Universo da obra
Universo da obra
Era em uma bela manhã do mez de março. A primavera, essa filha do amor e da brisa--como diria o sr. Antônio de Serpa se as conveniências partidárias lhe permitissem ainda dedilhar a teorba sob o lirico balcão de D. Mafalda--tinha estendido sobre as campinas o seu manto de esmeraldas. Nas estradas que convergem a Lisboa um alegre raio de luz animava a circulação da vida suburbana. Havia um novo tom festivo no chocalhar das recuas dos almocreves, no rodar das pesadas carroças da hortaliça de que se exhalam emanações apetitosas de cuentro e de pimpinela, no tic-tic do passo miúdo e zeloso dos jumentos saloios ajoujados de bilhas de leite e de seirões de roupa lavada. A água das regas rumorejava suavemente por baixo da macia verdura aveludada dos favais. As cotovias cantavam na espessura das hortas. Pelos portões das quintas, de pátio ajardinado, saia em cálidas baforadas o perfume dos limoeiros. Por cima dos muros pintados de amarelo bracejavam sobre os caminhos as hastes dos pecegueiros em flôr. Uma aragem tépida e balsâmica caía do céu azul e envolvia em um doce torpor voluptuoso e suave os nervos dos lisboetas que madrugavam voltando de Cintra ou desembarcando na gare de Santa Apolonia.
Foi dominado por essas influencias do clima, da paizagem, dos aspectos da natureza, que o sr. Fontes Pereira de Melo deliberou deitar-se abaixo do governo, retirando-se ao diletantismo particular e abandonando aos que iam pela via a burrinha pacata e fiel do poder, que ele cavalgara em cinco anos de choito glorioso através das diversas províncias da publica administração.
Somos informados de que s. ex.ª, reunindo os seus colegas do ministério e os seus mais íntimos amigos políticos, lhes falara de esta arte:
Senhores! Achando-me esta manhã á janela do meu quarto, fazendo algumas considerações filosóficas e a barba, deliberei apear-me por algum tempo da azemola do poder.
Vozes de amigos íntimos desapontados.--Oh! oh! Não o cremos!... Não o podemos crer!... É um gracejo, um puro gracejo de s. ex.ª! Que a burra do poder venha á presença de s. ex.ª para que s. ex.ª a cavalgue! S. ex.ª não pode assim descer da burra! Seria altamente impolitico deixar-nos em este momento com a burra devoluta nos braços! deixar-nos, para assim dizer, com a burra atravessada na garganta! Haja ao menos um pretexto, haja uma razão!
O sr. presidente proseguindo: Quereis uma razão? Eu vol-a dou. Acho-me impossibilitado de proseguir províncias da publica administração além. Á força de meditar nos altos negócios do estado acaba de me cahir um dente...
Vozes--Dê o dente para ordem do dia!
O sr. presidente (tirando o dente da algibeira e colocando-o na discussão)--Aí tendes o dente. Abri sobre ele os mais largos e rasgados debates, e julgae-o como vos aprouver. É um queixal. Nada mais acrescento. Sobre este ponto considerações de melindre pessoal me inhibem de continuar. Farei apenas sentir aos meus amigos políticos e aos meus colegas do gabinete que nem a camara nem o paiz nem a corôa poderão, segundo penso, exigir da minha fidelidade partidária que eu sacrifique á investigação dos negócios os dentes que o meu ardente patriotismo me impõe a obrigação de reservar para os inimigos da pátria. Tenho dito.
(Vozes:--Muito bem! Muito bem!)
O sr. Manuel da Assumpção, havida então vênia para falar, consta que estendera a dextra sobre o dente, e proferira com ardor e entusiasmo as seguintes palavras:
«Meus senhores! Este dente é a pagina mais gloriosa da nossa historia. É efetivamente um queixal, como s. ex.ª muito bem disse na sua frase tersa, de uma energia e de uma concisão dignas de Tacito. Ha oito dias que os jornais que nos guerreiam lançaram este dente na tela da discussão, procurando fazer acreditar ao paiz e ás nações extrangeiras, por meio de insinuações malévolas, que ele é canino. Mandando o dente para a meza o sr. presidente acaba de confundir de uma vez para sempre os seus adversários. Queixal! Longa foi a tua carreira gloriosa. Enraizado no queixo de s. ex.ª atravessaste com ele as mais duras provações de uma carreira brilhante. Roeste o pão negro do ostrocismo. Atolaste-te na lampreia de ovos das doces ilusões. Mascaste a cabedela dos terríveis desenganos. Depois de cada um de esses estádios na senda dos progressos materiais e Morais, s. ex.ª, com mão decisiva, palitava-te. Um dia porém, á meza do orçamento, no grande banquete da civilisação, em esse campo de batalha onde se travam os combates incruentes do progresso e onde o talher de s. ex.ª por muitas vezes fulgurou desembainhado ao sol das victórias, tu, depois de uma violenta refrega, com umas amêndoas torradas de exercícios lindos, com uns biscoitos de gerencias anteriores, e com algumas outras verdades duras de tragar, apareceste furado. No dia seguinte s. ex.ª chamava ás armas a reserva e um dentista, e tu, ó dente, recebias como os bravos o baptismo do chumbo. A bala inimiga....
O sr. Presidente--Tomo a liberdade de interromper o ilustre deputado e meu nobre amigo para lhe fazer notar que o dente não recebeu o baptismo do chumbo sob a forma de bala, mas simplesmente sob a forma de pingo.
O orador--Do mesmo modo então que um fundo de chaleira?
O sr. Presidente--Precisamente do mesmo modo.
O orador--Agradeço infinitamente a s. ex.ª a informação que acaba da prestar-me, e, se s. ex.ª mo permite prosigo, pondo de pane a piada relativa á bala do inimigo...
Dente! cahiste alfim. A tua queda tem o caráter de um triunfo, pois não cahiste arrancado por uma oposição acintosa e malévola; cahiste porque tinhas os teus dias cheios e um pouco também porque estavas podre.
Que mais queres, ó dente? que mais desejas? que mais ambicionas?...
O sr. Presidente--Peço perdão para ainda uma vez interromper o ilustre deputado, rogando-lhe que não tome por incivil o silencio do dente ás suas interrogações. O dente é hoje a primeira vez que aparece em publico separado dos seus companheiros, e deve-se ter em conta o justo acanhamento que a sua nova situação lhe infunde. Eu acho-me porém habilitado para satisfazer a curiosidade do ilustre deputado em quanto ás ambições do dente logo que s. ex.ª o exija.
O orador--Como deputado da maioria tenho a declarar ao sr. presidente que nunca dirijo ao governo, nem no seu conjuncto nem separadamente a nenhum dos seus queixais pergunta alguma para que deseje resposta. As minhas interrogações são puramente retoricas. O silencio com que fui escutado pelo dente não somente me não escandalisa mas antes pelo contrario me penhora como um testemunho de benevolência a que não ousava aspirar.
Concluindo, tenho a honra de propor que, depois de embrulhado respeitosamente em um papel, o dente seja levado ás plantas do poder moderador, para que sua majestade haja por bem resolver como lhe aprouver esta passageira crise. Faço votos por que o sr. Presidente do conselho se apresse em pôr ao serviço da nação um novo dente.»
Approvada unanimemente a eloquente proposta do sr. Assumpção, o sr. Presidente do conselho recolheu-se a sua casa a tomar bochechos emolientes enquanto o resto do ministério partia para o Paço a levar ao soberano o dente resignatário.
Constou pelos jornais quo apenas recebera o dente sua majestade se dirigira a casa do sr. presidente do conselho, com o qual teve uma entrevista de duas horas. Estas duas horas foram empregadas pela corôa em procurar reintegrar, pelas suas próprias mãos, o dente caído na maxila do ilustre estadista.
Diz-se que a corôa, suando em bica, esgotara, para consolidar o dente caído no seu logar primitivo, todos os meios compativeis com as disposições do código fundamental da monarchia. Sua majestade tentara fixar o dente ao chefe do gabinete com obreias, com adhesivo, com lacre, com pez, com goma arabica, com barbante, com alfinetes e com pregos.
O dente reagiu a todas as reais instancias: o excelso politico, em cujo queixo inferior ele se firmara durante cinco anos de gerencia governativa não queria mais a confiança da corôa, queria unicamente cosimento de malvas.
O monarcha lavrou então o decreto mandando o seu antigo ministério bochechar, e encarregou o sr. marquês de Avila e Bolama de reunir com os seus amigos o numero de dentes necessários para formar uma gerencia duradoura e firme.
de este encargo se desempenhou o sr. marquês com o zelo que o caracterisa, e o actual ministério nasceu.
Um dos nossos mais distinctos amadores, o sr. Luiz de Campos, acaba de dotar o teatro de D. Maria com um drama, cujo exito constitue o maior triunfo modernamente alcançado pelas letras portuguezas.
Não só os jornais todos consagraram a esta obra louvores emitidos com uma energia desusada, mas até a alta sociedade, de ordinário tão parcimoniosa de curiosidade dispendida com a arte, patrocinou com especial favor esta peça. O auctor teve a gloria de ver os seus finais de ato aplaudidos do fundo dos primeiros camarotes pelas mãos mais aristocráticas. Nas situações patéticas do seu assumpto lagrimas ilustres sulcaram o pó de arroz com que se perfumam os brazões das mais nobres e distinctas famílias. Finalmente no fim do espectaculo o Poder Moderador, que assistira á representação em companhia da sua família, expediu um dos seus camareiros, o qual foi ao palco cumprimentar o laureado dramaturgo, pedir-lhe desculpa de lhe não pingar do alto do trono sobre o peito da casaca a comenda de S. Tiago, e entregar-lhe em vez das insignias de essa ordem excelsa e em nome do referido Poder um cofre com uma pedra preciosa, que os jornais do outro dia pela manhã almotaçaram em 1:500$000 réis.
O drama do sr. Luiz de Campos intitula-se Leonar de Bragança e encerra a historia de aquela desditosa, cuja mocidade e beleza feneceram de súbito, surprehendidas no ventre por três facadas com que a brindou seu esposo, o mui nobre e poderoso duque de Bragança, um dos antepassados do Poder que hoje nos rege, e ao qual, bem como á sua família, acima tivemos a honra de reportar-nos submissa e respeitosamente.
O pretexto sob o qual D. Jayme damnificou com instrumento perfurante o abdômen de sua mulher foram os amores de esta com o pagem Antônio Alcoforado.
Existiram efetivamente esses amores? Era a duqueza realmente culpada de uma fraqueza anormal pelos pagens? Era Alcoforado um honesto e leal servidor do príncipe D. Teodósio, ou era uma ratoeira vil de duquezas incautas?
Ha duas opiniões acerca do modo de considerar no teatro a natureza de este facto.
Na sua Leonor de Bragança, escripta em prosa, o sr. Luiz de Campos entende que a duqueza é inocente. Na sua Leonor de Bragança, escripta em verso, o sr. Alfredo Ansúr julga a duqueza culpada.
Os fados, que tão propícios foram á obra do festejado sr. Campos, trataram adversamente a obra não menos estimável do malogrado sr. Ansúr. Julgamos do nosso dever protestar contra esta dura injustiça pondo em cotejo as duas composições a que deu origem a trágica aventura de Leonor.
No drama do sr. Luiz de Campos a culpa toda do nojoso sarrabulho perpetrado por D. Jayme está unicamente, segundo diz o sr. Campos, em haver o pagem um coração. O sr. Luiz de Campos emprega constantemente haver em logar de ter, não só nos casos em que esse verbo é usado como auxiliar mas ainda quando se toma na acepção de possuir. Acatamos discretamente as rasões de pundonor e de dignidade que possam ter levado este cavalheiro a cortar as suas relações pessoais com o verbo ter. O simples depoimento do verbo haver, conjugado com tanta lealdade, cravado no discurso com tanta firmeza como aquela que se admira em todas as locubrações literárias de este auctor, basta para nos convencer da inocência de Leonor.
Todos os encontros da duqueza com o pagem no decurso de esta peça são de um caráter fortuito absolutamente ilibado.
A scena está vasia. Leonor tem por acaso de atravessar do segundo bastidor á esquerda para o segundo bastidor á direita exactamente no momento em que Alcoforado por egual acaso atravessa do segundo bastidor á direita para o segundo bastidor á esquerda. Eles veem ambos meditando no verbo haver, e descarregam um sobre o outro o objecto das suas cogitações pouco mais ou menos nos seguintes termos:
Duqueza--Houveste alfim volvido?
Pagem--Houve; e vós, senhora, que heis de determinar-me?
Duqueza--Nada hei.
Pagem--Hão, quiçá, ofendido-vos outra vez?
Duqueza--Não hão. Pagem, havereis de volver a casa do sr. D. Teodósio.
Pagem--Visto que não heis de mim de, senhora minha, haja de se cumprir vossa vontade! Haverei força, haverei de havel-a... Manhã, ao toque de prima, serei partido. De nada mais heis mister?
Duqueza--De nada mais hei, pagem; e a Deus prasa que jamais haja de haver! Idevos presto a D. Teodósio, consoante-vos hei di-lo pouco ha.
Pagem--Em mim havei fé, minha senhora ama: eu me vou.
(Saem ambos, cada um por seu lado, meditabundos.)
A entrevista que dá causa á vingança do duque não a tem Alcoforado com a duqueza mas sim com uma das suas damas. Em toda a peça, finalmente, a duqueza, nem por carta, nem de viva voz, nem de simples olho, tem para Antônio uma palavra, um aceno, um gesto, em que se presinta de leve que seja a exhalação da perfídia.
O sr. Ansúr é menos complacente com os seus personagens, como vamos ver.
BEATRIZ ANNES
Grande mal, grande mal, senhor Fernão!
FERNÃO RODRIGUES
Que mal?
BEATRIZ ANNES
Homem em casa.
FERNÃO RODRIGUES
Com a aia?
BEATRIZ ANNES
Não.
FERNÃO RODRIGUES
Com quem pois?
BEATRIZ ANNES
Com nossa ama.
