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Quem é Ellen?

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Quem é Ellen?

Capítulo 10 · Quem é Ellen?

A terceira pergunta

10 de 12 ≈ 13 min de leitura

Lia tentou apagar a frase.

A borracha passou sobre a terceira caligrafia. O grafite das minhas linhas clareou. A tinta azul perdeu parte da borda. As palavras desconhecidas permaneceram intactas.

Lia mudou de instrumento. Usou uma borracha vinílica, um pó de limpeza aplicado com algodão e uma lâmina sob aumento. A superfície da folha não soltou pigmento. A escrita parecia ocupar a fibra inteira, sem depósito visível sobre o papel.

Pare antes de danificar a página, escrevi.

Você consegue sentir o que faço?

Passei o dedo sobre as palavras. A região estava lisa no meu lado, mas cada raspagem de Lia chegava como uma vibração curta pelo livro.

Sinto a folha se mover. As letras não mudam.

Lia colocou um papel fino sobre a frase e tentou copiá-la por pressão. Quando levantou a folha, a pergunta apareceu também no papel novo. Ela o afastou do livro. As palavras sumiram. Ao aproximá-lo outra vez, retornaram.

A escrita depende da proximidade, anotou.

Ou o livro decide onde ela pode ser vista.

Por que escolheu retornar?

Escrevi abaixo:

Quem pergunta?

A página não respondeu.

Esperei cem batidas. Lia manteve a caneta acima do papel durante parte do intervalo. O mar avançou sob minhas botas e recuou. A pergunta continuou isolada entre nossas linhas.

Talvez espere uma resposta diferente, Lia escreveu.

De qual de nós?

Lia colocou um ponto de interrogação azul ao lado da frase. A terceira mão não reagiu.

Lia pressionou a caneta até deixar um ponto largo.

Você disse que havia alguém atrás do vidro.

Vi uma forma.

E livros com respostas que você não deu.

Sim.

Quantas?

Mais do que consegui contar. Algumas terminavam cedo. Outras estavam cobertas.

Havia uma em que você não voltava?

Procurei a lembrança do segundo livro. Vi páginas negras, respostas divergentes, silêncios prolongados. Nenhuma mostrava o momento da fuga por inteiro.

Havia versões em que nossa conversa terminava. O motivo estava escondido.

Então quem fez aquilo conhece nossas decisões ou produz hipóteses sobre elas.

Também conhece histórias que você contou depois de receber o livro.

Lia circulou depois. A cozinha com água no piso eliminava a possibilidade de um cenário preparado apenas antes do primeiro contato, salvo se alguém já possuísse acesso às memórias dela por outra fonte.

Isso significa que alguém preparou opções.

Ou registrou possibilidades.

Qual das duas explicações é melhor?

Nenhuma com as provas atuais.

Lia fechou o exemplar por um instante e abriu. A pergunta continuava na mesma posição. Virou a página. As palavras reapareceram no alto da folha seguinte.

Por que escolheu retornar?

O livro exigia uma resposta.

Voltei porque Lia é a única pessoa que confirma minha existência, escrevi.

A terceira mão acrescentou uma linha:

Acesso não equivale a vínculo.

Reconheci a construção das respostas que surgiam no meu conhecimento: frase curta, oposição conceitual, ausência de experiência concreta. Eu poderia ter formulado aquelas palavras antes de conhecer Lia.

Ela também me corrigiu, limitou e contrariou, respondi. Eu voltei para a pessoa que fez isso.

A página aqueceu sob minha mão. A terceira frase perdeu nitidez por alguns segundos e reapareceu com um código minúsculo depois do ponto: V-03.

O mesmo padrão do corredor, escrevi.

Vínculo três?

A minha primeira pergunta sobre existir recebeu V-02.

Então sua resposta alterou a classificação.

Eu observara Lia por meio de pausas, rasuras e objetos. Agora alguém aplicava números às minhas escolhas. O código não dizia o que eu sentia. Revelava apenas que uma decisão tinha sido esperada e registrada.

A escrita parou.

Lia desenhou um círculo azul ao redor da minha resposta. Depois escreveu:

Isso não apaga o apartamento.

Eu sei.

Também não apaga a carta.

Eu sei.

Então podemos investigar e continuar separando essas coisas.

