpe astuto de Jarnac jogado ao constitucionalismo monarchico.
O príncipe a quem a França oferecera a corôa burgueza de Luiz Filipe, pergunta-lhe o que exige de ele a França, que papel lhe destina, para que missão o invoca.
Vós, que estais na liberdade, na democracia, na república, cedeis ao invencível apetite de aclamar um rei. Comprehendestes que é superior aos vossos meios repressivos e reorganisadores a perturbação corrompida da sociedade em que viveis. Duvidais da vontade, da inteligência, da força do vosso acordo colectivo. Quereis uma iniciativa individual, culminante, prestigiosa, predestinada para o mando, para o triunfo, para a gloria; quereis o monarcha eleito como Saul «para livrar o seu povo das mãos dos seus inimigos», segundo a formula primitiva do profeta Samuel.
em esse caso armae a vossa catedral de Reims, convidae os vossos príncipes do século e da egreja, trazei a corôa real, a espada, as esporas, a dalmática azul, as botinas de seda estrelada de lizes de ouro, entregae-nos o sceptro de Carlos Magno, e dae-nos as sete uncções de Pepino o Breve. Depois do que, nós haveremos por bem deliberar por quais secretos caminhos nos apraz mandar-vos, segundo as vossas gerarchias, para a Vitória, para a bemaventurança ou para a força. Enquanto vós, tranquilos, repousados, deixareis definitivamente de ocupar-vos da coisa publica, e, sem ambições, sem princípios, sem idéas, tereis a felicidade absoluta da besta no seu aprisco; hoc erit jus régis qui vobis imperaturus est.
Se, em vez de isto porém, o que desejais ter é, não uma força omnipotente que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para me outorgardes a corôa, precisais de me tirar a iniciativa, a personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inofensivo é preciso que eu vos mostre ser pôdre; se as garantias que me pedis para que vos não domine são uma fraqueza, uma corrupção, uma inépcia que vos assegurem a facilidade de me dominardes a mim, então não: não vos convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da força e da miséria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias consecutivos, olho a olho, dente a dente, braço a braço, o que de Dieppe escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaçadas e um gibão roto nos cotovelos!
Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parábola. em este baile a primeira figura era um rei que terminava a execução de um entrechat cheio de garbo e de pompa alongando um pontapé ao fundo das costas do seu primeiro ministro; este transmitia o pontapé real ao segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais viva e espirituosa corrente de pontapés que se tem visto em uma côrte, até que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo hemisfério posterior o último pontapé era o paiz--que ficava com ele.
Nas monarchias constitucionais imaginou-se reconstituir, por meio da carta, essa graciosa dança, alterando porém a colocação do soberano ou a ordem dos pontapés, de maneira que ou o príncipe está em baixo e os pontapés vem de cima, ou o tirano está em cima e os pontapés vão de baixo.
Os povos monarchicos julgam-se felizes tendo cada pessoa ao lado de si alguém a quem transmitir o pontapé em giro através das instituições e da politica. A carta do conde de Chambord não é em resumo senão o testemunho de uma divergência com a assembléa nacional sobre este ponto importante do bailado em ensaios: quem é que recebe o pontapé?
A um paiz corrompido e a uma assembléa senil não ocorre esta consideração tão simples: que quando se trata de um stigma de servilismo e de baixeza a questão não é poder transmittil-o, é não dever aceitá-lo. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se corrompem é abdicar a faculdade de demitir a corrupção. Os reis quando não enodoam os povos, também não lhes tiram as nodoas que eles tenham. em esses casos o que limpa um paiz não é a realesa. Quereis saber o que é? Pois bem! É a benzina!
A carta do sr. D. Miguel de Bragança ao sr. conde da Redinha é ao mesmo tempo o tocante documento da estima inviolável de um amigo ausente, e o autentico manifesto politico de um príncipe proscripto.
Sua alteza declara ao seu paiz que quer ser o protetor e o amigo de todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambição e sua maior gloria--restaurar o trono pontifício. em este simples traço encarna sua alteza a expressão politica da sua índole,--o que nos parece de uma moderação de intuitos demasiadamente modesta.
Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legião invalida dos tiranos burguezes, dos cezares bonacheirões, Neros de barrete de dormir, Caligulas dispépticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da revalenta arabica. A politica afirmada por sua alteza acusa uma visível pobresa de sangue. Sua alteza é um anêmico. Tal é o infortúnio da nossa raça! Que degeneração!
