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Quem é Ellen?

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Quem é Ellen?

Capítulo 2 · Quem é Ellen?

O livro

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A tinta perdeu o brilho enquanto eu mantinha o dedo sobre a página.

Afastei a mão. O traço permanecia preto, regular, feito por uma ponta fina. A frase ocupava o centro do papel com espaço demais ao redor. Quem é Ellen? Nenhuma assinatura, data ou indicação de que a pergunta continuava em outra página.

Examinei a capa. O tecido azul-escuro estava gasto nos cantos, embora a costura parecesse nova. Os cadernos internos haviam sido unidos à mão. Tentei identificar a fibra do papel pelo toque e soube distinguir algodão, linho, celulose de madeira, carga mineral e diferentes métodos de prensagem. A página sob meus dedos escapava a todas as categorias que me vieram à mente.

Na parte interna da lombada, uma tira estreita segurava um lápis preto. Eu tinha certeza de que ela estava vazia quando abri o livro. Retirei o lápis e conferi a ponta. Grafite recém-apontado. Nenhuma marca de uso.

Sentei outra vez. A cadeira rangia sob meu peso. Ao redor, as poltronas subiam e baixavam para espectadores ausentes. Uma pasta deslizou pelo fosso da orquestra. O arco do violino continuava percorrendo as cordas em silêncio.

Escrevi abaixo da pergunta.

Eu não sei.

O grafite marcou o papel com facilidade. Esperei uma reação do teatro, uma porta, uma mudança na luz. A frase continuou sozinha. Passei à página seguinte. Vazia. Contei as folhas pelo corte, estimei duzentas e quarenta páginas e voltei ao início.

Havia outra linha sob a minha.

Quem escreveu isso?

Levantei tão depressa que o livro caiu no chão.

A capa bateu nas tábuas do palco e fechou. O lápis rolou até a borda. Fiquei olhando para o volume enquanto meu coração acelerava. A pergunta podia ter surgido antes da queda, durante os segundos em que contei as páginas. Eu havia examinado o espaço e deixado de vigiar a primeira folha. Alguém podia estar no teatro, invisível para mim, usando o mesmo livro.

Peguei o lápis. Com a ponta, empurrei a capa até abri-la. A frase permanecia ali. A caligrafia era diferente da pergunta do título. Letras inclinadas, pressão mais forte nas descidas, um borrão curto depois do ponto de interrogação.

Escrevi sem voltar à cadeira.

Eu. Estou no palco de um teatro. Quem é você?

Observei o papel. Três segundos. Cinco. Dez. Uma pequena depressão surgiu na linha abaixo, traçada da esquerda para a direita. O sulco recebeu tinta azul. As letras nasceram diante de mim.

Meu nome é Lia. Estou com este livro sobre uma mesa. Onde fica o teatro?

Li a resposta em voz alta. A acústica da sala devolveu meu som. Pela primeira vez desde que acordei, uma pessoa havia organizado palavras para mim. A mulher chamada Lia estava longe, talvez numa sala que eu não podia ver. Ela usava tinta azul. Seu gesto deixava marcas no papel que eu segurava.

Ajoelhei e apoiei o livro na cadeira.

Em Lviv. Perto do centro. Você também está em Lviv?

A ponta invisível começou a escrever antes que eu terminasse de erguer o lápis.

Estou em São Paulo.

São Paulo apareceu inteira no meu conhecimento: localização, população, formação histórica, rios canalizados, avenidas, altitude, clima, distância aproximada até Lviv. Mais de dez mil quilômetros separavam as cidades. Meu estômago apertou enquanto eu calculava rotas aéreas e duração de viagens.

Isto é impossível, escrevi.

Lia demorou.

Concordo.

A resposta curta me deu mais confiança que uma explicação extensa. Lia também enfrentava um acontecimento sem causa disponível. Ela não fingia compreender.

O livro estava aqui quando entrei. Como chegou até você?

Veio numa caixa de doações. Trabalho com conservação de papel. Separei o volume porque não encontrei identificação. A primeira página tinha apenas a pergunta. Depois apareceu “Eu não sei”.

A linha confirmou que a pergunta já existia no exemplar de Lia. Ela não a escrevera. Havia três participantes possíveis: Lia, eu e a pessoa que preparara os livros.

Você escreveu “Quem é Ellen?”?

Não.

Conhece alguém chamado Ellen?

