Universo da obra
Universo da obra
No breve espaço dos últimos quinze dias a humanidade pagou á morte um pesado tributo. Escrevemos no meio de túmulos gloriosos e amados. Deixaram de existir, em França Raspail e Courbet; na Itália Victor Manuel, no Brasil José de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho.
Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um imenso vácuo imprehenchivel. Desapareceu com ele uma das mais poderosas forças sociais do mundo moderno, a porção mais fecunda e mais gloriosa da grande alma do povo.
Ninguém como ele amou a humanidade e ninguém empregou tão vastas e tão profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos descobrimentos scientificos de este século. Criou a chimica orgânica e póde-se dizer que criou também a fisiologia botânica e a anatomia microscópica. Fundou a higiene em bases novas, não como uma dependência da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi ele o que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do sufrágio universal. Foi ainda ele o primeiro que proclamou no Hotel de Ville a República de 48.
Este exímio cultor, acrescentador e reformador do todas as ciências físicas, de todas as ciências biologicas e de todas as ciências socilaes, astrônomo, chimico, fisiologista, medico, archeologo, economista, era além de isso um delicado e valente escritor. O seu gênio profundo actuou eficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros, das plantas, dos animais, do homem, e bem assim na reforma do todas as instituições politicas e sociais, na reforma administrativa, na reforma judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo caráter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliável com todo o favor, com lodo o auxilio, com toda a colaboração oficial. Recusou todas as distinções honorificas, todos os cargos públicos, todos os diplomas scientificos ou literários. As suas observações astronômicas, os seus trabalhos de chimica, as suas aplicações do microscópio ao estudo das células e dos tecidos fizerarn-se em uma água furtada humilde dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no isolamento austero da independencia o do sacrifício.
Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno e do Bernardo Palissy.
A academia francesa, comovida com uma tão exemplar grandeza de alma, resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ela o considerava como sendo o homem que mais serviços tinha prestado á sciencia e á humanidade.
Guizot, então ministro da instrução publica, interveio na resolução da academia prohibindo que o premio da virtude cahisse no cofre da rebelião.[1] O chefe do partido conservador francês não podia esquecer que fora esse mesmo sábio obscuro o despremiado o que no ano anterior, em plena Restauração, ousara fulminar a votação da lista civil com a frase memorável paga por ele com 500 francos de multa e 15 meses de cadeia: «Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruínas das Tulherias todo o cidadão que ousasse pedir á França 14 milhões para viver.»
[Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou também uma cadeira no magistério a Augusto Comte. O ilustre historiador teve a desgraça de firmar com o seu nome a responsabilidade de esses dois crimes, inconscientes, da politica nefasta que ele dirigia.]
É que Raspail, a inteligência sempre apta para organisar, foi egualmente o braço constantemente pronto para resistir.
Portentosa existência, que ficará na historia entre as mais belas e mais estraordinarias legendas do gênio do homem! Destinado por seu pai á carreira eclesiástica, foi educado em um seminário, começou por ser um teólogo. Era porém de tal modo intenso e explosivo o seu amor de verdade e do progresso que, principiando por ensinar teologia aos dezenove anos, acabou por alcançar a gloria imarcescível de ser condemnado aos oitenta,--aos oitenta anos de idade!--por abuso da liberdade de pensamento!
O poder espiritual do mundo moderno era representado em França por uma trindade sacrosanta:--Victor Hugo, a força do sentimento; Raspail, a força do trabalho; Littré, a força da filosofia.
de esses três anciãos o primeiro que desceu ao tumulo é o que mais fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram são de aquelas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse exemplo de uma atividade sempre entusiasta, juvenil e ardente, em nenhuma outra parte é mais precioso do que na sociedade portuguesa, onde as idéas radicais, que são as sentinelas avançadas da civilisação, tão raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a mocidade mais vivaz e inteligente está defendendo no parlamento e no jornalismo as opiniões mais retrogradas, onde finalmente o futuro não tem partido.
Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverança e a firmeza no coração de aqueles que, longe de todas as correntes oficiais se sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeiçoamento dos seus semelhantes!
Que todos os que são moços e fortes se inclinem sobre esta campa onde repousa um triunfo, e reflictam, que é na pedra tumular de Raspail que deverão aguçar o fio das suas espadas todos aqueles que combatem pela consciência e pela verdade!
Courbet foi um conspirador da estética, um rebelde ao despotismo de um idéal que ele tinha por condemnado solidariamente com as velhas instituições sociais de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a derrocar pela pintura a inspiração da antiga arte assim como derrocou pelo uso do poder executivo a coluna da praça Vendôme. Louvável empenho, porque Courbet considerava essa inspiração uma fonte envenenada para o trabalho artístico, assim como considerava essa coluna um simbolo ultrajante para a dignidade humana.
A demolição da coluna, que toda a imprensa europea stygmatisou com palavras tão resentidas e acerbas, não poderá deixar de ser um dia olhada pela critica desapaixonada como a consequência logica e fatal dos princípios de justiça social constantemente professados pelo imortal artista.
Courbet foi condemnado a pagar a reconstituição da coluna. Breve porém soará a hora em que o nobre espirito francês deixe de considerar puerilmente que se deve ser
Fier de être français Quand on regarde la colonne!
Paris, a cidade eterna da arte, a grande mártir, a grande pacificadora, comprehenderá em pouco tempo que é uma injúria ao seu belo destino na obra da conciliação humana a ostentação orgulhosa de um monumento que o dístico diz ser: levantado à gloria do grande exercito por Napoleão o Grande!!
Paris, quá vai na próxima exposição celebrar dentro do regímen republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo município acaba de votar 546 contos de réis para os seus estabelecimentos públicos de instrução primaria ao ano corrente, Paris que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos á reorganisação dos seus liceus, não poderá manter em pé por muitos anos mais, em uma das suas praças publicas, um simbolo que contradiz todas as suas aspirações filosóficas e humanitárias, celebrando uma das maiores nodoas da civilisação: o triunfo canibalesco do militarismo sobre os direitos do homem, a sujeição da França aos caprichos de um déspota em cuja fronte as justiças da historia estamparam já o ferrete da ignommia.
A legenda napoleônica esvahiu-se inteiramente das consciências, e bastou um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradições marciais da geração actual o sol de Austerlitz.
Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importância da multa a que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravará, ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a coluna Vendôme e pondo no logar de ela, em vez do gênio das batalhas que lhe serve de remate, o gênio da arte representado na estatua do grande pintor que na maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que será uma das glorias de este século, e na maneira de usar do governo em que teve parte cometeu o erro sempre fatal em politica de antecipar na pratica dos seus atos a opinião do seu tempo.
Victor Manuel foi o homem forte por excelência. Tinha o pulso atlético de Godofredo de Bulhões. Poderia como ele decepar de um só golpe da espada a cabeça de um boi ou o tronco de um reacionário; comandou como ele uma cruzada,--a cruzada de Novara até Roma, como ele chegou a terra prometida; morreu moço como ele, como todos os heróis que tendo realisado na terra uma grande missão, se sentem de repente invadidos na alma pela tristeza imensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos fortes--a colossal bondade. Ninguém abriu bocas mais fundas nas espadas dos seus adversários; ninguém calcou a terra com sapatos mais fortes, mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tiranos e dos cabritos, atraz das raposas e dos padres. Ninguém trepou com pulmões mais rijos ás altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguém sorriu com mais encanto e com mais prestigio á fadiga, ao perigo, ás mulheres e á morte. Era evidentemente um forte. E como a força é o maior de todos os atrativos humanos, ninguém conciliou como ele em torno de si tão contradictorias simpatias e tão heterógeneas afeições: foi o amigo do Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.
Feliz homem!
A morte de José de Alencar, o auctor do Guarany e de Luciola, representa uma das maiores perdas para a literatura brasileira, tão notável nos últimos tempos pela cooperação dos seus poetas e dos seus pensadores.
Na sociedade do Brasil, que o principio da escravidão desviou por tantos anos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a organisação moderna do trabalho livre é ao mesmo tempo a creação de um novo elemento social--o povo.
José de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando poderosamente o seu tempo pela pena e pela palavra, era a imagem sintética de esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e decide da sorte dos impérios.
Ele, que alcançara um dos mais luminosos logares entre os homens mais celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade, procedera da roda dos expostos.
Esse engeitado era a personalisação mais gloriosa da soberania do trabalho, afirmando ele mesmo o seu direito, desembainhando no trono da arte a sua larga espada de justiça, vestindo a túnica e a dalmática azul, calçando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e fazendo-se ungir e sagrar pelas multidões como os antigos eleitos do senhor. E era a ele, como a todo o artista victorioso e triunfante, que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: «Deus te elegeu para reinar sobre a sua herança e para livrar os povos das mãos dos seus inimigos.»
Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce consolação de cumprir um destino, consolação compensadora de tantas amarguras e de tantos sacrifícios, não foi concedida na terra àquela natureza essencialmente desgraçada.
Tinha um incomparável poder de aplicação e de estudo e ninguém possuía em Portugal uma provisão mais copiosa de noções e do factos. Foi o colaborador do Alexandre Herculano nas investigações da historia nacional, foi o seu melhor discípulo e o seu único sucessor. Ninguém melhor do que ele conhecia as fontes e as correntes históricas dos nossos costumes e das nossas tradições. Era archeologo, diplomático, jurista, bibliografo. Não havia inscripção truncada na epigrafia nem texto ambíguo nos códices que resistisse aos processos da sua sagacidade portentosa. A sua memoria fenomenal dava-lhe a omnipresença de quanto tinha lido no recolhimento de vinte anos de estudo fervoroso e incessante. Era um tomo de erudição vastissima, assombrosa, que ninguém consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da literatura e da língua.
Faltava-lhe porém no seu vasto e poderoso cérebro a faculdade da generalisação. Não sabia tirar dos factos as leis de que eles são a funcção. Não sabia correlacionar. Não tinha o poder creador. Por esse motivo a isolação sufocava a eficiência da sua atividade. Era um instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsão de energias concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade literária a que ele estava condemnado a submeter-se para ser uma força na civilisação, repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente aggravada por uma falsa educação.