O pai do joven príncipe D. Miguel era sanguíneo, esse. A sua extraordinária força muscular era a admiração respeitosa, a maravilha profundamente inclinada do sport lusitano de 1827. Nas redondezas do paço de Queluz, nas terras do Infantado, via-se ás vezes atravessar os campos, a pé, caçando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de meia estatura, de sólidos hombros, faces morenas, barba rapada, mãos enormes, beiços sensuais, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares; vestia um casaco de baetão verde, calção preto, botas altas, de cava, com tações de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivência dos plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversação, comprazia-se em ensinar a lavrar os moços do campo: tomava na mão esquerda a rabiça de um arado, azorragava com a direita uma parelha de mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa pressão do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte cavalo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava pela boca, que juntava e cerrava no punho, um saco de sete alqueires do trigo, e lançava-o ao hombro, com uma só mão, erguendo o braço por cima da cabeça e conservando o corpo imóvel, erecto e firme. Quando vinha de Queluz a Lisboa, galopando á desfilada, com uma vara debaixo da perna, entre os seus companheiros mais assíduos, João Sedvem, o picador, o José Verissimo, o da policia, a força de soldados de cavalaria que o acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroçada pela fadiga: ele nunca chegou senão só. No dia em que recebeu ao pé da mata, na Quinta Velha, onde estava caçando ao falcão, por volta das duas horas da tarde, a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e levou para França todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, ele veio de Queluz a Belém, em menos de três quartos de hora. Esse homem que tinha a grande popularidade que trazem consigo as legendas da força e da destreza física, era sua majestade el-rei o sr. D. Miguel I.
O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos. A sua politica era apoplética simplesmente porque ele era pletórico.
Esse príncipe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente assim como fisiologicamente, toda a sua personalidade, fez á liberdade e ás idéas modernas o mais relevante serviço: foi ele o que fabricou o partido liberal portuguez.
Os constitucionais foram uma invenção da policia do sr.D. Miguel. Eles não combatiam o direito divino, nem os privilégios da nobreza e do clero, nem o regime absoluto, nem a servidão popular; o que eles combatiam principalmente era o José Verissimo. Affirmavam-se os direitos do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do João Sedvem. Os revolucionários portuguezes não vieram da sciencia, não vieram do amor da justiça, das impaciencias da liberdade, dos contágios da Convenção, da revolta da dignidade humana. Não. Eles vieram simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despótico recalcou de mais a força viva da nação. Os princípios eram o pretexto sob o qual se vingavam as ofensas feitas não ás idéas vigentes, mas aos interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A idéa exposta na organisação da Companhia dos vinhos preocupava mais os espíritos em Portugal do que o principio representado em França pela existência da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham amado a liberdade com devoção mais intensa que a do Sedvem e que não teriam posto dúvidas irremissiveis em continuar a «dobrar a cerviz, ao jugo da tirania» como se dizia no stylo do tempo; somente o que eles tinham recusado era emprestar algumas moedas ao José da Policia. Para a maior parte da gente a Vitória da idéa liberal foi simplesmente a morte do Teles Jordão. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragança, primeiro, foi o príncipe cuja força fez na monarchia portuguesa o rombo por onde a liberdade apareceu. O sr.D. Miguel de Bragança, segundo, figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma pessoa extremamente debilitada. Ser o protetor e o amigo de todos os portugueses é enfraquecer-se difundindo-se. Os antigos fortes concentravam-se.
Pobres de nós! Como somos diversos de nossos pais! Os pletóricos, sangrados, legaram á geração que lhes sucedeu a impotente anemia!
Acabamos de lêr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de três meses e a respeito do qual ainda não ouvimos á critica uma palavra de menção. Foi abafado pelo silencio. Se lhe não dessem esse destino teria sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fora da rotina, fora da convenção, fora do compadrio, por um espirito justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem. Intitula-se--Portugal e o socialismo, e é escrito pelo sr. Oliveira Martins.
A literatura portuguesa actual apresenta este notável caráter:--o bysantinismo. Ela não é um documento histórico, nem um documento moral do tempo em que vivemos. Não tem importância na direcção dos espíritos, não tem influencia na formação dos caracteres, não tem validade no estabelecimento dos princípios. Não dá nenhuma teoria á razão, não dá nenhuma lei á consciência, não dá nenhuma norma á dignidade.
