Universo da obra
Universo da obra
«Se Deus aprova, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado.... Está aprovado.»
Tal é, resumidamente exposta, a comoda maneira de votar por meio da qual não só o congresso católico, reunido recentemente em Lisboa, mas muitos dos concílios eclesiásticos que precederam este, se metem de gorra parlamentar com os legisladores do céu e constatam a aprovação da divindade ás deliberações tomadas pelos clérigos. Para esses cavalheiros,--papas, bispos, cônegos, simples padres de enterro ou sacristães--Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o Sr. Fontes a sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de, assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.
Nos sermões de penitencia das nossas vilas e aldeias o truque é o mesmo que nos concílios, mas reforçado com um cordel.
O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um prato de especiones com vinho fino, de refrescar para comodidade das almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatório, irrigando de eloquência e de latinidade esse recinto de clarificação espiritual, começa por pôr Deus no trono do altar mor, sob a figura do Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o eclesiástico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre o parapeito do púlpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma vênia e diz:
«Senhor! se minha débil voz, ecoando em este auditório conspícuo, a cuja frente diviso o venerável vulto do ilustre conselheiro de estado honorário, presidente de esta benemérita irmandade,--se minha débil voz, digo, conseguiu levar ao vosso coração amantíssimo a convicção do arrependimento em que se acham imersas as almas que ora vedes prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de aparecer para ouvirdes nossos votos. Aparecei, Senhor! Porque não apareceis?!»
E por meio da bem conhecida e sempre eficaz figura de retórica intitulada obsecração,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os tropos,--o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabela que é mister que eles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes apareça, e lhes perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o eclesiástico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae ele mesmo prostrado de comoção e de espanto na borda do púlpito, como se nunca em sua vida lhe houvesse aparecido um tão portentoso milagre como esse de se correr a mesma cortina que oculta a imagem do Senhor dos Passos, a que ele tem por oficio puxar os cordeis em todas as quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.
Nos congressos dispensam de ordinário o barbante corroborativo da oratoria sacra.
Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clérigos persignam-se, abancam, põem diante de si os rapés, e passam desde logo a redigir a ata, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volátil simbólico e para este efeito invisivel.
Enquanto a fazer aprovar pela divindade dada como presente na ata, tudo aquilo que eles se lembram de resolver em comum, consideram os clérigos--e mui judiciosamente segundo se nos afigura--que é inutil estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem com as marionetes.
em esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:
«Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se manifeste em esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de acordo.»
Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas para aprovar.
Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sábio, segue, como é notório, o sistema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para aprovar, quer seja para desaprovar aquilo que um maior ou menor numero de padres, reunidos para esse efeito, determinem expor-lhe.
É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão sair de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capela do Marquês de Castelo Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos!
Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares mordidos pelo bicho carpinteiro do zelo, e decidem juntos decretar mais fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri de indiferença inefável nas profundidades imaculadas do azul e deixa o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a herva crescer.
Não afirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos sacerdotes, não possa uma ou outra vez oferecer alguns ligeiros perigos, apertando-se de mais com o fiado.
Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia, posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta máxima àqueles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o céu do que privam com o próprio botequim do Martinho.
Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto próprio para provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em nossas intimidades com o Divino.
É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver consumido nas roletas do exílio, com o belo sexo extrangeiro e em devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais invejável estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de fornecedores que pagar, a benção apostólica de Sua Santidade e o direito divino.
Para sustentar esse direilo nas cortês da nação hispanhola havia um deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquilo que Deus continuava a fazer pelo mui católico príncipe D. Carlos, desde que D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor em um banco de Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda no espaço,
Pois bem, o que ultimamente sucedeu foi que: o deputado aludido, ao principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade em uma fala aos de Castela, cahiu subitamente morto.
Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empíreo o ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de apoplexia.
Acontecem de estas ás vezes!
Os fieis, a poder de mandarem os filósofos ao diabo, arriscam-se um pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com a marcha que modernamente têm tomado as coisas sobre a esfera terrestre.
O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indiferença imperturbável pelo ardor, ainda o mais comichoso, de aqueles que servem a sua egreja, pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a sua vida por este mundo, enquanto suas excelências estão em folga temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e de hóstias quotidianas.
Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam eles agencias e sucursais do céu por sua conta, despachando os requerimentos dos candidatos a anjos, designando em dias de juízo trimestrais, como os exames de frequência, os eleitos e os réprobos, e sentando desde logo uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redator principal e leitor único da Nação, o Sr. Fernando Todo Pedroso.
Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no céu com a sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea um rubôr de aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Ele levou uma fava preta do Todo Pedroso Sr. Fernando, e S. Pedro está prevenido.
Os doze pescadores, que, á voz de Jesus falando-lhes na montanba, abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os oprimidos através do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima esse oficial do mesmo oficio que tantas vezes abandonou a barca amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a pele, não já para consolar, por meio de sermonários, da liberdade perdida, como nos apólogos da bíblia, mas para pôr definitivamente a liberdade onde estava a opressão. S. Paulo, que procedia literariamente, por meio de epístolas, como Madame de Sévigné, não consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua pena platônica a espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer por obras em esta vida o que ele apenas prometeu em doces palavras para a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de comum acordo sobre o caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de sacristia, sob a presidência do Todo Pedroso.
O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboio expresso, organisado por estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso fidalgo está nomeado secretario do congresso católico, o que lhe dá no seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se concomitantemente investido no direito de poder andar de azas, desdo já, por este mundo. Mais alguns meses de fervor e de secretariado da parte de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar o Chiado como o atravessam os perus, isto é--em penas. A natural pudicícia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes vestido unicamente com os espanadores dorsais destinados ao convívio dos cherubins no galinheiro celeste.
O aspecto do recente congresso católico do Passeio Publico (lado ocidental) tal como os noticiários nol-o descrevem parece-nos de uma pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represálias da parte do Sr.. França Neto.
Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicais e os seus chapéus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do pano fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a assoarem-se uns para os outros com ênfase, dão-nos menos a ideia de um ajuntamento triunfante de convicções victoriosas do que o painel de um simples ciprestal sentado,--com defluxo.
Além de solicitar a benção apostólica, o congresso católico de Lisboa resumiu os seus trabalhos em duas únicas resoluções: fundar uma universidade católica e requerer dos poderes públicos que por meio da sua policia eles façam respeitar nas ruas as pessoas dos eclesiásticos, presentemente apupados pela multidão, segundo eles mesmos dizem, sempre que aparecem em publico revestidos de hábitos sacerdotais. O que, a ser exato, é precisamente a mesma coisa que sucedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração. Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquele que mais protegeu o clero, fica-se em dúvida sobre se a intervenção do governo será o meio eficaz de garantir aos eclesiásticos a deferência e o respeito, que ninguém jamais lhes recusa nos paizes de liberdade religiosa, em que o Estado é ateu, como na America do Norte.
