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Capítulo 6 · As Farpas

1877 — Agosto e Setembro

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O homem que teve na terra o nome glorioso de Alexandre Herculano pertence ao domínio da posteridade desde as 10 horas da noite de ontem, 14 de setembro de 1877.

Os que houverem de julgar na historia essa poderosa personalidade terão de considerar que dois cidadãos, inteiramente diversos, existiram na terra, sucedendo-se um ao outro no individuo de aquele nome.

Um de esses cidadãos é o historiador da nacionalidade portuguesa e da inquisição em Portugal, o romancista do Monasticon, o poeta da Harpa do Crente, o profundo pensador, o sábio archeologo, o paciente erudito, o critico penetrante, o valoroso trabalhador, o grande artista, o inimitável mestre.

O segundo dos cidadãos que passaram no mundo sob o nome de Alexandre Herculano é simplesmente o ilustre solitário de Vale de Lobos.


Extranha evolução de um mesmo ser! Aquele que na primeira metade da existência representa todas as vivas energias por meio das quais o espirito póde actuar no impulso de uma civilisação e no aperfeiçoamento de uma sociedade, não é no segundo período da sua vida senão o objecto passivo e inerte de uma designação ascética, imposta pela banalidade retorica dos noticiários--o solitário ilustre!


Como filósofo, como investigador, como critico, como poeta, Alexandre Herculano cria em Portugal os estudos históricos; funda a mais importante coleção dos modernos trabalhos literários--o Panorama; enobrece a língua com o seu stylo nítido e cortante em que a frase tem o lampejo e o golpe dos passes de espada; honra o oficio das letras com o porte rígido, austero e elegante de sua figura literária, em que se denuncia o contorno do guerrilheiro portuense envolto no capote branco dos românticos de 1830, que ele sabia traçar com o garbo marcial de Alfred de Vigny; cria escola; agrupa em volta de si uma mocidade que o admira e que o idolatra; espede o grito de guerra, que põe em armas a nova geração que vem despontando atraz de ele; chama á peleja o partido ultramontano e desfecha ele mesmo os primeiros tiros que rompem as hostilidades da liberdade com o clericalismo; lança finalmente as bases do moderno movimento intelectual, suggere novas idéas, novas aspirações, novos interesses Morais, impulsionando vigorosamente a sua época por meio das fecundas agitações do espirito que aceleram nas sociedades vivas a elaboração do progresso.


Como ilustre solitário de Vale de Lobos, Herculano rescinde a sacrosanta escritura da responsabilidade universal, por via da qual o gênio do homem se obriga tacitamente com a natureza a servil-a, como sendo ele mesmo a mais poderosa das forças de que dispõe o grande universo; desdiz com o seu repentino silencio todas as afirmações da sua grande voz; abjura da luz difundida pelas suas palavras á sombra projectada pelas suas oliveiras; nega o movimento que criou pela inacção em que caiu; desdá finalmente todos os laços de solidariedade que o prendiam aos seus compatriotas e aos seus semelhantes, que vinculavam o seu destino intelectual aos destinos da pátria e da humanidade.

O dia do nosso grande lucto nacional não é aquele em que expirou o solitário ilustre, mas sim aquele em que deixou de existir para o vertiginoso bulício da vida publica o ardente escritor, que no seio da multidão fluctuante, estrepitosa, leviana, indiferente, pérfida, traiçoeira, ingrata, lançava ás praças e ás ruas publicas, lamacentas e sórdidas, as suas idéas de cada dia, nobres, castas, desinteressadas, aladas pelo alfabeto tipográfico, adejando sobre as immundicias e sobre as dejecções da cidade, como douradas abelhas impolutas, que vão de alma em alma sacudindo das azas luminosas em pólen diamantino a divina verdade.


A isolação de Herculano no remanso estéril do diletantismo bucólico, comprometeu o destino mental de uma geração inteira. Pelo intenso poder das suas faculdades reflexivas, pela eminencia do seu talento, pela autoridade da sua palavra, pela popularidade do seu nome, pela reputação nunca discutida da sua honestidade, ele era o homem naturalmente indicado para assumir o pontificado intelectual do seu tempo. A ausência de essa autoridade do espirito sobre o espirito foi uma catástrofe para a geração moderna.

Tudo se resentiu na sociedade portuguesa, com o desaparecimento de esse alto poder moderador, destinado a ser o núcleo do seu governo moral.

Á tribuna parlamentar nunca mais tornou a subir um homem cuja voz firme, sonora e vibrante levasse até os quatro cantos do paiz a expressão viril das grandes convicções inflexiveis, dos altos e potentes entusiasmos ou dos profundos e implacaveis desdens. Essa pobre tribuna deserta degradou-se sucessivamente até não ser hoje mais do que uma prateleira mal engonçada com algum lixo e o respectivo copo de agoa.

A imprensa decaiu como decaiu a tribuna. Assaltada pelas mediocridades ambiciosas e pelas incompetencias audazes, a imprensa tornou-se um tablado de saltimbancos de feira, convidando o publico a 10 réis por cabeça, para assistir, entre assobios e arremessos de cenouras e de batatas podres, á representação da desbocada comedia, declamada em gíria da matula por personagens sarapintados a vermelhão e a ocre, que mostram o punho arregaçado e sapateiam as taboas, como em sarabanda de negros e patifes, com os seus pés miseráveis.

A politica converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os sócios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é impelirem-se e repelirem-se sucessivamente uns aos outros, até que a cada um de eles chegue o mais frequentemente que for possível a vez de entrar e sair do governo. Nos pequenos períodos que decorrem entre a chegada e a partida de cada ministério o grupo respectivo renova-se, depondo alguns dos seus membros nos cargos públicos que vagaram e recrutando novos adeptos candidatos aos logares que vierem a vagar. É este trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que constitue a vida orgânica do que se chama a politica portuguesa.

A arte desnacionalisa-se e afasta-se cada vez mais do fio tradicional que a devia prender estreitamente á grande alma popular.

A opinião publica, marasmada pela indiferença, desabitua-se de pensar e perde o justo critério por que se julgam os homens e os factos.

Se um pensador da alta competência e da grande autoridade de Alexandre Herculano tivesse persistido durante os últimos vinte anos á frente do movimento intelectual do seu tempo, essa influencia teria modificado importantemente o nosso estado social.

Na politica ninguém como ele, com as suas opiniões extremas e radicais, poderia originar a creação dos dois grandes e fortes partidos--o partido conservador e o partido revolucionário,--de cuja controvérsia depende essencialmente não só o progresso politico da sociedade portuguesa, mas a própria conservação do seu regímen constitucional.

Na imprensa ninguém como ele poderia elevar a autoridade da instituição com a sua palavra tão cintilante, tão denodada, tão própria para o debate, e com a sua experiencia tão esclarecida pela convivência e pela cultura da historia.

Na opinião e no espirito publico, ninguém teria uma acção tão segura e tão decisiva, porque ninguém como ele gosou em Portugal de um tão inteiro prestigio e de uma tão completa e absoluta autoridade.

Na arte, ninguém ainda mais próprio para levar a creação estética á fonte nativa da inspiração, á tradição histórica, á raiz da paixão e do sentimento nacional.


Exercer essa alta direcção dos espíritos é nas sociedades modernas a missão dos grandes homens. Dos eminentes escritores europeus de este século Herculano foi o único que espontaneamente abandonou na força da inteligência e da vida o posto de honra a que chegara pelo esforço do seu trabalho e pela posse dos mais felizes dons com que a natureza o dotara.

Guizot, Michelet, Buckle, Proudhon, Stuart Mill, todos os modernos, todos os que vieram depois de definido pela Revolução o dogma do dever social, viveram combatendo até á última hora e morreram com a pena na mão.

Ha poucos dias ainda a França viu cair Thiers na estacada, em pleno combate. Era um velho pequenino, valetudinário, quase rachitico. Desde muito tempo que ele era suficientemente rico para gozar a tranquilidade egoísta, imperturbável, do mais poderoso príncipe. A sua longa vida fora uma serie nunca interrompida de combates, de derrotas, de triunfos, das mais violentas comoções que podem oprimir e dilacerar uma alma. Ha dez anos que poucos teriam como ele o direito de solicitar um pouco de tranquilidade e um pouco de sombra. Ele todavia permanece no ponto mais temeroso da peleja, e é a essa pertinácia de um só homem, tão débil e tão caduco que qualquer mulher poderia pegal-o ao colo e adormecel-o como um babi, que a França deve a sua reconstituição politica e social, e a democracia a afirmação mais poderosa e mais enérgica de uma república no coração da Europa.

Na Inglaterra, não já um homem mas uma simples mulher, que teve um papel decisivo no movimento das idéas modernas, Miss Martineau, ferida por uma lesão do coração, desenganada pela medicina de que não pode ter mais de um ano de vida, concentra durante esse ano todas as suas faculdades na conclusão da sua última obra, conta a uma por uma em beneficio do seu semelhante as suas derradeiras pulsações, e sob uma condemnação mais peremptória e mais tremenda que a de Condorcet, arranca da sua invencível vontade a energia precisa para escrever com a lucidez mais profunda, com a firmeza mais viril, com a coragem mais heroica, o admirável livro em que depõe com a última palavra o último suspiro.

Uma celebridade subalterna, um simples poeta, um romancista, um talento de especialidade, tem o direito de fazer um livro e de se calar para todo o sempre; mas o cidadão em quem concorrem as múltiplas aptidões cerebrais que constituem os espíritos superiores, as capacidades dirigentes, não tem esse direito.

A benevolência devida aos vivos póde levar-nos a respeitar nos atos de cada homem um producto indiscutivel da sua liberdade; a verdade porém devida aos mortos, a incorruptivel verdade, tem diante dos túmulos o dever de considerar, em nome da justiça e em nome da sociedade, todas as condições que encaminharam ou desencaminharam uma existência em essa linha ideal a que convergem as mais altas aspirações da humanidade.

E é só assim que as gerações aprendem o que têm de agradecer e o que têm de perdoar aos obreiros do passado, tirando de esse juízo austero sobre a missão dos que morreram, a regra moral a que têm de submeter-se aqueles que estão vivos.

A elaboração psychologica das causas que levaram o espirito de Herculano a quebrar as suas relações mentais com a sociedade, é um importante estudo a que se acham obrigados aqueles que viveram na intimidade e na confidencia do grande escritor. A sociedade precisa de saber que grau de responsabilidade lhe cabe no emudecimento de essa voz. Porque a isolação de Herculano não é um simples episodio biográfico, é um facto social, é um dos mais tristes fenômenos da decadência portuguesa.

O exemplo do solitário de Vale de Lobos será profundamente nocivo, se não for cabalmente explicado como uma fatalidade sociologica.

Todos aqueles que trabalham com dedicação e com honra, que se consideram responsaveis diante dos seus semelhantes pela conclusão do trabalho que a si mesmos se impuzeram, que se dedicam á sua missão, que veem em ela uma parte integrante da grande obra colectiva da humanidade, todos aqueles que têm na vida um fito superior e desinteressado, estão sujeitos em cada dia, em cada hora, em cada instante, á grande lucta da consciência com as suggestões do egoismo, com a ingratidão dos homens, com a calumnia, com a traição, com o desdem. É perigoso para os que têm ainda, no meio da dissolução geral dos caracteres, esse vivo sentimento da solidariedade, essa corajosa dedicação do martírio, essa persistência no lento suicídio que é a vida de todos os que pensam e de todos os que luctam, o ver de repente sossobrar e afundir-se na fria impassibilidade e na tenebrosa indiferença o alto luminar destinado a indicar a uma geração inteira o árduo e penoso rumo do dever.


Lemos em um jornal que a imprensa de Lisboa, reunida em assembléa para o fim de pagar á memoria de Alexandre Herculano o tributo da sua admiração, resolvera abrir uma subscripção destinada a elevar um monumento ao insigne escritor. Parece, segundo o mesmo boato, que não está ainda resolvido de que natureza será o monumento em projecto.