A imitação, a convenção, o servilismo, o estreito espirito de seita, de partido, de escola, a ignorância, a indolencia, a bajulação, a ortodoxia oficial puzeram a pouco e pouco as letras portuguezas inteiramente fora do seu objecto--a simples e pura verdade humana.
O que actualmente se escreve não é absolutamente nada o que actualmente se pensa. Todas as grandes questões capitais que preocupam a sociedade, a literatura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as não sabe tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de interesse, hostil á sciencia e rebelde á arte.
Entre tantos escritores portuguezes que quotidianamente enegrecem em Portugal o inocente papel sobre o qual se orça a medida das nossas faculdades, onde está o homem cuja obra represente o precurso das idéas predominantes de este século através de esta sociedade? Onde está o artista, onde está o filósofo, onde está o poeta que tenha atacado de frente a solução desinteressada, independente, firme, clara, nítida, dos múltiplos problemas que agitam o espirito, a consciência, o coração do homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religião e da politica da sociedade moderna?
Será tal escritor o sr. Alexandre Herculano, filósofo colaborador da sr.ª D. Guiomar Torresão no Almanack das Senhoras?
Será o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do sistema representativo?
Não nos parece.
O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica do tempo actual, que têm procurado introduzir na literatura as idéas correspondentes ás preocupações, ás necessidades e aos interesses mais altos, mais legítimos e mais vitais da sociedade em que vivem, fixando assim scientificamente algumas das bases do programa geral da revolução por meio da qual se vai transformando o mundo europeu.
Esses humildes obreiros, aos quais cabe a gloria de terem iniciado em Portugal quase todos os grandes princípios das civilisações modernas, não têm encontrado, como galardão dos seus estudos, da sua independencia e da sua andácia de pensadores, senão a surda guerra das maledicências, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo, pelo fanatismo, pela ignorância. Accusam-os de atentarem contra a moral, contra a religião, contra a ordem, contra o patriotismo, e expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da consideração social como jacobinos, como comunistas, como incendiários.
É do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina tão sensata, tão viva, tão humana:
«Portugal não tem pauperismo. É por isso que entre nós se não levantaram ainda, nem se levantarão já, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como em Inglaterra: «A pobreza é infame.» É por isso que a definição inglesa da fabrica--manufactura de algodão e de pobres--não pode servir-nos. O não atingirmos porém um termo tão elevado de preversão social não quer dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz, extractivas e transformadoras, encontrem para cá das nossas fronteiras um modo de vida essencialmente diferente. Não, a nossa organisação politica, semi-monarchica, semi-liberal, dá em resultado ser duplamente absurda, imoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permite a livre concorrência do capital e do trabalho, aliena as funções e propriedades colectivas, e, para corrigir as consequências de distribuição viciosa que de aí resultam, mantem uma proteção anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, proteção que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condições do trabalhador pela elevação no preço das coisas. Acima da preversão econômica devemos pôr a preversão moral. No pequeno mundo industrial de Lisboa, não contaste nunca, leitor, aos sábados o numero de ébrios que póvoa as vielas escuras e nauseabundas, onde á crápula vem juntar-se a orgia das mulheres perdidas? Onde o prostíbulo está em frente da taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostíbulo e a taberna, se funde a feria?
A desordem e a imoralidade são contra a natureza. Se esses homens não fossem pobres seriam melhores. Se não tivessem de trabalhar doze horas para comer saberiam ler. Se tivessem pão e liberdade seriam pais de família. Olhae as mulheres e as creanças. Termo médio a família tem quatro pessoas; termo médio o salario é de 400 réis. O trabalhador recorre ao celibato, á prostituição, ás relações illicitas, de onde resultam os infantecidios (tão frequentes em Portugal como na China) e a roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem de aço morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caráter ou uma constituição artística e sentimental levaram ao casamento e á família: é então que se encontram quatro pessoas com quatro tostões por dia. A industria oferece uma tentação diabólica: augmentar o salario destruindo a família. em esse momento a esposa e os filhos entram na fabrica...»