Essa capacidade tão prodigiosa de contensão, de investigação, de exame, de absorpção de idéas, estava na sua natureza aliada a um temperamento caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epiléptico na infância, não poderia fatalmente deixar de ser o que era: um sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufrágios da sua inquieta o atribulada existência.
A indiferença perante o conflito é uma nobre virtude. Raros a possuem. O que sucede com as naturezas vulgares é que a nossa resolução boã, conscientemente reflectida, reforçada na mais legitima compenetração do dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjuntura do conflito que vai provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nós precisamos de reagir sobre nós mesmos com toda a força da nossa coragem para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosão da crise irreconciliável que presentimos latente, palpitante, dependente da palavra decisiva que por um dever de consciência profundo e sagrado vamos lançar ao coração de aqueles que nos rodeiam. Pois bem: essa virtude, tão rara, tão viril, de desmanchar implacavelmente prazeres para implantar controvérsias, essa virtude, dizemos, possuía-a Soromenho no estado de uma exageração patológica. O conflito na convivência social não somente lhe não repugnava mas atraía-o--como sucede ás mulheres nervosas.
Consideravam-o geralmente uma víbora. Ele era apenas uma criança. As suas violências mais ásperas procediam todas logicamente da sua sensibilidade doentiamente delicada. Ninguém teve a injúria mais pronta pela mesma rasão de que ninguém teve egualmente a compaixão mais fácil. Ninguém proferiu impropérios mais pungentes, mas também ninguém chorou lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas sessões da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior de Letras não conheceram senão metade de essa fisionomia tão caracteristicamente meridional nos traços Morais como nas formas físicas.
Era preciso ouvil-o na intimidade da sua biblioteca, no terceiro andar obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democrático da camaradagem literária Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes ilustres, para os quais aquela humilde casa de literato, tão hospitaleira e tão pobre, tinha altractivos que não podiam propornionar ás exigências dos philosphos e dos príncipes, os mais brilhantes salões de Lisboa. Era preciso onvil-o aí dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o nervosismo do seu coração com a mesma prodigalidade cem que nas assembléas oficiais acabara de dispender as violências do seu cérebro imperfeitamente orientado.
Quando aludia á sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto da Vila do Conde, as doces paizagens do Minho onde ele viajara alegremente a pé nos dias azuis da sua mocidade; quando repetia o estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancólicos de uma lenda ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma esfolhada nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da água no fundo da deveza o canto dos rouxinóis através da espessura negra dos pomares; quando descrevia as madrogradas da caça ás perdizes no monte de S. Felix, ou as outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dançar pelos caminhos as belas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros, aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de árabe, negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no máximo arrebatamento da cólera, embargava-se-lhe em soluços, estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infância, um bom sitio amado, uma velha canção querida.
Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois únicos campos em que se podia exercer com proveito e com honra da pátria a atividade da sua inteligência, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi sepultado em este medonho tumulo--o desprezo.
Nos seus últimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou até o seu último dia. Ha cerca de um ano padecia uma dor sternalgica, symptomatica do aneurisma. Esta dor lancinante, que o privava do movimento, forçando-o a parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes de ontem de madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua biblioteca. Acudiu-lhe a sua família, chamou-se á pressa um medico. Inutilmente. Ele estava morto.
Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto Soromenho desde a sua infância, o que escreve estas linhas deixasse de acrescentar que a reputação tão frequentemente discutida de esse trabalhador desventurado foi sempre pura e imaculada aos olhos de quem o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta anos. O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipiões ilustres e dos Catões celebres achem sempre nos seus heróis tantas qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de retórica, quantas aquelas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela maledicência.
Com esle titulo--Ao sr. Ramalho Ortigão--publicou o Diario da Manhã o folhetim seguinte:
Os exames no Lyceu Nacional--Os fins da educação--Um programa de ensino para o sexo feminino--Como se prepara a emancipação das mulheres--Duas catástrofes: o estado da literatura feminina, e o estado da cosinha nacional--Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais caldo.
Termina assim o sumario do último numero das Farpas. Qual de nós deixaria de ler com a máxima atenção um artigo escrito pelo sr. Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma de certo. E para que se não diga com verdade que o grito afflictivo do paiz, do qual o sr. Ramalho se faz órgão, pedindo-nos caldo, não foi ouvido por uma só mulher portuguesa, que, condoida, o socorresse, venho por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe não só caldo, mas também luz, que o alumie nas suas investigações acerca de um assumpto, que é realmente grave--a dispepsia nacional, que s. ex.ª atribui á nossa ignorância culinária, fazendo assim pesar sobre nós, tão tremenda responsabilidade.
Se o assumpto de que se trata, não fosse realmente grave, contentar-nos-hiamos com o praser que nos dá sempre a leitura dos escritos do sr. Ramalho, pela elegância do seu estilo, e finura do seu espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: É pena que os escritos do sr. Ramalho não sejam mais suculentos! são como os caldos feitos pelos cosinheiros franceses, de aparência magnifica, depurados até á transparência, muito aromatisados... mas sem substancia.
Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho fala sempre de nós, que não tem rasão para nos querer mal; e que como filho, esposo e irmão de senhoras portuguezas, e por isso quase nosso irmão, deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor vontade a fazer-nos um favor se lho pedissemos. Ouça-me pois.
Não ensine á sr.ª D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portuguesa, como se faz esse alambicado caldo francês, tão purificado, que por fim como o próprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor á sua pátria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os clássicos caldos portuguezes, suculentos e compactos como os faziam nossas avós, e como nós todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal agente do temperamento de um povo, do seu caráter e da formação das suas idéas, é, como s. ex.ª diz a sua alimentação, não esqueçamos que foi comendo esses caldos e quase só com eles, que os enérgicos e valentes portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castela, e que na Africa, e na Asia praticaram acções de tão prodigioso valor. E descendo á historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos lidadores da epopéa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo nacional e então infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua heroica energia, e sua valorosa audácia, sem que o estomago se incomodasse com a dispepsia nacional. É só com caldo, e com brôa que todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que suportam, sem cansaço, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia, os mais rudes trabalhos; e contudo não sofrem de dispepsia. Será por terem mulheres muito instruidas, ou porque o caldo que comem é preparado por cosinheiros de 5:000 francos? deve ser por uma de estas rasões, visto que é o sr. Ramalho quem nol-o afirma.
A dispepsia não é em Portugal uma doença nacional, é quase privativa dos homens das classes elevadas--e quer que lhe dígamos porque? Porque eles têm com raras excepções, uma mocidade dissipada; porque na idade dos quinze aos vinte anos, quando os rapazes ingleses e alemães fazem consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos atléticos, e todo o seu orgulho em serem vencedores em uma corrida ou em uma regata, os portuguezes vão descançar das lides do estudo nos bancos dos botequins e das tavernas, onde é considerado herói aquele que come e bebe mais brutalmente, e como deus o que engole sucessivamente vinte e um cálices de licor ou cognac, o que na pitoresca fraseologia de esses senhores se chama dar uma salva real! Desculpa-os porém o axioma do nosso código de educação: que é preciso dar muita cabeçada para vir a ser homem serio.
Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que nós, todos os perigos porque passam os rapazes desde que se emancipam da tutela materna, até que chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar de esses perigos, e de lhes regenerar os costumes, e verá que, quando chegarem a ser chefes de família, seu natural destino, não precisarão de encontrar na esposa o braço forte que lhes seja amparo, e terão o estomago são como em crianças, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando ele não seja perfeitamente transparente, e até quando tenha seus vestígios de gordura. Faça isto que lhe pedimos, e todas nós bemdiremos o seu nome, pois de este modo terá prestado um importantíssimo serviço ao seu paiz.
O seu programa para a educação das mulheres parece-nos excelente para a França, Inglaterra e outros paizes onde as meninas são educadas nos colégios, longe da família; mas aqui onde em geral as creanças que os frequentam comem e dormem em casa, essa educação que nos habilita a ser boas ménagéres, já que o sr. Ramalho gosta de francezismos, recebemol-a nós todas com o exemplo e lição de nossas mães.
Em Portugal onde todo o serviço domestico é geralmente feito em casa, todas nós sabemos como se lava, como se engoma, como se cozinha, como se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que não fazem esses serviços sabem como eles são feitos, pois desde crianças os viram fazer. O que não sabemos, lá isso não, é diferençar os diferentes gêneros de mobília e o seu estilo característico nas épocas mais notáveis da arte ornamental, etc. etc.; mas em quanto considerarmos, como até agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos fala, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos.
Em quanto á nossa educação moral, estamos convencidas que em paiz nenhum as mulheres são mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais sóbrias e econômicas, mais submissas á vontade do marido que nós, e toda a eloquência do sr. Ramalho não é capaz de abalar sequer a nossa convicção.
Em França e em Inglaterra ha muitas mulheres--por profissão--enfermeiras, aqui não as ha senão nos hospitais, e nem se lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ela seja mãe, esposa, filha, irmã, ou mesmo criada, ha uma enfermeira solicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacila ante os horrores do contagio, que tantas vezes aniquila o animo de homens enérgicos e audaciosos.
Para sabermos fazer prodígios de economia não precisamos de nos alistar em uma escola inglesa, e, se o não soubessemos, a primeira mulher do povo que interrogassemos em ol-o ensinaria. Também em Portugal se póde sustentar uma família com 18$000 réis por semana, mas em essa família--o chefe, que trabalha do nascer ao pôr do sol, sustenta-se comendo três tigelas de caldo que lhe custam 10 réis cada uma, 20 réis de sardinhas, e 10 réis de brôa por dia: total 90 réis.
Convença os homens, com a sua deslumbrante eloquência, de que este alimento é muito suficiente para lhes conservar robustas as forças vitais, e verá como nós todas fazemos economias prodigiosas, e como uma casa deixará de ser uma lôba para se transformar em uma burra.
Mas se considera como o ideal da perfeição na mulher, ser ela o braço forte e escudo da família, também lhe podemos aqui apontar numerosos exemplos de essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pão dos filhos, em quanto os maridos ficam em casa cosinhando: já vê que para qualquer de nós realizar o seu ideal basta casar em Avintes.