Se tivessemos a imerecida honra de sermos considerados pela imprensa como um de seus membros, eis o que proporiamos.


A obra monumental, posto que ainda incompleta do finado escritor, a sua Historia de Portugal, é possível que houvesse já sido lida, mas, com quanto escripta ha muitos anos, não foi por enquanto estudada.

Em todo o longo trabalho de investigação, de critica, de analise, de deducção, que constitue a matéria de esses quatro volumes, o publico portuguez não viu senão dois factos extremamente subalternos na obra do filósofo e na obra do artista:--a negação do milagre de Ourique e das cortes de Lamego.

O historiador da nossa nacionalidade não foi olhado se não debaixo de um aspecto,--o aspecto das nossas superstições.

As origens do direito, da arte, da propriedade, da religião, da família, da pátria interessaram-nos de um modo tão medíocre que nunca nos suggeriram uma idéa clara sobre qualquer de esses fenômenos.

De tão múltiplos problemas suscitados ou resolvidos pelo historiador da nossa vida civil, um único nos comoveu até as mais intimas profundidades do nosso organismo social: Se Jesus Cristo tinha ou não tinha vindo cavaquear com D. Affonso Henriques na véspera de uma batalha, e se a derrota dos mouros fora ou não o resultado de uma operação estratégica combinada de comum acordo entre os dois poderosos inimigos do kalifado de Cordova, o filho do conde D. Henrique e o filho de Deus.

Todas as demais questões debatidas nos quatro volumes da Historia de Portugal passaram inteiramente despercebidas do jornalismo portuguez, o qual não teve ainda, até hoje, ocasião de publicar um artigo scientificamente fundamentado acerca do papel do nosso primeiro historiador na direcção dos estudos históricos e na comprehensão das leis fundamentais da nossa evolução social.

A homenagem que a imprensa deve prestar a Alexandre Herculano é a publicação de esse estudo, porque o primeiro dever dos jornalistas perante um grande escritor é mostrar que o leram. Com relação a Herculano essa divida está por saldar, e a imprensa tem que desempenhar-se de ela com tanta mais promptidão, quanto é certo que o seu longo silencio podia ter sido uma das causas que levaram o iniciador dos trabalhos históricos portuguezes a talhar para si mesmo a triste mortalha em que desceu envolto para o tumulo--a mortalha do desprezo. Não conseguiu merecer-lhe mais o espirito dos contemporâneos.


Anais da viagem de suas magestades e altezas pelos seus reinos segundo os telagrammas publicados por toda a imprensa e da acção civilisadora da mesma viagem sobre o espirito dos povos segundo os aludidos documentos.

CAPÍTULO I

Bussaco... de agosto. Sua majestade Anjo da Caridade acaba, de chegar esta secular floresta acompanhada suas altezas Preciosos Penhores. Anjo passeou mata. Jantou 6 horas. Preciosos Penhores foram Cruz Alta companhia um dos seus preceptores. Jubilo povo inexcedivel.

CAPÍTULO II

Bussaco... de agosto. Sua majestade Anjo encontrou interessante menino na serra e afagou. Commoção todos visitantes que presencearam ato Anjo afagar menino chegou lagrimas. Preciosos Penhores foram pé Fonte Fria. Jantar Anjo, Preciosos Penhores e Damas, 6 horas, 14 minutos, tempo médio. Jubilo povo augmenta progressivamente.

CAPÍTULO III

Bussaco... agosto. Anjo apreciou mediocremente rouxinóis gorgeando secular floresta. Chamados á pressa para gorgear na balseira bauda de infanteria 14 e cisne Mondego D. Amelia Jenny. Jubilo povo excitado por Quatorze e por Cysne inarrável.

CAPÍTULO IV

Bussaco... de agosto. Sua majestade Anjo recusa licença a touristes comerem saborosos peixes ria de Aveiro em secular floresta. Preciosos Penhores pequeno passeio durante 1 hora, 28 minutos, 14 segundos. Jubilo povo augmenta.

CAPÍTULO V

Bussaco... de agosto. Desmente-se noticia Anjo prohibir touristes petisqueira saborosos peixes ria Aveiro secular floresta. em este mesmo momento secular floresta saborosos peixes estão sendo comidos touristes com aprovação de Anjo. Preciosos Penhores pequeno passeio meia hora e 16 1/2 segundos. Jubilo povo toca raias.

CAPÍTULO VI

Bussaco... de agosto. Sua majestade Anjo e suas altezas Preciosos Penhores acabam de partir Porto, comboio expresso. Anjo e Preciosos Penhores não mais a secular floresta. Raias ultrapassadas por jubilo povo.

CAPÍTULO VII

Vidago... de agosto. Sua majestade Excelso Soberano, acompanhado duas filarmônicas e quarenta maiores contribuintes montados quarenta maiores éguas, chegou sem novidade real saúde. Indiscriptivel jubilo povo.

CAPÍTULO VIII

Vidago... de Agosto. Excelso Soberano foi tomar águas 10 horas. Voltou tomar águas 4 horas. Jantou 6 horas. Centenares de pessoas presencearam ato Excelso Soberano tomar águas. Grande ardor geral pelas instituições monarchicas e pela dinastia. Jubilo povo tende a augmentar, se possível for.

CAPÍTULO IX

Vidago... de agosto. Excelso Soberano encontrou real passagem dois rapazes de joelhos. Excelso Soberano afagou. Lagrimas punhos faces pessoas viram Excelso Soberano afagar rapazes joelhos. Jubilo povo toca zenith.

CAPÍTULO X

Vidago... de agosto. Excelso soberano partiu tarde acompanhado filarmônicas, contribuintes e maiores egoas. Estes logares, ausência excelso soberano e real séquito, convertidos triste ermo. Jubilo povo impossível descrever palavras humanas.

CAPÍTULO XI

Porto... de agosto. Hoje, fim da tarde, entrada triunfal em este Baluarte liberdade sua majestade Anjo da Caridade acompanhada de suas altezas Louras Creanças. Jubilo povo de Baluarte e concelhos rurais adjacentes delirante.

CAPÍTULO XII

Porto... de agosto. Presidente camara municipal disse a Anjo da Caridade que Baluarte se gloriava ter Anjo no seio. Jubilo povo frenético.

CAPÍTULO XIII

Porto... de agosto. Louras creanças passear Palácio Crystal. Anjo não passeiar Palácio Crystal. Jubilo povo febril.

CAPÍTULO XIV

Porto... de agosto. Anjo e Louras Creanças foram fotografar-se ao atelier Fritz. Duas inocentes meninas entregaram ramos de flores a Anjo da Caridade. Anjo afagou. Circunstantes lagrimas em fio pelas faces. Anjo e Louras Creanças retrataram-se em cinco posições diferentes, que são todas as posições de que é suscetível o corpo humano, a saber: em pé, sentados, ajoelhados, acocorados e deitados. Jubilo povo vertiginoso.

CAPÍTULO XV

Porto... de agosto. A este Baluarte liberdades pátrias acaba chegar augusto Neto heroico Pedro IV. Presidente camara municipal disse Baluarte se gloriava ter Neto heroico Pedro no seio. Colxas dos defensores Baluarte ás janelas. Jubilo povo epiléptico.

CAPÍTULO XVI

Porto... de agosto (urgente) Rapazes achados Vidago por Neto heroico Pedro IV entraram Baluarte liberdade em exposição triunfal. Rapazes precediam coche real de joelhos em carruagem descoberta. Jubilo povo, vendo rapazes exposição joelhos carruagem descoberta, inultrapassável.

CAPÍTULO XVII

Porto... de agosto. Neto heroico Pedro IV, Anjo Caridade e Louras Creanças regressam hoje comboio expresso a Lisboa. Governador civil, bispo, senhoras, beijar mão Neto, Anjo, Louras Creanças. Derradeiro adeus estação. Baluarte liberdade sem Louras Creanças, Anjo e Neto, medonho ermo. Jubilo povo intradusivel linguagem humana.

NOTAS

AOS ANAIS DA VIAGEM DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS

A

Desmente-se noticia Anjo prohibir touristes petisqueira etc. Informações subsequentes ministradas aos jornais pelo Banhista de Luso explicam a matéria do capítulo que principia pelas palavras acima reproduzidas.

Os touristes a quem foi denegada licença para celebrarem um pic-nic dentro da floresta do Bussaco, requereram respeitosamente a sua majestade que se dignasse conferir-lhes a permissão de comerem os peixes que tinham pescado para o pic-nic, não já dentro, mas sim fora da mata.

Foi a este segundo requerimento, atendendo ás suplicas dos touristes e ao estado em que começavam a achar-se os peixes, que sua majestade se dignou de deferir de um modo inteiramente amável e munificente.

O precedente estabelecido pelos touristes do Bussaco deixa-nos porém imersos na mais acerba incerteza acerca dos pontos da superfície solida do reino em que nos é licito comermos peixe sem invadirmos as residencias de suas magestades.

Porque, desde o momento em que não só as grandes serras mas também as bacias dos vales adjacentes se consideram, pela jurisprudência invocada no Bussaco, como dependências dos aposentos da real família, ficamos perplexos sobre se o safio que pescámos esta manhã no logar do Bico na praia da Cruz Quebrada o poderemos comer em nossa casa sem por este facto invadirmos, posto que inconscientemente, a sala de jantar dos nossos reis. E pedimos ardentemente para sermos esclarecidos sobre a solução de este problema:

Dado um safio pescado á linha na ponta do Bico na praia da Cruz Quebrada; achando-se a Cruz Quebrada na dependência geologica do Paço de Queluz pelo Vale da ribeira do Jamor, e do Paço da Ajuda pelas quebradas e pelas vertentes da serra de Monsanto; achando-se por outro lado o safio ao lume dentro do seu respectivo tacho, entre duas camadas de cebola e tomate, com o competente fio de azeite e o devido pimentão; tendo tido cinco minutos de fervura e havendo sido sacudido por duas vezes sem se destapar o tacho;

Pergunta-se:

Se podemos passar a comer o safio, colocados na dita latitude da Cruz Quebrada, entre os reais paços de Queluz e da Ajuda, sem por esse ato faltarmos ao respeito devido á inviolabilidade das montanhas, dos vales e das ribeiras que suas magestades se dignaram eleger para residir.

Esperamos, com o safio ao lume e com o acatamento mais profundo pelas reais ordens, que o sr. Barros e Cunha, encarregado juntamente com o sr. Alcobia de transformar as matas do reino em aposentos de sua majestade, queira dizer-nos se o monte em que habitamos pertence ou não ao numero de aqueles que s. ex.ª se acha mobilando para recreio de suas magestades em colaboração com o seu socio nas reformas do ministério das obras publicas o sr. estofador Alcobia.

O melhor talvez--permitam-nos os srs. Barros e Alcobia suggerirmos esta ideia--seria, para não estafar muito o ministério de suas excelências com o despacho de repetidas petições do caráter da nossa, que suas excelências assignalem com marcos geodésicos as regiões que vão ser forradas de papel para aposentos reais, e que em esses postes se especifique com os devidos letreiros: Aqui se pode comer o saboroso peixe ou Aqui o saboroso peixe se não pode comer.

E o paiz todo beijará reconhecido a mão enérgica dos srs. conselheiros da coroa Alcobia e Barros e Cunha!

B

Rapazes achados Vidago por Neto heroico Pedro IV entraram Baluarte liberdade em exposição triunfal. Correspondencias minuciosas explicam detidamente o episodio narrado em este capítulo.

El-rei encontrava todos os dias, em determinado ponto dos seus passeios, dois rapazes que se ajoelhavam por ocasião da passagem de sua majestade. El-rei comovido com a precocidade de uma bajulação tão vigorosa manifestada em anos tão verdes, indagou-se uma tal afirmação de subserviência procedia de preleções previas dadas por algum áulico ou se representava um movimento instinctivo no caráter dos dois adolescentes. Descobriu-se que os meninos ajoelhavam por efeito da mais pura pusilanimidade orgânica. Sua majestade resolveu, em vista de tão honrosas informações, levar consigo os dois esperançosos jovens e encarregar-se da sua educação. Foram esses dois rapazes os que entraram em trinmpho na cidade do Porto, indo em carruagem descoberta e precorrendo as ruas adiante da carruagem de sua majestade. Não sabemos se durante todo o precurso do cortejo os rapazes se conservaram, como deviam, sempre de joelhos. O que é certo é que o quadro a que nos referimos comoveu muito as pessoas que o presencearam, segundo asseveram todas as noticias do Porto e de Vidago.