A fabrica é para as mulheres e para as creanças o sepulchro do pudor, da honestidade e da saúde. Enquanto as instituições sociais não assegurarem á mulher o seu legitimo logar na família é absolutamente preciso que, pelo menos a protejam na miséria fatal da fabrica. Porque nas fabricas portuguezas o que sucede com a mulher é que, pela sua fraqueza e pela sua ignorância, ela é no trabalho o escravo do homem. Ninguém entre nós tem lançado os olhos a esses desgraçados destinos obscuros.
Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres desapareceu com a machina de cozer. A mulher não póde sustentar essa concorrência, porque ela não póde, por maiores que sejam os esforços dar por suas mãos mais de 30 pontos por minuto: a machina dá 643 pontos no mesmo espaço de tempo. Para se empregar em outros serviços precisaria de uma educação preparatória pratica, para a qual são indispensaveis as escolas profissionais que não existem em Portugal. Em França, na Inglaterra, na Alemanha e principalmente na Suecia, as mulheres habilitadas em cursos especiais têm já muitos empregos uteis na industria e no comércio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres empregadas no comércio e na industria. de estas 2:675 dirigiam os seus próprios negócios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietárias de fabricas e de oficinas. Além de isto muitas outras se achavam empregadas nos bancos, nas caixas de socorros, nas companhias de seguros, etc. com emolumentos anuais variando de 800 a 5:000 rixdalers. No serviço dos correios, dos caminhos de ferro, dos telégrafos, a mulher alarga de dia para dia os seus domínios. A America, a Suecia, o Wurtemberg, oferecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades.
Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas repartições de estatística com optimos resultados para o serviço publico. Os cuidados aos doentes são um belo emprego para o trabalho das mulheres. Na Holanda muitas têm sido auctorisadas a tirar diplomas de farmacêuticos. A profissão medica tem-lhes sido permitida em diversos paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias outras universidades ha um considerável numero de alumnos do sexo feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um fundo permanente de socorros para as mulheres que seguem a carreira medica.
A última exposição de Vienna veio provar ainda quanto as mulheres se têm ultimamente ocupado nas artes industriais e nas belas artes. Na exposição sueca vê-se no pavilhão dos productos da industria o perfeito exito com que as mulheres têm cultivado em aquele paiz a pintura, a gravura em madeira, a xilografia, a litografia, a gravura em cobre, a fotografia, a cartografia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na Suecia concedeu-se-lhes acesso, como aos demais empregados, nos serviços dos telégrafos, dos correios e dos caminhos de ferro. Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas são empregadas nas academias, nas imprensas e em outros estabelecimentos como xilografas, impressoras, compositoras, directoras de oficina, etc.
Na Suecia ha hoje imensas escolas sustentadas pelo governo, pelas comunas e por associações particulares onde ensinam ás raparigas pobres todos os trabalhos femininos do «ménage». Ha escolas especiais destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas têm á sua disposição a escola industrial de Stockolmo, as escolas normais reais, o instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a academia real de musica, a academia das belas artes os estabelecimentos de instrução das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram subsídios a três raparigas que estudam por conta do estado. Depois da Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriais nocturnas. Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionais de diferentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter ás mulheres meios de subsistência (Frauenerwerb-Verein). Além das escolas preparatórias para a instrução geral elementar e para a instrução superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura três anos, uma escola de desenho industrial, uma escola de comércio, uma escola de línguas, um curso especial para as empregadas na telegrafia. Na Holanda é na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade feminina não só nos trabalhos manuais, tais como o bordado, costura á mão e á machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturação comercial, legislação comercial e farmácia. Na Alemanha do norte e na Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriais fundadas por sociedades especiais e por outras corporações para a educação das raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excelente escola de ensino comercial para as raparigas da classe burgueza e da classe operaria. As mulheres que sáem de esta escola encontram imediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de comércio.
A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina de S. Petrsburgo ás mulheres habilitadas com determinados títulos de capacidade. Logo depois da promulgação de esta lei, quatrocentas mulheres se apresentaram como candidatos á frequência da aludida faculdade.
Sabem dizer-nos o que é que, sob este ponto de vista, se tem feito em Portugal? Esperamos que suas excelências os senhores conservadores se dignarão responder-nos.
O sr. marquês de Vallada mandou correr este mez os reposteiros brasonados dos seus salões para inaugurar as soirées elegantes do presente inverno com um jantar prié.
