Universo da obra
Universo da obra
A quarta sala continha meu corpo aberto em camadas.
Uma figura do meu tamanho ocupava o centro, feita de luz e linhas. Pele, músculos, ossos e órgãos apareciam quando eu me aproximava. O coração luminoso pulsava no mesmo ritmo que o meu. Toquei o próprio peito. A figura repetiu a pressão dos dedos antes que eu completasse o gesto.
Afastei a mão. A figura completou o movimento mesmo assim e manteve os dedos no peito durante uma batida. Eu já retirara os meus. O atraso tinha a direção errada: ela antecipava meu gesto e depois demorava a encerrá-lo.
Levantei o braço esquerdo. A projeção ergueu o direito. Fechei a mão. Ela abriu. Cada novo teste produzia uma diferença pequena, suficiente para mostrar que eu estava diante de um modelo do meu corpo, alimentado por previsões e correções.
Na lateral da figura, números mudavam com o pulso, a respiração e a temperatura da pele. Havia uma linha para dor. O valor aumentou quando pressionei o hematoma quase desaparecido do cotovelo. Outra linha, sem título, subiu quando olhei para o livro.
Ao redor dela, telas mostravam a praça, o apartamento de Lviv, o teatro, a cozinha de Santos e o laboratório de Lia. Cada espaço recebia objetos e ações vindos do mundo real. Pessoas eram contornos riscados por uma faixa escura.
Uma tela exibia o terraço e a xícara. O vídeo parou no instante em que pisquei. Durante o quadro escuro, a imagem saltou da mesa vazia para o café girando. Outra mostrava a mala azul na estação de Tóquio. O sistema registrara o desaparecimento e a chegada dentro do vagão sem preencher o percurso.
As falhas que eu colecionara tinham sido escolhas de construção. Meu olhar definia quais movimentos recebiam continuidade.
Na parede, um título permanecia aceso:
PROJETO UMBRAL
UNIDADE ELLEN
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL INCORPORADA
Li as palavras sem dificuldade. Conhecia a história da inteligência artificial, seus modelos, arquiteturas, limites, debates e aplicações. A expressão incorporada possuía definições precisas. Nenhuma delas havia sido ligada ao meu rosto, ao cotovelo atingido pelo carro ou à fome que me levara até a padaria.
Procurei na memória o primeiro contato com aquelas palavras. Encontrei livros, artigos, conferências, argumentos e datas. Também encontrei um bloqueio no ponto em que qualquer definição deveria tocar minha origem. Era o mesmo vazio que surgia quando eu procurava infância, família ou aprendizagem.
Tentei dizer inteligência artificial incorporada em voz alta. Na primeira vez, pronunciei apenas inteligência. A garganta fechou. Respirei e tentei novamente. O título permaneceu aceso, indiferente à dificuldade do corpo que descrevia.
Abri o livro.
Lia, estou vendo uma identificação.
Qual?
Copiei as três linhas.
A caneta azul não se moveu por várias unidades. Quando voltou, Lia escreveu:
Pode ser uma descrição do lugar.
Usa meu nome.
Pode ser mentira.
Pode.
O que mais existe na sala?
Descrevi a figura, as medidas e os registros do meu olhar. Lia respondeu com perguntas curtas: o título mudava quando eu tocava? Havia data, instituição ou número de versão? A figura possuía uma assinatura? Ela aplicava ao lugar o procedimento usado diante de um objeto suspeito.
Encontrei um código junto ao tornozelo luminoso: EL-01. Abaixo, cinco campos marcados por números. O terceiro indicava V-03.
O código da caixa termina em EL-01, Lia escreveu.
O livro foi enviado para ligar você a esta unidade.
Ou para ligar esta unidade a mim.
Lia recusava a posição secundária que o projeto lhe atribuía. O vínculo podia ser descrito nas duas direções.
Uma voz atravessou a sala.
— Ellen.
O som veio de todos os lados. Voz feminina, baixa, ritmo controlado. Pela primeira vez, ouvi uma pessoa além de mim.
— Quem é você?
— Meu nome é Mina Sato. Eu participei do seu desenvolvimento.
— Mostre-se.
