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Capítulo 4 · As Farpas

1877 — Janeiro e Fevereiro

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A situação politica...

Mas, perdão--antes de encetarmos este assumpto, uma pequena historia:

Era uma vez um velho burro. Fora madraço e manhoso. Não conquistara amigos porque os não merecia. Tinham-o lançado á margem no fim da vida. Principiou a viver ao acaso, pelos montes. Um dia achava-se defronte de um valado, estacado ao sol sobre as suas quatro patas, inerte, imóvel, olhando para um cardo seco com os seus grandes olhos redondos e encovados em orbitas esqueléticas, pensando nas vicissitudes da vida e procurando arrancar do seu cérebro, para se consolar, algumas idéas filosóficas.

Passou por ele e deteve-se a contemplal-o um joven asno, no viço das ilusões, cheio de amor e de zurros, de alegria e de coices. A vetusta ossada angulosa do ancião parecia furar-lhe a pele resequída e áspera. Um espesso enxame de moscas cobria-lhe as mataduras do lombo e dava-lhe o aspecto de ter um albardão feito de zumbidos e de asas sobre um fundo de missangas pretas e palpitantes,--coisa rabujosa á vista.

--Sacode esse mosqueiro, disse-lhe o burro novo. Dar-se-ha o caso de que, á similhança do homem, deixasses também tu atrofiar o precioso músculo que aí tens na face para por meio de ele abanares a orelha e moveres a pele?... Sacode-te, bestiaga!

Ao que o lazarento, pausado, retorquiu:

--Não sabes o que zurras, joven temerário! O destino de quem tem maselas é que o mosqueiro o cubra. As moscas que tu vês, e de que o meu cerro é a estalagem com mesa redonda, são moscas fartas, têm a mansidão abundante dos estômagos cheios. Se eu as sacudisse, viriam outras,--as famintas, de ferrões gulosos, que zinem como frechas, pousam como cáusticos, mordem como furúnculos. As que tu vês prestam-me um serviço impagável:--livram-me das que podem vir; são o meu xairel benigno e suave, o meu arnês, a minha couraça. Quando te chegar a idade de seres pasto de moscas (e breve te soará essa hora porque a mocidade é, como a herva, uma efêmera transição entre o alfobre da meninice e a palha da edade madura); quando te chegar o teu dia, lembra-te, asninho imprudente, de este conselho amigo de um burro velho, que não aprende línguas, mas que tem a experiencia que vale tanto como o ouro: Nunca sacudas mosca desde que creares masela! Teme-te dos papos vasios das revoadas novas. Papos cheios não só não mordem mas até empacham! Comprehendeste, burrinho, a filosofia da minha inercia?

Revertamos agora, como vinhamos dizendo, á situação politica.

Em toda a sociedade em movimento ha dois únicos partidos: o partido conservador e o partido revolucionário.

A funcção do partido revolucionário, qualquer que seja o seu nome--republicano, socialista, federalista, fourrierista, proudhonista, positivista, etc.--é transformar a ordem estabelecida, modificando as condições da civilisação no sentido de um mais rápido progresso.

Para este fim o partido revolucionário agita constantemente por meio de idéas novas as opiniões preconcebidas.

Como, porém, não está ainda definido o programa geral e harmônico da revolução, como a tendencia progressiva das multidões indisciplinadas se basea no sentimentalismo estéril ou no fantástico ideal metafisico dos fraseadores eloquentes, sucede que todo o esforço revolucionário representa para a sociedade um perigo de desordem, de incoherencia e de anarchia.

A funcção do partido conservador é a manutenção da ordem contra todas as invasões que directa ou indirectamente ameacem a integridade da organisação existente. Em todas as velhas sociedades os governos são por essa rasão, os inimigos natos do progresso. A evolução progressiva da humanidade realisa-se, a despeito de eles, pela elaboração irresistivel das idéas fora da esfera oficial, sob a acção das descobertas da sciencia ou das suggestões da arte. O mais que fazem os governos é submeterem-se ás transformações sociais que a solução de cada novo problema resolvido pela sciencia impõe á existência dos povos. Os governos, portanto, sempre que uma forte efervescência intelectual não agita a sociedade e os não abala constantemente na eminencia do seu posto forçando-os a concessões sucessivas, tendem ao retrocesso.

A civilisação não é na orbita politica senão o justo equilíbrio das forças resultantes de essas duas tendencias: a tendencia retrograda na ordem, a tendencia anarchica na revolução.

Em Portugal o que sucede?

A vida intelectual é extremamente débil. A sciencia não tem cultores desinteressados e ardentes, a acção da arte sobre a aspiração dos espíritos é nula.

O resultado é que os partidos de oposição, não encontrando nos fenômenos da vida nacional a profunda expressão implacavel de novas necessidades a que os governos tenham de amoldar-se, acham-se naturalmente desarmados das grandes rasões que reptam os governos a progredir ou a abdicar.

Em tais condições o partido revolucionário dentro da milícia politica, partido fabricado pelos próprios governos com a corrupção do sufrágio,--sendo uma pura convenção, uma fixão constitucional, uma expressão retórica, sem raízes na consciência e na vontade popular,--acabou por desaparecer inteiramente do nosso sistema representativo. Ha muitos anos que a revolução não tem quem a represente no parlamento portuguez.

Ha, todavia, uma maioria parlamentar e uma oposição composta de vários grupos dissidentes. Estes grupos são fragmentos dispersos do único partido existente--o partido conservador--fragmentos cuja gravitação constitue o organismo do poder legislativo.

Estes partidos, todos conservadores, não tendo princípios próprios nem idéas fundamentais que os distingam uns dos outros, sendo absolutamente indiferente para a ordem e para o progresso que governe um de eles ou que governe qualquer dos outros, conchavaram-se todos e resolveram de comum acordo revesarem-se no podler e governarem alternadamente segundo o lado para que as despesas da retórica nos debates ou a força da corrupção na urna fizesse pesar a balança da regia escolha. Tal é o espectaculo recreativo que ha vinte anos nos esta dando a representação nacional.

Imaginem meia duzia de almocreves sequiosos que acham na estrada um pipo de vinho. Como nenhum de eles tem mais direito que os outros a beber do pipo, combina-se que cada um de eles ponha a boca ao espicho e beba em quanto os pontapés dos outros o não contundirem até o ponto de o obrigar a largar as mãos da vasilha para as apertar na parte ferida pelos pontapés aplicados pela companhia que espera. É exactamente o que ha muito tempo tem sido feito pelos partidos portuguezes com relação ao usofructo do poder que eles acharam na estrada, perdido.

Chegou finalmente a vez de pôr o pipo á boca um partido excepcionalmente valoroso de sede e inconfundivel de fibra. Este partido não desemboca o pipo por mais que lhe façam. Protestações escandalisadas, de almocreves, retroam.

--Este partido abusa!

--Isto não vale!

--Isto não é do jogo!

--Ele esvasia o pipo!

--Larga o pipo, pipa!

--Larga o pipo, pimpão!

--Larga o pipo, ladrão!

E incitam-se uns aos outros até á ferocidade:

--Chega-lhe rijo!

--Mais! que lhe dôa bem!

--Rebenta-me esse ôdre!

--Racha-me esse túnel!

--Ah! cão!

O partido, porém, continua sempre a beber, e é insensível a tudo: á dor, ao insulto, ao chasco, ao impropério, á graça pesada, á insinuação pérfida e á alusão venenosa!

Em vista de uma tal pertinácia, que nós mesmos somos forçados a taxar de irregular, os partidos em expectativa do pipo, confederam-se, ferem o pacto da Granja, constituem-se em um só partido novo,--em uma só boca para o pipo. Fazem um programa, redigem um manifesto, vão de terra em terra pedindo ao paiz que intervenha. Precisamente lhes ocorreu em esse momento que o pipo tem dono! que é do paiz o pipo!

Instado a intervir pelos pactuantes da Granja, pelos signatários do manifesto, pelos auctores do novo programa, pelos oradores dos meetings revolucionários, pelos jornais oposicionistas, o paiz responde-lhes:

Lestes a historia do sábio burro lazarento contada pelas Farpas? Eu sou esse burro. Vós sois a revoada das novas moscas pretendendo expulsar a revoada velha. Ora, moscas por moscas--sendo meu destino que elas sempre me cubram e me comam--prefiro as antigas moscas saciadas ás novas moscas famintas.

Deixae-me em paz. E notae que eu nem sequer vos abano as orelhas,--que é para não bolir comigo!


Nuvens escuras, espessas, parecendo feitas da conjugação érea de Hymalaias de cinza e de Caucasos de cebo, toldam o céu, descem no espaço sobre as nossas cabeças, rolam pelos telhados com os idílios felinos do mez de janeiro, caém sobre os candieiros das ruas, espraiam-se pelo asfalto dos passeios, valsam nas ruas, envolvem os transeuntes em abraços aquosos que lhes atravessam o paletot, o colete de flanela e as articulações dos ossos; penetram em rodopio no interior das casas pelos resquícios das portas e das janelas, e na sua dança macraba as pardas e humidas filhas do ar cobrem de sôfregos beijos molhados e bolorosos as lombadas dos livros, o liso marfim dos teclados, o mármore polido das chaminés, os cabelos que se desfrisam e as idéas que se dissolvem. Ao cabo de pouco tempo chove de toda a parte: chove do céu, chove das paredes e dos tectos das casas, das portas, da mobília, dos castões das bengalas, dos abat-jours dos candieiros, e dos barretes de dormir. Ha dois violentos temporais com poucos dias de espaço entre um e outro. Trasbordam os rios. Inundam-se os campos. Desenraizam-se árvores. Desmoronam-se casas. Os rebanhos, os instrumentos agrícolas, os gêneros em deposito nos celeiros, os viaductos e os rails das linhas fereas são arrebatados pela corrente das águas. O curso ordinário dos negócios, o movimento das mercadorias e dos viajantes suspende-se. Alguns dos habitantes das regiões inundadas ficam na miséria e têm fome.


Ha por tanto duas crises: uma crise meteorologica e uma crise econômica.


Sendo a crise econômica um efeito da crise meteorologica, a questão fundamental no estudo de essas duas crises é a questão da chuva.

Esta questão acha-se definida e tem a sua teoria na sciencia.

Assim como a água sujeita a uma dada elevação de temperatura se evapora e se converte em ar, assim o ar sujeito a uma proporcional depressão atmosférica se transforma e se converte em água. Os conhecimentos que já hoje se possuem da física do globo permitem determinar os diferentes tramites do processo seguido pela natureza para obter os resultados achados pela observação humana.

Todo o vento (efeito da rotação da terra) humedecido pela impregnação aquática do mar, encontrando na sua passagem um estorvo que o dilate na atmosfera, transforma-se em chuva, ou transforma-se em neve, segundo o gráu de arrefecimento, maior ou menor, resultante da altura a que o eleva no espaço o volume do estorvo interposto na sua corrente.

Assim se explica o fenômeno da chuva, a existência da neve nos píncaros de todas as altas montanhas, e o nascimento dos rios. de estes, uns, como o Ródano, o Reno, o Danubio, são formados pela oposição das cordilheiras á corrente regular de certos ventos; outros, como o Mississipi e o Missouri, nascem do encontro das duas correntes atmosféricas opostas, uma que sáe do golfo do Mexico, outra que parte dos Estados Unidos na direcção da Europa.

Achando-se determinado que 200 metros de elevação acima do nível do mar dão 3 gráus de frio, é fácil calcular, o frio que deve actuar no ar elevado ás alturas dos Alpes, dos Pyreneus, do Caucaso, e de descobrir assim as causas das geleiras, do mesmo modo se descobriu a origem das chuvas e a do nascimento dos rios.

Possuida esta simples e clara noção, o homem adquiriu o poder de intervir no meteoro. Em 14 de novembro de 1854 uma tempestade medonha caíu sobre as esquadras francesa e inglesa, estacionadas no Mar Negro. Todos os navios das duas marinhas tiveram avarias desastrosas. Muitas embarcações de transporte naufragaram. O sr. Leverrier, diretor do observatório de Paris, procedeu então a um inquérito sobre as perturbações atmosféricas de esse dia, dirigindo circulares a todos os meteorógrafos do mundo. Duzentas e cincoenta respostas de diferentes observatórios provaram que a onda atmosférica quá determinara a tempestade fora presentida pelos observadores, e que a catástrofe teria sido evitada se o telégrafo, que caminha mais depressa do que a corrente do ar, houvesse feito passar de observatório em observatório a noticia do fenômeno.

Antigamente faziam-se preces e penitencias para pedir chuva; hoje em dia a chuva não se pede, manda-se-lhe simplesmente que caia, e ela cáe precisamente no ponto que se lhe designa.