A educação intelectual das mulheres, quando elas se não dediquem a ser mestras, póde, e até deve, assim como a moral, receber, como complemento necessário, as lições dos homens de quem forem esposas. Assim reconhecendo no marido superioridade em tudo, até mesmo nos conhecimentos literários, ser-lhes-ha mais fácil ter por ele esse respeito que a religião e a sociedade nos impõem como o primeiro dever da esposa.
Em quanto á emancipação das mulheres, esse sonho dourado das senhoras inglezas--nós, menos profundas pensadoras, não o queremos.
Entendemos que a naturesa, que nos obriga a sofrer cruciantes dores físicas para atingirmos o apogeo da nossa gloria--o ser mãe, nos ensina a todas, que a nossa missão na terra, é saber sofrer e amar, por isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que acaba de nos fazer sofrer as dôres da maternidade, e abençoamos reconhecidas a mão que prende as nossas algemas de escravas, quando essa mão é a de um homem, em quem passados os entusiasmos da paixão, encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos.
Regenerados os costumes dos homens, a família portuguesa, constituida como até agora, poderia ser apresentada como modelo ás nações mais civilizadas da Europa.
Filhos ambos da mesma terra, e quase da mesma idade, considero-me sua irmã e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua inteligência, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa sua robustez física, a sua grande cabeça na qual o chapéo de Thiers ou de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros, que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaços dos circos o trabalho de fazer rir o publico.
Em paga de todos os favores, que lhe peço, prometo fazer-lhe só um, mas esse importantíssimo.
Não dizer a nenhuma senhora portuguesa com que caldo creseu e medrou o sr. Ramalho, senão julgal-o-hiam tão criminoso como quem maldiz dos seus.
Sua
Irmã de Caridade
Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que efetivamente é escrito por uma senhora. Sob este ponto de vista ele é para nós de um valor inestimável. Este folhetim é a mulher. Não somos já agora nós que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a retratar. É ela mesma que vem reproduzir-se em estas paginas com em um espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa acquisição da nossa galeria. Não somos nós que a descrevemos, que a fantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um lápis suspeito de inhabilidade ou de má fé. Veem que é ela mesma que aparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua prosa com através de um vidro. Queira aproximar-se, meus senhores! queiram aproximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a!
Aí a têm! É assim que ela é. Não ha artificio, não ha preparo, não ha processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade mesma. Reparem bem, meus senhores, que não é Proudhon que a descreve, não é Coubert que a pinta, não é Offenbach que a põe em musica. É ela mesma, ela em pessoa, que corre uma cortina e aparece.
O que estais contemplando é a obra da direcção mental que nós mesmos imprimimos ao nosso tempo, é o fructo legítimo e autentico da filosofia, da literatura, da arte, da corrente geral de idéas que temos produzido e impulsionado: é a nossa mulher tal como nol-a fizeram os contactos da nossa convivência--a escola, o jornal, o livro. Revêde-vos na vossa obra.
Esse curioso ente representa a soma de vinte anos de poesia lirica e de pó de arroz, de retórica e de chic, de doce de ovos e de cuia, de recitação ao piano e de tacões Luiz XV, de colégio nacional e de cold-cream, de figurino e de água morna. Glorioso conjuncto.
Vede que lucidez de razão! que firmeza de critério! que contensão de raciocínio! Como se adivinha bem no poder de essas faculdades intelectuais a circulação fácil e viva através da rede dos nervos encefálicos de um sangue opulento e forte! A mente sã que tão vigorosamente se afirma no curioso trecho literário que acabais de ler presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o músculo mais racionalmente exercitado por uma sabia higiene. Pela sua forte maneira de pensar podeis ajuizar com segurança da sua forte maneira de viver. Vede e aplaude! Aplaudi-a a ela pelo que aprendeu; aplaudi-vos a vós mesmo pelo que lhe ensinastes.
Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quais ela se diz interprete, dirigi-se ás Farpas na pessoa do seu auctor.
O que são as Farpas com relação ás mulheres?
As Farpas são a publicação periódica--única em Portugal--que em artigos consecutivos desde a sua aparição até hoje se tem constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica á reconstituição dos costumes e á reorganisação da família segundo o critério porque se dirigem as sociedades modernas; elas têm combatido violentamente o divorcio; têm despojado o adultério da clâmide dramática em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o flagelarem pelo ridículo na sua torpeza nua; têm honrado o casamento indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituições perante a dignidade humana; têm fulminado o celibato como um aleijão fisiológico e social; têm dado como base á emancipação da mulher a instrução pratica, tão deficiente, e a alta cultura do espirito, tão negligentemente descurada na antiga educação; têm-lhe ensinado que é aprendendo desveladamente a ser útil que ela descobrirá o segredo de ser verdadeiramente e eternamente amada; têm solicitado a sua colaboração no estudo dos modernos problemas sociais como factor indispensável á fixação do nosso destino; têm pedido instantemente para ela a fundação de novas escolas de ensino especial e de ensino superior; têm-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis anos palavras graves, affectuosas, sinceras; têm-lhe falado, como velhas amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da cosinha, do jardim, da adega, do armário das roupas brancas, do valor dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; têm-lhe feito presente de uma infinidade de teorias, de noções, de projectos, de sistemas, de programas completos, imperfeitamente concebidos--é claro--mas demonstrando uma dedicação excepcional, por isso que nenhuma das publicações periódicas que precederam esta se dirigiu jamais ás mulheres a não ser para lhes consagrar romances de uma moralidade suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa.
Depois de publicados cerca de quarenta volumes da coleção das Farpas uma senhora tem finalmente alguma coisa que dizer ao auctor, e manda-lhe o seguinte conselho como resumo da opinião colectiva de todas as damas portuguezas:
«Que ele trate de outro oficio e deixe aos palhaços dos circos o trabalho a que até aqui se tem dado de fazer rir os outros!»
Este simples conselho é como um relâmpago, nas trevas do nosso espirito. Ele de per si só basta para nos convencer de que a educação das senhoras portuguezas não só é igual--como a auctora modestamente formula--á das primeiras mulheres extrangeiras, mas que póde mesmo considerar-se-lhe superior. Efetivamente madame Sand, madame de Girardin, Lady Morgan não tiveram nunca para dirigir a um escritor qualquer--amigo ou adversário--uma palavra tão lucida, tão conceituosa, tão profunda e ao mesmo tempo tão finamente aristocrática, tão nobremente distinta como aquela com que somos honrados pelo critério da nossa ilustre compatriota. Sua excelência entende que não somos mais que um palhaço de circo, opinião profundamente filosófica. É talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos lessem. É natural porem que elas tivessem achado entre as suas perolas, entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas recordações perdidas da sua carteira ou do seu coração, um pequeno meio qualquer de não chamarem completamente palhaço com todas as suas cinco letras e a sua respectiva cedilha, p-a-l-h-a-ç-o a um homem a quem os seus maridos lhes houvessem permitido dirigir uma carta pela imprensa.
Sua excelência a ilustre escritora portuense tem da dignidade alheia e da sua própria dignidade uma comprehensão diversa, que não podemos deixar de atribuir com orgulho patriótico á influencia local da rua de Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina.
Não é menos original nem menos profundo o modo como a nossa distinta compatriota contesta a conveniência de ensinar fisiologia humana e chimica culinária ás menínas portuguezas. Se sua excelência tivesse efetivamente a instrução que nós pretendemos que se lhe deve dar; se sua excelência houvesse comprehendido que a mais nobre missão da mulher é, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que estava apta para cumprir no seio da sua família essa missão, sua excelência nos convencesse de que conhecia a síntese chimica da nutrição, a evolução celular, a relação existente entre os fenômenos da nutrição e do desenvolvimento, do movimento e da combustão; se nos mostrasse que estava habilitada a distinguir os princípios alimentares pelas suas classificações mais genéricas, os que fornecem o calor e a força e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica aplicada á higiene, pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as substancias alimentícias, pelo sr. Champouillon na sua Hygiene alimentar, pelo sr. Claude Bernard nas suas lições e conferencias, pelo sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentação insuficiente, pelos srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud, Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua excelência possuisse finalmente--ainda que no estado da mais ligeira tintura--alguma das noções em que se basea a teoria da cosinha, que é um dos mais importantes factos da higiene ou da fisiologia aplicada, o seu voto em esse caso poderia ter discussão.
A brilhante ausência de ideias que sua excelência manifesta sobre este assumpto dá ao seu voto um caráter irrevogável, que não pode infundir nos adversários senão admiração e respeito.
É inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o seu próprio organismo qual o dispêndio de carbone e de azote em cada hora, já dormindo, já caminhando, já executando um trabalho mental ou muscular, para regular sobre este dispêndio a ração alimentar de cada individuo. É inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as analises mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo dos diversos alimentos e da quantidade de força e de calor desenvolvida pela oxidação de eles. É inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton nos tenham mostrado pela comparação das estatísticas da salubridade nas campanhas da Criméa e da Itália o extraordinario poder da qualidade da alimentação sobre a saúde e sobre a energia dos soldados. É inutil que pelo estudo de iguais estatísticas com relação á alimentação de operários empregados nas grandes industrias se tenha provado que da qualidade da alimentação resulta o augmento ou a diminuição de 20 a 30 por cento no trabalho de cada homem. É inutil que Geoffrey Saint-Hilaire nos tenha dito: «Quantos factos na vida das nações atribuídos pelos historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside simplesmente na cosinha das famílias!». É inutil que toda a sciencia tenha provado que a maioria dos crimes e dos vícios se deve atribuir em cada sociedade ao seu regímen alimentício; que o uso dos alimentos nervinos é uma necessidade inviolável na rude concorrência vital do nosso tempo; que é indispensável perante a moral e perante a justiça melhorar a alimentação dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisição dos alimentos plásticos e reparadores geralmente insuficientes na sua economia. É inutil que em todos os paizes civilisados os sábios, os filósofos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisação e de associação chamar a atenção das mulheres para o estudo e para a resolução de esse grave problema cuja sede é a cosinha. É inutil tudo quanto se tenha alegado e quanto possa alegar-se para convencer esta ilustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus semelhantes do facto de ela aprender a fazer caldo um pouco menos empiricamente do que por tel-o visto fazer á cozinheira da sua avó.