Se compararmos o espirito e o aspecto de esta assembleia católica com algumas reuniões do mesmo gênero celebradas na Europa durante o decurso dos últimos anos, somos obrigados a confessar que o prestigio do sacerdócio decae de um modo sensibilisador.
No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez de agosto de 1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na catedral de Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solene de abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e empavesada de troféus de todas as bandeiras da christandade como uma enorme nau em triunfo. No topo do salão o estrado destinado á meza era coberto por um docel de veludo carmesim franjado de ouro sobre o qual se destacava na doce palidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de brilhantes na cruz de ébano. Esveltos soldados da milícia papal, em grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas lendo ao tiracolo as bandas simbólicas de seda branca e ouro. O alto clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente, por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os cardeais com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos ingleses, os de Gand, de Tournay, de Namur, apoiados aos seus baculos, e os sacerdotes do rito armênio, de grandes barbas, chapéus altos sem abas com véus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.
Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo colaborador do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade de uma aliança entre o espirito eclesiástico e o espirito scientifico do mundo moderno, e o seu discurso é em esse intuito um manifesto de uma rara eloquência apaixonada, profundamente convicta.
«Em toda a parte excepto na Belgica--disse ele--os católicos são inferiores aos seus adversários na vida publica, porque os católicos não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os católicos sentem-se tímidos e confusos; têm-lhe medo. Não aprenderam por enquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regímen, isto é, a um sistema que não admitia nem a egualdade civil, nem a liberdade politica, nem a liberdade de consciência. O antigo regímen tinha o seu lado grande e belo; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um defeito, mas esse capital: está morto, e nunca mais resuscitará.»
Em seguida Montalembert demonstra que em este século a egreja ou ha de cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja, ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão contra todas as usurpações, contra todos os privilégios, contra todas as tiranias exercidas sobre a inviolável fraternidade humana.
A liberdade é uma só, única, indivisivel e sagrada, expressa pelo predominio dos poderes espirituais sobre os poderes temporais, representada na parte dinâmica pela sciencia, na parte statica pela religião.
Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a consciência humana de não ser governada nas suas relações com Deus por decretos ou por castigos humanos.
«Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vós, entendei-o bem, é preciso que a queirais egualmente para todos os homens e debaixo de todos os céus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a deem em toda a parte onde fordes escravos.»
Esta enérgica apologia da liberdade, entusiasticamente aplaudida, levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das resoluções da assembleia: «É do interesse dos católicos, assim como do todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir quanto possível a intervenção e a omnipotência do estado pela energia creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»
Vejamos agora quais foram os resultados práticos de esse grande impulso de eloquência destinada a fazer entrar o catolicismo no movimento liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja em este fim do século XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na historia das ideias clericais.
O que sucedeu no congresso de Malines foi que os cardeais e os bispos abandonaram a reunião no dia imediato àquele em que Montalembert fizera o elogio da aliança da egreja católica com a sciencia e com a liberdade.
Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do baixo clero, os quais movidos de um generoso impulso democrático continuavam a aplaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Três ou quatro meses depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em que pelo maneira mais formal censurava a audácia dos católicos que ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a liberdade da sciencia.
Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não obstou a que eles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864. Montalembert não compareceu. Falaram o padre Hyacinthe e o arcebispo Dupanloup em um sentido que, apesar de moderado, não pareceu suficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias liberais do congresso com a publicação do Syllabus e da encíclica Quanta cura, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a ilusão de um acordo entre o espirito eclesiástico e o espirito da civilisação.
Em presença de esses factos, os congressistas de Malines tinham duas resoluções que tomar: submeter-se e aceitar a doutrina da encíclica e do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação vergonhosa de todos os princípios afirmados e de todas as aspirações manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no grêmio da egreja.
em esta conjuntura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.
Desde esse dia o destino do catolicismo ficou fixado.
Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma barreira que os próprios padres, ainda os mais instruidos e os mais liberais, julgaram impossível transpôr.
Ora desde que não póde ser um aliado, o que está evidentemente demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira obrigação é tomar conhecimento das forças de que ele dispõe para nos prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.
Torquemada requerendo para a queima dos sacrílegos um lampejo emprestado ao chifarote do hábil Antunes é um symptoma doce. O congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe ponham as presas. É a S. Bartolomeu a troco de um dentista. Se os querem ver cantar o coro dos punhais, cedam-lhes o Vitry.
A única coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso católico de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a todas as sessões.
Que atrativos especiais tem a classe eclesiástica para captivar assim as adhesões da mulher?
Investigando este fenômeno, vemos em primero logar que ha em Portugal três especies distinctas de padres:--o padre das missões, o padre de aldeia e o padre de sala.
Os padres das missões subdividem-se em dois grupos diferentes: os aventureiros e os misticos.
Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação temporal, por amor á vida de emigrante, á lavoura dos trópicos, ao lucro mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia tocante a que os pretos se submetem adormecidos como verdadeiros justos, cônscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante civilisadora posto que inofensiva, os não torna nem mais nem menos pretos do que eles são.
Os misticos, mais raros, são pessoas doentes da alucinação do martírio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias fritas, com mandioca, pelas raças antropófagas. Logo que se julgam suficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros dos seminários, vestem-se com os trajes de D. Basilio no Barbeiro de Sevilha, metem um breviário debaixo do braço e embarcam para regiões inhospitas e selvagens.
Uma vez em comunicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes meter o breviário em cruz entre a boca e o prato, até conseguirem realizar a sua aspiração suprema, que é não restar de eles mais que uma batina e um par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas dos legumes, e dois canibais a palitarem os dentes, e, a dizerem um para o outro:
--Saboroso padre! benza-o Manipanso!
O padre de aldeia é de ordinário o melhor dos homens.
A sua rudeza montesinha coloca-o ao abrigo de todas as subtilezas enervantes da penitencia requintada e dos pequenos pecados elegantes e estonteadores.
As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á missa cantada, em uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila no arraial.
Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemitério.
Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de fole, passeia-o sob um chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão podre, os cabazes de ovos e os casais de capões, que atravancam a passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.
Nos dias ordinários engrola a missa das almas ao romper do dia em um latim abreviado, mastigado á pressa, e vai podar as cepas, sachar o cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte, saltando valados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os perdigueiros adiante, a espingarda na bandoleira; dando as boãs noites para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.
O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas casas frequenta por um resto de tradição antiga nas famílias nobres, onde o capelão era de rigor nos acessórios da mise-en-scene, como o boleeiro, o creado de farda e a preta.
As meninas nobres, que hoje lêem o Figaro e os romances de Daudel, não tomam completamente a serio essa reliquia heráldica. O padre da casa é para elas um simples utensilio de caráter profano, recreativo e caturra. Troçam-o como um grotesco inofensivo, e utilisam-o como um serviçal de sexo neutro, colocado na serie zoológica da herilidade entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso dos seminários.