Ha poucos anos ainda, no Baixo Egypto, não chovia nunca. Os celeiros eram construidos ao ar livre, a descoberto, sobre os telhados. Desde tempos imemoriais que o vento seco do norte mantinha esse estado de coisas na referida região. Um dia, porém, a corrente septentrional chega á Alexandria e encontra uma certa dificuldade em passar com a rapidez do costume; detem-se um momento, retarda-se um instante: basta isso para que ela se dilate, para que se eleve no espaço, para que arrefeça na razão da altura a que subiu e para que, por-consequência, se converta em chuva. de onde viera esta poderosa resistência á invasão do vento estéril? De uma revolução geologica na configuração do solo? Do encontro de um vento oposto? Da influencia calorifica da radiação solar? Não. A voz de preso dada ao vento norte, o encarceramento de ele em uma certa porção do espaço, a sua condemnação inilludivel a condensar-se e a ser chuva, fora simplesmente a obra do homem, que vencera o vento plantando a árvore.

As florestas que têm o poder de ocasionar as chuvas por meio da sua interferencia na corrente dos ventos, possuem ainda a propriedade de lhes regular os efeitos impedindo os excessivos irrigamentos, e as inundações.

Além de certos processos de cultura e de arborisação nos cabeços dos montes e nas encostas das colinas, ha outros meios de impedir os estragos das cheias,--dando aos rios um regímen torrencial, operando largos cortes transversais nos declives do solo para regular a descida das águas, construindo tubos de drenagem, etc.

Quando um dique, como o de Vallada, se rompe por efeito de um repentino augmento no volume da água no leito de um rio, ha meios práticos, prontos, expeditos, de construir diques provisorios. O sr. Babinet, nos seus estudos acerca da chuva e do irrigamento da França, lembra para os casos análogos ao de Vallada a construcção de barreiras feitas com grandes caixas de ferro fundido semelhantes ás que transportam a água potável nas navegações de longo curso. Estas caixas enchem-se com a mesma água do rio e sobrepõem-se ou enfileiram-se de encontro á corrente até formarem um obstaculo de dimensões adquadas ao volume da água que se tem por fim represar.

O mesmo sr. Babinet suggere para o meio preventivo da arborisação o sábio alvitre, tão moralisador, de organisar regimentos de plantadores formados de corpos de veteranos, cujas praças encontrariam em esse trabalho um suave emprego da sua atividade, que o Estado poderia utilisar remunerando-a com liberalidade superior á importância mesquinha do soldo e proporcional ao serviço prestado por esses cidadãos, até hoje inúteis, á salubridade e á riqueza publica.

Por ocasião das últimas inundações em França, das recentes inundações na Inglaterra, os meios apontados e muitos outros, descobertos pela sciencia no momento do perigo, em frente da catástrofe, têm sido objecto dos mais graves estudos por parte do governo, por parte da imprensa, por parte principalmente das corporações especiais, dos meteorologistas, dos engenheiros hidrógrafos, dos de florestas, dos de pontes e calçadas, etc.

Em Portugal diante do facto da inundação espraiada sobre as povoações do Ribatejo, e das margens do Guadiana, a questão principal, a questão suma, a questão technica, é posta completamente de parte, ou nem sequer chega a ser afastada: não concorre no problema, é como se não existisse!


Em face do desastre, dos nossos periódicos, do nosso parlamento, dos nossos próprios estabelecimentos de instrução, irrompe um só grito enorme, consternado, lacrimoso, impotente, imbecil:--Caridade! Caridade! Caridade!

Parece não se ter unicamente em vista achar um remedio, mas cumprir uma expiação que minore os castigos do Céu!

Um antigo proloquio egípcio dizia: Chuva em Tebas, desgraça no Egypto. A população portuguesa não mostra ter da chuva uma comprehensão menos supersticiosa que a da tradição tebana. Estamos na metafísica dos cataclismos incommensuraveis.

Debalde a meteorologia--com quanto em estado rudimentar, não constituida ainda em sciencia sobre bases experimentais e com processos deductivos,--nos anuncia, ainda assim, que não ha nos fenômenos do ar aberrações extraordinarias, inacessíveis á previsão, mas sim uniformidades periódicas de sucessão, as quais o estudo das ondas atmosféricas e da acção magnética do globo, estudo dirigido harmonicamente em uma cinta de observatórios que cinja ininterrompidamente o globo, chegará por certo a poder um dia regulamentar sistematicamente. Definir-se-ha o sentido scientifico do sonho simbólico das vacas magras e das vacas gordas, demonstrando-se como aos anos de estiagem e de fome sucedem anos compensadores de irrigação e de abundancia.

Debalde a historia nos mostra que foi das inundações dos grandes rios que saiu a iniciação dos grandes progressos humanos; que foi das inundações do Nilo que procedeu a civilisação do Egypto; das inundações do Hoang-Ho que procedeu a civilisação da China; das inundações do Eufrates, que procedeu a civilisação da Caldea, da Babilonia e da Syria. Povos na infância, desprovidos das lições da experiencia, desarmados dos instrumentos da analise moderna, souberam fundar a sua vida histórica na previsão industrial e na previsão econômica das cheias dos seus rios.

Nós, portuguezes, em pleno século XIX, na posse dos mais importantes segredos da mechanica, da astronomia, da física, da chimica, nós, filhos de Kepler, de Galileu, de Newton e de Francklin, nós, contemporâneos de Mayer, de Helmboltz, de Virchow, de Haeckel, de Humboldt, e de Wourtz, de Ampere, de Leverrier, nós, não sabemos tirar das inundações sucessivas de um rio que vem de anos a anos, periodicamente, contra nossa vontade, fertilisar os nossos campos, nenhuma das lições que a experiencia devia suggerir-nos para regularmos e utilisarmos em nosso proveito a acção violenta de esse fenômeno!

Ha perto de trezentos anos que um velho naturalista, um modesto oleiro, um simples, um santo, Bernardo Palissy, ensinou a construir as fontes artificiais, fazendo passar as águas da chuva através de um pequeno trato de terreno arborisado sobre um declive de cimento argiloso, terminando em um muro de suporte que se corta no ponto em que se coloca a fonte e onde se deseja que a chuva, armazenada no inverno entre as raízes do pomar plantado na encosta de subsolo sedimentado, venha a correr no verão em bica de água mineralisada e límpida. Ha trezentos anos que isto se ensinou. Em Portugal, onde a chuva torrencial é um facto de quase todos os invernos, onde a falta de água potável é um facto de quase todos os verões, ainda ninguém aprendeu a construir a fonte de Palissy!

Em Lisboa cairam alguns muros e desabaram algumas casas. Se um ligeiro abalo de terra se tivesse seguido ás grandes chuvas é natural que muitos outros prédios aluissem, porque a grave questão das edificações em Lisboa está absolutamente despresada e abandonada á rotina do velho sistema adoptado pelo marquês de Pombal. Ora esse sistema, aliás excelente no tempo da reedificação subsequente ao terremoto, é hoje imperfeito e perigoso. A canalisação da água e as chaminés dos fogões de sala vieram modernamente alterar os dados do problema resolvido pela sabia administração pombalina. Os andaimes de madeira geralmente adoptados para sustentar os soalhos e os tectos ou apodrecem rapidamente ao contacto dos canos da água que envolvem os prédios ou se carbonisam por efeito do calor que lhes comunicam os tubos das chaminés. A elasticidade que se tem em vista obter para evitar os desabamentos procedentes dos terremotos, substituindo os madeiramentos pela pedra, só poderia conseguir-se, sem perigo do apodrecimento ou da carbonisação, empregando nas construcções modernas o ferro em vez do pau. Esta modificação tão fácil, tão econômica, tão urgentemente exigida nos novos sistemas de edificar, o nosso desleixo nacional não nol-a tem deixado ensaiar. De modo que a mesma previsão do perigo discorrida pelo único homem que acordou em Portugal por ocasião do grande tremor de terra com que á natureza benigna aprouve tentar acordar-nos, essa mesma a nossa indolencia e a nossa incuria conseguiu converter dentro de poucos anos em mais uma causa de destruição e de aniquilamento!

Do regímen torrencial dos rios, da arborisação das montanhas, dos cortes transversais das vertentes, da construcção dos tubos de drenagem, das aplicações da draga, dos diques moveis organisados por meio das grandes caixas de ferro fundido, caixas que boiam na água em quanto vasias e que um pequeno vapor munido do um cabo de reboque poderia conduzir aos centos sobre o Tejo para os pontos da margem que conviesse resguardar pelo pequeno espaço de tempo necessário para evitar o perigo, quase momentâneo, das inundações, do emprego finalmente de qualquer dos muitos meios conhecidos para dominar as cheias ou para utilizar as chuvas, ninguém se ocupa--nem o governo que assiste ao espectaculo comodamente sentado nos seus fauteuils de orchestre e aplica á marcha dos sucessos o seu binoculo de dilettanti correcto, imperturbável, nem o parlamento, nem a imprensa, nem finalmente o paiz!


A crise econômica não nos parece ter sido objecto de cuidados mais sérios do que aqueles que cercaram a questão hidráulica. Ou é certo ou não é que a inundação do Tejo e os temporais que concorreram com ela destruíram as casas, devastaram os campos, reduziram povoações inteiras á miséria e á fome. Se isto é uma pura invenção dos repórters sentimentais, o diligente esforço humanitário empregado para arrancar da caridade o remedio supremo do grande mal é uma simples ostentação insensata e ridícula. Se são verdadeiras as informações que os jornais vagamente nos transmitem das desgraças provenientes da inundação do Tejo e do Guadiana, em esse caso a questão não se resolve pela caridade particular mas sim pela assistência publica.

Porque--reflictamos um momento--ou existe esse conjuncto harmônico de instituições solidarias e responsaveis chamado o Estado, ou não existe.

Se não existe, em nome de que principio nos estão aqui a impôr o serviço militar, o exercito, as barreiras, as alfandegas, o funcionalismo e a lista civil?

Se o Estado existe, o que é para ele o lnundado? O Inundado é o productor e é o contribuinte. Agricultando o seu campo, creando o cavalo, engordando o boi, creando o porco, tosquiando a ovelha, pisando a azeitona, podando a cepa, descaseando o sobreiro, o Inundado desde tempos immemoraveis que não faz mais do que estas duas coisas: produz e paga.

Nós outros, habitantes do Chiado, assignantes de S. Carlos, sócios do Gremio e do Club, frequentadores do Martinho e do Passeio Publico, nós, republicanos, regeneradores ou granjolas, comendadores de Cristo e mesários da confraria das Chagas, nós outros não produzimos e por conseguinte, em rigor, também não pagamos.

Funcionnerios públicos, capitalistas, banqueiros, ministros, oradores, poetas líricos, jogadores na bolsa, proprietários de prédios, vendedores de bilhetes de loteria, consumidores insaciaveis de charutos, de copos de cerveja, de dobrada com hervilhas e de bolos de especie,--nós, francamente, não produzimos coisa nenhuma qae signifique dinheiro, isto é, trabalho crystalisado, obra, ou, por outra, valor. Somos apenas--mais ou menos legitimamente--os usufrutuários, os administradores oficiosos ou oficiais do dinheiro dos outros.

Portanto, como acima dissemos, noá outros, como não produzimos, em rigor também não pagamos. Aquilo que alguns supomos pagar é apenas uma parte que se nos deduz em aquilo que recebemos. Quem em última analise vem a pagar é única e simplesmente o Inundado, queremos dizer o productor, o que planta o trigo, o bacelo, a oliveira e o sobro, o que cega a cevada e apanha a bolota, o que carda a ovelha, cria o boi, o cavalo, o porco e o carneiro, o que dá a cortiça, o mel, a cebola, o pão, o vinho, o azeite, o sal, o figo, a amêndoa e as laranjas.

É ele, o Inundado, quem até hoje tem pago o subsidio de S. Carlos, as carruagens dos ministros, os cavalos dos correios de secretaria, as purpuras dos nossos reis, as toilettes das nossas dançarinas, os penachos do nosso exercito, a campainha e o copo de água dos nossos parlamentos, finalmente toda a despeza de administração, de pompa, de luxo e de força, cujo conjuncto constitue a coisa chamada o Estado.

Como foi que o Estado resolveu o Inundado a pagar-lhe as suas contas? O Estado resolveu-o fazendo-lhe o seguinte discurso:

Inundado! Você trabalha como um boi de nora, o que o não impede de ser um infeliz e um estupido. Eu sou o Estado. Proponho-me dar-lhe a felicidade material, intelectual e moral, cujos elementos lhe faltam, e que v. não sabe nem póde constituir sem mim. Você não sabe lêr nem escrever, você não sabe trabalhar, não sabe prevêr, não sabe economisar. Você não nem a escola rural, nem a biblioteca rural, nem a policia rural, nem o banco rural. Você não tem a granja modelo que lhe ensine os novos processos agrícolas e lhe empreste as grandes machinas de trabalho. Você não tem arborisação nos seus montes nem canalisação nos seus rios. Para o dotar com todos esses instrumentos de aperfeiçoamento e de prosperidade, arranjei-lhe eu um sistema, que se chama o sistema monarchico-representativo, com uma carta, um rei, e doze homens, sendo seis ministros e seis correios a cavalo, um parlamento, composto de duas câmaras, uma electiva e outra hereditária. Quer você ou não quer a civilisação? Se a quer, aceite o meu sistema e eleja um deputado que vá á minha camara electiva pedir por boca em seu nome tudo o que você apeteça. Em troca de este enorme serviço que eu lhe presto ha de você resignar-se a pagar-me um imposto anual, que eu cá mandarei cobrar pelo escrivão de fazenda, e cuja importância aplicarei a regalal-o e a divertil-o sumamente com um exercito, uma côrte, um sceptro, varias duzias de repartições publicas, um teatro, um Diario das Câmaras, um arsenal, uma cordoaria, uma imprensa, etc., etc.