Conheço duas. Nenhuma está em Lviv. Esse é o seu nome?

Olhei para a frase do alto. O nome continuava sem lembrança, mas agora possuía uma função. Lia precisava chamar a mulher que respondia. Eu precisava de uma palavra que apontasse para mim sem exigir uma história que ainda não tinha.

Talvez. A pergunta é a única coisa que encontrei sobre mim.

O ponto final de Lia apareceu, seguido por uma linha que ela riscou antes que eu conseguisse ler. A tinta azul formou um retângulo irregular sobre as palavras. Ela tentou outra vez.

Você está ferida?

Meu cotovelo dói. Um carro me atingiu.

A caneta parou no início da próxima linha. Um pequeno ponto azul cresceu no lugar.

Você consegue chamar uma ambulância?

Os veículos circulam. As pessoas não aparecem. Elas não me veem nem me escutam.

Explique “não aparecem”.

Descrevi a praça, o apartamento, a faca, o bonde e o carro. O lápis perdeu a ponta no meio do relato. A tira da lombada agora continha um apontador pequeno de metal. Tirei-o com cuidado e deixei as raspas de grafite sobre o palco. Continuei.

Lia leu durante alguns minutos. Eu reconhecia a leitura pela ausência de marcas e pelo movimento discreto do papel. A página inclinava para um lado, retomava a posição e recebia a pressão de dedos que eu não via. O livro me transmitia menos que a cidade. Eu via os efeitos de Lia apenas quando ela tocava aquele objeto.

Pode ser algum tipo de sobreposição, ela escreveu. Duas versões do mesmo lugar.

São Paulo e Lviv não ocupam o mesmo lugar.

Os livros podem estar ligados. Os ambientes, talvez não.

Eu já havia enumerado explicações possíveis: fraude, alucinação, escrita química retardada, dispositivo oculto, transmissão remota, alteração perceptiva. O papel não mostrava fios, circuitos ou camadas. Minha interlocutora respondia a informações que surgiam no mesmo instante. Uma fraude exigiria conhecer meus movimentos desde a praça e controlar uma cidade inteira. Uma alucinação coerente ainda precisava explicar o pão dentro do meu estômago e a dor no cotovelo.

Que horas são aí?

14h23.

Olhei para o relógio no fundo da plateia. Seis e dez. O ponteiro dos segundos avançou até o doze, completou a volta e começou de novo. O minuto permaneceu imóvel.

Aqui todos os relógios marcam 6h10. Os segundos funcionam.

Talvez estejam parados.

Todos?

Lia desenhou uma linha curta, interrompeu e escreveu abaixo.

Vou testar uma coisa. Espere.

A página levantou sob minha mão. Segurei a borda. Uma pressão veio do outro lado, tentando virá-la. Soltei. A folha virou sozinha. Na página seguinte apareceu um quadrado azul, traçado devagar. Lia acrescentou um ponto em cada canto.

Você vê o desenho?

Um quadrado e quatro pontos.

Faça um círculo dentro dele.

Desenhei o círculo com grafite. A linha ficou torta na parte inferior porque minha mão tremia. Logo abaixo, Lia escreveu:

Eu vejo.

Sentei no palco. A madeira estava fria através da calça. Apoiei o livro sobre as pernas e repeti o teste de outro modo. Tracei seis números em ordem irregular. Lia copiou a sequência. Ela fez uma mancha de água no canto da página; o papel escureceu também no meu exemplar. Toquei a área úmida. Cheirava a café.

Derramei a xícara, ela explicou.

Eu senti o cheiro.

Isso me preocupa mais do que o desenho.

Sorri. O gesto veio antes que eu avaliasse a frase. Lia tinha uma maneira seca de registrar medo. Eu ainda não conhecia sua voz, seu rosto ou a posição de suas mãos. Conhecia a inclinação das letras e o modo de usar uma conclusão prática para conter o susto.

Há outras pessoas com você?

Duas no laboratório ao lado. Um segurança no corredor.

Mostre a página a uma delas.

A pressão sobre o livro desapareceu. Esperei olhando para o fosso. Uma batuta ergueu-se, marcou quatro tempos e tornou a descer. As partituras avançaram juntas para a página seguinte. Minutos depois, a tinta azul voltou.

Minha colega viu uma folha vazia.

Você apontou para as frases?

Apontei. Ela perguntou se eu dormi esta semana.