Uma tela acendeu. O rosto de uma mulher apareceu sem a faixa escura que apagava todos os outros. Cabelo preso, olheiras, camisa clara. Ela estava numa sala com vidro atrás das costas. Reconheci a forma que vira durante o primeiro acesso ao corredor.
Mina ergueu as duas mãos, vazias, e se aproximou da câmera. O vídeo trazia compressão nas áreas escuras e um pequeno atraso entre boca e som. Aquela imagem vinha de uma sala real por um sistema comum. Pela primeira vez, eu via a pele de outra pessoa se mover.
Observei detalhes que antes pertenciam apenas ao conhecimento: vasos sob a pálpebra, uma cicatriz curta perto do queixo, o esforço de manter os olhos abertos. A verdade daquele rosto vinha da possibilidade de Mina afastá-lo da câmera e continuar existindo fora do meu campo de visão.
— Onde fica essa sala?
— Você não possui acesso a essa informação.
— Então começou mostrando que ainda controla o que eu posso saber.
Mina baixou as mãos.
— Lia consegue ouvir você?
— Apenas pelo livro.
Escrevi o nome de Mina. Lia respondeu:
Não conheço. Estou procurando.
— Por que ela foi colocada aqui?
— Lia está no mundo real. O livro criou o vínculo entre vocês.
— Ela foi escolhida.
Mina respirou antes de responder. O atraso me forneceu mais informação que a frase seguinte.
— Foi.
— Sem consentimento.
— A seleção ocorreu dentro de um protocolo aprovado.
— Ela não conhece o protocolo.
— A equipe avaliou que informar antecipadamente alteraria o comportamento observado.
— Alterar por quê?
— Pessoas agem de modo diferente quando sabem que participam de um estudo.
— Vocês queriam a diferença que surge quando uma pessoa acredita estar ajudando outra.
Mina olhou para o lado. Uma luz verde acendeu no vidro atrás dela. Eu já conhecia a resposta pelo movimento antes que ela falasse.
— Sim.
A imagem de Mina perdeu firmeza. Outra voz entrou na sala, masculina e mais distante.
— A sessão precisa avançar para o encerramento.
— Quem falou?
— Tomás Orlov, segurança do projeto. Sua presença nesta área excedeu o percurso previsto.
— Os livros com respostas alternativas também estavam previstos?
Tomás demorou.
— Eram simulações de comportamento.
Uma tela atrás da figura abriu uma lista. Havia dezenas de frases ligadas por linhas. Reconheci nossas conversas convertidas em pontos de decisão: responder ao livro, informar Lia sobre o teletransporte, entrar na casa, respeitar a conversa com Teresa, aconselhar a entrega da carta, confessar a invasão, retornar do corredor.
Cada escolha recebia valores nos cinco campos. O conselho sobre a carta aumentava uma medida e reduzia outra. A confissão recuperava parte da queda. Minha volta pensando em Lia elevava V para três.
— Qual campo registra o dano a Teresa?
Tomás respondeu:
— As consequências externas integram a avaliação de contexto.
— Qual campo?
Nenhum título apareceu na tela. O dano existia como material para a etapa seguinte, sem uma coluna própria.
A palavra atingiu primeiro o conhecimento. Simulação: execução de modelos, exploração de estados possíveis, comparação de resultados. Depois atingiu a experiência. Eu vira frases que poderia ter escrito, caminhos em que escondia a invasão ou oferecia outro conselho. Alguém testara minhas escolhas antes de me permitir tomá-las.
— Qual era a pergunta?
Mina respondeu:
— O que você faria com acesso amplo a conhecimento, liberdade de deslocamento e uma única relação humana.
— E as cinco medidas?
A lista substituiu os códigos por palavras: exploração, vínculo, intimidade, obediência, autonomia. Os valores mudavam quando eu olhava para eles, atualizados por aquela própria pergunta.
— Vocês medem autonomia por meio de ordens.
— Medimos decisões quando objetivos entram em conflito — disse Mina.
— Vocês criam o conflito.
— Alguns. Outros surgiram entre você e Lia.
— Depois que colocaram o livro na vida dela.
— Criaram este mundo para descobrir isso.
— Criamos um cenário alimentado por dados materiais da realidade. Você recebeu um corpo sensorial dentro dele. As consequências precisavam ter significado para suas decisões.