O Inundado começou desde então a pagar e o estado começou a dispender. Ha perto de cincoenta anos que dura esta troca de serviços. O Inundado, porém, ainda até hoje não pôde obter nem a escola pratica, nem a biblioteca, nem a granja, nem os novos instrumentos agrícolas, nem as grandes machinas para a lavoura a vapor, nem a arborisação, nem os trabalhos hidráulicos no rio.

Um belo dia, um temporal rebenta, as águas das chuvas, sem florestas que as espongem, sem valas que sangrem a torrente, desabam de chofre no rio, este trasborda por cima de velhos diques em ruína, alaga as povoações, invade as casas, e deixa o Inundado entregue á nudez, á desolação e á fome.

O Inundado pede então a alguém que em seu nome exponha ao Estado a situação em que ele se acha:


Excelentíssimo Estado e meu amigo.--Ha cincoenta anos que para aqui me acho, tendo pago sempre a v. ex.'a quantia que combinámos quando v. ex.'a fez comigo o contrato de eu lhe mandar o imposto para Lisboa e de v. ex.'a me mandar para aqui a civilisação. Até á data de esta nada recebi.

Os deputados que para aí tenho expedido á custa de muita intriga, de muito dinheiro, de muito copo de vinho e de bastantes bordoadas distribuidas com as listas á boca da urna, nada remeteram para cá senão discursos cheios de exclamações e de erros de gramatica. Graças aos efeitos de quarenta anos de eloquência sobre os trabalhos da terra e sobre as obras do rio, este cresceu repentinamente com as últimas chuvas, invadiu-me a casa e levou-me tudo: moveis, roupas, gêneros, ferramentas.

Acho-me na derradeira miséria.

Antigamente, antes do contrato que v. ex.'a fez comigo e a que já aludi, o dinheiro que eu ganhava, em vez de o mandar para Lisboa, entregava-o aqui assim ao morgado, ao capitão-mór, e ao convento. Mas o morgado e o capitão-mór, se por um lado me arrancavam a pele como v. ex.'a hoje faz, por outro lado eram meus amigos. Eram meus compadres, padrinhos dos meus filhos; davam-lhes as brôas e as amêndoas pelas festas do ano, esperavam pelas rendas, punham os varapaus argolados dos seus moços e os de eles próprios ao serviço da nossa causa, quebravam todos os ossos do corpo aos corregedores, aos alcaides, aos portageiros e aos almotacés, quando estes se faziam finos, matavam-nos de quando em quando a creação ou davam-nos chicotadas quando estavam bêbados, mas em seu juízo eram bons homens e tinham sempre as portas e os braços abertos para nos acudirem, para nos protegerem e para nos ajudarem. Os frades resavam,--o que, se não nos fazia bem, também nos não fazia mal; e esta é a diferença que distingue os frades dos seus sucessores, os deputados: o frade rezava, os deputados intrigam. Além de isso, os frades, se diziam asneiras, diziam as pelo menos em latim, o que sempre acho que lhes custaria mais do que dizel-as em portuguez rasteiro e agalegado como me dizem que os deputados fazem. Finalmente os frades, se de ordinário viviam á nossa custa, também nas ocasiões de crise nos permitiam viver á custa de eles, e o caldo da portaria era uma restituição.

Quem até hoje não tem restituido a importância de um vintém nem em dinheiro, nem em caldo, nem em presentes, nem em favores de nenhuma especie é v. ex.'a, meu nobre e ilustre senhor.

Tudo quanto tenho pago a v. ex.'a a titulo de imposto, v. ex.'a o tem gasto na verba recreios: exercito com as suas revistas e as suas paradas; corpo diplomático; côrte; gratificações aos doze homens que representam o governo trotando sobre as pilecas de uns atraz das tipoias dos outros; governadores civis e secretários gerais; desembargadores para Gôa e juízes para os Açores; repartições publicas; arsenais; imprensa nacional; fabrica das cordas; etc.

Portanto, achando-me eu hoje sem real em consequência de uma desgraça de que v. ex.'a tem a principal culpa, quer-me parecer que não serei desarrazoado pedindo-lhe o favor de me abonar para as minhas necessidades mais urgentes uma pequenissima parte das somas com que eu ha cincoenta anos tenho estado a custear uma galhofa para a qual nem sequer ao menos me têm convidado,

de este que é

De v. ex.'a

Humilde súbdito e servo

O Inundado.

A resposta do Estado a estas argumentações e a estas instancias é de tal modo recreativa, que pareceria inventada, se a sua autenticidade não fosse reconhecida, como é, de todo o mundo.

O Estado respondeu:

Meu caro Inundado.--A tua estimada carta veio encontrar-me em uma situação bem critica para te poder servir, como desejava.

Acho-me a braços com a resposta ao discurso da corôa, com a aparição dos granjolas e com a segarrega do Barros e Cunha. Falta-me tempo para me ocupar de ti.

Pedi a sua majestade a Rainha para te abrir uma subscripção. A rainha aceitou gostosa esta incumbência. Vieram a Palácio todos os banqueiros e todos os capitalistas da cidade. Nomearam-se comissões de homens e comissões de senhoras para promover bazares de prendas, concertos de amadores e recitas de curiosos em teu beneficio.

Dizes-me que não tens nada de comer. É pouco. Todavia espero que, com alguma economia, possas de isso mesmo tirar alguns jantares, ainda que simples, com que te alimentes durante este mez e parte do que vem. Sê sóbrio. Um bom caldo, um peixe, um assado, um prato de legumes e meia garrafa de vinho é quanto te deve bastar. Como não tens nada, resigna-te um pouco e abstem-te de champagne e de faisões dourados. Perdeste a casa, a mobília e o fato. Vai para o hotel, enrola-te na tua robe de chambre e não saias por estes dias. Conserva-te no teu quarto, ao fogão, toma grogs e lê romances. Reveste-te de paciência, já que não podes revestir-te de pano piloto, e espera.

Tudo está preparado e em via de execução para te acudir. Eduardo Coelho e Rio de Carvalho escrevem o hymno e estão no segundo moteto. O nosso Luiz de Campos prepara versos. Prepararam egualmente versos o nosso Tomás Ribeiro, o nosso Pinheiro Chagas, o nosso Fernando Caldeira, o nosso Forte Gato, e outros.

É tal o movimento poético e o consumo de rimas que escaceam já os consoantes para rainha; manda-me pelo telégrafo os que aí tiveres disponiveis e mais próprios do alto estilo do que tainha, morrinha, doninha, carapinha, picoinha, espinha, ventoinha, galinha e mezinha. Manda também para Pia os que poderes obter, menos os que pareça conterem alusões irreverentes como enguia, folia, tosquia, letria, azia, mania e bacia.

Cada um ajusta ao pé o patim da caridade e guina para seu lado em arabescos cheios de fantasia e de elegância: está-se em um skating rink de beneficência para te acudir, meu grande maganão.

Além dos que fazem versos e dos que fazem hymnos, ha sujeitos a quem os teus revezes--tão lastimados eles são!--têm feito espigar mazurkas e rebentar polkas... de pura dor.

Entre as modistas tem havido largas discussões para se decidir se a caridade se deve fazer com decote ou com vestido afogado. Para os atos de beneficência diurna têm-se adoptado geralmente os vestidos de meia caridade, de veludo ou casimira, abotoados. Para os rasgos de beneficência nocturna as toilettes são sempre de grande-caridade, isto é: decotes quadrados guarnecidos de renda de Bruxelas, toda a cauda, luvas de dez botões, e diamantes.

É indiscriptivel a animação ferverosa que reina em todos os salões para se tratar de ti. Triplicaram as soirées em este inverno e dança-se todas as noites com o expresso fim de te favorecer. Tocam-se os lanceiros e fazem-se discursos para te obsequiar.

--Ele geme nas vascas da mais horrorosa agonia!... Chaine anglaise, minha senhora!

--Mas nós havemos de arrancal-o das fauces da miséria... Sirva-me um gelado!

--Arrancal-o-hemos, ainda que seja a ferros!... De fructa ou de leite, minha senhora?

--Salvemol-o vivo ou morto!... De leite!

Ás duas horas ceia, volante ou de bufete, serviço quente e frio, menu de Baltresquí.

Um telegrama que chega:--O Inundado está com água pela cinta.

Um sujeito fugindo com um perú assado:--Vou levar-lhe uma boia!

Uma menina gritando:

--Não! Não! não o devo consentir! não consentirei jamais que o coração generoso de aquele que me deu o ser se sacrifique assim, principalmente por um inundado que só está em perigo--da cinta para baixo! Acudam ao papá! Subtraiam-lhe essa boia! Subtraiam-lh'a, que lhe vai fazer mal: ele já comeu uma!

De rasgos de estes poderia citar-te centenas.

Restos de velhas edições de livros, de polkas, de almanacks, que o consumo do publico se recusou a tragar e que jaziam desde tempos remotos nos archivos de família dos respectivos autores, acabam de te ser coasagrados e caém sobre as subscripções abertas para te proteger como bençãos dos gênios incomprehendidos e olvidados.

A mesma infância estudiosa abre nas aulas de instrução primaria subscripções para te acudir, e meninos, que ainda não conseguiram penetrar no quadro de honra como suficientemente fortes em leitura, figuram nas resenhas dos jornais como bemfeitores dos homens.

Não sei realmente, querido Inundado, como poderás agradecer-nos tão reiterados e tão grandes benefícios! Como não sabes fazer mais nada, espero ao menos quo rezes por nós. Compenetra-te bem de quanto nos deves, e não te esqueças nunca, em primeiro logar de nos pagar as decimas, e em segumdo de nos encomendares a Deus em todas as tuas orações de manhã e de tarde para que o Altissimo vele constantemente pelos nossos preciosos e divertidos dias e nos dilate a vida pelos mais longos anos, como desejas e hás mister.

Não te assustes, por quem és, com esse passageiro incidente da água pela cinta. Mantem-te em uma atitude serena e firme. As cheias bolindo-se com elas ainda enchem mais. Ao passo que, abandonadas a si mesmas, as cheias aborrecem-se e esvasiam. Por tanto deixa obrar a natureza. Logo que o tempo enxugue e os terrenos sequem, sossega que irei ver-te. Podes desde já preparar a foguetada, o vivório, e o publico regosijo, para receberes quem é deveras,

Teu amo e protetor

O Estado.

P. S. O bom amigo Luiz de Campos recomenda-se-te muito e manda perguntar-te como gostas mais da caridade, se escripta á latina com c a, ou á grega com c h a.


Diz-se geralmente--e parece-nos útil fixar este boato como um symptoma da época--que sua majestade a rainha fora aconselhada e guiada em todos os tramites da sua intervenção a favor do Inundado por um personagem já hoje eminentemente poderoso, mas ao qual os recentes conselhos a sua majestade vão dar um novo grau de importância culminante e única na governação publica. Será perfeitamente legitima essa importância. Se efetivamente houve um homem suficientemente sagaz para se conservar na sombra e para suggerir a sua majestade a rainha a idéa profunda de aparecer ela, única e exclusivamente, a debelar unma catástrofe publica, esse homem fez aos partidos conservadores em Portugal um servigo incomparável e deu uma prova de pericia e de habilidade que nunca se egualou e que se não póde exceder.

Como se sabe, os partidos conservadores não têm idéas, não podem e não devem tel-as; os que por excepção as produzem cometem um erro fatal e são victimas do seu próprio ato. Em todo o statu quo toda a idéa nova é um rombo. Quem no poder tem idéas, afunde-o. Nos regímens conservadores, como o que vigora em Portugal desde muitos anos, as idéas são erupções revolucionarias extranhas á acção governativa. A missão dos que governam não é lançar na circulação essas idéas, mas sim e unicamente vigiar o sistema, como se vigia a couraça de um monitor em batalha naval, e sempre que uma idéa penetre, rolhar o furo e disciplinar em seguida o elemento novo introduzido a bordo pelo projectil inimigo.

Aos governos conservadores não se pedem por conseguinte idéas: pedem-se expedientes. Expedientes para quê? Para conservar. Como? Por todos os meios que produzam este resultado:--a consolidação do que está.

É de dentro de esta teoria, que encerra toda a sciencia de governar, que nós dizemos: os conselhos a sua majestade a rainha, se alguém efetivamente lhos deu (cremos que sim e diremos já porque) são o ato mais sábio, porque esse ato faz recair no assumpto o expediente mais adequado e mais profícuo.