Folgamos de poder completar as informações colhidas por el-rei acerca dos seus pupilos com o fructo das nossas próprias indagações, porque é de saber que os rapazes de joelhos não aparecem unicamente a sua majestade, aparecem a todos aqueles que viajam nas estradas do Minho e de Traz-os-Montes. O que escreve estas linhas por mais de uma vez se encontrou com o comovente quadro, não deixando nunca de o saudar com um expressivo meneio do seu bordão, perante o qual os rapazes em joelhos se punham em pé com uma velocidade cheia de convicção e de entusiasmo. E nós, então, diziamos-lhes com a mais pesada voz:

--Ah! poltrões! Ah! covardes! Ah! sapos! Que se torno a encontrar algum de joelhos diante de mim, aplico-lhe uma carga de pau, que lhe ponho o lombo mais negro que o de um melro! Têm o atrevimento de pedir esmola, seus sicários?... E ainda por cima se me desculpam com o exemplo de Jesus Cristo?! Nosso Senhor também pediu!!... Em que escola aprendeste tu a cartilha, meu grande camelo?... O que tu merecias é que eu te metesse uma zaragatoa de pimenta em essa boca para te ensinar a blasfemar! Jesus pediu esmola, mas não foi para que tu a pedisses também, grande vadio! Jesus pediu esmola para te honrar com a sua confraternidade, para te mostrar que apesar de teres lêndeas, de trazeres as orelhas sujas e de andares descalço, tens, pelo facto de ser homem, uma origem divina e que te deves respeitar tanto a ti próprio como se fosses um imperador ou um rei. Para te tornares digno do grande obsequio que te fez Jesus andando pelo mundo a pregar a igualdade e a fraternidade de todos os homens, feitos, segundo o mesmo Jesus, á imagem e similhança de Deus, a tua obrigação é lavar a cara e as orelhas, conquistar pelo trabalho uns sapatos para esses pés e trazer-me essa cabeça levantada e firme como quem tem a convicção de ser tanto como qualquer outro. Foi para isso que te ensinaram que Deus andou pelo mundo a pedir, percebeste, grande mariola? Deus pediu para se parecer contigo, dando-te por esse modo a aspiração de te pareceres egualmente com ele fazendo-te uma pessoa limpa e honesta. Deus consentiu em pedir pela mesma razão que consentiu em ser crucificado, não para dar o exemplo da mendicidade e do homicídio, mas sim ao contrario para que a sociedade se reconstituisse no sentido de não tornar a haver quem enforcasse nem quem pedisse. O pão nosso de cada dia ganha-se com essas duas pernas que Deus te deu para trabalhares e não para te pôres de joelhos nos caminhos a pedir esmola a quem passa. Jesus nunca se ajoelhou senão debaixo do trabalho representado pela sua cruz ou diante do amor representado por sua mãe. De joelhos perante a minha força ou perante o meu dinheiro tu és indigno da tua gerarchia de homem e não passas de uma besta sórdida e imunda.

Depois de praticas da natureza de esta, que nunca deixamos de fazer aos rapazes que nos apareceram ajoelhados pelos caminhos, e as quais praticas sempre acompanhamos de temerosos gestos mostrando o punho cerrado e os bicos dos nossos sapatos--de três solas repregados de terríveis tachas vingadoras, de duas azas, do tamanho de moscardos--concluiamos por uma eloquente peroração perguntando aos rapazes onde era a escola.

Temos a honra de informar sua majestade el-rei que os rapazes que aparecem de joelhos pelas estradas não sabem nunca onde fica a escola.

Os pais não os ensinam a ler. Creados na abjecção da mendicidade, habituados a fingir, a choramigar, a carpir, costumados desde pequenos a serem maltratados, repelidos, injuriados, tornam-se homens servis, rasteiros, malévolos, vingativos, mandriões e covardes.

São eles os que em maior numero contribuem para o consumo das facas de ponta, para o exercício das policias correcionais, para o repovoamento sucessivo das cadeias e dos hospitais.

Sua majestade esqueceu que, em quanto esses rebentos da preguiça, esses embriões do vicio e da miséria se ajoelhavam aos seus pés, outros pequenos cidadãos uteis estavam na escola ou nos casais circumvisinhos, uns aprendendo a ler, outros ajudando as suas mães a meter o pão ao forno, a deitar o feno ás vacas, a acarretar a lenha, a enfeichar as medas ou a debulhar o milho.

Sua majestade, agasalhando os vadios e expondo-os em triunfo aos olhos dos laboriosos, deu um exemplo que influirá nos costumes e a que podémos chamar:--o premio Monthyon da malandrice.


Um atentado único sem precedentes nos fastos do arbítrio executivo acaba de ser impunemente perpetrado contra a ordem moral por um ministro da corôa, o sr. Barros e Cunha.

Quando os erros dos ministros versam sobre os negócios das suas respectivas secretarias a critica pode consideral-os sem protesto, como fenômenos normais em um regímen em dissolução destinado a acabar um pouco mais tarde ou um pouco mais cedo.

Quando porém a acção do poder exorbita da mancomunação ministerial, da intriga parlamentar e da ficção administrativa, para invadir a esfera do trabalho individual e para violar acintosamente os direitos inalienaveis dos cidadãos, a critica deixa então de proceder pelo desdem, e embora continue a sorrir, tem o dever de pegar no mesmo tição com que Renaldo de Montauban chamusca no poema gaulez as barbas de Carlos Magno, e de barbear s. ex.ª o alto funcionário delinquente.


Precisamos de esboçar um pouco de mais alto a fisionomia do personagem antes de nos ocuparmos da natureza dos seus últimos atos.

Antigo poeta lirico de inspiração canalisada pelos jornais poéticos e pelos albuns das meninas provincianas, o sr. Barros e Cunha, abandonando a carreira poética, foi enviado na idade madura á camara dos deputados na qualidade de leitor do Times por um circulo do reino em que se não sabia inglez.

Classificado desde logo na família zoológica dos mediocraceos, foi declarado inofensivo pela unanimidade dos votos de ambos os lados da camara. O uso quotidiano de uma palavra irresponsável, que ele debalde tentava sublinhar malignamente sem conseguir que ninguém se ocupasse em a controverter, deu-lhe a facilidade de emitir intermitentemente um determinado numero de sons articulados sem conexão logica, sem forma literária, sem critério filosófico, sem intuito politico, os quais sons reunidos constituem a coleção dos discursos parlamentares de s. ex.ª.

Todos se lembram de o ter visto em cada uma das sessões das últimas legislaturas levantar-se do seu logar no meio da indiferença bocejante da camara e da galeria, folhear os números do Times colocados sobre a sua carteira, e abrir o dique da incontinencia oratoria, despejando as palavras em um tom de melopêa com a sua voz ao mesmo tempo doce e nazal, como a de quem fala por um nariz de assucar.

No discurso proferido viam-se desfilar processionalmente as diversas partes da oração, cadenceadas, graves, acertando o passo, olhando para acenar, esperando umas, correndo outras para alinhar o préstito, fazendo roda entre parenteses para entoar um moteto, detendo-se para fazer sinais ortográficos a um adjectivo retardatário, continuando em seguida, para tornarem a parar de aí a pouco em torno de um verbo irregular, e proseguirem outra vez atraz de uma interjeição de dúvida ou incerteza. Até que, sentindo-se cahir a tarde, principiando a esfalfar os membros do discurso, começando os adjectivos a sentarem-se pelos passeios, os substantivos a tirarem as botas a os advérbios a pedirem de beber, via-se finalmente, ao longe, por entre as tochas, envolto no pó do caminho, apontar o andôr com um simulacro de uma idéa velha, carcomida, safada, sacudida á rua de todas as casas, impelida adiante das vassouras por todos os varredores, apanhada sucessivamente por todas as carroças, e por último arrancada do monturo ou do esgoto, lavada, grudada, repintada, retingida, posta em pé, especada entre duas ripes e produzida em publico por s. ex.ª, em uma exposição solene, ao fundo de seis columnas de prosa alambicada e caturra.

Estas falas eram acompanhadas por s. ex.ª com variados gestos carinhosos e piegas: já de quem amamenta as metáforas que tem ao colo, já de quem acaricia e afaga buliçosos tropos adjacentes, já de quem com o bico do lápis seguro nas pontas dos dedos se compraz em picar no ambiente argumentos hypotheticos voejantes entre o orador e a mesa adormecida.

Ele no entanto sorria de quando em quando, irônico e triunfal, circumgirando pela sala no fim de cada período um olhar destinado a indicar ao auditório que dentro do seu pequenino craneo a malicia de Bertholdinho se achava aliada á finura de Polycarpo Banana.

Uma vez pelo menos em cada um de esses discursos, quando o orador parando, tirava da algibeira da sobrecasaca o seu lenço branco e batia com os nós dos dedos na carteira para que lhe renovassem o copo de água, vozes de deputados repentinamente extremunhados aplaudiam-o. O que não consta é que ninguém se lembrasse nunca de o contrariar.


Caído o dente do sr. Fontes e chamado o sr. marquês de Avila para formar novo ministério, o sr. Barros e Cunha entrou no gabinete a titulo de «caráter conciliador.» Deputado ás cortes em sucessivas legislaturas, tendo a palavra em quase todas as sessões, tão vigorosamente havia servido a causa eclética da banalidade que não conseguira criar um único adversário. Tais foram os títulos que levaram s. ex. aos conselhos da corôa.

Repentinamente investido no cargo de ministro das obras publicas, do comércio e da industria, s. ex.ª para quem a industria, o comércio, as obras, eram outros tantos pórticos inacessíveis, envoltos nas trevas mais augustas, resolveu seguir uma linha de proceder que o levasse á popularidade sem o intrometer na gerencia e na direcção dos negócios.

Para esse fim s. ex.ª começou a passear as ruas de Lisboa montado na imagem retórica em que Napoleão nos aparece nos discursos do sr. Manuel da Assumpção. Aos sabbados s. ex.ª tomava o caminho de ferro e dirigia-se em carruagem salão a todos os pontos da província em que houvesse uma fabrica, uma oficina, um monumento publico para que olhar, e uma filarmônica para o ir esperar á gare.

No desempenho de esta primeira parte do seu programa s. ex.ª foi de uma atividade e de uma energia sem exemplo. Amanhecia a cavalo, anoitecia a cavalo, e deitava-se na cama, altas horas, para dormir um momento--também a cavalo. Estes exercícios de gineta amestraram o cavalo de s. ex.ª até o ponto de poder ele próprio ser ministro--em liberdade.

Nas suas digressões pelos centros fabris das redondezas da Extremadura o zelo de s. ex.ª pelos princípios do seu programa administrativo não conhecia limites. Eis uma amostra do caráter de essas viagens hebdomadárias:

S. ex.ª chega a Tomar pelo trem do correio ás 12 horas 45 m. da tarde. Uma filarmônica espera-o na estação de Payalvo e acompanha-o ao som do hymno da carta até casa do sr. conde de Tomar. Ás duas horas da madrugada s. ex.ª ceia e levanta três brindes a Tomar, á real família e á carta. A' 4 horas 25 minutos encerramento de s. ex.ª nos aposentos que lhe estavam reservados e leitura do Times até ás 5 horas 30 minutos. A's 5 horas 31 minutos s. ex.ª descalça metade das botas e repousa um momento deitando-se sobre uma orelha e escutando com a outra os ecos do hymno da carta. A's 6 horas, convergência das forças musculares de s. ex.ª sobre os puchadores das suas botas e pedido de água morna para a barba de s. ex.ª A's 7 horas, sabida de s. ex.ª dos aposentos que lhe estavam reservados, presença de s. ex.ª no terraço da casa e aspersão dos raios visuais de s. ex.ª sobre a paisagem circumjacente. A's 8 horas recepção da camara municipal e dos três ou quatro maiores contribuintes. A's 9 horas almoço com brindes de s. ex.ª á carta, a Tomar e á real família. A's 10 horas ida para a fabrica de fiação. As' 12 horas lunch na fabrica e brindes de s. ex.ª á real família, a Tomar e á carta. A' 1 hora da tarde volta para Tomar, jantar e brindes de s. ex.ª á carta, á real família e a Tomar. A's 3 horas 36 minutos partida, cortejo, hymno pela filarmônica na estação de Payalvo e regresso de s. ex.ª á capital.