É o padre que vai ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o chignon para frisar ao Godefroy. É ele que acompanha ás lojas de dia e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.
Não está persistente em uma só casa, como nas antigas capelanias. Anda aos dias. Aos domingos vai jantar a casa das F., onde serve ao croquet ou ao lawn-tênis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga para ir fazer perna ao wihst da velha baronesa de P.
Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das mexeriquices que traz das casas de onde vem, vê as gravuras das Ilustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao torpôr da sua digestão ou da sua ignorância, ambas egualmente crassas:
--Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille para aí um bocado; tenha faísca, ainda que seja em latim, ou em canto chão!
E perante o olhar de ele, esbugalhado, vermelho, atônito, elas, em inglez, umas para as outras, picando o crochet:
--Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!
Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede emprestado ao visinho um alicate ou um martelo. Sofia, que está em Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:
«Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso de olheiro para os operários. Cede-me Padre Antônio por oito dias. Dá-lhe dinheiro para o omnibus e manda-m'o amanhã sem falta.»
Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação, posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois pares de piúgas embrulhadas em um jornal--, e uma pontuada de bengala nos rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.
Alguém á noite pergunta:
--Que é feito do padre João?
E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto, responde lentamente:
-Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por meio de uma ligeira admoestação corpórea.
--Mas o físico do sacerdote é inviolável é sagrado!
--Por isso também não foi pelo lado cruzes que eu o admoestei, foi pelo lado cunhos.
De resto, entre as famílias dislinctas de Lisboa, quando alguém quer casar-se, confessar-se com decência, ou receber socorros espirituais para morrer com elegância, vai aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz dos Franceses a visita do reverendo Abbé Miel.
O padre extrangeiro tem sobre o padre indígena a vantagem de não se haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos aplaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que estão nas bancadas ao pé de ele, de não andar pelas casas particulares com as piúgas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não misturar nunca--a não ser no sigilo do sanctuario--o bacalhau norueguez do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentílica e pecaminosa.
Além do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das vilegiaturas de Cintra ou de Cascais qual a especie de pau de larangeira com que eles foram manufacturados.
Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão vantajosamente recomendam os clérigos lusitanos á estima e á tranquilidade dos partidos liberais e dos chefes de família, vemos que, apenas quatro padres anunciam um dos seus meetings ao eterno, logo oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa manifestação com o efeito scenico dos seus encantos.
Que os revolucionários obtenham outro tanto, se são capazes!
Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes de Castelo Melhor. Que contraste!
Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Enquanto aos logares reservados ás damas, será mais difícil prehenchel-os. Logo que D. Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a comissão encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia revolucionaria poderá tirar as luvas, acender os cigarros e desabotoar os coletes, que não terá mais ninguém para conduzir.
A razão de este fenômeno significativo é que os padres e os padristas, por menos espertos e menos habeis que sejam, têm por baixo de si a levantal-os mais alto do que todos nós, oito séculos de talento, de discussão e de controvérsia, que fizeram da teologia o maior dos monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus heresiarchas e os seus apostatas representam no domínio do pensamento o triunfo mais maravilhoso de essa grande força chamada o estudo.
A antiga tradição, a autoridade consagrada, o respeito adquirido, trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje fácil o oficio de continuar a manter nas consciências os hábitos do respeito e a pratica da devoção.
O mal dos revolucionários na propaganda moderna consiste no grave erro de supor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se vai para padre, isto é, por simples estupidez.
Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa mais útil, é corrente, é comodo, faz arranjo ás famílias com filhos tapados para contas, e não tem perigo nenhum.
Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não sabe mais nada diz asneiras. Essa é a diferença.
As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim como também não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem Santo Agostinho nem S. Tomás, obrigadas a examinar pelos caracteres inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornografia, o latim atenua.
O erro dos padres nas suas relações com o século--pedimos licença para lho dizer--está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se em vulgar. Para prestigio da classe e decoro de eles, aconselhamos ardentemente a suas excelências o uso exclusivo das lingoas mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.
Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distinta das de todos os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incomoda de ter algumas ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que debalde, transformal-as em obras.
Á dinastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço, lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a substituir pondo-se escritos no palácio da Ajuda.
Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de perpetuar para todo sempre a localisação da família dos atuais inquilinos na desagradável madrépora de príncipes a que serve de jazigo aquele notável edifício. Pois é evidente que, posto esse casarão a alugar, com escritos, com anúncios; e ainda com prêmios animadores ás agencias de casas baratas, ninguém absolutamente no mundo tomaria de renda tal prédio, assas desconceituado no publico pela falta de cômodos que oferece para habitação, de família, pelos maus cheiros que em ele grassam, pela enorme melancolia mesentérica que de ele transsuda e pela aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de trono, que o infestam, sevandijam e conspurcam.
Antônio Rodrigues Sampaio era um escritor de primeira ordem no meio de um jornalismo onde os escritores cada vez se vão tornando mais raros. Ele foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua pátria escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além de isso, entre os homens políticos do seu tempo aquele que mais altas e mais fortes qualidades de espirito, de coração e de caráter sacrificou ás instituições vigentes.
O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a sua dor por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.
No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto príncipe ia para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas de pistola.
Comprehende-se a angustia profunda que assim impeliu o primeiro cidadão portuguez a procurar nos interessantes fenômenos da balística expostos por um pelotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais ilustres dos seus compatriotas.
Referindo as circunstâncias fúnebres de estes óbitos, a historia dirá:
A família dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu «bis» ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de consternação em que todos se achavam.
E os prosteros, ao lerem esta pagina comovedora, verterão lagrimas de enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza profunda de tão excelso quão sensível príncipe.
Se não receassemos profanar a dor tão intima e tão sincera do soberano, se não temessemos alancear, inoportunos, o seu extremoso coração, tão manifestamente envolto em luctuosos crepes na ocasião presente, nós ousariamos formular humildemente uma débil pergunta:
Julga sua majestade que, assim como os príncipes têm coração, o não têm os povos egualmente?
Quando, em vez das testas comuns e opacas, são as fulgidas e rutilantes testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse efeito do alto do trono celestial, resolve com a devida, consideração chamar ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Majestade que em esses pomposos lances, não choram tão dolorosamente os súbditos pelos seus bons reis como os reis choram pelos seus bons súbditos?
Cuida Sua Majestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um grande príncipe que ha por bem falecer, como a que em sua majestade faz a queda de um honrado cidadão que morre?
Oh! mas que Sua Majestade se digne de nos fazer essa justiça:--é perfeitamente a mesma coisa!
Que Sua Majestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que acaba de passar o seu coração generoso e paternal!
Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos óbitos reais, quando as molas dos régios coches inclinam a orelha tétrica sob as gualdrapas funerárias dos solemnes saimentos, quando os escudos das quinas se quebram no mármore dos monumentos ao som cavo de uma voz que proclama--Real, real, real, por el-rei de Portugal,--a alma do povo póde bem, como a do príncipe em lances correlativos, precisar, para o fim de não sucumbir á intensidade da dor, de apelar então por seu turno para os santos balsamos que escorrem das cavaletas das operas e das proezas do tiro ao alvo.
Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista, os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde atingir a saudade, tanto no coração do povo, como no coração dos príncipes,--sua majestade se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e desumana que por ocorrência dos óbitos de pessoas reais manda vedar ao corrente pranto das gentes o lacrimatório dos divertimentos públicos.
A policia, tomada de um de esses acessos de zelo intermitente que ás vezes acomete esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Viseu.
Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.
A policia foi pé ante pé, como o coro dos carabineiros nos Bandidos de Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobília da casa, o dinheiro da banca e o dos parceiros.
O Diario do Governo de ontem traz a este respeito uma portaria de louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua majestade el-rei, elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores, mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim algum dinheiro e mobília.
Como bons súbditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação intima e cordial que sua majestade el-rei houve por bem experimentar e redigir em prosa oficial, ao ver os réditos do Estado felizmente acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos e desapercebidos.
No Porto o zelo policial em esta diligencia chegou ao ponto de emboscar nas ruas os esbirros para prender os jogadores no ato de entrarem para as jogatinas.
Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas sobre o assumpto batotas, porque estamos convencidos de que essas auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder discutir com elas sobre esta questão.
O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez em uma batota, em S. João da Foz, ha coisa de vinte anos.
A espelunca achava-se estabelecida no lindo cottage do Mallen, na Praia dos Ingleses, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da Senhora da Luz.
No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta mesa de pano verde iluminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da província do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa, sentados, outros em pé por traz de esses, formando três ou quatro círculos concêntricos.
A um topo da mesa um cavalheiro esquelético, de faces macilentas, adornado de uma longa pera grisalha, puxava para junto de si por meio de uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro das paradas espalhado no pano verde, e pagava a importância das apostas.
Defronte de este prestável individuo, no outro topo da mesa, um cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto egualmente venerável, punha as cartas na mesa com mãos finas, particularmente bem tratadas e realçadas por dois belos cachuchos em que cintilava um olho de gato e um rubi.
Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas que tinha mais próximo de mim.
Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos finas colocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o três de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia, para apostar por ela, a carta que queria, e colocava-lhe ao lado o preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno, segundo era um rei ou um terno de outro naipe a primeira de essas duas cartas que em seguida saia do baralho.
Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me expuzeram negocio que se me figurasse mais inteligível, mais recto e mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar ninguém, que jamais das regiões oficiais recebi informações tão lucidas e tão leais como aquelas que sobre as leis do Monte me foram cavalheirosamente ministradas na apreciável batota a que me refiro.
De um só relance e em meio minuto compreendi o problema todo com uma profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei 100$000 réis que tinha em uma algibeira e coloquei-os pressuroso sobre o três de espadas que se achava na mesa.
Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circunstantes para a direita ou para a esquerda das cartas.
O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua pera grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:
--Mata o rei?
Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:
--Mato-o, sim senhor!
Esta frase pareceu fazer uma certa impressão no auditório. Houve um silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de óculos de ouro e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das cartas 3$000 que tinha posto.
O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso que comprimia nos dedos.
A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.
Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um ilustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma parada egual á minha.
Esta decisão da sorte--eu o confesso--não me regosijou senão de um modo bem caracteristicamente medíocre.
Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importância de perto de meio ano de colaboração em um jornal americano,--soma recebida em esse mesmo dia.
Fiquei na batota até pela manhã.
Por uma janela aberta sobre o terraço a luz cor de perola da madrugada entrava humedecida e salgada pela viração marítima. As banheiras, filhas e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe em terceiras, em um coro argentino de sopranos, uma barcarola local. Os primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado da rua pelas fendas horizontais das gelosias, que o clarão da manhã pautava luminosamente de azul.
Na sala esvasiada de gente oscilava ainda, esfarrapado, o ar quente da noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do bufete.
O chão estava alastrado de lama seca, de pontas de cigarros que a saliva enodoara de amarelo, e de charutos mordidos e mastigados raivosamente pelos pontos.
O homem das belas mãos aristocráticas tinha as unhas orladas de preto e o colarinho esverdinhado de transpiração.
O cavalheiro da pera tivera com o romper do dia um acesso de tosse, e depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia, escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas, as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas convulsões da bronchite.
A um canto da casa, sentado em uma cadeira e caído de bruços para cima de uma pequena mesa a que três batoteiros, associados nos lucros da banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execrável voltarete, ficara esquecido um janota de calças cor de flôr de alecrim, botinas de polimento, luvas azuis e fraque cor de pinhão feito no Pereira Baquet. Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir de ali embora sosinho.
Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o Chico... não me lembra já de quê. Tinha dezessete ou dezoito anos, era filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado no hotel do Romão, intitulado da Boavista.
Quando ele se ergueu da mesa e se pôs em pé diante de mim, vi que o misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.
A sua fisionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de um sinal cabeludo na face e de dois bandós cor de ouro anediados pelo melhor cabeleireiro da rua de Santo Antônio, exprimia uma consternação tão profunda, tão ocá, tão francamente imbecil, que desde logo me atrahiu para ele com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira coisa fluctuante que passa por ele, e momentos depois o bem parecido e elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.
Seu pai, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caráter e de cabelos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de um negociante de vinhos de Vila Nova de Gaya a importância de uma letra no valor de 1:600$000 réis. Era de esta quantia, recebida três dias antes, que ele acabava de perder a última libra, além de mais trinta moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar em um sovaco.
--Meu pai, para coisas de estas, é uma fera!--explicou-me ele com voz estrangulada.
E, tendo descalçado uma das luvas azuis, comprimia com mão nervosa o alto da sua pequena cabeça de galo, apagando da testa em um repelão o bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.
--Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna inapreciável de possuir um pai fera, e ainda hesita um momento sobre o que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos lá para fora! Saiamos com pé expedito e rápido de esta caverna, que até me está a afligir o ter de profanar o nome sagrado do seu venerável progenitor, proferindo-o perante a pera cavilosa e obscena de aquele tísico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós os olhos torvos!
--Cão!--disse o Chico em um bramido cavo, abrindo para essa palavra um parentese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da porta da rua o punho cerrado e terrível para o cerro em corcova do cavalheiro da pera, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da janela.
E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:
--Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses agrícolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000, para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode apetecer o meu bom e desregrado amigo do que uma de essas monumentais sovas, com que os ríspidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericórdia pelo mau gênio e pelo muito cabelo, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente eficaz para o restabelecimento normal do seu equilíbrio nervoso, no momento presente, do que a aplicação lombar da bengala de um antepassado, ou a justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da mais colossal e irremediável asneira?! Aqui estou eu, que matei esta noite o rei.....Não sei se o Sr. mo viu matar?... Matei-o como quem mata um pôrco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse regicídio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga de este luctuoso sucesso converte todo o meu ser em uma insondável cloaca de semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos em um feixe.
--Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos iluminados de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra de honra que também a modo que me está a apetecer isso, a mim!
E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras, remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.
Ao longe o duro bronze, a que os espíritos despreocupados e felizes dão vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se entregarem aos exercícios balneários, enquanto outras, mais madrugadoras ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.
Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso pai, prevenido pelo telégrafo, o esperava, no alto dos Padrões da Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava taciturno a refazer com tardígrados e arrastados folhetins a soma que o vil e mercenário ensinho do Pera Tisica em essa noite desviara de seu natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o sempre velados pelo mistério.
Tal é, em sua natureza e em seus efeitos, a simples coisa chamada batota!
Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A única, porém, que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.
Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar de perguntar ao governo com que direito ele intervem para o fim de castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos aqueles que fazem asneiras, o próprio governo seria uma coisa impossível, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse solto.
E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sofistica de que é para o fim de salvar o povo da ruína que a policia maternal assalta e sequéstra as batotas!
Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu teria perdido menos do que perdi, dado o facto acidental de terem ido para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua policia, fizesse ao príncipe reinante a bonita partida que o príncipe lhe faz abotoando-se com o que ele ganha, se sua majestade gostaria da chalaça!
Noticiam de Braga que em aquela cidade aparecerão brevemente dois novos jornais, um deles intitulado Supplicantibus, e intitulado o outro Frei Bandalho.
Os dois apetitosos títulos de esses periódicos bastam para caracterisar bem, em duas únicas penadas, a elevação intelectual que, não só em Braga como em todo o reino, está presidindo em este momento á vulgarisação da literatura jornalistica.
Guimarães, Barcelos e Viana não quererão por certo deixar-se ultrapassar pelos desenvolvimentos literários do espirito bracarense, e cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados pela mais nobre emulação, os grandes centros intelectuais do Minho preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periódicos braguezes, a aparição próxima de outros jornais intitulados o Reles, o Bisborria e o Pulha.
A única coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberância intelectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis esforços empregados para esse fim pelos sábios estadistas gerentes da educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face com suas auctorisadas penas a um tão vasto labor mental, os escritores borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.
S.ex.ª o Sr. Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de Rosalia a uma criança de quem foi padrinho.
Um jornal, interprete dos altos sentimentos do Sr. Luiz Jardim, diz que s.ex.ª escolhera este nome «por ele ser o de uma ilustre dama portuguesa que floresceu em meiados do século XVII.»
Inclinemo-nos com reverencia!
Ele pôs-lhe o nome de Rosalia....
Tornemos a inclinar-nos!
E pôs-lh'o, porque esse foi o nome de uma ilustre dama portuguesa dos meiados do decimo sétimo século.....
Prostremo-nos por terra!
D. Guiomar Torrezão, do Diario Ilustrado, dedilhando com mão de anéis em aquela folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:
«Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um boudoir, em uma especie de bonbonniere capitonada de setim azul, impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz misteriosa, peneirada por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se aí, com as pálpebras semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncelo, pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...
«E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do conde de Sabugosa.»
É talvez ligeiramente complicado, como mobília, o processo critico de D. Guiomar. Uma vez, porem, que ele dá a impressão perfeita da obra de um tão simpático poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a pena de experimentar....
De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das diferentes obras poéticas, havendo peneiras de renda suissa para todos os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos os gostos de horta ou de capoeira.
O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idôneo para massacrar ao longe os nucturnos de Chopin enquanto o freguez estiver com a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.
Se, ainda depois de enterrado na almofada, e colocado o pianista ao longe, o paciente se queixar de não desfructar suficientemente a musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.
Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente aliadas em proveito da poesia lirica as duas importantes industrias de fazer critica nos jornais e de pôr cortinados da Suissa nas casas.
Entre os mimosos e ricos brindes oferecidos a Leopoldo de Carvalho na noite da sua festa artística no teatro do Gymnasio, lêmos no Diario de Noticias que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos de escamas de corvina.
Também folgamos muito com isto.
Em todas as exposições de quadros celebradas nos principais centros artísticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do século, se notava com lastima geral que o simples óleo, a tinta de aguarela, o lápis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com eles se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigências da estética contemporânea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem prehencher uma lacuna imensa nos recursos até hoje tão estreitos das artes do desenho.
Gloria eterna a tão benéfica e prestante menina, honra da pátria e do peixe fresco, alegria de seus carinhosos pais, e satisfação completa de suas boas mestras!
Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencível perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto, apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor Leopoldo!
Só nos resta agora, para inteira consagração de este grande facto artístico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da critica, nos queira dizer de que cor é que devemos capitonar as casas e que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas organisações accessiveis á comprehensão do belo os novos efeitos estéticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.
Antes de ontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis aprehendidos.
O Correio da Noite refere sobre este assumpto que na batota aludida se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma visita policial. A policia porem, com a mais louvável lisura, fez correr no bairro o boato semi-oficial de que não havia mais rusgas ás batotas. Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei, reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que empalmou do bolo.
A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniários de ele.
E os jornais continuam a chamar uma rusga a cada uma de estas diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.
Se os jornais conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não chamariam a estes lances uma rusga; chamar-lhe-hiam--mais propriamente--uma vaca.
Os jogadores até hoje presos têm sido todos condemnados;--coisa que naturalmente produz nas massas um saudável terror, levando-as ou a não mais jogarem senão nas batotas oficiais, como a Bolsa, a Loteria e as Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.
Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica dos crimes a que eles, coitadinhos, estão habituados, os tribunais, implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com outros erros menos funestos á moral e ao próximo do que o manejo dos baralhos.
Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.
O juri tomou em consideração as circunstâncias atenuantes que revestiam esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, inocente gracejo.
O juri atendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquele a quem por um momento pedimos vênia para chamar réu, se assim nos é licito exprimir-nos, amava aquela a quem tirou o olho.
O móvel do crime,--digo--o móvel da pilheria, de que o inocente é acusado, foi o amor que lhe inundava o peito.
Ai de aquele que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser chamado a resolver questões de olhos.
Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os tesouros de ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o ato que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunais humanos.
O cherubins do empíreo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas cândidas e luminosas, para que com uma das vossas penas possamos pintar a scena que entre esses dois amantes se passou!
O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ela mesma lhe desse o olho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.
Ela responderia primeiro por uma tímida recusa, entre reprehensiva e irônica:
--Ora, para que queres tu o olho?... Importas-te tu bem com o meu olho! se me amasses, sim, compreendo que quizesses um olho meu, o olho da tua Bébé, para o pôres em um medalhão. Mas oh! tu não me amas....
--Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um olho para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!
E, em seguida, por um de esses atos de paixão profunda que muitas vezes transformam o homem em um deus, o cavalheiro abriria um canivete e, delicadamente, apoderar-se-hia do olho da creatura.