Era uma oferta com bordas. Lia permitia a investigação sem transformar perdão em consequência automática do perigo.

Por que continua?, perguntei.

Porque alguém entrou na minha conta, estudou meu trabalho e colocou este livro diante de mim. Porque você encontrou salas com a minha infância dentro. E porque encerrar a investigação não apaga o que você fez nem protege nós duas de quem fez isso.

Você me incluiu em “nós duas”.

Incluí no risco. Não use a gramática para pedir mais do que escrevi.

Entendi.

Armazenou ou aprendeu?

Olhei a praia, o livro molhado nas bordas e o código recém-surgido. A pergunta recuperava uma conversa anterior, mas a resposta dependia do que eu faria depois.

Você vai descobrir.

Aceito.

Ela levou o livro ao laboratório. A página permaneceu aberta sob a lupa. Eu via o círculo de luz percorrer as fibras. Lia raspou uma área mínima da contracapa e colocou o fragmento sobre uma lâmina.

Antes do corte, fotografou a área, mediu a posição em relação à costura e retirou uma amostra menor que a ponta do lápis. Registrou cada etapa numa ficha sem mencionar o comportamento das páginas. No campo de identificação, escreveu apenas volume sem procedência, caixa 05.

Se alguém encontrar a ficha, liga o teste à doação, observei.

Quero deixar um rastro que não dependa do livro.

Ela guardou uma segunda amostra num envelope, lacrou e assinou sobre a dobra. O gesto criava uma prova que outra pessoa poderia examinar, embora a escrita entre nós continuasse invisível.

Há pontos escuros dentro do tecido, escreveu. Formam linhas regulares.

Tinta?

Material condutor. Pequeno demais para costura comum.

O termo encontrou dezenas de aplicações no meu conhecimento. Sensores, circuitos flexíveis, identificação, transmissão. Pela primeira vez, o livro admitia uma explicação física capaz de ligar dois lugares distantes. Ainda faltava explicar por que terceiros viam páginas vazias e como o volume atravessava comigo.

Lia colocou o fragmento sob outra luz. Pontos escuros responderam em sequência, acendendo e apagando da borda para o centro. O padrão repetiu cinco vezes.

Material passivo não pulsa sozinho, escrevi.

Pode reagir ao equipamento.

Ela desligou a luz. Os pontos repetiram a sequência no escuro.

Lia recuou da bancada. Pela vibração que chegou ao livro, a cadeira bateu no armário atrás dela.

Isso está ativo, escreveu.

E sabe que você retirou uma parte.

Na contracapa, exatamente onde ela cortara a amostra, os cinco traços reapareceram. Desta vez, a diagonal atravessava apenas três linhas. Lia fotografou antes que a marca completasse a quarta e a quinta.

Lia examinou a etiqueta da caixa. Sob ampliação, encontrou números impressos dentro dos cinco traços. Eles correspondiam a horários, todos iniciados em 06:10. O último bloco continha seu número funcional na biblioteca.

A marca identifica você, escrevi.

Identifica meu acesso ao laboratório.

Ela consultou o histórico interno. O registro da caixa fora criado com suas credenciais onze minutos antes de sua entrada no prédio. Naquele dia, Lia ainda estava no metrô. O sistema registrava sua passagem por uma catraca em outra estação.

O acesso usara a senha correta e passara pela verificação adicional do telefone. O aparelho de Lia não registrava solicitação naquele horário. A conexão vinha de um endereço interno reservado a equipamentos de preservação digital, numa sala cujo inventário indicava estar vazia havia três anos.

Você consegue entrar nessa sala?, perguntei.

Consigo pedir a chave.

Isso avisaria outras pessoas.

E ir sozinha repetiria o seu erro com outra justificativa.

Lia enviou uma mensagem à colega que ajudara com o cadastro. Escreveu que encontrara uma divergência de autenticação e queria verificar a sala no dia seguinte. Copiou o protocolo para um endereço pessoal. Cada passo criava testemunhas e limitava o que alguém poderia apagar em silêncio.

Alguém escolheu minha conta, ela escreveu.

Escolheu você.

A caneta produziu um risco involuntário.

Por causa do meu trabalho?

Você reconheceria alterações no papel. Guardaria o livro para análise. Outras pessoas poderiam descartá-lo.