Uma vez por semana, ás quintas feiras, s. ex.ª acompanhava os seus colegas ao Paço. Tendo mostrado sobre o chouto da alegoria do sr. Manuel da Assumpção que possuía uns rins de bronze; tendo provado nas digestões acumuladas das mayonaises do sr. conde de Tomar e dos pudings da fabrica de fiação que era dotado de um estomago de aço, s. ex.ª aproveita os seus encontros com o soberano para convencer a côrte, de que reune a esses dotes anatômicos a feliz particularidade de uma espinha de cebo.

Submettido ao olhar de suas magestades constatou-se que a posição vertical de s. ex.ª dobrava como uma vela ao sol, sob a temperatura de 35 graus Reaumur. Contemplado pela rainha s. ex.ª deprimia-se progressivamente, acachapando-se. O seu uniforme fazia as pregas de uma concertina que se fecha. A rainha, caridosa, olhava então para outra parte a fim de que os tecidos democráticos do seu secretario de estado não acabassem de derreter, deixando nos degraus do trono, como despojo de quanto representara no Paço o departamento das obras publicas, um fardamento, uma calva e uma nodoa.

Impedido de fundir, s. ex.ª procura manifestar por outros atos o ardor do seu zelo como novo áulico.

Para esse fim atropela as disposições legislativas que regulavam o arrendamento das casas do Bussaco entregues á administração geral das matas, rescinde os contractos legalmente feitos com os arrendatários, expulsa as famílias que habitavam o convento, e oferece este a sua majestade a rainha para ela passar a estação calmosa--nas casas dos outros.

Desde o tempo dos antigos aposentadores morés, que precediam os reis absolutos nas suas viagens e faziam despejar as casas ocupadas por seus donos para em elas se instalar a corte, nunca o servilismo ousara fazer reviver para lisongear os reis um dos mais opressivos privilégios monarchicos, o privilegio das aposentadorias, abolido desde 1820. Os mais atrevidos e insolentes mandões não ousaram jamais ultrajar por tal modo o direito e a liberdade. Era preciso para isso ter como o sr. Barros e Cunha a natureza chineza de um mandarim; pousar no paço tão passivamente e tão irresponsavelmente como pousa um boneco de porcelana, acocorado a um canto em uma prostração burlesca, bolindo automaticamente com a cabeça e deitando a língua de fora ou metendo-a para dentro, segundo leva ou não leva da real mão um piparote na nuca.

Para bajular el-rei como bajulara a rainha o mandarim sr. João Gualberto determina que obras extraordinarias se façam na estrada de Vidago e manda abonar por conta do ministério das obras publicas salários na importância exorbitante de 1$200 réis por dia aos operários empregados em um dos lanços da estrada aludida.


Estes factos porém, definindo cabalmente o mandarim pela sua face de cortezão, não o definiam suficientemente pelo seu lado de ministro. Os conselheiros de s. ex.ª tangeram-o na nuca para o fazer deitar de fora algumas portarias. Aproveitou-se o pretexto das obras da Penitenciaria, e s. ex.ª principiou a verter portarias sobre essas obras. Foi então que no Diario do Governo apareceu o documento que nos propomos analisar e começamos por transcrever:

«Sua majestade el-rei, a quem foi presente o processo relativo ao contrato celebrado em 18 e 19 de setembro de 1876 pelo diretor das obras da penitenciaria central de Lisboa com João Burnay, para fornecimento de ferros para as obras de aquele estabelecimento, considerando:

«1.° Que esse contrato se encontra viciado;

«2.° Que em ele se não observou o que dispõe o artigo 10.° do regulamento de 14 de abril de 1856 e circular de 15 de maio de 1862;

«3.° Que não se abriu praça nem se fez deposito algum, conforme dispõe a circular de 15 de maio de 1857, e as clausulas e condições gerais de empreitadas das obras publicas de 8 de março de 1861;

«4.° Que ao contrato, por conta do qual o empreiteiro recebeu adiantadamente na importância de 88.889$312 réis, falta a aprovação do governo, segundo o disposto no artigo 2.° das mesmas clausulas e condições gerais e da circular de 15 de maio de 1862:

«Ha por bem ordenar que se dê por findo e terminado o dito contrato, procedendo-se á liquidação dos artigos já fornecidos ou em deposito, observando-se de futuro todas as prescripções em vigor em este ministério para quaisquer contratos em que ele tenha de interferir.

«O que, pela secretaria de estado dos negócios das obras publicas, comércio e industria, se comunica ao diretor das obras publicas do districto de Lisboa, para os devidos efeitos, em referencia ao seu oficio datado de 26 de junho último.

«Paço, em 3 de julho de 1877.--João Gualberto de Barros e Cunha.

«Para o diretor das obras publicas do districto de Lisboa».


Por esta portaria rescinde-se sem mais apelação nem agravo um contrato bilateral feito entre um industrial, o sr. J. Burnay, e o governo. Ora o governo não é um poder pessoal, de caráter intermitente ou caduco, que acabe com o sr. Avelino e que recomece com o sr. Barros e Cunha. O governo é uma entidade impessoal e constante.

O sr. Barros e Cunha é obrigado como ministro a manter todos os contractos feitos pelo seu ministério, porque em quanto ministro o sr. Barros e Cunha não é um individuo, é o governo. O governo fez um contrato com o sr. Burnay, esse contrato acha-se em execução, o governo porem resolve por sua própria autoridade rescindir o mesmo contrato, e manda passear o sr. Burnay. Vejamos com que fundamentos jurídicos se anula, sem mais formalidade que a publicação de uma portaria, um contrato de semelhante natureza:

O sr. Barros e Cunha alega em primeiro logar:

Que o contrato se acha viciado. A isto responde o engenheiro constructor da Penitenciaria e signatário do contrato por parte do governo que a viciação alegada consiste em se haver alterado a data em que o sr. Burnay se compromete a concluir os seus trabalhos, mudando-se os números 1877 em 1876. O resultado de esta viciação era colocar o sr. Burnay sob a acção de uma multa por não ter concluído a sua obra no prazo prefixo. É evidente que não podia ser o sr. Burnay que viciasse o contrato raspando um algarismo que o interessa e substituindo-o por outro que o prejudica.

A viciação do contrato é por tanto um facto necessariamente alheio á intervenção do sr. Burnay.

A legislação invocada nos considerandos 2.° e 3.°, não tem cabimento, porque todos os regulamentos das empreitadas das obras publicas previnem os casos em que a concorrência possa prejudicar a rapidez ou a perfeição do trabalho e em que o deposito póde ser substituido por fiança ou por outras garantias prestadas pelo empreiteiro. E ambos estes princípios são reconhecidos pelo sr. Barros e Cunha, o qual contractou ele mesmo novas obras com o sr. Burnay depois da publicação de esta portaria, sem abrir concurso e sem fazer deposito.

As afirmações contidas no considerando n.° 4, são puramente falsas, como já declararam publicamente os engenheiros Ferraz e Burnay. A falta da aprovação do governo é uma mentira e o adiantamento de 88:886$312 réis é uma calumnia.

Suppondo porem que as obras devessem ser feitas por concurso e mediante deposito, perguntamos: que responsabilidade pelo facto de não haverem sido satisfeitas essas clausulas póde caber ao fabricante, ao fornecedor ou ao empreiteiro com quem o governo contractou? Queriam por acaso que fosse o sr. Burnay quem abrisse o concurso? que fosse ele quem a si mesmo se obrigasse ao deposito? Se não se cumpriram as formalidades a que a portaria se refere, a culpa é unicamente do governo. Como é pois que o governo rescinde um contrato por um facto cuja culpa é de ele e não do individuo com quem ele contractou?

Podem aqueles que tem negócios com o governo ficar sujeitos a semelhante arbítrio?

Póde o governo anular assim um contrato em que se acham envolvidos interesses avultados de aquele com quem é feito unicamente porque o governo diz reconhecer que não contractou nos termos em que devia ter contractado?

Foi aproximadamente isso mesmo o que fez a camara municipal com relação ao contrato do Passeio Publico. A camara rescindiu o contrato, mas o governo dissolveu a camara. Quem é que ha de dissolver o governo réu de delicto egual ao da camara?

Em vista de um tão flagrante atentado contra os seus interesses industriais, contra o seu credito e contra a sua honra, porque a portaria aludida é cheia de vagas insinuações insultantes e injuriosas apesar de cobardemente rebuçadas, o sr. João Burnay representou ao governo requerendo que se lhe dê vista do processo em que é ao mesmo tempo acusado e punido, e que sobre o mesmo processo sejam ouvidos os fiscais da corôa e da fazenda. O sr. Barros e Cunha não despachou esta petição e manteve os efeitos da sua portaria absurda, falsa, calumniosa, e infamante.

É a isto que nós chamamos o mais violento dos atentados perpetrado pelo arbítrio executivo contra a ordem moral e contra os direitos dos cidadãos.


O sr. Barros e Cunha é um criminoso diante do código e diante da carta.

A carta torna-o responsável no artigo 103 por três delictos que cometeu publicando a portaria de 3 de julho de 1877: por abuso do poder, por falta de observância da lei, e pelo que obrou contra a liberdade e contra a propriedade de um cidadão.

Perante o código atentou contra dois dos direitos que a lei civil reconhece e protege como fonte e origem de todos os outros,--contra o direito de apropriação e contra o direito de defesa (artigo 359).

A insinuação feita ao sr. Burnay de ter viciado um contrato que ele não viciou e de haver recebido a titulo de adiantamento uma quantia que ele não recebeu, coloca o signatário da portaria que encerra essa calumnia sob a acção do artigo 2364 do código civil, que diz o seguinte:

«A responsabilidade criminal consiste na obrigação, em que se constitue o auctor do facto ou da omissão (na portaria ha a omissão e o facto) de submeter-se a certas penas decretadas na lei, as quais são a reparação do damno causado á sociedade na ordem moral. A responsabilidade civil consiste na obrigação, em que se constitue o auctor do facto ou da omissão, de restituir o lesado ao estado anterior á lesão, e de satisfazer as perdas e damnos que lhe haja causado.»

Um só caso previsto no código pode relevar o sr. Barros e Cunha da responsabilidade civil e da responsabilidade criminal da portaria que perpetrou. Esse caso é o de completa embriaguez ou de provada demência.


Cumpre notar que o cidadão João Burnay sobre quem pesa uma tal ofensa não é um empreiteiro vulgar, um especulador de concursos fictícios simulados para apadrinhar intrigantes. João Burnay é um engenheiro de primeira classe, um matemático distincto, uma inteligência largamente cultivada, um caráter de uma honestidade inviolável. Como trabalhador ele é o mais elevado exemplo que se pode propor á mocidade portuguesa. Nenhum outro homem da geração moderna espalhou como ele em volta de si pelo puro exercício das suas faculdades creadoras uma tão grande e tão preciosa atividade. É o proprietário e o chefe de uma grande oficina modelo do seu gênero. Pelo exforço do seu talento extrae da natureza os elementos que fazem subsistir honradamente na sociedade de Lisboa alguns centenares de famílias. Todo o paiz em movimento de civilisação se lisongearia de o poder contar entre os seus filhos mais prestanles e mais beneméritos, porque é por meio da iniciativa de homens como ele que os estados se moralisam e se enriquecem.