O fogoso e pitoresco sr. Ansúr vai mais longe ainda: coloca o pagem aos pés da duqueza e põe na boca de um e outro estas palavras:
PAGEM
Que entusiasmo sinto! Arfa-me o seio
Em vertigem de amor! Sinto a poesia
Na mente distilar grata ambrosia.
Ó senhora duqueza! Minha vida!
Como vos amo!
LEONOR
Antônio! alma querida...
PAGEM
Longe de vós a vida é-me desterro...
Perdoar-me-heis do coração este erro?
LEONOR
Sim.
PAGEM
Sem vos escutar e sem vos ver
Não podia, senhora, mais viver!
Meu peito abrasa.
LEONOR
Doce pensamento,
Longe de ti é egual o meu tormento.
E a duqueza prosegue exaltando-se em uma gradação retórica perfeitamente calculada pelo sr. Ansúr até o ponto de lhe dizer o Alcoforado:
Calae-vos por piedade! Tende império
Sobre a imaginação.
Em outra scena da peça depois de uma entrevista secreta com o pagem, á hora da meia noite, a duqueza profere uma palavra fisiológica, de um sentido decisivo:
Como evitar que o duque venha, e veja
Aqui tua presença que me peja?
PAGEM
Meu Deus!
LEONOR
Jesus! esconde-te!
Ao que o pagem, com o temerário valor que só os altos sentimentos persuadem, replica energicamente:
Fujamos!
LEONOR
Por onde oh! céus?
PAGEM
Por esta porta.
LEONOR
Vamos.
Sendo tanto a Leonor de Bragança do sr. Luiz de Campos como a Leonor de Bragança do sr. Alfredo Ansúr peças oferecidas pelos seus auctores a sua majestade el-rei o sr. D. Luiz I, é claro que elas devem ser consideradas pela critica não como livres producções literárias mas como especiais mimos dedicados á família de Bragança. Ora sob este ponto de vista--não hesitamos em dizê-lo--a obra do sr. Ansúr parece-nos muito mais completa e perfeita que a do sr. Luiz de Campos.
Pomos de parte a questão da investigação histórica, que foi egualmente aprofundada pelos dois auctores. O sr. Luiz de Campos reforça-se com o testemunho dos documentos que manuseou: A historia genealógica, As Decadas de Couto e de Barros, a Crônica de D. Manuel por Damião de Goes e o Auto de inquirição e devassa existente na Torre do Tombo. O sr. Alfredo Ansúr fortifica-se exactamente com os mesmos documentos por ele compulsados.
Para suas excelências, armados de eguais argumentos pró e contra a duqueza, a escolha do papel que tem de lhe ser dado em este drama é pois uma questão de gosto. O sr. Ansúr, enquanto a nós, escolheu melhor, e fez a sua majestade el-rei uma dadiva mais delicada.
Segundo o sr. Ansúr o duque de Bragança D. Jayme é um cavalheiro infeliz em família, ao qual sucede--como muito bem diz Menelau na Bela Helena--uma fatalidade. O duque deteriora a região intestinal da duqueza, mas deteriora-a em legitimo desforço da sua dignidade ofendida e ao abrigo das leis do reino.
Segundo o sr. Luiz de Campos, dada a inocência da esposa, o duque não passa de um sanguinário estupido, que envolve o seu brasão de família e a futura tradição dinástica em um ignóbil e afrontoso chouriço de sangue inocente. O ato de mandar desossar pelo cosinheiro o pagem Alcoforado, com o mesmo facalhão com que se picam os bifes, é um facto indecente que, posto o critério do sr. Luiz de Campos, estabelece um precedente que pode levar os servidores da casa de Bragança a não distinguirem inteiramente a diferença que ha em ir para o paço e em ir para a salgadeira.
Eliminada a circumstancia do adultério o duque é um facínora vulgar sem nenhum apoio na jurisprudência ou na legislação. Depois da leitura da peça do sr. Luiz de Campos, um juri sensato que houvesse de julgar D. Jayme, mandal-o-hia degradado por toda a vida para a Costa de Africa. Só assim se poria uma sociedade culta ao abrigo de um príncipe que faz das esposas e dos vassalos um consumo que se não justifica pelas necessidades ordinárias da vida exterior.
Parece-nos ser um serviço em extremo subalterno prestado a alguém o publicar a historia de um dos seus antepassados á luz de uma critica cujas derradeiras consequências são, como no drama do sr. Campos, a condemnação do mesmo antepassado a um gênero de glorificação e de apoteose que ele só pode remir com a prisão correcional perpetua.
Na peça do sr. Ansúr o antepassado do alto personagem a quem ele a oferece e consagra aparece-nos satisfactoriamente levado ao crime por uma provocação cheia de solicitude e de cortesia. «Ha homem em casa. Com a creada? Não. Com a patrôa.» Este grito sublime de clareza e de concisão esparge no facto um raio de luz jurídica e lança um imenso clarão de legalidade e de justiça sobre o chifarote brigantino destinado á perfuração das damas.
Nada mais tocante do que a situação do duque ao receber o fatal desengano:
Horror! Infamia! Anátema! Vergonha!
.......................................
Rompe-se-me do ser toda a harmonia,
Passa-se-me na mente extranha orgia!
Estalam-me no corpo algumas fibras!
Meu pobre espirito, que assim te libras
Do desespero na mortal esfera,
Não te consumas tanto! Acalma! Espera!
.........................................
Mofina dor me roe, me despedaça!
Enquanto descuidoso andara á caça,
Tu deliravas... tu... oh! que vileza!
E depois dirigindo-se ao pagem:
Arrepende-te dos teus pecados
Que os fios da tua vida estão contados!
PAGEM
Perdão! piedade!
DUQUE
Soffre com valor
Que mais sofreu par nós o Redemptor!
.....................................
.........................Alfim
Com o manchil Domingos cortará
A cabeça do pagem. Morrerá.
A duqueza intervem com esta conceituosa mas intempestiva máxima:
Jamais decepes com manchil odioso
A cabeça de um justo. É horroroso!
O duque não precisa que lhe ensinem a resposta...
Sabe mostrar do Barbadão de Veiros
O descendente, como pune o ultraje,
Que lhe fizeste, Leonor! Apage.
Não são estes porém os únicos serviços prestados pelo sr. Ansúr á clareza justificativa dos factos e ao esplendor imarcescível da casa de Bragança. A peça de este benemérito cavalheiro abunda em conceitos e em noções preciosas para a historia da nossa monarchia. Quem é o luso que, presando-se de amar o rei e a pátria, deixará de ler sem uma comoção profunda as seguintes palavras que o auctor põe na boca da mãe de D. Manuel, por ocasião do advento de este monarcha ao régio sólio?
Omnipotente Deus! quis o destino
Dar existência ao trono manuelino!
Quem predissera tal, filho cadete,
Quando surgiste á luz em Alcochete?!
Temos por indigno e refece todo o cortezão que achando-se ao serviço da casa de Bragança se recusar a decorar os seguintes carmes em que o sr. Ansúr celebra os antigos privilégios heráldicos de tão distinta família:
A não ser o real, não ha poder,
Que possa hoje nos reinos exceder
O de nosso senhor! Póde D. Jayme
(Ó fóros brigantinos inspirae-me)
Nas salas dos seus paços ter doceis
E Seteais nas egrejas dos fieis.
Forrada com arminhos, rica, larga
Vestir opa vermelha aberta á ilharga;
Ante si leva estoque, segundo acho,
Com o extremo voltado para baixo,
Distinctivo dos reis, que é para cima.
Faz gosto ler estas noticias e pensar a gente que pertence a um paiz em cujo trono se acha uma família que antes de reinar tinha o direito de levar estoque para baixo, que ao reinar adquiriu o direito de levar estoque para cima, de sorte que póde hoje em dia (ó fóros brigantinos acudi-me), levar estoque simultaneamente para cima e para baixo!
A única coisa que se nos oferece reprehender na peça do sr. Ansúr, por innumeros títulos superior á do sr. Luiz de Campos, é que o auctor a não tivesse acrescentado com mais um ato, no qual, para completa rehabilitação da casa de Bragança, o duque D. Jayme nos aparecesse resgatando-se aos olhos do Omnipotente por meio das penitencias em que consumiu até o último dia da sua taciturna viuvez. Nos paços de Vila Viçosa ainda hoje se mostra aos viajantes uma tina cavada no chão, a que se desce por quatro degraus, na qual é tradição geralmente crida que o nobre duque se metia em água, durante uma hora por dia, para desagravo e remissão de suas culpas. O ilustre herói tão deveras se arrependeu que chegou a mortificar-se de esta maneira insolita e sem precedentes--tomando banho!
Seria um belo melhoramento na obra do sr. Ansúr que s. ex.ª a completasse com um breve epilogo, em que D. Jayme fosse visto amarrado pelo grilhão da penitencia a uma bacia, e ciliciado no vivo das suas carnes ultrajadas e viúvas pelo contacto expurgante de um sabão.
Postas estas considerações, não podemos deixar de perguntar: Porque motivo não caiu do alto da regia munificência sobre o peito inspirado do sr. Ansúr o pingo da nobre ordem do lagarto, do mérito artístico e literário, pingo suspenso da real goteira sobre as boças poéticas do sr. Luiz de Campos? Não fez o sr. Ansúr um drama de assumpto brigantino como o do seu colega? Não tem o sr. Ansúr a precedencia em esta creação literária? Não é a sua obra dedicada egualmente a el-rei? Não é ela escripta em belas parelhas de versos de dez silabas, em vez de o ser em prosa villôa como a do seu competidor?
O sr. Luiz de Campos, não podendo pela sua qualidade de deputado receber mercês honorificas, teve de el-rei o presente de um cofre no valor acima referido de 1:500$000 réis.
Não so dando com o sr. Ansúr a incompatibilidade anexa ao mandato popular, porque não se lhe confere a comenda da nobre ordem ou, quando menos, a sua equivalência em cofre com pedra preciosa no valor de réis 1:500$000?
Grave e inexplicável injustiça! Se a nossa débil voz póde chegar até ás orelhas da corôa, nós diremos ao augusto soberano:
Senhor! A vossa proteção ás letras pátrias não se tem até hoje desmarcado de uma reserva tão discreta como constitucional. Os dramaturgos que precederam Luiz de Campos e Alfredo Ansúr apenas têm colhido da regia liberalidade a graça de haverem possuido colocado em uma avant-scène, durante uma ou duas representações das suas peças, o vosso real perfil, que outros não possuem senão colocado nas moedas de 5$000 réis, coisa miserável e vil. Acabado o espectaculo vós enfiais o vosso paletot, acendeis o vosso charuto, retomais o vosso sceptro no bengaleiro, e ides para casa recolher as comoções da noite sob o agasalho da vossa corôa de dormir, de algodão branco com uma borla na ponta. O gênio nacional não pôde ainda até hoje obter da vossa munificência manifestações mais expressivas. Uma vez, porém, que deliberastes inaugurar a era do galardão literário, dae a Alfredo Ansúr a comenda que Luiz de Campos não pôde aceitar. Dae-lh'a quanto antes. Não espereis que á cabeceira do vosso leito se erga o espectro do remorso, e que, sob a figura do poeta menosprezado, ele vos brade nos silêncios da noite:
«Descendente de Barbadão! solta-me o lagarto! Larga o lagarto, Barbadão!»
Se o trono for surdo ás nossas vozes, cairemos sobre o sr. Luiz de Campos, e com o manchil da justiça distribuitiva em punho cortar-lhe-hemos a dadiva regia ao meio!
Que o sr. Ansúr nos diga para onde quer que se lhe mande a metade do brinde que lhe lhe compete.
Hoje, 7 de maio, corridas de cavalos no hipódromo de Belém.
Um premio foi disputado por quatro cavalos, um foi disputado por três, outro por dois, e o último finalmente por um cavalo só. Este cavalo partiu correndo vertiginosamente atraz de si mesmo, e desenvolveu tal ardôr e tal velocidade que chegou á meta, no meio das ovações e dos aplausos gerais, passando adiante de si próprio!
Nota-se esta curiosa influencia do premio do governo, do premio de el-rei, e do premio do Club, sobre o desenvolvimento da raça cavalar:--quanto mais prêmios se distribuem menos cavalos ha.
Se a instituição se mantem por dois ou três anos mais, é-nos licito acariciar a esperança de que terminaremos por não haver cavalo nenhum, e teremos ainda o gosto de ver o primeiro dos sportmen que figuram no programa da presente corrida, o ex.'mo sr. Galileo, acabar por percorrer a pista montado no seu telescópio.
E no entanto o campo das corridas é o mais belo sitio dos contornos de Lisboa, o mais aprazível ponto de passeio de carruagem, a cavalo ou a pé nas tardes de verão, e é suscetível de ser explorado pelo Jockey-Club com suficiente lucro da associação e com grande vantagem do publico. Bastaria para utilisar e aformosear o campo circumdal-o por fora da pista com uma rua de árvores intermeadas de bancos de jardim; estabelecer no centro do hipódromo um jogo do Cricket para os membros de um Cricket-Club addido ao Jockey-Club; organisar um tiro ao alvo, um Croquet para as senhoras, alguns jogos gymnasticos para o povo e para as creanças; promover nos domingos da primavera e de verão no recinto do campo pequenos certames agrícolas e industriais, concursos de vacas, de carneiros, de galinhas, de porcos gordos, exposições de flores, de fructas, de legumes, de queijos, de instrumentos de agricultura e de jardinagem, etc.
Lisboa carece vergonhosamente de uma instituição de este gênero que reuna com as condições de recreio os desenvolvimentos de atividade e de educação. Visto que nem o governo nem a municipalidade se ocupam de essa questão, o Jockey-Club prestaria um serviço relevante procurando resolvel-a.
Mas de modo algum pretendemos forçar o Jockey-Club a aceitar esse encargo. O Jockey-Club fará o que entender, e nós acharemos sempre que entendeu bem; a única coisa que lhe rogamos é que reflicta no futuro que o espera continuando na senda assustadora em que principia a resvalar. O club achou ainda um meio de resolver o problema do concurso diante da simples unidade: queremos saber o que fará quando vier a aparecer a fracção, e a quem se dará o premio de el-rei, quando para o ano concorrer unicamente a disputal-o--um selim!