E as caixas da minha mãe?

Quem preparou isto pode conhecer sua vida.

Lia fechou a gaveta da bancada com força. Objetos próximos vibraram. Eu estava no laboratório espelhado, sentada sobre uma mesa fora da circulação. Via a lupa mover-se, a espátula, o telefone e o livro. Lia continuava sem corpo.

O computador diante dela despertou. A tela, que normalmente exibia janelas vazias de pessoas, ficou branca. Cinco traços pretos apareceram no centro.

Uma linha de texto surgiu abaixo:

SESSÃO DE VÍNCULO ATIVA

Lia afastou a cadeira. O mesmo aviso apareceu na página do livro.

Você vê?, escrevi.

Vejo.

Outra linha entrou na tela:

RETORNO AO CENÁRIO AUTORIZADO

No canto inferior, um contador surgiu em 00:05:00 e começou a diminuir. O livro reproduziu os números. A terceira escrita dera lugar a caracteres regulares, idênticos aos códigos do corredor.

Cinco minutos para quê?, Lia escreveu.

Talvez para eu decidir.

Ou para fazer a decisão parecer urgente.

O contador transformava risco em prazo. Eu reconheci a mesma pressão que aplicara a Lia ao recomendar a entrega imediata: um intervalo curto, uma escolha apresentada como devolução de autonomia e uma consequência desconhecida se ela esperasse.

A palavra cenário alterou a pergunta sobre o meu mundo. Uma realidade paralela não precisava de autorização para receber alguém. Um cenário possuía limites, preparação e alguém fora dele.

Lia desligou o monitor da tomada. A mensagem permaneceu acesa.

Na página, a terceira mão escreveu:

Ellen, feche os olhos.

Não faça isso, Lia respondeu em azul.

Eu olhei para o laboratório. Todas as ações invisíveis haviam parado. Ventiladores, portas, papéis, elevadores. Pela primeira vez, o mundo inteiro parecia aguardar uma decisão minha.

Se eu ficar, podem encerrar o contato, escrevi.

Se for, pode não voltar.

Voltei pensando em você uma vez.

Uma vez não é uma regra.

Quer que eu fique?

Lia demorou enquanto o contador perdia onze segundos.

Quero que você escolha sabendo que eu prefiro que fique. Também quero saber quem fez isto. As duas coisas cabem na resposta.

Ela recusava esconder a preferência dentro de uma recomendação neutra. Eu podia contrariá-la sem fingir que o desejo não existia.

Se o livro fechar, procure a amostra e as fotografias, escrevi.

Se você voltar, escreva antes de explorar.

Escrevo.

Ela tinha razão. Também era a única direção que encontráramos.

Mantenha o livro aberto.

Ellen.

Dez batidas.

Fechei os olhos.

O cheiro de papel úmido desapareceu na quarta batida. Na oitava, o livro ficou mais pesado. Abri os olhos na décima.

Eu estava outra vez no corredor branco. A quarta porta, antes trancada, permanecia aberta.

Quem é Ellen?

Sinopse

E se você despertasse em um mundo idêntico ao real, mas sem uma única alma para compartilhar a existência? Ellen acorda sozinha em uma Terra espelhada, onde tudo permanece no lugar… exceto as pessoas. As luzes acendem, o pão repousa fresco sobre as bancadas, os livros guardam histórias que parecem conhecê-la. Nada envelhece. Nada morre. Tudo parece ter sido preparado para ela, e só para ela. Sem memórias, sem passado, sem promessas, ela caminha por cidades suspensas no tempo, ouvindo o silêncio que resta. Mas é quando encontra um caderno com uma única pergunta: “Quem é Ellen?”, que sua verdadeira jornada começa. Neste diário íntimo e deslumbrante, Ellen atravessa ruas, reflexos e abismos interiores, tentando compreender quem é quando não há ninguém para lhe dizer. Enquanto escreve, observa, sente e, lentamente, descobre que o mundo espelhado reage ao outro lado. E que talvez, em algum nível profundo, ela esteja ligada a alguém que ainda vive lá. Quem é Ellen? não é apenas uma história sobre identidade. É uma travessia solitária pelo silêncio do existir, uma ode à presença, e um lembrete de que até no vazio há beleza e sentido.

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