Na nossa sociedade estagnada pela indolencia e pela corrupção ele é impunemente estorvado, calumniado, atraiçoado na mais legitima das suas aspirações--a aspiração do trabalho, por um ministro filho da intriga constitucional, saído do parlamentarismo mais banal e mais chato, não exercendo nunca o trabalho nem sendo capaz de o respeitar em quem o exerce, tendo vivido sempre no parasitismo da politica, não produzindo coisa alguma, não tendo finalmente servido aos seus semelhantes para outra coisa que não seja empobrocel-os quando come e corrompel-os quando governa.


Todavia não queremos mal ao sr. Barros e Cunha. Ele é simplesmente o producto fatal do seu meio. Inspira-nos um interesse simpático a triste maneira de acabar que o está esperando. Os seus erros sucessivos oferecerão á critica e ao ataque uma vasta superfície explorável. As suas faculdades não lhe permitirão defender-se.

de aqui lhe fazemos uma profecia: será medonhamente batido e deploravelmente derrotado, não porque ofendeu o direito na pessoa de um trabalhador obscuro, o engenheiro João Burnay, não porque foi injusto, mas sim porque é inhabil e porque é fraco. É isto, e não aquilo, o que nunca lhe perdoarão os partidos políticos com os quais irá dentro em pouco achar-se em hostilidade. Será o alvo das retaliações mais violentas, dos discursos mais acerbos na camara, dos artigos mais explosivos na imprensa. Hão de cercal-o como cercam os cães um javardo condemnado á morte. O impropério ha de se lhe aferrar ás espaduas e ha de mordel-o na nuca. A ironia ha de rir-lhe no nariz com uma gargalhada feroz, mostrando-lhe os dentes anavalhados e agudos,--de jacaré. A logica ha de lançar-lhe ao pescoço a sua golilha forrada de puas de ferro e hade leval-o de rastos por um grilhão atraz de ela. A pilheria há de pôr-lhe rabos. A chalaça há de pegal-o com breu á cadeira de ministro. A chufa ha de coser-lhe as abas da casaca a um trambolho. A pulha há de deitar-lhe pós de sapatos. A laracha há de esguichal-o com tinta de campeche. A chacota há de fazer-lhe sair do nariz bandeirolas e baralhos de cartas. A troça há de dar-lhe no ventre estrondosas palmadas de zabumba em teatro de feira.

E nós apiedar-nos-hemos, por que nos magoam os espectaculos em que se destroe para sempre a dignidade de um homem. É por isso que damos ao sr. Barros e Cunha um conselho amigável. S. ex.ª póde ser ainda um cidadão útil e respeitável. O que não póde é aliar esses títulos com o de ministro e secretario de estado dos negócios das obras publicas, comércio e industria.

Ha uma coisa mil vezes mais meritória do que ser um mau ministro, é ser modestamente um bom homem. S. ex.ª póde ser bom homem. Seja-o. Seja-o para honra sua e dos seus semelhantes. Demita-se. Vá para sua casa.

Ser um ministro do gênero de s. ex.ª é fácil. Não o ser, porém não é mais difícil. Vá para casa. Dizem-nos que é rico. É além de isso anglômano. Vá para casa cultivar esmeradamente a sua anglomania, sem desdouro para si nem para a especie de que faz parte. A exiguidade do seu craneo, cuja circumferencia mede uma quantidade de centímetros extremamente inferior á que a sciencia antropológica exige para a elaboração das grandes e fortes idéas, não o impede ainda assim de ser, por exemplo, um cultivador modesto e prestante. Os chapéus do falecido sr. Thiers, do sr. Disraelli, do sr. de Bismark cahem até o pescoço de s. ex.ª e deixam a sua pobre cabecinha tanto á larga dentro de eles como um ovo dentro de um sino. Mas ninguém tem obrigação de possuir precisamente o cérebro de um reorganisador e de um estadista.

A massa cefálica de que s. ex.ª dispõe habilita-o perfeitamente para ser muito útil, dirigindo a cultura da celebre batata-rim, tão rara, tão preciosa, tão procurada no mercado de Londres. S. ex.ª poderia ainda tentar nas suas vastas propriedades a creação em grande escala dos coelhos, á moda inglesa, o fabrico da manteiga, a queijaria, a piscicultura, o aperfeiçoamento das raças lanígeras, o estabelecimento das pateiras e das capoeiras-modelos, etc. Se s. ex.ª aplicasse as forças do seu nervosismo a prestar á humanidade esses serviços modestos mas valiosos, s. ex.ª teria as grandes alegrias, as profundas satisfações tranquilas das naturezas harmônicas, e o seu nome seria querido e abençoado como o de um cidadão prestadio e de um homem de bem.

Persistindo em ser um politico, s. ex.ª deixará apenas na terra o desprezo com que a humanidade castiga aqueles que, imaginando servil-a, não fizeram senão prejudical-a.

Assim como a ferocidade, a incompetencia tem também os seus Átilas. A diferença é, que uns requeimam a herva, os outros comem-a. O estrago é o mesmo.


O registo das producções musicais portuguezas foi enriquecido durante o período a que se refere este volume com três novas obras, qual de elas mais característica e mais monumental. Passamos a consagrar a cada uma a atenção que lhe é devida.


As Cutiladas do Passeio Publico é o titulo de uma polka refutativa dos princípios estéticos por onde os doutos costumavam até hoje determinar as fontes da inspiração artística.

Aos elementos que concorrem para a gestação de uma obra de arte, a orientação ethnologica, a tradição nacional, o solo, o clima, os aspectos da paizagem, temos de acrescentar uma nova força geradora:--a força da pancadaria.

Na ocasião em que os bons e pacíficos burguezes de Lisboa tomavam o fresco de uma noite de julho no Passeio Publico do Rocio, do qual eles são os legítimos e directos senhores, a policia invade o aludido passeio e a pretexto de não estar plenamente liquidada a questão jurídica de quem deve acender os candieiros e fechar as portas, a policia expulsa violentamente do seu passeio os burguezes e as suas respectivas mulheres, as suas mães, as suas irmãs e as suas filhas.

Á saída do passeio, uma força de soldados da guarda municipal que acudira em reforço da policia, encontra-se de frente com os burguezes que saem do jardim publico e procura recalcal-os para cima dos sabres policiais que do lado oposto lhes veem picando os rins. em esta conjuntura o publico, sentindo-se tanto á sua vontade como se o quisessem atarrachar entre as duas laminas de uma prensa, pergunta, por onde é que se lhe permite que fuja. A municipal considera indiscreta essa pergunta, e desembainhando os seus sabres acutila os burguezes e as suas famílias com o ardôr belicoso de um exercito encarregado da transformar o paiz em uma almondega.

Os restos do picado feito pela guarda municipal para alimento da ordem clamam vingança a altos brados. O acaso fornece-lhes armas, que eles regeitam. As cadeiras em que estavam sentados no jardim poderiam com vantagem desarticular alguns dos ossos mais importantes da força publica. As bengalas a que se apoiavam os chefes de família, brandidas com intima convicção, chegariam talvez a introduzir alguma porção de cana da Índia e de sentimentos piedosos nos cérebros da soldadesca. Finalmente alguns bons socos aplicados com arte não deixariam de fazer render as costelas e o espirito das tropas a uma conciliação amigável.

As sobras da chacina marcial da porta do Passeio acham porem insuficientes para o seu despique todos esses recursos. Os briosos canhos, vingadores da bordoada recebida á chucha calada, recolhem-se a suas casas pedindo ás fúrias punição para os algozes e arnica para as victimas.

Ao cabo de uma semana de recolhimento e de água de vegeto, o desforço popular rebentou finalmente, inexorável e tremendo, sob a forma de polka.

Expulso ás cutiladas e aos cachações de um jardim que é seu, cuja propriedade e cuja posse ele pagou e repagou muitas vezes com impostos e contribuições municipais, o povo de Lisboa vinga-se da carnificina que o estropia e da violação que o esbulha de uma propriedade que é tão legitimamente sua como a mesa a que janta ou a cama em que dorme, pondo o caso em musica e em dansa de roda!

Ó Lisboa! Lisboa! como tu estás demudada do que foste! Nos períodos ainda os mais vergonhosos da tua velha historia, no tempo de esse fraco rei que fez fraca a forte gente, tu tinhas ainda um Fernão Vasques, simples remendão, que á frente de alguns populares reptava o próprio soberano a vir á igreja de S. Domingos dar-lhe satisfação dos seus atos mais íntimos, da própria solução de seus amores. Hoje levas pontapés de um sargento na mesma parte do corpo que nobilitaste no presente século sentando-te nas cadeiras da representação nacional; e tendo feito um código dos teus inviolaveis direitos, tendo promulgado uma constituição, possuindo uma carta, um parlamento, uma imprensa, todas as garantias da liberdade, tu, que na idade gótica, chegavas com o teu braço poderoso á corôa de um rei absoluto, não chegas hoje, na era nova do direito, ás orelhas de um cabo de esquadra!

Ao pé da mesma igreja para onde ha quinhentos anos tu emprasavas o chefe augusto do Estado, levas agora tapona do policia Antunes, e a nada mais o emprasas senão a propinar-te uma segunda sova quando reajas á primeira!

Misera Lisboa! lastima a tua sorte: os teus remendões acabaram. Chora, cidade de mármore e de lixo, que os teus remendões morreram!

Aqueles que no vão de uma escada cosiam calças ou talhavam gibões, que não queriam ser vereadores, nem deputados, nem funcionários públicos, que eram simplesmente o povo, bruto mas digno, não sabendo intrigar mas sabendo bater, não tendo a imprensa nem a policia correcional, mas tendo ao canto da porta um cacete ou um chuço, esses tais, que eram a arraia miúda, umas vezes sofredora e mansa, outras vezes vingadora e terrível, esses desapareceram. Já não tens rudes filhos da plebe, tens delicados filhos de Minerva e de Tália. A cultura moderna fez-te filarmônica. Substituiste a força da união pela União e Capricho. Quando te não chegam ao pelo tocas o hymno. A frase levar para o tabaco ha de modificar-se para teu uso na nova fórmula--levar para a musica.

Agora, como te abriram a cabeça um pouco mais profundamente que o costume, despicaste-te com uma polka especial.

As trombetas das tuas quarenta filarmônicas populares, que trombeteiam indistinctamente por tudo, que trombeteiam pelas instituições e pelos santos, pela carta e pelo Senhor dos Passos da Graça, pela restauração de 1640 e pelo enterro do bacalhau, pela real família e pelo círio da Atalaia, por Garibaldi e por Santo Antônio de Padua, essas trombetas que expressavam alegremente o prurido dos teus júbilos principiam a expressar de um modo egualmente alegre o prurido das tuas confusões. Violam desaforadamente a tua propriedade e a tua pessoa e tu colocas essa questão de direito e de dignidade no terreno patusco dos bailes campestres! Expulsam-te do teu jardim adiante dos bicos das botas do hábil Antunes ou do hábil Castelo Branco; trincham-te a cabeça com a semceremonia com que se trincham os melões; e tu danças a polka, a tua polka brilhante, As cutiladas do Passeio Publico!

O que receamos por ti, ó querida Lisboa, é que na próxima tosa que te apliquem, além de te quebrarem os ossos, te quebrem também os instrumentos musicais, privando-te assim dos meios de flauteares a vingança monumental e tremenda. Ocorre-nos lembrar aos grandes centros democráticos da capital a conveniência de fundar uma reserva de clarinetes para que nunca se encontre desarmada perante a prepotencia da tirania a vindicta dos povos.

Enquanto á dignidade humana... lalarilolé... e enquanto á liberdade, ao direito e á civilisação... lariléliló... que nos importa isso?... Com as cabeças retalhadas pelos sabres policiais o que nós queremos é pano adesivado...lólaró... e fios... trolarilolé!

Como o philpsopho Diogenes a única coisa que pedimos aos grandes da terra, além de unguentos, é que nos não interceptem o sol... e dó!