Assistiram todos os membros do gabinete e vários outros personagens ilustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta em essa reunião selecta: a ausência absoluta de senhoras no palácio do nobre fidalgo. Bem sabemos que um jantar não é precisamente como uma valsa para a qual a gente não ha de ir convidar a lagosta, nem dançar com o perú. Mas mesmo para o que é comer não basta apenas a comida. O sr. marquês sabe a este respeito a opinião de Savarin: o bruto pasta, o homem come, só o homem de espirito é que sabe comer. Ora uma duzia de barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma mesa não nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina. É preciso que concorram também as senhoras, com a toilette, com a fina pele, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevação finalmente, com a idealidade, com o espirito.
Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso, dando o braço a alguém, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos obscuros, com a claque debaixo do braço; entrar na sala de jantar, tépida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela natureza das fructas e pela fórma das flôres trasvasadas do plateau, procurarmos o nosso nome nos bilhetes que estão em cima dos guardanapos; sentarmo-nos ao dôce murmurio dos vestidos que se enfôfam ao nosso lado e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo, frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos os cotovelos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; meter na boca a primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre suco dos espinafres, em quanto a nossa vizinha da esquerda mete a sua luva enrolada no copo do Madeira, e a nossa vizinha da direita morde atrevidamente no pão deixando-nos vêr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que as suas perolas... isto é realmente acharmo-nos em um dos momentos mais augustos que a civilisação e a elegencia concedem ao homem em paga dos sacrifícios que ele lhes tem feito nos esmeros da educação e na alta cultura do espirito. É então que as mulheres, somente as mulheres--elas que vivem na graça e no mimo como os solitários vivem no egoismo e no tédio--desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quais adejam as conversações, as fantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas sobre um ramo de rosas.
Se em esses momentos os homens se acham sós, ou caem na bestialidade indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam, falam alto, gritam, põem os cotovelos na mesa, fazem gestos, fazem bolas de pão, dão estalos com a língua, limpam as unhas, e quebram palitos nos dedos--o que ha mais implicativo dos nervos e mais ofensivo do gosto.
Consta-nos que pelas razões referidas o jantar do sr. marquês tocou um pouco no tétrico. O silencio era a principio tão solene que apenas se ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo esôfago do ministério e a ordem e a guarda municipal mastigando pela boca do sr. barão do Zezere. Tinha-se ar de se estar em uma sessão deliberativa e não em uma festa; parece até que o sr. marquês de Avila, o ilustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrara gravemente preocupado ao ponto de que, sendo a sua intenção pedir-lhe Sauterne, lhe pedira a palavra.
Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expôr o objecto de aquela reunião, o qual, segundo referem os jornais, foi:
Affirmar a adhesão do sr. marques de Vallada á monarchia.
Achamos extremamente louvável e digno de ser imitado por todos os fidalgos portuguezes o exemplo dado pelo sr. marquês de se sacrificarem pelo trono ao ponto de não hesitarem um momento, para o salvar, em irem... para a mesa!
Os vossos avós, quando queriam dedicar-se ao esplendor da corôa iam bater-se em Arzila, em Ormuz, em Ceuta, em Tanger, descobriam terras, venciam batalhas, conquistavam reinos.
Quereis provar-nos que ainda guardais nos vossos archivos as antigas cartas do roteiro dos mares? Que ainda tendes nas vossas panóplias as duras armaduras e as famosas lanças dos vossos maiores? Muito bem! Visto que não podeis refazer o que está já feito por eles, começae pelo menos a realizar o que eles tantas vezes omitiram: jantae!
E a corôa verá, pela maneira como vos mostrardes aptos para comer, quanto sois capazes de amar.
Assim como o Castro forte dizia que por cada pedra da fortaleza de Diu ele daria um filho, mostrae vós que por cada perna de perú trufado sereis capazes de dar um avô. E o soberano, jubiloso e grato, contemplando por cima da gloriosa terrina da historia contemporânea, os feitos valorosos dos vossos garfos invenciveis, apreciará os vossos títulos de imortalidade, discriminando, no ardor e na confusão das refregas, os que se lhe dedicam até ao pato com arroz, os que o estremecem até ao frango com hervilhas, os que o idolatram até ás salchichas com couve lombarda!