Ao mesmo passo que o Jockey-Club, sob a proteção de suas magestades o sr. D. Luiz e o sr. D. Fernando confere prêmios no valor de três contos de réis anuais ás bestas velozes, a Academia Real das Ciências, sob a presidência e sob a proteção dos mesmos augustos príncipes, confere apenas 50$000 réis de premio aos sábios extenuados.
Um cavalo que percorre a galope uma distancia de mil e quinhentos metros ganha réis 1:500$000. Os sábios do paiz inteiro ganharão 50$000 réis satisfazendo entre vários outros os seguintes pontos do programa da Academia para o ano de 1877:
Em mechanica: Apresentar um trabalho sobre o movimento dos fluidos; achar o melhor sistema de obras a eslabelecer nas margens do Tejo a fim de satisfazer simultaneamente as condições de salubridade, irrigação e segurança das propriedades adjacentes. Em física: estudar a capacidade calorifica dos átomos nos corpos simples; indicar a construcção da pilha de efeito mais constante e mais própria para ser aplicada á telegrafia; apresentar a síntese dos alcaloides orgânicos; estudar a composição chimica das principais águas sulfúreas e alcalinas de Portugal. Nas ciências histórico-naturais: Fazer a descripção ampelográfica das principais castas de uvas portuguezas e determinar o melhor processo para o fabrico dos vinhos genuínos; fazer um ensaio monográfico da fauna portuguesa. Nas ciências medicas: Determinar as alterações da saúde e as doenças devidas ás principais industrias do paiz e indicar os meios eficazes de as prevenir; fazer um estudo critico do sistema de esgoto e saneamento da capital, que satisfaça a todas as condições prescriptas pela higiene, apresentando o modo da sua realisação; estudar a mortalidade de Lisboa, suas causas e meios de as atenuar. Em literatura: Fazer um romance histórico, fazer um poema, fazer um glossário das palavras e locuções hoje obsoletas ou antiquadas que se leem nos antigos cancioneiros portuguezes acompanhando esse vocabulário de observações linguísticas e philologicas. Nas ciências econômicas e administrativas: Memorias acerca da descentralisação em Portugal e do melhor sistema de circulação fiduciária. Em historia e archeologia: Estudo acerca do estado da sociedade portuguesa ao tempo da morte de D. João V; determinar e caracterisar as relações artísticas de Portugal nos séculos XV e XVI no tocante á architectura, esculptura, pintura, musica e artes industriais, indicando os meios oficiais e extra-oficiais que facilitaram essas relações pondo os resultados em paralelo com a historia da arte em geral, etc., etc., etc.
Se nós fossemos sábios preferiamos ao trabalho de responder a qualquer dos aludidos quesitos pela soma de 50$000 réis, o trabalho de percorrer á desfilada a pista do hipódromo de Belém--de graça.
Durante o semestre que finda este mez Lisboa não produziu nem um só livro útil, nem uma só notável obra de arte na pintura, na musica, na poesia.
Não se fez nem uma prelecção nem uma conferencia literária ou scientifica. A estação toda passou-se como a estação anterior, como as estações precedentes, sem que esta sociedade em marasmo desse um único sinal de vida inteligente.
Lisboa é hoje a única capital da Europa em que isto sucede. Não queremos dar-lhe em paralelo Paris, Berlim, Bruxelas, Londres, S. Petersburgo, qualquer das grandes cidades da Itália ou da Holanda. Apontaremos apenas Madrid, e não citaremos senão um dos seus institutos particulares, o Ateneu, sociedade da natureza do Gremio Literário em Lisboa. No Ateneu os cursos públicos, livres, gratuitos, abriram-se no mez de outubro, tendo havido desde o dia da abertura prelecções, conferencias ou debates em todas as noites. Têm-se ventilado as mais interessantes questões da filosofia e da sciencia social no ponto de vista de espíritos altamente cultos.
Em Lisboa o progresso social, o movimento ascendente da civilisação manifestou-se unicamente pela aparição de três estancos novos no Chiado e de uma ourivesaria no largo das Duas Egrejas. Como á falta de objecto para outros interesses mais elevados, nós occupavamos os nossos ócios encostando-nos ás humbreiras das tabacarias a ver dispersar-se no ar o fumo dos nossos charutos, as tabacarias comprehenderam que este estado geral dos espíritos deveria começar a fatigar os habitantes de Lisboa, e dotaram-os com sofás. Para o ano os estancos requintarão ainda as condições de comodidade e havemos de ver os estanqueiros sairem ao encontro dos desejos do publico com colchões. Chegaremos á Casa Havaneza, despir-nos-hemos, poremos a camisa de dormir e fumaremos os nossos carvajales deitados em camas, á porta.
A ourivesaria do largo das Duas Egrejas teve o sucesso de uma instituição. Ela é como um templo ao luxo, como um altar ao deus Ouro, tal como o conceberiam, erigido com todo o esplendor do culto, os Faraós da Rua dos Capellistas. A armação interior da loja é feita em Paris segundo os elegantes modelos das joalherias da rua de la Paix ou do Palais Royal. Armarios da mais verosímil imitação de ébano sobre um parquet brunido. Tecto de um azul idealisado, representando um trecho de céu coberto de creme.
Nas vitrines, de um só cristal imaculado, desdobram-se em degraus, como em um trono de lausperene, as prateleiras de veludo cor de cereja, de cuja suavidade macia e ardente destacam em vigoroso relevo as joias em exposição. A um lado pendem em meada as correntes de relógio exhibidas como o corpo de delicto de uma quadrilha de pick-pocket apanhados com o roubo. Suspensos nas extremidades das correntes pousam em baixo os breloques, em um grande molho confuso, como se adornassem um colete monstro sobre o estomago colectivo e proeminente do capital.
Nos logares mais próximos de quem olha estão os miúdos objectos preciosos, as finas pedras raras, os olhos de gato castanhos e amarelos em pequenas elipses cujo grande eixo é indicado por uma linha que separa nitidamente as duas cores; as perolas negras de um tom profundo, que não é o preto, é o infinitamente escuro, como a noite; as perolas cor de rosa sobresaindo em cercaduras de brilhantes como capsulas cabalísticas feitas de substancias extraidas de uma cristalisação mimosa de beijos ternos e de perfumes castos.
No segundo plano aparecem os ornamentos de mais vulto: os broches tremelusentes e vivos como esparrinhaduras de diamantes e de rubis chispando no ar; as flores imaginosas de pétalas de aljôfar ou de safira, orvalhadas de pulverisações de esmeralda; os medalhões em camafeus preciosos sobre pedras de três cores nos três planos da esculptura; as eflorescências fantásticas das ônix, das granadas, das malaquites, das opalas; em raios como estrelas, em sobreposições como pinhas, listradas, rajadas, mosquetadas, afestoadas, zebradas com todas as cintilações do prisma.
Mais longe oferecem-se os braceletes nos seus estojos cor de lilaz. Uns são fortes e duros como os violentos desejos, outros vaporosos e finos como aspirações platônicas. Nas suas variadas formas têm fisionomias, revelam temperamentos. Ha-os lascivos e ardentes, coleados em quatro roscas de um ouro fulvo, terminando em uma cabeça de cobra esmagada por um esbraseamento de rubi. Ha-os contemplativos e ingênuos, de uma cor limphatica, salpicados de frias e inocentes turquezas. Também os ha trasbordantes de uma vida farta e victoriosa, largos, rendilhados, superabundantes de cores, expansivos e triunfais como orchestras, soprando hymnos de um entusiasmo sanguíneo, vermelho, despótico.
Em outra vitrine está a exposição das pratas: os centros de mesa representando palmeiras, á sombra das quais se empinam cavalos em pelo, que deverão parecer relinchar de amor no meio das sobremesas, entre as frutas empilhadas geometricamente em piramide sobre taças de filigrana e os gelados transparentes impregnados de luz, trêmulos, cor de topasio; as bacias de mãos, de desenhos bysantinos repoussés; os jarros de forma etrusca; os assucareiros graves e concentrados como vasos de partículas sagradas; e os grossos bules barrigudos e polidos, nos quais se espelham os rostos em caricatura monstruosa, com bochechas obscenas, narizes que incham como focinhos de vitela e bocas que riem até as nucas.
Ao acender das luzes, ás oito horas e pouco depois, magotes compactos de espectadores estacionam defronte da vitrine das joias. Demoram-se mais as mulheres: mulheres de amanuenses e de pequenos empregados, costureiras das modistas, que saem a essa hora das oficinas quando não ha serão.
Candieiros de gaz com fortes reflectores não só alumiam intensamente os objectos expostos nas vitrines, mas alumiam também pedaços de espectadores, em que se podem fazer exames minuciosos, de microscópio.
As mulheres magras, pálidas, que olham, têm as faces oleosas da transpiração do trabalho de 14 horas em pequenos gabinetes abafados, cheios de exhalações mornas de roupa suja. Na mão esquerda o dedo que aponta para um colar de mil libras tem uma nodoa escura, esfarpada, produzida pelas picaduras da agulha, e o dedo polegar mostra uma unha curta atrofiada no habito de esmagar costuras. Os chapéus adornam-se com velhas flores em terceira mão, desbotadas e tristes; e das cuias, caidas sobre a mancha gordorosa que tem entre as espaduas a alpaca poida dos vestidos, sae um cheiro acido de cabelos humidos e embrulhados, em fermentação.
Dentro da loja uma bela mulher risonha que se apeou de um coupé, embrulhada em fina renda branca, debruça-se no mostrador e aproxima da mão do caixeiro que lhe segura um brinco a polpa aveludada da sua orelha carnuda, sensual, de comilona feliz.
Os espelhos dos ângulos da sala e os que forram as vitrines reproduzem infinitamente para todas as direcções essa cabeça bonita envolta em renda, e mostrada ao mesmo tempo de todos os lados, de frente, de perfil, de três quartos, acompanhada sempre da mão que enfia o brinco.
As macilentas Margaridas de olhos pisados vão ver em cada noite esse espectaculo de tentação, em quanto na esquina fronteira, na Casa Havaneza, os Doutores Faustos acendem os seus charutos, e muitos diabinhos invisiveis volitam no ar dizendo segredos, deitando de fora impudentemente as linguinhas de chama e coçando os seus piqueninos chavelhos com frenéticas contracções aduncas, como quem se sente inteiramente cheio de fosforo e de alacridade.
A peregrinação a Roma foi promovida pelos chefes do partido clerical com um zelo fervoroso, que acabamos de ver coroado com o mais prospero exito.
Suas excelências annunciáram com a devida antecedencia a celebração do jubileu pontifício; facilitaram a romagem com esclarecimentos que fariam a gloria do Guide Joanne; conseguiram o estabelecimento de comboios de recreio, ida e volta, preços reduzidos, de Lisboa a Roma, com escala por Nossa Senhora de Lourdes; deram os preços dos hoteis e dos restaurantes romanos, a regímen de peixe ou de carne, para as grandes bolsas, para as bolsas medias e para as pequenas bolsas; fixaram finalmente a toilette, explicando que as senhoras deveriam apresentar-se com vestidos de seda preta e véos de renda, e os homens de uniforme ou de casaca preta e gravata branca.
Porque--suas excelências o explicáram--o santissimo padre não recebe senão senhoras de rendas e homens de casaca. Os peregrinos vestidos de saco e burel, as peregrinas cingidas pela estamenha e pela corda de esparto, não sobem a escada do Vaticano. Os pés privilegiados para pisarem os tapetes do Vigário de Cristo na terra são os pés mimosos e aristocráticos, calçados em escarpins de setim ou de polimento. Os sapatos ferrados dos caminheiros plebeus, as sandálias espalmadas das pecadoras que não vem de passeiar em Vitória ou em caleche á Daumont, de volta do Corso ou do Pincio, mas que chegam das escabrosas veredas da miséria; as alpagartas dos penitentes que vieram trilhando abrolhos sangrentos no aclive da via dolorosa, são gêneros de calçado expulsos pelos enxota-cães, e expulsos com os respectivos pés, porque também se não entra descalço no Vaticano como se entra no templo em Jerusalem, ou na mesquita de Santa Sofia em Constantinopla.
Facultados tão interessantes esclarecimentos muitas pessoas partiram a receber as bençãos paternais oferecidas pelo pontífice ás rendas e ás casacas pretas do orbe christão.
Alguns episódios de essa piedosa viagem são já do domínio da imprensa. Da estação do caminho de ferro de Braga saíram os romeiros entre aclamações simpáticas e vivas entusiásticos á santa religião e ao sumo pontífice Pio IX. Em compensação na gare do Porto foram os mesmos romeiros acolhidos aos gritos não menos entusiásticos de «Fora os hipócritas! fora os patifes!» Por este último sucesso damos a suas excelências os nossos cordeais parabéns, porque supomos que eles viajam com um fim de humildade e mortificação, e que lhes serão agradaveis todas as manifestações publicas tendentes a exacerbar-lhes o pungimento expurgante das duras penitencias.
Em Lourdes, refere o telegrama de um sacerdote ao jornal A Nação, que á vista da gruta toda a romagem rompera em pranto e se prostrara em joelhos. Devemos crêr que esta prostração fosse passageira, não só porque um telegrama subsequente nos anuncia a chegada dos peregrinos á cidade eterna, mas ainda porque em Lourdes a beleza da paisagem, a exuberância da vegetação, o rumor das águas, as perspectivas sombrias e flexuosas da floresta, a clara alegria do restaurante, de gelosias abertas, de stores desdobrados ao sol, com a sua grande taboleta Á Notre Dame de Lourdes, e os seus subtitulos em caracteres apetitosos Diners à la carte et déjeuners à la fourchette,--gras et maigre, tudo convida os espíritos ascetas a uma conciliação amável com a carnalidade mundana.
Além do aspecto das coisas, as exterioridades das pessoas contribuem também poderosamente para arrancar os adventícios ás atitudes prostradas e contemplativas.
Os comboios de Paris chegam e partem cheios de alegres touristes de um e outro sexo.