O sr. Padre Conceição Borges fez cantar no teatro da Trindade uma opereta de que o dito clérigo compoz ao mesmo tempo o libreto e a partitura. O publico, pateando entusiasticamente ambas as coisas, pôs a peça fora da scena á primeira recita, privando-nos do prazer de assistir ao notável espectaculo, de que hoje nos resta apenas o titulo--Vamos a elas!

Quem são elas? Elas, na boca, no pensamento, na intenção do sr. Padre Conceição Borges, cremos que não podem ser senão as missas.

Mergulhamos como Curcio até o fundo de todas as hipóteses que esse perigoso problema nos suggere e não vemos que, sem ofensa do grave caráter sacerdotal do sr. Padre Borges, se possa admitir que elas não sejam as missas para serem qualquer outra coisa.

Ora sendo para as missas quo o sr. Padre Conceição quer ir e sendo para as missas que nós somos convocados a acompanhá-lo, segundo a única interpretação que pode ter o seu titulo, parece-nos que Sua Reverendissima torceu bastante caminho e que iria muito mais direito ao seu fito se, em vez de ter metido pelo palco da Trindade com o seu spartito em punho, fosse diretamente com a sua batina--para a sacristia das Mercês.


A Roma! a Roma! é o titulo de uma valsa anunciada ao publico pelo periódico religioso A Nação, e destinada a servir os mesmos desígnios piedosos que levaram o sr. Conceição Borges a elas! a elas!

Nada mais comodo do que esta intervenção da valsa nas praticas da penitencia e no regímen depurativo das almas para a mais elevada comprehensão dos interesses espirituais e dos destinos eternos! Ir para Deus não pelas escabrosidades do martírio mas pelas cadencias do cotillon é um dos mais notáveis serviços que a arte podia prestar á aliança da religião e do chic.

Affirmar o dogma dansando é uma ideia que vai revolucionar completamente os usos das salas. Nos bailes do próximo inverno inclinar-nos-hemos diante das meninas religiosas e diremos:

--Quererá v. ex.ª, minha senhora, ajudar esta alma a sair do abismo da impiedade conferindo-lhe a honra da próxima valsa?

E a menina a quem um homem se dirigir em esses termos responderá erguendo os olhos ao céu.

--Sim pelas sete dôres da Virgem Immaculada.

E iremos em seguida para a verdade sacrosanta e eterna, aos pares deslisando em giros ondulantes sobre os parquets polidos, cingindo com o braço direito os espartilhos palpitantes e eléctricos, segurando na mão esquerda um pulso delicado e macio, calçado em luvas perfumadas que chegam ao cotovelo. Respiraremos o aroma penetrante do Iris de Florença exhalado das rendas aquecidas no seio do nosso par, sentiremos nas pontas agudas do bigode o contacto dos seus cabelos secos e frisados, e no hombro o leve peso tépido e carinhoso do seu corpo de ave. E conversaremos:

--Como a religião é boa! como é inefável!... Eu sinto a voz do meu coração contricto e humilhado exclamar como esta valsa: a Roma! a Roma!

--E começa a ter crenças?

--Oh! sim!... com impaciência! com frenesi! com delírio!... Esqueçamo-nos do mundo vil! Bem hajas tu que me chamaste para a fé!... Tu, minha Cândida pomba da arca!... Tu, minha Estrela dos Magos!... Tu, meu anjo da guarda!...

--Bendito e louvado seja Nosso Senhor, que me permitiu a mim, sua indigna serva, o encaminhar para o grêmio da nossa Santa Madre Igreja uma alma que ia perder-se! Acredita na infalibilidade do nosso Summo Pontifice, não acredita?

--Acredito com fúria, com raiva, com epilepsia! Não sente como o meu coração bate?... É pelos dogmas, é pelos concílios, que ele assim bate! Oh! maldito seja o século com os seus erros! maldito seja o mundo com os seus enganos! Amanhã precisamente tinha eu que fazer na secretaria dos Extrangeiros: não vou! não estou para isso! Para onde eu vou é para o mez de Maria. Que me demitam, se quiserem! que me ponham na disponibilidade! Que me importam a mim os bens terrenos? Prefiro perdel-os a encontrar-me no ministério com o addido italiano que blasfema, que bebe a sua água de Nossa Senhora de Lourdes...

--Oh! se é um sacrilégio, cale-se por Deus! Podem ouvir-nos os pares que nos seguem... Dariamos escândalo no meio da sacratíssima valsa!

--Que eu lho diga ao ouvido, na sua pequenina orelha que parece uma joia de marfim cinzelada por Benvenuto Cellini para ornamento da cabecinha de uma Notre Dame de Lorette!... Ele bebe-a ao almoço...

--Deus do céu!

--Entre a costeleta e a omelete...

--Virgem Maria!

--Misturada com vinho de Pauillac...

--Santos e Santas da côrte celeste!

--Em partes eguais, metade vinho, metade água...

--Mas vai para o inferno essa alma!

--Está claro que sim. E é bem feito!

--Se não houvesse o inferno e o purgatório eles ficavam-se a rir.

--Mas lá está o castigo, olá! O fogo eterno e o ranger dos dentes por todos os séculos dos séculos sem fim não é uma quimera. Hão-de amargal-as, que ha de ser um consolo--para nós!

--Amen! Amen, Jesus Maria José!

Assim conversarão eles e elas durante a piedosa valsa A Roma! a Roma! Pela escada de Jacob de essa musica sagrada as almas alar-se-hão ao empíreo, e irão pela via láctea fora, sempre valsando, a demandarem a entrada para os salões de baile de Jehovah, prolongação logica das nossas soirées ao divino.


Aos srs. advogados

Meus caros senhores.--Escrevo-lhes estas linhas de cima de um boi, para onde resolvi vir habitar durante o mez corrente e o mez seguinte. Separa-me do amável e discreto ruminante um tênue sobrado. Eu oiço-o mastigar pausadamente com a regularidade do tic-tac do meu cuco, ele ouve-me o ranger da pena, e raramente batemos para cima ou para baixo a pedir qualquer coisa um ao outro. A respiração de ele é perfumada com o aroma do feno. Nunca cheira a caçarola suja nem a cano, como os prédios da baixa. Não escreve obscenidades na parede da escada, e--coisa que lhe perguntei antes de o vir habitar--não toca piano.

De quando em quando, pela sesta, calço os sapatos ferrados, pégo no cajado que nos está ouvindo àquele canto, acendo um charuto e saio de cima do boi para percorrer as montanhas circumvisinhas.

Em alguns casais amigos permitem-me a troco do preço de meio alqueire de farinha o prazer de amassar eu mesmo o meu pão, de o enrolar, de o meter ao forno e de o trazer ás costas para casa, de aí a dez minutos, embrulhado em um guardanapo, que ato pelas quatro pontas e que enfio no meu varapau.

Nas eiras colaboro na debulha, tomando as rédeas de esparto das duas velhas éguas intonsas e ossudas e pondo-nos a trotar todos três, elas adiante de mim e eu atraz de elas, por cima da palha.

Tenho também relações nos moinhos, e cultivo a convivência de moleiros obsequiosos que, quando lhes assobio, veem em mangas de camisa ao postiguinho, e conversam para baixo comigo acerca do vento provável para o outro dia.

É em estas excursões em torno do boi sobre que resido que eu tenho ouvido os casos que me levam a dirigir aos srs. advogados estas humildes regras.


Em toda a circumferencia rustica a que serve de centro o meu boi, no mais extenso raio a que têm chegado os pregos dos meus sapatos, não ha família que não tenha contribuído com algumas libras para o cofre dos srs. advogados. Sempre que algum dente das múltiplas engrenagens do machinismo administrativo roça pelo ser de um pobre homem do campo, ele, aterrado com a ameaça da coisa odiosa que o obrigaram a reconhecer como a prepotencia mais implacavel sob o nome de justiça, vai ao advogado para que este o illucide.

Os princípios gerais da organisação social que nenhum cidadão devia ignorar em um paiz representativo são para a maioria dos portuguezes o mistério mais profundo e mais insondável. O homem do campo, especialmenie, não tem idéa alguma das atribuições dos poderes a que ele se acha subordinado como um dos membros do corpo colectivo que se chama o paiz. Não sabe senão de um modo deploravelmente vago e ambíguo o que é a camara municipal, a juiz de paz, o juiz de direito, o escrivão da fazenda, o administrador do concelho, a junta de parochia, o conselho do districto, a comissão do recenseamento, o delegado de saúde, a policia, etc. De sorte que, em cada ato da vida civil em que o desgraçado se acha sob a acção de uma de essas formas porque lhe aparece o principio da autoridade, recorre ao letrado.

--Cá está comnosco a justiça! diz ele á mulher ao receber qualquer papel oficial.

--Seja pelas cinco chagas de Cristo! suspira a mulher com as lagrimas nos olhos, atando as mãos na cabeça.

--Má raios partam a justiça e mais aquele que a inventou, que se o apanhasse a geito, rachava-o de meio a meio com o sacho ceboleiro! e tinha alma de lhe beber o sangue!

Que o aviso recebido seja uma intimação para limpar o poço, para remover a estrumeira, para pagar um relaxe, para ser jurado, para mandar um filho á inspecção, para comparecer na camara, no tribunal, na administração ou na recebedoria, os lamentos são os mesmos, as mesmas pragas, a mesma deliberação final de perder o trabalho de um dia, de fazer a barba de véspera, de vestir o fato novo, de meter o pé de meia com os fundos de reserva na algibeira da japona e de ir de manhã cedo para a cidade a consultar um doutor. Como os mais pobres são também os mais ignorantes, são os pobres os que mais consultam e os que mais pagam. O procurador ou dá um simples conselho e custa isso cinco tostões, ou faz um requerimento e custa mil réis, ou redige um recurso e custa uma libra, ou toma conta da questão e pede dinheiro adiantado para as primeiras despesas, e custa vinte mil réis.

Acontece muitas vezes que o consultante não tem dinheiro e pediu emprestado o fundo do pé de meia. A necessidade porém de consultar o letrado é para ele uma fatalidade como a necessidade de consultar o medico. Com uma diferença: Todos os médicos têm uma hora por dia em que dão consultas gratuitas aos pobres doentes. Os advogados não têm egual caridade com os ignorantes pobres. Além do socorro desinteressado de todos os médicos, os doentes têm ainda o banco dos hospitais. Para os ignorantes não ha recurso nenhum. A escola é inteiramente inutil para lhes acudir, porque a escola portuguesa não ensina aos cidadãos quais são os seus direitos nem quais os meios de defesa perante a violação de eles. E no emtanto a sociedade tem muito maior responsabilidade no facto da ignorância do que no facto da doença. O Estado, que tem consultórios gratuitos para a saúde, deveria com dobrada rasão ter consultórios egualmente gratuitos para a justiça. Os advogados pela sua parte, não contribuindo como contribuem os médicos para prestar á sociedade na máxima amplitude os serviço desinteressados que a sciencia Ihe deve, dão-nos dos sentimenaltruistas da sua classe, por tantos outros títulos respeitável, uma idéa bem triste.

Os srs. advogadosa dizem-se os protectores do órfão e da viúva, o que nãos os impede de protegerem pelo mesmo preço os que oprimem a viúva e os que tyrannisam o órfão.

Os srs. advogados são com o ardor mais convicto e mais eloquente os defensores da causa da justiça e do direito e bem assim da causa contraria.

Os raptos de eloquência por meio dos quais os srs. advogados fulminam com heroica imparcialidade tanto o crime como a inocência, são conscienciosamente tarifados para que o publico escolha segundo o preço que deseja pagar.

Entre os movimentos oratorios mais caros ha o grito estridente, a punhada cava no peito, as lagrimas bailando nos olhos, a comoção que se apodera do próprio orador, o desfalecimento, a sincope, etc.

