Universo da obra
Universo da obra
Lia voltou depois de dois períodos de luz e escuridão.
Abriu o livro numa bancada do laboratório e escreveu sem apresentação:
O doador não existe.
Eu estava num campo aberto, longe de edifícios e espaços privados. Mantive o lápis parado até ela concluir.
O campo ficava nos arredores de Lviv. Eu escolhera um ponto sem casas próximas, com capim alto e uma estrada visível ao longe. Durante a ausência de Lia, permaneci em espaços cuja condição pública eu conseguia verificar. A promessa não diminuíra a precisão do endereço que eu guardava. Dava apenas outra direção aos deslocamentos.
Quando a escrita surgiu, conferi primeiro a marca de cinco traços. Continuava no papel. As fibras cortadas refletiam a luz de modo diferente do grafite.
O cadastro da biblioteca atribuía a caixa a Ernesto Vale, residente num endereço do centro de São Paulo. O número pertencia a um edifício comercial sem moradia. Nenhum documento, telefone ou registro anterior confirmava o nome. A assinatura digital fora criada no mesmo dia da entrega.
A etiqueta tem um código abaixo da marca, Lia escreveu. U-05-EL-01.
Copiei os caracteres.
Isso identifica o transportador?
Nenhuma empresa usa esse formato. A caixa chegou com outras doações. As câmeras do recebimento ficaram fora do ar por dezenove minutos.
Você verificou sozinha?
Minha colega ajudou. Para ela, estamos procurando um erro de cadastro.
Você corre risco por investigar?
Ainda parece uma irregularidade interna. Se encontrar acesso criminoso, aviso a direção e a segurança da informação.
E vai contar sobre mim?
Ainda não.
Por quê?
Porque o livro fica vazio para outras pessoas e porque alguém usou minhas credenciais para colocá-lo na minha bancada. Quero saber quem controla a primeira versão da história antes de entregar a essa pessoa tudo que sabemos.
Lia aplicava ao laboratório a cautela que eu ignorara diante da carta. A diferença estava no tempo usado para descobrir qual pergunta precisava de resposta.
Se eu encontrar alguma coisa ligada ao código, descrevo antes de agir, escrevi.
Isso é uma promessa ou um procedimento?
Os dois.
Lia mantinha distância do restante. Não mencionou Teresa, a carta ou minha entrada no apartamento. Aceitei o limite e concentrei as perguntas na caixa.
Descreva a etiqueta inteira.
Ela informou dimensões, textura, posição dos rasgos e ordem dos elementos. Enquanto lia, formei uma imagem: papel térmico preso ao papelão, cinco traços no canto, nome falso, endereço, código. Meu conhecimento não encontrava correspondência para a sequência.
Fechei os olhos para organizar os detalhes.
O ar mudou.
Abri.
O campo havia desaparecido.
Eu estava num corredor branco, estreito e sem janelas. O piso emitia luz suficiente para eliminar sombras. Atrás de mim havia uma parede lisa. À frente, cinco portas sem maçaneta.
Não completara dez batidas. O deslocamento ocorreu entre fechar os olhos e perceber que Lia ainda escrevia. O código funcionara como destino, embora eu desconhecesse qualquer lugar associado a ele.
Toquei a parede atrás de mim. Estava fria e cedia um pouco sob o dedo. Quando retirei a mão, a depressão desapareceu. O piso não trazia emendas. A luz vinha da superfície inteira, sem lâmpada ou direção. Meu corpo projetava apenas uma faixa cinzenta sob as botas.
O ar tinha temperatura constante e quase nenhum cheiro. Inspirei perto das portas. A primeira carregava poeira e chuva; a segunda, tecido de teatro; a terceira, produto de limpeza usado na cozinha de Santos. A quarta não oferecia cheiro algum. A quinta lembrava papel recém-cortado.
O livro continuava aberto em minhas mãos. A tinta azul avançava.
Ellen?
Cheguei a algum lugar.
Você tentou o endereço?
Pensei na etiqueta.
Onde está?
Não sei.
Meu conhecimento não oferecia cidade, país, direção ou material preciso das paredes. Eu reconhecia resinas, cerâmicas, ligas e sistemas de iluminação. A superfície branca parecia assumir qualquer descrição e rejeitá-la logo depois.
Pela primeira vez, encontrei um objeto que não acionava uma resposta pronta. O vazio de informação produziu uma dor curta atrás dos olhos. Encostei a mão na testa e esperei passar.
O lugar bloqueia o que eu sei, escrevi.
Você está sentindo alguma coisa?
Frio nas mãos. Dor de cabeça. O resto parece estável.
Se piorar, interrompa a exploração.