São graciosas pecadoras com adoraveis toilettes de viagem; chapéus de grossa palha de forma aguda e aba estreita derrubada sobre os olhos, descobrindo a nuca, em que se enrolam as tranças loiras, e a nascença do cabelo junto do pescoço, com os seus flocosinhos de penugem crespa e doirada penetrada de luz; os vestidos decotados no colo em linhas quadradas como os coletes dos devotos bretões; as saias curtas deixando ver as meias de seda listradas de azul, e os sapatos de pele de gamo atacados com correntes de aço, que telintam ao andar. Estas gentis romeiras abordoam-se a cajados rústicos comprados no boulevard dos Italianos, trazem ao tiracolo os grandes rosários de contas de madeira, grossas como bugalhos, terminando em uma cruz egualmente de madeira que chega á barra do vestido,--ornato local de um pitoresco picante.
São os homens de nickerbockar de flanela alvadia e capacetes de sabugo envoltos em véos turcos, com uma flor de madresilva na boutonière, fazendo gelar o champagne e preparando debaixo das árvores os seus jantares em partie fine, enquanto padres solícitos vendem a água milagrosa, ou aos copos á bica da gruta, ou em bilhinhas de lata devidamente lacradas e seladas autenticamente, facultando na igreja recantos reservados e escusos para as aplicações em banhos parciais, ou em compressas, a órgãos enfermos que as devotas desejem submeter á cura nos próprios logares benzidos e sagrados.
Em cem contos é calculada a soma dos donativos em dinheiro levada pelos peregrinos portuguezes ao Santo Padre.
É valiosa na ocasião presente essa contribuição, porque a historia do dinheiro de S. Pedro teve sob a gerencia do cardeal Antonelli episódios devastadores. Procurando ha anos o governo de Victor Manuel realizar uma operação bancaria destinada a equilibrar as finanças da Itália, o cardeal Antonelli, como fino rabula e zeloso ultramontano, concebeu o plano de um coup de bourse destinado a combater as intenções do governo italiano provocando uma descida que impossibilitasse a emissão de novos fundos. Para este fim o astuto financeiro vendeu em massa, pela baixa, os títulos da divida italiana que a Santa Sé possuía e que representavam o dinheiro de S. Pedro. É porém perigoso, mesmo para um italiano, jogar as peras com outro italiano. Na Itália todo o homem hábil deve estar preparado para encontrar um mais hábil que o logre. Foi o que sucedeu a Antonelli. O seu plano foi estrategicamente contraminado pelo governo de Victor Manuel, organisando-se um sindicado de banqueiros que despedaçou a armadilha do ilustre cardeal.
O dinheiro de S. Pedro convertido outra vez em metal pela operação malograda nos seus efeitos, foi então convertido em fundos turcos, operação arrojada mas tão lucrativa que prometia duplicar, em poucos anos, o capital empregado, a não ser que um caso, então imprevisto, prejudicasse o exito da transacção fazendo estalar no Oriente uma guerra inesperada.
Foi, como se sabe, o que veio a suceder desgraçadamente para os bens do Papa. De sorte que o dinheiro de S. Pedro, piedosamente acumulado pelos católicos para o esplendor da Igreja, achou-se, pela mais estranha das coincidências, consumido em polvora por uma potencia chamada ao fogo como perseguidora dos christãos!
Além dos donativos em dinheiro e dos presentes em objectos preciosos, os peregrinos levaram, para oferecer a Sua Santidade, um grande álbum, em que vai inserida uma declaração de princípios assignada por todos os romeiros. Os jornais que nos transmitem essa noticia não nos dão o texto do documento precioso. Não temos, portanto, a ventura de saber o que suas excelências dizem. O que deveriam dizer era o seguinte:
Santissimo Padre
Ha hoje quinhentos e setenta e sete anos que o primeira jubileu da Igreja Catholica Apostolica Romana foi celebrado por um dos predecessores de Vossa Santidade, o papa Bonifacio VIII.
Esta solemnidade não tinha por fim, como o ano jubilario do Mosaismo, dar a liberdade aos escravos, fazer reverter os bens territoriais aos seus primitivos possuidores, tornar o homem insoluvel de cincoenta em cincoenta anos, e ao cabo de cada um de esses prazos reconstituir a família nos seus primitivos direitos, operando periodicamente aquilo que hoje chamariamos a liquidação social, e a que o Pentateuco chamava simplesmente a--santificação do quinquagésimo ano.
O papa Bonifacio, antigo rabula, (quia primo advocatus), preocupava-se pouco com as interpretações do direito; prometendo a remissão dos pecados a todos os que viessem a Roma visitar, durante trinta dias, as igrejas dos apóstolos, o seu fim único era realizar um dos seus sonhos de decrepito alucinado: inaugarar o século XIV com uma solemnidade única na historia--a reunião em Roma do gênero humano prostrado aos seus pés, como perante o Deus vingador no dia do juízo final, no Vale de Josaphat.
em esse tempo, Santissimo Padre, ainda no mundo existia a fé. O numero dos peregrinos que vieram a Roma foi tão grande, que chegaram a contar cem mil. Por fim não puderam ser arrolados. Cresciam monstruosamente como esses formigueiros da America do Sul que em um mez minam os alicerces de um prédio e aluem uma torre. Eram insuficientes para albergal-os as casas dos moradores, os hospícios, as ermidas, as igrejas. Acampavam nas ruas e nos campos suburbanos. A escassez dos alimentos e a malaria produziam uma infinidade de doenças. Houve uma fome e quase uma peste. A mortalidade era enorme. Uns não regressavam mais. Outros não conseguiam chegar ao termo da romagem, e extenuados de fadiga e de fraqueza, com os pés em sangue, morriam saudando de longe a sagrada colina.
Com quanto o poder papal entrasse já então na fase de declinação que até os nossos dias devia progressivamente arrastal-o ao ocaso, Bonifacio supunha-se ainda o senhor e o arbitro do mundo. Por ocasião da morte de Alberto de Austria, tendo-se feito aclamar imperador Adolfo de Nassau, o papa Bonifacio tinha posto a corôa na cabeça, tinha brandido uma espada, e do alto do monte Aventino havia bradado: «Eu é que sou o Cesar! eu é que sou o imperador!»
Era ele ainda que na bula ausculta filii tinha escrito estas palavras supremas: «Deus colocou-nos, apesar de indigno, acima dos reis e acima dos reinos, impondo-nos o jugo da servidão apostólica para arrancar, destruir, dispersar, dissipar, e para edificar e plantar em seu nome e segundo a sua doutrina.»
No dia do jubileu, para celebrar a cerimônia de bater com o malhete de prata e de desmoronar o muro com que se veda para esse fim uma das portas de S. Pedro, o Papa apareceu á multidão prostrada e atravessou pelo meio de ela, vestindo as insignias imperiais, levando adiante de si a espada e o sceptro sobre o globo do mundo, simbolo da monarquia universal, enquanto um arauto proclamava: «Aqui vão duas espadas. Pedro, eis o teu sucessor. Cristo, eis o teu vigário.»
Os peregrinos que haviam conseguido visitar os túmulos dos apóstolos, cujas columnas são feitas com o bronze subtraído da abobada do Panteão, os que haviam chegado a receber com a benção apostólica a absolvição das suas culpas, regressavam á família encanecidos, alquebrados, assombrados para o resto dos seus dias, como os tocados de raio, pelos aspectos colossais da trágica Roma, pela historia do seu passado, semi-vivo ainda nos monumentos destroncados da edade republicana e da edade imperial, pelas visões portentosas de um mundo extincto que lhes haviam aparecido como tremendos fantasmas, na arcaria dos aqueductos truncada a espaços como os elos partidos de um enorme grilhão estendido na vasta campina; nos banhos de Caracala; nas dispersas columnas coríntias; nos obeliscos egípcios; no Capitolio convertido em Colina das cabras; no Forum transformado em Campo das vacas; no Coliseu, finalmente, com as suas três ordens de columnas dóricas, jônicas e coríntias, monumento colossal, em que trabalharam doze mil captivos, em que cabiam cem mil espectadores e em que não há uma pedra que não corresponda a uma golfada de sangue de um gladiador ou de um mártir.
Os peregrinos regressados em um vago estado de somnambulismo, como aluados, haviam porém levado do jubileu uma consoladora lição: haviam desaprendido de viver, mas tinham-lhes ensinado a morrer tranquilos na esperança doce e firme da bemaventurança prometida. O que era porém o mundo, Santissimo Padre, em esses tempos remotos e sombrios em que os homens eram isto?
Em Paris e em Londres as casas eram feitas de madeira ou de lama endurecida, com tectos de canas. As ruas eram montões de immundicia em fermentação miasmática. O uso de banhos tinha desaparecido. A amante de Petrarca tinha uma única camisa. O poderoso arcebispo de Cantorbery e outros altos eclesiásticos tinham piolhos. Os burguezes vestiam-se de couros mal curtidos, de um cheiro infecto. Os pobres cobriam-se de palha. Em muitos pontos das Ilhas Britanicas conta um papa do nome augusto de Vossa Santidade, Pio II, que não se conhecia a existência do pão. Os trabalhadores dos campos comiam herva e cascas de árvores. E era já o século XV! No século XI, por ocasião de uma fome, vendeu-se e comeu-se cosida carne humana. A medicina tinha passado de moda, desprestigiada pelos padres. Tinham-a substituido as penitencias, as promessas aos santos e as viagens ás ermidas. As relíquias faziam as vezes de farmácias. As pestes afugentavam-se não com medidas sanitárias, mas com preces. Para curar os males da humanidade, conta Draper que varias abbadias possuiam a corôa de espinhos do Salvador; onze igrejas conservavam a lança que trespassou o sacratíssimo lado; nas guerras santas os Templarios vendiam como panacéa universal garrafinhas de leite da Virgem Maria; em um mosteiro de Jerusalem guardava-se em um relicário um dedo--do Espirito Santo. A chuva e o bom tempo determinavam-se com orações. Era egualmente com orações que se combatiam os eclipses e as trovoadas. O cometa de Halley foi exorcismado e enxotado do céo pelo papa Calixto III, que o amaldiçoou em nome de Deus.
em esse estado das coisas e em esse estado dos espíritos um serviço enorme foi inconscientemente prestado pelo papado á civilisação e á humanidade. Das peregrinações á Roma pontifícia saíram as duas maiores revoluções do mundo moral: do jubileu do principio do século XIV saiu Dante com a Divina Comedia e a reconstituição do direito pelo sentimento: do jubileu do século XVI saiu Lutero com a Reforma e com a liberdade do pensamento humano. Alea jacta erat!
Desde então até hoje, Santissimo Padre, que serie enorme de revoluções sucessivas e incruentas, determinadas pelo livre espirito do homem, cortando lentamente a corrente tenebrosa das perseguições, boiando sempre progressiva e sempre victoriosa sobre o oceano de sangue e de pus com que a superstição eclesiástica e o auctoritarismo monarchico procuram debalde afogar o advento da nova era! Os reis opõem os seus exércitos; a igreja opõe as suas excomunhões; o seu inferno, em que ha o ranger dos dentes por todos os séculos dos séculos sem fim; os seus carceres em que a lepra corroe até á medula os ossos dos condemnados; os seus tormentos, em que ha o fogo lento, a grelha, o forno rubro, o borzeguim que se descalça levando consigo, palpitantes, todos os músculos e todos os nervos das pernas, a pua que fura as unhas e o torno que esmaga os ossos do craneo e faz rebentar o cérebro como um abcesso espremido.
E tudo é em vão! A sciencia intemerata prosegue, inerme e Cândida, sem haver feito uma única victima, sem uma só gota de sangue derramado, sem uma só lagrima vertida! E diante da branca visão benigna que se aproxima, o dogma espavorido récua mais profundamente fulminado por um simples raciocínio humano de que nunca o foi a mais fraca das almas diante da cólera implacavel e infinita dos deuses imortais.
Tudo quanto através de toda a historia moderna a autoridade tem procurado conservar pela força se tem fatalmente destruido pelo tempo. O que a autoridade e a força têm conseguido é unicamente atrazar o movimento intelectual, determinando os longos períodos estacionários da humanidade. Pelo contrario tudo quanto a sciencia iniciou se transmitiu de idade em idade, se desenvolveu, se relacionou, se perpetuou. Nem uma única semente lançada á terra pelo trabalho e pelo estudo deixou ainda de vingar e de frutificar em resultados decisivos de tolerância, de paz, de liberdade e de justiça.
Na astronomia, na física e na chimica, na geologia, na meteorologia, na zoologia, na medecina, na filologia quantos descobrimentos novos! E cada novo descobrimento é uma conquista nos domínios da Igreja, domínios que ela sucessivamente cede na mesma proporção em que a sciencia caminha.
É um novo diluvio aquele de que a historia do pensamento humano nos oferece a imagem caudalosa e tremenda. A inundação espraia-se no vasto campo da teologia, e vemos ao longe, fugindo desgrenhadas, as últimas superstições, medonhas como os grandes monstros pre-históricos que vão ser tragados pela vaga.
Cançada de combater a teologia finalmente rende-se. Tendo perseguido Galileu, Giordano Bruno, Savanarola, Averroes, Lutero, tendo combatido todos os iniciadores de um novo sistema do universo ou de uma nova comprehensão dos destinos do homem, a Igreja vê aparecer Darwin, e nem se quer tenta lutar!
O transformismo, revelado por Lamarck, supitado um momento na Academia Francesa sob a autoridade funesta de Cuvier, é finalmente definido e promulgado, e todo o imenso edifício teológico da creação do mundo e do homem cae aluido pela lei da adaptação e da seleção natural na luta pela existência.
Ás grandes revoluções nas ciências físicas e naturais sucederam-se modificações equivalentes nas teorias e nas praxes da vida social, na economia, na administração, na politica, no sentimento, na critica, na poesia, na arte, na moral e na própria religião.