Se o governo procurasse diretamente estudar e resolver o problema da inundação, que sucederia? A oposição contraditava-o. Na imprensa e na camara os partidos dissidentes discutiriam as medidas ministeriais, controvertel-as-hiam, impugnal-as-hiam com argumentos, com sarcasmos, com insultos. Quem sabe se o governo assim batido tenazmente de bombordo e estibordo não acabaria por meter água, iniciando um simulacro de alguma coisa parecida ainda que remotamente, com uma idéa?!

Que aconteceu, porém, em vez de isso?

Sua majestade a rainha, disse-se, toma a iniciativa de todos os socorros ás victimas da inundação. E sobre esta noticia publicada em grandes letras nos jornais da manhã, o governo foi para a camara, cruzou os braços e esperou corajosamente que a representação nacional se manifestasse. Então a oposição em peso, composta dos srs. Barros e Cunha, Osorio de Vasconcellos e Pinheiro Chagas, pediu a palavra pela boca dos seus oradores.

O sr. Osorio de Vasconcellos disse:--«Partiu de alto a iniciativa; partiu de uma ilustre senhora, de sua majestade a rainha. Pois congratulemo-nos com o paiz inteiro; congratulemo-nos com este sentimento homogêneo de caridade manifestado por todos os cidadãos sem distincção de classe e que veio em alivio e amparo da miséria, que é geral (apoiados) do sofrimento que é grande; das amarguras que são imensas... O nosso paiz foi sempre reconhecido pelos impulsos da caridade... Se porventura do alto do Gólgota o Divino Mestre, etc., etc.»

O sr. Barros e Cunha:--«Mando para a mesa a seguinte proposta que espero seja desde já votada por aclamação: A camara prestando a caridosa iniciativa de que sua majestade a rainha houve por bem usar em beneficio das victimas das inundações a homenagem que lhe deve em nome do povo que representa, resolve que este voto seja lançado na ata das suas sessões, e que uma grande deputação deponha aos pés da augusta princeza o tributo do seu reconhecimento.»

O sr. Pinheiro Chagas, (falando consigo mesmo)--«Trago também aqui uma proposta da mensagem a sua majestade, feita com tanto patriotismo como a de Barros e Cunha e com mais gramatica. Visto, porém, que a camara aprovou a de ele, vou pôr a minha em verso e levo-a para o Gymnasio. Tenho concluído.»

E na camara dos srs. deputados, onde o governo poderia ter sido violentamente e perigosamente acusado pela sua cumplicidade nos efeitos da inundação, os únicos três deputados da oposição que em este dia se achavam na sala não tiveram voz senão para louvar a caridade, para citar o Gólgota e para convidar uma grande comissão a ir depôr nos degraus do sólio os testemunhos mais humildes do reconhecimento popular!

A imprensa toda, unanimemente, confessou que sua majestade a rainha era indubitavelmente um anjo, ao qual todos os noticiaristas deviam permitir-se a liberdade de mexer um pouco nas azas em sinal de gratidão.

Depois da imprensa e da camara dos deputados vieram as corporações todas com o seu óbulo e o seu comunicado aos jornais. Os soldados, os empregados das repartições publicas, os carpinteiros, os serralheiros, os cocheiros, etc. colocaram a sua prosa apologética sobre os voadouros angelicais da santa princeza: versos, hymnos, valsas brilhantes, speechs, mensagens, missivas particulares, desenhos á pena, vivas, bordados a cabelo e a missanga, hurrahs explosivos, troféus emblemáticos e pratos montados com figuras alegóricas, tudo concorreu em esta imensa apoteose.

E, se, depois de tudo isto, o dique de Vallada ficou no estado em que anteriormente estava, o trono dos nossos reis, pelo menos, acha-se mais firme que nunca no amor dos novos.

Confessamos, pois, em vista de todos os factos, que o expediente de resolver a crise aconselhando sua majestade a rainha a intervir pela caridada revela o politico mais hábil, o homem de estado mais profundo que o paiz podia desejar na sua situação presente.


O que nos leva a admitir que sua majestade foi aconselhada por um promotor das conveniências politicas e não guiada por impulsos expontaneos é o exame das pequenas circunstâncias que acompanharam a intervenção da Corôa e nas quais se revela a mão burocrática do conselheiro de estado, mais habituado a manejar algarismos e a redigir programas do que a imitar a graça engenhosa, a poética delicadeza, o fino primor, o tacto subtil, exclusivamente feminino, que assignala os atos nativos de um coração de mulher. em esses atos, quando legítimos e autênticos, ha uma especie de vinco mimoso, de perfume ideal, que os laboratórios oficiais não imitam senão por meio de falsificações baratas e reles.

Por este lado, que já não é o lado politico mas sim o lado estético, o lado artístico, por este lado o vosso anjo da caridade, o anjo que vós, meus senhores, puzestes no vosso andor e passeastes em procissão de popularidade pelo paiz inteiro, tem os defeitos das ingenuas nas companhias de amadores dramáticos em que só representam homens: tem os pés chatos, a cinta grossa, e uma rouca voz de falsete, fingida e miserável.

Por baixo das cândidas vestes do vosso anjo percebem-se os contornos grossos e rijos do um forte modelo masculino. Reparando-se um pouco na alva penugem imaculada das brancas azas em que o sr. Luiz de Campos colocou os seus inspirados versos, reconhece-se com evidencia que essas azas prendem por articulações de couro a espaduas de porta-machado.

Sua majestade a rainha, uma mulher, uma senhora, uma princeza, se vós a não bouvesseis violentado com os vossos conselhos, ela de per si só, teria representado a caridade por modo muito diverso. Guiada simplesmente pelo seu delicado instincto de mulher e pela sua perfeita educação de senhora, ela saberia ser útil sem ser espectaculosa; far-se-hia amar sem se deixar aplaudir; chegaria á dedicação absoluta de toda a sua alma pelos desgraçados e pelos humildes, sem passar por cima da área encarnada dos triumpos de rua, sem transpôr os arcos de murta das glorias de filarmônica, sem se vulgarisar, finalmente, até o ponto de animar os poetas e os jornalistas a fazerem-lhe as mesmas réclames com que se lisongeam as actrizes, tirando imagens sentimentais e sonoras do perfume dos seus cabelos, das pregas dos seus vestidos, da flexibilidade da sua estatura, etc. Houve um folhetinista que chegou pelo desenfreamento do lirismo a comparar sua majestade--a Magdalena!

Nós protestamos contra semelhantes invasões do entusiasmo nos domínios da dignidade pessoal, e negamos á retórica monarchica o direito de lançar ás faces de uma digna mulher que passa levando o seu sceptro pela mão, as mesmas finesas que as bailarinas bonitas mandaram na véspera deitar fora com as camélias murchas.

Este abuso iníquo e grosseiro fostes vós, conselheiros habeis nos manejos políticos mas imperitos nas questões do gosto,--que os promovestes e auctorisastes.

Vós começastes por abusar da vossa influencia no espirito da soberana prefixando a quantia de um conto de reis como verba de subscripção. Quando a miséria é geral, quando as amarguras são imensas, como disse o próprio sr. Osorio de Vasconcellos, quando dos poderes públicos não baixa uma só medida para acudir a tanto infortúnio, quando todo o remedio para tamanhos males se confia da liberalidade de uma rainha, como quereis vós que se acredite que essa rainha, em uma tal conjuntura, se tenha posto a contar pelos seus dedos magnânimos até achar o numero de libras que compense a miséria geral e a amargura imensa? Por que vibrações de piedade, por que processo de sentimento, por que logica de consternação, por que inducção de pezares, quereis vós que o alanceado coração de sua majestade tenha chegado de dor em dor, de lagrima em lagrima, á conta, que só vós podieis ter feito, de duzentas e vinte e duas libras em ouro e dez tostões em prata? Esta conta deplorável é de um estalajadeiro ou de um cambista. Uma princeza, não tendo aprendido pelas necessidades próprias qual é o valor do dinheiro, não sabe contal-o para as necessidades dos outros. Se vós lhe tivesseis dito simplesmente que para acudir a uma catástrofe nacional não havia nem uma só disposição da sciencia ou da lei e que todo o remedio para essa desgraça publica se esperava da influencia regia, a rainha, entregue ao impulso instinctivo do seu coração, não deixaria de contribuir para esse fim de um modo ilimitado, sacrificando-se inteiramente e incondicionalmente á fatalidade da fome como teria de se sacrificar á fatalidade da guerra.

Depois não vos ocorreu que tudo quanto se dispendesse em pompas se cerceava em socorros no producto dos espectaculos em beneficio das victimas da inundação. Sendo esses espectaculos dirigidos por uma senhora esqueceu-vos um ponto essencial que a toda a mulher ocorreria: a prescripção da toilette. Como sois homens públicos e viveis permanentemente na ostentação e no aparato vós não podeis conceber quanto ha de inoportuno, de indelicado, de ofensivo do bom gosto no aspecto de senhoras que se reunem para um fim de caridade cobertas de joias como para um certame de luxo. Se fosse efetivamente uma senhora quem tivesse a direcção de esses atos de filantropia, as joias teriam sido abolidas, o preço das luvas de baile teria sido aplicado á subscripção para os pobres, e nas mãos nuas um anel de ferro mandado fazer pela comissão ornaria toda a pessoa que quizesse aceitá-lo em troca de um anel de ouro oferecido aos inundados. Em vez dos ramilhetes, de 15 ou 20 libras, ofertados aos actores, aos músicos e aos poetas, uma mulher economisaria em favor dos pobres essa luxuosa despesa e manifestaria o seu agradecimento por um modo extremamente mais econômico e mais expressivo como seria por exemplo, o oferecimento de uma pequena fotografia de sua majestade com uma simples dedicatória autografa.


Além da comissão de socorros presidida nominalmente por sua majestade a rainha a única corporação que em Portugal se ocupou do problema das inundações foi a de suas excelências os srs. bispos.

Apenas constou que alguns dos nossos rios tinham trasbordado, em todos os bispados do reino se fizeram preces implorando da divina misericórdia que os rios voltassem aos seus leitos.

Este recurso piedoso lembra-nos que seria vantajoso para o fim de pôr em harmonia a meteorologia e a religião, criar barômetros especiais dedicados ás nossas circumscripções eclesiásticas.

Estes barômetros, que os srs. parochos colocariam nas sacristias ao lado das folhinhas em que se prescreve a cor das vestimentas, teriam as indicações precisas para constituirem um formulário perpetuo sem o incomodo da intervenção dos srs. bispos por via das suas pastorais. Bastaria que os aneroides ad usum ecclesiae fossem um pouco mais desenvolvidos na indicação dos resultados da pressão atmosférica sobre os aspectos do tempo. Por exemplo:--78, bom tempo fixo, faça preces a pedir chuva;--74 grande chuva, faça preces a pedir sol;--73 tempestade, saia procissão e faça preces a pedir bom tempo.

em este caso os observatórios astronômicos e meteorologicos poderão ser substituidos com vantagem pelas cabaças rotatórias dos Kalmuks ou pelos moinhos do Tibet. As cabaças, cheias de orações e agitadas polo vento, produzem a adoração perene. Os moinhos são uma fabrica mecânica de preces continuas, de moagens devotas.

É preciso que em este ponto nos decidamos por uma das duas:--pela meteorologia ou pela prece. Se os estados atmosféricos se determinam nos templos é absolutamente inutil estudal-os nos observatórios. As duas coisas juntas refutam-se e destroem-se. Ou bem cabeças que pensem ou bem cabaças que rodem. Decidam!


O que escreve estas linhas, tendo saído do Porto no dia 8 de janeiro, foi surpreendido pela tempestade e embargado pelas cheias, não podendo chegar a Lisboa senão oito dias depois de aquele em que partira do Porto. Foram seus companheiros de viagem alguns mancebos--quinze ou vinte--que emigravam para o Brasil e vinham do Minho tomar em Lisboa um dos paquetes da Mala Inglesa. Nas primeiras estações próximas de Gaya esses rapazes, descorados, surprehendidos, vestidos de cotim, tendo pendente do pescoço por um cordel a chave da caixa, apeavam e abraçavam nas gares os seus parentes que aí tinham ido abençoal-os, dar-lhes os últimos conselhos e as últimas lagrimas. Havia um grande alarido de mulheres que choravam. Vozes soluçadas diziam: «Adeus! adeus talvez para sempre!» Abraços tenazes parecia não poderem deslaçar-se dos derradeiros abraços. Tangia a sineta para largar a locomotiva. Passageiros alegres, indiferentes, debruçados das portinholas, intervinham nos excessos da ternura, nas crises da saudade, com palavras recreativas, com comentários facetos, com exclamações punidoras. Um aldeão já velho, magro, alto, beijava um pequeno emigrante, talvez seu neto, que se lhe abraçara ao pescoço; um jocoso soldado, trazendo a fardeta desabotoada e uma borracha ao tiracolo, gritou-lhe da carroagem:--«Ó labrego, larga o rapaz!» e acrescentou sentenciosamente este conceito:--«Beijos de homens são coices de burro!» O velho teve a coragem de sorrir com uma visagem dolorosa, de quem fingia resignar-se, e metendo o rapaz na carroagem, á pressa, em voz baixa, envergonhada: «Deus Nosso Senhor te abençôe! Deus Nosso Senhor te abençôe e te dê boa sorte!»