Ainda não sabemos se consigo interromper.
A primeira porta abriu quando me aproximei.
Dentro havia uma praça em miniatura. Reconheci o banco onde acordara, a torre, o chafariz e a rua do carro. Pequenas peças se moviam sobre o modelo. Nenhuma representava pessoas. Um ponto escuro percorria a rota que eu fizera até o apartamento.
Na parede, uma faixa de papel registrava horários. Todos começavam em 06:10. Ao lado de cada linha apareciam palavras curtas: levantar, procurar, entrar, ingerir, persistir.
Havia números depois das palavras. Levantar recebia 00:00:41. Procurar, 00:03:12. Entrar, 00:07:09. A sequência acompanhava os minutos após meu despertar, usando seis e dez como origem. O registro ignorava carros, lojas, fome e medo. Reduzia o primeiro dia a verbos selecionados por outra pessoa.
Toquei o ponto escuro que representava meu caminho. A peça parou. Na rua em miniatura, um carro também imobilizou no instante anterior ao choque com meu cotovelo. Quando retirei o dedo, ambos retomaram o movimento.
A maquete responde ao meu toque.
Não toque mais.
Afastei a mão. O aviso chegou depois da ação, mas eu o cumpri.
Encontrei uma representação do meu primeiro dia, escrevi.
Saia daí.
Preciso entender.
Você entrou por um código ligado a quem colocou o livro na minha vida.
Por isso preciso entender.
Lia cobriu parte da página com a mão. A pressão sumiu quando ela desistiu de fechar o exemplar.
A segunda porta mostrava o teatro. A cadeira e o livro estavam no palco. Uma tira de papel reproduzia cada frase da nossa primeira conversa. Algumas linhas possuíam números na margem. Minha pergunta sobre existir na vida de Lia estava circulada.
Ao lado da frase havia uma classificação: V-02. As perguntas factuais recebiam V-00. A primeira vez que Lia contou algo sobre Teresa trazia V-01. O sistema separava nossas linhas por uma medida cujo nome desconhecíamos.
Eles classificaram a conversa, escrevi.
Pode ser vínculo, Lia respondeu. O código da caixa tem V?
U-05-EL-01. Aqui usam V.
Copie tudo que puder.
Registrei os códigos nas últimas páginas do livro, mantendo cada um ao lado da frase correspondente. Lia acompanhava no outro mundo. Agora investigávamos juntas, com ações visíveis para as duas.
A terceira sala continha a cozinha de Santos antes e depois da reforma. Entre as duas versões havia uma cadeira voltada para um vidro escuro. Cinco traços marcavam o encosto.
Na cozinha antiga, a água do vaso permanecia derramada sobre o piso. Panos ocupavam as mãos ausentes de uma menina. Na versão reformada, o balde branco escondia o T irregular. O lugar registrava tanto a lembrança contada por Lia quanto o detalhe que eu encontrara durante o primeiro deslocamento.
Eles já tinham a cozinha ou construíram depois que você descreveu?, perguntei.
A reforma está correta. A parte antiga também.
Podem ter usado fotografias.
A água no piso veio de uma história que contei depois de receber o livro.
Olhei a cena outra vez. O derramamento tinha entrado em nossa conversa no dia das caixas. O corredor já incorporara a lembrança. Ou a conhecia antes de Lia escrevê-la.
Toquei o vidro. A superfície devolveu meu reflexo. Atrás dele, por um instante, vi uma sala maior e uma forma sentada. Pisquei. Restou apenas meu rosto.
A forma usava algo claro sobre o tronco. Estava diante de uma mesa com três retângulos luminosos. Um deles mostrava o corredor de cima. Reconheci meu casaco escuro no centro da imagem.
Bati no vidro. Nenhum som retornou. A figura levantou um braço. Uma das telas apagou, e a cozinha antiga perdeu a cor. Bati outra vez. O vidro ficou branco.
Meu pulso acelerou. Contei as batidas e parei aos vinte porque o número não ajudava.
Há alguém me observando.
A caneta de Lia parou.
Você viu uma pessoa?
Uma forma atrás de um vidro. Sumiu quando pisquei.
Volte agora.
Fechei os olhos e formei o campo aberto. Dez batidas. Quando abri, continuava no corredor.
Tentei o camarim, a praça, a praia. Nenhum destino respondeu.
Na terceira tentativa, o corredor ficou incompleto durante um instante. A parede se abriu para um céu sem horizonte; metade do piso desapareceu e revelou uma grade de linhas verdes. Puxei o pé para trás. A superfície branca retornou antes que eu caísse.
O lugar falhou quando tentei sair, escrevi.
O que viu?