Da filosofia zoológica de Darwin sae um Deus como religião alguma tinha até hoje tido o poder de concebel-o, o único Deus compatível com a noção da sabedoria infinita. Segundo os sistemas da creação anteriores ao transformismo, e adoptados pela Igreja, Deus era o auctor de um universo que ele sucessivamente revia e emendava, depois de cada um dos cataclismos que passavam por cima da sua obra, como passa uma esponja sobre uma operação incorrecta. Segundo a teoria darwiniana, experimentalmente demonstrada e contraprovada pelos mais sábios analisadores, Deus não revê, Deus não corrige, Deus não se emenda, Deus não se aperfeiçôa sendo assim perfectível e portanto imperfeito, como fatalmente deveriamos admitir que o era aceitando a doutrina do Genesis e a critica paleontologica de Cuvier e de todos os adversários de Lamarck de Goethe, de Darwin e de Haeckel.
As especies extinctas não foram cortadas pelo Creador no livro da terra como por meio de um sinal posto á margem na prova de uma segunda edição.
Os órgãos rudimentares dos animais, os órgãos que não têm funcção, deixaram de ser excrecências de stylo inadvertidas pelo auctor ou empregadas por ele com um intuito de ornato retorico. Se o homem, por exemplo, tem em estado rudimentar e na atrofia de uma inercia de milhares de séculos, uma cauda indicada pelas suas vértebras falsas, se tem mamilas sem amamentar, se tem útero sem conceber, se tem um segundo estomago sem ruminar, escusamos já hoje de explicar estes factos por um descuido indolente ou por uma ênfase premeditada na confecção do nosso organismo. A evolução genealógica de todos os seres e a sua procedência de um tronco ancestral comum, descoberta e provada pela lei de Darwin, basta para nos explicar cabalmente todas as aparentes anomalias da creação sem quebra da infalibilidade suprema.
Assim o Deus revelado ao mundo pelos modernos filósofos teístas é o único Deus omnipotentemente sábio, o único Deus verdadeiramente divino, porque não procede na obra da creação por emendas, revisões sucessivas, reedições augmentadas e correctas, como o Deus teológico: Ele cria a vida no átomo primitivo vogando na imensidade, deixa cair a célula primordial nas profundidades fecundas do Mar Tenebroso e ordena-lhe que se desenvolva dentro de uma lei prefixa. Depois do quê não só não descansa, não só não revê, não só não modifica, mas nem sequer espera, porque infinito Ele mesmo, e prehenchendo o infinito no espaço e o infinito no tempo, possui em si próprio, completa, a infinita evolução.
Surge finalmente invencível na sociedade contemporânea um novo poder temporal, o poder da industria, e um novo poder espiritual--o poder da consciência na comprehensão da solidariedade humana.
Vai pois longe, dercorrida ha muitos anos a idade ingenua em que o gênero humano acreditava na virtude das peregrinações aos santos logares!
Compare Vossa Santidade a primeira e a segunda cruzada com esta que nós outros, portadores do álbum em que escrevemos estas linhas, acabamos de emprehender e de levar a cabo em comboio de recreio de ida e volta, a preços reduzidos, guiados pelo padre Conceição Vieira, um sacrista, e pelo Pedro de Alcântara, um grotesco! E estes dois sujeitos são quanto pudemos obter como sucessores de Pedro Eremita e de Godofredo de Bulhões.
Somos noventa e nove, de um paiz de quatro milhões de habitantes, o menos instruido de todo o orbe christão, aquele em que por mais tempo vigorou, com detrimento do nosso senso comum e um pouco também da nossa pele o despotismo da inquisição e do direito divino. Isto ainda assim não obsta porém a que deixassemos na pátria três milhões novecentos mil novecentos e um individuos que não quiseram vir, perdendo assim a indulgencia plenária e deixando de resgatar as suas almas das penas eternas a troco da modica quantia de dezesseis libras, ida e volta, em segunda classe!
Porque eles entendem--principalmente depois que o fogo do Santo Officio deixou de afervoral-os--que não é fácil despir os pecados como se despe um colete de flanela, descalçar a culpa como se descalçam as chinelas de trazer no quarto, e pendurar a responsabilidade como se pendura a robe de chambre para envergar a toilette redemptora de uma viagem a Roma.
Parece-lhes que o Diabo não é tão tolo como alguém o presume, e que, se ele tiver, por exemplo, a idéa de filar o padre Conceição Vieira ou o padre Marnoco para os referver no caldeirão destinado á classe eclesiástica apanhada em pecado, não será porque os mesmos Conceição e Marnoco lhe digam que estão afivelando a chapeleira para ir buscar as indulgencias a Roma, que o Diabo crusará os braços e deixará escapar-lhe sob essa evasiva, aliás engenhosa, uma tão interessante presa.
Estão profundamente convencidos--os herejes!--de que, acima da autoridade dos pontífices, que têm o poder de resgatar as culpas e de franquear a entrada no reino dos céus, está um outro poder mais alto--o poder da incorruptivel consciência, segundo o qual não é pelas romagens divertidas nem pelas orações authomaticas, nem pelas estereis penitencias, mas sim pela simples pratica do dever, austero e inilludivel, que cada um se afirma como verdadeiro justo.
Acham ridículo um céo em que tenha de sentar-se, glorioso e triunfal, á mão direita do Deus da Justiça, um padre Marnoco--simplesmente porque obteve as indulgencias no jubileu pontifício, em quanto á mão esquerda fique ardendo nos tormentos eternos um Lincoln, que pacificou a America, que deu a paz a três milhões de negros e que, depois de uma vida toda consagrada á justiça e á abnegação, entrou finalmente na eternidade pela porta do martírio, coberto com a benção da humanidade e com a benção da historia, mas sem a benção dos papas.
Santissimo Padre! estas convicções profundas de aqueles que não vieram a este jubileu, não podemos deixar de vos dizer em este álbum,--como seríamos forçados a dizer-vol-o, se estivessemos aos vossos pés em uma confissão geral, humildes e contrictos, batendo nos peitos,--estas convicções dos que não vieram são também no intimo das nossas almas as convicções de todos os que nos achamos aqui, quer chegados das ocidentais praias lusitanas, quer procedentes de qualquer outra região do globo.
E a evidente prova de que a nossa fé está irremissivelmente apagada e precisa de se reconstituir em novas bases, é que, no tempo em que o papa era o imperador e o Cesar, no tempo em que ele brandia uma espada de justiça e de guerra, meio milhão de homens rojados aos seus pés estariam prontos a recomeçar as guerras santas ao seu mínimo aceno.
Hoje vós proclamais que sois cativo, que sois ultrajado, espoliado, perseguido, e entre todos os que vos trazem ofertas não ha um só que seja capaz de derramar o seu sangue para vos restituir a liberdade que dizeis perdida e o poder que dizeis violado! Beijamos devotamente o vosso pé sacrosanto; depois do quê, em vez de enristarmos uma lança, vimos para a rua com as mãos nos bolsos e um charuto nos beiços ver desfilar em pelotões marciais os esveltos bersaglieri da Itália unificada.
Debalde nos dizeis que «os pedreiros livres atacam a religião e chamam os católicos a combater.» Os pedreiros livres são bem lastimaveis se não têm mais nada que fazer do que chamar-nos ao combate! A verdade não se alimenta com sangue, alimenta-se com princípios, e não necessita de victimas, necessita unicamente de razões: é precisamente em isso que ela se distingue do erro e da mentira.
Se os pedreiros livres querem por força combater, a resposta mais sensata ao seu convite aos católicos é mandar-lhes um medico que os sangre e lhes prescreva os debilitantes. Que os senhores pedreiros tenham a bondade, antes de nos reptar ao combate, de experimentar a dieta!
Enquanto á guerra, não! Oh! não! Esse é um privilegio dos reis. Hoje só os reis, e algum tanto também os diplomatas, é que fazem as guerras. Por uma razão muito simples: é que só eles as pódem fazer por um modo exclusivamente verbal,--mandando partir os seus exércitos.
Quando os exércitos se lembrarem de mandar partir adiante os reis e os diplomáticos, teremos então firmada para todo sempre a paz geral.
Concluindo pois, Santissirno Padre, dignae-vos de lançar-nos a vossa benção e de nos permitir que a transmitamos a todos os nossos concidadãos, que saberão devidamente presal-a sendo enviada por quem é, como vós, um ancião venerável, cuja longa vida é para todos os que trabalham e para todos os que sofrem um nobre exemplo de constância nos princípios, de firmeza na luta e de resignação na derrota.
Sua alteza o príncipe real, herdeiro presumptivo da corôa, acaba de tomar a primeira comunhão.
Comparecendo pela primeira vez no tribunal da graça aprendeu sua alteza a teoria do resgate da culpa pela penitencia.
A família real e a côrte reuniram-se solenemente no templo para verem ensinar a esse menino por que método fácil os reis podem deixar na terra o opróbrio e enfiarem no entanto para o céu o mais cândido vôo, alados pelos anjos que, ao som da musica da real capela e ao sinal da benção lançada pelo sacerdote, baixam aos reais paços a pegarem ao colo nas almas dos príncipes devidamente desobrigados.
Dizem todos os jornais que foi extremamente edificante e comovente esse augusto espectaculo.
Para ministrar ao príncipe a sagrada eucharistia foi chamado expressamente do Porto o sr. bispo D. Americo.
Parece-nos--comquanto não ouzemos dizê-lo sem uma reserva profundamente tímida--que sendo a comunhão um ato puramente religioso, seria talvez mais consentâneo com a humildade christã que o sr. bispo D. Americo não fosse chamado, que se não fizesse da pratica de um sacramento uma distincção aristocrática, e que sua alteza comungasse simplesmente como os demais christãos na igreja da sua freguezia e pelas mãos do seu parocho.
Poderão objectar-nos que, não comprehendendo as abluções do rito senão as pontas dos dedos no sacrifício da missa e sendo as douches aplicadas unicamente aos sacerdotes pelo bico de um galheta, ha parochos que, por não ultrapassarem as prescripções litúrgicas têm nas suas lobas tantas nodoas como botões, e não somente cheiram penetranremente ao fumo do incenso e ao murrão dos círios, mas cheiram também algum tanto a sais amoniacais e a uréa, de onde poderia resultar que no banquete eucharistico a qualidade da baixela desgostasse o príncipe da pureza mistica do manjar.
A essa objecção respondemos que seria mais econômico e talvez mesmo mais eficaz para remedio do baixo clero que, em vez de só mandar vir o sr. D. Americo, deslocando-o dispendiosamente da sua diocese com os seus fâmulos e a sua mitra, se mandasse chamar simplesmente o sr. Cambournac.
Porque--acreditem-o--não é com a presença do ilustre e correcto bispo portuense, nitidamente barbeado, perfumado pelo uso de bons comesticos, com belas meias de seda escrupulosamente esticadas por um destro valet de chambre, com fina roupa branca e lustrosas unhas esmeradamente limadas e polidas, não é com exemplos que deslumbram que se ha de obstar á decadência das nossas batinas. Elas em Portugal não querem por enquanto exemplos. O que elas querem é diretamente benzina.
Se, porém, se entende definitivamente que á mesa da comunhão devamos nós os católicos aproximar-nos por categorias e por classes, como á mesa dos paquetes, então pedímos uma tarifa para regularisação do serviço eclesiástico. Que a Igreja nos diga definidamente quem são os passageiros da terceira classe que comungam na tolda com a marinhagem e quais os escolhidos com direito a receberem a comunhão á mesa do comandante!
Depois da cerimônia religiosa, acrescentam os jornais, que fora servido no paço um opíparo almoço aos dignatários da côrte e ao alto clero. Esperamos que o sr. patriarca fazendo aos poderes temporais o duro sacrifício de não cumprir o preceito jejuando, pusesse ao menos a condição de que a sua costeleta fosse de bacalhhau!
A narração feita pelo capitão Cameron da sua viagem no continente africano veio levantar em Portugal, entre alguns incidentes, a seguinte questão:
O que devemos fazer para manter por meio de medidas civilisadoras o domínio das nossas colonias?
Para isto ha uma única resposta: Para dominar o que se deve fazer é criar faculdades dominantes.
Quem tem força para dirigir manda; quem a não tem serve.
A escola dos grandes exploradores e dos colonisadores é a escola da força nos individuos. Quando Stanley deu pela primeira vez conta em uma conferencia em Londres, da viagem que fizera em procura de Levingstone o argumento que mais convenceu o publico de que o conferente não era um simples fantasista foi a expressão enérgica da sua figura agigantada, a sua saúde de Hercules e os fortes pulsos com que na gesticulação ele parecia estar outra vez abatendo e suplantando de novo aos olhos do auditório os obstáculos com que dizia ter luctado.
Diante de um retrato do capitão Cameron sentimos a mesma impressão, que explica o sucesso de uma empresa difícil e perigosa pela decisão e pela firmeza do que a emprehende. A fisionomia um pouco espessa e dura de Cameron, o seu grosso pescoço solidamente plantado entre uns hombros atléticos são para a consideração de todos os ingleses os mais belos atributos de raça, o mais apreciável característico de uma distincção privilegiada. Porque na educação inglesa a saúde, o vigor muscular, a força física são o objecto de um culto.
Nos colégios Eton, Rugby, Harrow, os jogos atléticos, a pela, o exercício do remo, a carreira, o foot bal, o cricket ocupam todos os dias algumas horas de aplicação. Duas vezes por semana, quando menos, as aulas terminam ao meio dia para darem tempo aos exercícios físicos. As contendas entre os alumnos decidem-se ao pugilato, diante de testemunhas, com padrinhos que estabelecem as condições do combate, que amparam o vencido, que lhe refrescam com água as contusões, porque estes encontros não terminam sem um ou outro ou ambos os contendores ficarem com um olho pisado, um dedo partido, ou um beiço esmurrado por um dos socos do adversário. Toda a criança que se exhime a liquidar em um combate leal as suas pendencias de honra é despresada pelos seus camaradas e considerada como incapaz de vir a ser jamais um verdadeiro gentleman.
Do colégio passam os alumnos creados em este regímen durante a adolescência para as universidades, onde a mocidade se desenvolve sob um regímen egual: conhecem-se as celebres regatas no Tamisa entre as equipagens das duas universidades de Oxford e de Cambridge. Os estudantes ricos exercitam-se e fortificam-se ainda montando a cavalo, caçando a raposa, governando a quatro. Para se tornarem vigorosos e dextros, creanças, moços, adultos, homens de quarenta e cincoenta anos, outros muito mais velhos, como por exemplo lord Palmerston, cumprem as mais severas prescripções higiênicas, submetem-se a uma alimentação especial, absteem-se de todo o excesso que prejudique o desenvolvimento sistemático da musculatura. Os principais divertimentos nacionais são os exercícios de agilidade e de força. Ha crickters que têm ido jogar partidas solemnes de Londres á Australia.