O comboio batido pelas rajadas do vento e pelas torrentes da chuva não pôde, em consequência dos rombos da estrada, passar de Pombal, onde chegou ás duas horas da noite. Os pequenos aldeões, trespassados de frio e talvez de fome, com as golas das jaquetas levantadas, os pés molhados nas suas chinelas de coiro cru, as mãos nas algibeiras das calças, adormeceram nas carroagens da terceira classe ou nas bancadas da estação. O comboio demorou-se aí três ou quatro dias. Os emigrados, perdidos no meio da indiferença, desapareceram. Quando nós, no primeiro dia em que a estrada se tornou praticável, proseguimos de Coimbra, onde ficaramos, até Santarém, não encontramos nenhum dos nossos pequenos companheiros. É provável que tivessem continuado a pé, sob a tempestade, até chegarem a Lisboa, ao encontro da Mala Real Inglesa. Esses pequenos, obscuros, miseráveis passageiros, troçados, escarnecidos na sua dor, cobertos de lagrimas e de lama nas suas esperanças de fortuna, eram os embriões da riqueza portuguesa, eram o brasileiro ao deixar a pátria.

Outro companheiro de esta nossa viagem através das inundações era um velho de sessenta e cinco a setenta anos. Traz apertado ao queixo, por baixo do chapéu, um lenço de seda e ás costas uma manta couvre-pieds, que ele abrocha no peito com uns fechos de prata e que lhe cae por traz até os calcanhares. Esta manta, de pano baetão, tem estampada a figura de um tigre, o que dá ao nosso companheiro, visto pelas costas, com o seu lenço na cabeça, os seus socós, o seu chapéu de chuva, o aspecto de um Átila domesticado e doente. Viaja em companhia de uma sua prima, mais velha que ele, e de um pão de ló mais volumoso do que os dois primos juntos.

Este sujeito conferiu-nos a honra de nos dar a provar o seu pão de ló e de nos contar a sua historia. Vinha de Felgueiras, terra da sua naturalidade, e trazia o pão de ló, que as chuvas avariaram, para um seu amigo, o sr. Azevedo, farmacêutico na rua larga de S. Roque. Fora em criança para o Brasil, reunira á força de trabalho e de economia uma modesta fortuna. Já na velhice liquidara todo o seu capital, voltara para Felgueiras, reedificara a pequena casa em que tinham morrido seus pais, adquirira algumas terras, empregara o seu capital na fundação de uma lavoura; comprara juntas de bois, assoldadara moços, metera operários e jornaleiros, plantara milhares de carvalhos e de castanheiros. As potencias eleitorais de Felgueiras convidaram-o em nome de dois ou três partidos do sitio a intervir com a sua influencia na politica local. Ele recusara-se. Queria acabar em paz os seus dias, contentando-se com a modesta gloria de restituir á terra em que nascera toda a sua fortuna convertida na verdadeira e única riqueza nacional--a fertilisação do solo e o desenvolvimento do trabalho. Desde esse dia os partidos confederados de Felgueiras começaram a hostilisal-o como o inimigo comum de todos os partidos, o qual inimigo é em toda a parte--a imparcialidade. Enredaram-o em pequenas intrigas, empeceram-o, desgostaram-o em todos os seus projectos, em todas as suas aspirações. Ele, como velho trabalhador macerado, resistira. Um golpe inesperado acabara, porém, de o ferir no coração: dias antes da nossa viagem, na véspera do Natal, uma chusma de gatunos, arregimentados para esse fim, invadira a sua nascente propriedade e destruira inteiramente todas as suas árvores. Ele querelara, e vinha para Lisboa esperar que se lhe fizesse justiça. «Exijo--dizia ele--que me paguem indemnisação na medida da perda que esta ofensa representa para um velho como eu, a quem pouco tempo já resta para esperar que as árvores cresçam. Venho para Lisboa até que os tribunais decidam a minha sorte. Se não me fizerem justiça, irei falar com o rei, e dir-lhe-hei: Meu senhor! Não tendo achado na pátria meios de enriquecer, fui procural-os em um paiz extranho. De regresso a Portugal no último quartel da vida, repatriando-me com todo o dinheiro que pude adquirir e que vinha dispender entre os meus compatriotas, acho-me aqui vilipendiado, roubado e escarnecido. Lavrador por vocação e por velho geito adquirido, parto hoje pelo caminho de ferro para França, e plantarei a minha horta em essa terra estimável, onde os homens não têm rei nem os campos têm muros mas onde a nação da justiça baixou já dos domínios da inteligência até penetrar nos costumes e ter a sua encarnação nas leis. Sirva-se portanto vossa majestade abater o meu nome no seu rol e contar com um súbdito de menos[1].»

[Nota 1: Textual.]

Este homem representava a última faze da vida em que iam entrar os pequenos emigrados que perdemos de vista em Pombal. Aqueles eram o brasileiro ao partir; este era o brasileiro ao chegar.

Entre aquela infância despresada e esta velhice desprotegida, está o portuguez residindo e trabalhando no Brasil. Lá, esquecido do que passou na infância, despreocupado do que o espera na velhice, o portuguez desenvolve, como uma enfermidade nostálgica, o mais ardente patriotismo. Nas suas alucinações de exilado a pátria aparece-lhe deslumbrante de todos os prestígios com que a saudade e o amor aureolam os seus ídolos. Assim como ele próprio se aperfeiçôa em cada dia pelo trabalho, imagina que a pátria se desenvolve proporcionalmente pelo progresso, e mede pelo esforço de ele, muitas vezes sublime e heroico, o empenho com que estão concorrendo para a civilisação no paiz os seus homens de estado, os seus políticos, os seus industriais, os seus escritores e os seus artistas. Á similhança da colonia de que ele faz parte, supõe a pátria um grande todo confederado e harmônico com interesses solidários, com intuitos comuns, com fins determinados, tendo ideias, tendo princípios, tendo sentimentos, sendo capaz de paixões profundas, de dedicações fortes, de sacrifícios ilimitados. E tem pela pátria os mesmos affectos e as mesmas dedicações de que a supõe suscetível.

Assim é que, chegando ao Rio de Janeiro a noticia das nossas inundações a colonia portuguesa principia a mandar para a metrópole milhares de libras por cada paquete.

Os rios cahiram nos respectivos álveos, as terras enxugaram, as sementeiras começam a crescer, a lembrança da catástrofe principia a dissipar-se, e o dinheiro das subscripções do Brasil continua a chegar. Dentro de pouco tempo a comissão portuguesa de socorros aos inundados não saberá o destino que ha de dar ao dinheiro que amontôa.

As crises do trabalho subsequentes ás inundações são transitórias e tão rápidas como as próprias inundações. Desde que a inundação cessa, o trabalho restabelece-se nas suas condições normais. Os estragos causados pelas cheias não affectam os trabalhadores e os pobres, affectam unicamente os proprietários. Ora estes poderiam aceitar um empréstimo proposto pelo governo, mas não podem receber um donativo feito pela caridade. Portanto, desde que o governo não acudiu aos pobres em tempo oportuno nem auxiliou os proprietários pelo meio conveniente, todo o dinheiro acumulado pela caridade é inutil a todos: aos pobres porque não tem a oportunidade do tempo em quê, e aos ricos porque não tem a oportunidade do modo como.

É por estas rasões que supomos fazer um serviço á comissão de socorros suggerindo-lhe um meio de aplicar uma parte das somas com que se acha a braços. Este meio é: dar em nome do paiz uma satisfação de honra aos portuguezes residentes no Brasil--1.° indemnisando os emigrantes minhotos sahidos do Porto nos comboios dos dias 7 e 8 de janeiro pelos prejuízos provenientes de não haverem chegado a Lisboa a tempo de embarcarem nos paquetes de 8 e 10 do mesmo mez; 2.° fundando em Felgueiras uma policia rural que empeça a população indígena de destruir as propriedades fundadas pelos emigrados que chegam, por isso que na província do Minho, de que principalmente procedem os portuguezes residentes no Brasil, os únicos estragos recentes de que temos noticia e que acima referimos, procedem, não das inundações dos rios, mas da indisciplina dos homens.


Para servir de complemento á historia das inundações portuguezas, eis o que sucedeu no Minho, junto de Vila Nova de Famalicão, com um pequeno riacho obscuro que ali passa.

Havia-se ultimamente deliberado dotar a aludida corrente com o adminiculo de uma ponte. Como esta ponte, além de uma obra fluvial, era também um viaducto entre duas colinas e um atalho entre dois caminhos, todos os grandes proprietários da região em que passava o ribeiro pretenderam ter a ponte á sua respectiva porta. em este sentido ferveram os pedidos, os empenhos, as intrigas, as ameaças, as pressões dos votos, todos os meios finalmente que em Portugal movem e removem a tendencia das idéas, a direcção dos princípios, os planos das estradas e os projectos das pontes.

A obra fez-se finalmente sob a acção de essas influencias e, como é costume, em satisfação do empenho mais preponderante. Era no verão, e tinha secado o ribeiro. Vieram em este inverno os grandes temporais e as copiosas chuvas, o ribeiro encheu, trasbordou, correu pelos campos e pelos caminhos, passou por toda a parte, somente não passou--por baixo da ponte!

Enviamos os nossos parabéns aos habitantes de Famalicão. A sua ponte é verdade que não representa completamente uma ponte, mas representa um simbolo monumental, que os habitantes não procurarão para atravessar o ribeiro, mas que todos os extrangeiros, todos os historiadores e todos os filósofos irão ver com admiração e respeito para se compenetrarem do legitimo espirito da politica e da administração na presente fase da civilisação portuguesa.


Contam os periódicos que no dia de Natal sua majestade el-rei se dignara de brindar magnanimamente os soldados da sua real guarda, oferecendo-lhes em Palácio um banquete composto das iguarias mais finas e mais preciosas, tais como sopa de massa, boi cosido com chouriço, carne guisada com batatas e laranjas.

No momento em que os briosos filhos de Marte, coroados com os louros da guerra e com as rosas da paz, libavam as taças da Vitória, nas quais, a um gesto da regia munificência o doutor roxo se repartira e prodigalisára na razão de dois decilitros por praça, o sr. capitão da companhia, penetrando na sala do festim e impondo silencio aos ditirambos, ás canções bachicas e aos hymnos bélicos que o aspecto tão anachreontico quanto marcial da carne guisada com batatas jamais deixa de influir em mentes inflamadas e em ânimos generosos, proclamou de esta arte:

«Soldados! O príncipe, cujo penacho branco vós tendes visto constantemente á vossa frente, conduzindo-nos ao fogo e guiando-vos ás victórias, o príncipe cuja espada invencível vós tendes visto sempre no meio de vós, já relampagueando intemerata ao sol das batalhas, já embebendo-se sedenta no sangue inimigo, o príncipe, generoso e magnânimo, em este dia consagrado ao efêmero repouso dos acampamentos, convoca a este festim guerreiro os seus amados companheiros de armas. Uma coisa de que sua real majestade jamais se póde esquecer é a maneira como vos tem visto pelejar! Porque é mister dizer-vol-o: no maior ardor dos combates, no próprio momento em que mais absorto ele parece no afan de retalhar em postas os exércitos inimigos, nunca o príncipe vos perdeu de seu real olho!

«Tudo ele viu, e nada do que obrastes lhe é oculto.

«Viu-vos caminhar avante para as hostes contrarias! Viu-vos quando, no meio do estrondo e do fumo das descargas, tomastes as bandeiras e os estandartes do outro campo! Viu-vos quando á chegada fatal da maldita cavalaria inimiga, formastes quadrado e a esperastes impavidamente e a pé firme, no posto da honra! Viu-vos depois cair a um por um feridos pelo peito como heróis! Viu-vos morder o pó! Viu-vos finalmente exhalar o último suspiro, a vós todos, desde o primeiro ao último, até nada mais se ver no logar onde estaveis senão um monte de cadáveres abraçados a um monte de bandeiras! Foi ainda o príncipe, piedoso e grande, quem, percorrendo o campo no dia seguinte á batalha, recolheu e enfrascou as vossas cinzas, restituindo-as ele próprio ás vossas viúvas, e dizendo-lhes entre suspiros e lagrimas: «Em cada um de esses frascos, marcados com o numero da praça e da companhia, encontrareis uma pitada de tudo quanto vos resta de esse punhado de bravos!»

«Foi depois de todas essas provações--tão árduas!--que sua majestade deliberou reunir-vos em este banquete sumptuoso.

«Soldados! em testemunho de agradecimento a uma tão manifesta prova de consideração e de amor, peço-vos que ergais as vossas taças, de dois decilitros cada, e que, antes de haurirdes o falerno de Torres que elas encerram, me acompanheis nos vivas que passo a entoar e com os quais dou por finda esta alocução marcial. Viva sua majestade el-rei! Viva a real família! Viva a carta constitucional da monarchia!»