O tempo preciso para expôr a questão e para levar a evidencia ao espirito do auditório depende também do acordo prévio, segundo a tabela dos preços. Como tempo é dinheiro, quem quer mais tempo paga mais caro. Quando o réu é abastado ou opulento a questão não se esclarece senão á noite, e o juri tem de jantar no tribunal. Quando o réu é pobre bastam quinze ou vinte minutos para ele ir sossegado para a cadeia. O que escreve estas linhas já ouviu esta concisa oração de defesa: «Srs. jurados eu não tenho que dizer senão duas palavras: Esse selvagem (apontando para o réu) estava bêbado.» Assim se justificava o crime de um homem que não tinha pago as circunstâncias atenuantes ao defensor.


Não será útil que, assim como fazem os médicos, os srs. advogados restrinjam o campo, que oferecem ás correrias do epigrama, introduzindo alguma caridade nas suas relações com os pobres? Não poderia cada um de s. ex.'as, destinar algumas horas de um dia ou dois por semana, para dar conselhos gratuitos? Eis o que se nos oferece lembrar aos srs. advogados para que, no interesse da sua classe, s. ex.'as se dignem de o considarar em algum dos seus momentos de ócio.


Os jornais do mez passado trasbordaram de anúncios e de noticias pouco mais ou menos do teor seguinte:


«Mais um florão acaba de ser acrescentado á corôa da sr.ª D. Jeronyma, directora do bem conhecido e acreditado colégio de Nossa Senhora da Santíssima Purificação, rua de tal, numero tal, quarto andar, lado esquerdo. Foi ontem examinada em instrução primaria e aprovada com dez valores, no liceu nacional, a menina Elvira Fernandes, alumna do referido colégio. O nosso amigo Polycarpo Fernandes, extremoso pai da jovem examinanda, profundamente grato ao zelo da sr.ª D. Jeronyma e aos carinhos dos examinadores de sua débil e tímida menina, a todos consagra, por este meio, seus indeleveis agradecimentos.»


A inundação dos artigos de este gênero prova que o exame publico no liceu nacional começa a tornar-se um fim na educação ministrada ás meninas nos colégios de Lisboa.

A pedagoga sr.ª D. Jeronyma envida toda a honra da sua taboleta, todas as idéas da sua cuia e toda a atividade dos seus chinelos de trazer nas classes para dotar com o maior numero de exames as alumnas confiadas ás réclames das suas distribuições de prêmios.

Este ano a menina Fernandes foi aprovada em instrução primaria. Para o ano próximo será aprovada em francês. de aqui a três anos obterá egual exito com relação á língua inglesa.

O sr. Fernandes, cada vez mais reconhecido, terá publicado a esse tempo dez ou doze agradecimentos ao esclarecido zelo da sr.ª D. Jeronyma, e recobrará completamente educada a sua filha. A infatigável e benemérita professora dá-a por pronta para entrar na sociedade mais escolhida. Ela sabe as línguas, toca o piano e tem, segundo o programa da sr.ª D. Jeronyma, as prendas de mãos próprias do seu sexo. Estas prendas consistem em fabricar palmitos de papel e em bordar entes fabulosos, de uma monstruosidade mythologica, feitos a lãs, a matis, ou a missanga, com olhos de vidro, beiços de vidro, e lagrimas também de vidro, sobre um retalho de pano que se encaixilha e que tem por baixo, a ouro, a data da confecção do monstro feita em cruz, e em formosas letras de bastardinho, egualmente a canotilho de ouro:

Elvira Fernandez me fecit.


Ao fim de um ano de vida domestica D. Elvira esqueceu as línguas, das quais aprendeu precisamente o indispensável para escapar, caindo-lhe um tema fácil e um examinador carinhoso, como muito bem dizia Polycarpo nos seus anúncios de agradecimento. Esqueceu as línguas porque as não pratica na conversação ou no estudo, e não sabe uma palavra das leis da linguística, que fixam e systematisam os conhecimentos teóricos da formação das palavras.

Resta-lhe a faculdade de patinhar no piano a Prière de une vierge ou Les cloches du village, e de continuar a bordar em seda ou em casimira os abortos que derramam compungidamente o seu choro de vidrilhos nas almofadas do salão, aos cantos do sofá, e sobre os assentos das poltronas.

Polycarpo reconhecerá então--demasiado tarde, ai de mim! ou antes «ai de ele!» ou melhor ainda «ai de nós todos!»--que D. Elvira possui, no estado mais exemplarmente enciclopédico, a ignorância cabal de tudo quanto precisa de saber a mulher para ser na casa uma das rodas em que versa a família sensata e dignamente constituida, na qual Elvira tem a sua difícil funcção que exercer como filha, como irmã, mais tarde como esposa, e finalmente como mãe.


De tal modo os exames das meninas no liceu nacional, comprometem absolutamente os fins da educação, desviam-a do verdadeiro ponto de vista pedagogico, são uma ostentação ridícula, ofendem o bom gosto, desprimoram a delicadeza e a dignidade senhoril, assopram o pedantismo, incham a frivolidade e incapacitam a mulher para a missão a que ela é chamada na família.


Entendemos portanto que--desde o momento em que Fernandes é bastante obtuso para não prever os perigos da falsa educação ministrada a sua filha, e não só não protesta contra o programa absurdo de D. Jeronyma, mas antes lhe enderessa aplausos de um entusiasmo inexcedivel,--ao Estado cumpre intervir; não se tornar solidário das ilusões de Fernandes; e proteger Elvira. Como? Retirando a Fernandes e a D. Jeronyma o direito de a levarem a exame.


Levar a exame! Só a palavra é um ultrage da dignidade feminil. Submetter pelo despotismo do direito paterno tudo quanto ha mais delicado, mais melindroso, mais suscetível de corromper-se--o espirito virginal de uma menina,--ao interrogatório oficial de um mestre que durante vinte minutos vai exercer sobre aquela alma a tirania espiritual de um confessor! Um tal inquérito, um tal julgamento, póde ser desculpável na educação de um rapaz, para quem o exame é uma habilitação legal para a sua carreira civil; na educação de uma menina portuguesa semelhante prova é inadmissivel e equivale a uma amputação do decoro.

Ora se nenhuma mestra e se nenhum pai tem o direito de cortar as orelhas a uma criança para a tornar mais bonita, assim nenhum pai e nenhuma mestra podem ter a autoridade de fazer examinar uma menina para a tornar mais educada.

Pelo que, a obrigação do Estado seria prohibir os exames da instrução primaria e de instrução secundaria para todas as pessoas do sexo feminino que não juntem ao requerimento de matricula atestado de maioridade e de emancipação legal.


Em um exame de instrução primaria em um dos nossos liceus deu-se este dialogo:

O examinador--Que faz a menina quando se vai deitar?

A examinanda--Quando me vou deitar...

O examinador--Sim! Quando se vai deitar o que faz? Diga.

A examinanda(córando até á raiz do cabelo e baixando os olhos)--Quando me vou deitar... dispo-me.

O examinador--E depois de se despir?... Responda! Depois de se despir o que faz?... A menina não ouve?... Ou finge que não ouve?... O que faz depois de se despir?

A examinanda--Tenho vergonha...

O examinador--Não tenha vergonha. Responda para diante!

A examinanda--Depois de me despir o que eu faço é...

E em este ponto a examinanda, com a face afogueada pelo rubor do pejo, com os olhos cheios das lagrimas do terror, na língua adorável dos cinco anos, em essa língua que os homens só falam ás suas mães na pureza da inocência primitiva, em esse dialecto infantil ainda mais casto do que as línguas mortas, traduziu a locução de Plinio: urinam ex se emittere.

O professor a que nos referimos foi intimado a não proseguir pelo presidente da mesa, o sr. Augusto Soromenho, cujo testemunho invocamos.

É assim que nos exames de instrução primaria se averigua se as alumnas sabem ou não «civilidade».


Se a sr.ª D. Jeronyma carece das noções precisas para dirigir a educação de uma menina, é preciso dar-lhe essas noções, ou prohibil-a de educar, restringindo-lhe o direito de corromper a inteligência da infância.

A reforma da instrução das mulheres é em Portugal ainda mais urgente que a da instrução dos homens.

As línguas não constituem instrução, porque não ministram conhecimentos, são apenas meios de os adquirir.

Esses conhecimentos indispensaveis á mulher deveriam constar, na educação elementar, dos seguintes ramos de ensino:

1.° Curso de asseio e de arranjo;

2.° Curso de cozinha (chimica culinária).

3.° Contabilidade, escripturação e economia domestica.


No curso do primeiro ano dos colégios toda a menina aprenderia, juntamente com as necessárias habilitações literárias para adquirir idéas, as seguintes noções praticas:

Os processos scientificos mais perfeitos de lavar e de enxugar a roupa branca, o fato, as rendas finas, os tules, as sedas, os tapetes, as esponjas, as escovas; de conservar e concertar todos os objectos do uso domestico; de regular o uso do banho, de lavar o cabelo, de fazer os melhores pós de dentes, a melhor pomada, a melhor água de toilette; de arejar e de desinfectar os aposentos; de polir os metais e as madeiras; de encerar os soalhos; de limpar os vidros e as laminass dos espelhos; de envernisar os quadros; de concertar os livros e as estampas. Aprenderia ainda os métodos mais higiênicos ou mais racionais: de escolher os aposentos de uma casa, segundo o fim a que cada um de eles se destina; de dispor os moveis; de pendurar os quadros; de colocar a bateria das caçarolas; de montar a despensa e a garrafeira; de fazer os inventários e os roes; de dobrar e guardar a roupa branca e a roupa de mesa em lotes numerados; de pôr a mesa para os grandes e para os pequenos jantares.

Este curso completar-se-ia com algumas noções acessórias: dos diferentes gêneros de mobília e do seu estilo característico nas épocas mais notáveis da historia da arte ornamental; das principais louças, vidros, cristais, tecidos empregados nos estofos da mobília e no vestuário, e historia da fabricação de esses estofos.

No curso de chimica culinária, do segundo ano do colégio, a menina aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo.

O caldo é a base do toda a alimentação sabiamente dirigida, não porque o caldo de per si só constitua um alimento importante, mas porque é o caldo bem feito que estimula o sistema intestinal e o habilita para uma boa digestão.

Toda a mulher que não sabe fazer um caldo, deveria ser prohibida de dirigir uma casa. Sobre a ignorância culinária da maior parte das senhoras portuguezas pesa a responsabilidade tremenda da dispepsia nacional.

Não temos estômagos sãos porque não temos mulheres instruidas. Esta afirmação póde parecer uma fantasia do estilo; é uma pura verdade fisiológica e é um facto social. Em Lisboa ignora-se completamente o que é um caldo, porque esse delicado producto chimico só o sabem preparar os cozinheiros de 5:000 francos de ordenado. As famílias que não podem aggregar-se funcionários de esse preço e que não são dirigidas por senhoras que saibam o seu oficio, tomam, em vez de caldo, um liquido gorduroso e opaco, mais ou menos condimentado e indigesto. A condição essencial do caldo bem feito é que ele contenha a máxima quantidade de matérias odoríferas extraídas da carne, (vid. Liebig), que não tenha o mínimo vestígio de gordura, que seja aromático e perfeitamente transparente.

Se tivessemos alguma esperança de que a sr.ª D. Jeronyma o ensinasse ás suas educandas, dir-lhe-íamos como um caldo se faz. Mas a sr.ª D. Jeronyma acha mais útil ensinar o que é o substantivo. Como se alguém no mundo precisasse, para o que quer que fosse, de saber o que o substantivo é! Como se imensas pessoas (em cujo numero nos contamos), não estivessem mesmo convencidas de que jamais existiu na natureza o substantivo, e que ele é uma pura quimera menos interessante que o papão!

Ha todavia no mundo quem não seja inteiramente da opinião da sr.ª D. Jeronyma. Um dos sábios mais eminentes do mundo actual, o sr. Wirchow, demonstrava ha pouco tempo em Berlim que a intima correlação que existe no seio de uma sociedade entre a condição das mulheres e o progresso da civilisação depende de uma outra correlação não menos intima que existe entre a mulher e a cozinha. O principal agente do temperamento de um povo, do seu caráter, da formação das suas idéas, é a sua alimentação. É principalmente pela sua inflencia na cozinha que a mulher civilisada governa o mundo e determina o destino das sociedades.