Em Lisboa vivem dois ingleses que vão frequentemente a Cintra a pé, levam as suas espingardas, passam o dia a caçar nos Capuchos e regressam á noite sempre a pé. Tripulam uma pequena embarcação com a qual têm batido em muitas apostas todos os catraeiros do Caes do Sodré. Ha poucos dias foram ao Porto expressamente para regatar com o club de aquela cidade. Foram vencidos pelos do Porto. Depois da regata havia uma partida de cricket. Um dos ingleses a que nos referimos sustentou-se no campo cinco horas consecutivas sem nunca sair do jogo. Dois oficiais a bordo de um dos navios da última esquadra que esteve no Tejo partem a pé de Lisboa, pela manhã, vão a Mafra, passeiam na mata, percorrem todo o enorme edifício do convento, almoçam um bife e voltam a pé a Lisboa, chegando a tempo de estarem em um jantar de convite, á hora fixada, lavados, perfumados, frescos, com os seus uniformes de soirée e uma rosa de Mafra na casa da farda.
de estes factos e de muitos outros equivalentes, que seria prolixo enumerar, deduz-se que o assumpto de uma conferencia, que não vemos por enquanto citada entre as que nos anuncia a Academia acerca da civilisação africana, poderia intitular-se: Da influencia do «sport» no caráter dos povos exploradores.
A Academia póde muito bem civilisar a Africa pelo modo mais superiormente sábio na rua do Arco a Jesus, mas não seria talvez inteiramente ocioso o perguntar quem é que ha de ir levar aos interiores inhospitos da Africa as bases elementares de essa civilisação. Não ha dúvida que é possível mas não é completamente inacessível a algumas objecções a hipótese de que os negros se queiram desde já civilisar a si mesmos e venham expressamente para esse fim á Academia escutar. Ao passo que, por outro lado, as prelecções dos ilustres acadêmicos não se distinguem das conferencias feitas em Paris e em Londres pelos viajantes extrangeiros unicamente no facto de encararem os assumptos por um ponto de vista contrario, distinguem-se ainda pela particularidade de que os srs. Cameron e Young fizeram as suas exposições depois de chegarem, e os srs. acadêmicos, com excepção do sr. José Horta, fazem as suas um poucochinho antes de partirem. Isto em nada prejudica o valor real da doutrina acadêmica, que de modo algum menospresamos. O que pretendemos simplesmente notificar é que talvez não seja fácil encontrar-se de pronto quem vá traduzir em bunda ao gentio de Africa a prosa eloquente e vernácula dos civilisadores inamoviveis da metrópole. Não é fácil encontrar esses homens, porque a raça dos nossos antigos expedicionários abastardou-se e extinguiu-se na moleza dissoluta dos costumes modernos.
Folheem-se os velhos chronistas, examinem-se os retratos dos homens dos nossos descobrimentes e das nossas conquistas:
Affonso de Albuquerque, aos sessenta e três anos de idade, cercado dos desgostos mais profundos, arrosta durante cinco meses com os estragos devastadores da terrível disenteria asiática, porque--diz João de Barros--como era fragueiro e pouco mimoso de sua pessoa só se lançava em cama, quando mais não podia. Albuquerque que em saúde reunia á força física a grande força moral da alegria--era homem de muitas graças e motes, e em algumas melancolias leves, no tempo de mandar, soltava muitas, que davam prazer a quem estava de fora,--assim tocado de morte por uma enfermidade que não perdoa nunca, reune conselho de capitães, nomeia o seu sucessor põe boã ordem em todos os negócios da administração da Índia, escreve a el-rei a famosa carta, modelo de hombridade e de independencia, cujo autografo se conserva na Torre do Tombo, despede-se do rei de Ormuz, e faz-se ao mar em um dos seus navios, onde expira, tendo fulminado a incompatibilidade das monarchias com o direito por via da conhecida frase: mal com o rei por amor dos homens, mal com os homens por amor do rei.
O infante D. Henrique--segundo o mesmo João de Barros--tinha largos e fortes membros acompanhados de carne: a cor da qual era branca e corada, em que bem mostrava a boa compleição dos humores. Tinha os cabelos algum tanto alevantados, e o acatamento (por a gravidade de sua pessoa) um pouco temeroso a quem de ele não tinha conhecimento.
Do conde Duarte de Menezes, a quem D. Affonso V deu a capitania de Alacer-Ceguer, e que foi um dos heróis da Africa, diz Gomes Eanes de Azurara: «Foi este conde de baixa estatura de corpo, enformado em carnes, e de cabelos corredios, e graciosa presença, embargado na fala, e homem de grande e bom entendimento, pouco risonho nem festejador, tal que quase do berço começou de ter autoridade e representação de senhorio. Foi muito amador de verdade e de justiça, mui temperado em comer, e beber, e dormir, e sofredor de grandes trabalhos, tanto que parecia que ele mesmo se deleitava em os haver, porque quando lhos a necessidade nom apresentava ele por si mesmo os buscava. E segundo entender dos homens nem se desenfadava tanto em outra coisa, como nos feitos da cavalaria, como aquele que quase do berço usara o oficio das armas.»
Diriamos estar vendo colorida no stylo das nossas velhas chronicas a fotografia moderna de um sportman da Grã-Bretanha.
Do mesmo Duarte de Menezes diz Schoeffer: «O poder que tinha sobre si mesmo, a sua gravidade natural, que raras vezes interrompia por um sorriso, e sobretudo o seu juízo são e a sua alta inteligência tornavam-o próprio para o comando.»
O infante D. Pedro, o que, segundo o proloquio popular, viajou as sete partidas do mundo, era alto e magro; diz Schoeffer que a suavidade do seu olhar abrandava a impressão de receio produzida pela sua estatura e pelo seu rosto fortemente carregado; «irado tinha um aspecto que infundia terror».
Os corações eram de uma tempera inquebrantável, hostil á sentimentalidade e á ternura. Em um combate no assedio de Alcacer, Martim de Tavora arranca do poder dos moiros a golpes de espada o seu fidagal inimigo Gonçalo Vaz Coutinho, verte para o conseguir o seu próprio sangue, arrisca eminentemente a sua vida, e quando Gonçalo Vaz lhe pergunta como viverão de aí em diante, Tavora responde-lhe duramente: «Como dantes.» E a inimisade dos dois continuou inabalável.
Os que eram dados ao galanteio das damas comoviam-as mais pela asperesa varonil do aspecto do que pela suavidade efeminada das formas.
Na lenda dos doze que foram bater-se na corte de Londres pelas damas do Palácio, o Magriço diz á loura miss que depois do combate ia deitar-lhe água ás mãos: «Sabei, senhora, que as minhas mãos, segundo as tenho assim tão grosseiras e cabeludas, poderão ser-vos molestas e temo que vos causem desgosto.» Ao que a mimosa inglesa replica fazendo sentir ao calejado e cabeludo cavaleiro que a bela mão de um homem é a que denota pelo seu aspecto não dedicar-se ás caricias moles, mas sim aos fortes trabalhos que têm como fim a honra e como premio o amor.
O Vasco da Gama era de um porte tão exforçado e valoroso, que o rei D. Manuel, hesitante na escolha do homem a quem devia entregar o comando da expedição projectada, vendo-o atravessar por acaso na sala em que ia sentar-se á mesa para jantar, determina que seja aquele o que vá descobrir-lhe a Índia.
O modo como o Gama esmaga a seu bordo a conspiração dos pilotos basta para provar que D. Manuel tinha o olho prescrutante que adivinha os homens pela cara. Sacudido pela tempestade temerosa no meio de empresa de tanto risco e de tamanha aventura, quando a guarnição desalentada e espavorida pede em todos os navios da frota que se arribe, que se regresse á pátria, o Gama prende a um por um todos os pilotos cabeças do motim, carrega-os de ferros, encarcera-os no porão, intima-os a que lhe entreguem «quantas coisas tinham da arte de navegar» sob pena de os enforcar a todos, e havendo na mão as cartas que os deviam orientar na volta, lança tudo ao mar, exclamando: «Olhae que não tendes mais mestres nem pilotos nem quem vos ensine o caminho de hoje em diante. A Deus vos encommendae e pedi misericórdia, e a mim de hoje avante ninguém me diga que arribe; porque de mim sabei certo que, se não achar recado do que venho buscar, não voltarei nunca mais.»
Ao que a guarnição se submeteu com a docilidade de quem não tinha senão dois caminhos que escolher em aquela viagem:--o da Índia ou o da morte.
O próprio Camões, o immortalisador das façanhas de essa velha raça, era ele mesmo um forte, um destemido, um lord Byron da Renascença. Os seus costumes de audaz espadachim e de famigerado tranca-ruas crearam-lhe na Índia conflictos arriscados, de cujas ameaças ele sorria dizendo: que só era vulnerável pelas solas dos pés e que estas ninguém lhas vira nem havia de ver.
Em todas as altas figuras do nosso grande século se patenteia o tipo expressivamente característico de uma forte raça privilegiada, hoje extincta.
A Europa saia apenas do regímen feudal. Conservavam-se vivas no coração de todos os fidalgos as tradições da cavalaria. Os besteiros de conto eram apenas uma débil tentativa do que deviam vir a ser mais tarde os nossos exércitos permanentes.
Os grandes vassalos defendiam os seus foros com numerosas lanças, e nos prasos em que não serviam o rei e a pátria batendo-se com inimigos extrangeiros, adestravam a mão em sortidas e escaramuças intestinas. Quando não combatiam monteavam.
Tinham a educação da guerra, a experiencia das aventuras arrojadas e das duras privações.
Os divertimentos públicos eram ainda os jogos guerreiros: o tavlado, um exercício de força, e as canas, um exercício de destreza.
A moderna educação portuguesa esterilisou a sociedade para o fim de gerar homens próprios para as lutas do trabalho nas regiões inclementes em que é preciso arrostar com a fadiga, com o sol tropical, com as febres dos rios podres.
Os cidadãos que em Portugal recebem alguma cultura de espirito sacrificam-lhe de tal modo o seu desenvolvimento físico que não só não podem levar a sua influencia e a sua dominação intelectual ao interior da Africa, mas nem sequer a levam de Lisboa a Cascais se lhes suprimirem as facilidades do rebocador ou do carrão.
Sabemos que ha excepções, mas essas constituem uma vantagem pessoal de poucos individuos, e não uma feição do paiz.
Na Inglaterra pelo contrario o sport está na mesma alma da nação, completa o caráter do paiz.
O príncipe de Gales readquiriu depois da sua última viagem a popularidade que antes de ela tendia a fugir-lhe. O simples facto de ter penetrado na Índia e de ter caçado as feras a tiro com risco de vida é um dos seus mais poderosos títulos á estima publica. O sport é na Inglaterra uma especie de religião. O inglez bem educado atravessa a Africa por fanatismo. Simplesmente para a ter atravessado, e para ter a gloria incomparável de o poder referir ás sociedades sabias de geografia, de zoologia, de botânica, de meteorologia, de antropologia, aos diferentes clubs dos caminheiros da Inglaterra, da França e da Suissa, deixando a enorme distancia atraz de si os seus compatriotas de curto folego que apenas subiram ao Monte Branco ou percorreram a pé os Pyreneus.
Ora sem esse fanatismo e sem esse enorme eco na opinião e na popularidade não ha paiz que se possa medir com a empresa enorme de explorar e de civilisar as regiões salvagens. São insuficientes para esse fim todos os esforços do governo, das sociedades geográficas, das academias e de todas as agregações artificiais de alguns individuos; é preciso que o grande impulso parta do gênio colectivo do povo.
O povo pertuguez não está creado para esses movimentos enérgicos. Era uma raça audaz, entusiasta e forte. Preverteram-a com duzentos anos de uma educação dogmática e de uma disciplina fradesca.
Estamos como o filho de um homem que herda um estaleiro em que o pai fazia navios e em que ele para sustentar a fabrica tem de brandir um machado e de talhar madeira durante dez horas por dia. Ora esse filho é um anêmico, que não pode com a sua badine. O que ha de fazer? Restaurar a sua constituição ou vender o machado e ir tossir para o Martinho.
Contra os agentes da dissolução em que cahimos uma ou duas vozes em todo o paiz protestam--o que até o dia de hoje 15 de junho, ás 11 horas e meia da noite, tem sido completamente inutil. Deitam-se abaixo livrarias, enegrecem-se com prosa oficial resmas de papel da Abelheira, abrem-se conferencias publicas, organisam-se expedições,--tudo para dar a entender ao mundo que somos um povo forte. E no entanto o povo continua nas condições de abatimento em que estava, as quais não podem tornal-o próprio para o domínio, mas sim para a servidão.
Vimos já, ligeiramente esboçado, o quadro da educação inglesa. Vejamos o espectaculo correspondente na nossa organisação social.
Olhem ao domingo e á quinta feira para um dos nossos colégios de educação em passeio na baixa. Uma fieira de pequenos macilentos e enfesados, encarreirados a dois de fundo, vestidos de preto ou com falsos uniformes de guarda-marinhas, vigiados por dois padres. Que diferença dos colegiais ingleses, com os seus chapéus de palha, a blusa de flanela, o calção curto, a meia de lã, correndo livremente nos campos, com os grossos sapatos cheios de lama, em plena liberdade, entregues a si mesmos, responsaveis pelos seus atos, conscientes do seu direito e do seu dever como pequenos republicos!
Em Portugal um cão fraldiqueiro pode andar sem perigo pelas ruas, sabe-se governar, sabe-se dirigir, sabe morder, sabe voltar para casa; um joven racional de dez ou doze anos, dos quais cinco de escola sob a pressão dos compêndios do sr. João Felix, não aprendeu nada de isso, e precisa de um padre ou de um aguadeiro que o leve pela mão para atravessar a rua!