Oh! amor!... amor!
Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura de este breve e delicioso idílio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito jornal o serafim a que nos reportamos.
Um dos membros do juri dirigiu á folha aludida uma bela carta patenteando as altas razões jurídicas que os levaram, ele e os seus colegas, a absolver o colecionador de olhos, cujo amor se debatia em juízo.
Diz o jurado:
Se o réu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o olho á queixosa?
Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas históricas percorridas no século XVII pelas damas ilustres.
Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre que personagens de este quilate aparecem ao critico, a restricta obrigação de este é por-se de rôjos.
Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na cidade de Braga, o mui ardente eclesiástico Sr. Senna Freitas, terminando um entusiástico discurso, tirou do seio uma bandeira branca, e em um rapto de eloquência obrigou todos os assistentes a jurarem sobre essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei Sr. D. Miguel de Bragança Junior.
Referindo este facto o Diario de Noticias accresccnta, reprehensivo e severo, que «não se devem fazer comedias partidárias com a independencia da pátria.»
Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriótico do Diario de Noticias, afirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas fidedignas--se assoou comovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio a descobrir que ela era unicamente um lenço.
Pela parte que nos toca não podemos deixar de aplaudir absolutamente a atitude firme e enérgica que o reverendo Senna assumiu no grêmio do venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus correligionários políticos a aceitarem como simbolo sacrosanto das suas crenças o moderno lenço de assoar, em vez de continuarem a seguir servilmente as tradições partidárias da velha côrte toireira e cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos íntimos do Sr. D. Miguel I, tais como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre outro qualquer simbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.
Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do moveis artísticos.
Tentámos adquirir em essa venda um espelho com moldura de faiança portuguesa e dois bules franceses, stylo da China, em ramagens azuis sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua majestade a rainha, encarregado de comprar por conta de aquela augusta senhora.
O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao desafogo de alguns comentários.
A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos de algumas das artes industriais em este século. O gosto das mobílias antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artística. Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo armário, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em meter a roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do Sr. rei D. João v.
Pelos vestígios que na arte da mobília deixa da originalidade do seu gosto, o século XIX figurará na historia como o século--dos ferros-velhos.
É aos reis que compete atenuar este desdouro, imprimindo nas formas artísticas do seu tempo o cunho estético do seu reinado. É isso de resto o que sempre se vê na historia do móvel. A cada uma das modificações características por que sucessivamente vai passando a linha e a cor na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliário da sua epocha o tipo da mesma ênfase cezarea que o imperial parvenu aprendera na convivência e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar a traçar a purpura, e do retorico Champagny incumbido de lhe fazer os rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.
Os três grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos preços que podem atingir as matérias preciosas, eram os fornecedores dos Bourbons, e foi para as residencias reais de França que eles fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.
O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas oficinas estabelecidas no próprio palácio do Louvre, onde estava alojado na categoria de fornecedor privilegiado de Luiz XIV.
Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.
Os nomes de esses príncipes, refractários por outros títulos á consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo imortalizados nas coleções democráticas das artes decorativas, aliados á memoria da doce e benéfica influencia que exerceram sobre os progressos do gosto artístico, que são ao mesmo tempo os progressos da elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.
Sua majestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis nos leilões dos seus súbditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar proeminente nos futuros anais do bom gosto. E nada nos punge mais melancolicamente do que a perspectiva do futuro vácuo em torno da influencia estética de esta princeza de uma elegância tão distinta quanto talvez efêmera.
Ficando-nos os nossos dois lotes em esse leilão e arrebatando-os pela quantia de mais três tostões e meio com que cobriu o nosso último lance, sua majestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe, definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artística sumptuosidade suprema dos antigos príncipes se impunha ainda hoje á fascinação dos míseros burgueses enriquecidos.
Que os adelos se barbeassem diante das elegantes psichés das Maintenon e das Pompadour, e que almoçassem nas taças patê tendre, das Dubarry ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e bem dissolvente!
Mas, depois do último leilão, em que nós fomos batidos por sua majestade a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta nuance--agora é a mais distinta, a mais elegante, a mais aristocrática das princezas, que revê os cândidos e impolutos arminhos do seu real manto no mesmo espelho a que na véspera fez a barba o Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu trono com a esvelta graça altiva e triunfante de uma Diana vencedora, vai ela mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!
Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e afrontosa de que foi victima o mais belo gato de sua majestade!
Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela competência única do grande especialista o pintor Lambert, esse gato de, uma beleza e de uma majestade digna dos versos de Beaudelaire, contrahira em palácio uma especie de tinha, que obrigou os físicos da real camara a raparem-o á escovinha.
Foi em esse estado de tonsura, desfigurando o aristocrático animal até o ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha dias o interessante enfermo no ato de tasquinhar na copa uma costeleta destinada ao inviolável almoço do monarcha. Ora todas as pessoas versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja, sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reais pessoas, uma costeleta destinada á refeição do príncipe é absolutamente a mesma coisa que seria o próprio príncipe, panado, e posto em um prato com uma rodela de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria no sólio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.
O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente mordiscado por aquele que Lambert escolhera para fins de certo mais abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--aceso em zelo pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de costeleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janela á distancia kilometrica que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear entre o cheiro das saborosas costeletas dos príncipes e os apetites caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!
Aquele que com amargo fel traça estas linhas coléricas, movido unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado em um leilão um espelho e dois bules, incorre de est'arte para com a pessoa da augusta soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Ele porem se promtifica desde já a ser mais tarde, ele próprio, o primeiro a reconhecel-o e a lamental-o.
Andámos três dias sem poder entender bem qual a causa do conflito entre o governo de sua majestade e Monsenhor Masella, nuncio apostólico e representante diplomático de Sua Santidade em Lisboa.
O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica de este incidente, diluiu a historia de ele em uma tal quantidade de fel verboso que a menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos comentários.
Sahiram para este efeito do fundo do velho guardaroupa da retórica liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação clássica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como em uma procissão solene, as relíquias venerandas de um stylo de guerra que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, supúnhamos definitivamente morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas coleções archeologicas.
«Portuguezes! descendentes de aquellcs heroicos e sublimes martyres que com tanto sangue implantaram e regaram em este abençoado torrão a virente árvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discípulo do augusto mártir do Gólgota, esquecendo que seu mister é todo de paz e de amor, renegando escandalosamente a doutrina amantíssima do Crucificado, calcando a pés os preceitos evangélicos do Redemptor. Cessem em este momento solemnissimo todas as divergências que por ventura hajam desunido a grande família liberal! Unamo-nos todos em amplexo fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de nossos pais, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime religião, finalmente, tal como ela é em sua excelsa pureza, que ora vemos torpemente desvirtuada pelo próprio representante de aquele mesmo Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da nação portuguesa!»