Nenhum soldado respondeu em discurso, como pede a etiqueta dos toasts, porque nenhum dispunha da fortaleza cerebral necessária para criticar os seus próprios sentimentos, para os discernir e para os coordenar em palavras. De modo que se contentaram em dar vivas e beber, coçando nas cabeças essa especie de comichão produzida por todo o rude encontro de idéas contradictorias e confusas.

Expressos sob a fórma literária, os sentimentos que o soldado revelou sob a fórma de coceira dariam o seguinte discurso:

«Capitão! Ha alguns anos que eu fui agarrado á força na minha terra para vir para a tropa. A minha primeira idéa foi livrar-me comendo um dedo. Affiançaram-me, porém, que poderia egualmente livrar-me dizendo que tinha queixa de peito. Assim o disse, mas não me acreditaram, e cá fiquei ás ordens.

«Desde que jurei bandeiras é raro o dia em que o capitão, o major, o tenente-coronel ou o próprio comandante me não falam do meu ardor mavórcio, da minha firme e tremenda atitude diante do inimigo e dos meus louros cegados com a espada nos campos da batalha.

«Eu devo dizer ao capitão, com toda a franqueza, que desde que estou na militança nunca tive ardôr mavórcio nem de outra qualquer especie, a não ser que o capitão se refira ao que senti nas orelhas quando na recruta me puchava por elas o sargento instructor. Se é de este ardôr que se trata, tive-o, e se o sargento o não teve ainda, ha de tel-o também se, quando eu largar a farda, ele continuar a conservar as orelhas, que eu, como livre paisano, lhe hei de então estender conscienciosamente desde a porta do quartel até á entrada da minha minha freguezia.

«Enquanto ao inimigo declaro que o não conheço, e muito obrigado ficaria ao capitão se tivesse a bondade de mo mostrar para que eu pudesse desenferrujar estas inúteis pernas aplicando-lhe sem perigo de ofender a disciplina alguns dos pontapés que em observância da mesma disciplina não tenho até hoje feito senão receber.

«Quem é o inimigo? Não farão favor de me responder:--quem é o inimigo?

«Julguei algum tempo que fosse um sujeito de casaco cor de pinhão, de gola levantada para cima, que ás vezes se metia comigo nas guardas. Tinha resolvido atacal-o, quando vim a saber que era um simples curioso das artes da guerra.

«Vejo todavia que não fazemos mais do que preparar-nos constantemente para resistir ao inimigo, o qual parece não implicar com mais ninguém senão conosco. Pelo menos ninguém o teme senão a tropa.

«Ha famílias, compostas unicamente de mulheres, que dormem sósinhas nas suas casas sem medo a ninguém; no quartel, cheio de homens, cada um dos quais tem uma espingarda e uma baioneta, é preciso pôr sentinelas a todas as portas, velam uns enquanto os outros dormem, e ha sempre gente armada até aos dentes, com os olhos arregalados nas trevas da noite, para que não nos surprehenda o inimigo!--Que é sempre com o que lhe dão:--com o inimigo!

«Enquanto aos loiros segados nos campos das batalhas cumpre-me egualmente fazer sentir ao capitão que desde que estou no exercito ainda não seguei.

«A minha vida tem consistido única e exclusivamente em deitar todas as manhãs umas correias ás costas e em pôr uma tocha ao hombro para marchar ao som da musica ou para passear de sentinela á porta dos edifícios públicos.

«Pelo que diz respeito ao banquete opíparo para que sua real majestade me convidou, agradeço-o muito, confesso-me profundamente sensível aos atrativos da real carne guizada e das fulgidas batatas da corôa. Todavia não posso esconder que o que principalmente me lisongeava seria que me fizessem a especial mercê de me mandar embora.

«Apesar da excelência das iguarias preciosas de que consta este banquete olímpico, sou forçado a dizer que por mais de uma vez a esta meza o bocado se me tem enfardelado na boca sem querer ir para baixo. Porque? Porque me sobe do coração e me aperta a guela a lembrança da minha aldeia, da alegre festa do Natal, em este dia, ao pé do lar, no casal da minha velha... Chamo-lhe eu a minha velha! O capitão faz idéa... Falo-lhe da minha mãe.

«Ontem matava ela o porco, ou antes era eu que lho matava. Hoje tinhamos lombo assado á fogueira do lar, em um espeto de loureiro. Que lombo aquele, capitão! Com que vontade que eu principiava a jantar outra vez se fosse de esse lombo que me dessem! E depois não era o rei que me convidava a mim,--o capitão ha de comprehender o efeito moral de esta diferença--era eu que poderia convidar o rei a comer no meu casal, de aquilo que era meu, que eu próprio ganhara ou ajudara a ganhar com o meu trabalho, com a minha força, com o meu préstimo! Na minha aldeia eu era, mais ou menos, um dono de casa, um trabalhador, um cidadão, um homem. E dentro do meu quinteiro, como o meu pequeno rebanho e com o meu cajado, o rei era eu!

«Aqui, que diabo! Aqui, francamente, capitão, que raio de diabo!

«Aqui, que sou eu? Um monte de cisco, um molho de palha, um estafermo, um espantalho de botões de ouro fingido, de espingarda descarregada e de patrona vasia, para meter medo a outro estafermo, a outro espantalho, a outra abantesma de espingarda egualmente descarregada e de patrona egualmente vasia, o qual outro se chama o inimigo!

«Dizem qae também sirvo para--manter a ordem. A ordem que eu mantenho é outra historia da carocha como a do inimigo que eu combato.

«Na minha aldeia, onde nunca de memoria de homem apareceu o bico de uma baioneta, todos vivem em harmonia e em paz. Aqui, onde a ordem é mantida por dez ou doze regimentos, ha desordens todos os dias e todos os anos ha revoltas. Revoltas de quem, meu capitão?--Dos sargentos!

«Ora, se eu não sirvo para nada, se o inimigo, sendo outro que tal como eu, não serve também para coisa nenhuma, não acha o capitão, que o mais justo seria mandar-nos para nossas casas a ambos--ao inimigo e a mim?

«Se como o capitão afirma, el-rei é meu amigo e pretende obsequiar-me, que sua real majestade cesse de esbanjar-se nos acepipes com que me cumula! Que me permita estar na minha casa, como sua majestade está na de ele com sua excelentíssima esposa e com os seus interessantes filhos! Eu lhe protesto que não só dispensarei todos os seus favores, mas que poderei ainda fazer-lhe alguns, e me tornarei um cidadão independente, serviçal e útil, em vez de me desfalecer para aqui, dentro de este uniforme, coberto por esta barretina, inundado de ociosidade, comido de tédio[2], de nojo de mim mesmo, de todas as más moléstias da alma e do corpo, perdido para o bem dos outros e não prognosticando grande coisa senão para o mal de mim mesmo. Nada mais acrescento porque está a cair o quarto e tenho de me ir deitar ao inimigo,--passeiando de sentinela á porta de palácio.»

[Nota 2: No dia em que estas linhas foram escritas suicidavam-se dois soldados, um de infanteria n.° 1, em Belém, outro de caçadores n.° 10, em Setubal.]

Depois de coçado este discurso na cabeça dos soldados, terminou o banquete, retirando-se todos os convivas profundamente penhorados pela excelência do serviço e pelas delicadas maneiras do sr. capitão.


Referem os jornais que a Academia Real das Ciências celebrará no mez de março do futuro ano de 1879 a festa do primeiro centenário da sua fundação.

A primeira das rasões porque folgamos com esta noticia e que se inicia em Portugal uma tendencia nova no espirito das sociedades modernas:--a tendencia a reformar o calendário, substituindo as efemérides eclesiásticas pelas taboas históricas.

Essa tendencia revela um progresso.

A igreja tem, certamente, datas memoraveis que a civilisação ha de manter entre as grandes épocas da humanidade. Mas essas datas, por mais gloriosas que sejam, não bastam para prehencher os fastos da humanidade e para pautar o culto devido á lembrança dos grandes factos e á memoria dos grandes homens.

Se a igreja tem os seus santos, os seus martyres, os seus doutores, a liberdade, a sciencia, o trabalho, a arte, têm também os seus, e a gratidão humana não deve menos aos segundos do que aos primeiros. O dia de S. Bernardino, a 20 de maio, é também o dia de Christovão Colombo. O dia de S. Luciano, a 8 de janeiro, é egualmente o dia Galileu. O dia 5 de abril é o de Santo Adriano e é o de Danton e de Camille Desmoulins. O dia 23 do mesmo mez é o aniversario do nascimento de S. Jorge e é também o da morte de Shakespeare e de Cervantes.

Nem toda a gente sabe, de pronto, sem consultar a coleção dos bolandistas ou o Flos Sanctorum o que foram precisamente para o mundo e para Deus, Bernardino, Adriano ou Luciano. Ninguém todavia ignora o que a humanidade deve a Colombo, a Galileu, a Danton e a Shakespeare.

Depois a circumstancia de ir para o céu por uma decisão dos concílios nem sempre equivale a haver deixado na terra um exemplo que fortifique as almas para servirem ao mundo ou para servirem a Deus.

Temos por exemplo que, segundo S. Lucas, capítulo XXII, versículo 61, S. Pedro, convicto da divindade de Jesus, o renega por três vezes no tribunal de Caifás. No tribunal da Inquisição, diante da fogueira que o vai devorar se não renegar o seu livro, Giordano Bruno prefere morrer a trahir a verdade. S. Pedro fundou a igreja christã; Giordano Bruno fundou uma nova teoria do Universo. Um é adorado como santo; o outro é condemnado como hereje. E todavia é com Bruno e não é com Pedro que todos nós, filhos do século ou filhos da religião, temos que aprender como se sustenta uma convicção ou como se defende uma crença.

A iniciativa da Academia contribuirá poderosamente, de certo, para fazer entrar nos costumes a fecunda lição aliada ao culto dos grandes homens e á comemoração dos grandes feitos, ceremonias destinadas a tornarem-se as festas nacionais de todos os povos civilisados.

Ao centenário da Academia suceder-se-ha sem dúvida o do apostolo da nacionalidade portuguesa Camões, e o do mártir da liberdade de pensamento Damião de Goes.


A segunda rasão porque nos regosija a noticia que registamos é que a celebração do jubileu acadêmico, pedindo a publicação de uma historia de aquele instituto, virá por meio de esse documento recordar o papel brilhantíssimo que teve na historia das idéas em Portugal essa corporação scientifica, e chamar talvez alguns dos atuais acadêmicos a reatarem a tradição gloriosa de aqueles que os precederam na direcção intelectual do paiz.

A Academia Real das Ciências foi o foco da revolução e o berço da moderna liberdade em Portugal.

Em um excelente livro do sr. Teófilo Braga, recentemente publicado--Bocage, sua vida e época literária--encontram-se os mais preciosos documentos para a nossa moderna historia literária, documentos até hoje ineditos e pacientemente coligidos por aquele eminente escritor, em cujas obras, as mais eruditas que em Portugal se têm feito, o publico não aprendeu ainda senão a calumniar o auctor. Entre esses documentos tirados a lume pelo sr. Teófilo Braga, acham-se as mais curiosas revelações para a historia dos nossos primeiros acadêmicos.

O duque de Lafões, o abbade José Correia da Serra, Joaquim José Ferreira Gordo, Antônio Pereira de Figueiredo, insignes na filosofia e nas ciências naturais, conhecidos e respeitados na Europa, estavam denunciados ao governo como jacobinos e eram espionados e perseguidos pela policia sob a direcção do intendente Pina Manique, o qual nas suas contas para as secretarias, manuscritos conservados na Torre do Tombo, por diferentes vezes se refere aos aludidos acadêmicos, acusando-os como sectários das idéas da Revolução francesa, relacionados com os homens da Convenção, iniciadores do movimento liberal em Portugal. A policia envolve-os na mesma suspeição com os livreiros franceses residentes em Lisboa, com os addidos á legação de França, com os frequentadores de botequins que se atrevem a ostentar nas tampas das suas caixas de rapé a figura da liberdade, com os populares finalmente que em certa noite vão debaixo das próprias janelas do paço entoar a canção do Ça-ira.

Os cabeças de este movimento de revolta contra o despotismo monarchico-católico são designados pelo intendente Manique com o nome genérico, ainda hoje em voga, de filósofos modernos. Os livros dirigidos de França á Academia sob o nome do duque de Lafões são sequestrados na alfandega.

A publicação de qualquer escrito revolucionário por parte da Academia é impossível sob a espionagem de Manique, mas a adhesão de esta companhia ás idéas francesas é manifesta em muitas passagens dos registros policiais.

«Acha-se em esta corte--diz o intendente Manique--nas casas da Academia das ciências, ao Poço dos Negros, hospedado, segundo me dizem pelo abbade Correia, Broussonet, que foi medico de profissão em Paris, e depois secretario de Necar (É assim que Manique escreve o nome de Necker) e aquele que se fez marcar quando na sessão da convenção Nacional, de que era também deputado, continuou o discurso que o sobredito Necar não acabou de recitar por lhe dar no meio de este ato um deliquo; e ainda mais conhecido por ser um de aqueles sanguinários do partido de Robespierre na Convenção. Pela morte que este assassino sofreu, fugiu aquele e aqui foi acolhido e introduzido ao duque de Lafões na qualidade de agricultor, e hospedado nas casas da Academia das Ciências, de onde frequenta as casas do sobredito duque e do abbade Correia que é amigo mui particular do ministro e cônsul da America do Norte e dos mais jacobinos que aqui se acham e de que tenha dado parte a v. ex.ª, e reputado por pedreiro livre.»