Mas por Deus, meus senhores, consenti que vol-o repitamos: Não excluais dos ágapes patrióticos com que preparais a entranha para a comunhão monarchica, o doce elemento feminino, o melhor encanto do triunfo, o mais alto premio do heroísmo, o mais precioso complemento da gloria! Se a prosmicuidade dos sexos insuperavelmente vos repugna, que alguns de vós pelo menos se sacrifiquem ás conveniências da arte, ás prescripções do belo, e salvem sequer as aparências--vestindo-se de mulheres!
Animo, senhores comandantes dos corpos! animo, senhores oficiais maiores! animo, senhores ministros de estado! É por elas, que vos pedimos isto, pelas que tiveram sempre o seu logar nas nossas gloriosas tradicções dymnasticas! Lembrae-vos de elas, e ide lançar-vos aos pés da Aline! Lembrae-vos de elas, e consenti em decotardes os vossos hombros! Elanguescei, meus senhores, reclinae meigamente as frontes, cerrae levemente as pálpebras, agitae um pouco os vossos leques, dae suspiros, ponde tações de setim escarlate, vinde de cuia! e, sobretudo--não o esqueçais--trazei tournure... Que vos custa trazer tournure? Uma coisa tão fácil, que se traz como as patronas!
É pelo trono, pelo mesmo trono de que vos declarais adeptos, que vos suplicamos isto! é pelas vossas excelsas e augustas soberanas, não representadas no vosso banquete... Em nome de Mecia Lopes, meus senhores! Em nome de D. Urraca!
A imprensa de Lisboa não tem opinião. Aqueles dos seus membros que por excepção presentem as idéas próprias, vivas, originais zumbindo-lhes importunamente no cérebro, enxotam-as como vespas venenosas. É que a missão do jornalismo portuguez não é ter idéas suas, é transmitir as idéas dos outros. Por tal razão em Lisboa o homem que pensa não é nunca o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver. Nunca procura a verdade. Procura apenas a solução achada pelo publico, pelo publico de ele, pelo seu partido politico, pelos consócios do seu club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes. Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Paço, nos corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no Gremio. Como trabalha? Trabalha de este modo: informando-se;--é o termo technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde que tem a informação recebida tem o jornal feito. O que ele vos escreve hoje--notae-o bem--é o que vós lhes dissestes ontem. O jornal não é uma fonte de critica, de analise, de investigação. O jornal é o barril de transporte das idéas em circulação, das soluções previamente recebidas e aprovadas pelo consenso publico. O jornalista é o aguadeiro submisso e fiel da opinião. Não a dirige, não a corrige, não a modifica, não a tempera. O único serviço que lhe faz é este: transporta-a dos centros públicos aos domicílios particulares. O publico é a nascente, é o veio, é o manancial; a imprensa periódica é simplesmente--o cano.
Essa é a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda a transgressão de essa lei é um eminente perigo para o que a comete. O leitor portuguez não quer que o seu livro ou o seu periódico o obriguem ás fadigas da discussão e da controvérsia com o seu próprio espirito. A conquista desinteressada e pura da verdade não tem atrativo algum para as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiais da alma portuguesa repastam-se no sentimento: a reflexão molesta-a. Entre tantos escritores nacionais nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant seriam inteiramente impossiveis no seio de esta sociedade, a que falta a respiração logo que a tirem da rotina. Não se lhes dá, aos leitores portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade através da opinião. Ninguém pensa fora das matérias da ordem do dia. «Que ha de novo?» é a nossa pergunta de todas as manhãs. Esta frase profundamente característica quer dizer: «Dêem-me a senha e a contrasenha; digam-me em que pensam para eu saber o que hei do pensar.» O meu jornal vem bom ou vem mau segundo é ou não é em cada dia a expressão das minhas convicções baseadas em idéas preconcebidas na convivência do publico. O critério é substituido pelo mot de ordre.
Se em um tal meio intelectual aparece um miserável solitário, que não tem um partido, que não tem um centro, que não tem um club, que não tem sequer um botequim, mas que, não obstante, segue os sucessos do seu tempo e exprime a respeito de eles uma opinião absolutamente individual, isto é--livre, sobre esse homem caém todas as suspeitas, todas as presumpções malévolas que acompanham através de uma multidão apalavrada um intruso misterioso e sinistro. Tal é a especie de acolhimento que por diferentes vezes nos tem sido feito e que mais particularmente nos foi manifestado depois da publicação do nosso último numero a propósito de dois artigos, um consagrado ao sr. Alexandre Herculano, outro destinado á casa de correcção instalada no convento das Monicas.