Os jornais de hoje, os de ontem e os de antes de ontem veem cobertos de artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de oferecer ao leitor como ligeira amostra do gênero.
O periódico legitimista a Nação foi o único que ousou tomar a defesa do odioso Nuncio, mas o Diario da Manhã de hoje agarra-se pelas orelhas á Nação e escaca-a com um de estes artigos que inutilisam o adversário por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em pé outra vez.
Imaginem que o Diario da Manhã, desde que começou a questão até hoje, se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando a Nação, imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os únicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os três prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.
Nós tínhamos lido o artigo da Nação e confessamos mesmo que no primeiro repente gostamos de ele.
Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a Nação é geralmente considerada o periódico que mais entende de esta coisa de bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ela afirmou que os únicos bispos bons eram os de Angra, do Funchal e de Gôa, nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.
Mas o Diario da Manhã, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado em esta matéria, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros conhecemos os nossos dedos, o Diario da Manhã, que, segundo parece, estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os bispos, apenas a Nação disse que os únicos três bispos com geito eram os do Funchal, de Angra e de Gôa, ah! pai do céu!
Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a desanda tremenda aplicada á Nação pelo Diario da Manhã de hoje! E é preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para aí aprendermos a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em ninguém.
Ficamos sabendo agora que os tais três excelentissimos prelados com que a Nação nos queria espigar como afiançados, são precisamente os peiores de todos!
Prelados bons, segundo o Diario da Manhã, prelados desenganados, prelados que se podem dar a contento seja para onde for, restituindo-se o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Évora e o arcebispo de Bragança.
O bispo de Coimbra, sim scnhores! falem-me no bispo de Coimbra! isso é que é fazenda.
Bispo de Bragança, bom bispo também: as ovelhas que o levarem irão tão bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.
O arcebispo de Évora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é galinha!
Enquanto aos outros três sujeitinhos recomendados da Nação diz o Diario da Manhã que eles não são outra coisa senão os soldados do exercito das trevas.
Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum de esses três melros. Rua, que é a sala dos cães!
Para soldados do exercito das trevas bastam-nos os persevejos, escusa-se de bispos.
Suponham porém que o benemérito Diario da Manhã nos não prevenia e que eu, por exemplo, ovelha inocente posto que velha e mesmo já um pouco pelada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos... quero dizer, aos bispos... da, Nação!... Que tal estava a rascada, heim?
E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós agora que o próprio Diario da Manhã....--Não queremos melindrar ninguém, e pedimos ao Diario da Manhã que o não leve a mal pelo amor de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infalível? Não é. Infalível é unicamente o papa, o homem não. Humanum est errare...--
Vamos pois, como íamos dizendo, que o mesmo Diario da Manhã não seja tão forte em escolher os bispos como a Vicência o é em escolher os melões. Ha certeza absoluta de que este amável confrade não possa incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a Nação?...
Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções que ha pouco demos á nossa cosinheira:
--Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.
Todos os jornais, exceptuada apenas a refalsada Nação, pedem ao governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciais ao nuncio.
O Século vai mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para impedir que monsenhor Masella receba em esta ocasião o barrete cardinalício que lhe está prometido por Sua Santidade.
No Século, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco estranhável a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais propicio para cardinalisar Masella.
Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que se procede cosendo-o--o parecer do Século junto da tia Pincha, encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo ponto admissível e oportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a própria tia Pincha que opera, cuida por ventura o Século que a coisa é a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lho não sirva?...
Oh! não.
Para intervir na distribuição dos barretes cardinalícios o Século tem exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na distribuição dos barretes frígios.
O partido republicano do Brasil impõe ás vezes solenemente o barrete simbólico da República aos seus membros mais ilustres. Ainda ha pouco o simpático agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado então um belo barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.
Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa de Lisboa. O barrete frígio do nosso uso pessoal, aquele que nos cobre a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito tostões e meio.
De lã e vermelho, do matiz radical denominado rebenta-boi, é com esse barrete carregado á banda sobre um olho, com o monóculo expectante da critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as águas do mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das instuições caducas, representadas nas vilegiaturas marítimas pela musa do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão ilustre em fins do século XIX quanto o foi Rosalia por meiados do século XVII, segundo o afirma o mui culto Doutor Jardim... de S. Pedro de Alcântara.
Se o Século segue porém as boas praticas do republicanismo brasileiro, presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do seu partido, que diria o Século se, usando da reciprocidade de um direito que ele próprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse dizer em tal conjuntura:
--Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com esse sujeito por uma partida que ele me fez. Colloquem antes o barrete sobre a cabeça do mártir Gomes Leal, cabeça de gênio e bem assim do turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa própria, senão galos e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.
Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de vários dias de estudo retroactivo através das declamações da imprensa, que emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflito entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.
Eis o caso:
Sua excelência o nobre ministro da justiça, usando de aquela apreciável franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se propunha nomear, pedindo acerca de eles a opinião do mesmo Sr. nuncio.
Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão benevolamente fora tratado pelo Sr. ministro, respondeu que achava péssimos alguns dos bispos propostos.
--Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca, desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião precisamente oposta á que eu tenho!?...
--Perdão...---interrompe o eclesiástico--eu pensei que, desde que v. ex.ª me consultava....
-Nada de sofismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de acrescentar: nada de cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no grêmio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce por sofisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma de essas ficções fundamentais do sistema que felizmente nos rege consiste no principio sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender toda a beleza de este profundo principio cumpre observar--e para isto chamo particularmente a atenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do príncipe, pede acerca dos seus atos a opinião de qualquer dos poderes do Estado, a obrigação de esses poderes, quaisquer que eles sejam, quaesguer que eles sejam--repito-o--é abundarem aprovativamente e jubilosamente no sábio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e libérrimo governo da nação portuguesa.
--Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o sistema governativo, de cujo elencho V. Ex.ª é tenor aplaudido, vem a ser realmente a farça mais divertida (la piu piacevole) que se conhece! O pundonoroso luso da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe falou em farça, meu amiguinho e Sr., agora, o vereis!
--Farça! bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recomendado pela retórica para os grandes lances da indignação suprema. --Farça! O forasteiro ousa chamar farça ao sublime governo constitucional, monarchico-representativo da pátria do falecido marquês de Pombal! do chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de Magalhães, cognominado por antonomásia o Deus da Palavra!!... Cuidará então o Sr., por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para ir para o céu a três vintens por cabeça! mais a bula para misturar carne com peixe a pataco por família! mais as dispensas, a tanto por incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos carnais com primos carnais, genros com sogros e bisnetos com bisavós!... Cuida o Sr. que ainda alguém toma a serio em este mundo uma chirinola de essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a sua famosa vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor! Suppoem os snrs porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se a si mesmos sal da terra; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o Sr., por exemplo, na convicção profunda e inabalável de que é medido ás razas pelos almotacés sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire sempre que penetra nas zonas fiscais das deoceses em que circula? Tem o Sr., na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique pronta para se deitar á panela com cebola e batatas?! No dito estado de sal, nutre o Sr. a austera e firme convicção profissional de que lhe assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espíritos?... Está o Sr. bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde para que ele ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de Garcia Diniz ou sobre os artigos da Nação para que essas producções literárias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida coisa que Deus permite a fazer aos seus ministros em toda a vastidão da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?
Enquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso, que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrílego e de perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.
Até aí chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações dispersas que podemos recolher acerca de este memorável incidente. de esse ponto por diante ignoramos como é que os factos precisamente se passaram. Lemos porem no Diario de Portugal uma frase reveladôra, que se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquela auctorisada folha:
O nuncio desacatou sua excelência.
Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa afirmativa de um dos periódicos ministeriais.
Sua excelência--segredam as vozes familiares da burocracia--apanhou um calor.
Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o Sr. nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum atingir as causas do geral descontentamento que invadiu os periódicos liberais por ocasião de este jubiloso sucesso.
E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem, nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.
Os bispos--dizem-o todos os textos canônicos--são os pastores das almas, incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' em eles que reside a plenitude do sacerdócio, a posse inteira dos poderes confiados por Jesus Cristo aos apóstolos. Eles não podem ser considerados senão como puros e legítimos delegados do chefe supremo da Egreja, por ele encarregados de manter a continuidade do sagrado ministério, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome de Deus, de quem o papa é o representante visível na terra.
Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os interesses do Summo Pontifice e não os do Sr. Julio de Vilhena que os bispos têm de representar, de defender e de servir, como é que querem, de boa fé e francamente, que seja o Sr. Julio de Vilhena e que não seja o papa quem escolha os individuos encarregados de semelhante missão?
Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua majestade fidelíssima, que é que têm com isso os jornalistas republicanos e livres pensadores?...
Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:
Foi para intervir nos mais perfeitos métodos de fazer padres, de dar ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelências se fizeram livres pensadores? Mas escusavam então de se incomodar para isso, prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal fim disporiam continuando a ser mesários da freguesia das Chagas ou irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!
Têm, por ventura, estes filósofos democratas e materialistas pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?
Vejamos, sinceramente:
Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono? querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem confessar mulheres?...
Se querem, digam-o! Desce-se um véu sobre a questão e não se torna mais a falar em isso.
Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados, que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?
Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:
--Mas ha um facto extra-eclesiástico e extra-religioso que obriga os republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os bispos.
Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com efeito o governo. E é por essa razão que nós aplaudimos com entusiasmo o Sr. Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, desacatou o governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo!
A corveta Stephania acaba de dar da sua incapacidade como instrumento beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solene.
Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato republicano de oposição ao governo.
Considerada pelos poderes públicos como incapaz do real serviço, consta que este vaso de guerra vai ser aposentado e recolhido debaixo do leito do Arsenal na qualidade de vaso de paz.
Para substituir a Stephania nas campanhas navais das futuras eleições pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim estão-se já coligindo nas estações competentes os mexilhões precisos para guarnecer a quilha de este distincto cavalheiro.
Parabéns a sua excelência!
Agora invocamos a proteção dos anjos para que, com sua assistência, passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, própria da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do Carnaxide.
Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se inclinava ao ocaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos pelos zagais, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados gorgeios.
Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao fatigado corpo e discreteando em ameno convívio acerca de seus bucólicos lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse o milagroso dia de tão prodigiosa santa.
Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo majestoso acima do narrável.
Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada de um pastoril chapéu de palha, ora fazia um gesto cortez para o horizonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da vida em direcção á faia virente.
Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco ao lado.
Junto da faia, aquele que os camponezes haviam tomado de longe por Praxedes, colocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para as nuvens, exclamou:
Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
Era s.ex.ª o Sr. Tomás Ribeiro, ministro da poesia lirica e dos negócios do reino.
Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.
--Guarde-vos Deus, bons rústicos!--disse s.ex.ª acomodando o stylo á rude e acanhada comprehensão do auditório--E que a senhora Santa Rosa de Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bendita mão!
E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo campesino a que nos referimos, s.ex.ª prosseguiu continuando a exprimir-se em prosa:
--Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?
Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da facundia de seu lábio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de lingoagem como a que saia em jorras da boca de esse portentoso homem de pena e de governação.
Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão matizada de piéricos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra em um brando meneio para o pendôr da colina, perguntou:
--Que vetustas ruínas são aquelas que além descortino alvejando na quebrada da serra?
E, como houvesse em resposta que essas ruínas eram a antiga egreja de Nossa Senhora Apparecida,
--Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a elevar nossas preces e a depor nossas modestas oferendas no altar de essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominais Apparecida! Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio, Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao templo!...
Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desaparecera. Mão impia de infames governos despóticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das patronas minazes da real melícia. De sorte que, já no tempo em que o feroz usurpador do trono de Lysia se apegara com a Senhora Apparecida para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro solas de Queluz para Cacilhas, no logar do Moinho de Cavalinhos, cantavam os cegos na via publica:
D. Miguel foi á Sé, Sentou-se em uma cadeira, E disso para os malhados: Esta perna está inteira!
Ao ouvir tais vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lira que trazia ao tiracolo em um saco, juntamente com a pasta da publica governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do céu ao terno Endymion, ou--por outra--que dentro, de seis meses contados, a milagreira imagem de Nossa Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reaparecendo pela segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.
Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram submissos em giolhos.
E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez repetir aos montes e ás hervinhas:
Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
que os camponezes, reunidos em honesto convívio sob a faia, regressaram a suas pousadas, tangendo alegres tíbias e entoando lôas festivais em honra de aquele que tão grande capricho punha em lhes restituir a Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes de nunca ter visto Lisboa.
Gloria pois a s.ex.ª!
Outrora o portuguez de volta do Brasil, com fortuna, com papagaios e com pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao desembarcar, um acomenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir em uma quinta minhota o producto do seu trabalho de emigrante, representado em moléstias sedentárias, em graças regias e em quadrupedes de louça.
A pátria explorava-o e ria-se de ele.
Agora chega do Rio de Janeiro o Sr. Eduardo de Lemos, sem pedras e sem papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no Diario do Governo, ele não só não paga mas resigna uma comenda com que o agraciou a regia munificência.
Tomemos nota do fenômeno, porque ele é o symptoma de uma revolução profunda: ele é o Emfim Malherbe veio da historia dos comendadores e dos cães,--vertebrados da olaria nacional e do grosso comércio extrangeiro.
Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o embate hostil e tremendo do novo poder revolucionário que se anuncia! Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brasil uma legião inteira, inteligente, instruida e forte, que vai chegar--para se rir.
Lisboa 15 de dezembro de 1882.
Ramalho Ortigão.
As Farpas, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, reúne em um único registro canônico onze fascículos integrais do Project Gutenberg, de 1873 a 1883, conservadoramente normalizados para PT-BR moderno.
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