Descrevi a grade. Lia pediu que eu não repetisse o teste até encontrar outra saída. A palavra pediu importava. Ela não tentava comandar um corpo ao qual não tinha acesso; oferecia uma decisão diante de um risco que eu sentira.
Não consigo sair.
Lia escreveu três palavras, apagou e tentou outra vez.
Procure uma saída física.
A quarta porta estava travada. A quinta abriu para uma sala vazia, exceto por uma mesa e um livro de capa azul. Aproximei-me. O volume tinha o mesmo desgaste, a mesma costura e o mesmo lápis preso à lombada.
Abri na primeira página.
Quem é Ellen?
Na página seguinte havia duas respostas escritas com meu grafite.
Eu não sei.
Logo abaixo, outra versão:
Depende de quem pergunta.
Eu nunca escrevera a segunda frase.
As duas respostas tinham a pressão do meu lápis e a inclinação que minha mão adquirira depois do ferimento no indicador. Passei a ponta dos dedos sobre elas. A versão que eu conhecia deixava sulcos irregulares. A alternativa parecia igualmente usada.
Folheei o livro. Encontrei variações de nossas conversas. Em uma, eu escondia de Lia a visita ao apartamento. Em outra, entregava uma resposta diferente sobre a carta. Algumas páginas terminavam em linhas pretas. Outras continuavam por dezenas de folhas.
Encontrei uma conversa em que Lia perguntava se eu sentia falta de alguém. A resposta alternativa dizia: Sinto falta da pessoa que eu era antes de esquecer. Eu não escrevera aquilo porque não possuía evidência de uma vida anterior. Ainda assim, a frase provocou em mim uma saudade precisa durante um segundo. Fechei a página.
Outra versão registrava a carta. Nela, eu recomendava que Lia esperasse e entregasse o envelope durante uma conversa. Teresa aceitava recebê-lo. As páginas seguintes estavam cobertas por uma faixa preta. O livro mostrava uma decisão que parecia melhor e escondia a consequência.
Aqui eu dei outro conselho, escrevi. Não consigo saber se teria causado menos dano.
Isso foi escrito para você pensar que havia uma resposta certa, Lia respondeu.
Ou para medir qual delas eu escolheria.
O lugar guardava decisões que eu não havia tomado.
Há outro livro, escrevi. Ele contém versões das minhas respostas.
Versões futuras?
Alternativas.
Uma faixa vermelha acendeu no piso. As portas começaram a fechar em ordem, da primeira até a quinta. O livro alternativo perdeu as frases. A tinta recuou para o papel e desapareceu.
Segurei meu exemplar, pensei na primeira pessoa que havia escrito nele e fechei os olhos. Não formei endereço, sala ou cidade. Formei a pressão da caneta azul, a mancha de café e a frase Você existe nesta página.
Acrescentei a correção de Lia sobre autorização, a xícara amarelada e a palavra duvido. O destino deixou de ser o apartamento ou o laboratório. Era a sequência de marcas produzidas por uma pessoa que podia fechar o livro e escolher abri-lo outra vez.
O chão sumiu.
Abri os olhos sobre a praia. Caí de joelhos na areia molhada. O livro estava comigo. A água alcançou minhas botas.
Lia escreveu:
Você voltou?
Voltei pensando em você.
A resposta demorou.
Isso não deve acontecer outra vez.
Antes que eu escrevesse, uma terceira caligrafia surgiu entre as nossas linhas.
Por que escolheu retornar?
E se você despertasse em um mundo idêntico ao real, mas sem uma única alma para compartilhar a existência? Ellen acorda sozinha em uma Terra espelhada, onde tudo permanece no lugar… exceto as pessoas. As luzes acendem, o pão repousa fresco sobre as bancadas, os livros guardam histórias que parecem conhecê-la. Nada envelhece. Nada morre. Tudo parece ter sido preparado para ela, e só para ela. Sem memórias, sem passado, sem promessas, ela caminha por cidades suspensas no tempo, ouvindo o silêncio que resta. Mas é quando encontra um caderno com uma única pergunta: “Quem é Ellen?”, que sua verdadeira jornada começa. Neste diário íntimo e deslumbrante, Ellen atravessa ruas, reflexos e abismos interiores, tentando compreender quem é quando não há ninguém para lhe dizer. Enquanto escreve, observa, sente e, lentamente, descobre que o mundo espelhado reage ao outro lado. E que talvez, em algum nível profundo, ela esteja ligada a alguém que ainda vive lá. Quem é Ellen? não é apenas uma história sobre identidade. É uma travessia solitária pelo silêncio do existir, uma ode à presença, e um lembrete de que até no vazio há beleza e sentido.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.