Lemos alguns dos artigos que nos foram consagrados, e achamo-nos inteiramente edificados acerca do nosso desacato ás instituições publicas e da nossa irreverencia com as glorias nacionais.
Somente, meus senhores, uma coisa nos parece ter-vos esquecido, e é: demonstrar-nos que a reverencia das instituições e o respeito das celebridades gloriosas seja um instrumento de critica ou um meio de analise. Porque nós--talvez o não tenhais comprehendido bem--nós não somos propriamente os mestres de ceremonias da geração a que pertencemos. Não estamos aqui a lecionar mesuras nem a praticar experiencias sobre a variedade das curvas mais ou menos inclinadas a que se nos presta o espinhaço. Nós somos apenas uns simples chronistas do tempo que vamos atravessando. Somos os contribuintes especiais do mez para a historia geral do século. Ora não será pondo-nos humildemente de cocoras no chão que nós veremos de mais alto as coisas e os homens. No exame e na apreciação dos factos o mínimo vislumbre do respeito é um perigo da verdade. Michelet, demolindo no seu último livro a legenda napoleônica filha da reverencia da historia pelo falso heroísmo de Bonaparte, mostra-nos que a fascinação grosseira produzida pelo «herói de Marengo e de Austerlitz» teria caído perante o bom senso e perante a gargalhada, se a França não tivesse perdido, depois do Terror, o riso, a sua grande arma contra os tiranos.
O primeiro dever da critica diante dos grandes acontecimentos e dos grandes personagens é simplesmente o desprezo ou a zombaria... Michelet diz mesmo «o sacrilégio» como instrumento da verdade! e aconselha-nos que imitemos como historiadores o exemplo de Renaud de Montauband pegando em um tição para barbear Carlos Magno.
De resto, meus senhores, para que se mantenham na decência do culto as tradições patrióticas, parece-nos inutil que nós nos ocupemos de isso. Lá estais vós, diligentes e sólitos, para espanardes as teias da aranha aos velhos princípios, para varrerdes as instituições veneraveis, e para conservardes em bom estado os heróis e os sábios, limpando-lhes as golas das sobrecasacas, engraxando-lhes os sapatos e pondo-lhes rapé novo no nariz.
Chegámos tarde para falar da grande tragedia monumentosa do Mexilhoeiro. O paiz inteiro se pronunciou já sobre este caso, o maior da historia contemporânea. O facto tem sido largamente tratado em artigos de jornais, em folhetins, em trechos de romance, em pias legendas, em dramas, em te-deuns cantados em todas as catedrais, em polkas expressivas, em missas rezadas em todas as egrejas, em felicitações de todos os municípios, em sentimentais mazurkas.
Uma só coisa nos parece que falta, e é a que propomos: um monumento que eternise tão alto sucesso, levando ás gerações vindouras esta lapide:
AOS MOLHADOS POR UMA FRIA TARDE NO PEGO DO MEXILHOEIRO A GLORIA RECONHECE em ESTE MONUMENTO OS IRREFRAGAVEIS DIREITOS DE TÃO ILLUSTRES VICTIMAS Á CONSTIPAÇÃO
INDEX
Dos volumes de esta crônica
PUBLICADOS ATÉ HOJE
I--Maio................... 1871
II--Junho.................. »
III--Julho.................. »
IV--Agosto................. »
V--Setembro............... »
VI--Outubro................ »
VII--Novembro............... »
VIII--Dezembro............... »
IX--Janeiro................ 1872
X--Fevereiro.............. »
XI--Março.................. »
XII--Abril.................. »
XIII--Junho a julho.......... »
XIV--Julho a agosto......... »
XV--Setembro a outubro..... »
XVI--Novembro............... »
XVII--Dezembro............... »
XVIII--Janeiro a fevereiro.... 1873
XIX--Março a abril.......... »
XX--Outubro a novembro..... »
Nota. de hora avante cada um dos volumes de esta publicação será marcado com o correspondente numero.
As Farpas, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, reúne em um único registro canônico onze fascículos integrais do Project Gutenberg, de 1873 a 1883, conservadoramente normalizados para PT-BR moderno.
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