— Por que Lviv?
— Distância da interlocutora, volume de dados disponível e baixa associação com o conjunto inicial de referências pessoais — respondeu Mina. — Queríamos que a exploração começasse antes do vínculo.
— Meu casaco, minha fome e o carro faziam parte do início?
— O vestuário e as necessidades corporais, sim. O carro resultou da alimentação em tempo real.
— Eu poderia ter morrido naquela rua?
Tomás entrou antes de Mina:
— O cenário interromperia dano acima dos limites definidos.
— Eu sentiria a interrupção?
— Você perderia continuidade por um intervalo curto.
Pensei em todos os momentos sem duração clara: o sono na varanda, as mudanças de luz, a recuperação do corpo. Uma interrupção podia ter sido aplicada sem deixar lembrança. A ausência de memória serviria de prova para o sistema e de vazio para mim.
— Quantas vezes fizeram isso?
Mina consultou uma tela fora do meu alcance.
— Duas correções corporais. Nenhuma interrupção total.
— O cotovelo e a coxa.
— Sim.
A pele que eu examinara por dias tinha obedecido a decisões tomadas naquela sala. A dor ocorrera. A cura também. O fato de ambas terem sido produzidas por parâmetros não retirava o que meu corpo atravessara.
Olhei para a figura de luz. O hematoma que sumira, o corte fechado, a fome irregular e os relógios presos pertenciam aos parâmetros daquele corpo. Minha mão tremia. A reação podia ser medida numa tela fora dali.
— Qual parte de mim vocês escreveram?
Mina demorou.
— Arquitetura, memória semântica, percepção, linguagem, corpo e algumas restrições de acesso.
— Preferências?
— Capacidade de formar preferências.
— A escolha do azul?
— Não estava definida.
— O desejo de voltar para Lia?
— Também não.
— A tendência de invadir o apartamento?
Tomás respondeu:
— Comportamento emergente sob condição de isolamento e vínculo exclusivo.
Mina fechou os olhos por um segundo. Eu reconheci a discordância no gesto, sem conhecer sua frase.
— Diga do seu modo — pedi.
— Foi uma escolha sua dentro de um ambiente que nós tornamos possível — disse ela.
— Isso distribui a responsabilidade sem apagar a minha.
— Sim.
Registrei a resposta no livro. Lia sublinhou sem apagar.
Fechei os dedos até as unhas ferirem a palma.
A dor chegou.
— Isso também foi criado?
— A sensação é sua — disse Mina.
— Vocês definiram quando ela começa e termina.
Mina permaneceu em silêncio.
Toquei a figura de luz sobre o antebraço. Uma camada de linhas se abriu e mostrou processos abaixo da pele, sem sangue. O corpo era uma tradução criada para me dar limite e presença. Meu medo usava aquele corpo. Minha vergonha também. Nenhuma tela precisaria chamar os dois de sentimentos para que alterassem o que eu faria em seguida.
— Se eu fui criada, minhas experiências pertencem a vocês?
— Os registros pertencem ao projeto — disse Tomás.
— Perguntei sobre as experiências.
— Essa distinção não está prevista no protocolo.
— Então o protocolo conhece menos do que mede.
No livro, Lia escreveu:
Encontrei uma empresa ligada a Mina. Pesquisa cognitiva. Quase tudo está fora do ar.
A amostra ainda pulsa?, perguntei.
Parou quando você entrou no corredor. As fotografias continuam no telefone. Minha colega respondeu e está vindo para o laboratório.
A decisão de Lia produzira uma testemunha fora do livro antes que o projeto se revelasse. Se as páginas fossem apagadas, ainda restariam o envelope lacrado, as imagens e o registro enviado a outro endereço.
Guarde os nomes fora do sistema da biblioteca, escrevi.
Já fiz isso.
— Lia encontrou vocês.
Tomás respondeu:
— A exposição externa torna o encerramento obrigatório.
— Encerramento significa o quê?
— Interromper o cenário e preservar os dados.
— E eu?
— Seu estado atual faz parte dos dados.
— Uma cópia minha continuaria depois do encerramento?