Essa miserável creatura tem uma mãe que o não deixa saltar para que não quebre as pernas, que o não deixa trepar para que não quebre a cabeça, que o não deixa meter-se na água fria para que não se constipe. Era melhor que ele tivesse quebrado uma perna uma vez, que tivesse rachado a cabeça quatro, e que se tivesse constipado dezesseis, e houvesse aprendido assim a ser um principio de homem, do que não ter passado por nenhum de esses desares e ser unicamente um lamentável boneco, medroso e covarde, que um gaiato, creado na lama da rua e tendo metade da edade que ele tem, pode impunemente encher de bofetadas nas duas faces e estofar de ponta-pés em todo o resto do corpo, servindo-se para isso dos membros que não quebrou, nem a trepar, nem a correr, nem a deitar-se de mergulho ao ribeiro, apesar dos perigos previstos pela mãe do molestado.
O primeiro ato da vida civil de esse sujeitinho consiste em meter empenhos para ser aprovado em instrução primaria.
A primeira gloria da sua existência consiste em se considerar tão importante personagem que saiu aprovado com dez valores, apesar de ter passado a meter os dedos pelo nariz e a explorar exclusivamente esse órgão todo o tempo destinado a aprofundar concomitantemente as doutrinas do sr. Felix.
No ano seguinte começa a estudar as línguas e a fumar cigarros ás escondidas.
Penetra finalmente na retórica e na leitura dos romances, em que passam visões de mulheres que o tornam cada vez mais amarelo.
Chega da cor de uma cidra ao fim do curso dos liceus, tendo, além de todos os preparatórios, mau halito, as pernas cambadas, a espinha torcida, algum tédio da vida e muita caspa.
Matricula-se então na faculdade de direito na universidade de Coimbra e o primeiro efeito dos estudos superiores sobre a sua cabeça é augmentar-lhe a caspa.
Depois a vida acadêmica absorve-o e ele percorre toda a escala das nobres loucuras de uma mocidade espirituosa e vivaz: empenha as piúgas, toca o fado, dá canelões nos caloiros, espanca os burguezes, faz algumas canções «grivoises», entorna o môlho das ceias pelo peito da batina, e regressa a Lisboa bacharel formado.
Tem vinte anos e fez vinte exames. Para cada exame pediu proteção a três individuos;--pediu proteção e pediu feriados; pediu humildemente, inclinado, arrastando a capa, retirando-se ás arrecúas como uma pêga assustada, sorrindo com um agrado pusilânime:--Sr. doutor, imploro submissamente a valiosa proteção de v. ex.ª!... Sr. doutor, criado de v. ex.ª!... Criado de v. ex.ª! ex.'mo sr. doutor...
O espinhaço do bacharel traz feita de Coimbra a curva servil do pretendente do Terreiro do Paço.
O que na universidade pedia, em Lisboa requer. É apenas a mudança de nome: «--Sr. ministro, imploro submissamente a proteção de v. ex.ª... Criado de v. ex.ª, sr. ministro... Ex.mo sr. ministro, humilde servo de v. ex.ª...» E sae ás arrecúas dos gabinetes dos ministros como saía dos gabinetes dos lentes, dando-se o ar lastimoso de um cão peludo ao emergir da água, com o seu velho sorriso deplorável, anediando a copa do chapéo com o canhão da sobrecasaca.
Depois de ter cambado os tacões de cinco ou seis pares de botas nos passeios por baixo da arcada das secretarias, o bacharel alcança o que deseja. Um ministro despacha-o--para se ver livre de ele. Consegue ser empregado publico ou candidato governamental por um circulo do continente ou do ultramar.
Desde então as engrenagens do machinismo oficial apoderam-se de ele para nunca mais o largarem. É um escravo. Perdeu a personalidade. Pertence á grande legião. Vai para onde ela for, diz o que ela disser, pensa o que ela pensar, dentro de limites intransitaveis, na distancia prefixa do cepo a que o amarraram.
É assim que uma quantidade iunumeravel de individuos que formam a classe dirigente vivem de este cuidado único: O cuidado de se não comprometerem. Nunca mais dizem o que sentem. Nas suas idéas, nas suas opiniões, na sua linguagem, tudo é riscado pela pauta oficial. Se alguma vez do fundo do nojo que suscita esta dispepsia moral lhes vem á boca uma verdade, engolem-a para baixo como o caroço de uma fruta prohibida.
Como pelo desdem do trabalho vivem em uma estreiteza pecuniária vizinha da miséria, muitos se lançam á caça do casamento rico, e, vexando-se de ser tecelões ou ferreiros, não se vexam de casar por interesse, e aceitam para toda a vida a intimidade indissoluvel de uma mulher feia, estupida, malcreada, sem espirito de ordem, sem método, sem a dignidade do conforto e do asseio domestico,--a viva negação de todas as condições que tornam a casa feliz e a família amável.
É de esses consórcios sem idealidade e sem amor, contraidos fora da mutua dedicação que completa o homem pelo seu par e cria o verdadeiro individuo social duplicadamente corajoso, digno e forte, que saem os filhos dissolutos, os jovens cínicos, desdenhosos das afeições honestas, hostis a todos os sentimentos de família, cujos nobres encantos nunca aprenderam a conhecer e a estimar.
de esses consórcios procedem também as meninas futeis e pretenciosas, frageis entes inúteis, a que falta a condição essencial da nobreza e da dignidade da mulher--a comprehensão do ménage, o culto do santuário domestico. Elas refugiam-se da convivência antipática da sua família, constituida sem bases orgânicas, na religião, ou, para que o digamos no termo mais preciso, na igrejice, e na leitura dos romances sentimentais. A igrejice e o romance são os dois pólos da sua vida moral.
Como qualquer de essas meninas desconhece completamente a arte de cultivar e desenvolver os seus encantos de espirito e de caráter, um instincto de aperfeiçoamento, desencaminhado pela educação, leva-a ao cultivo do trapo como um fim de superioridade, e arroja-a no lastimável fetichismo dissipador da moda.
Ignora completamente todas as artes que constituem os elementos da felicidade conjugal e que só por uma grande pratica e por uma longa tradição se aprendem: a arte de se fazer bela pelo simples modo de atar uma fita, de pôr em si uma flor, pela maneira de coser, de caminhar, de se sentar em um fauteuil, de pegar no talher, de estar á mesa; a arte de dirigir a cozinha, de organisar a alimentação, de extrair da sua chimica a alegria e a saúde dos seus comensais; a arte de arranjar a casa, de lhe dar fisionomia, de a obrigar a mostrar talento, a exprimir idéas, a ter quase conversação, fazendo respirar como coisas vivas nos armários as pilhas perfumadas da roupa branca, sorrir nas prateleiras da casa de jantar o esmalte das loiças e o estanho reluzente das tampas das canecas, estenderem-nos os braços as cadeiras do salão, e solicitarem-nos a permanecer a cor dos cortinados, o tom dos estofos, o assumpto dos quadros, a colocação dos moveis, a graduação da luz, a frescura do ar, a nitidez geral do asseio e a sabia disposição dos livros e dos jornais sobre o pano da mesa.
A menina em semelhantes condições de inutilidade raramente se casa, ou se desquita do marido se algum dia o vem a ter. As suas inclinações romanescas e doentias chamam-a para beata. De resto é essa talvez a sua melhor maneira de ter um fim, porque, enquanto a ser mãe, prohibe-lh'o física e moralmente a acumulada estreiteza do coração e dos ossos.
Tais são, no caráter dos individuos de um e outro sexo, os frutos da educação portuguesa na classe mais preponderante da sociedade, aquela que fórma a opinião e determina as tendencias do espirito publico. Com semelhante estado é irreconciliável o gênio explorador, a tendencia para as viagens entre póvos bárbaros e finalmente o poder de dirigir e de dominar.
Como colonisadores temos apenas uma vantagem sobre os outros póvos europeus: a sobriedade, que permite aos nossos operários alimentarem-se com a simplicidade de esses chins cuja concorrência, pelo simples facto de eles se satisfazerem não comendo senão arroz e não tendo outra baixela senão dois paus, faz tremer todos os trabalhadores do mundo.
Mas esta grande virtude de raças inferiores, característica principalmente dos nossos operários do Minho e de Traz-os-Montes, é insuficiente para nos conservar o domínio de extensos territórios, que se não arroteiam para a civilisação senão pelo esforço combinado de altas faculdades administrativas que não temos, de uma grande robustez física que também não temos, e de um entusiasmo impulsivo e desinteressado, tirado de uma grande corrente nacional das mesmas idéas e das mesmas convicções, o qual egualmente nos falta.
Nenhum fenômeno mais expressivo da nossa anarchia administrativa e da nossa abdicação governamental do que o estado da nossa marinha.
Em todo o paiz colonial e marítimo a industria da pesca é a escola em que se iniciam os marinheiros. A pesca é a infância da marinha. A Holanda compreendeu admiravelmente essa verdade, e a industria piscatória é desde muitos anos objecto dos cuidados e das atenções mais desveladas por parte do governo holandês, cuja marinha é hoje florentissima. Essa marinha constituiu-a a Holanda atraindo, com grande augmento de salários, os pescadores biscainhos que iam á pesca da baleia ao cabo de Finisterra.
As pescarias no mar largo, como a da baleia e principalmente a do bacalhau, são particularmente favorecidas por todas as nações marítimas com grandes prêmios conferidos pelo estado. É na classe numerossima dos tripulantes de milhares de navios empregados nas chamadas grandes pescas que se recrutam os marinheiros das armadas europêas.
O governo francês protege, com grandes subsídios na armação dos navios e com avultados prêmios sobre o pescado importado, as suas pescas do bacalhau, cujo producto augmenta extraordinariamente os recursos alimentícios do paiz, elevando-se o seu valor em dinheiro á soma de 17 milhões por ano. A pesca do bacalhau emprega em França 400 navios e 12 mil marinheiros.
Um facto bem notável e digno de ser ponderado pelos legisladores portuguezes é que a prosperidade e o progresso da França têm sido marcado, como a temperatura em um termômetro, pelo desenvolvimento ou pela estagnação das suas grandes pescas! No tempo da emancipação comunal a pesca do bacalhau desenvolve-se enormemente; cae com a corrupção monarchica do regímen despótico; revive diante das medidas legisladas pela Revolução.
Talvez o governo ignore as condições em que actualmente se tributa o sal que os pescadores franceses nos compram com destino ao seu bacalhau. Os navios franceses que veem ao nosso porto fornecer-se de esse gênero fazem fiscalisar o seu carregamento pelo respectivo consulado; o cônsul francês remete ao seu governo a nota dos moios de sal carregados em Lisboa e cujos direitos de importação em França são pagos no porto de onde o navio partiu pelo proprietário responsável por este imposto. de este modo evita-se todo o contrabando na importação do sal: os direitos estão pagos na razão de 50 cêntimos por cem quilogramas. Quando porém o navio que carregou em Lisboa volta a França com o sal empregado nos bacalhaus que pescou, o governo restitue-lhe os direitos anteriormente percebidos, não já na razão de 50 cêntimos por cada cem quilogramas de sal, mas sim na de 13 francos por cada cem kil. de bacalhau. É assim que na questão de um simples imposto se revela o plano de um paiz para o qual a administração tem um fim de progresso.
Portugal possui no mar dos Açores, segundo a asseveração de vários navegantes, um banco de bacalhau que muitos julgam superior ao da Terra Nova, o qual se diz descoberto por um portuguez Gaspar Côrte Real. E deixa morrer ao desamparo essa grande industria riquissima, a pesca de um peixe precioso em que tudo se transforma em riqueza: as línguas constituem um artigo especial presadissimo dos gourmets; dos intestinos faz-se o melhor adubo da terra; do figado extrae-se o óleo importantíssimo para a industria e para a medicina; os ovos empregam-se com grande vantagem na pesca da sardinha.
Apesar de Portugal ser um paiz privilegiado para a pesca do bacalhau, pelo valor e pela pericia dos seus pescadores, pela posse do melhor sal que se conhece para salgar o peixe e do melhor sol que ha para o secar, o nosso governo despresa este importantíssimo ramo da atividade comercial, perdendo por esse mesmo facto a melhor escola pratica dos nossos marinheiros e dos nossos navegantes. A grande pesca também é para nós um symptoma da vitalidade nacional. Quando eramos fortes mandavamos cincoenta ou sessenta navios de pesca para a Terra Nova. Hoje pescamos na costa o carapau para o gato, servindo-nos de redes que deveriam ser prohibidas, despovoando as águas de pequenos peixes insignificantes, que pelo contrario pesariam dois kilos e seriam um importante artigo alimentício, se tivessemos estudado os nossos aparelhos de pesca e soubessemos legislar sobre a dimensão permitida ás malhas das redes. O governo portuguez nunca deu a este assumpto, base de toda a exploração colonial, um só instante de atenção.
O parlamento nomeia em cada ano uma comissão de pescas, que ainda não serviu para mais nada se não para tributar o pescador. As especies de peixes que frequentam as nossas costas estão por estudar. A piscicultura não tem sido objecto de maiores desvelos que a ictiologia: nem uma só medida tomada pelo Estado para repovoar as águas das nossas costas e dos nossos rios principais; nenhum estudo feito sobre os botes e sobre os aparelhos empregados na pesca. Assim o pescador considera o Estado, que ele nunca viu representado senão pelo fisco, como um puro explorador.
Na Povoa de Varzim ha um antigo quebra-mar destinado a formar um porto de abrigo, que nunca se concluiu. Todas as reclamações, todas as instancias feitas para este fim têm sido inúteis.
Ha cerca de seis anos el-rei em pessoa visitou a Povoa acompanhado por um dos seus ministros, o sr. Avelino, o qual em nome do soberano prometeu aos pescadores que ia ser concluído o paredão. Até hoje ainda se não acrescentou uma pedra àquele monumento único do desleixo nacional!