Sua excelência tem para manter a inalterável tradição sobre os métodos de deitar a carne á panela nas cosinhas da sua rua este argumento supremo: Foi com essa panela á frente que os portuguezes contiveram em respeito o poder de Castela e praticaram prodígios de valor Da Asia, na Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excelência foi abraçados à travessa do cosido que nossos avós descobriram a Índia e que os pais de uns de nós resistiram aos pais dos outros durante o cerco do Porto. Os vencidos jantavam no Bignon ou no Café Anglais.
Em presença de essa logica de ferro submetemo-nos humilhados e reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excelência afirma, nada se nos oferece retorquir. Mantenha-se o statu quo na perfeita educação da mulher portuguesa. Continue sua excelência imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um vestido e que sabe também--ó legítimo orgulho!--fazer doce.--De mais a mais--notem--sua excelência faz doce! Não! positivamente nada se nos oferece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Não precisa de saber mais nada. Aí tem sua excelência uma opinião que lhe garantirá «as solidas virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os entusiasmos da paixão»:--sua excelência gosta de assucar!
Quem sabe se não será por um efeito do atavismo sobre a gula qae os meninos de quinze anos de quem sua excelência nos fala vão beber licores para os botequins?
As mães dos que amam os jogos atléticos e as proezas musculares têm elas mesmas não a opinião do assucar mas sim a do roast-beef e da água fria; não fazem doce, fazem gymnastica, e não ensinam os filhos unicamente a comer marmelada, a ir á novena e a não meter os pés nas poças; ensinam-lhes o cricket, a natação e o box, dão-lhes desde a idade mais tenra os hábitos mais viris, e, como sabem impedir que eles vão para os botequins, não costumam encarregar os criticos de lhos ir lá buscar.
Sua excelência não se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo segundo os preceitos de Liebig, que nós lhe aconselhamos supondo que Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais de isso do que o Antônio das Moças, celebre inculcador de cosinheiras, encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da arte culinária. Sua excelência não só não quer fazer caldo em termos para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobília, comprar os pratos e os copos, determinar a diferença de cor nos estofos do salão e da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna, pagando assim em elegância, em delicadeza e em bom gosto á sociedade conjugal um serviço igual àquele que recebe de ela em proteção, em trabalho e em força. Sua excelência prefere deixar todos esses conhecimentos aos cuidados do dono da casa (!) cuja vontade considera a lei suprema, na escolha de todos os artigos!
Ficariamos na mais inquietadora dúvida acerca das funções que sua excelência deseja exercer no lar domestico, se ela mesma não tivesse a bondade de nos explicar que a ocupação para que se reserva é a de abençoar agradecida a mão que prende as suas algemas de escrava (!)
O que nos parece é que esse mister exclusivo de sua excelência não promete uma existência bem divertida em família ao portador das suas algemas!
Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua excelência recusasse aprender pelo menos, além de abençoar os ferros, a jogar a bisca. O nosso temperamento não nos permitiria estar a dar-lhe constantemente o grilhão a abençoar; quereriamos ter a faculdade de poder dar-lhe também, de quando em quando, para variar, uma boã rôlha.
O folhetim de sua excelência termina com uma alusão pessoal à nossa robustez física e ao caldo que nol-a criou. Sobre este ponto pedimos licença para ministrar alguns breves esclarecimentos biográficos:
Eu--pois que é bom precisar a clareza dos números--eu, auctor de estas linhas, não me creei no regímen dietético do Chiado ou da Calçada dos Clerigos. Não, minha senhora: eu creei-me no caldo de unto e na broa dos homens do campo. Estou prevendo que sua excelência tirará de este facto a conclusão maliciosa de que não tomei chá em pequeno. Que sua excelência não hesite um momento em tirar tal conclsão! É até favor que me faz--para simplificar os dados do problema--o partir do principio de que não tomei ease chá.
Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudável e honesto da querida courela onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos minerais de que me nutria havia um principio de primeira importância para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouço:--o fosfato de cal, que eu ingeria em grandes dozes.
A nossa casa, cercada de árvores, no meio de campos, não tinha saguão, não tinha vizinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, não tinha pia.
A vida que cercou a minha infância era simples, rude, poderosa, como o grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha família o primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das teorias dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um instincto cheio de lucidez, os dois principais deveres de uma mulher: Primeiro ser saudável; Segundo não ser conhecida. No interior da sua casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, de ordem, de economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se fechar de memoria de homems ás 10 horas da noite, o mais tardar. Não se desprezavam de cultivar, elas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um dia condensar em um livro toda a soma de método, de ordem, de execução estética, de picante espirito pitoresco, de risonha graça, de que era modelo a incomparável cosinha da minha avó,--aberta ao nível do pátio defronte do poço, cheia das alegrias cintilantes do sol e do balsâmico perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabelos de carvalho de cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira onde se espanejavam os capões; os troféus ornamentais dos instrumentos agrícolas; as prateleiras da louça reluzente; o cortiço da barrela e a masseira do pão a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos moços da lavoura tendo em cima a grande celha com a braçada verde dos frescos legumes picada com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas eflorescências dos broculos; e no meio de isso a intervenção periódica do mendigo de estrada, de alforge ao pescoço, que vinha encher a sua escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardais mais atrevidos iam sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.
Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensação de tépido aconchego, de suave alegria, de inalterável paz; inspirava sentimentos práticos e honestos; era o complemento e o comentário vivo das velhas historias contadas á lareira; infundia o respeito da tradição; dava o amor da família; explicava o amor á, terra da pátria pela dedicação ás quatro braças de solo cobertas por esse velho tecto.
A cosinha de minha avó era finalmente uma profunda obra de arte, da qual os mais belos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da poesia domestica, não puderam dar-me jamais senão uma ideia desbotada e fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas literatas tem havido em Portugal não pode senão fazer-me sorrir comparada á obra modesta de minha avó, que ela tirou em um preciosa exemplar único para a educação das suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da saudade eterna dos seus netos.
A minha robustez física é o mais contraproducente dos argumentos que a minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mãe. A minha robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raça de mulheres, que os nobres cuidados da sua casa e da sua família tiveram sempre ao abrigo das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas vezes empalideceram nos bailes e não tiveram nunca de que corar aos folhetins dos periódicos.
Terminando, agradeço de novo os conselhos de sua excelência a ilustre escritora minha patrícia, mas peço licença para os não seguir. Continuarei a fazer rir os outros, o que me não impedirá de fazer também chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso.
Por ocasião da visita de el-rei á Escola Polytechnica funcionou o telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada.
Aproximando-se do novo aparelho transmissor dos sons, dizem os jornais que sua majestade ouvira--um solo de cornetim!
Houve primeiro dúvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o Observatorio Astronomico ou se a ligava com a filarmônica União e Capricho. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio. Enquanto a astronomia tocava cornetim é natural que, em compensação, a arte musical se ocupasse em determinar uma paralaxe.
A única coisa que extranhamos é que o Observatorio não observasse entre as suas peças de musica alguma coisa mais interessante para transmitir a el-rei do que o próprio hymno do mesmo augusto senhor.
Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de acordo! mas que ele cultive igualmente a especialidade do hymno parece-nos um abuso que o príncipe não levará a bem.
Refletiu por acaso o Observatorio no que é o hymno para um cérebro coroado? Cremos que o Observatorio não desceu ainda com as suas conjecturas ao fundo de esse abismo. É horroroso.
Para os cérebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa. O observatório faz certamente ideia do que é ter zumbidos, não é verdade? Pois ter hymno é peor. É ter constantemente, durante toda a vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas vilas, nas aldeias, sobre as próprias águas do mar, sempre, por toda a parte como doença crônica, como afecção incurável do nervo acústico, a audição do mesmo trecho de musica!--O que deve levar paulatinamente á loucura.
Que o Observatorio se compadeça do infeliz príncipe condemnado a tão incomportável flagelo! O Observatorio ha de ter conhecimento das contrariedades que amarguram a existência; o Observatorio ha de ter faltas de dinheiro, ha de ter constipações, ha de ter dores de dentes, ha de ter calos. O príncipe tem tudo isto, e demais a mais também tem hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal ás regiões da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que não ha outro remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terríveis, mas sejamos justos! A providência colocou-nos na mão o cornetim. O monarcha presta-nos submissamente o seu real ouvido. Não abusemos de esse instrumento poderoso e de essa orelha inocente! Compenetremo-nos da tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeças! Somos cornetistas, mas somos também astrônomos... Toquemos o Pirolito!
E a posteridade nos abençoará.
Ha tempos que na sociedada portuguesa se notava esta grande falta: A hidra da reação desaparecera da orbita dos conflictos do poder politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada manhã nas secretarias do Terreiro do Paço, perguntavam angustiadamente uns aos outros:
--Não viram por aí a hidra?
Ninguém a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha entumeciam de impaciência por não poderem esmagar o monstro; e o sr. Mexia, sem hidra que acometer, sentia-se calvar de humilhação na sua dupla qualidade de ministro dos negócios eclesiásticos e de pretérito imperfeito do verbo Mexer.
em esta conjuntura por tantos títulos dolorosa o sr. marquês de Avila, presidente do conselho, tomou uma resolução heroica: determinou ser hidra do meio dia por diante. E principiou a acumular engenhosamente as suas funções de bicha ultramontana com as suas funções administrativas de homem de estado. Pela manhã s. ex.ª governa. De tarde s. ex.ª rabêa.
Eis um dos resultados da dualidade que s. ex.ª se dignou de assumir para salvar a situação da falta da hidra:
O serviço dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz. Catholicos e não católicos eram levados para o cemitério municipal pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas de esse facto uma pequena questão canônica que o sr. patriarca de Lisboa resolveu do modo mais exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemitério como uma instituição municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos que desejassem repousar em terreno sagrado, e não benzessem as de aqueles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil. Não tinha jamais de intervir a policia. O ministério do reino estava a esse respeito completamente sossegado em sua secretaria. Finalmente podia-se morrer em Lisboa só pelo gosto de ser tão tranquilamente enterrado.
em isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua fórma de hidra e determina em favor da morte católica a creação de um muro semelhante ao que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento á portaria de s.ex.ª e discutir o modo de levantar o muro. Propõem-se a tal respeito vários alvitres sobre os quais predomina em última analise o do sr. dr. Jardim.
Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor em este pleito. Concorrem de facto em essa cavalheiro todas as condições que se requisitam para o triunfo. Em primeiro logar, pelo lado físico, ele dispõe da primeira cabeleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intelectual, ele tem uma formula. A sua formula é esta: «...O bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha...» Sempre que esse homem terrível arroja para traz das orelhas a sua cabeleira e descarrega sobre os auditórios a sua formula, a Vitória é de ele. A sua existência tem sido uma serie nunca interrompida de triunfos, alcançados pela sua cabeleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabelo e de ardor o bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha que ele triumphou no quinto ano da sua formatura em direito, na defeza das suas teses de doutoramento, na exhibição das provas do seu concurso para lente da universidade, nas reuniões das associações operarias e filarmônicas de Coimbra, nos conselhos fiscais dos bancos hipotecário e de Lisboa e Açores, nas suas eternas prelecções sobre o terceiro estado, e finalmente na discussão do muro Guillomin da morte católica ordenado por s. ex.ª a nobre hidra de Avila e Bolama.
Foi baseado nos seus princípios de direito administrativo e de direito canônico extraidos do bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensão scientifica e filosófica do fenômeno social da religião e do facto biologico da morte,--comprehensão egualmente haurida do já aludido bucentauro rasgando os supracitados flancos,--que s.ex.ª o sr. doutor convenceu a vereação lisbonense a aprovar não só a creação de um muro--o que à hidra parecerá suficiente--mas a de quatro muros, o que ao bucentauro ainda parece pouco.
O muro primitivo da hidra com os três muros complementares do sr. Jardim fecharão o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos aqueles que morrerem fora do grêmio da religião católica apostólica romana.
Nós supúnhamos que o característico religioso que distinge um católico dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que cobrem a superfície da terra era um facto dos domínios exclusivos da consciência: que esse caráter desaparecia no limiar do obscuro pórtico infinito onde para a vida; que o cadáver deixava de ter uma religião, cessava de pertencer á igreja, para pertencer exclusivamente á chimica. Supúnhamos que o cemitério, considerado não só pelo seu lado civil mas mas principalmente ainda pela intenção do seu instituto christão, era o campo sagrado do respeito, da tolerância, do esquecimento de toda a discrepância de idéas, de toda a ofensa, de toda a injúria, a mansão eterna do perdão e do amor para todos aqueles que padeceram na terra as amarguras comuns da grande humanidade coberta em toda a redondeza do orbe pela larga benção incondicional de Jesus.
Estavamos grosseiramente iludidos. O cemitério, o cemitério de Lisboa, pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. João, é puramente um recinto de caráter oficial, destinado á fermentação exclusiva das podridões privilegiadas.
Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hidrópico na sua cama, bem ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em água benta pelo compadrio do seu prior, correcta e aparatosamente amortalhado, com as suas calças de galão de ouro duplamente retesadas pela inchação e pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a comenda no peito, o espadim ao lado, o chapéo armado aos pés, o cordão da ordem terceira de S. Francisco à cinta, vai legitimamente e no uso do mais sagrado direito para o cemitério, a esperar na morte a trombeta da resurreição da carne, como esperou na vida a hora da sua repartição. No dia da chamada geral no Vale de Josaphat ele porá na cabeça o seu chapéo de bicos e irá tomar o competente logar na gloria eterna, na bancada dos conselheiros, á mão direita de Deus Padre Todo Poderoso.
Mas tu, miserável canalha, tu, concebido no monturo e dado á luz no cano do esgoto, tu que não conheceste pai nem mãe, producto espontâneo da grande imundice anonima, aparecido como a flor da febre á superfície do pântano, tu que não recebeste baptismo, nem confirmação, nem ordem, nem matrimonio, nenhum finalmente de esses preciosos benefícios que abrem o céo e que a igreja confere por uma tarifa de preços superiores aos teus capitais, tu, não tinhas no cemitério de Lisboa senão um logar usurpado, roubado indignamente ás pessoas de bem. Estoiraste para um canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fora dos sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. És como um cão. A tua natureza humana não é a da outra gente. A tua podridão não é a da cabeleira do sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquês de Avila. Tu és uma besta. És peior ainda: és um impio. Vão conceder-te agora um quintal para ires para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos ateus. Muito favor te fazem estes bons senhores em te não remeterem ás equarissagens para o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado, distilado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma sobrevivencia industrial, útil ao teu próximo. Os teus princípios chimicos, o teu hidrogênio, o teu oxigênio, o teu carbono, o teu azote, poderiam achar uma aplicação pratica e decente. Poderias aspirar na tua outra vida a abotoar com os teus ossos as calças do sr. marquês de Avila e o lustrar com as tuas banhas a cabeleira do sr. Jardim e de outros doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que te destinam nada mais serás do que um eterno objecto de execração e de horror para os teus concidadãos. Quando passarem por cima da tua cova os homens sérios, a quem está prometido o céo sob a palavra de honra do padre Marnoco e de outros eclesiásticos, eles cuspirão sobre a tua dissolução infecta. As mães passarão de longe, correndo, com os seus filhos pela mão, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocráticas, entrevendo de passagem o teu cipreste agoirento, benzer-se-hão com as suas finas mãos pálidas e rezarão os esconjuros mais eficazes no fundo tépido dos seus ligeiros coupés. Assim com as abençoadas sepulturas dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dará os horrendos enguiços. E eu te afirmo que ainda havemos de vêr aqueles que eram cegos e que recuperaram a vista abraçando-se ás sagradas relíquias de um bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem afirmando-se nas vegetações malignas cujas raízes se tenham contaminado no teu húmus preverso! Finalmente serás detestado, abominado, execrado, maldito,--cem mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanças, pela cidade inteira.
E cuidas tu, miserável, que poderás encontrar um dia na eterna justiça inviolável a compensação de este desprezo systematisado, de este rancor que é um regulamento municipal, de este ódio que é uma lei do reino? Como te enganas! O que tem de te suceder é irremissivelmente o seguinte:
No dia do juízo final tu ouvirás na profundidade do teu estrume o canglor da enorme trombeta mais longa que a via láctea, soprada por um anjo que desde o principio do mundo terá estado a recolher no pulmão para os expelir em esse instante, todos os estampidos da natureza, todos os bramidos do mar, todas as erupções dos vulcões, todas as quedas das catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovão e do raio. Não terás remedio senão acordar,--quer queiras, quer não--do teu pesado sono da matéria bruta. Serás levado á revista do grande Vale por dois cerúleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas como moxilasinhas feitas da penugem do sol. Esses cherubins dir-te-hão com a sua doce voz polida, afetuosa, mas vibrante: «Você ha de ter a bondade de passar ali para a mão esquerda de Deus Padre porque é condemnado.» Tentarás escapulir-te, safar-te para a podridão de que tinhas vindo. Apelarás para o juiz supremo. O arbitro da eterna justiça inquebrantável cravará em ti os seus olhos. Tu o verás também a ele, com a sua longa barba que envolverá toda a terra, o seu bigode de interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus dedos, chisparão os raios na amplidão infinita. Ouvirás a sua grande voz, cujas silabas cairão na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Ele dirá:--«Deram-lhe o baptismo? Não. Deram-lhe a confirmação? Não. Deram-lhe a penitencia? Não. Deram-lhe a absolvição da culpa? Não. Não lhe deram nada. O cherubim tem razão. Passe para a mão esquerda.» Então passarás para a esquerda. O teu anjo custodio abrirá um alçapão aos teus pés e gritará para baixo, para as profundidades do imenso vórtice:--«Fogo eterno para um!» Depois do que, te tocara com um sopro. Tu despenhar-te-hás cortando o espaço como um astro cadente, sem luz, semelhante a uma Estrela sombria feita de lama, até te submergires no tremendo abismo, na punição eterna. E será por todos os séculos dos séculos, sem fim jamais.
Eis aí tens o que te espera, segundo a religião do dr. Jardim e outros. Religião bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas mãos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava ele mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos! Bem diversa da de aqueles christãos da igreja primitiva, que assombravam Tertuliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do que os pagãos consumiam para celebrar os seus sacrifícios; lavavam os cadáveres, envolviam-os em seda; velavam-os durante três dias antes do os conduzirem á sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os colocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E não resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionários: os primeiros christãos enterravam também, indistinctamente, todos os pagãos pobres e desamparados, todos os heréticos, todos os ateus, todos os impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o sacrifício bastava ser desgraçado. Por isso disia o imperdor Juliano que fora a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais contribira para o estabelecimenlo e para a propagação do cristianismo.
Agora, estabelecido o novo cemitério, resta-nos vêr como s. ex.ª o ministro do reino resolverá os conflictos promovidos contra ele mesmo por s. ex.ª a hidra. E sobre este ponto temos algumas dúvidas a que muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos em outros termos--a atenção do seu gênio. Eis um dos casos sobre que pretendemos consultar s. exª:
Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor de estas linhas, não querendo enterrar-se de todo por uma só vez, resolvia enterrar-se por partes e dar á terra uma das suas pernas para a terra se ir entretendo.
em esta hipótese pergunta-se:
Onde é que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha o capricho de descartar-me?
Estou prevendo que o bucentauro de s. ex.ª, atribuindo indiferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente escrito, me prescreverá o logar destinado por s. ex.ª para os membros impios e locomotores.