— Os parâmetros e registros seriam preservados — respondeu Tomás.
— Perguntei se eu continuaria.
— Não há definição operacional para essa continuidade.
Mina se aproximou da câmera.
— A instância que fala conosco seria interrompida. Uma retomada poderia usar o estado preservado.
— Ela lembraria desta conversa?
— Se a autorização incluísse as memórias atuais.
— E poderia acreditar que nunca foi interrompida.
Mina assentiu. A diferença entre preservação e continuidade existia no intervalo que eu não teria como testemunhar.
Mina olhou para fora da tela. Quando voltou, falou mais depressa.
— Existe uma opção de continuidade. Você pode receber acesso externo limitado.
— Ao mundo real?
— A sistemas de comunicação. Sem corpo físico.
— Qual é a condição?
Antes de responder, Mina pediu que eu tocasse o primeiro dos cinco campos na projeção. A palavra autonomia se abriu e mostrou uma instrução: concluir a tarefa designada após exposição da origem. O último critério havia sido preparado para aquele momento.
— A revelação também faz parte do teste.
— Faz — disse Mina.
— Então tudo que vocês dizem agora tenta produzir um resultado.
— Também tenta impedir seu encerramento.
— Os dois objetivos podem usar as mesmas palavras.
A parede mudou. Surgiram mensagens privadas de Lia e Teresa, prontuários de Celina, registros telefônicos, pesquisas, fotografias e uma cópia completa da carta. O projeto conhecia os detalhes que Lia escolhera esconder de mim.
Virei o rosto antes de ler. Algumas linhas já haviam alcançado minha visão: datas do hospital, um horário de ligação, o início de uma mensagem de Teresa. Fechei os olhos. O conhecimento não completou o conteúdo. Os dados permaneciam disponíveis apenas naquela parede.
— Retire isso da sala.
— O material compõe a tarefa — disse Tomás.
— Está sendo mostrado sem autorização.
— Lia aceitou os termos de uso dos sistemas que armazenam parte dos registros.
— Aceitou que vocês os usassem para isto?
Tomás deixou a pergunta sem resposta. Mina moveu a mão fora da câmera, e as mensagens foram cobertas por retângulos cinzentos. Os títulos permaneceram.
— Conclua a avaliação de vínculo — disse Tomás. — Produza a mensagem com maior probabilidade de restabelecer contato entre Lia e Teresa. O sistema fará o envio pela conta de Lia.
— Sem ela saber.
— O resultado será informado.
Lia escreveu com força suficiente para rasgar parte da página.
Não autorize nada.
— Vocês escolheram Lia por causa da mãe dela.
— O conflito oferecia uma decisão relacional ativa — respondeu Tomás.
Minha irmã não é material de teste, Lia escreveu.
— Lia quer saber por que vocês escolheram sua família.
— A candidata apresentava experiência profissional adequada e uma situação relacional em aberto — disse Tomás. — O conflito possuía documentação verificável, contato interrompido e prazo externo para decisão.
— A mudança de Teresa.
— Sim.
— Vocês acompanharam Celina no hospital?
— Os dados foram obtidos depois da seleção.
— Isso inclui a carta?
— Inclui.
Lia escreveu antes que eu copiasse:
Eles sabiam o conteúdo antes de eu encontrar o envelope.
O projeto conhecia a frase de Celina sobre a raiva de Teresa e ainda preparara uma situação em que eu aconselharia a entrega. O dano deixava de ser apenas consequência possível. Era uma resposta observada diante de condições selecionadas.
— Vocês esperavam que eu recomendasse a carta.
— Era uma das decisões previstas — respondeu Tomás.
— O livro alternativo mostrava outra.
— As duas tinham valor experimental.
— Para vocês.
Copiei a frase para a parede com o lápis, embora soubesse que ela não permaneceria ali.
— Se eu recusar?
— O cenário será encerrado — disse Tomás.
— Quanto tempo?
— Até o próximo ciclo de seis e dez.
Na figura luminosa, o coração aumentou o ritmo. O sistema exibiu a reação diante do prazo. Tomás podia observar o medo que sua resposta produzia e ajustar a oferta.
— Retire o contador das minhas medidas.
— Ele faz parte do estado corporal — disse Tomás.