E todavia o espirito aventuroso dos nossos antigos navegantes, que o sr. marquês de Sousa Holstein acaba de procurar resuscitar com a sua eloquente e erudita conferencia acerca da escola de Sagres, está ali vivo ao pé de esse paredão em ruínas. Ha aí três mil homens que em cada dia jogam as suas vidas com a mesma coragem com que nós aqui em Lisboa jogamos as cartas. Os poveiros são os homens mais alentados e mais robustos que tem Portugal. É raro o que se enterra no cemitério da freguezia. Morrem no mar, sob um céo de chumbo, estrangulados pela inclemência das vagas, á vista da terra, ao alcance das vozes das suas mulheres e dos seus filhos, por lhes faltar o abrigo a que se destina o quebra-mar de conclusão em projecto! Não ha um que saiba ler. Habitam em terra um bairro infecto e miserável. Os cações escalados, destinados á alimentação no inverno, secam pregados ás portas interiores das casas. Cheios de vermine, homens, mulheres e creanças, dormem no mesmo quarto, em uma promiscuidade horrorosa. A terra da pátria dá-lhes apenas um farol, que eles iluminam á sua custa, e um barco de salva-vidas, que eles mesmos tripulam. E é para isso que eles, desgraçados, quase mendigos, pedindo esmola em bandos durante o inverno, pagam um imposto anual de cerca de seis contos de réis, integralmente devorados pelo fisco.
Imagine-se como eles lhe hão de querer e como a hão de amar, á querida terra da pátria!
A única vingança que esses generosos lobos do mar tiram do Estado, que tão vilmente os explora e os rouba, consiste em não darem nem um só homem para o recrutamento marítimo. Não ha meio algum de os obrigar a fornecer um recruta á armada. Preferem morrer mil vezes a servir tais amos.
E eis aí está o último capítulo na província do Minho da historia, feita pelo sr. marquês de Sousa, da escola dos navegadores portuguezes fundada em Sagres pelo infante D. Henrique!
Como a administração das nossas colonias depende diretamente da organisação da nossa marinha, como a importância da nossa marinha depende da organisação das nossas pescas, a Academia prestou á civilisação da Africa um serviço verdadeiro, não organisando conferencias, mas tomando uma deliberação mais obscura e todavia mil vezes mais importante: a de nomear o sr. Brito Capello, naturalista adjunto do museu zoológico, para ir estudar ao longo do nosso litoral a industria da pesca e de expôr os meios de a reorganisar.
Contudo a opinião, que tem de julgar os factos, tão esclarecida é, que aplaudiu como um notável beneficio patriótico a iniciativa das conferencias--um espectaculo de erudição, e não teve uma palavra de aplauso para a missão do sr. Capello--o primeiro passo para atacar o mal na sua verdadeira origem!
Do estado verdadeiramente deplorável em que se acha a nossa força marítima póde-se ter uma idéa pela recente medida tomada pelo governo de convidar a servir na armada, mediante uma gratificação apregoada na folha oficial todas as praças de infanteria ou de caçadores que para esse fim se apresentem! O governo tem de um marinheiro esta comprehensão:--que ele se fabrica por meio do abono de quatrocentos réis por dia dados a um soldado de caçadores!
Mas, a não ser que o façam ao acaso ou que se determinem por uma escolha baseada na cor dos olhos ou na fórma do nariz, que razões podiam ter levado o governo a alistar na arma de caçadores um dos seus recrutas? Suppomos que estas razões devem ser tiradas das condições em que foi educado o recruta; que o fizeram caçador porque habitava as montanhas, porque era um caminheiro, porque tinha a agilidade que dá a luta com os terrenos escabrosos nas visinhanças das serras. Ora, sendo assim, como querem sujeitar á vida sedentária do mar e á familiaridade das ondas esse montanhez, que nunca pegou em um remo, que chegou das Alturas de Barroso, do Marão ou da Serra da Estrela e que sente as pernas enferrujadas e o pulmão oprimido desde que não anda mais de uma légua por dia trepando saudosamente ás colinas que cercam o logar do seu quartel?
Outro facto não menos expressivo é o que ha pouco tempo se deu com alguns guarda-marinhas do nosso conhecimento em estação em Loanda.
Sabe-se que não ha plantas dos nossos portos da Africa, cuja navegação se faz por meio de cartas inglezas.
Os jovens marinheiros a que nos referimos, impelidos por esta vergonha da nossa marinha, quiseram levantar a planta do porto de Loanda. Empregaram todos os esforços para obter os necessários instrumentos, não puderam conseguir senão unicamente a oferta de um bote, único elemento de trabalho que o governador se achava habilitado a pôr á disposição de esses extravagantes. Eles comprehenderam então que não tinham senão uma coisa que consagrar aos destinos da pátria; não era o talento, não era a dedicação, não era o trabalho; era unicamente a saúde. E foram imolar o figado á administração nacional para bordo do seu navio, como patos de engorda pregados pelos pés á respectiva capoeira.
Quando os nossos oficiais têm conseguido arruinar completamente as suas vísceras na inanição oficial das nossas estações de Africa, voltam doentes á metrópole e concluem a missão civilisadora que o paiz lhes incumbiu tomando as águas alcalinas de Vidago.
As águas de Vidago são o fim supremo do seu destino militar.
Enquanto estas coisas se passam os ingleses, com um poder creador que faz muitas vezes o elogio das suas faculdades inventivas, acham em cada dia pretextos novos para intervirem com o seu protectorado humanitário nos negócios do interior africano, e dilatam a pouco e pouco a sua ocupação e o seu domínio manso sobre o nosso território.
Um dos incidentes que acompanham a questão suscitada pela viagem do capitão Cameron é a revelação feita por este viajante de que as auctoridades portuguezas no interior da Africa não obstam ao trafico dos escravos, que ainda ali vigora.
Como é que nós respondemos á denuncia de este facto? Respondemos negando a asseveração do sr. Cameron e fazendo protestos.
Para decidirmos se um tal modo de retorquir nos podia ser ou não permitido, vejamos quem é o homem que nos acusa.
Cameron é o segundo europeu depois de Levingstone que modernamente atravessou a Africa desde a costa oriental até a costa ocidental, levado por um intuito exclusivamente scientifico. de esta viagem, que durou quatro anos, trouxe o sr. Cameron o projecto de ligar a costa do oriente com a do ocidente por meio da navegação fluvial, aproveitando as relações hidrográficas do rio Congo e do Zambese, o primeiro dos quais desemboca de um lado no Zaire e o outro do lado oposto, ao sul de Moçambique.
Durante esses quatro anos passados entre selvagens, o capitão Cameron parte de Bogamoyo em frente de Zanzibar, passa em Rehenneko, atravessa o paiz de Ounyanyembe, o paiz de Ugara, o Ujiji, o lago Tanganyika, o mercado de Nyaugwe, o estado de Urua, a Ponta do Lenho, desce as margens do Congo, toca em Benguela, chega finalmente a Loanda. Os companheiros de viagem que haviam saido de Inglaterra para o acompanharem--o doutor Dillon, Moffat sobrinho de Levingstone, o artilheiro Murphy, não podem seguil-o a mais do começo de essa longa e perigosa expedição. Adoecem sucessivamente todos. Moffat morre em Bogamoyo. Em Ounyanyembe aparecem-lhe os homens de Levingstone trazendo o cadáver do explorador que o precedera. Então Murphy e Dillon, ambos gravemente enfermos, desistem de continuar essa imensa viagem e regressam com o corpo de Levingstone para Zanzibar. Dillon morre no caminho.
Cameron, só, sem nenhum outro companheiro europeu, armado de uma clavina, seguido por uma escolta de negros, prosegue, caminhando através de regiões inexploradas e desconhecidas, sob um clima mortífero, deixando atraz de si, marcado com a morte dos seus camaradas e cada um dos primeiros estádios da sua portentosa peregrinação.
Não sabemos quem era Cameron ao partir. Admitimos que saisse da Inglaterra com a educação comum de um simples tenente da armada britânica. Mas dizemos que uma viagem como a que ele fez, e nas condições em que a fez, basta para retemperar uma alma e para formar um caráter. Um tal homem não mente. em ele a mentira seria a refutação de todos os princípios do nosso aperfeiçoamento, seria a violação de todas as leis da natureza humana.
Nada mais lastimosamente ridículo do que a indignação patriótica de qualquer dos nossos políticos, chupando auctoritariamente um cigarro no Gremio ou á porta da Casa Havaneza, bombardeando a atmosfera com balas de fumo, e desmentindo o homem mais competente que hoje existe no mundo para nos informar do que se passa em Africa!
O que Cameron disse acerca da escravatura africana na conferencia feita em Londres foi o seguinte:
«Cerca da linha de separação das bacias do Zambese e do Congo fomos retardados no primeiro acampamento por causa da caça aos escravos fugidos. Quando pela manhã me preparava para partir, chega um mensageiro dizendo-nos: Não partais; Kouaroumba vai chegar com os seus escravos. Depois do meio dia chegou efetivamente Kouaroumba com uma fila de cincoenta ou sessenta infelizes mulheres, carregadas com a presa, trazendo algumas os seus filhos nos braços. Estas mulheres representavam pelo menos a ruína e a destruição de quarenta ou cincoenta aldeias e a matança de aqueles dos seus habitantes masculinos que não conseguiram refugiar-se nos juncais para ali viverem como pudessem ou morrerem de fome. É para mim fora de dúvida que estas cincoenta ou sessenta escravas representam mais de 500 individuos mortos na defeza do seu lar ou acabando mais tarde de inanição. As mulheres a que me refiro vinham presas umas ás outras pela cinta por meio de cordas cuidadosamente atadas. Quando elas afrouxavam na marcha, batiam-lhes desapiedadamente. Os traficantes portuguezes, negros ou mestiços são muito brutais; os árabes pelo contrario tratam geralmente bem os escravos. Os negros caçados como estas mulheres no interior da Africa não são em geral levados para a costa. Vão para Sakaleton, onde por vários motivos a população é rara e são mui procurados os escravos. São vendidos por marfim, que os traficantes trazem para a costa.»
Estas palavras são perfeitamente explicitas e terminantes.
Persiste com todos os seus horrores no interior das nossas possessões da Africa o trafico dos escravos. Enquanto se não provar manifestamente o contrario esta é que é a verdade, verdade referida pelo sr. Cameron, já anteriormente enunciada pelo viajante francês o sr. Jocolliot, confirmada pelo sr. Young, explorador inglez, e ultimamente, mesmo em Lisboa em uma carta publicada no Progresso pelo sr. Pinheiro Bayão, que esteve por algum tempo em Africa empregado do Estado.
Para factos de esta ordem os protestos de toda a imprensa[1] e de todo o parlamento, por mais unanimes que eles sejam, não têm a natureza de uma refutação nem o caráter de uma resposta, são uma pura evasiva compacta.
[Nota 1: Um único periódico, de que tenhamos noticia, o Século, de Coimbra, tomou a defeza do capitão Cameron em um artigo poderosamente escrito pelo sr. Correia Barata.]
A primeira noticia dada em Portugal da viagem de Cameron foi objecto de uma sabia exposição feita á primeira classe da Academia das Ciências pelo falecido naturalista o dr. Bernardino Antônio Gomes. O resultado de essa exposição dos serviços prestados pelo viajante inglez á civilisação universal foi dirigir-se a Academia ao ainda então tenente Cameron, agradecendo-lhe em nome da sciencia e em nome de Portugal a contribuição valiosissima com que ele tinha cooperado para o progresso da sociedade humana.
O governo, deliberando tomar oficialmente conhecimento dos factos referidos pelo capitão Cameron, não tinha senão uma resposta que dar-lhe:--nomear uma comissão de inquérito que sindicasse rigorosamente da cumplicidade dos funcionários portuguezes no menosprezo ou na contravenção das leis que aboliram a servidão.
Em quanto á camara dos srs. deputados, parece-nos que ela teria procedido, pelo lado scientifico com mais logica, e pelo lado patriótico com mais tacto, se em vez das protestações que iniciou houvesse seguido o exemplo que lhe fora dado pela Academia e agradecesse simplesmente ao sr. Cameron as informações que este lhe prestara.
de esse modo teria a camara dos sr. deputados evitado receber do Times a mais dura e humilhante lição que por via da pena de um jornalista se pode inflingir a uma sociedade.
O preconceito do patriotismo é o mais funesto de todos os preconceitos sociais sempre que ele nos leva a trahir a verdade. Manter na opinião publica a mentira é violar o progresso da humanidade pelo modo mais sacrílego e mais nefando. A decomposição em que se acha a governação e a politica em Portugal deve-se principalmente á fraqueza dissolvente dos caracteres públicos em testemunhar a verdade. Todo aquele que por meio da sua palavra ou por meio da sua pena não tem o preciso valor para enunciar a sua inteira opinião é um traidor da civilisação e um perigoso inimigo do gênero humano. Não queremos para a nossa consciência de escritor o remorso de essa voluntaria culpa, e é por isso que dizemos aos srs. deputados:
A verdade, meus senhores, é o que vos disse o Times. «A questão, como diz o referido periódico, não é se Portugal prestou serviços á causa do progresso africano, nem se os estadistas foram estudiosamente polidos na sua linguagem tratando com uma nação aliada e amiga; a questão é se os factos são ou não são como recentes viajantes afirmaram que eram. Que o comércio da escravatura na Africa central seja feito mui largamente por negociantes portuguezes e sob a proteção da bandeira portuguesa é acusação que pode ser refutada, não pela linguagem de uma indignação fictícia ou real, não por patrióticas reminiscencias, nem por uma referencia a cumprimentos diplomáticos, mas sim deixando-se de permitir que haja matéria para que a acusação continue. Sabemos quanto Portugal tem feito no papel para acabar a escravatura, e conhecemos também o pouco efeito que as suas enérgicas declarações produziram.»
Os quatro milhões de vozes de que o paiz inteiro pode dispor, a protestarem todas perante o universo, não poderão convencer um só homem de que a verdade seja diferente do que é. A declamação em este ponto é completamente inutil com outro qualquer fim que não seja um puro exercício de eloquência nacional.
Por tal modo, meus senhores, não julgueis contribuir para a civilisação. Vós contribuis apenas para o Peculio de Oradores, do sr. João Felix.
As Farpas, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, reúne em um único registro canônico onze fascículos integrais do Project Gutenberg, de 1873 a 1883, conservadoramente normalizados para PT-BR moderno.
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