Em Londres os mais importantes jornais, como a Quaterly Review, têm chamado para este assumpto a atenção dos poderes públicos e da iniciativa particular por meio de muitos artigos sucessivos acerca da regeneração da cozinha, da arte de jantar, do estudo comparativo das cozinhas dos diferentes póvos, etc.

A Inglaterra compreendeu finalmente que a circumstancia de não saberem as suas mulheres fazer bom caldo constituia uma inferioridade nacional e comprometia o destino do povo inglez. Para remediar este mal, que obstava ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento físico e moral dos seus habitantes, a Inglaterra fundou, em 1876, um notável estabelecimento publico de educação feminina intitulado Escola nacional de cozinha. O numero das alumnas matriculadas na nova escola subiu rapidamente a cerca de duas mil. Para satisfazer as necessidades do ensino foi preciso estabelecer não menos de vinte e nove sucursais da escola de cozinheiras. Entre as alumnas que frequentam essas escolas figuram meninas das mais aristocráticas famílias da Inglaterra. Algumas estão inscriptas como simples ouvintes e assistem aos trabalhos tomando as competentes notas nos seus cadernos; muitas outras atam o avental e descem aos processos indo trabalhar alegremente á banca das operações, ou junto do fogão, vigiando a cassarola e o espeto.

Um só facto basta para evidenciar a vantagem de esta especie de ensino na economia domestica: As classes de cosinha da instituição britânica estão divididas em varias secções dependentes do orçamento a que as famílias têm de cingir as suas despezas; ha uma secção destinada a ensinar os meios de alimentar do modo mais higiênico e mais agradável uma família que não possa aplicar á cozinha mais que uma verba de 1$600 réis por semana! Em Portugal tão descurado está este importante assumpto que, não obstante a fertilidade do nosso solo e a benignidade do nosso clima, é inteiramente impossível estabelecer com 1$600 réis por semana um conveniente regímen alimentício para uma família de quatro pessoas.

O curso de cozinha nos colégios portuguezes deveria ser organisado praticamente como na Inglaterra, ensinando-se ás alumnas o valor chimico das principais substancias empregadas na alimentação, o seu preço ordinário no mercado, a sua acção fisiológica sobre o nosso organismo, o modo de variar os jantares segundo as ocupações de cada dia, segundo o temperamento de quem tem de os assimilar, e segundo as estações do ano em que eles houverem de ser feitos.


No curso de contabilidade do terceiro ano dos colégios, as alumnas deveriam aprender a escripturar metodicamente a receita e a despeza da família, supostos dados rendimentos, desde os mais estreitos até os mais avultados, calculando desde o principio do ano o modo de manter o balanço entre as posses e os gastos, lançando em conta de receita todos os proventos e fixando-se nas verbas de despeza proporcional nos diferentes capítulos orçamentais: a renda da casa, a acquisição e os reparos da mobília, o vestuário, o serviço, a iluminação, a lavagem, as despezas imprevistas, e o fundo de reserva--verba essencial, indispensável em todo o orçamento, grande ou pequeno, de toda a casa sabiamente dirigida.


Fortalecida com a educação feita em estas bases, esboçadamente expostas, a mulher terá dado o primeiro passo, mas o passo definitivo para a sua verdadeira emancipação. Porque emancipar-nos não é em último resultado mais do que isto: habilitamo-nos a prestar na sociedade serviços equivalentes ou superiores àqueles que recebemos. Com a mulher invencivelmente armada com as aptidões que requisitamos para que ela seja a alma do governo domestico, o casamento deixa de ser a ruína com que nos ameaça o proloquio vulgar: uma casa é uma loba. Não; a casa, dirigida como a mulher deveria aprender a dirigil-a, é a ordem, é o método, é a economia, é a estabilidade, é a fixação do destino, é o baluarte do homem. A funcção da mulher bem educada é essencialmente protectora. Na lucta da vida por meio da aliança conjugal e da ligação domestica, o homem é a espada, a mulher é o escudo. O fim da educação feminina é compenetrar a mulher da responsabilidade da sua missão e fortificar-lhe o braço que tem de ser o nosso amparo querido, o nosso doce refugio.

Se a mulher imagina que o casamento, seu natural destino, é um facto dependente dos encantos da sua beleza e do seu agrado, a mulher engana-se deploravalmente. Os modernos trabalhos estatísticos provam com factos em um período do cem anos que o numero dos casamentos está sempre em relação constante com o preço dos trigos. Se o pão encarece os casamentos diminuem. A' baixa no preço do pão corresponde pelo contrario uma elevação proporcional no numero dos casamentos. O casamento, portanto é um facto moral estreitamente ligado não a um fenômeno estético mas a um fenômeno econômico. A base do casamento é a economia. A economia domestica é a primeira das aptidões com que deve dotar-se a mulher.


Em todos os paizes civilisados, por toda a parte do mundo, a educação da mulher está passando por uma revolução profunda suscitada pelos esforços de todos os pensadores. A educação vulgar da mulher moderna reconheceu-se que constituia um elemento dissolvente da dignidade e da aspiração das sociedades contemporâneas. Na antiga Roma a doçura, a graça, a ternura, todos os atrativos sentimentais que ainda hoje vemos cultivados na educação das mulheres honestas eram atributos exclusivos das cortezãs. Um critico notou como nas comedias de Plauto as matronas não conhecem as efusões e os arrebatamentos da paixão; não são tímidas nem scismadoras; têm o ar decidido, falam em tom firme e viril. As meninas ricas eram educadas em casa com seus irmãos por escravos instruidos e letrados; recebiam as mesmas lições e estudavam nos mesmos livros. As pobres iam ás escolas publicas, no Forum, juntamente com os rapazes, como actualmente acontece nos Estados Unidos.

Na idade média, quando os bomens, dedicando-se inteiramente ao oficio das armas, não tinham tempo de cultivar o espirito pelo estudo, as senhoras da alta sociedade, como vemos nas condessas de Champagne, na mãe de Godofredo de Bulhões, na amante de Abeilard, recebiam a mais esmerada educação literária. Sabiam o latim, conheciam os antigos poetas e os moralistas e estudavam os elementos da fisiologia e da meteorologia nas obras dos árabes.

Em todas as civilisações a mulher bem educada se habilita para desempenhar o papel que lhe cabe na harmonia social.

Na nossa época de fria analise, de implacavel utilitarismo, a primeira das obrigações da mulher consiste em tornar-se útil. Ser útil é para ela o grande segredo de ser querida, de ser forte, de ser dominadora. Toda a educação feminina tem de partir de este principio.


A alta cultura do espirito, tão necessária á mulher para que ela assuma na sociedade a parte do poder a que tem direito, não se ministra nas escolas, adquire-se pelo esforço e pela aplicação individual dirigida por um critério, por um método, por uma disciplina, que a mulher só póde adquirir na grande escola pratica da vida domestica. Todas as noções que nos possa ministrar o estudo das ciências mais superiores estão subordinadas para a sua assimilação no nosso espirito a esta noção previa: a noção da responsabilidade e do dever. Ora essa noção primordial só a adquire a mulher nas praticas da vida domestica.

O aperfeiçoamento intelectual das mulheres não só não é incompativel, como algumas julgam, com a perfeita direcção do ménage, mas antes depende essencialmonte do grave estado de espirito que essa direcção impõe.

Em Portugal, onde a sciencia do governo da casa é tão lastimosamente ignorada, vejamos quais são as producções do espirito feminino, quais são os fructos da educação literária desaliada da educação domestica.

Os almanachs da sr.ª D. Guiomar Torrezão têm o grande valor histórico de serem o repositório de esses fructos. É por esses almanachs que a posteridade tem de julgar do valor intelectual das nossas contemporâneas.

Acabamos de folhear do principio ao fim um numero do Almanach das Senhoras, que temos presente. Temos também presente a Gazeta das Salas, egualmente redigida por senhoras. Deus nos defenda de que qualquer estrangeiro procure julgar sobre estas producções literárias do estado do espirito feminino na sociedade portuguesa! Em todas estas coleções dos trabalhos intelectuais das nossas mulheres--sentimos dizê-lo--não ha um só artigo grave, serio, meditado, revelando conhecimentos práticos, aspirações elevadas, pensamentos nobres. De tantos problemas sociais que affectam a condição da mulher na sociedade contemporânea e que solicitam a atenção de ela, para serem resolvidos pela parte mais interessada e mais compentente da humanidade, nem um só foi julgado digno do estudo de alguma das senhoras que fazem imprimir e publicar os seus escritos em Portugal! Estas senhoras produzem versos--não como os de madame Hackerman, cujos poemas recentemente publicados constituem uma revolução na poesia moderna e são o grito mais profundo e mais lancinante que ainda expediu no mundo a alma mais sedenta de verdade e de justiça,--mas sim trovas de uma sentimentalidade de segunda mão, sem ideal, sem paixão, de uma pieguice grotesca. Escrevem também pequenos contos ou novelas de amores infelizes, cujos personagens se tratam por excelência e se requebram em artifícios de um dandismo, cuja legitimidade está longe de poder ser absolutamente garantida, não dizemos já em um congresso de gentlemen, mas em um simples tribunal de cabeleireiros. E é para nos dar estes lamentaveis fructos da sua educação exclusivamente literária, que tanta menina honesta sacrifica o tempo que devia consagrar aos nobres trabalhos do ménage, tornando-se, em vez de uma digna mulher útil, apta para acompanhar, para comprehender e para ajudar o homem, uma pobre e misera creatura neutra, desorientada da vida real, incapaz de qualquer emprego na vida pratica, cheia de falsas aspirações, de desenganos e de tédios permanentes.

Compare-se o Almanach das Senhoras, com as coleções estrangeiras colaboradas por mulheres. É esse o melhor modo de reconhecer como a educação pratica da ménagère, eleva o espirito, como a educação literária do colégio portuguez o deprime e avilta.

O Jornal das donas de casa da Alemanha, tem aperfeiçoado profundamente os costumes e os hábitos da vida domestica.

Na Inglaterra o texto da grande Revista das mulheres inglezas consta de artigos de critica literária ou de costumes, de filosofia, de fisiologia, de economia politica e de economia domestica, de narrativas de viagens, relatórios, estatísticas, receitas culinárias, noções praticas. Não ha um romance sentimental, nem uma poesia lirica, nem uma réclame de modas.

Taine cita no seu livro acerca da Inglaterra vários artigos de mulheres publicados nas Transactions of international association for the promotion of social sciences. Os artigos intitulam-se:

Escolas districtaes para os pobres na Inglaterra, por Barbara Collett;

Applicação dos princípios de educação ás escolas das classes inferiores, por Mary Carpenter;

Estado actual da colonia de Mettray, por Florence Hill;

Estatistica dos hospitais, por Florence Nightingale;

A condição das mulheres operarias em Inglaterra e em França, por Bessie Parkes;

A escravatura na America e sua influencia na Grã-Bretanha, por Sarah Remand;

Melhoramento das «nurses» nos districtos agrícolas, por mistress Wigins; Relatorio da sociedade fundada para fornecer trabalho ás mulheres, por Jone Crowe, etc..

Todas estas auctoras, de quem Taine obteve informações pelos muitos amigos que tinha na sociedade inglesa, eram mulheres de casa, passando uma vida extremamente simples e retirada.

Assim temos que na Inglaterra e na Alemanha a escola das ménagères produz as mais graves e mais importantes escriptoras. Em Portugal a educação literária, segundo os programa dos liceus, nem dá ménagères nem dá literatas.

Se o ensino das mulheres se reformasse de modo que desse alguma coisa?...

As Farpas

Sinopse

As Farpas, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, reúne em um único registro canônico onze fascículos integrais do Project Gutenberg, de 1873 a 1883, conservadoramente normalizados para PT-BR moderno.

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