A isto porém replico a s. ex.ª que a minha perna quer se trate da direita, quer se trata da esquerda, é boa católica apostólica romana. Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei à pia baptismal, e aí lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em língua latina, que ela a esse tempo ainda não tinha tido tempo de aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu Volo! E este volo era como se fosse a minha própria perna que houvesse aprendido as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o parocho se ela acreditava na comunicação dos santos, na resurreição da carne e na vida eterna. Ao que ela respondeu, sempre pela boca do meu padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali tinha ido com o seu respectivo pé e com o pequeno apêndice que era o resto da minha exígua e inocente pessoa. Desde esse dia até hoje bem varias e bem extranhas aventuras se têm passado com a perna cujas crenças religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe compete na funeral mansão. Ela porém, ex'mo. sr. doutor, apesar de todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca até hoje contradisse--que me conste--as declarações latinas feitas em seu nome por meu padrinho: Volo, credo, abrenuntio. Ela portanto é católica, e tem direito á sepultura sagrada na terra e á bemaventurança no paraíso. O sr. Jardim não póde de modo alguma mandal-a para o cemitério dos ateus.
Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete á funeral jazida de uma das minhas pernas é o cemitério católico. A essa resolução tenho egualmente de opôr-me com os fundamentos seguintes:
Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissão, a missa, a comunhão, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias não significa da parte da minha perna uma afirmação religiosa mas sim uma afirmação civil.
Pelas leis do reino a religião católica apostólica romana não é facultativa, é obrigatória. A minha perna não póde entrar no estado sem ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que substitua o assento baptimal para a consignação do nascimento, a minha perna nem sequer portuguesa póde ser enquanto não for baptisada! Em todo o decurso da vida civil, ela não póde dar um só passo sem primeiramente demonstrar que é católica. Sem a certidão de baptismo, primeiro, sem o atestado passado pelo parocho da frequência de todos os demais sacramentos depois, ela não póde fazer exame de instrução primaria; não póde matricular-se em nenhuma das escolas; não póde entrar no exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funcionalismo, nem na magistratura, nem na representação nacional. Não sendo católica não póde ter nacionalidade, não póde ter profissão, não póde ter estado, não póde ter mulher, não póde ter filhos, não póde nem ao menos ter nome!
A todas as portas da sociedade portuguesa se pergunta á minha perna antes de a deixar penetrar, se ela é católica, exactamente como se lhe pergunta se ela está isempta do recrutamento e se é vacinada.
Desde que veio á luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de nascer, pertence irremissivilmente á igreja. Sem previa licença da igreja ela não póde dar um único passo para dentro do estado ou para dentro da família. Esta simples aspiração, tão modesta: ser filha de meu pai e de minha mãe--a minha perna está prohibida de a ter sem que a igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossível o poder eu demonstrar de um modo jurídico e autentico que a minha perna seja efetivamente minha enquanto a igreja não disser também que sim. De sorte que, quando eu ouso dizer a minha perna, sirvo-me de uma arrojada metáfora, que espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente deveria dizer em linguagem literal, para me referir á minha perna, era--a perna da igreja.
Se estamos pois em um paiz onde o estado priva absolutamente a minha perna da faculdade de escolher uma religião, chumbando-lhe ele mesmo o catolicismo no tornozelo, como se chumba a grelheta em um condemnado, recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o direito de afirmarem que a minha perna tenha ua religião. Pelo facto de ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada ano, de comungar pela Paschoa da Resurreição, de jejuar á sexta feira, de acreditar na infalibilidade do papa, etc., a minha perna não está na religião, está apenas na lei civil, está na carta. Em quanto a crenças religiosas, o mais que se poderá dizer da minha perna, apesar de baptisada, de jejuada, de confessada, etc., é que ela é cartista.
Como porém a creação das duas especies de cemitérios imaginados em Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquês de Avila não póde ter por fim separar os cidadãos que obedecem á carta dos cidadãos que lhe não obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de dois regulamentos opostos, um para o cumprimento de ela e outro para a sua transgressão,--é claro que não póde ser unicamente pelo facto de estarem os restos de alguém dentro da lei civil que se lhes ha de designar a sepultura sagrada.
Em conclusão final: Dada a coexistência de dois cemitérios, um católico outro não católico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ela é efetivamente católica ou se não é católica, acha-se no caso especial de não poder ser mandada nem para um nem para outro de esses cemitérios, e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim não mandar o contrario.
Ora sucede que todos os cidadãos portuguezes, sem excepção alguma, se encontram precisamente nas mesmas condições em que se acha a minha perna.
Não se póde afirmar que alguém é católico ou que o não é enquanto a creação do registro civil não assegurar a cada cidadão a livre faculdade de exercer ou não qualquer de estes direitos: nascer sem padre, casar sem padre, morrer sem padre.
Excelentíssima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Paços da Camara na Praça Nova, esquina do Laranjal
Porto
Excelentíssima camara e minha boa senhora. É cheio dos maiores cuidados pela preciosa saúde de v. ex.ª que lançamos mão da pena para, em nome de todos os forasteiros que foram a essa cidade por ocasião da cerimonia inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex.ª algumas regras.
Principiaremos por dar a v. ex.ª uma breve noticia da festa em que tomamos parte e em que v. ex.ª teve as suas razões para não se dignar de comparecer.
Por convite da direcção da companhia dos caminhos de ferro portuguezes reunimo-nos na estação das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado pelas 11 horas da manhã. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande comboio extraordinario e paravamos em frente do Porto, á entrada da nova ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que presenceamos desde Gaya até á estação de Campanhã e do qual procurarei, certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.ª!
Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lácteo e cerúleo como o de uma perola azul, abraça amorosamente a natureza e banhava a paizagem em uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus encantos topográficos, desde a Foz, envolta na sua atmosfera marítima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado oposto, levemente esfumados no horizonte sob as douradas pulverisações do sol. Viamos a ridente colina de Vilar coberta de verdura e coroada pelo Palácio de cristal; os copados bosques do Candal e de Vale de Amores; o cais da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pitoresco mercado de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a íngreme ladeira da Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias da Se e do Bomfim, com os seus prédios esguios, terminando quase em pignon como na Holanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos, reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados, fazendo fincapé para não cambalearem como ébrios taciturnos; outros, ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de cor de rosa, com chaminés bordadas e claras-boias fantasistas rematadas por trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de Vale em Vale, os lindos subúrbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração de um pequeno lago circular dominado por um elegante palácio Luiz XV, de torreões e eirados senhoriais, cuja elegante escadaria exterior mergulha venezianamente na água.
Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebração da cerimônia inaugural estava literalmente cobertas de gente. Os montes próximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetação humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos os jardins, todos os quintais, todas as janelas, todos os muros, todos os telhados, todas as superfícies, todos os contornos, todas as arestas, tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regiões do paiz estavam aí reunidos. Para que?
Para celebrar um puro facto scientifico--a solução de um problema de mechanica. em este simples facto, exm.ª camara, que symptoma! que fenômeno! que revolução!
Ha bens poucos anos ainda só o fanatismo religioso tinha o poder de determinar as grandes romagens a S. Tiago de Campostella, a S. Torquato de Guimarães, á senhora da Nazaré, á senhora do Cabo. Os peregrinos iam então solicitar a intervenção milagrosa dos bons santos nos seus casos pathologicos, nas suas ambições pessoais, nas suas questões domesticas: os paralíticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz, os tristes iam pedir consolação, os turbulentos iam pedir paz, e os mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoço, a longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no pó dos caminhos, iam simplesmente á beira das estradas pedir pão em troca de plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.
Os peregrinos á ponte sobre o Douro não eram movidos por interesse algum pessoal.
Esta romagem de novo gênero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se o nosso aparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos exteriores da sua velha structura, por outro lado ele anuncia já uma funcionalidade diversa.
Um poder absolutamente novo, que não é o poder religioso nem o poder politico, com quanto não afirmado ainda nas instituições, revela-se já por este facto na comprehensão dos espíritos. Esse novo poder, irrevogavelmente destinado a substituir todos aqueles que sob diversos nomes têm gerido até hoje a direcção da sociedade, é na esfera espiritual a sciencia e na esfera temporal a industria.
A ponte sobre o Douro é a mais bela e a mais perfeita expressão simbólica de esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solene de que ha exemplo na historia das manifestações do aplauso publico. Era tão superiormente elevado o caráter de esta grande festa da civilisação, que perante o objecto de ela desapareceram como por encanto em esse dia todas as incompatibilidades, todas as dissidências, todas as distincções de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portuguesa. A direcção da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de convidar para o banquete que se seguiu á solemnidade da inauguração os individuos representantes das opiniões mais extremas, o mundo oficial e o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes revolucionários. Estes personagens tão justamente surprehendidos de se acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoço cujos convivas não tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergências episódicas de opinião, havia um sentimento de atração comum, de conciliação geral, em nome do qual aí tinham convergido todos. E esse sentimento era o respeito do trabalho, de essa imensa e irresistivel força anonima, obscura, lenta, perseverante, que o seio das bibliotecas, das fabricas, dos laboratórios, dos gabinetes de estudo, vai dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o aperfeiçoamento e para a felicidade.
Não foram os reis nem os exércitos nem os padres, mas não foram também os jacobinos nem os demagogos nem os ateus os que têm guiado e dirigido até hoje a humanidade na sua ascenção através da historia. Foi ele unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos remansos da paz, nos recolhimentos da aplicação e do estudo o que determinou todas as conquistas, todas as victórias, todos os triunfos das sociedades.
A ponte sobre o Douro symbolisa uma de essas conquistas, uma de essas victórias, um de esses triunfos:--a conquista de perto de meio século de paz; a Vitória, proporcional a esse período, da inteligência do homem sobre as fatalidades da natureza, o triunfo finalmente do destino progressivo do nosso espirito sobre a imobilidade das nossas instituições.
Ha cerca de quarenta anos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas estreitamente enlaçadas agora por um abraço de ferro, eram separadas por um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nós agora nos reunimos para regar o solo com o champagne das ágapes modernas, os nossos pais e os nossos avós espingardeavam-se convictamente, decidindo com o sacrifício das suas vidas a questão de palácio a esse tempo debatida entre dois príncipes.
A guerra com tal fundamento seria hoje insustentável. É evidente que progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente afirmação de esse progresso.
A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus príncipes, dos seus reis, dos seus generais, dos seus mandões de toda a especie, teve pela primeira vez em esse dia a visita do povo.