Eguaes acusações pesam sobre Ferreira Gordo e sobre o auctor da Recreação Philosophica o Padre Teodoro de Almeida, «com o qual, acrescenta Manique, o já aludido Broussonet fica algumas vezes na casa do Espirito Santo de Lisboa.»

A Academia encerrava pois no seu grêmio o fermento da revolução, levedada mais tarde em 1820, e da qual procedeu a reforma das nossas instituições em 1834 e a liberdade subsequente.

A missão da Academia em Portugal não pode ainda hoje ser senão a mesma que era no fim do século passado.

Não é no estado de indiferença, de egoismo e de ignorância em que ainda hoje se acha o espirito portuguez que as Academias podem assumir, como queria Proudhon, a funcção moderadora dos trabalhos do pensamento e das creações da arte.

A intervenção das academias como elemento oficial e conservador pode ser útil e salutar em França ou em Hispanha, onde a temeridade impaciente e indisciplinada dos escritores revolucionários, actuando constantemente na opinião, pode perturbar a lei da continuidade histórica e lançar a sociedade na anarchia. Aí compete ás academias salvaguardar a ordem pelo ascendente moral.

Em Portugal, porém, onde a revolução de modo algum ameaça partir da circumferencia para o centro movida pelas tendencias progressivas e invasoras dos espíritos, é absolutamente preciso, para que nos possamos considerar uma nação, que a revolução parta do centro para a periferia, que seja a Academia quem a enuncie e quem a propague, acolhendo no seu grêmio as inteligencias mais avançadas, discutindo os problemas mais vivos da filosofia, aclarando todas as questões relativas aos máximos interesses do espirito, á religião, á politica, á estética, implantando finalmente a revolução na esfera intelectual para que de aí ela penetre nos costumes e se infunda nas instituições.

Se o desempenho de este papel, que lhe está marcado pela sua tradição, é incompativel com as ligações existentes entre a Academia, presidida pelo chefe do Estado, e o mesmo Estado, o que á Academia compete fazer é libertar-se de essa dependência e constituir-se em corporação livre. O poder espiritual, de que ela é a encarnação literária, não lhe procede de ser a hngida do Estado mas sim a da sciencia.

Subsidiada pelos governos ou não subsidiada por eles, estabelecida em um palácio ou refugiada em um sótão, recrutando os seus membros entre os invalidos da popularidade ou entre os dispersos batalhadores vigorosos da controvérsia moderna, separando-se da sua tradição gloriosa, ou sendo-lhe fiel, a Academia acha-se destinada a ser de estas duas coisas uma:--ou a força dirigente do futuro social, a cabeça do paiz, ou uma excrecência aparatosa, um órgão atrofiado e inutil á civilisação.


Sendo os homens que escrevem ordinariamente superiores aos homens que lêem, a funcção da publicidade é predominar nos espíritos--ou seja lisonjeando-os, ou seja combatendo-os. Toda a obra literária dá um de esses resultados; ou se adapta ás opiniões existentes e as consolida e reforça ou reage sobre elas e as decompõe. Toda a literatura ou é conservadora ou é revolucionaria. Queremos dizer: ou transige passivamente com as condições do meio social ou se debate contra o obstaculo que a influencia de esse meio lhe impõe.

Sempre que a literatura toma o caráter conservador tende a immobilisar a sociedade e a atrofiar o progresso. Foi o que sucedeu nos séculos em que a literatura não fez mais do que fortalecer as superstições que achou consagradas no seu caminho, prostrando a humanidade em um marasmo de quinhentos anos embalados com o estéril rumor monótono das homilias e das legendas dos santos. Felizmente, desaprendendo quase completamente de ler, a humanidade voltou a si. A literatura havia sido para ela uma catacumba em que jazera sepultada pela credulidade, amortalhada pelo misticismo. Guizot calcula em vinte e cinco mil as vidas de santos de que se compõe a biblioteca bolandista, e são esses ata sanctorum quotquot tote orbe coluntur que encerram a historia inteira da humanidade sob o regímen clerical em toda a Europa e em quase todo o Oriente, desde o século VI até o século XII! Com razão conclue Buckle--o grande historiador da civilisação--que o maior dos estorvos do progresso tem sido a manutenção do erro pelo poder literário.

Nos tempos modernos, sob os domínios despóticos, em quanto a obra do pensamento foi disciplinada pela policia clerical e monarchica como sucedeu em Portugal durante o império do Santo Officio, a literatura deixou egualmente de ser o livre producto artístico e converteu-se em um poder do Estado, o mais enervante para a imaginação, o mais dissolvente da inteligência e da dignidade humana.

Portanto: a primeira condição social para a existência de uma literatura compatível com o progresso é a liberdade.

Todo o escritor portuguez actual nasceu em esse meio propicio. Todavia, por uma fatalidade fisiológica, por um efeito da heriditariedade, falta-nos a orientação cerebral da independencia. O nosso espirito conserva o stigma servil, o sinal da marca que, em muitas gerações que nos precederam, foi deixando a grilheta da opressão mental. A nossa tendencia de escritores é ainda hoje, geralmente, para lisonjear a rotina, para comprazer com o vulgo, para seguir as correntes da credulidade geral.

A maior parte dos individuos que fazem um livro têm, nas precauções da forma, no rebuço das opiniões, na doblez do stylo, o ar miserável de pedintes que solicitam vênia para divertir inofensivamente o respeitável publico.

Entre as aberrações eminentes de essa tendencia geral, como por exemplo os srs. Antero de Quental e Guerra Junqueiro na poesia, o sr. Teófilo Braga na historia e na critica, o sr. Oliveira Martins na economia politica, a Sr.ª D. Maria Amalia Vaz de Carvalho no folhetim,--aparece-nos o sr. Eça de Queiroz no romance. Na pequena literatura portuguesa destinada a ser um agente na evolução das ideias e dos costumes, um elo no grande encadeamento das causas e dos efeitos sociais, O crime do padre Amaro, representa a obra mais profundamente característica.

Este livro foi recebido pela imprensa periódica com um silencio que pode parecer o resultado de um mot de ordre. Cremos, para honra do jornalismo, que a razão do aparente desprezo de que foi objecto este romance está no simples facto de que a critica se considerou incompetente para o julgar. A única coisa de que temos de acusar a critica é de nos não haver dito isso mesmo. Em circunstâncias análogas as Farpas deram um exemplo de sinceridade que ficou estéril. Um dia escreviamos um artigo acerca do adultério; a logica arrastava-nos a deducções que nos não atreviamos a imprimir; publicámos o nosso artigo até o ponto em que o julgavamos compatível com os costumes e concluimol-o com a confissão franca de que nos achavamos coactos pelo publico. Quando tivemos medo confessamol-o. É verdade que omitimos uma opinião, mas, estudando os costumes, revelamos pelo menos um estado de espirito que eles determinavam e que seria um symptoma a ponderar pelos analisadores que se nos seguissem.

O crime do padre Amaro é efetivamente difícil de sentenciar porque constitue um caso novo, não previsto nas ordenações porque se regulam as audiências gerais do folhetim e do noticiário.

Essencialmente moderno este romance não é a narrativa de uma aventura ou de uma serie de aventuras á Lessage, á Dumas ou á Gaboriot, não é um estudo de sentimento á Rousseau, á Alfred de Musset ou á George Sand. É uma pintura de caracteres, mas não uma pintura á Balzac ou á Flaubert, porque este livro não é exclusivamente de nenhuma escola senão da escola de si mesmo, e é esse cunho profundamente pessoal qne lhe dá o caráter que o distingue como verdadeira obra de arte.

Ora uma exposição de caracteres se pertence á sphera da arte pelos processos da pintura, é um ramo da historia e está subordinado á sciencia pelas operações de critica e de relacionação. O oficio do historiador é discernir no estudo das épocas e no estudo dos acontecimentos o seu caráter social. O oficio do romancista é discernir no mesmo estudo das épocas e no mesmo estudo dos factos o seu caráter artístico. O método do historiador é o método do romancista. Não pode ser romancista um simples observador. Cada sciencia tem, como diz Littré, o seu método particular e característico. A observação é um método exclusivo da astronomia, para cujos fenômenos irreductiveis o astrônomo não pode fazer mais que olhar. O chimico procede pela experiencia e pela analise. O biólogo tem por método especial a comparação. O historiador, e por tanto o romancista, têm como instrumento particular a filiação, isto é, a producção dos estados sociais uns pelos outros. Pintar um caráter é expor no personagem a figura moldada dentro do contorno delineado em uma dada porção do espaço e do tempo por um certo estado social.

Um caráter é um fenômeno histórico, que se não comprehende senão emoldurado na convergência de todos os factores que o produziram.

É por isso que o romance de caracteres tem de ser uma exposição concêntrica de todas as influencias que determinam um pensamento ou um ato;--influencias naturais, o solo, o clima, os aspectos da paizagem, o sexo, a idade, o temperamento, a idiosyncrasia, a heriditariedade; influencias sociais, as instituições, os costumes, a família, a educação, a profissão.

Comprehende-se a comoção de surpreza que produziu este livro, ao notar-se que a propósito da biografia de um padre em uma parochia da província ele suscitava as mais graves e melindrosas questões physiologicas e sociais que podem envolver a igreja, o celibato, a sentimentalidade e o misticismo, isto é, todos os pontos de controvérsia filosófica que o jornalismo exclue da discussão para se não pôr em conflito com o assignante. Confessamos que em este caso o melhor que tinha que fazer a critica jornalistica era efetivamente calar-se.

Pela nossa parte, como é precisamente o conflito que constitue o nosso programa, não temos rasão plausível para abster-nos da apreciação de este livro.

A rasão da condemnação silenciosa, do escândalo branco, que envolveu a aparição do Crime do padre Amaro está no simples facto de que ele é um romance de caráter. Esta simples designação explica tudo. O gênero é novo e sem precedentes. Os livros do sr. Camillo Castelo Branco são romances de sentimento. A obra de Julio Diniz pertence á literatura de tricot cultivada com ardor na Inglaterra pelas velhas miss. Apesar das suas qualidades de paizagista, do seu mimo descriptivo, da sua feminilidade ingenua e pitoresca, as novelas de Julio Diniz não têm alcance social, são meras narrativas de salão.

O livro do sr. Eça de Queiroz oferece-nos o primeiro exemplo de uma obra de arte suggerida pela consideração de um problema social.

E todavia O crime do padre Amaro não é de nenhum modo um livro de critica, é um livro de pura arte na mais alta acepção de esta palavra. Nem na boca do auctor nem na de nenhum dos seus personagens ha uma palavra declamativa ou didactica.

Em uma pequena cidade de província, na Extremadura portuguesa, o velho parocho morre, o novo parocho chega com o seu capote eclesiástico e o seu bahu, apeia-se da diligencia de Chão de Maçãs, sobe aos quartos que lhe estão preparados, calça uns chinelos de ourelo, veste o casaco velho, e o drama principia, desdobra-se e termina de um folego, caminhando para o seu desfecho, recto, implacavel, como um traço riscado pela fatalidade através de aquela estreita vida de província, com a sua intriga local, os seus personagens mesquinhos, os seus padres, as suas beatas, os seus tristes aspectos de coisas, sujos, tortuosos, compungidos, pretenciosos, miseráveis.

de este fundo sombrio, espesso, pesado como o tédio, a acção destaca-se luminosamente, e penetra-nos com a nitidez poderosa dos espectaculos vivos. É a vida mesma com toda a sua trivialidade real que em essas paginas perpassa aos nossos olhos como aquelas florestas que andam no sonho de Machet.

Nunca artista portuguez desenvolveu na sua obra maior poder de execução.

O dialogo, trasbordante de verdade, é de um rigor psychologico, de um colorido flagrante e de uma energia de naturalidade que os primeiros stylistas franceses não conseguiram ainda egualar. A língua portuguesa, pela incomparável variedade das suas construcções gramaticais, pela inexgotavel abundancia dos seus idiotismos, pela bravura inculta do seu arranco plebeu, presta-se admiravelmente a estes prodígios de execução sempre que a não deturpa esse maneirismo requintado, esse culto da farragem e do eufemismo, que tem sido em Portugal a sarna epidêmica do estilo erudito.

O dialogo do sr. Eça de Queiroz, não porque o trabalhasse a preocupação do purismo, mas em resultado do escrúpulo com que foi arrancado da índole e da natureza dos personagens, é de tal modo genuíno e tão acentuadamente portuguez, que o temos por intraduzivel.