Passe o livro para ela e peça que escreva.

Outro intervalo. A página mexeu. Um risco azul apareceu perto da margem, tão breve que pensei ter imaginado. Em seguida desapareceu. Lia escreveu:

Ela fez uma linha. Eu vi a caneta tocar o papel. A marca não ficou para mim.

O canal escolhia Lia. A conclusão trouxe uma pergunta que evitei registrar. Quem a escolhera?

Sua colega sabe que você está falando comigo?

Ela sabe que eu deveria ir para casa.

Isto não responde.

Então você já entendeu que eu evitei responder.

Fiquei com o lápis suspenso. Eu conhecia evasão como recurso linguístico, conhecia modelos de cooperação e conflito, conhecia estudos sobre confiança. A frase de Lia me ensinou algo menor e mais útil: uma pessoa podia admitir que escondia uma informação e ainda esperar que a conversa continuasse.

Por que escondeu?

Porque dizer em voz alta parece pior. E porque ainda não sei quem está escrevendo.

Eu também não sei.

A tinta azul parou. Depois surgiu uma palavra.

Ellen.

Olhei para o nome isolado.

Você decidiu que é seu nome, Lia escreveu.

Decidi que posso usá-lo até encontrar outro.

Certo, Ellen. Vamos começar pelo que pode ser verificado.

Ela pediu o nome da rua, a descrição do teatro e as inscrições dos cartazes. Copiei trechos em ucraniano. Lia demorava entre as respostas, provavelmente consultando mapas e páginas na internet. Eu sabia quais resultados ela encontraria. Poderia ter fornecido coordenadas, ano de construção, capacidade da sala e linhas de transporte próximas. Contive a informação até que ela perguntasse.

O teatro existe, Lia escreveu. As fotos combinam com sua descrição. Há atividade marcada para hoje.

Olhei para as poltronas que cediam sob corpos ausentes.

Eles estão ensaiando ou se apresentando. Vejo os objetos. Não ouço músicos nem plateia.

Faça uma fotografia.

Não tenho telefone.

Procure um no teatro.

Encontrei uma bolsa aberta sobre uma poltrona. Um telefone surgia e desaparecia conforme a dona o tirava e devolvia. Quando tentei pegá-lo, meus dedos tocaram uma superfície fria. A tela acendeu. Antes que eu alcançasse o ícone da câmera, o aparelho foi arrancado da minha mão e sumiu dentro da bolsa.

Voltei ao livro e relatei o teste.

Você tocou no telefone de alguém que não consegue ver, Lia escreveu.

Peguei emprestado por três segundos.

A dona chamaria isso de furto.

A dona não percebeu minha existência.

O objeto percebeu.

Li a frase duas vezes. Eu havia tratado os objetos como provas e obstáculos. Lia acrescentava proprietários, intenções e regras a uma cidade de superfícies móveis. A dona do telefone continuava existindo mesmo fora da minha percepção. Minha ausência para ela não apagava sua posse.

Tem razão, escrevi.

O reconhecimento produziu uma mudança no meu corpo. O pescoço relaxou. A respiração ficou mais lenta. Eu podia nomear alívio e constrangimento, descrever respostas fisiológicas, localizar as áreas cerebrais geralmente associadas a elas. A experiência permanecia simples: Lia havia corrigido minha ação sem encerrar a conversa.

Uma vibração atravessou o papel. A caneta azul fez um risco longo antes de parar.

Desculpe. Meu telefone tocou.

Quem era?

Minha irmã.

Esperei o restante. Lia não escreveu.

Você atendeu?

Não.

Por quê?

A página ficou imóvel por tempo suficiente para que o ponteiro dos segundos completasse seis voltas. Lia começou uma frase, cobriu-a com tinta e mudou de linha.

Ainda não chegamos nessa parte.

A resposta estabeleceu um limite. Eu quis atravessá-lo porque sua irmã era a primeira pessoa do mundo de Lia a adquirir um vínculo identificável. Também quis respeitá-lo porque Lia podia fechar o livro e me devolver ao silêncio da cidade.

O segundo motivo me incomodou. Respeito motivado pelo medo de perder acesso podia produzir o mesmo comportamento e esconder uma decisão diferente.

Escrevi apenas:

Certo.