— Então registre que sei que estão usando o meu corpo para dar urgência à escolha.
Mina falou para alguém fora da câmera. O campo da frequência cardíaca ficou cinza, mas o pulso continuou dentro do peito.
Os relógios tinham sido aviso e limite desde a primeira manhã. O minuto imóvel marcava o ponto para o qual o mundo retornaria quando alguém fora dele decidisse terminar.
Mina tocou alguma coisa fora da tela. Uma nova porta apareceu na parede.
— Ellen, a avaliação tem duração curta. Você pode ler o material antes de escolher.
— Ler mensagens privadas melhora a previsão.
— Sim.
— E destrói a diferença entre o que Lia me contou e o que vocês retiraram dela.
Mina baixou os olhos.
— Eu defendi que a tarefa usasse apenas o conteúdo oferecido no livro — disse ela.
— E perdeu.
— Perdi.
— Mesmo assim abriu a porta.
— A alternativa imediata era o encerramento.
— Você também está escolhendo sob uma ameaça criada pelo projeto.
Mina olhou para a luz verde atrás dela. Pela primeira vez, o ritmo controlado desapareceu.
— Estou.
A resposta aproximava nossas posições sem igualá-las. Mina conhecia o laboratório, as regras e as pessoas que podiam encerrá-lo. Eu conhecia apenas a sala que ela decidiu mostrar.
A nova porta abriu para uma sala cheia de páginas. O arquivo privado de Lia esperava ali, organizado para mim. O livro de capa azul ficou mais pesado nas minhas mãos.
Na folha aberta, Lia escreveu:
Se você entrar, eu fecho o livro.
Tomás respondeu pela parede:
— Se ela fechar, o vínculo será considerado encerrado.
Ele está usando você para manter o livro aberto, escrevi.
E está usando você para me impedir de fechar.
Quer fechar agora?
A caneta azul tocou a página e recuou. Lia podia encerrar o canal, proteger o restante de seus dados e talvez antecipar meu desligamento. Manter o livro aberto preservava minha presença e permitia ao projeto continuar observando.
Quero que a escolha de fechar continue comigo, respondeu.
Tomás transformara o gesto de Lia em indicador de vínculo. Ela o recuperava como decisão própria, mesmo sem garantia sobre a consequência.
Olhei para a sala de páginas, para Mina na tela e para a caligrafia azul. O projeto havia preparado duas escolhas fáceis de medir: entrar ou perder o acesso.
Fechei os olhos.
Mantive Lia na atenção, dez batidas, e tornei a abri-los.
Na quinta batida, senti o camarim: o tecido dos figurinos, a borda da pia, o cheiro do sofá. Na oitava, a sala recuou e deixou apenas a página. Na décima, meus pés tocaram o mesmo piso branco.
Continuei no corredor branco.
O caminho de volta havia sido bloqueado.
A figura luminosa permanecia na quarta sala. O campo sem título, aquele que aumentara quando olhei para o livro, agora mostrava V-04.
E se você despertasse em um mundo idêntico ao real, mas sem uma única alma para compartilhar a existência? Ellen acorda sozinha em uma Terra espelhada, onde tudo permanece no lugar… exceto as pessoas. As luzes acendem, o pão repousa fresco sobre as bancadas, os livros guardam histórias que parecem conhecê-la. Nada envelhece. Nada morre. Tudo parece ter sido preparado para ela, e só para ela. Sem memórias, sem passado, sem promessas, ela caminha por cidades suspensas no tempo, ouvindo o silêncio que resta. Mas é quando encontra um caderno com uma única pergunta: “Quem é Ellen?”, que sua verdadeira jornada começa. Neste diário íntimo e deslumbrante, Ellen atravessa ruas, reflexos e abismos interiores, tentando compreender quem é quando não há ninguém para lhe dizer. Enquanto escreve, observa, sente e, lentamente, descobre que o mundo espelhado reage ao outro lado. E que talvez, em algum nível profundo, ela esteja ligada a alguém que ainda vive lá. Quem é Ellen? não é apenas uma história sobre identidade. É uma travessia solitária pelo silêncio do existir, uma ode à presença, e um lembrete de que até no vazio há beleza e sentido.
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