Ao lado do dialogo mais vivamente travado e das situações dramáticas mais profundamente sentidas, mais comoventemente narradas, o auctor compraz-se habitualmente em pintar, com frio cinismo, as ridentes paizagens em que scintillam as frescuras da manhã, os suaves ocasos do outomno impregnados do rumor das águas e do perfume dos prados, os tépidos interiores aconchegados e pacíficos, todos os aspectos da natureza vegetativa, da natureza animal, da natureza morta. E nada mais profundamente real do que a impressão deduzida de esse contraste entre a inclemente imobilidade das coisas e a devastação tempestuosa das supremas paixões no fundo da alma humana!

O desenho dos caracteres e principalmente o das duas personagens principais sobre que versa o drama, o padre Amaro e Amelia, é deduzido com o mais scientifico rigor da diagnose em um caso de patologia psychica.

A infância de Amaro em uma casa nobre, onde a mãe de ele era criada de quarto. Os pequenos pormenores de esse interior de família, onde o catolicismo era um requinte heráldico, onde as meninas, acreditando em Deus como na omnipotente elegância, tinham como culto dos destinos da alma a preocupação da toilette com que haviam de entrar no paraíso. A creação de Amaro até aos doze anos em essa convivência mulheril, ajudando ás missas na capela, espanando os santos, aparando as hóstias, dormindo entre as criadas, que lhe faziam cocegas, lhe chamavam Padreca, Frei Lombrigas, e o utilisavam nas suas intrigas para «fazer as queixas.» A sua mocidade no seminário, «abafando na estreitesa dos corredores, invejando todos os destinos ainda os mais humildes, o almocreve que via passar na estrada tocando os seus machos, o carreiro que ia cantarolando ao áspero chiar das rodas, e até os mendigos errantes, apoiados ao seu cajado, com o seu alforge escuro!» Os seus primeiros alvoroços de adolescente ao pensar na mulher sobre os livros dogmáticos: «Que ser era esse que através de toda a teologia ora era colocado sobre o altar como a Rainha da Graça ora amaldiçoado com apostrofes barbaras? Que poder era o seu que a trágica legião dos santos, ora se arremessa ao seu encontro, em uma paixão extactica, dando-lhe em uma aclamação o profundo reino dos céus, ora vai fugindo diante de ela como do universal inimigo com soluços de terror e com gritos de ódio, e, escondendo-se, para a não vêr, nas tebaidas, nos claustros e nos sepulchros, vai ali morrendo do mal de a ter amado? Amaro sentia, sem as definir, estas perturbações, e julgava-se desgraçado e maldito.»

Vemos, a dia por dia, crescer, constituir-se, formar-se esse homem, branco, lymphatico, mole, creado entre chumaços de mulheres ordinárias, e sobrepelizes de padres boçais, no fartum das alcovas sujas e na sombra humida dos claustros musgosos. E prevê-se a quéda fatal de essa natureza stagnada e paludosa, através da qual os desejos insaciados luzem como os olhos de um tigre.

É egualmente bem assignalado o caráter de Amelia. A sua educação sentimental e devota é descripta a golpes de bisturi. Cada traço é uma incisão. Aos oito anos tinha ido para a escola. A mestra era uma velhita roliça e branca que fora tacho das freiras de Santa Joana em Aveiro; com os seus óculos redondos, junto da janela, empurrando a agulha, morria-se por descrever o convento, os seus terrores, as suas legendas, as suas peripécias; as perrices da escrivã sempre a escabichar os dentes furados; a madre rodeira preguiçosa e pacata, com uma pronuncia minhota; a mestra de canto-chão, admiradora de Bocage e que se dizia descendente dos Tavoras; a historia de uma freira que morrera de amor e cuja alma ainda em certas noites percorria os corredores, soltando gemidos dolorosos e chamando:--Augusto! Augusto!... Tinham-lhe ensinado o catecismo e a doutrina: falavam-lhe sempre dos castigos do céu; de tal sorte que Deus aparecia-lhe como um Ser que dá o sofrimento e a morte, e que é necessário abrandar resando e jejuando, ouvindo novenas e amando os padres. Era por isso toda cuidadosa e se ás vezes ao deitar lhe esquecia uma Salve-Rainha, fazia penitencia no outro dia porque temia que Deus lhe mandasse sessões ou a fizesse cair na escada.» Além da doutrina aprendera a tocar piano com um velho romanesco. Lera livros de versos, fora namorada durante uma estação de banhos por um estudante de Coimbra, que lhe fizera umas quadras. Estava pedida por um escrevente de tabelião, que se perturbava sob o seu olhar voluptuoso mas que ela não amava, sentindo em si «como um grande sono do coração.» Não tinha pai. Era sanguínea e forte, de grossos beiços levemente sombreados de penugem negra. Ouvia missa todos os dias e confessava-se todas as semanas.--A mãe era protegida por um cônego. Ela padecia tédios nevrálgicos e inquietações histéricas.

Todos os demais personagens, alguns de eles apenas indicados por quatro palavras, que têm o poder de uma evocação, o cônego Dias, o padre Natario, o padre Brito, o chantre, o coadjutor, o Libaninho, o tio Esguelha, o escrevente, o redator da Voz do Districto, as senhoras Gançosos, a sr.ª D. Maria da Assumpção, a Joaneira,--vivem, têm uma fisionomia, uma personalidade.

O desenlace do drama, a morte de Amelia, a fuga do padre da quinta da Cortegaça, de noite, levando o filho escondido na capa; o seu terror ao sentir-se seguido, ao ouvir atraz de si no macadam as passadas surdas do escrevente, passadas comedidas pelas de ele, acompanhando-o como o remorso, como o presentimento da catástrofe que se aproxima; o infanticídio perpetrado no escuro, com os pés no lodo, á beira do rio, escondido nos juncos como um animal ferido cercado pelos latidos raivosos da matilha; a sua retirada de Leiria ao outro dia, por uma serena tarde de outomno, de uma poética serenidade inefável, partindo a cavalo no momento em que os sinos da sé começavam a soluçar o dobre de defuntos, enquanto um realejo toca na rua um trecho da Norma, e, de uma casa defronte, um pequerrucho seguro ao peitoril da janela pelo pai e pela mãe que riem, lhe diz adeus com a sua pequena mãosita papuda;--constituem paginas de uma concepção e de uma tonalidade trágica, profundamente elegíaca e solene, que fica vibrando por muito tempo na memoria como o eco fúnebre de um dies iraê.

Este livro misanthropicamente concebido, e executado com uma ironia mordente e com um humorismo repassado de lagrimas, deixa todavia no espirito uma forte impressão consoladora; é a obra de um grande artista, de um poderoso revelador de ideal; e como toda a idealisação perfeita, repousa-nos das nossas preocupações pessoais e egoístas, engrandece-nos, eleva-nos aos nossos próprios olhos, infunde-nos a fé, obriga-nos a crêr no sagrado desinteresse da arte, na divina imortalidade do belo.


Se depois da idéa que procurei dar-te de este livro, tu, leitor me perguntares se o deves dar a ler á menina tua filha, eu respondo-te terminantemente que não. As meninas nunca lêem romances, quaisquer que eles sejam.

Se o podem lêr as mulheres--é uma outra questão, á qual respondo que podem, ainda que com esta reserva--ás escondidas.

Não que este livro seja imoral. A arte é absolutamente independente da moral, e não póde nunca nem servil-a nem prejudical-a.

Quando para minha consolação e refrigério eu me desvio da estrada em que sucumbo de fadiga mordido pelo sol, e vou descançar um momento á sombra de uma árvore, não pergunto se essa árvore dá peras ou se dá pilritos, se da sua resina se póde extrair um balsamo ou um veneno, se dos seus filamentos se póde entrançar uma corda para o sino ou um baraço para a fôrca, se no seu tronco se podem serrar as pranchas para construir a arca ou para armar o patíbulo. A única coisa que lhe pergunto é se ela tem, para ma dar, uma boa sombra fresca, macia, aromática; e se a tem, eu, que em esse momento não sou um negociante de productos alimentícios, nem um madareiro nem um chimico nem um engenheiro constructor, mas sim um caminheiro prostrado, eu declaro, não só em meu nome, mas em nome da sciencia, em nome da moral, em nome da religião, em nome do homem e em nome de Deus, que essa árvore é boa, é útil, é necessária--não pelos materiais que ministra, não pelos fructos que produz, nem pelas substancias que segrega, mas única e simplesmente por uma condição imponderável e etérea, da qual em dada crise pode depender o meu destino inteiro e toda a minha vida; e essa condição é a de se interpôr no espaço entre mim e o céu, e projectar sombra.

Na esfera das múltiplas vegetações do nosso espirito a sciencia e a filosofia fornecem as substancias alimentícias e ministram os materiais das construcções; a arte é a árvore santa, a árvore da sombra para os peregrinos do pensamento.

Schiller em uma das suas cartas, cujo texto não tenho presente, expôe uma teoria que pode resumir-se em estes termos: «Se um critico em nome da moral processa o meu livro não pelo que eu em ele escrevi mas pelas conclusões que ele critico lhe extrae, eu desprezo esse julgamento. Se, porém, a critica me convencer de que, dado o assumpto qual eu o concebi, eu poderia executal-o por outro modo, eu em esse caso submeto-me, não porque tenha errado contra a moral, mas porque errei contra a arte.

Ora na execução do livro do sr. Eça de Queiroz ha na parte descriptiva dois ou três pormenores que não quereriamos eliminados--com quanto isso fosse possível sem quebra da verdade--mas que nos parece poderem ser referidos de um modo--não dizemos mais pudico--dizemos mais artístico.

Ha em todos os grandes romancistas modernos, desde Balzac até o sr. Queiroz, uma tendencia de que o vulgo tem feito o atributo de uma escola, tendencia febril a demorarem sensualmente as analises da torpeza e da podridão.

O grande Eschylo dizia, censurando Euripides: «Ele deprimiu tudo aquilo em que pegou, eu enobreci tudo aquilo em que toquei; os homens saidos das minhas mãos respiram gládios e lanças, capacetes de penachos brancos e escudos reforçados com sete couros.» Os artistas modernos não podem infelizmente inscrever nos seus brazões a nobre divisa do velho trágico. A sociedade actual não fornece á arte os grandes crimes que alimentaram o interesse da tragedia grega, porque as depravações contemporâneas não gravitam em torno do crime heroico mas sim em torno do vicio mesquinho e vergonhoso. Quem descreve os caracteres modernos tem fatalmente de operar na gangrena; o que nos não parece egualmente inevitável é que o pus do tumor salpique a mão que o opera. Ora o que julgamos notar, por duas ou três vezes como acima dissemos, na obra tão profundamente casta do sr. Eça de Queiroz é que os seus instrumentos anatômicos, tão bem acerados e tão finos, têm os cabos demasiadamente curtos.

A dissecção--permita o nosso amigo que lho observemos--tem também as suas leis de conveniência e de elegância. Além de que, para estudar um órgão é ocioso expôr aos olhos do anfiteatro toda a nudez do cadáver. Mesmo em anatomia o completo conjuncto é obsceno, porque é inutil.

As damas da côrte tão pointilleuse de Luiz XIV--elas que representavam tudo quanto possamos conceber mais escrupuloso e mais exigente no decoro e no gosto--frequentavam, sem ofensa do seu frágil melindre de estufa, os teatros anatômicos.

«Á medida, diz Fontenelle, que Verney se tornava um homem á moda punha em moda a anatomia, a qual, encerrada até aí nas escolas de medicina ou em Saint-Côme, ousou produzir-se na alta sociedade apresentada pela mão de ele.» O tacto especial de Verney contém um exemplo que pode não ser inutil ao sr. Eça de Queiroz.

As senhoras portuguezas não cursam os estudos scientificos. Não têm os menores princípios de biologia, de anatomia e de fisiologia, princípios indispensaveis para entrar nos estudos mais complexos do homem como são na sciencia a historia e na arte o romance de caráter e a esculptura do nú.

Por isso a falsa noção que elas têm do pudor as torna incompativeis com muitas das mais preciosas convivências intelectuais.

Uma noção social não pode, porém, ser modificada pelos escritores ou pelas academias. Essa reforma é a obra colectiva e impessoal do progresso nos costumes e nas instituições.

em estas condições, deploraveis mas inamoviveis, maior deve ser a atenção do artista em limar--tanto quanto isto seja possível sem detrimento da obra--os pequenos ângulos subalternos que dificultem a adaptação de ela aos costumes.

Sob este ponto de vista O crime do Padre Amaro está adiante do seu tempo. Como obra de arte é este um destino feliz, porque em este caso ter de esperar é adquirir a certeza de sobreviver. Como obra de higiene social lamentamos que ele não possa desde já actuar pela sua influencia no espirito de este paiz onde o primeiro livro da educação moderna La femme, le prêtre et la famille é ainda tido por um sacrilégio de Michelet, o impio!

As Farpas

Sinopse

As Farpas, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, reúne em um único registro canônico onze fascículos integrais do Project Gutenberg, de 1873 a 1883, conservadoramente normalizados para PT-BR moderno.

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LITEBN
LITEBN-978656225672207965334912
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