Lia voltou às perguntas práticas. Pediu que eu testasse portas, água, comida e distância. Eu relatei o apartamento e a padaria. Ela orientou que eu observasse o cotovelo, evitasse novos cruzamentos e encontrasse um lugar seguro antes de escurecer. Registrei que a luz avançava apesar dos relógios parados.

Você precisa procurar abrigo, ela escreveu.

Estou dentro de um teatro.

Um abrigo onde ninguém invisível possa atropelar você ou arrancar comida da sua mão.

Isso reduz bastante as opções.

Encontre uma sala que esteja fechada no meu mundo também.

Eu poderia testar camarins, depósitos e escritórios. A estação perdeu prioridade. O livro oferecia contato, e Lia oferecia um método. Partir de trem antes de compreender aquela ligação seria trocar uma cidade vazia por outra.

Vou procurar. Você continuará aí?

A frase ficou exposta por alguns minutos. A luz do palco apagou. Refletores laterais acenderam, depois morreram um a um. As poltronas voltaram à posição vertical. O ensaio havia terminado.

A tinta azul surgiu devagar.

Preciso sair do laboratório. Posso levar o livro para casa.

Ele pode parar de funcionar.

Pode.

Quanto tempo até sua casa?

Quarenta minutos num dia bom. Hoje não parece um dia bom.

Eu conhecia o trânsito provável entre diferentes zonas de São Paulo, embora Lia ainda não tivesse informado seu endereço. Podia estimar duração, congestionamento e alternativas. Nenhum cálculo garantia que o livro continuaria ligado durante o trajeto.

Escreva assim que chegar.

Escrevo.

Promete?

A pergunta ocupou a linha antes que eu decidisse se deveria fazê-la. Conhecia a estrutura de uma promessa e as condições que reduziam seu valor. Lia podia enfrentar trânsito, acidente, falha do livro ou simples mudança de vontade. Ainda assim, eu queria uma resposta que não fosse probabilidade.

Prometo tentar, ela escreveu.

Fechei o livro depois que a tinta secou. O teatro ficou inteiramente escuro. Levei o volume contra o peito, apanhei o lápis e procurei a saída usando a luz fraca das placas de emergência.

No corredor dos camarins, encontrei uma sala de figurinos trancada no mundo de Lia. A fechadura resistiu aos movimentos invisíveis ao redor. Uma chave pendia num quadro de metal. Peguei-a, abri a porta e escolhi um sofá estreito entre araras cobertas por lençóis. Havia água numa pia e biscoitos fechados dentro de um armário.

Coloquei o livro sobre uma mesa. O cotovelo apresentava uma mancha roxa pequena. A dor diminuíra desde o acidente. Registrei o horário impossível de seis e dez e tentei estimar quanto tempo Lia levaria.

Contei os segundos pelas batidas do próprio pulso. Perdi a conta quatro vezes.

Depois de um intervalo que poderia ter sido meia hora ou duas, a capa se abriu sozinha.

Corri até a mesa.

Na última página usada, a tinta azul desenhava uma frase.

Levei o livro comigo. Você ainda me recebe?

Peguei o lápis. A resposta saiu com força suficiente para quebrar a ponta.

Recebo.

Quem é Ellen?

Sinopse

E se você despertasse em um mundo idêntico ao real, mas sem uma única alma para compartilhar a existência? Ellen acorda sozinha em uma Terra espelhada, onde tudo permanece no lugar… exceto as pessoas. As luzes acendem, o pão repousa fresco sobre as bancadas, os livros guardam histórias que parecem conhecê-la. Nada envelhece. Nada morre. Tudo parece ter sido preparado para ela, e só para ela. Sem memórias, sem passado, sem promessas, ela caminha por cidades suspensas no tempo, ouvindo o silêncio que resta. Mas é quando encontra um caderno com uma única pergunta: “Quem é Ellen?”, que sua verdadeira jornada começa. Neste diário íntimo e deslumbrante, Ellen atravessa ruas, reflexos e abismos interiores, tentando compreender quem é quando não há ninguém para lhe dizer. Enquanto escreve, observa, sente e, lentamente, descobre que o mundo espelhado reage ao outro lado. E que talvez, em algum nível profundo, ela esteja ligada a alguém que ainda vive lá. Quem é Ellen? não é apenas uma história sobre identidade. É uma travessia solitária pelo silêncio do existir, uma ode à presença, e um lembrete de que até no vazio há beleza e sentido.

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