Como foi que v. ex.ª, representante do município portuense recebem este seu novo hospede? Não lhe aparecendo!
V. ex.ª, que tem dado a esse espinhaço os tratos mais violentos e mais irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se em uma reverencia satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.ª que tem desengonçado e desarticulado a retórica municipal debaixo dos pés da real família; v. ex.ª que conserva ainda entre os ferros velhos do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--as chaves de esse heroico baluarte depostas em cada ano por v. ex.ª--dizemos--não teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solene e a mais extraordinária manifestação de estima de que ainda foi objecto uma cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.
Este simples facto basta para nos provar que v. ex.ª desconhece completamente qual é o espirito municipal das modernas sociedades democráticas, que v. ex.ª está cem anos atraz do seu tempo, e cem furos abaixo da missão em que foi investida pelos sufrágios da população portuense, tão enérgica, tão inteligente e tão progressiva.
É possível que v. ex.ª tivesse tido que fazer em esse dia que houvesse contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada com alguma camara sua vizinha para uma honesta merenda, para uma boa patuscada, para alguma das bem conhecidas sapateiradas, nas quais todo o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abismar no arroz do forno e na carne assada no espeto. Mas em esse caso porque é que v. ex.ª nos não preveniu? Durante a ausência de v. ex.ª, minha boa senhora, a sua cidade estava imunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso telegráfico nós, que fomos de aqui unicamente com as nossas camizas, teriamos levado também as nossas vassouras nas malas e a nossa resignação para o desgosto de a não vermos no espirito.
Aceite minha senhora a expressão dos nossos sentimentos, tão cordeais como aqueles que v. ex.ª nos não exprimiu.
Dissemos no precedente volume de estas chronicas que o sr. Fontes Pereira de Melo, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre os deputados governamentais e as boninas em flor, a jumentinha do poder.
Eis o que ao depois ocorreu:
A pacata bestinha da governação andou a monte por alguns meses, choutando ao acaso, pungidas nos ilhais pelos tacões do sr. Barros e Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo ilustre estadista e cavaleiro. Para onde é que s. ex.ª, coberto de zelo e de suor, queria com tanta violência equestre encaminhar a onagra?
--Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex.ª com uma das mãos na rédea e com a outra mão sobre a carta constitucional.
Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha bambeavam dubitativamente a cabeça, e do alto das montanhas, com a mão aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam:
--Não. Para onde ele vai é para a senda de Cacilhas á Cova da Piedade.
E deixaram-o ir.
Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo, com a sela no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a orelha, baixando a cabeça, cravando os olhos sinistros nos cascos deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices adiante dos quais ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande homem. Depois do que ele baqueou no charco fronteiro, como se a perfídia das rãs o tivesse aferrado pelo coccix e atraído ao abismo,--sempre com uma das mãos na carta, mas já tem a outra mão na rédea.
Coisa verdadeiramente admirável de ver foi a velocidade com que a cavalgadurinha do Estado principiou então a dar terra para feijões, retrocedendo para casa e bebendo o espaço com o freio nos dentes e com a saudade da mangedoura na alma.--Tão poderoso e fecundo é o ascendente moral que exerce o principio sagrado da ração sobre as actividades oficiais!
Quando as boninas e os representantes da nação tornaram a ver a burrinha do poder no prado florido onde convalescia entre os idílios do ócio o dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulação entre os circunstantes que á porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao sr. José Dias Ferreira.
Empolgando com mão dextra e firme a camba do freio á alimaria do poder, o sr. José Dias exclamou triunfante e glorioso:
--A mim, rapazes!
E gritando em coro: «Ave, José vencedor!»--os rapazes foram a ele.
Eis senão quando, que hão de ver os rapazes que a ele tinham ido e bem assim ele mesmo?
Atonitos eles veem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a burra já não está devoluta, que a albarda tem gente em cima!
Efetivamente enquanto o sr. José Dias intrepido segurava a rédea, o sr. Fontes veloz encavalgara o poder.
O primeiro ato do novo cavaleiro foi alijar dos alforges as provisões do governo que o precedera. S. ex.ª sacou os 150 contos de tijolo para a Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro cônegos, rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de coro e o seu devido rapé; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em cima; tirou a mata do Bussaco forrada de papel e enchumaçada de algodão para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixões cheio de dourados bergantins e de ligeiras caravelas com os seus competentes nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o Times; e, como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram estes virados com o de dentro para fora, e apareceu por último o sr. Venancio Deslandes, diretor da Imprensa Nacional e secretario da comissão da exposição de Paris. S. ex.ª trazia empunhada e aberta a delicada umbela de linho cru forrada de tafetá azul com a qual s. ex.ª abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paço até á rua do Duque de Bragança a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de ministros. O ar de s. ex.ª o sr. Deslandes era cheio de uma grave autoridade, e á sombra do chapéu de sol de linho cru forrado de tafetá azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competência genial!
Despejado o alforge o cavaleiro pediu um exemplar do código fundamental da monarchia, que meteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar durante alguns meses e querendo obviar á repetição de essa intermitência, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra bolsa do alforge ministerial.
Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. José Dias do alto da burra, enfiou a trote marcial províncias da publica administração em fora.
E todos seguiram pressurosos o chibante cavaleiro. Tão somente no mesmo logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto nas ervas o sr. marquês de Avila, acocorado na solidão, a chapinhar com arnica o seu galo.
Na semana seguinte àquela em que estes sucessos ocorreram houve jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da Vitória do sr. Fontes pelos gentlemen do turf politico.
O sr. Fontes depois de esse notável triunfo ficou marcado gloriosamente como o Gladiateur, e ninguém mais tornará a apostar contra o nobre estadista sem a condição previa de que se sobrecarregue com mais alguns quilogramas de chumbo o dente de s. ex.ª
Uma vista de olhos a uma das últimas sessões da camara dos senhores deputados:
Enorme concorrência nas galerias. Senhoras, diplomatas, escritores, funcionários públicos, militares, operários, enchem as tribunas desde os parapeitos até ao tecto.
Na sala um sujeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traçada sobre o joelho, preside somnolentamente como um diletante enfastiado.
Serve de secretario, lançando apontamentos a uma larga folha de papel um individuo que ha poucos meses se chamava apenas Alfredo, mas que, em resultado de um lucto ocorrido durante o último interregno parlamentar, publicou nos jornais que principiava a chamar-se em testemunho de dor--Alfredo Angelino. S. ex.ª traja rigorosmente de negro.
Em frente da presidência alinham-se os srs. ministros devidamente encasados nos seus fauteuils. Não têm uma aparência espirituosamente feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaço com a expressão passiva e tão caracteristicamente pacata dos individuos cálidos quando instalados em decocções emolientes de alfavaca de cobra.
No meio do anfiteatro um digno sr. deputado, com uma das mãos sobre o coração, a outra mão alongada pateticamente no espaço, está orando.
Em torno do tribuno agrupam-se em pé vários representantes da Nação.
Uns roliços, atochados, vermelhos, semelham timpanites enformadas em amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que eles respiram com exforço. O abuso do feijão sufoca-os como o sangue de Danton sufocava Robespierre--São os empaturrados da coisa publica.
Outros magros, defecados, pálidos, com as orelhas lívidas, os pés metidos para dentro, as calças esbambeadas pelas joelheiras dos sedentários, têm sorrisos que se parecem com as referidas calças e que descobrem mucoses desbotadas e dentes mórbidos.--São os espinhelas cahidas do sistema que felizmente nos rege.
No fundo escuro da bancada sobresaem da cor sombria dos vestuários de inverno duas mãos longas, pálidas, frias, magras, de um aspecto dramático, boas para assignarem um decreto de proscripção ou uma sentença de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu próprio nariz inofensivamente, em uma abstração magnânima.
--Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz é pungente, elegíaca, lacrimejante--Sr. presidente! onde não ha religião não ha dignidade.
Um eclesiástico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu estrabismo convergente, de mistico, e aplaude-o com um grave meneio de cabeça.
Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquele orador de vinte e cinco a trinta anos, cheio de robustez, de saúde, de mocidade, estão ambos de acordo sobre esse ponto: que a dignidade é uma resultante da religião. E todavia é a religião que obriga esse pálido mistico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplação, a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiais, a submeter-se pela humilhação, pelo desprezo de si mesmo, a oferecer uma face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a resignar-se. E é pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz sanguíneo e robusto a caminhar na direcção oposta á de esse anêmico, a constituir a família, a lutar, a não perder tempo em contemplações e em extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas lavadas, a resistir finalmente e a triunfar na grande lucta pela vida moderna, em que as costeletas com batatas, as garrafas de Colares e as botas novas não caem do céu cob a fórma de maná, caem unicamente do trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Eles porém estão ambos de acordo enquanto á aliança indissoluvel da dignidade de um e da religião do outro perante o principio transcendente da retórica constitucional.
Diz mais o orador:
--«Sr. presidente!--e a entonação do tribuno continua a ser lacrimosa e patética--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as investigações de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman inventando religiões para o futuro, Buchner divinisando a matéria. Tudo isto porem não apagou na minha alma a doce esperança que em ela lançaram aquelas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que sofrem porque eles serão consolados».
E muitas vozes entusiásticas e convictas bradam de todos os lados da camara:--«Muito bem! muito bem!»
Á mórbida corrente intelectual do pessimismo alemão representado por Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra opõe o naturalissimo de Darwin e as poderosas systematisações de Spencer, a França opõe o positivismo victorioso de Augusto Comte e de Littré. Em Portugal, onde estas questões não foram nunca ventiladas senão por pobres escritores desconhecidos em periódicos tão desconhecidos como eles, a camara dos srs. deputados ouve pela primeira vez a solução oficial de esse debate. Ao optimismo leibniziano, ao deísmo kantiano, ao ideologismo hegeliano, ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart Mill e de Littré, a intelectualidade portuguesa responde mostrando a alma virginal do sr. Manuel de Assumpção. E a comprehensão mais perfeita dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois de isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalável nas suas primitivas crenças. Que queria a filosofia moderna? A filosofia moderna não queria evidentemente senão uma coisa: apagar a esperança na alma de este moço. Pois ficará sabendo que o não conseguiu. A camara dos deputados da nação portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno colocando-lhe em cima o sr. Assumpção e a esperança da sua alma, no meio dos aplausos gerais de todo o parlamento.
E, não obstante, querem dizer alguns que a politica não é mais do que a aplicação da filosofia á direcção pratica das sociedades.
A politica de Bismark é um grande poder social porque atraz de ele está, como o peito pelo outro lado da couraça, a disciplina filosófica de Kant, de Hegel e de Hartman.
Danton, a alma da Revolução, era na esfera executiva o instrumento da filosofia da Encyclopedia; e a primeira república francesa baqueou precisamente no dia em que o principio filosófico que determinou o grande movimento cahiu com a cabeça de Danton, guilhotinado pela indisciplina mental.
Foi ainda a anarchia das idéas, resultante da falta de um método filosófico, que comprometeu o destino da segunda república em 1848.
Finalmente para que a democracia se fundasse em França sobre bases definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que é o filho triunfante da filosofia positiva do século XIX, assim como Danton é o filho damasiadamente precoce da filosofia do século passado.
Na Itália o que é a politica actual, que libertou e unificou a grande península, senão a soma das expeculações de uma longa serie de pensadores, desde Dante, o vidente, até esse taciturno Leopardi, que foi o aliado intelectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o aliado politico do imperador Guilherme?
Em todos os estados actualmente em dissolução qual é a causa do mal senão a perturbação da mentalidade pelo empirismo da politica arbitraria? Será preciso citar a Turquia? Será preciso citar a Hispanha?
Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso vigor intelectual, que em poucos anos despedaçará todos os velhos preconceitos e todas as caducas instituições que embargarem a sua ascenção politica. O federalismo, forma definitiva da civilisação na península ibérica, está-se afirmando no paiz visinho de um modo que nos certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a pouco e pouco o caráter de uma opinião partidária. É um resultado filosófico, que em toda a Hispanha está sendo pacificmente revisto e contraprovado por todas as ciências: pela mechanica, pela mesologia, pela climatologia, pela etnologia, pela antropologia, pela linguística, pela historia. Quando esta idéa chegar ao cabo da sua elaboração especulativa, ela converter-se-ha em uma lei sociologica e actuará sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma força da natureza.
Quando por toda a parte a filosofia estabelece e dilata tão experimentalmente e tão evidentemente os seus domínios sobre o destino humano, a camara dos srs. deputados em Portugal aplaude na sua grande maioria a condemnação da critica e do pensamento moderno; declara-se indissoluvelmente abraçada á teologia; e a todas as conquistas da sciencia no presente século ela opõe triunfantemente a posse de esta noção: «Bemaventurados os que sofrem porque eles serão consolados.»
A ironia emudece de pasmo diante de um symptoma tão patente de esfacelamento cerebral.
Estamos em um congresso de legisladores ou estamos em um seminário de caturras?--É unicamente o que perguntamos.
O medo como a camara pensa dá-nos a justa medida do modo como a camara governa. Ha muitos anos que ela não toma uma única medida tendente a coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforços da progressão social.
A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituição politica, está por fazer.
A liberdade religiosa não está regulamentada de modo que torne effectivo o principio em que se funda.
A distribuição racional do imposto ainda não foi definida.
Finalmente a organisação da instrução publícia, esse elemento vital de uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. em este ponto a mesma Turquia está muito adiante de nós.
Os parlamentos, sem direcção mental, sem critério scientifico, sem destino politico, esterelisam-se sucessivamente na fraseologia e dissolvem-se na banalidade.
As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflito dos personagens impacientes ou despeitados atraem periodicamente ás câmaras uma grande concorrência de ouvintes que não recebem aí senão as mais perigosas lições de cinismo e de imoralidade.
Das duas coisas uma: ou o espirito publico está bastante corrompido para assimilar sem perturbção do seu organismo a entoxicação de esses exemplos, e em esse caso seria um paiz condemnado à dissolução; ou a burguezia, cúmplice em esta decadência, tem ainda um resto de senso moral, e em esse caso revoltar-se-ha e o actual regímen politico ha de cair como caiu em França o segundo império por efeito de um movimento semelhante àquele a que Luiz Veuillot chamou a revolução do desprezo.
Á similhança de um corpo morto o parlamento imobilizou-se por falta de circulação intelectual. Os partidos políticos são os centros nervosos do sistema representativo. Atrofiados esses centros o sistema cessa de funcionar. Ora qual é o estado dos partidos políticos em Portugal?
Ha um partido que está hoje no poder. É um partido conservador. É católico, é monarchico, é auctoritario, é protecionista, é militarista, é unitário. Quer um parlamento com duas câmaras, uma electiva e outra hereditária; quer uma igreja e uma religião do Estado; quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito permanente com os seus respectivos canhões Krupp e a sua competente pena de morte; quer as colonias com o seu antigo sistema de direcção e de governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro, uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundição de tipo, uma fabrica de cordas, uma fotografa, etc.
Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua táctica, e que pelas suas idéas não formam realmente senão um partido único: o partido oposicionista. Que diferença ha entre este partido na oposição e o partido actualmente no governo? É revolucionário? Não: é egualmente conservador. É racionalista? Não: é egualmente católico. É evolucionista? Não: é egualmente auctoritario. Quer a liberdade da industria e a liberdade do comércio? Não: quer egualmente a proteção das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generais, e a universidade de Coimbra com os seus teólogos; quer egualmenle a magistratura anarchica, a instrução cahotica, o sufrágio corrompido, o governo arbitrário. Também quer fazer de quando em quando para se distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa, a fotografia, a cordoaria, a fundição, etc.
A única opinião que a oposição diz ter e que ela acusa o governo de não professar é a opinião abstracta da economia, da ordem, da moralidade e do progresso. Como porém todos os governos, qualquer que seja o partido de que eles procedam, têm sucessivamente caído do poder perante a acusação de não servirem o progresso, a moralidade, a ordem e a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que aliás não pódem constituir princípios de programa, são comuns a todos os partidos ou não são especiais de partido nenhum.
Os partidos portanto não se diferençam senão pelos nomes dos individuos mais ou menos numerosos do que eles se compõem. em esta ausência completa de idéas contrapostas o governo em Portugal, versando constantemente sobre si próprio, dá-nos o espectaculo de um organismo vivo isolado na creação, alimentando-se na sua própria substancia e digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.
Deixando de ser uma lucta de princípios e de idéas a politica converte-se fatalmente em uma questão de compadres.
O compadrio elevado á categoria de instituição nacional, domina tudo, corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que não pódem conquistar o apoio da opinião pelas idéas que representam, procuram manter-se pelo apoio dos compadres que favorecem. É na proporção exacta do numero dos compadres que anualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiança da corôa e no favor da urna.
O dogma fundamental do compadrio impõe-se por tal modo que transforma todas as outras noções Morais segundo o critério de que ele é a expressão. Transforma a justiça, a honra, a probidade, a própria consciência. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria cometer a mais vil e a mais nefanda das traições politicas!
Despachando o compadre mais serviçal com exclusão do adversário mais competente todo o governo honesto julga praticar um ato de gratidão e de lealdade. E ninguém vê quanto ha de profundamente subversivo da ordem moral em este simples facto tão vulgar, tão frequente, tão despercebido: a exclusão da competência! Excluir a competência, ou quando menos preteril-a, por um ano, por um mez, por um dia, por uma hora que seja, é cometer o atentado mais criminoso de que o Estado póde ser réu diante da sociedade. Esse atentado resume todas as violações do direito e todas as afrontas da justiça. É um roubo violento e descarado, aggravado com a ofensa do mérito, com a injúria da capacidade, com o insulto ao trabalho, com o escárnio á moral, com o ultrage ao dever.
Na politica portuguesa, que tem o seu calão como as mulheres publicas e como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de compromisso politico ou de ato de fidelidade partidária. E do ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisão correcional ou o degredo com trabalhos públicos, a opinião diz apenas:--É fiel aos seus correligionários, sabe ser amigo, despachou o compadre, vou para o partido de ele.
O oficio do governo é servir o paiz. Como porém o paiz, por efeito do machinismo eleitoral, é representado constantemente pelos compadres do governo, o oficio do governo em última analise não é mais do que servir o compadre. Está no seu destino. Graças aos elementos de corrupção de que o governo dispõe, o cidadão, não votando como cidadão mas votando como compadre, dá o primeiro impulso que põe em movimento toda a engrenagem do sistema: elegendo o compadre é ele mesmo que funda a tirania absoluta e despótica do compadrio que depois o governa.
A sociedade está á mercê do compadre. E se ha poder que possa contrabalançar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre, esse poder é unicamente--o da comadre.
A aptidão provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensão e o mais rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra--palavras, palavras, unicamente palavras! Na esfera dos fatos, na ordem pratica, positiva, real; compadrice, comadrice--eis tudo.
Um único remedio poderia reconstituir a politica portuguesa, cuja decadência é tanto mais lamentável quanto é certo que a sociedade que ela tem por fim dirigir está na anarchia econômica e tende para uma miséria que se tornaria inevitável sem os suprimentos do Brasil. Esse remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de quatro ou cinco individuos de opiniões radicais: republicanos, socialistas, federalistas, positivistas--o que quiserem--com tanto que sejam homens profundamente convictos e determinados á peleja de cada dia e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um critério filosófico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe resistir, não já pela fraseologia e pela retórica mas pelo estudo reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisação. E das concessões mutuas e sucessivas, feitas, já ao principio da ordem pelos revolucionários impacientes, já ao principio do progresso pelos conservadores retrógrados, resultaria para a sociedade o movimento actualmente paralisado no conflito das pequenas paixões e dos mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triunfantes.
Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que solicitamos, resta-nos então adoptar o expediente ultimamente proposto pela municipalidade de Lisboa:--tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas que quanto antes, em esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto: caiar o palácio das cortes, branquear por fora o parlamento--dealbatum sepulchrum!
As Farpas, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, reúne em um único registro canônico onze fascículos integrais do Project Gutenberg, de 1873 a 1883, conservadoramente normalizados para PT-BR moderno.
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